sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lendo As rãs

A foto saiu desfocada pois tive que apertar o clique do celular com o nariz.


Espanto-me diante a modéstia e despretensão de Mo Yan. Tento correlacioná-lo a algum outro escritor que conheço, mas não me lembro de já ter-me deparado com algo do tipo. Mo Yan é um narrador puro; um contador de histórias cujo enorme prazer que sente ao escrever transparece visivelmente em seu texto. E é isso: ele escreve apenas pelo prazer, o que pode soar contraditório diante aquela máxima de que o prazer deve ser o único mote de um escritor. Mas a verdade é que sabemos que não é bem assim, geralmente o mote mais motivacional de escritores é a vaidade. E Mo Yan quase não tem vaidade (coisa impossível para um artista de qualquer expressão); ou aparenta estar descansadamente independente a elogios e a reconhecimentos desde que tenha o papel e a caneta em sua escrivaninha. Difícil não associar tal humildade com o condicionamento imposto pelo regime maoista. Em Mudança, primeiro livreto dele editado aqui, chega a ser desconcertante a acriticidade que seu alter-ego narrador demonstra, uma simetria tão pacificamente espelhada nas regras do Estado que é uma das demonstrações na literatura recente da perfeição apolítica. Li as 50 primeiras páginas de As rãs, que me chegou hoje, impressionado mais uma vez com o despojamento e a linearidade infantil de Mo Yan. O tema do romance é um achado, o que muito indica ser retirado da biografia do autor; um desses temas tão bons que é praticamente certo o sucesso da empreitada. E Mo Yan começa a narrativa com uma carta, e segue convertendo toda a maravilhosa história a simples exercícios literários inspirados por um professor de literatura. Comparam-no com Garcia Marquez, pelo realismo fantástico e pela semelhança entre os personagens simplórios de povoados esquecidos em dois cantos do mundo (um na Colômbia, outro na China), mas enquanto Gabo sempre inicia com majestade e exuberância, Mo Yan apenas escreve, sem frases marcantes, sem imagens sinfônicas. E isso é incrível! Funciona magistralmente! Prende o leitor. Mo Yan recorre aqui e em Mudança ao narrador infantil, o que encaixa a seu artifício de ingenuidade. Lembra Abbas Kiarustami; lembra, estranhamente, Tarkósvki. Sua prosa tem uma cristalinidade genuína, uma limpidez desarmante que parece ser toda criada por Mo Yan. Não se trata do que a literatura japonesa, por exemplo, consegue produzir com essas características, pois esta tem, ao fundo, um forte acento filosófico e niilista. Já Mo Yan não, ele prescinde de peso. O outro chinês que já li, aliás também um prêmio Nobel, no grande romance A montanha da alma, de Gao Xingjian, a narrativa é também imensamente simples, recorrendo à pintura, aproximando-se da poesia paisagística. Já Mo Yan afasta-se também do artifício da poesia.

Uma última nota: foi difícil conseguir comprar As rãs. Fui a três livrarias na capital, e nas três tive que fazer malabarismo para que os funcionários entendessem o título do livro. Aí tem As rãs? Uma das meninas, que trabalha na Fnac, chegou a tripudiar: Mas vocês me chegam com cada nome complicado de livros. Daí eu respondi: sabe perereca, aquele bichinho branco que parece um sapo e pula na gente no banheiro? Pois é o outro bichinho, o maior, a rã. Rã. Daí coloque ela no plural, e pimba: as rãs. Outro funcionário pensou que eu estivesse falando o nome de um alemão, Härs Hansen. E a confusão era contagiante, eu percebia que meus músculos responsáveis pela fonética não foram treinados suficiente para lidar com um trava-línguas onde se encontravam as nasalações mais perigosas da língua portuguesa, o s, o rr, e o a átono. Isso tudo para não ter o romance em nenhum lugar. Comprei-o pela Livraria Cultura, já que o livro físico na Amazon havia se esgotado e só tinha o para o famigerado kindle.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Dr. Lao



