sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Pavão sem pluma



A vovó Flora não tinha empenho nenhum na mesa na hora do café da manhã. Passou algum tempo depois que eu cheguei e a coisa ia desse jeito.
     Como algo que eu tenho que reconhecer pelo esforço tão acima de suas forças, ela mudou_ impôs-se uma mudança. Sua filha Helena, minha mãe, era uma moça loira que sumiu uma bela tarde em que tinha alguns anos mais do que eu tinha na época,  e só voltara quando a textura juvenil de sua pele havia se transformado em um estudo criminal de sua degradação. Com isso, causara o sério problema para a vovó dela também ter que encarar a incômoda verdade de sua total incompetência na vida adulta. Pela medição que minha avó fez apressadamente enquanto arrumava pela primeira vez em uma década o quarto do segundo andar para que nós ficássemos pelos seus prometidos apenas três dias, a menina, que já deveria ter 25 anos, não estava gorda. Era um ponto pra ela. Seu corpo adivinhava a escultura que tinha sido antes dela ficar grávida de mim, pois ainda era bem apresentável, sem culotes saindo pra fora da calcinha, os pequenos seios bem firmes sem qualquer artifício suspensório de sutiãs e enchimentos, as pernas surpreendentemente lisas como as da garota que havia abandonado a casa. Mas o rosto entregava tudo. O rosto de minha mãe se tornara deplorável. A gravidade agira nele sem a mínima ponderação. Pelo penúltimo dia da estadia de Helena no quarto, minha avó disse isso a ela; não poderia ser só a ação de surras eventuais sofridas nas relações humilhantemente subjugadas com os alcoólatras e arruaceiros; talvez fosse uma doença, uma velhice precoce. Minha avó lhe informara, com um tom engraçado e infantil, demonstrando esse tipo de interesse sagrado que as pessoas sem instrução tem pela ciência popular, com a mesma credibilidade com que se aceita como verdade o chupa-cabras e a invasão alienígena exponencial e silenciosa no planeta, que o pai da minha mãe talvez tivesse essa doença, que isso só podia ser genético e não vindo dela, já que ela, se não tinha o despudor de se achar bonita aos 68 anos, pelo menos suas rugas e sua tonicidade de pele correspondiam com precisão a cada um dos seus anos.
      Minha mãe não se importava uma migalha com seu rosto. Tinha uma distante lembrança do pai, um homem de olhos verdes que pelo fato de ter tido a honradez de assumir sua decisão de nunca mais voltar, nem para atazanar a vida delas, merecia o respeito de ambas. Talvez nem fosse isso. Talvez fosse um mero exagero da minha avó em tentar aliviar ali a decepção por vê-la de volta quando já a dava por morta, e ir suspeitando paulatinamente o esquema que minha mãe armava pra cima dela sobre ter que me criar por uns tempos, pois não tinha condições, estava na penúria, se morresse com quem ficaria o pobre diabo. Minha mãe não estava assim tão velha, ainda que muitas vezes eu presenciei os homens buzinando ao verem-na por trás e gritarem xingamentos alcoolizados e alegremente selvagens quando se viravam nos volantes e a viam de frente. "Vá fazer uma plástica, traveca!". Helena acendia um cigarro, puxava a fumaça, cansada e solenemente acostumada com a eterna avidez daquela fome que nunca terminava, as unhas pintadas descascando-se e a velha pulseirinha de couro com cheiro de escama grossa de pé, a dignidade de todo fumante em o tempo lhe respeitar o ato de fumar, nem sequer se preocupando em ouvir minha vovó, sua cabeça estando muito longe, uma mulher madura, dona de si, havia perdido há muito a capacidade de se zangar com as coisas triviais. Se precisasse beijar a vovó ela beijaria, se precisasse lhe pedir desculpas por seja o que fosse, pelo desaparecimento ou pelo reaparecimento, ela pediria, se precisasse olha-lá nos olhos e corresponder milimetricamente a cada ofensa que ela lhe pretendesse jogar em cima, desde a sua feiura ao seu fracasso amplo e descomedido, ela o faria. Era uma espécie de economia espiritual, a vida estava além disso; a vida era triste e dura e não colaborava com nada, mas estava suficientemente mais elevada do que esse nível rasteiro de besteiras irrisórias. Minha avó a olhava intensamente, apertava a boca e fazia um leve muxoxo, estendendo o lençol e o batendo no ar para a poeira cair e as pequenas exsudações do corpo evaporarem, e mudava de assunto, se rendia. Sentia um certo orgulho por sua filha ser assim; isso vinha dela, ela também era assim, fácil de lidar, sem preconceitos e sem superstições, apenas que a velhice traz esses vícios e a gente só percebe que deve se exorcizar deles quando vê que está os colocando em prática.
       Por isso vovó emprestou duzentas pratas para minha mãe ir resolver aquela parada na capital e aceitara ficar comigo por uns tempos. Não havia parada, a vovó sabia. Poderia ser um aborto, apesar do que a barriga tanquinho de minha mãe teria sido fácil de detectar. Poderia ser uma dívida com o ex-namorado que a estava ameaçando. Minha avó não quis saber e minha mãe não quis explicar, nem tocaram no assunto. Ela só disse à minha avó que precisava da grana, não pediu e não usou de subterfúgios. Agora estávamos há meses apenas nós dois e o Capitão Bombo, e nenhum de nós nunca voltou a falar de Helena. Era a família das despedidas impronunciadas sem prazo de duração; a família da época em uma idade da infância em que a maturidade compulsória se mostra com a porta aberta da casa, ir sem olhar para trás; dos adeuses sem ressentimentos, sem dó nem lamúrias, como a família dos lagartos em que a mamãe lagarta bota seus ovos em um buraco no meio das britas ou no lixo e não liga a mínima para o que vai acontecer em seguida, deixa que o relógio da evolução siga seu lento curso milenar com suas altas cifras de rejeição natural e fracasso.
