segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quase o Twitter


Desde quarta-feira estou sozinho em casa. Lendo e escrevendo. Alimentando-me à base de talharim, verduras, frutas, e muito chá mate gelado batido com polpa de abacaxi. Estou na metade de À Sombra das Raparigas em Flor. Acordo às seis da manhã, meio inconformado de meu relógio interno ser tão condicionado e não saber que poderia me conceder mais horas de sono nesse período de férias; mas ponho-me a ler Proust. O Aguinaldo Medici, no blog dele, disse que das tantas vezes que enfrentou as 3.000 páginas, nenhuma delas o aborreceu; sempre achou um deleite genuíno em cada uma delas. Concordo com ele. Proust é uma delícia. Às vezes fico brincando com o raciocínio de qual a finalidade de Proust para as letras atuais. É concentrado demais. Mas aí me faço lembrar que existe uma prosa tão empenhada na observação vagarosa e na sintonia fina de uma alta inteligência quanto Proust. Existe um mercado frutífero para o divertimento erudito. Gente igual a Javier Marías. Um amigo me diz que no famoso livro que fala que a internet emburrece, há o relato de que um daqueles adolescentes bilionários que fundou uma empresa ciber-eletrônica no Vale do Silício afirma que ninguém precisa mais de Proust e Tolstói. Justo os dois autores que você está lendo, que coincidência, meu amigo diz, sorrindo e estatelando os olhos de alacridade. Ele também um grande leitor. Dei-lhe como paga por eu ter desaparecido com um livreto do Baudrillard que me emprestou, o Guerra e Paz traduzido pela ex-mulher de Saramago. Na mais estrita cordialidade ética entre amigos. Ele passou o vírus Recycler para meu HD externo e, em consequência, para meu notebook, e, na mais estrita cordialidade, levou esses maquinários sensíveis para um técnico especializado que é seu cunhado.

Ninguém precisa de Proust. Poderia escrever aqui um daqueles textões pretensamente bonitos, mas estou esgotado. Que o vermezinho cheio de espinhas vá para a puta que o pariu.

Outro assunto: minha irmã está namorando ou ficando ou tendo algum tipo de amizade muito específica com um violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Revelou-nos isso após seu aniversário nesse mês, em que chegou com um rapaz moreno muito boa praça, de barba e cabelos relativamente compridos, e o apresentou a minha mãe. Minha irmã me disse que ele ouve qualquer tipo de música, inclusive as porcarias que ela gosta: pagode, música sertaneja. Eu disse a ela para não se enganar, pois um violinista profissional da orquestra sinfônica jamais iria gostar dessas trolhas. Ele só estava conversando ela. Meus dois filhos estão um em cada casa de uma avó. Como a Júlia não pode se descolar da mãe, as duas estão na casa da minha mãe. Pois o violinista foi informado que a Júlia gosta muito de Bach, adora a sétima sinfonia de Beethoven e a sinfonia concertante de Mozart. Eles me ligam à meia noite de domingo para mostrar que a Júlia interrompeu seus incansáveis ensaios dos primeiros passos, para ouvir, embevecida, o violinista executar especialmente para ela a nona, Jesus Alegria dos Homens, as frases mais conhecidas da sétima, e o primeiro movimento da sinfonia concertante. Ouço o violino via celular, e imagino os grandes olhos da Júlia e sua boca aberta em estado de perplexidade. Meia hora depois me ligam avisando que a Júlia só dormiu quando seu músico particular lhe tocou aquela peça sinfônica que é tiro e queda: Meu Pintinho Amarelinho.

E quando minha irmã a estava levando a passear de carro, a Júlia faz uma gracinha histórica: tampa os ouvidos com as mãos, quando a tia liga o som do carro.

No hospital, para o exame de rotina com o pediatra, vendo os homens de branco que imediatamente lhe lembram as agulhadas das vacinas, a Júlia faz um escândalo de reverberar pelo prédio. Grita chamando sem parar: Miles, Miles, Miles. A mãe a leva para que o pediatra lhe pese, e ela não dá o braço a torcer, jogando o brinquedo que a enfermeira lhe deu no chão, e gritando, desesperada: MILES! MILES! MILES! Quando ela vê que a tortura passou e ela já está fora do hospital, a recepcionista diz para a Dani: mas como ela chamou pelo pai, coitadinha! A Dani não quis se dar ao trabalho de explicar que a Júlia já relacionou o pai à falta de socorro nessas ocasiões, e seu único recurso é chamar pelo cachorro da família. Imagino nosso imenso Rottweiler invadindo o prédio, derrubando enfermeiros, macas e mesas, rosnando para os seguranças em fuga, mordendo o doutor, e escapulindo com a Júlia levando-a firmemente segura com os dentes prendendo-lhe a frauda. Até que os encontramos, seguros e dormindo cada um do seu lado no fofo tapete da sala.

Pura imaginação e falta de assunto. Só uma grande vontade que chegue logo quarta-feira, quando todos estarão de volta.


domingo, 29 de janeiro de 2012

As Melhores Frases Finais


Geralmente, o que se procura são as frases iniciais, as célebres "todas as famílias felizes se parecem...", "de frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía...", "chamai-me Ismael", etc. Pois aqui proponho as frases de encerramento que mais me impactam na prosa (uso esse termo geral, pois na lista tem uma autobiografia). Vai por ordem de excelência:

1. _ Sim, pensou, entre a dor e o nada, escolherei a dor. (Palmeiras Selvagens, William Faulkner)

2. Quem sabe se, nas frequências mais baixas, eu não falo também por vocês? (Homem Invisível, Ralph Ellison)

3. Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. ( Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez)

4. Bem, admitamos.
   ...mas, dessa vez, nós queremos, uns aos outros, e, além disso, de boa paz, você está ouvindo, com amor e brandura, como a natureza nos criou...
    Que lindo sonho, disse a ratazana antes de sumir. (A Ratazana, Günter Grass) 

5. Naquele momento ele não tinha mensagens para ninguém. Nada. Nem uma palavra. (Herzog, Saul Bellow)

6. Agora eu já tinha bem mais de dezenove anos, arruinara meu pneumoperitônio e estava em vias de, de um momento para outro, precisar voltar para Grafenhof. Mas me recusei, nunca mais voltei. (Origem, Thomas Bernhard)

7. Momentos houve em que, cheio de pressentimentos e absorto na tua obra de "regente", viste brotar da morte e da luxúria carnal um sonho de amor. Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor? (A Montanha Mágica. Thomas Mann)

8. Vou beber um pouco de vinho; em seguida, como um Rip van Winkle moderno, vou me deitar sobre esta pedra talhada, encostar a cabeça debaixo destas letras, R I P, e fechar os olhos, seguindo o velho hábito de nossa família, de adormecer em momentos difíceis, com a esperança de despertar, renovado e feliz, num tempo melhor. (O Último Suspiro do Mouro, Salman Rushdie)

9. Já não quero pensar em coisa nenhuma. Nem em Deus? Não! Deus estará comigo. Por que haveria de pensar n´Ele? Deus acompanha os que não pensam. Pois bem, adeus, Instituto Benjamenta. (Jakob von Gunten, Robert Walser)

10. Naquela noite, Inni sonhou com os dois Taads. Um congelado, o outro afogado, ambos apareceram à janela do seu quarto, demonstrando uma alegria absurda e bárbara; abraçavam-se, soltando inaudíveis gritos de satisfação. Inni levantou-se, foi até a janela, além da qual avistava-se apenas o vaivém de galhos esqueléticos, cintilantes de gelo. Havia realmente dois mundos: um onde se encontravam os Taads, o outro de onde eles estavam ausentes; e, felizmente, Inni continuava no segundo. (Rituais, Cees Nooteboom)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

UN RICORDO DI GUERRA E PACE, Por Carlo Ginzburg

O historiador Carlo Ginzburg lembra de quando leu Guerra e Paz pela primeira vez e das terríveis dificuldades vividas por seu pai, autor do prefácio da edição italiana, diante da truculência nazista




Quando li pela primeira vez Guerra e Paz tinha onze ou doze anos. Com certeza, entendi pouquíssimo. Li porque soube pela minha mãe que a tradução havia sido revista pelo meu pai, que escrevera o prefácio. Meu pai, Leone Ginzburg, já tinha morrido em fevereiro de 1944 (eu tinha então cinco anos) numa seção da prisão romana de Regina Coeli, controlada pelos alemães; fora preso, três meses antes, por atividade antifascista. Soube que meu pai não pôde assinar o prefácio de Guerra e paz por ser judeu: as leis antissemitas, promulgadas pelo regime fascista em 1938, o proibiam. No final do prefácio havia um asterisco. Eu olhava aquele asterisco e sabia que ali fora colocado no lugar do nome do meu pai.
De Guerra e paz, na época, entendi pouquíssimo; mas retrospectivamente não me lamento daquela leitura por demais precoce. Penso que o encontro com a grandeza nunca é estéril, em qualquer idade que aconteça. Com o passar dos anos aprendi que a imaginação moral, nutrida pelos romances mesmo antes que pela vida, é um instrumento insubstituível. Reencontro as suas raízes naquela leitura infantil de Guerra e paz. A imagem confusa e grandiosa que deixou em mim volta a aflorar em cada leitura sucessiva (existiram muitas). Mas toda vez me parece estar lendo um romance diferente.