Noel Gallagher foi fotografado no metrô, em Londres, nessa semana, indo para uma participação no show do U2. Para nós brasileiros isso sempre vai soar como se em vez de um simples ser humano usando da eficiente infra-estrutura de seu país, houvessem fotografado um unicórnio no centro da cidade. Para os brasileiros que vivem nas metrópoles desse país, é inconcebível que alguém com sã consciência e liberdade de escolha desloque pela cidade em outra coisa que não seja seu carro, de preferência fabricado no máximo nos últimos dois anos, com seguro em dias e com todos os opcionais de conforto. O brasileiro morre por seu carro, isso é fato (basta usar um pouco da memória televisiva, dos tantos programas policiais que mostram o morto no banco do motorista no registro de resistência ao assalto). O brasileiro correlaciona diretamente o uso do transporte público nacional com a sina de um fracasso vergonhoso e inexorável. Em nossa mente, por mais que tenhamos que eufemizar, quem usa o ônibus e o metrô por aqui é um derrotado. Pensei em intitular esse post com "Complexo Vira-lata", assim mesmo sem a preposição "de". Penso que não é à toa que reclamamos tanto do Brasil; não é um chiste involuntário, um TOC auto-tourette; estão errados os que tentam cunhar o clichê de inadmissibilidade que dizem não suportar quem fala mal do país, dos que usam frases como "se fosse no Brasil...". O brasileiro fala mal do Brasil porque o conhece profundamente, conhece da maneira mais ineludível, através da prática diuturna inescapável. Engana-se quem julga o brasileiro um alienado apolítico. Meu sonho de toda a vida era ser alienado apolítico. Lembro perfeitamente de, aos 13 anos, ler Stephen King, e ser admoestado por um amigo de colégio que lia Dias na Birmânia a ler coisas importantes. Por aqui, o sujeito é obrigado a saber a taxa do dólar, os nomes dos presidentes das duas casas no Congresso, a saber pelo menos 5 siglas de impostos federais, a saber as tipificações de pelo menos 3 crimes do funcionalismo público, e a ter ideias complexas sobre técnicas de equilíbrio diplomático entre líderes políticos arrestados em investigações policiais para a mínima gestão das aparências. Como eu disse alhures, o Brasil é o país que não te deixa em paz. O brasileiro, seja de que classe econômica ele for, é um ser complexo, profundo, que usa da dissimulação sem a falsa moral dos calouros, e que sabe que lhe pesa a maldição de não poder dizer que leva a vida que lhe dê na telha, que zela com independência de sua família, pois o que acontece na política é a mão direita da qual depende para por a comida na mesa. Um amigo meu, semana passada, me recordou que há dez anos haviam apenas dois carros estacionados na praça pública da cidade interiorana onde moro. Ninguém naquela época tinha carro. Hoje, na referida praça, há mais de cinquenta carros. Todos os dias de madrugada eu passo, a caminho do trabalho, pelo maior colégio público da cidade, e nas ruas de frente é onde estão os melhores carros: os professores concursados são os que compram os melhores carros. Os servidores públicos que mais ganham mal, são os melhores clientes das concessionárias, das linhas de crédito consignado, e das financiadoras. É um erro deles, os que deveriam alertar os alunos sobre consumismos e economia, sobre danos ecológicos, sobre gastar a grana em coisas intelectualmente mais produtivas? Creio que não. Há dez anos esses velhos homens e mulheres atravessavam os morros à pé; seus correligionários de profissão das grandes cidades purgavam idas e vindas imprensados nas latas perigosas dos ônibus do transporte público. Talvez seja mesmo a maior lição deles mostrarem para seus alunos a pragmática apreensão do oportunismo comprando aqueles pomposos e brilhantes carros negros de quatro portas, o movimento mais astuto que eles poderiam ter na contra-dança com o país que a qualquer momento fará o passo de lançar-lhes ao ar sem a devida segurança, os farão se estrebuchar de barriga no chão. Keanu Reeves, Michael Douglas, Charlie Sheen, Al Pacino, e os grandes executivos que aparecem nos filmes em pé segurando confortavelmente as barras dos metrôs: em nossa mente inflamada de estoicismo, isso sempre parecerá absurdo.

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Claro que esses últimos 15 dias foram de total felicidade. Meu filho Eric nasceu, e tudo deu certo. A pressão sanguínea da Dani disparou na noite de sábado, dia 10, e o médico achou melhor antecipar o parto para a manhã de domingo. Cheguei à capital e ele estava deitado no bercinho, todo envolvido por mantas, à mostra no berçário através da vitrine. Só naquela manhã nasceram 10 bebês. O plano de saúde cobriu tudo, a cesariana, a laqueadura (a Dani não pode ter outra gravidez, o que conformamos), o apartamento de luxo por 4 dias (na verdade cobria um apartamento simples, mas não havia mais nenhum disponível, o que tiveram que nos dar o de luxo). Quando ela teve alta, saímos pela porta com as costas murchas, esperando alguém nos chamar para acertarmos alguma conta pendente. É que já estamos acostumados. O parto em que a Dani teve a Júlia, paguei 8 mil reais. Era um parto de alto risco, e a obstetra foi de um mercenarismo grotesco, contando cédula por cédula na minha frente, um dia antes da cirurgia. E coube a ela me legar uma cena constrangedora, pois a obstetra aparentemente esqueceu de repassar a parte da grana que lhe ficou incumbida para a pediatra, e a pediatra cobrou rudemente a Dani o dinheiro horas após o parto, no quarto em que a Dani estava instalada. Eu não estava perto, por sorte, pois nem sei o que eu teria feito. O plano cobriu a cirurgia cardíaca da Dani, dois anos depois, e, após a cirurgia, o cardiologista me liga cobrando 3 mil reais por materiais extras que foram necessários no procedimento. Ele foi tão gentil na extorsão, e eu estava tão aliviado que tudo tenha dado certo, que não titubeei em pagar. Assim é. Eu tenho aversão a dinheiro, devo dizer. Gosto de dinheiro e não sou nenhum asceta, não é isso que quero dizer. A Dani é que fica com os cartões bancários, e ela que gerencia a casa. Eu fico meses sem tocar em dinheiro, o que me faz muito feliz. Lembro a época em que me formei e comecei a trabalhar, em que tirava do banco apenas o aluguel de um quarto em que se incluía almoço e janta. No final do ano, tirei o extrato da conta e havia lá o que considerei uma fortuna. Comprei um carro à vista, por pura necessidade. Me assombra que médicos, que são os profissionais milionários por natureza, se mostrem tão gananciosos. Para onde vai tanta grana? Eles usam para quê? E sempre me pareceu de uma rasteirice paradoxal que eles usem os momentos de maior felicidade de seus pacientes para exercerem essa ganância desmedida. No momento pleno em que eles conferem a vida, eles se investem contra a plenitude que eles foram veículo para se rebaixarem à necessidade mais mesquinha da extorsão; e sem a mínima precisão. Talvez seja apenas o vício que o exagero de remuneração lhes acomete. Talvez o jogo de angariarem dos parentes aliviados um pouquinho mais de grana seja o modo adrenérgico compensador para sentirem com exatidão a mágica científica que fizeram. Talvez eles não compreendam o quanto fizeram felizes os que no fundo no fundo pensavam na morte, e a materialização do dinheiro seja a forma para eles empurrarem um pouco para o lado a insensibilidade da rotina.