     Minha avó durante os meus primeiros meses ali nunca acordava antes das 10. Os dias de trabalho dos dois_ dela e do Capitão Bombo_, exigiam muito, eu não os via senão quando a tarde caía e o ruído da casa vazia e do fluxo de carros da avenida em frente formavam uma nebulosa sonora indistinta, programada a se romper com a porta sendo aberta e os dois velhos entrando cansados e satisfeitos, com sacolas e a bolsa da vovó acrescida de peso produtivo que eles lançavam sem muita cerimônia por cima da mesa da sala. Eles entravam com o Fiat Uno cinza na garagem, sempre dirigido pela minha avó, que ia de queixo colado no volante e o banco puxado ao máximo para a frente, nunca olhando para os lados e usando os espelhos retrovisores com uma espécie de prestidigitação premonitória que contava mais com o bom-senso dos outros motoristas em não se aproximarem do que da necessidade da vovó de deslocar o pescoço da imutável posição retilínea a fim de ver a concorrência nas vias públicas, o velho Fiat amassado dos lados e de pneus sem calotas mostrando o metal calcinado das rodas. Minha avó parava o carro na contramão, o motor ligado, e da porta do passageiro saia o Capitão Bombo, com uma vagareza ritualística que lembrava o palhaço do circo do fusca que se parte ao meio em uma labareda de fumaça, indiferente aos contratempos e o menos serviçal possível às atualizações da tecnologia, a barba cinza batendo-lhe no peito, o chapéu de praia deixando entrever o rosto afundado nas duas faces pela ausência dos molares, a calça caqui de brim comprada no brechó e a camisa verde escura e desbotada aberta até o quarto botão para combater o calor; ele se aprumava sem parar o trote e ia bamboleante e esperto até o portão gradeado, puxava o trinco e o abria de par a par, e com um gesto sério e divertido fazia uma vênia cavalheiresca para a vovó entrar com o carro, e assim que ela o fazia (sem lhe prestar a mínima atenção com os olhos maníacos dirigidos para a frente, talvez como prevenção para que os eventuais acidentes que amassaram as portas não se repetissem em um momento tão delicado), ele apressadamente entrava e fechava o portão, olhando para os lados com o que me parecia uma encenação dos filmes policiais assistidos nas madrugadas dos finais de semana de folga.
     O Capitão Bombo tinha mais de 70 anos, mas vou tratar dele depois. Agora quero dizer de uma vez por todas sobre o maldito café-da-manhã com que comecei esse relato. Como minha avó não havia previsto a entrada de um menino de 12 anos no seu cotidiano, ela se comportava como vinha fazendo desde sempre antes da minha presença. Ela retirava o que havia de sobras da janta do dia anterior da geladeira e colocava na mesa da cozinha, cobria com um pano de prato e era isso. Eu acordava geralmente na mesma hora que eles, porque velhos fazem um barulho descomunal até que consigam endireitar a homeostase dos corpos, com pigarros, bocejos, afinamento das vozes, flatulências, etc, mas sabia que era mais prudente fingir que acordava depois de deixá-los ir para ter a casa toda para mim. Quando não havia mais som algum depois que o portão era fechado e o casquejo do Fiat sumia na distância, eu me levantava do pequeno quarto, ia mijar no banheiro, escovava os dentes, e espionava o corredor até a sala. Olhava os montes de objetos sem nome atulhando os sofá e a mesa de centro, os pratos com cascas de banana que fazia dias estavam ali, as latas de refrigerante amassadas jogadas no chão, a poeira acumulada no armarinho do canto com seu jarro de flor artificial que retinha de uma maneira triste e hipnótica um raio de sol. E o silêncio que era a única manifestação de alguma plenitude, a calma profunda e inviolável que eu não conhecia em meus anos de peripatetismo com minha mãe por apartamentos no centro e quartos em repúblicas cuja rotina eram brigas internas e externas e muita televisão ligada no último volume e muita música chorosa e áspera vinda de todos os lados. Entrava na cozinha minúscula, com uma mesa de fórmica e duas cadeiras e a geladeira de duas portas rombuda e manca, que dava um agudo quando era aberta, e via o que tinha pra comer, que era, invariavelmente, a carne de porco da noite anterior envolvida em uma névoa gelatinosa de gordura, o brócolis murcho reduzido de suas proporções naturais por um cozimento exagerado, cenouras anãs, um pedaço de bife preto, uma garrafa de leite que dava um piparote no nariz quando se chegava perto do gargalo. Mas isso não me importava_ às vezes eu limpava a carne de porco da gordura, espremia um pouco de ketchup e comia_, eu nunca acordava com fome.