(Retirado do site da Cosacnaify)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Merriweather Post Pavilion _ Animal Collective


Um amigo me recomendou essa jóia ontem. Baixei-o, com aquela impressão, advinda depois dos adventos das leis de antipirataria com acrônimos engraçados que estão ora a transitar ora a serem adiadas para mais tarde nos EUA, de que seria uma das últimas aquisições que ainda poderia ter do universo virtual. Não estava muito afim de partir para outra audição que não o Shosta interpretado pelo Keith Jarret que embala minha leitura de Proust, mas hoje gravei o arquivo no pen-drive e pûs-me a ouví-lo, enquanto lavava o carro e a garagem. Êpa! Merece uma audição mais intimista! Uma mistura inusitada de Syd Barret e OMD, com uma eletrônica de fundo minimalista despida até o nível de redução mais simples possível, que acrescenta uma atmosfera comovente e surpreendetemente lírica. Nunca tinha ouvido falar dos caras, mas é uma descoberta valiosa. A banda: Animal Collective. O álbum: Merriweather Post Pavilion. Os americanos mais ingleses do universo pop atual: às vezes parecem o Supertramp.

Animal Collective


O Desabafo do Diabo (algo sobre Dostoiévski)

Este é um texto meu, um tanto ingênuo e escrito com exagero passional, mas do qual gosto. Trouxe-me alguma felicidade em seu rápido momento de escrita. E, afinal, se não for o próprio pai para ver com olhos amorosos o que os outros veem apenas como manha permissiva, o que seria da saúde espiritual dos filhos?



Como Borges disse, o conhecimento de Dostoievski é tão inesquecível quanto o primeiro beijo e a visão do mar. Os grandes escritores se tornam mais próximos quando temos o privilégio de os encontrarmos ainda bem cedo, no começo da adolescência, seja porque assim os amamos com a falta de reservas e a capacidade abnegada do amor que tem o inocente e despreparado aprendiz, seja porque eles acabam por nos oferecer uma paternidade diante a crueza, e uma comunhão na verdade de que o motivo real do mundo se compõe dos fatores que a paternidade que temos em casa tem por obrigação nos salvaguardar: a injustiça, a violência, as aflições, o medo, a dor, o desprezo, o abandono, a apequenização, a anulação, a morte, o descompromisso omissivo, a indiferença. Como os exercícios de piano que uma criança prodígio desenvolve até se tornar um ás da música, o grande escritor transforma o leitor numa réplica bastante proficiente de suas angústias; contamina aquele que ainda não o entende, por falta da idade adequada, com sua ótica exclusiva, inconformista, que mais parece prejudicar do que beneficiar, até que a pessoa se torna expert na desilusão e desafeto com a vida. O grande escritor deixa aquele anel escuro e fundo no leitor, que eu vejo todo dia circundando meus olhos, e confere uma nova forma de andar, mais desguarnecida e auto-vigiada, como se a nos dizer ao pé do ouvido: “não te aprumes tanto, afinal tu és igual aos outros, falível diante a oportunidade certa”. Nada que favoreça a espécie, portanto. Por isso que a literatura apareceu bem tarde na história humana, depois que conseguimos colocar a família, a agropecuária e a moradia fixa nas bases da existência_ e estas, à custa de muito sangue, como não deveria deixar de ser. Um precursor neandertal de Dostoievski, mesmo circunstancialmente entendível, teria sido uma ameaça a nossa espécie. No começo de nossas rodas em torno da fogueira, poderíamos pressentir, sem entender, com uma funda angústia, o grito da queda cortando o céu, mas ainda não poderíamos ouvir o desabafo do Diabo. A alta literatura não dá muita bola para Darwin e a lei do mais forte; a depender dela, o mais elogiável para nós é a extinção, e seu único constituinte benéfico é que a ministra aos poucos, terapeuticamente: a extinção de nossos orgulhos, de nossa pretensão de certeza, de nossos diplomas, da nossa centralidade no mundo, de nosso deus. (Deleitando-se sempre de nossa incapacidade em aprender com essa fugaz chance oferecida de recuperação.) Sua técnica é contrária a de algumas primitivas tribos africanas que deportavam para o asilo os velhos e os aleijados, para que as tribos inimigas não lhes atribuíssem fraqueza: apetece-lhe os velhos e os aleijões, principalmente os que levam as distorções na alma.

Aprendi com outro escritor_ o imenso Montaigne_ a escrever falando de mim, me colocando no meio do texto onde melhor pareça adequado. Por isso: conheci Dostoievski aos quinze anos, namorando as lombadas douradas do volume duplo de Crime e Castigo, que via na estante do quarto de um amigo de escola. O Q.I. deste amigo_ que ele gostava sempre de deixar mal escondido sob uma soberba mal disfarçada_ era altíssimo, provado na obtenção do premio máximo no programa Flávio Cavalcanti. Era ruivo, com uma voz que não passava da garganta e só saía como um sopro rouco; e sua inteligência lhe servia desde já a procurar a sobrevivência no academicismo ou na política, porque qualquer outra opção seria desastrosa. Eu tinha ganhado um prêmio de redação, num concurso do qual não sabia que participava_ uma comissão de corregedores interrompera a aula de biologia e, diante toda a turma, tentou de todos os artifícios para que eu confessasse que havia copiado o texto. Diante minha cara estupefata de quem não sabia se ficava elogiado ou se os mandava para a puta que os pariu, conformaram-se, e como o bobo da vez, voltei para as carteiras do fundo com uma medalha barata no pescoço. Daí esse amigo, que sempre me avaliava como um estúpido inofensivo, um dos protegidos por certo tempo pela misericórdia divina, se aproximou de mim, e me tuteou. Pedi-lhe emprestado os dois inacessíveis volumes de Crime e Castigo, e cabulei uma semana inteira de aula lendo-os numa biblioteca. Foi uma das semanas mais felizes da minha vida. Como um trabalhador que batia o ponto de manhazinha, me fechava na carteira mais reservada da biblioteca do campus universitário, e ia para a Rússia, sentia o frio, dividia a cama com aqueles miseráveis e ofendidos em seus quartos escuros e atulhados (ninguém descreve com tanto peso quartos escuros e atulhados, como Dostoievski), estive naquele apartamento nefasto e segurei a mão que golpeou a velha locatária, senti a umidade e o degredo da cela siberiana; apertei nas mãos, como se fosse uma tábua de náufrago, a bíblia me oferecida pela mulher por entre o arame farpado; saí para a liberdade tardia com aquela mesma nostalgia de que deixava algo de inexplicavelmente acolhedor para trás, junto àqueles seres de ninguém, àqueles homens que eram cada um menos que um, e fui tomado por uma felicidade conformada, terna e sobre-humana, na companhia da última mulher que me aceitava, ela também deformada e envelhecida por suas próprias dores intensas para me ver sem a máscara que o desespero havia me confeccionado.

Ao contrário do homem de Rousseau, o homem de Dostoievski morria bom, por ter desgastado todo o rancor e a maldade, mesmo sem tempo para se aperceber disto.

Eu já não queria me parecer com o Morten Harket. Olhava aquela foto do Dostoievski, que acabava de se recobrar de um ataque epiléptico, sentado de mãos cruzadas nos joelhos, e queria ficar eu também com aquele aristocrático ar de degradação, aquele ar de que o corpo já não lhe resistia à força do espírito, como se o espírito fosse mortalmente radioativo e a carne fosse se cancerizando por dentro diante tanta energia.