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Houve apenas um contratempo nessa felicidade. Um dia depois do parto, minha irmã voltava às oito da noite da academia onde trabalha, na companhia da minha filha, e ao estacionar na frente do prédio da minha mãe, dois motoqueiros lhe apontaram armas e lhe levaram o carro. Deram tempo para que ela retirasse minha filha com a cadeirinha do banco de trás. Eu estava aqui na minha cidade. Por uma infeliz prova de que eu estava certo em minha recomendações, aquela noite foi a primeira vez que ela desrespeitou minha ordem de que a Júlia não poderia sair após as 18 horas. Uma semana antes, eu proibi que levassem a Júlia a uma festa de criança, por essa estar marcada para as nove da noite. A Dani me ligou chorando, e elas devem ter falado horrores do meu pérfido coração em não me amolecer diante a decepção da Júlia em não poder ir ao evento. Fui taxativo e disse pelo telefone que elas estavam na cidade que figurava entre as 32 cidades mais violentas do mundo, e seria uma isca sem igual um carro com três mulheres e uma criança vagando pelas ruas à noite. Se elas estivessem em Sheberghan, no Afeganistão, poderiam ir, mas estavam em Goiânia, Brasil, a trigésima segunda cidade mais perigosa do mundo. Foi a pior oportunidade que tive para dizer "eu te disse, eu te disse". Dois dias depois, a delegacia de furtos e roubos liga para minha irmã, a busca em casa e a coloca no meio de dez homens fardados de preto dentro de um camburão e saem cortando sinal à toda velocidade, até um bairro de periferia onde está seu HB20 largado no lado do calçamento. O porta-malas cheio de produtos roubados, além de cheques e documentos pessoais. Minha irmã acha um tanto anti-profissional que a polícia tenha escolhido esse método espalhafatoso para mostrar eficiência. 14 dias depois_ ontem_ tentam roubar o carro da minha mãe, quando ela e minha esposa estavam diante a clínica obstétrica. Elas chegaram na hora de ver os criminosos quebrando o retrovisor e levando o espelho com eles.

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Não troco por nada minha vida no interior. Não há bares sofisticados e nem eventos culturais aqui; mas eu chego em casa em dez minutos de carro. Quando fico um dia na capital, eu sinto a doença da capital querendo entrar em meu sangue. É uma vida bestial, suicida, infernal, mecanicista e estúpida. Goiânia é um dos escalões do inferno. Aquilo não foi feito para seres humanos. São Paulo, um tanto pior e mais bestial, é o objetivo a ser alcançado por Goiânia, em pouco tempo. Daí não sabem porque o Brasil está como está. Não há tempo para pensar em longo prazo, quando se trabalha 8 horas por dias e se gasta 4 horas no trânsito (caso de São Paulo), ou 2 (caso de Goiânia). O indivíduo não se integra mais nos problemas da sociedade, porque a exaustão o torna apenas um burro da carga. E isso não é apenas os baixos funcionários, mas executivos, os médicos loucos por grana, os juízes, etc, etc. Todo mundo. Não sobra tempo para os filhos, que são criados apenas sob a influência dos órgãos oficiais de contenção, sem carinho e sem ternura, sem atenção. Daí sobrar tempo para pensar em Cunha, em CPMF, ou o que seja? Animais cumpridores de movimentos pavlovianos. Não me espanta que estejam cada vez menos espiritualizados. Os espiritualizados numa rotina dessa se matam. Nenhum espírito aguenta essa pressão. Não largo, por nada, a vida boçal com excesso de tempo e excesso de espaço que tenho aqui. Aqui é único paraíso possível, idiotas!