    Eu amava ficar na casa solitária observando o silêncio por horas. Talvez houvesse uma fome íntima, muito incrustada para ser percebida, e ela potencializasse aquela languidez, me fizesse ver coisas que só um doente e alguém à beira da morte vê. Eu nunca, conscientemente, tinha desmaiado e não poderia saber a diferença entre um sono à tarde e um desmaio. O que acontecia era que aquele silêncio aos poucos me fazia dormir; eu deitava entre as caixas e as roupas na sala, espichava os braços e pernas até o máximo e me entregava. Acho que eu me tornei magro demais e minha avó passou a perceber isso. Ela me fazia sanduíches generosos quando chegava de seus afazeres, e duas horas depois ela e o Capitão Bombo preparavam o jantar que era a única refeição importante para eles, o Capitão Bombo se dedicando às verduras e a vovó se ocupando com as carnes. Os dois não eram nada bons nisso, ou melhor, eram destituídos por inteiro de qualquer talento para a cozinha, e não sei como sobreviviam há tanto tempo a uma dieta fundamentada na gordura e na transfiguração das propriedades nutritivas dos vegetais. Mas alguma coisa a fez ter uma súbita lucidez sobre a diferença entre as necessidades de um organismo velho e de um organismo jovem, talvez ela tivesse se ocupado em ler algum artigo sobre o assunto em uma das revistas que apareciam em sua bolsa e nas sacolas que trazia, ou alguém lhe dissera sobre as obrigações legais que se tem que ter com uma criança, aquelas exigências estatais sobre saúde e educação que se confrontadas pode levar a problemas relativamente sérios com a justiça, e então, um dia, quando me levantei e dei meus passos cautelosos até a cozinha, vi que haviam pães por sobre a mesa, uma sacola cheia deles, e além disso um pote de requeijão cremoso na geladeira e um litro de leite fresquinho, e mais roscas e algumas bolachas recheadas sabor limão em uma cesta ao lado dos pães. Eu não duvidei de que aquilo tudo era para mim, mas entendi a mensagem nessa outra ponta da comunicação familiar da forma como tinha que entender, que aquilo não era carinho mas uma boa reconfiguração na busca por eficiência e facilitação que eram as leis do nosso sangue comum, a mesma coisa que estava na calma estoica e superiora de minha mãe, o mesmo desapego ao sentimentalismo.
      Eu descobri depois o sacrifício de ter aqueles café da manhã para minha avó. Ela passou a acordar de madrugada, às seis da manhã_ madrugada para ela. Ela vestia seu jeans batido amassado nos fundilhos, o jeans de borracheiro muito lavado e escoriado nas pernas; vestia uma camisa de babados no fundo decote entre os lautos peitos os quais outrora haviam sido parte de seu vantajoso aparato sexual; colocava um cachecol vermelho berrante nunca lavado e de cheiro imemorial de guarda-roupa destoando por completo de qualquer noção de moda ou juventude que na certa ela não pretendia nem um pouco ter mas que talvez alguém de fora achasse ser sua intenção. Ela calçava as chinelas baixas, muito gastas e seguras, imunes a poças de água e a todos os perigos do instável relevo das ruas; apanhava sua bolsa de couro parecida com um alforje de muitos compartimentos de um caçador de grandes mamíferos africanos, e saía pela porta com seus cabelos crespos tingidos de amarelo amarfanhados como um ninho de pomba, os óculos gordurosos com lentes bi-focais a auxiliando com a maçaneta e o molho de chaves, no que ela soltava murmúrios reflexivos demonstrando seus cálculos mentais, seus pequenos desvanecimentos de atenção que a faziam voltar para pegar algo esquecido, a carteira talvez, e saía pelo portão para a assombrosa atmosfera desconhecida do amanhecer progressivo. Há quantos anos não via aquele tom de luz, aqueles nuances de sombra, não via que tipo de pessoa se entregava à labuta já nas primeiras horas da manhã, velhas paradas no ponto de ônibus da esquina com caras de que tinham um longo dia na cozinha de alguma bodega pela frente, motociclistas passando com indolentes ziguezagues entre os carros, só ainda não exercendo toda a fúria porque o sono não permitia, todo mundo esquentando as turbinas. Ela deveria ter sentido um enfado profundo por se expor a esse mundo de pessoas triviais e ditas honradas, ter se colocado entre os motoristas de táxi e as empregadas domésticas na fila para pegar o pão. Isso deve ter sido demais para sua capacidade de abstrair-se da realidade.
       O fato é que ela, uma semana depois que as coisas mudaram, me informou na mesa de jantar que teria que achar uma escola para mim. Ela falava um tom mais baixo sempre que se dirigia a mim, como seu eu fosse uma peça de um protocolo ainda não estudado, conservado à parte, reavaliando algum subproduto de sua imaginação de como seria uma avó ajustada em suas estimativas sem ser ridículo. O Capitão Bombo, que picava um tomate assado semelhante a uma grande bunda de formiga enegrecida, sorriu e me olhou rapidamente; eu devolvi o olhar à procura de significados, se ele estava zombando de mim, se achava a situação fantástica demais eu sentado em um banco de frente ao quadro, mas era apenas um sorriso, sem nenhuma consequência. Eu estava disposto a cair na chacota com ele, mas era apenas um sorriso.
        No outro dia, uma segunda-feira empoeirada e aparentando ter mais horas do que o permitido, a vovó acordou às seis horas e foi comprar o pão. Eu me levantei e fiz minhas abluções antes que o Capitão Bombo começasse com seus concentrados aquecimentos corporais, e me sentei numa área do sofá desocupada, afastando para o lado uma echarpe azul piscina. Era o último dia em que eu ficaria no silêncio orbicular da casa e eu tentava aproveitar, pegar algumas informações extras, mas só senti uma nostalgia antecipada de uma fase da vida ficando para trás. Olhei a flor de pano e o mesmo raio de sol começando a se intensificar por sobre ela, e senti uma vontade imensa de ter direito a apenas aquele dia a mais entre aqueles objetos órfãos eles mesmos de tudo que vicejava e competia entre si lá fora. A luz por sobre a flor descia lenta mas decididamente, ciente de que cumpria uma lei cósmica, e ia aos poucos se equilibrando até achar a mesma configuração modular de todos os dias, e ficaria como uma redoma por sobre aquele triste a manchado pedaço de pano que a vovó devia ter comprado ainda na época em que minha mãe morava com ela, até que, vencido as horas estipuladas, começaria a desvanecer com a mesma delicadeza, retornando para seu limbo no meio da escuridão, tudo na mais perfeita e inviolável ordem, sem labutas, sem gritarias, livre das obrigações do charme, da beleza e da vida. Eu queria que a vovó me concedesse a permissão de pelo menos aquele dia eu poder me deitar entre a bagunça dos panos e dos pratos sujos e dormir em uma paz opiácea e feliz.