Passei a não usar o dinheiro para o lanche na escola, investindo nas edições de bolso da ediouro do mestre. Li em seguida “Notas do Subsolo”, e aquilo me deixou estarrecido. Aquele narrador tinha uma negrura apenas aparente: uma leitura atenta veria que era um buraco negro indevassável muito mais intenso, que, ou se auto-engolia até que ressurgisse no ralo criado de uma avessa existência, ou desaparecia soltando um imenso grito de não aceitação no vácuo. Um inaudível, de tão absolutamente estridente, berro contra o nada. Aquele narrador é tudo, menos niilista. Aquele narrador não se prestaria a se decretar ateu, mesmo que o fosse, por ter a lucidez do despropósito de um órfão ufanar-se de sua orfandade. Aquele narrador preferiria o suicídio, para aferir o limite de sua falta de sentido, sendo esta a sua única criação possível (a autodestruição), para zombar daquele deus inexistente, partindo para o nada mais cedo, como quem repudia a falta de delicadeza de não haver uma opção melhor. Sem esse narrador, Camus teria sido abortado no útero de sua mãe, e Kafka jamais teria o sangue resfriado até a linfa de um inseto.

Marshall Berman (em “Tudo que é sólido desmancha no ar”) explica a famosa cena de “Notas do Subsolo”, em que o narrador se impõe o confronto com um militar que mal se dá por sua presença, sendo ao narrador uma vitória apenas o sofrível não abaixar a cabeça ao passar ao lado deste homem imponente, seguro de si, cheio de infalibilidade e respeito_ Berman explica como o confronto silencioso e tenso entre o homem oitocentista (o militar) e o moderno (o narrador), contrapondo a certeza de valores que estufava de segurança o primeiro, com a perturbação, incertezas, e experiência com o horror da história, que atiraria o segundo no fundo buraco da desesperança.

Eu vejo essa batalha_ que só é uma batalha para o narrador, pois o militar está satisfeito demais consigo para sequer notar seu confrontador_, como uma batalha espiritual. O narrador é o homem_ ou antes, a entidade_, cuja miséria da existência o destituiu de qualquer galardão. Suas roupas estão em frangalhos, seus sapatos furados, deixando seus pés em contato com a lama do caminho. Se houve atrativos em sua figura, sua amargura transformou a juventude em rugas secas pelo rosto, em dentes devastados. Ninguém imaginaria que possui um intelecto potente, um conhecimento primoroso. É perigosamente demoníaco; sua atitude em não abaixar a cabeça é, porém, intimamente religiosa; refaz numa rua movimentada de Moscou a insuspeita encarnação do Louco de Deus; traz para o meio da multidão composta de famílias felizes, a sua invisibilidade de hastear a meio mastro a bandeira do Absurdo. Em algum momento infinitamente distante, a parte de seu espírito que anteriormente acreditava e ouvia _ a criança!_ aceitou com júbilo o preceito de deixar tudo para trás e seguir a Verdade. Só que_ como naqueles cortes cinematográficos súbitos_ já não acredita, já nem se lembra do menor fiapo de algodão do sonho. As palavras deixaram de ser sagradas, perderam a inicial maiúscula distintiva. As palavras, como sua voz, como seu olhar, estão em caixa baixa.

O narrador pretende manter a cabeça alta diante o conformismo cego e feliz, a explicação fácil e doce, ao determinismo, a diferença elitista entre o bem posicionado e o ninguém. Quando mantém a cabeça altiva diante essas certezas e boa digestão, que tanto reduziriam o homem no século que despontava, ele se faz merecedor de um deus, o único entre todos os condenados daquele domingo festivo que no efêmero instante antes do provável desaparecimento, alcançou a plenitude que o distinguia, tornou-se sobrenatural… mais: o único homem. O raivoso, soberbo, livre, indomável homem, que poderia comportar o primeiro instante da criação.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Música Sublime



Foi algo que pode-se dizer ter sido um milagre. Em 2005, o historiador Larry Appelbaum encontrou entre velhas fitas de acetato na Livraria do Congresso dos Estados Unidos, uma caixa de fitas com os seguintes dizeres escrito à mão na tampa: "Carnegie Hall Jazz 1957". Imaginem o assombro desse pesquisador quando colocou o conteúdo da caixa para tocar e descobriu, extasiado, ser o registro desconhecido de dois shows beneficentes, feitos no mesmo dia, de dois dos maiores nomes da música do século passado: ninguém menos que Thelonious Monk e John Coltrane, tocando juntos na brevíssima parceria que durou cerca de sete meses. O anúncio do tesouro caiu como uma bomba no meio musical. Especialistas confirmaram a autenticidade e a excelência do material, o som foi restaurado e digitalizado, e no mesmo ano a EMI lançou esse álbum maravilhoso, que foi imediatamente aclamado como clássico. A qualidade da gravação é de estarrecer de tão boa. E as 9 faixas, sendo apenas uma incompleta, estão entre os momentos mais iluminados dos dois gigantes. Lembro-me que foi minha primeira compra virtual. A felicidade condensada em 50 minutos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Começando a Ler Proust Hoje


Estava decidido a esperar a edição de Em Busca do Tempo Perdido da Companhia das Letras, a ser lançada esse ano, mas o período de abençoadas férias prolongadas me fez comprar o volume 1 da editora Globo. Li as primeiras 50 páginas, na elogiadíssima tradução de Mario Quintana, e de imediato vi a necessidade de me desatmosferizar das leituras de Tolstói com as quais estava ocupado desde novembro do ano passado. Como intervalo, li O Cemitério de Praga, o magnífico entretenimento em alto estilo de Umberto Eco (do qual pretendo escrever uma resenha). Proust me reativou a tecla de slow motion de profunda tensão poética da época em que eu devorava Faulkner, e o tempo de frio e chuvas intensas desse início de ano parecem justificar como um acerto eu ter esperado tanto tempo para me apresentar ao Grande Romance. O único empecilho que vejo na leitura, vem justamente da carga inamovível de consciência de tratar-se do Grande Romance, que a edição da Globo faz questão de não deixar o leitor esquecer em quase cada página do livro. Na capa, vem o anúncio de ser "uma nova edição, revista e acrescida de prefácio, resumo, notas, cronologia e posfácio", e esse encalhe de informações excessivas atende apenas à enorme vaidade acadêmica dos editores e não sei mais quem que se pendurou no nome de Proust. Deixe-me ver: ah, sim!, o culpado é um tal de Jeanne-Marie Gagnebin, que não faço a mínima ideia de quem seja, mas que enche as primeiras 50 páginas de notas de rodapé desnecessárias e, até mesmo, ridículas. Algumas desmerecem claramente a inteligência do leitor, ao explicar que a sequência de quartos descritos corresponde à sequência de quartos nos quais o narrador dormira durante a vida; ou que "o livro começa a alçar vôo com a mistura entre lembranças pessoais do narrador e uma série de frases que formulam o conteúdo comum de nossas experiências". E assim vai: além de obstruir o ritmo narrativo, o autor (ou autora, não vou ao Google) não tem o bom-senso de cogitar que quem se predispõe a ler Proust deve ter ao menos uma pequena proficiência no entendimento da leitura, ainda mais que Proust pode ser tudo, menos complicado: denso, mas longe das idiossincrasias de múltiplas interpretações de um James Joyce. Melhor seria se eu houvesse adquirido esse volume por preços módicos, sem capa e quase esfrangalhado, o que me apraz como cartão para a intimidade descompromissada com o autor. O recurso, do qual sou incapacitado, seria pular essas notas de rodapé, mas vamos em frente. Preparando um chocolate quente a voltando à viagem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Eugène Atget (1857-1927)