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Há uma cena que nunca me saiu da cabeça no magnífico filme As sete faces do dr. Lao. Uma mulher entra na cabana do vidente cego do circo do dr. Lao e lhe pede que leia o futuro nas linhas da mão. O vidente, entediado, se recusa. Ela, uma senhora requintada, vestida com pomposidade elegante, com seu ar inamovível de superioridade loura, ameaça com ira o velho cego, perguntando-lhe quem ele acha que é ao recusar um pedido de uma dama digna como ela. O velho então prende a mão da mulher à sua e perfila toda a vida futura que a dama terá pela frente, anunciando que nunca lhe aparecerá o cavalheiro que ela espera para lhe pedir em casamento, que ela jamais será a pessoa socialmente influente que almeja ser, que ela envelhecerá na solidão sem ter cumprido nenhum de seus sonhos de grandeza e glória, que ela morrerá esquecida por todos em sua casa solitária, que ninguém ao longo dos anos que lhe restam a amará ou se importará com ela, e que sua lembrança se apagará assim que ela for enterrada. A mulher consegue soltar sua mão e sai aos prantos desesperados da cabana, causando um alvoroço entre os frequentadores. Ela se esconde ao lado de uma tenda, chorando ainda mais, e uma outra mulher a encontra e lhe pergunta o que se passa. A dama segura o choro, limpa a cara, e diz que se sente muito feliz porque esteve com o vidente cego e este lhe assegurou que todos seus propósitos de felicidade se cumprirão imediatamente. Não por menos sinto a atração de chamar a internet, com seus blogs, twitters e Facebooks, de dr. Lao.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A Conexão Bellarosa, de Saul Bellow



Uma das várias facetas que demonstram a originalidade e independência da obra de Saul Bellow é esta que indica que também em sua produção tardia ele virou as costas para as tradições e os costumes da classe literária. Enquanto a norma involuntária dos romancistas_ em maior grau os consagrados_ dita a tendência de se tornarem mais sérios na velhice, escrevendo de forma hermética e rebuscada (vide Faulkner em Uma fábula, e Henry James em As asas da pomba), Bellow traçou o caminho contrário, areando seu estilo ao máximo, limitando-se ainda mais às frases curtas, abraçando um coloquialismo que faz pensar que é um despojamento inusitado para quem escreveu 4 dos maiores romances do século passado, recebeu todos os prêmios e encabeça a lista do cânone da literatura norte-americana. As 4 novelas publicadas pela Companhia das letras esse ano, sob o título de uma delas, A Conexão Bellarosa, é um bom exemplo da extrema fluidez da escrita tardia de Bellow. As 4 novelas começam como se Bellow estivesse na verdade escrevendo despretensiosas crônicas para revistas de celebridades; há o tom cínico disfarçado de trivialidade glamorosa que se vê principalmente em discursos políticos, e que de certa forma desconcerta ao enganar o leitor com uma falsa voz panorâmica como se, em vez de se inciar uma narrativa, vai se embrenhar em um texto de jornalismo literário. Tais inícios mostram que Bellow queria testar em seu últimos textos uma abordagem mais fiel à sua declaração de que a primeira regra da escrita era que a coisa surgisse com facilidade. Nada mais fácil e leve que esses começos, como o de Um furto:

"Clara Velde, para começar pelo que nela chamava mais atenção, tinha cabelos louros curtos, com um corte elegante, que cresciam numa cabeça incomumente grande."

Ou o despretensioso começo de Ravelstein, que revela todo o astucioso brilho da voz de Bellow:

"É estranho que os benfeitores da humanidade devam ser pessoas divertidas. Pelo menos nos Estados Unidos isso frequentemente é assim. Quem quer que deseje governar o país precisa entretê-lo."

E as narrativas seguem da mesma maneira prenunciada pelas primeiras frases, com agilidade, pulos e regressos no tempo, anedotas sobre a inefável tendência dos personagens bellowianos a tangenciarem um extraordinário cotidiano, uma elétrica falta de tempo em ater-se a um só detalhe, substituindo a observação minimalista por um rateio aéreo onde se apreende com deleite os pontos altos e baixos do extenso relevo das vidas pessoais de seus heróis e heroínas. Adorno escreveu que nos ínfimos da beleza da paisagem norte-americana se revela toda a imensidão do país, vastidão que Bellow explorou talvez como nenhum outro romancista em seus grandes painéis da América. Em livros como Augie March e Humboldt, a efusiva vida americana pulsa com esplêndida exuberância, com inextinguível paixão vital, muitas vezes invocada pela pena esotérica de Bellow no entremeio das frases, local mágico onde, como reconheceu Philip Roth em suas releituras dessas obras, acontece uma infinidade de coisas. E por isso, em suas últimas obras, vemos a compensação de Bellow por dar mais vazão à outra face da dicotomia de autor americano e médio-oriental que ele tinha, abandonando o centro de visão do individualismo das grandes entidades que eram seus personagens principais, e abordando agora a multitude de vozes que ficou como réstias não trabalhadas de seus livros maiores. O Bellow tardio é um escritor judeu cuja necessidade de extravasar sua voz negligenciada da aldeia oriental transforma a grande cidade e os homens e mulheres cosmopolitas em uma repaginação urbana dos loucos, infiéis e comerciantes usuários dos contos em iídiche de Isaac Bashevis Singer. Seus livros já não mais se detêm em intrincadas almas argumentativas e afundadas em lutas contra a Providência ou a América financeira, nem comporta mais dissidentes estoicos dos selvagens eventos do século XX. O que vemos nessas novelas são representantes divertidos das ideias ainda não testadas do autor: o magnata que quer resgatar o amor da juventude; a mulher emancipada que se confronta com dilemas morais imprevisíveis ainda que sempre intuídos; o intelectual sentenciado pela medicina que participa ativamente dos embates contemporâneos através das técnicas de comunicação avançadas que o ligam de sua cama com o mundo. É recomendável que se leia esse livro após a leitura de pelo menos um dos grandes livros de Bellow, para usufruí-los com plenitude, pois aqui se tem a prosa fulgurante, a inteligência viva, a brincadeira feliz da escrita de um dos maiores escritores de todos os tempos. São como consolações a seus admiradores por ter-se que se atender às limitações biológicas da partida; mas a última frase desse volume condiz com a saudade cogitativa que é deixado no leitor assim que fechado o livro:

"Você não entrega facilmente para a morte uma criatura como Ravelstein."