      Mas aí o Capitão Bombo já se arrastava pelo corredor, me lançando de lá um cumprimento ríspido de marinheiro, distraído e enebriado pelas neves eternas de seu caleidoscópio mental. E minha avó chegou com os pães, me disse algo em sua voz média que era o mais próximo ao carinho materno que sua imaginação oferecia sem cair no ridículo; e sentamo-nos à mesa e comemos fatias de pão quentinho e delicioso com colheradas generosas de requeijão cremoso por cima. E ela e o Capitão Bombo conversavam esquematizando como seria o trabalho naquele dia, ela falando alto para o que deveria ser algum problema de surdez reconhecida do Capitão, e ele respondendo em sua voz de fiapo de fumante que se tornara tardiamente abstêmio, em grunhidos de preguiça malandra de velho que escondia de propósito sua inteligência real. Minha avó falava ao velho que as escolas abriam às oito horas e eles deveriam me levar para uma escola que ela conhecia por ouvir dizer que ficava na zona leste da cidade. Pelo visto tudo relacionado à educação era um planeta desconhecido para ela e mesmo bastante insólito, e minha mãe não havia deixado nenhum tipo de informação sobre as minhas escolas passadas, e parecia que me perguntar diretamente sobre o assunto era algo que ela não pensara em fazer. Disse-lhe que na cidade de I., onde morei nos últimos 3 anos, cursei até o sétimo ano, ao que ela me olhou pelos seus óculos bifocais como se eu tivesse dito algo inapreensível e sem a mínima lógica, como se tivesse dito que cursei ourivesaria ou estudado fisiologia de marsupiais. Em seus circuitos mentais exercitar o avatar de avó não passava pela hipótese de que o objeto justificador do conceito pudesse ter voz ou consciência própria: eu tinha que ser um menino mais dependente possível para assim ela ter uma real dimensão das assombrosas e indeterminadas responsabilidades do cargo. Ela associava aprendizado a afogamento.
        Estávamos todos vestidos, o Capitão com um macacão manchado limpo, cobrindo-lhe a camisa de brim marrom, um boné ressaltando seus grandes olhos de louco suspensos no reino da barba branca, minha avó com uma camiseta com uma estampa de um rosto feminino de óculos de praia e lábios sensuais mordendo um canudinho de um drink, e a calça jeans gastas na parte anterior das coxas, e as sandálias baixas super-práticas que eram suas marcas registradas. Eu me vesti com uma bermuda bege, que Helena me dera em meu aniversário, uma camisa polo azul, e os tênis que foram mais um agrado intuitivo que minha avó trouxera para mim. Eram uns tênis novos, brancos, com o logo da Nike pintados um pouco distorcidos_ com aquela distorção que a gente não sabe como explicar mas não é sutil o bastante para que o olho do inconsciente coletivo fiel às defesas do sagrado mercado internacional não o perceba como uma falsificação apreensiva.
       Entrei no banco de trás do Fiat e minha avó se sentou em seu lugar de piloto. Ela ajeitou o banco bem para a frente, como se alguém além dela o tivesse movido para uma posição inconveniente, soltou um xingamento quando viu que as engrenagens não possibilitavam ir mais além, se virou para mim e esticou o braço para colocar a mecha do meu cabelo de volta colado à cabeça. O Capitão Bombo abriu o portão de par a par, olhando para o dia radioso com uma indefectível saúde, como se o mar estivesse à sua frente e não o ruído sujo e atulhado da cidade cinza. Fechou o portão e entrou no carro, e fomos para o primeiro dia de serviço em que eu poderia assisti-los.
      Não achamos a escola. Minha avó ficou contornando ruas do centro e nada. Ela falava para o Capitão Bombo ficar atento aos números nas plaquetas, e o Capitão Bombo colocava o cabeça para fora espremendo os olhos, e depois voltava com um murmúrio de dúvida. De hora em hora perguntava se tinham dado o endereço certo para a vovó, lançando, quando ela estava suficientemente concentrada nas buzinadas e nos xingamentos que os outros motoristas soltavam quando ela os fechava, afim de não levar uma bronca, se ela havia copiado a coisa certa. Por fim, a vovó estacionou o Fiat debaixo de uma castanheira anã de frente a uma das pequenas e soturnas casas de uma rua que parecia idílica demais para realmente existir, e suspirou fundo. "É melhor darmos uma pausa e irmos almoçar", disse, jogando com uma força surpreendente o manche das marchas na posição de ré, ao que ele soltou um trinado horrível como de um porco sendo estripado. O Capitão Bombo sorriu, aparentemente feliz com algo que não era desse mundo; averiguei se ele sorria porque o destino encaixava as coisas de forma benemérita para todo mundo, poupando o absurdo de um sujeito como eu de frequentar a escola e das eventuais professoras terem de me suportar, e estava prontificado a dividir o sorriso em concordância, mas, pelo que parecia, não era isso. O Capitão Bombo era uma figura! Como se adivinhasse meus pensamentos, se virou no banco e me encarou, abrindo ainda mais o sorriso, mostrando pela primeira vez os dentes tortos, fortes, negros e sobrecarregados. Eu sorri da mesma forma, não de todo contagiado por causa do incompreensível deslumbramento que me tomou, mas senti um toque de concordância entre nós que destoava da regra, menos fria e funcional.