As fotos parisienses de Atget são as precursoras da fotografia surrealista, a vanguarda do único destacamento verdadeiramente expressivo que o Surrealismo conseguiu pôr em marcha. Foi o primeiro a desinfetar a atmosfera sufocante difundida pela fotografia convencional, especializada em retratos, durante a época da decadência. Ele saneia essa atmosfera, purifica-a: começa a libertar o objeto da sua aura, nisso consistindo o mérito mais inconstestável da moderna escola fotográfica. [...] Quase sempre Atget passou ao largo das "grandes vistas e dos lugares característicos", mas não negligenciou uma grande fila de fôrmas de sapateiro, nem os pátios de Paris, onde de manhã à noite se enfileiram carrinhos de mão, nem as mesas com os pratos sujos ainda não retirados, como existem aos milhares, na mesma hora, nem no bordel da rua...nº 5, algarismo que aparece, em grande formato, em quatro diferentes locais da fachada. Mas curisosamente quase todas essas imagens são vazias. Vazia a Porte  d´Arcueil nas fortificações, vazias as escolas faustosas, vazios os pátios, vazios os terraços dos cafés, vazia, como convém, a Place du Tertre. Esses locais não são solitários, e sim privados de toda atmosfera; nessas imagens, a cidade foi esvaziada, como uma casa que ainda não encontrou moradores. Nessas obras, a fotografia surrealista prepara uma saudável alienação do homem com relação a seu mundo ambiente. Ela liberta para o olhar politicamente educado o espaço em que toda intimidade cede lugar à iluminação dos pormenores. (Walter Benjamin, Pequena História da Fotografia, Magia e Técnica, Arte e Política, editora brasiliense, pp. 100, 101 e 102)






segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Nos Encontramos às Margens do Lago Ness, à Meia Noite


Dos cursos universitários que fiz, por mais vinculados à onda de malucos que são História e Jornalismo, os episódios tresloucados que se seguem são frutos de minha convivência com alguns alunos da planificada e sertanejamente sem graça Veterinária. Estudar veterinária num estado agropecuário como Goiás, e, em contrapartida, ser adepto às ideias livrescas, é algo bem próximo ao martírio. Todos os dias ver caminhonetas da moda chegando nos estacionamentos da escola, ver descendo delas personagens saídos de algum desvirtuado clipe de música country texana, com cintos de fivelas enormes onde se tem desenhado em alto relevo um cavaleiro em cima de seu alazão, sujeitos vestidos com camisas xadrez e chapéus de alguma marca top de linha (e sair por aí utilizando essa expressão tosca: top de linha), é o tipo de espetáculo que me fez várias vezes pensar, desconsolado, que estava perdendo cinco anos da minha vida, de modo muito inconsequente. Sem falar de meu espanto ingênuo em constatar que os cursos de Medicina Veterinária do país são nomeados de forma enganosa, pois pouco tem de Medicina e muito do prepotente conceito do novo latim acadêmico Agronegócio. Esses cursos, pois, deveriam se chamar Agronegócios Veterinários, para fazer justiça ao real objetivo dos que estão enroldados nesse curso, que pouco tem de medicina. Eu mesmo, com toda a minha propalada moral e amor aos animais, vivo de um emprego público em que se matam mil cabeças por dia, e eu sou um dos Agentes Ativos do Agronegócio que fiscalizam nas cabeças e nas vísceras, nos gânglios linfáticos e nos couros e cascos, dessa incomensurável quantidade de animais sacrificados, se há alguma imperfeição que impossibilite seu consumo.

Pois bem, mas o caso não é esse. O caso é que eu me isolava diplomaticamente do restante da turma, de tal modo que, ao almoçar junto de um de meus colegas, no restaurante universitário, e nos falarmos por quase uma hora, esse colega se vira para mim e pergunta qual curso eu fazia. "Ora, Milton, eu sou da sua turma de veterinária!", respondi. Eu era cabeludo, muito magro, os sintomas da timidez voltaram a insurgir em mim, apesar dos dois anos em que o jornalismo me exorcizara, e, como todo aficcionado, era visto sempre com um livro nas mãos, que nada tinha a ver com veterinária. Recordo que, certa vez, eu me deitara na rede emprestada por uma amiga que fazia artes plásticas, e me pûs a ler um romance de William Golding no intervalo do almoço, e varei a lê-lo sem me dar conta de ter começado a aula da tarde. E veio um amigo japonês, que era o primeiro da turma, me chamar para a aula, e quanto foi o seu espanto (quase próximo ao terror) ao não entender o título do livro que eu lia, que era "Visível Escuridão". Ele rodou o livro nas mãos como se fosse uma caixinha musical vinda de um sistema planetário distante, leu várias as vezes o título em voz alta, e me olhava como se visse o quanto havia sido tolo em ter, alguma vez, cogitado que eu seria mesmo um veterinário. Pelos cinco anos, ele sempre me olhava com aquele olhar estarrecido, de que jamais entenderia como eu perdia tempo em ler um...romance?!?!

Daí uma noite eu recebo um telefonema. Ah, aqueles tempos do telefone fixo! Era um colega de turma, do qual já falei aqui algumas vezes, e que tem o raríssimo nome de José. Ele foi logo de cara dizendo: "Você sabe de alguma coisa que eu devo saber! Quero que me conte o que é." E nisso ficamos por duas horas de ligação que me custou um puxão de orelha no final do mês, quando minha mãe viu a conta telefônica. Minha inconsciente imagem errática e reservada despertara no Zé a ideia de que eu era algo como um iluminati. Para disfarçar a magreza_ que era realmente excessiva_ eu sempre usava uns casaquinhos cinzas da Forum por sobre uma camiseta (aprendi isso com o Safatle), e penso que esse aspecto me dava um ar de flautista do terraço, ou alguém excêntrico que agradava ao Zé. (Na verdade o Zé via em mim tudo o que ele era, num exercício de deslocamento vaidoso; era alguém que, à diferença de mim, não conseguia sobreviver na solidão ensurdecedora do curso de veterinária; ele havia vindo de Cuiabá, deixara uma namorada que amava, a família, e era um relações públicas entusiástico demais para suportar morar e transitar pela cidade sozinho.) Quando ele soube que eu tinha a coleção completa dos álbuns do Jethro Tull, aí não deu outra: tornamo-nos unha e carne. Oficializamos a amizade em um final de semana de bebedeira homérica, em que eu levei um puta tombo na portaria de seu apartamento e, para driblar a vergonha por um casal de ar respeitado que saía do elevador e me olhava com recriminação, eu, esticado no chão, ergui as duas cartelas de ovos que levava e que estavam intactos com a queda, e disse a um Zé que não parava de rir: "Cumpra a nossa missão sem mim, Zé, leve os ovos ao seu destino". (E eu tento agora imaginar o que eu fazia com aqueles ovos, mas nada me vem.)

O Zé me apresentou ao movimento logosófilo. Ele era um adepto sincero, estudava livros e livros sobre o assunto. Sua namorada, Moema, era vinte anos mais velha que ele e, quando fui à casa dele em Cuiabá, vi que ela era uma espécie de sacerdotisa do grupo local do movimento. Graças a ele, descobri que em plena Goiânia, há uma pirâmide do tamanho de um prédio de três andares, localizada num terreno de pureza branca onde os rosacrucianos assistem palestras e cumprem seus rituais rotineiros. Descobri que além do Zé, haviam mais três outros sujeitos na nossa turma de veterinária que professavam uma fé descabida a um quarto aluno, de nome Alcemir. Esse Alcemir era uma grande piada, um mestre na mentira, um trapaceiro profissional, mas que só se deixavam se seduzir por sua conversa fiada aqueles que tinham alguma visível insegurança juvenil. Os outros três colegas e o Zé, por mais que fossem brilhantes e gente boa, se adequavam ao perfil de segregados que o próprio curso de veterinária criava. Viviam longe dos pais, estavam estudando o que não queriam, tinham uma série de ânsias de libertação e de conquistas, e o Alcemir catalizou isso com uma eficiência hipnótica. Eles sentiram a necessidade de me trazerem para o grupo, mas antes me estudaram, me faziam perguntas sobre a minha capacidade de guardar segredos de um novo estilo de vida, e coisa e tal. Eu respondia sempre que não curtia a onda homossexual, mas tinha suficiente respeito para conviver com amigos diferentes, desde que não me cantassem. Eles simulavam rir, mas percebia uma tensão em se olharem que parecia dizer: "Esse aí talvez não se adeque, seria melhor desistirmos dele". Mas, quando menos percebi, estava saíndo com a turma. Nossas reuniões eram sempre às 3 da manhã, em locais extravagantes. Uma delas, pulamos as grades do zoológico, e nos reunimos no pátio ao lado do poço das lontras. Um guarda se aproximava, e o Alcemir pedia-nos licença, se levantava e falava alguma palavras cordatas para o vigia, que daí tornava a andar e nos deixava em paz. Uma coisa era certa, o Alcemir era um gentleman, falava compassado, sua voz era musical, andava com a ginga mansa dos Hare Krishnas, e sempre emanava uma assepcia e higiene impecáveis. Conquistara uma das alunas mais ricas da nossa turma, que também estava longe de casa e morava com duas outras amigas, e essa moça, Letícia, fazia o que ele queria. Mas ela só participava das reuniões diurnas dos fins de semana. Outras vezes nos reuníamos em campos de fazendas nas intermediações da cidade, em matas fechadas, num porão da biblioteca da praça universitária.