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um Lear americano (por ocasião dos 20 anos de O teatro de Sabbath)


Ao longo dos anos de vivência pessoal em que nada de muito diferente resta a nos esperar pela frente e do aprofundamento cada vez maior numa era tecnológica onde os prazeres intelectuais se amoldam a modelos rápidos e superficiais, é uma surpresa poder ler um romance como O Teatro de Sabbath, lançado há apenas recentíssimos quinze anos. Nessa epopéia que não se presta a nenhuma classificação convencional, Philip Roth atinge a marcação histórica de finalmente lançar a pedra fundamental de sua escrita no escore dos grandes nomes literários do século XX, após uma série de obras menores e três acertos que, sem o salto olímpico que o autor se reservava dar na produção do sexagenário, provavelmente se perderia numa bibliografia limitada a uma prosa competente, mas perecível. A trajetória de Mickey Sabbath, o herói enroldado em um triste ciclo orgiástico adotado como contra-dogma para suportar a bestialidade cotidiana, compõe a mais poderosa, engraçada, virulenta, desesperada, sequiosa por vida e paixão e, ao mesmo tempo, desapaixonada e suicida, sequência de episódios sobre a deploração humana, construída numa prosa igualmente retumbante, fluida e genial. São 507 páginas na reedição da Companhia das Letras (que teve a misericórdia de atender aos vários pedidos de leitores postados no site da editora, para que se relançasse esse título há muito esgotado) em que o completo domínio de Roth por seu projeto transparece tão nitidamente que o leitor tem aquele privilégio raro de compartilhar a felicidade do trabalho, o cansaço, a volúpia e a impressão de vazio nostálgico após a leitura concluída, que o autor sentiu ao escrever. Algo que só se sente com os grandes romances e que a mim se liga ao manuseio físico do volume em que este apresenta no final os sinais da intimidade adquirida, o amarelar da lombada das páginas, a perda do brilho da capa, a aparência de que foi espremido e digladiado com volúpia.

Como outro romance erótico _ Lolita _, o tema de O Teatro de Sabbath está longe de ser o sexo. E nisso é bom demorarmos um pouco. Tendo a achar que com os outros leitores aconteça a mesma falta de entusiasmo que eu sinto diante ao romance erótico. O que poderia ter de mais desalentador do que confrontar-se com uma promessa não cumprida, uma propaganda onde as fotos ilustrativas coloridas abundantes não correspondem ao cenário real do destino da viagem, o filme revolucionário que repete mascaradamente as mesmas técnicas de espanto exploradas em excesso pelo cinema europeu? Pois romance erótico é um rótulo fadado desde o início ao banho gelado do anti-clímax, considerando uma classe de leitores bem intencionada para a qual o clímax ainda desperte um desejo estético de reavivamento nostálgico de antigas descobertas. Nada pode haver de novo no domínio da imaginação erótica que ganhe restrito potencial na palavra escrita, que possa prescindir da imagem visual e dos recursos da sonoplastia, bastando-se naquilo que hoje só compreendemos com uma generalizada percepção antropológica em O Amante de Lady ChatterleyNexusA Filosofia da Alcova, nos relatos de Anaïs Nin , etc. Nenhuma perversão hoje em dia é velada o suficiente para acharmos que não será na net, nos   shows das cantoras do show business avalizadas pela Camile Páglia, ou nos eventos sociais da multidudinária vida cosmopolita noturna, mas nos livros, que encontraremos a redenção carnal de lubricidade inédita nunca alcançada. E um autor como Roth é inteligente o suficiente e comprometido por demais com áreas de exploração espiritual menos enredadas com as exigências industriais para não se ater a orgasmos, adultérios e primadas descrições de cópulas para tornar o romance interessante a uma fatia do mercado. Como em LolitaO Teatro de Sabbath fala sobre a redenção pela repulsa, extrai do verniz colorido e frenético do sexo comercial tornado onipresente nas vitrines midiáticas a única forma ainda provocante de tornar a narrativa sexual genuína e legítima: o sexo como fator de omissão aos estereótipos sociais, como um desvio padrão insuficiente para expor as escoriações profundas da alma humana e das indagações apagadas mas não menos angustiantes que ela continua fazendo à filosofia, e que contudo se firma como uma opção subalterna poderosa por revelar a insuficiência inexaurível da normatização da vida oficial. Não é à toa que a cena mais excitante de O Teatro de Sabbath, a que consegue motivar aquele adolescente curioso pelo livro proibido de ginecologia que por ventura ressurge no leitor, é justo a que Sabbath imagina a sua esposa alcoólatra de quase sessenta anos se masturbando na cama. A esposa a qual Sabbath não sente nada além de um asco suficiente para abandonar o relativo conforto do lar e se tornar um mendigo em Nova York. Outra cena lúbrica é a da já famosa nota de rodapé mais extensa da literatura, a reprodução ipsis litteris do diálogo telefônico entre um Mickey Sabbath jovem e vigoroso com uma aluna prestativa ao extremo, com invocações diretas a todos os fervores sexuais que sua ainda não destruída saúde tinha direito a ponto de ser a causa de sua futura ruína social. Pareceria pornografia consistente se Roth não deixasse claro que a ninfeta tem um ar de retardamento alienado e pesa bem mais que o exigido para certos padrões do gênero.