      A vovó estacionou de frente a um restaurante popular. Estava lotado de gente, as mesas todas ocupadas, em silêncio feérico e diligentemente combativo, testando a aliviante educação de não se atracarem por causa da comida. A vovó me cutucou indicando uma mesa desocupada lá no canto, de frente ao banheiro masculino. Sentei-me em uma das cadeiras enquanto os dois se posicionaram na fila de se servir da comida, e logo as outras cadeiras da mesa em que eu estava foram ocupadas por dois homens e duas mulheres. Fique levemente em pânico diante a estupidez de não ter reservado de alguma maneira aqueles lugares, e fiquei com uma timidez estagnante em anunciar que eu estava acompanhado. Mas minha avó chegou, para minha total surpresa, abruptamente a meu lado, com o prato cheio e arrumado com aprumo em suas porções de arroz, feijão, verduras e frango ao molho, como por uma mágica ou por um gesto ensaiado, e indicou que era a minha vez de pegar o meu prato na fila. Sentou-se em meu lugar, limpando a garganta com o que imaginava ser uma delicadeza social para noticiar as pessoas à mesa que ela concordava em dividir o momento com elas. Havia um eletricidade contida, um prazer dissimuladamente predatório em seus modos, que eu atribuí à fome. Procurei o Capitão Bombo e não o encontrei. Fiquei num lugar bem distante do balcão com as bacias fumegantes de comida assim que peguei um dos enormes pratos na estante junto a duas moças nas caixas registradoras da entrada; a linha humana, em uma sobrenatural simetria, se movia vagarosa mas categoricamente; eu não precisava me mover com consciência que minhas pernas o faziam como por uma relojoaria instintiva. Eu tornei a procurar o Capitão Bombo, averiguando por todos os lados e na mesa onde estava a vovó, mas ele havia desaparecido. Um cara com a aparência dele, setentão, barba de sargaço e olhos de assassino, jamais passaria batido na multidão. Deveria estar no banheiro, pensei. Na minha vez, coloquei um pouco de arroz, dispensei o feijão, enchi o máximo que uma tênue noção de etiqueta me permitia o canto do prato com batatinhas fritas, resgatei uma sola de bife acebolado que se esfriava no fundo da bandeja de inox, e fui navegando entre os corpos até a vovó. Ela havia acabado de comer e se dedicava a estucar os dentes com um palito, usando a mão para tampar em sigilo a ação que transcorria em sua boca, e seus olhos tinham a mesma estranha dissimulada contenção focal que na verdade parecia estar em elevada observação a picuinhas secretas e indistinguíveis em torno. Ela se levantou com uma calma profunda, que me lembrou ao mesmo tempo minha mãe e uma amiga da minha mãe que vi um dia e que vivia sob uma pesada camada de estupefacientes, e me indicou com um gesto que era a minha vez de se sentar ali e almoçar. Com um olhar ela me comunicou que me esperaria no carro, assim que eu terminasse. Seria mesmo uma espécie de íntimo entendimento genético que na nossa família tinha, de lermos nossas mentes recíprocas?
      Impus-me a lembrança de olhar o nome do restaurante quando saísse. As pessoas, a conversa, o retinir dos pratos, o som das bocas mastigando, foram me envolvendo. Demorei para comer as batatinhas, salgando uma por uma e despejando o ketchup da mesa em cada uma delas antes de devorá-las. Era o oposto do que eu estaria fazendo na casa da vovó, deitado entre as anáguas e as camisolas e os triângulos de panos recortados, mas ao mesmo tempo equivalia em muito, como a outra face de uma moeda. Dei conta do que começou a acontecer ao meu lado, a mulher que se levantou eufórica e esbravejante, o homem que a acompanhou no levantar e passou a andar daqui para ali procurando por debaixo das mesas e em seguida por cima das outras mesas. Logo depois todas as pessoas estavam também em pé, e se olhando umas para as outras com caras de estarrecimento e tédio, como se aquilo que acontecia não deveria acontecer naquele local e principalmente enquanto almoçavam. Eu continuei depositando ketchup nas batatas e as enfiando com os dedos pela boca, respingando-lhes uns jatinhos de sal do saleiro, e as mastigava com gosto sentindo o quanto se pareciam com papel, tinham a tecitura e o sabor de papel, sem me desiludir porque havia comido centenas, talvez milhares daquelas mesmas batatas insípidas e gordurosas com gosto de papel pelos 14 anos da minha vida. E a mulher que primeiro se levantara parou agora em um desespero transmodificado, iluminado por uma revelação súbita, e daí ela olhou para onde eu estava, com um ódio que era puro assombro, e ficou me olhando pelo que me pareceu um minuto inteiro, embora naquele restaurante que eu deveria me lembrar de ler o nome na paliçada de frente assim que eu saísse, para me certificar se não se chamava Hades, ou Usher, ou que diabo fosse, o tempo não contava, o tempo nem o espaço contavam, vigoravam ali tempos e espaços próprios e destituídos das mesmas leis que regem o tempo e o espaço correntes e conhecidos_ ou talvez se chamasse, o restaurante, Limbo, ou o que fosse. Eu encarei a mulher com uma preguiça incrível, fruto do calor estonteante que fazia ali, sentindo um medo pré se formando, mas daí percebi que o que ela olhava não era a mim, mas os enquadros anteriores que voltaram no tempo diante seu olhar e mostraram a velha senhora septuagenária que ali se sentara alguns distendidos minutos antes de mim, embora minha avó fosse taxativa em dizer que tinha 68 anos e ainda não era uma septuagenária.