Entre os ensinamentos do Alcemir, o seu predileto era o desdobramento da consciência. O sujeito tinha que se deitar em um quarto, solitário, com uma meia luz suave, estar em absoluto conforto, com o estômago vazio, e vestido com roupas leves. Daí o sujeito sentia todas as parte do corpo, apuradamente, até que essa lucidez o permitisse sentir o corpo entrando no sono, formigando. O torpor tinha que ser severamente controlado para não afetar a consciênca, senão tudo estaria perdido. Daí, nessas prévias que podiam durar uma hora, o sujeito sentia-se saindo do corpo até boiar próximo ao teto; o sujeito virava-se para baixo e veria o seu corpo repousado da forma que o deixou, e um translúcido cordão umbilical azul ligando-o da testa de sua consciência à testa do corpo. Alcemir alertava: "Cuidem bem desse cordão, para que ele não se rompa; alguns se rompem e a consciência jamais retorna ao seu corpo". Todos treinavam em casa. Eu conseguia chegar até a fase do formigamento, e uma coceira no nariz que sempre aparecia nessas horas me fazia sair do torpor. O Zé me relatou numa manhã, eufórico, que conseguiu voar numa velocidade incrível por sobre a chapada matogrossense, e se viu num quarto de uma moça que também havia saído do corpo e com quem conversou sobre tudo. Alcemir dizia que todos saem do corpo à noite, quando sonham, e os exercícios não eram para tornar o que a própria natureza capacitava, mas para condicionar-se lembrar dos eventos. Numa das últimas reuniões em que participei, ele se virou para mim e perguntou: "Qual o lugar do mundo que você mais gostaria de conhecer?"; eu respondi: "Loch Ness". Ele se voltou a todos os outros e disse: "Amanhã, todos nós, nos encontraremos às margens do Lago Ness, à meia noite".

Eu em esforcei, mas, infelizmente, não pude cumprir o compromisso. Por incrível que pareça, ninguém mencionou o fato nos outros encontros. Alcemir tinha um carinho por minha intelectualidade, gostava de falar sobre livros, quando estávamos reunidos em torno de uma fogueira no sítio do Daniel, um dos nossos amigos, tomando vinho quente (argh! Horrível!). Daniel era seu seguidor mais fiel, e Daniel me dizia que Alcemir havia lido de tudo, pois só bastava posicionar uma mão por sobre o livro e o conteúdo na íntegra se lhe transmitia por osmose mental. Daí eu disse a Daniel que na próxima reunião eu iria perguntar ao Alcemir se ele havia lido Os Acrobatas de Jericó, do grande autor polonês detentor do Nobel, Ocirej Sataborca; e o monumental volume triplo de memórias, As Cinzas de Opel, do escritor judeu asquenaze Lepo Ed Saznicsa. Eu faria o Alcemir tanto dizer que havia-os lido, como discorreríamos sobre as grandes verdades espirituais contidas nesses dois livros, que nunca existiram, que haviam sido inventados por mim naquele momento, e que o nome dos autores eram facilmente desmascarados como um jogo de palavras dos mais fajutos. Dito e feito: quando andávamos por um campo, à noite, lanço as perguntas sobre os célebres pensadores, e Alcemir diz conhecer a obra completa, mas que, pelo menos no caso de Saznicsa, o acha mutilado, um tanto quanto provinciano em sua visão de mundo. Na última reunião em que eu fui aceito no grupo, após Daniel revelar a ardilosidade ao mestre, Alcemir me coloca sentado isolado do grupo, num evidente julgamento, e me lança uma série de acusações sobre minha alma depravada, folgazã, meu espírito de burguês irredimível, e me tasca uma expressão feliz que sempre julguei ser o seu maior achado: eu tinha uma patológica maleabilidade moral.

Um ano depois, a Letícia e o Alcemir sumiram por três meses do curso de veterinária. As colegas não a achavam em casa (Alcemir passou a morar com ela, fazendo as outras amigas que dividiam a moradia abandonarem o apartamento). Corria o boato de que os pais da Letícia haviam descoberto o relacionamento através do aborto que Alcemir impôs à Letícia. Depois, a Letícia apareceu, abatida, com profundas orelhas, muito magra, mas o Alcemir nunca foi visto novamente. Desapareceu por completo, deixando dívidas e um grupo de seguidores que já há alguns meses se distanciavam dele por alguma espécie de enfado tardio. O Zé abandonou o curso, voltando para cuidar da empresa de turismo do pai, que ameaçava cair na bancarrota, em Cuiabá. E eu, arranjei uma namorada doce, fraterna, a qual estava escrito que iria abandonar após três anos de namoro por uma outra que não era nem a terça parte de conforto que ela representava, mas que tinha os movimentos certos das longas pernas morenas.

E me lembrei disso tudo porque, justamente ontem, à meia noite, estava na General Wade´s Military Road, de frente ao Lago Ness, no Google Maps, e brinquei com o acaso de que talvez o que me motivou do nada a procurar aquele endereço fosse um derradeiro contato telepático de um Alcemir que também estivesse de frente ao computador, vendo a mesma coisa, quase vinte anos depois.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ducarajo


Lembro que conheci a música deles na época do lançamento de Crash, acho que em 96, ou 97. Estava numa semana cultural na universidade, quando vi dois dançarinos coreografando um número que me encheu os olhos de lágrimas e me deixou impressionado com aquelas cenas que jamais esquecerei. Tratava de uma história de um arlequim que, ganhando vida através de uns pós mágicos que o titereiro deixa cair por engano quando tranca o depósito de marionetes, começa a dançar, a testar seus movimentos, a saltar cabriolas de felicidade por estar vivo, e que, ao se depararar com uma boneca bailarina em um suporte, se apaixona perdidamente por ela. A música que tocava parecia ter sido feita para aquela coreografia, era mágica, linda, atmosférica, de uma doçura trágica que destroçava o coração do público, que tomava as dores encenadas por aquele soberbo dançarino. Daí, o arlequim descobre o pó, lança-o sobre a boneca, que ganha a vida e, assim como ele, após estudar seus movimentos, dança esplendidamente. Só que o efeito do pó passa e o arlequim cai flácido no chão, e a boneca fica desconsolada, para, depois, sucumbir também à flacidez. Procurei a música, e era a "Two Step". Comprei o "Crash", e até hoje, quando escuto "Two Step", vejo a coreografia com nitidez. Nunca mais achei os dançarinos, por mais que os procurei, e nunca soube dessa dança pela net.

Two Step (Matthews)

Say, my love, I came to you with best intentions
You laid down and gave to me just what I'm seeking
Love, you drive me to distraction
Hey my love do you believe that we might last a thousand years
Or more if not for this,
our flesh and blood
It ties you and me right up
Tie me down

Celebrate we will
Because life is short but sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
These things we cannot change

Hey, my love, you came to me like wine comes to this mouth
Grown tired of water all the time
You quench my heart and you quench my mind

Celebrate we will
Because life is short but
sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
The things we cannot
Celebrate, you and me, climbing two by two, to be sure
these days continue, things we cannot change

Oh, my love I came to you
with best intentions
You laid down and gave to me
just what I'm seeking

Celebrate we will
Because life is short
but sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
Things we cannot change...
Things we cannot change


Get Intimate With Communism History

Infelizmente, manifestações de humor de boa qualidade por parte da esquerda (principalmente da dita esquerda brasileira) são ocasiões raríssimas. A quantidade de ícones sagrados a serem cultuados é grande para que se possa aventar desanuviar por um breve momento a carranca. É indistinguível para a esquerda a linha divisória entre a chacota e a adstringência fina. Por isso é louvável ver que o Museu do Comunismo, em Praga, desde 2008, vem promovendo uma campanha de aproximação do público com a história do comunismo através de uma série de imagens em que coloca figuras distintas do movimento em situações comezinhas (algumas picantes), e brinca com situações regimentais que até há alguns anos acreditava-se serem impermeáveis ao riso. Seguem abaixo.