Outro mérito de Roth é ser completamente decantado da necessidade de excessos de tinta para pintar esse painel já carregado de excessos de outros níveis. Em mãos apenas talentosas, o romance ofereceria espaços atrativos para a ironia, a caricatura e a sátira de tal forma que o autor não poderia recusá-las. Um dos passatempos preferidos do Sabbath velho e artrítico é visitar o túmulo de sua amante Drenka Balich de madrugada, num cemitério deserto e afastado, e se masturbar tristemente diante o retângulo de terra onde está enterrada a mulher que mais amou na vida. Sempre que está enredado nessa tentativa de absolvição solitária, lhe acontece algo ainda mais inusitado: o filho de Drenka, o patrulheiro do condado que o odeia profundamente, surge por entre as sombras para agredi-lo. Uma cena tal como essa é um ímã inevitável para que um romancista empregue sua verve rabelaisiana a fim de tornar a coisa convincente, extirpando os apêndices incômodos da inverossimilhança que provocam descrédito no leitor. Mas Philip Roth não usa de nenhuma ironia ou astúcia humorista para descrever essas cenas: a impressão de absurdo vem ao leitor, mas de uma forma que causa uma identificação com a inerente propensão humana a se desvestir das aparências sociais e se entregar ao desamparo. Todo o repúdio que Mickey Sabbath provoca, um personagem de carne e osso dos mais reais da literatura, se anula pelo seu gritante desamparo.

O Teatro de Sabbath, assim como Complexo de Portnoy, é desbragadamente engraçado. É um presente de prazer estético tão recheado de inteligência e gênio que só as cenas hilariantes já justificariam sua leitura. Sabbath foi enxotado de casa pela mulher, que não agüenta mais as humilhações a que o velho libidinoso a obrigava a passar, e, sem casa, vagando pelas ruas de Nova York com as roupas em estado lastimável, de repente se vê caído nas graças de um amigo de universidade que, ao contrário de si, prosperou exemplarmente. Esse amigo o leva para seu gigantesco apartamento de frente ao Central Park, o alimenta, o convida a ficar o tempo necessário até que Sabbath rearranje sua vida. E as forças que determinam que Sabbath sempre seja ingrato a qualquer tipo de bondade que bons samaritanos bem intencionados lhe destinam, o fazem cair mais uma vez no seu incansável vício de promiscuidade. As tentativas de Sabbath para levar a mulher desse amigo para a cama, e as fantasias a que Sabbath se entrega no quarto da filha do casal (explorando as gavetas das calcinhas da menina que está universidade), são carregadas de um pedante suspense que se resolve num riso solto não excluso de culpa.

Outros fatores que tornam esse romance grandioso é a exuberância da escrita de Roth onde tudo se encaixa sem revelar o molde e a premeditação, numa naturalidade que confere ao leitor a certeza de estar em boas mãos, de que o autor não vai escorregar um milímetro sequer, nem nas cenas em que Sabbath recorda o irmão morto na guerra. E a inteligência de Sabbath, sua música interna selvagem que ecoa Shakespeare, sua argúcia que não se rende ao pensamento institucionalizado e o desmoraliza até nos altos escalões da filosofia e do academicismo por conhecê-lo tão bem. A erudição e a lucidez de Sabbath parecem brincar com o pensamento   recôndito de que tem algo de invejável ser um mendigo excessivamente culto, que opta pela dissolução por vontade própria e por um senso de rebelião que é o único digno e verdadeiro. Roth mais tarde escreveria uma trilogia de romances também com uma estatura tão assertiva, mas é com O Teatro de Sabbath que ele garantiu seu lugar entre os maiores escritores que a língua inglesa já produziu. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Música de livro


"Do hi-fi raramente usado da sala de visitas, veio o som de música para piano, um velho disco de Keith Jarrett, Facing You. A primeira música. Ela parou do lado de fora do quarto para ouvir. Fazia muito tempo que não ouvia a melodia hesitante e só revelada em parte. Tinha se esquecido de como aos poucos a melodia ganhava confiança e se tornava subitamente viva à medida que a mão esquerda mergulhava num boogie estranhamente modificado, cada vez mais potente, impossível de ser freado como uma locomotiva a vapor em aceleração. Só um músico com formação clássica, como Jarrett, seria capaz de fazer com que cada mão fosse tão independente da outra.
       Jack estava lhe enviando uma mensagem, pois se tratava de um dos três ou quatro álbuns que serviram de fundo musical no início do relacionamento deles." (A balada de Adam Henry, de Ian McEwan).