       Foi aí que eu vi o Capitão Bombo, estacionado em uma imobilidade insolúvel e irradiando uma impressão aflitiva de paz, parado em pé junto ao balcão a uma distância de três metros, parecendo que escolhera de propósito o holofote solitário de um raio de sol que vinha de uma pequena janela acima das moças da registradora para o distinguir em uma equívoca condição de ícone. Ele me olhava com um ar de total ausência, como se usasse a indistinta figura em borrão que eu devia formar no canto escuro de frente ao banheiro como escoro mental para se concentrar em alguma profunda meditação. Não havia sombra de pratos perto dele e um de seus braços se escorava com uma elegância raquítica no tampo de fórmica. O raio de sol o tornava ridiculamente feio, lhe retirava uns três quilos de seu já minguado corpo de velho, clareava em uma assepsia sem consagração toda a sujeira e entremeamento que dava robustez à sua barba. Nos fitamos longamente no meio da balbúrdia, e antes que a polícia chegasse para averiguar aonde fora parar a bolsa da mulher e não sei mais o que que davam por sumido a cada instante, ele saiu de seu alheamento e me fez um sinal para irmos embora, saindo à minha frente. Deixei o prato como estava, com alguma batatinhas encurvadas sobrando, peguei um guardanapo a título de ter algo para fazer com as mãos e fui furando o bloqueio.
        Lá fora não dei pelo Fiat. Desci a avenida e virei à esquerda. Havia um vendedor de limpadores de para-brisas do outro lado da rua, um negro com uma barraquinha de rádios de pilha, duas mulheres com lenços na cabeça esperando com diligência sabe-se lá o que sentadas num banco de madeira de frente a uma loja de produtos agropecuários, um grupo de agiotas conversando com muito ânimo nos degraus de uma agência bancária. Parei na esquina e fiquei uns bons cinco minutos sem fazer nada, só olhando os carros e as pessoas passando. Segui adiante e vi duas viaturas da polícia parados na rua perpendicular, fechando o Fiat cinza da vovó. Uma pequena multidão foi se formando em torno e eu me aproximei de um moreno troncudo, que parecia estar ali esperando por serviços ocasionais de chapa, e ouvi o que ele dizia sobre a situação para um senhor careca com ar de general aposentado. Nessas horas há uma simpatia irresistível e um senso de comunhão entre as pessoas, e senti que poderia ser amigo do sujeito e ficar ouvindo-o por horas. Ele usava um tom de voz que na certa não era o do seu dia a dia, um tom afável e prontificado. Dizia que a policia encontrara um casal de velhos que roubou uma bolsa no restaurante do Zé Bigode, uma mulher de 70 anos e um velho com uma barba imensa e com cara de louco. Então era esse o nome do restaurante, pensei, decepcionado. Desci até o centro da ação e me espichei nos tênis Nike para ver se via a vovó por sobre as cabeças dos espectadores, e a vi no final do meu movimento panorâmico debaixo de uma marquise, esplendorosamente digna, segurando a alça de sua bolsa no ombro e falando algo ao policial. O sujeito, rombudinho e com uma irrefreável tendência à mais vulgar força bruta, passou a gritar com ela. "A senhora está me desacatando; a senhora vai entrar sim na viatura". Então o sujeito fez algo deplorável: pegou o braço da minha avó e o torceu para trás, dando-lhe um torniquete desajeitado aprendido na academia, e lhe passou uma das algemas, e em seguida minha avó cedeu o outro braço e ele passou a outra algema e a imobilizou. Os cabelos da minha avó saíram de seu coque personalizado e ficou como um feixe de fumaça congelada apontando para o céu. Os óculos dela ficaram tortos mas não caíram. Ela foi colocada dentro da viatura, o sujeito tendo que empurrar sua cabeça para que ela, que era bem mais alta do que ele, pudesse entrar no banco de trás.
           Não vi o Capitão Bombo, mas na certa ele já estava sentado no outro carro.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides


Há coisa de um ano eu conversava com uma amiga por e-mail. Era um assunto do qual não me recordo, mas presumo que fosse sobre literatura ou, talvez, algumas das infinitas picuinhas inúteis mas interessantes que existem pela net. Na minha segunda resposta a essa amiga, eu lhe pedi desculpas pela demora do meu retorno, justificando que era por ter sabido que uma menina desaparecida numa cidade próxima de onde eu moro fora encontrada morta. A menina era vizinha da tia da minha esposa, de forma que já há quatro dias estávamos inteirados pelo facebook da notícia de seu desaparecimento, e que espanto e tristeza ao, naquela hora, a Dani me informar que o corpo fora encontrado abandonado em um canavial. Disse isso tudo a essa amiga, e a resposta dela foi "sinto muito", e continuou, no mesmo e-mail, a conversa trivial que estávamos tendo. E a reação instintiva que tive a essa recusa dela em participar de um sofrimento distante, que nada tinha a ver com ela, foi a de constrangimento por tê-la incomodado. Meu primeiro pensamento foi "o quanto fui provinciano e infeliz estragando nossa alegria inocente com algo tão descompassado e brutal". Ela tinha todo o direito a se negar a envolver-se nisso, mesmo o mais periférico possível: não era assunto dela, ela tinha lá seus enormes problemas de violência para digerir, os quais ela sempre havia sido educada o suficiente em não me incomodar com eles. Como consumidora, em um mundo onde o que se mais precisa é o respeito às leis que ditam o que é oferecido honestamente a ser consumido (sem nenhum adendo desconfortável e nenhuma letrinha miúda de enganação no pé da página), ela tinha o direito a ter o que a plataforma que estávamos consumindo em nossa conversa virtual prometia: trivialidade inofensiva e um passageiro e descompromissado afeto. Não seria ali que nos tornaríamos cúmplices de uma vivência tão pesada como o assassinato de uma criança. Ela me ofereceu uma lição elegante: a de que veículos previstos para o formato de anedotas simpáticas são assepsiadamente desprovidos da mínima profundidade, ali não se deve entrar indícios do real; eu, lhe havia antecipado uma notícia que na noite daquele dia estaria em todos os telejornais do país. A lucidez dessa amiga quanto a utilidade formal das comunicações pela internet foi tão certeira que, hoje, já não somos mais amigos.