"Remember 1969?" é ótimo!




Claro que aqui, tripudiar com um dos santos nacionais só pode ser coisa de uma direita psicopata e suja.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Paradoxo Claptoniano


Eric Clapton é um dos grandes azarados do rock. Por ser um dos maiores nomes do rock, esse azar fica proporcionalmente potencializado. Clapton nunca foi um sucesso real de vendas, não a nível do que merecia, como os Stones ou George Harrison, e a crítica sempre o tratou ou como alguém que só se fazia excelente na companhia de outros, ou com total indiferença.

Essa divergência entre seu valor genuíno e a falta de reconhecimento à altura pode muito bem se enquadrar no jargão acadêmico mais batido: Clapton é um paradoxo. Fez parte de uma das mais influentes bandas de todos os tempos, o Cream, mas que, desafortunadamente, e sabe-se lá por qual motivo, nunca foi aceito no cânone das bandas do British Invasion que viraram de ponta cabeça o mercado fonográfico norte-americano na década de 60. E, como primeira insurgência da sina de acesso pelas portas dos fundos de Clapton, a imprensa o cultuava como um deus da guitarra mas levantava sérias suspeitas se sua proficiência se manteria longe do talento dos parceiros Ginger Baker e Jack Bruce. E Clapton sempre se pressionava a provar para todos e a si mesmo que era um nome representativo e independente, o que o motivou a fundar, após o fim do Cream em 1969, outras duas das maiores (e mais efêmeras) bandas da história da música: a magnífica parceria com Steve Winwood no Bilnd Faith (que rendeu uma das mais comoventes canções, Can´t Find My Way Home), e a emblemática e monumental Derek and The Dominos.

O Blind Faith era um experimento pioneiro na área dos supergrupos (fundados por estrelas já consagradas que tinham o objetivo de fazer gracinhas de virtuoses), daí que não durou mais que o fôlego projetado de vida em um só álbum. Mas o Derek and The Dominos foi um caso sintomático e curioso à parte. Enquanto outros fenômenos musicais da época faziam questão de se mostrarem como dissolutos primatas do sexo, Clapton provou mais uma vez o seu karma de azarado em se apaixonar, romanticamente, pela mulher de George Harrison, Patti Harrison. Até aí tudo bem, mas acontece que ele inventou de fazer uma grande declaração de amor velada criando um outro grupo em que não se identificava como Clapton, mas com o pseudônimo de Derek. Claro que haviam as fotos e a referência ao verdadeiro artista no interior do álbum, mas esse mascaramento impediu que a maior parte do público soubesse de quem se tratava e o disco resultou em um enorme fracasso de vendas e em uma indiferença quase total por parte da crítica. Mesmo assim, para ampliar o paradoxo claptoniano, o álbum Layla and Other Assorted Love Songs é um (me desculpem de novo, mas fazer o quê?) dos dez melhores álbuns de todos os tempos, com uma série de músicas excepcionais, como Bell Botom Blues, Tell the Truth, Layla, Keep on Growing, sendo um mix de composições sólidas, com releituras bombásitcas (como Little Wing, homenagem a Hendrix, que morrera duas semanas antes da gravação), e jams monumentais, como Key to The Highway, tocadas com a leveza suprema do encontro descompromissado entre gênios (desculpem, novamente, a babação, mas é que é a pura verdade!). Mas o paradoxo apontou suas mãozinhas mais uma vez na vida de nosso herói Eric Clapton, pois logo após o lançamento do disco e o começo da turnê de shows, Duane Allman, o célebre primeiro guitarrista da The Allman Brothers Band, convidado de Clapton para compor os The Dominos, morre em um acidente de moto. (Cerca de dez anos depois, o baterista do The Dominos, Jim Gordon, como se não bastasse, sofre um surto psicótico e mata a própria mãe.)

Como disse, esse disco teve vendas pífias, e nenhuma atenção da crítica _ o que foi um dos maiores crimes e burrices da Universal, que não o divulgou_, lançando Clapton numa paranóia depressiva e no vício em cocaína que, praticamente, o levou ao ostracismo na década de 1970. Um detalhe ainda: antes do Derek, Clapton saiu em turnê com a dupla californiana Delaney & Bonnie, resultando em outro marco do paradoxo, esse fantástico albúm aí embaixo:


Um dos (mais uma vez, atenção! Preparados?) melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, mas com um adendo inconveniente: o áudio deixa muito a desejar.

Clapton perderia um filho de forma trágica, purgaria um inferno para se livrar das drogas, mas retornaria no final da década de 80 e por toda a década de 90 com uma revigorada coleção de ótimos discos, como Jorneyman, Unpluged, From the Cradle, e uma série de acompanhamentos históricos como Riding with the King, com B.B. King. O público e a crítica já tinham feito a mea culpa quanto ao Derek and The Dominos, alçando-o ao cânone e nas listas de vendas. Pode-se dizer que a maturidade foi muito boa para Clapton, mas não o processo de maturação.

Kafka, Benjamin, Tolstói, João do Rio, Coca-Cola Zero, e 855 Milhões em Dez Anos

Acabo de ler um dos melhores ensaios sobre Kafka, o Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte, escrito por Walter Benjamin. Nele, uma peça magnífica cujo único similar que conheço é uma análise das cartas de Kafka a Felice produzida por Elias Canetti, Benjamin estuda as duas interpretações mais correntes sobre a obra do autor de O Castelo: a familiar e a teológica. Alcançando o melhor que há nessas duas vertentes, Benjamin conclui que o principal personagem em Kafka é o esquecimento. Através de muitos excertos de contos e dos três romances, Benjamin esclarece que Kafka bebia do Talmude, das primitivas fábulas judáicas, dos contos chineses sobre Confúcio, de tal modo que era um caso inédito de filósofo que descartava a filosofia em favor das fábulas, e era um fabulista que descartava a imagética dos animais falantes infantis para ser, involuntariamente, o sucessor direto de Kierkegaard e Pascal. Numa conversa com seu amigo Max Brod, Kafka aventa a possibilidade de existirem várias outras realidades dimensionais acima da nossa, onde os seres ali viventes são passiveis de maior esclarecimento e, por isso, mais felizes, numa antecipação prodigiosa da Teoria das Cordas. Brod, fascinado com essa visão, pergunta ao amigo: "Existiria então esperança, fora desse mundo de aparências que conhecemos?" Ao que Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita _  mas não para nós."

Nesse diálogo, na visão lúcida de Benjamin, se esconde toda a tese de Kafka sobre o esquecimento, sua concepção religiosa da deposição dos fardos dessa vida, de que tudo é inútil, toda preocupação e toda luta é vã. E, contrariando a superficialidade das primeiras impressões, isso constitui-se no mais puro otimismo kafkiano. Na mesma linha vai o texto que a professora Rachel Nunes postou em seu blog hoje, uma crônica de João do Rio em que um mendigo professa a teoria kafkiana da eterna inutilidade. E com isso, Benjamin corrobora com as teses de Tolstói de que só existe arte quando nela existe o elemento moral, mesmo que intrinsecamente subjacente. Há moral mais fina que nos microcontos de Kafka, em que Bucéfalo abandona seu dono, Napoleão, e senta-se numa paisagem tranquila, à sombra de uma árvore, a ler antigos livros sobre batalhas? Ou o conto aforístico do índio, em que Kafka diz que gostaria de ser um índio rumando velozmente sobre um cavalo em direção ao horizonte, e que, progressivamente, lhe sumiam debaixo as celas, os arreios e, por fim, o cavalo? E não é uma curiosa intersecção desses dois autores ambos verem que na origem da escrita descança a necessidade sagrada do resgate de um deus? Mas entre o moralismo de Kafka e o de Tolstói interrompe-se uma encruzilhada. Tolstói, mesmo absolutamente descrédulo, ainda se esforçava por apostar na mudança deste mundo. Quem tem razão?