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

8 h



Não tem para ninguém. Amanhã, às oito horas, vai ser o nome deste senhor que será anunciado.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan



A balada de Adam Henry é uma surpresa na bibliografia de Ian McEwan. Nada de novo, para seus leitores, nas primeiras páginas até a metade do livro: encontramos ali a mesma prosa excepcionalmente construída, inteligente, profunda e ligeira (é incrível como a leitura de McEwan sempre se faz, para mim, em questão de deliciosos instantes ligeiros); encontramos a mesma construção pormenorizada de atmosfera para que o autor lance o leitor no centro da trama pretendida; os mesmos personagens multifacetados e seus diálogos e reflexões que os tornam tão familiares e humanos. Daí, como os leitores de McEwan bem sabem, começa a etapa sintomática do que eu propriamente chamo de "o momento em que o fôlego de McEwan começa a esmorecer", e da metade para o final da maioria de seus livros a trama sofre um decrescendo de interesse e passa a evidenciar a urgência do escritor em apenas amarrar as pontas soltas do início e concluir todo o mecanismo de maneira bonitinha e previsível, e o romance padece de empobrecimentos que vão do uso de clichês, didatismos, explicações clínicas pedantes sobre a doença de um dos protagonistas da história, e por aí vai. Assim, quando cheguei à metade de Adam Henry, após ter vibrado com cenas excepcionais e situações de suspense de primeiríssima qualidade, me dei de cara com esse momento mcewaniano e me preparei para suportá-lo da melhor maneira possível, com aquela gratidão tão comum em mim por me resignar com a metade fracassada da obra diante o deleite estupendo que a primeira metade oferece. Da metade para o final se inicia uma cena de viagem da juíza Fiona Maye, a personagem principal, pelo interior da Inglaterra, em encontros judiciários itinerantes em antigas mansões elisabetanas. Bocejei e apressei a velocidade da leitura, com aquela impressão de que McEwan enchia linguiça de maneira bastante canastrã. E a surpresa está justamente aí: a diminuição do romance, no caso desta obra, não é ardil e nem engodo de um escritor que notoriamente perde o equilíbrio da estrutura de suas composições, mas um ato que corresponde ao controle pleno para a mensagem que ele tem para oferecer no final. Esse é um dos livros mais tocantes e verdadeiros de McEwan, e um de seus títulos mais genuínos. É o primeiro livro dele, entre tantos outros que já li, em que ele não usa do grotesco, do macabro, da abominação, da patologia mental para enfeixar o conjunto de suas páginas. Ternura sempre houve em McEwan, incontestavelmente um dos maiores escritores vivos, mas ela se sustenta em negativo através da escatologia criminal que é uma das assinaturas do inglês. Por isso, fica-se esperando neste seu mais recente romance o momento da estocada em que a normalidade cederá para o abrupto caos e a distorção do pesadelo. Fica-se esperando o desenlace cosmético que geralmente é um truque de empolgação de McEwan para suplantar sua incapacidade de ser deslumbrante até o último momento_ a sua maneira íntegra de pedir desculpas. E neste não se vê tal artifício. O final da obra nos traz uma consciência delicada sobre o que é o humanismo institucional dos tribunais, com seu frio distanciamento jurídico, sua impessoal salvação e sua assepsia do desamparo, e o que é o contato humano legítimo entre duas pessoas alquebradas que tornaria a vida realmente esplendorosa. Na figura de Fiona Maye, McEwan tece uma reflexão poderosa sobre o contato humano, usando símbolos sofisticados que não caem nem um segundo na gratuidade, desde a música (o livro mais cheio de referências musicais dele), a religião, até o direito (o título original em inglês é bastante eloquente, The Children Act). O último capítulo é absolutamente tocante. Um McEwan excepcional!

domingo, 4 de outubro de 2015

Nesta noite de domingo desterrada do infinito


Preparando-me para o vinho da noite e a audição deste que é um dos mais belos álbuns de rock progressivo, Darwin, do grande Banco del Mutuo Soccorso. O próprio nome da banda já é um poema. As letras deste álbum e o que o precede nessa séria, o Io sono nato libero, tem uma qualidade literária muito acima da média do que se vê no campo da indústria fonográfica (convido a que leem a letra belíssima da canção Canto nomade per un prigioniero politico, literalmente de arrepiar).

Jeito de matar lagartas, de Antonio Carlos Viana

Esta madrugada passei boas horas de insônia lendo os textos do Marco Severo e visitando seu Facebook_ via Facebook do Renato Nogueira, do qual já sou frequentador contumaz (ambos vivem tanto de literatura que sempre tenho a alegria confortável da plena identificação). Graças às efusivas recomendações do Marco, fiquei muitíssimo com vontade de ler Jeito de matar lagartas, do escritor Antonio Carlos Viana. Fui ao site da Companhia das letras e encontrei, feliz, dois contos dele disponíveis para leitura em pdf. O primeiro conto é magistral, A muralha da China. Amanhã retorno à capital e já marquei com minha filha Júlia uma visita demorada à Fnac, só nós dois, com a inevitável compra de um livro para ela e mais outros para mim. O do Viana tá na lista. No Facebook do Marco também encontrei a ótima matéria do NYT sobre a queda drástica de vendas de livros digitais e o aumento exponencial da venda de livros físicos. Eu sempre confiei que o livro, O livro, nunca terminará.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A semana