Existem mais dois casos que me vieram à cabeça que se relacionam à minha leitura de Virgens Suicidas. O primeiro é que nesse exato momento em que escrevo, ouço o barulho de uma serra elétrica em frente aqui de casa, do outro lado da rua. Meu vizinho está, ao que tudo indica, construindo um bunker. Desde um ano que o movimento de pedreiros, eletricistas, e toda espécie de funcionários de construção, é intenso e ininterrupto ali onde esse vizinho determinou que se erguesse seu escritório de advocacia e, mais atrás, a sua residência. Esse vizinho é dono de uma rede de dez lotéricas, distribuídas por várias partes do estado, e, aos 50 anos, se formou em direito. Praticamente não se vê nenhum movimento em seu escritório, mas ele o abre e cumpre suas oito horas de expediente todos os dias, enquanto sua esposa toma conta da verdadeira fonte de renda, que são as casas lotéricas. A Dani espia pela janela e me pergunta o que ele está construindo, e eu lhe digo, seriamente (apesar dela achar que é brincadeira), que ou nosso vizinho é um adepto de alguma seita que crê que em uma data próxima para o fim do mundo, e está juntando toneladas de cimento na construção de um bunker de sobrevivente, ou ele faz parte de alguma facção terrorista e a qualquer momento esse aparato todo vai se abrir com um grande estardalhaço e uma bomba de urânio vai se projetar da terra na ponta de uma cauda de fogo. A Dani diz que ele não tem onde gastar dinheiro, como os faraós, e ergue e re-ergue infinitamente uma espécie de pirâmide sepultural em honra a seu nome. A única pessoa que sei que entrou no escritório me disse que lá existe uma ampla estante forrada de livros, e que, o ilustre lotérico diplomado, perguntado se leu algum deles, disse que não tem tempo para essas besteiras.

Tudo bem, vou chegar lá, peço paciência. O último caso é um processo judicial já citado por aqui, em que o prefeito da cidade onde moro ganha o direito de retratação por parte de um rapaz que o havia caluniado pelo twitter. A retratação foi publicada no twitter do rapaz da seguinte maneira: "O sr..., foi condenado a pagar 1.500 reais, em dez parcelas, por danos morais, ao prefeito..., por ter dado publicidade via twitter a improbidades administrativas do referido prefeito". Essas mesmas palavras foram publicadas em um jornal impresso local, que foi onde as li; mostrei aquilo para vários amigos e conhecidos, pedindo o favor de que eles interpretassem o que estava escrito ali; digamos que de dez pessoas a quem inquiri (pessoas com curso superior e certa proeminência intelectual na cidade), apenas duas notaram que havia algo de errado na retratação, pois a nota reafirmava o que o tuiteiro havia escrito na mensagem caluniosa sobre a qual caíra a condenação da justiçao prefeito.... cometera improbidades administrativas. Achei aquilo de uma astúcia genial por parte do tuiteiro, e não descansei enquanto não o achei pelas ruas para dar-lhe os parabéns. E que espanto o dele ao ouvir essas minhas palavras; ele não reconhecia nenhum mérito na coisa, não havia percebido nada da ironia que eu atribuía àquelas palavras; me olhava com a tristeza consumada de quem jamais iria entrar novamente naquelas refregas caras contra o poder, que havia lhe custado tanto dinheiro; e me comunicara que recebera a retratação pronta, feita de próprio punho pelo prefeito.

Agora podemos chegar ao livro do senhor Eugenides. Li-o duas vezes_ olhem só que perda de tempo exorbitante_, e digo, para minha total derrota, que foi uma das cinco obras que me causou um nostálgico recolhimento espiritual em épocas mortas da minha juventude, a me chegarem às mãos nesses últimos dois anos. Li-o na tradução da Rocco, e, depois, nessa tradução que se mostra na ilustração ao post, da Cia das Letras (como sempre me ocorre, me agarro mais ao primordialismo da experiência, e por isso gostei mais da primeira_ mas ambas são ótimas). Recordei do meu peripatetismo pela metrópole, meu casaco flutuador que minha esposa apelidou de "tô em todas" (por sempre aparecer nas fotos minhas do período, as fotos assustadoras em que um rapaz raquítico com triste ar de presa distraída me olha sem se importar a mínima com o futuro), meus cabelos grandes, e mais: minhas andanças autistas pelas bibliotecas, as estantes empoeiradas, as velhas funcionárias iletradas, donas de casa com uma tristeza equinodérmica cujos maridos dariam glória a Deus diante a disparatada imaginação de verem-nas com um amante, que tinham a obrigação de só colocar os nomes dos livros nas fichas de empréstimo, sem que precisassem olhar aqueles objetos com o mínimo amor ou a mínima previdência defensiva. Foi ali, na biblioteca da praça principal, enquanto o som da cidade não parava, que eu me dedicava ao propósito morto de ler o que me caía às mãos, e sempre me caía às mãos obras assopradas por anjos da inutilidade, objetos de esquemas de uma ocasionalidade que não beneficiava a segurança pragmática de uma vida utilitária. Ali eu li meus Hemingways; li uma belíssima coletânea de contos de Cholokov, com capa esfacelada e cheiro de pó de leprechau, que me enterneceu diante a fantasia de que Lênin era o grande pai que o garotinho perdido da família procurava; li poetas locais que nunca mais apareceram e que na certa me devem esse momento de mediunidade por tê-los resgatado do indevassável limbo, e que me ficaram dois poeminhas singelos que os tenho como os mais belos da minha vida: "Hoje vi soldados cantando por estradas de sangue'", e esse outro: "Cresci trocando sonhos por realidade, e senti calafrios". Li meu primeiro Faulkner, que achei ser o último. Li Kazantzakis, uma peça de Ibsen que julguei ter me fulminado inconsolavelmente; li um livrinho de Richard Ford, esse escritor vivo norte-americano já esquecido, que é o que de melhor se tem em novelas naquele país, Vida Selvagem.