Vejo nas manchetes de ontem que o Brasil, finalmente, proibiu a comercialização da Coca-Cola Zero, após anos em que esse e mais outros seis refrigerantes da Coca-Cola Company (também recém proibidos no país) eram comercializados livremente, apesar de ser notório que em muitos países da Europa tais produtos são proibidos já faz tempo, e que os mesmos produtos só são liberados no Canadá e nos EUA por terem uma fórmula diferente da empregada aqui. No Canadá e nos EUA não são usados o ciclamato de sódio, comprovadoramente cancerígena por vários estudos científicos, e o benzeno, que é um dos elementos da fumaça dos cigarros e dos carros ("Ele é usado na fabricação de produtos como detergente, borracha sintética e nylon, e está relacionado ao aparecimento de leucemia e linfoma", diz o jornal virtual A Região). Recordo que em 2009 a Venezuela barrou esses refrigerantes em seu território, alegando causar danos à saúde, o que desencadeou comentários da revista Veja de que se tratava de uma barreira ideológica. Esses dois ingredientes só são usados aqui por serem três vezes mais baratos que seus substitutos legais canadenses e estadunidenses, e serem aceitos sem reservas por nós dos trópicos sermos ignorantes e despreocupados quanto a esses assuntos. "Mas nos paises pobres e em desenvolvimento a Coca-cola Company prefere aumentar seus lucros a preservar a saúde dos clientes", diz o mesmo jornal.


Também hoje, no jornal da Globo da manhã, noticiou-se que 3.426 servidores do Judiciário e magistrados movimentaram, de forma suspeita, cerca de 855 milhões de reais de 2000 a 2010. Com tais informações, vamos dar uma olhadinha no tópicos mais comentados da revista de maior difusão do país:

Comportamento: beber cerveja todo dia faz bem à saúde.
Reality Show: conheça, um a um, todos os participantes do BBB12
Televisão: BBB12 começa com histeria, incitação ao sexo, e campanha contra evangélica
Automóvel: o Fusca, agora em versão elétrica
Afeganistão: soldados que urinaram em corpos deverão se explicar
Gente: corre bem o transplante de Reynaldo Gianecchini
Crime: Bruno treina para voltar ao Flamengo, diz advogado
Cultura: similar a sigla de droga, título de novo disco de Madonna rende marketing muito antes do lançamento
Neurociência: internet pode afetar o cérebro assim como álcool e cocaína
Televisão: BBB12: ex-namorado de Renata se diverte com assédio a estudante.



Há salvação?

"Sancho Pança, que aliás nunca se vangloriou disso, conseguiu no decorrer dos anos afastar de si o seu demônio, que ele mais tarde chamou de Dom Quixote, fornecendo-lhe, para ler de noite e de madrugada, inúmeros romances de cavalaria e de aventura. Em consequência, esse demônio foi levado a praticar as proezas mais delirantes, mas que não faziam mal a ninguém, por falta do seu objeto predeterminado, que deveria ter sido o próprio Sancho Pança. Sancho Pança, um homem livre, seguia Dom Quixote em suas cruzadas com paciência, talvez por um certo sentimento de responsabilidade, daí derivando até o fim de sua vida um grande e útil entretenimento." (Franz Kafka)

P.S.: Ontem, um blogueiro pelo qual eu tenho um grande apreço e amor pelas suas resenhas, escreveu em seu recente texto que completava 600 livros resenhados, e completava: "é inevitável, mas o Alzheimer vai ter que trabalhar duro para apagar as boas lembranças da leitura destes 600 livros."

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Brega

Uma explicação feita por uma revista semanal para o programa mais popular da tv atualmente é a de que ele atingiu todo esse sucesso por ser brega. O brega não é mal, cocluiu a revista, com um falso ar de quem registra o estoicismo condecendente de uma faixa de leitores sofisticados ao exterior empobrecimento geral. Mas o fato é que o conceito de brega foi um dos primeiros a sofrer perdão dos olhos astutamente interesseiros dos que trabalham com a opinião pública, os jornais, os programas de televisão que são baluartes do bom gosto da classe média, e a futura mídia virtual que se dividiria entre o prisma majoritário dos que seguem a tendência e os gatos pingados que exercitam a dissidência. Oriundo de um linguajar que guetizava a imigração nordestina e a conjurava em um grupo de pequenos e curiosos animais cheios de idiossincrasias cômicas, o termo "brega" delimitava um traçado determinista para tudo aquilo que se relacionava, com ingenuidade promíscua, ao passado feudal brasileiro, cujos movimentos revoluteantes despejaram os elementos desse grupo para a sobrevida nas grandes cidades brasileiras. Na superfície eram as miçangas, os rebolados da cintura dos que preteriam o intelecto à sensualidade dos ritmos sexuais, as roupas coloridas de retalhos improvisados, a paixão pelas palavras musicadas em melosidades dos contos de amor de boteco; na profundidade, o brega assinalava abaixo da suavização eufemística a indiferença dura e simples da eugenia que os povos desenvolvidos do sudeste e sul do país se serviam para controlar o limite da inserção. Brega era o que não seria, em hipótese alguma, inserido. O humor em mão única, que por isso pouco tinha de humor a não ser um ácido desprezo ao serviçal inferior, impunha o alfinete que setoriava em seu local facilmente vigiado o outro de cores excêntricas, afincado no quadro das amplas espécies sociais. Apenas que quem os monitora situava-se de fora da catalogação, como dono plenipotente de tudo que era verdadeiro no cotidiano superior daquele que, na puritana América do Norte, invejavelmente já tinha a tranquila segurança de se auto-denominar W.A.S.P. Mas esses agentes ultra-lúcidos das possibilidades do lucro da imagem, posicionados no centro dos acontecimentos e responsáveis pelo feedback da opinião pública, viram a enorme fonte de ganhos que advinha da expansão do conceito. Sua genialidade só não foi maior por perceberem, primeiro que todos, que a expansão seria um fenômeno inevitável. Permanecendo imóveis por sobre seus barcos cujas velas conduziam-os ao sabor da maré e do vento, chegaram sem esforço às ilhas paradisíacas do poder e do dinheiro infinito. Já tinham toda a composição genética da efetiva adaptação para se incluirem na extática babélia de cores e sons, para se deixarem incomodar que ao lado dos coqueiros e da praia de mar azul translúcido haveria o lixo acumulativo e ensurdecedor que o conceito expandido regurgitaria. Brega ascendeu-se de uma extração espiritual limitada a uma restrita fantamasgoria regionalista e tomou para si todos os pecados do mau gosto e da bestialidade com que o homem branco sentia não ser erradicável em si. O brega mapeou as tendências da cultura e fez da multitude inevitável acentuada pelos novos meios de comunicação democráticos a sua bênção expurgatória do nojo, e suas peças tornaram-se avantajadoramente cult e elegantes. Daí a razão do sucesso histórico do reality show, dai as vênias educadas e simpáticas da revista semanal. O brega serviu na longa história do mutismo para abortar todo o discurso que subjaz à inflamada derme das diferenças sociais do país, cambeando a moda global, dando a impressão aurífera de que o patrão compactua com a arte apreciada pela empregada doméstica, de que o branco perdoa a leviandade lasciva do mestiço trazendo sua jinga aos grandes salões, que, a dona de casa da alta classe socializou-se com a faxineira por ambas assistirem às mesmas novelas, não havendo nenhuma diferença verdadeira de classe. Os porões das concepções de hierarquias de raça e demais falácias biológicas, cuja pressão última descamba sempre e irrefreavelmente na velada ultra-violência, foram aparentemente fechados em decorrência da unificação da linguagem.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Abstinência