Essa semana foi toda para acompanhar a Dani na capital em seus exames antes do parto. Pegamos o carro de manhã e fizemos uma agradabilíssima viagem nós três por três horas, indo no máximo a 100 km por hora e ouvindo uma seleção de álbuns nos pen drives. Choveu no caminho. Paramos em um restaurante de beira de estrada. A Dani e a Júlia pediram suas músicas preferidas do Phish e vieram cantando The line e Devotion to a dream em voz alta, a Júlia com seus improvisos de inglês infantil de cinco anos. Durante o Radiohead a Júlia começou a tombar a cabeça de sono em sua cadeirinha, mas na Björk ela reanimou novamente. A disposição de humor estava tão elevada que ao entrarmos na cidade nem mesmo o trânsito a abalou, mantido do lado de fora das janelas solidamente fechadas com o ar condicionado ligado. Chegamos à casa da minha mãe e a mesma harmonia de humor estava lá. Passamos a semana indo ao cardiologista e ao obstetra, fazendo ultrassonografia e outros exames que não sei o nome. Disseram que a Dani está ótima, que o parto será marcado provavelmente para antes do dia 15. À noite fui à Fnarc e fiquei lá por boas 3 horas. Comprei uma batelada de livros que não esperava comprar. Dormi num colchão na sala do apartamento da minha mãe, onde estão as plantas e uma peça artesanal de cerâmica que simula uma cachoeira por onde a água cai em 4 níveis. Ficava lendo até as três da manhã, ouvindo o som morfínico da água. Durante as tardes, em que nada havia para fazer, passava horas lendo. Meu respeito pelo meu leitor interno é tão grande que sempre me deixo levar por suas escolhas inusitadas e espontâneas. E como caiu bem a leitura dos livros que ele escolheu na Fnarc. Li Mo Yan com deleite, depois, em um dia e uma noite, li Uma rua de roma, do Patrick Modiano. E agora estou embrenhado na leitura múltipla dos outros livros comprados: Amor e exílio, de Isaac Bashevis Singer, e o novo do Ian McEwan. Também comprei uma edição de bolso de Heart of darkness que tem sido minha companhia nas salas de espera dos consultórios médicos. Mas o que tem feito meus olhos brilharem mesmo são os livros do Mo Yan e Modiano. Os dois tem duas coisas em comum no imediato mundo real: os dois ganharam o Nobel e os dois se declararam (no caso do Modiano) ou foram declarados (no caso do Mo Yan) como escolhas menores para o prêmio. Gostaria de simplificar as coisas dizendo que o que gosto neles é o fato de serem autores medianos, descomplicados, puros. Mas isso é cair em rótulos simplistas. Mas vou me deixar, assim mesmo, cair nesse conceito limitante. O que eu adorei nesses livros é justamente eles serem medianos. Não há arroubos metafísicos neles, não existem sentenças grandiosas, nenhuma erudição excessiva, nenhuma digressão ensaística. Os dois são despretensiosos de uma maneira desconcertante. O Modiano, por exemplo, que declarou sem a mínima comiseração ter ficado espantado com a escolha da academia sueca, começa seu livro sem subterfúgios algum, direto, com muitos diálogos e poucas descrições. Estou verdadeiramente apaixonado pelo Uma rua de roma. Ele tem 220 páginas mas eu as li em alta velocidade, fiquei tão absorvido pela história e pela delicadeza da linguagem que quando cheguei ao final foi que me liguei que o livro físico estava realmente acabando. Pretendo voltar na Fnarc e comprar mais uns três Modianos para preencher meus dias até a chegada do Eric. Fiquei fã mesmo do cara. Há muitas cenas ali de tirar o fôlego de tanta beleza. E Modiano as compõe aparentemente sem apego a virtuosismos, apenas faz seu papel em sua sala à meia luz em algum apartamento de Paris. Modiano é tão fluído que me fez pensar que alguém como Hemingway gastava muito suor para se descomplicar, enquanto Modiano é descomplicado por natureza. O livro trata da procura do narrador por sua identidade, perdida há oito anos por algum evento desconhecido que lhe provocou uma amnésia. Os diálogos entre o narrador e as várias pessoas indicadas por suas pistas são primorosos, e a avareza de descrições evoca no leitor cenários tão vívidos e misteriosos que lembram algo de Kafka ao mesmo tempo que algo de Agatha Christie e George Simenon. Que delícia nesse instante da vida ser regalado com esses escritores medianos. A literatura em sua função cartorial, regida por expedientes protocolares; homens que escrevem com a mesma necessidade de qualquer outro ostensivo escritor de se oporem contra a morte, mas que o fazem em um estágio mais silencioso, que parece humildade mas que é apenas a consciência imolestada de cumprirem seus papéis consigo mesmos. À noite de ontem reencontrei um antigo amigo dos tempos do colégio no bar Woodstock, e o sincronicismo foi tanto que quando nos vimos passava a Smoke on the water, que tanto adoramos. É com o espírito leve das leituras de Modiano e Mo Yan que agradeci pela singeleza dessas coisas.