Então ele queria que tudo fosse para as cucuias, emprego, vida familiar, intenções adultas para o futuro, prevenção do câncer, admissão segura do amor. Com uma lassidão de um guerreiro submetido a experiências limítrofes, cuja racionalidade condicionada pelo tédio havia sido pulverizada, ficava deitado no sofá nas tardes de folga, com uma Heineken na mão esquentando-se enquanto mal admitia para si que seu olhar indolente, perdido no torpor das ondas de calor e barulho que solapavam o ar e entravam pela janela, continuava por procurar um sentido superior para o desencanto, ansiava como uma criança submetida a um pós-operatório de dois meses prostrada na cama por uma tarde de sol no campo.  A tarde de sol feliz no campo que justificaria o propósito da vida. Ela retornava para seu emprego numa creche municipal, dirigia-lhe um beijo rápido da porta, sem meios tons ou sentidos ocultos para não agravar mais a sua hipersensibilidade por sinais subliminares, e deixava-o sob seu rastro de perfume estival, cherry blossom and peach fruit, que transformava a casa no mais perto da certeza da perca do Sonho a que suas antenas excitadas poderiam apreender. Às vezes se levantava, erguendo a perna por sobre a mesinha de centro numa altura que acentuava a pouca acomodação de seu corpo à nova realidade pulsante da meia idade, o nervo ilíaco querendo tomar as manhas para si, e ficava em pé diante a janela acompanhando-a sumir na próxima esquina, os cabelos perolados num tufo grosso saindo da cabeça e afinando-se numa ponta eqüina que batia-lhe no cóccix, os passos decididos e coloquiais arremetendo sua presença segura no teatro das ruas; inegável que atraía um monte de olhares de sentimentos multifacetados, o ardor da recusa obrigada nos tantos homens civilizados que lhe olhavam na distância estabelecida pela reconhecida falta de méritos, aqueles que tinham fé que poderiam ter a estatura certa, os milimétricos requisitos financeiros para abatê-la, olhos que vinham de vidros fechados de carros com ar condicionados ligados, os suspiros jocosos, que escondiam de forma fácil e já condicionalmente pronta uma nostalgia sabe-se lá do que partindo dos trabalhadores do prédio em construção ali em frente, do silêncio constrito das mulheres que lhe passavam em sentido contrário pela rua. Todos eles sofriam por um segundo a mesma ilusão de que ela lhes pertencia, pela simples e paradoxal abstinência do olhar, assim como ele, cuja respiração embaçava o vidro para que suavizasse o momento em que ela seria engolida de uma vez pela próxima esquina.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Danúbio, de Claudio Magris

A história da literatura e a história da humanidade se confundem e se subtraem na viagem sensorial por um grande rio. Não é a primeira vez que se tentou fazer isso, mas Claudio Magris o faz com uma assertividade em mostrar que nem a primeira nem a segunda existem realmente, mediante a única lei catalogável ser a do inexorável acaso que rege essas impressões de ordem, tanto quanto o curso do rio que afigura em sua viagem só se chama Danúbio por uma convenção de medidas geográficas que desaparecerão no tempo. O que choca nas páginas de Danúbio é a dimensão poética de Magris que convence abarcar milênios, coleção infindável de memórias de uma infindável quantidade de pessoas desaparecidas, paisagens, sombras de cidades, entardeceres, sorrisos, solitárias amarguras efêmeras, de tal modo que não é menos herege a impressão de que o olhar do autor transverte-se do deus impossível que deveria estar por detrás dessas coisas insubstanciais. Onde Magris depõe a sua poderosa carga de emoção e sua balanceadora erudição, deixa-se de se vigorar as forças da aleatoriedade e Magris resgata o objeto à sua condição de imortalidade, que durará enquanto o leitor atravessar as 442 páginas do livro, e o quanto a lembrança restituir o sagrado ao seu devido esquecimento. São 170 textos curtos divididos em 9 capítulos, que tratam desde as tantas hipóteses alegadas da nascente do rio, inclusive a de uma torneira de dentro da casa simples de uma velha senhora, até o desague em seu delta no Mar Negro; mas o que importa são as tantas impressões sobre o sanatório onde Kafka morreu, as últimas horas do criador de O Castelo, a casa da infância de Canetti, a estrada onde foi encontrado o corpo de Walser, o vislumbre de Haynd por uma janela, o café vienense o qual Marx frequentava, a prisão de panóptica invertida na qual os sentenciados se transformavam em apreciadores das óperas vistas no grande teatro municipal pelas grades das celas. Magris tem tanto da capacidade fenomenal de Borges de condensar o texto ao seu intenso núcleo significativo, aparentando narrar tudo, quanto da beleza cheia de reviravoltas surpeendentes de Conrad em descrever um rosto tal qual se descreve uma paisagem, ou os acontecimentos de um milênio. Sae-se do livro com a solidão profunda e a amplitude aflitiva do grande rio em aparentar suportar a leveza de tantos fantasmas desvanecentes e do nome que lhe imaginaram possuir.

Objeto de Ouro Resplandecente


Foi há dez anos. Eu voltava a pé do centro da cidade para casa, após assistir a um filme no cinema. Faltando duas quadras para chegar, comecei a sentir o que tenho por ser a pior dor possível, que foi crescendo de dentro do meu estômago e se espalhou pelas costas. Sentei-me num banco de praça, na posição desesperada de pés no chão e tórax por sobre as coxas, na intenção de respirar profundamente para ver se aquilo passava, mas nada... Comecei a suar frio e já não poderia me levantar. A dor exigia concentração tamanha que não me preocupei se alguém notasse que eu chorava e rumorejava cada vez mais alto. Se há um grau mensurável de dor, de zero a dez, aquilo era o dez absoluto. Não me lembro como consegui me levantar, andar o restante do caminho, subir pelo elevador, entrar pelo apartamento e retirar da gaveta de remédios dois comprimidos de dipirona e os engolir. Recordo que o que fiz em seguida constituiu-se como a técnica que eu empregaria dali por diante nas sucessivas repetições dessa dor que eu teria pelos próximos três anos: deitei-me na cama de bruços e fiquei aguardando que o ouro resplandecente se desencravasse de dentro de mim. Passou-se meia hora, em que a coisa recrudesceu, atingiu um estágio impossivelmente ainda mais avançado para depois ir sumindo gradativamente. No ato de me deitar, o sangue e a consciência se concentraram por inteiro na dor, e eu a tive plenamente.

Não fui ao médico pois naquela época do final dos vinte anos tinha a fé abençoada, vinda unicamente da ignorância, na imunosuficiência da juventude. Freud escreveu que o único afeto que não mente é a angústia. Pois a pessoa submetida à dor extrema não só é incapaz de mentir como está bem próximo a alcançar uma espécie de nirvana. Quando eu sentia os indícios da dor aparecendo, eu deixava tudo que estava fazendo, tomava duas dipironas (apesar de ser altamente contraindicado para dores estomacais, era o único artifício que funcionava), procurava algum local para me deitar, e aguardava. Ela assomava lentamente, comparecia com toda a sua saudável presença, ficava por longos minutos discutindo com zonas obscuras de minha mente, e depois, se despedindo, retirava seu tropéu de enxame de pequenas criaturas peçonhentas e ia embora vagarosamente. Já na primeira vinda, quando se erguia com elegância diante a miséria de meu corpo retorcido aos olhos de desconhecidos no banco da praça, discursava sobre esse intento secreto que eu ensaiava contra uma recente ex-namorada que havia me abandonado. Das outras vezes me deixava ver ser mesmo verdade que nas vísceras a dor era muito mais sublime, e como sobre esse conhecimento as técnicas de tortura eram a invenção mais importante do século para o estado policial. Uma vez ela veio quando eu estava a sós em casa com uma nova namorada, e pôs por baixo toda minha ensaiada compleição de macho proficiente ao me fazer chorar diante os olhos impotentes da garota. Acostumei-me a ela, mas não à sua potência, que sempre me parecia inadivinhável, por mais que eu me colocasse em genuflexão e me preparasse diante suas revelações sagradas. Ela me fez perdoar muitos inimigos, desconsiderar o que me pareciam afrontas infinitas, me encher de ternura por coisas que já não me pareciam tão pequenas, me curou da pressa e de um resíduo de medo que ainda me restava da solidão. Quando partia (eu chegava a ouvir a porta fechando-se com delicadeza sobre a algarávia que decrescia à distãncia), me parecia carregado de um novo silêncio e de uma nova clareza o desmanzelo do quarto.

Segui a recomendação de alguém e as quatro cabeças de alho que passei a comer por dia mandaram-na embora de forma definitiva. Nunca mais nem pressenti sua aproximação. Quando minha esposa foi acometida por dores excruciantes causada pelos cálculos biliares ano passado, antes que se submetesse à cirurgia, eu achava que ela (a Dani) era forte demais por conseguir andar, por esperar dentro do carro até que eu chegasse ao hospital e por esperar até que lhe injetassem duas doses cavalares de forte anestésico. A cirurgia descarregou-lhe as finas pedras fragmentadas e ela nunca mais sentiu aquela dor novamente. Assim como julgo que o alho serviu a me dar a indicação de como descarregar-me dela para sempre_ embora eu tenha o nítido aprendizado que não foi o alho que me curou.