Pois bem. Não quis fazer comparação entre eu, o cara certo e coerente, e eles, as pessoas auto-enganadas. Só tenho claro em mente, de maneira muito triste, a certeza de que obras como Virgens Suicidas são inúteis hoje em dia_ ou assim me parece. É um romance que trata com tanta arte, com tanta sutileza e elegância sobre a incondicionabilidade da mulher na sociedade, que me assusta.  Muitos tem-na comparado a Nabokov, o que julgo preciso pela linguagem elevada e o alto nível da inteligência geral empregada, mas, de certo ponto de vista, supera Nabokov. Se Lolita, essa geometria perfeita das letras, é puro prazer estético, Virgens Suicidas é uma antítese à gratuidade inerente às perfeições extremas (ou as quase perfeições, já que nas letras não se encontra perfeições mozartianas e rubensianas), pois oferece, num grau de astúcia inatingível para o padrão de leitura comum, esse objeto anacrônico e aberrante chamado moralVirgens Suicidas dialoga com Lolita, e ambas as obras são tão fortes que se tornam independentes de seus autores. Mas Lolita confirma o que diz Bellow em seu ensaio Escritores, intelectuais, políticos: sobretudo reminiscências, de que escritores raras as vezes são intelectuais. Em Lolita nós vemos um exercício literário, uma virtuose das qualidades do talento de seu autor, um uso de tal forma pleno da inteligência artística que causa no leitor essa supressão do julgamento que as grandes obras de arte causam. Só alguém muito equivocado veria em Lolita uma apologia à pedofilia, mas, por mais paradoxal que seja, não excluo a legitimidade do equívoco de que leem dessa forma a esse romance. Em um belo artigo sobre Proust, Marcelo Backes salienta que o grande romance de Proust é muito, mas muito mais que os clichês de salão das madeleines molhadas no chá, que o grande romance de Proust é uma riqueza que transcende sua forma física, é um ganho espiritual único sobre o mundo, a existência, o homem, e todos os assuntos pertinentes a esses sujeitos. Proust não é apenas literatura, mas um alargamento poderoso da consciência. Proust é, então, uma enorme responsabilidade, pois o que poderemos fazer depois para a manutenção desse espólio nos oferecido? Lolita é todo um belo caso clínico, não angaria nenhuma responsabilidade em quem o lê: vemos a derrocada mental de Humbert Humbert como quem vê a cena da formação do magma do vulcão em documentários extraordinários sobre as leis da natureza, como Planeta Terra, algo que deveria acontecer assim para fechar um ciclo lógico que serve a determinado fim inevitável, a formação de novas paisagens geográficas, no primeiro caso, ou a relojoaria estética da decadência significativa no romance, no segundo. Lolita não nos cobra pelo lado moral, é um romance amoral (não imoral, como querem uns poucos); nós, os adeptos à sua relevância palatável, o defendemos ardorosamente no que tem em sua íntegra e imprescindível gratuidade, contra a adjetivação pornográfica e pedófila do grande império das más intenções e más interpretações que se formou em torno dele. Nabokov não é um intelectual, é, tão e somente, um escritor. Ele não tem a mínima responsabilidade sobre o que escreve, pois não exige nada mais de ninguém a não ser o deleite sobre o que escreveu.

Virgens Suicidas vai num caminho oposto. Posso afirmar que Eugenides pretende ser mais que um escritor aqui. Eugenides almeja ser um intelectual moralista. Não há nada de condenável nisso, já que os maiores escritores da historia são moralistas. O que soa anacrônico é para quem Eugenides escreve, em uma realidade moderna em que o romance está na berlinda e apenas uma pequena classe de adeptos se importa com ele, e uma pequeneza menor ainda entre adeptos pretende que o romance atual comporte grandes revelações totênicas proustianas. Mas, na contramão dos prognósticos negativos, os escritores atuais ainda continuam, fervorosamente até, compondo romances.  Há os que falam sobre a banalidade do mal durante o nazismo (As Benevolentes), sobre a banalidade do atraso político revertido na banalidade do assassinato em série (2666), os que falam sobre a dessensibilização colorida e cosmética das relações humanas (Os Enamoramentos), os que falam de abraços entre renegados pela exaustão da vida, como paliativo contra a História (Soldados de Salamina), os que falam da dança e da amizade, como paliativo contra a História (Dia de Finados), os que falam sobre reinos metafísicos instalados na mais profunda esperança do mais profundo coração estoico (Contra o Dia). Pois a nenhum desses grandes romancistas por detrás desses livros mencionados escapa que suas mensagens devam ser enviadas por entre montantes de arte irônica, figurativa, sarcástica, metastaticamente imagética, prolixamente neônica, sexualmente instigante. A mensagem subliminar deva vir como um código por entre miasmas de satisfação imediata. Mas eles o fazem apenas até o limite a que vai a motivação moral que os levaram a optar pela escrita em um mundo em que as ciências humanas estão se apagando (me lembro agora que nesse ano sobrou um número recorde de vagas na Federal de Goiânia, para os cursos de humanas). 



Há uma parte em Virgens Suicidas em que um médico pergunta para uma das cinco irmãs por que ela tentara o suicídio, ao que a menina responde: "O senhor não sabe o que é ser uma garota de 13 anos". Na inesquecível cena final, é com uma artimanha sexual que as garotas conseguem realizar seu propósito, graças à eterna objetificação que os meninos da rua fazem delas. É graças à teatralização do sexo, que os meninos esperam ter, que as meninas conseguem atingir seu objetivo. O romance é narrado em primeira pessoa do plural, pelos adultos em que se tornaram esses meninos. As irmãs Lisbon, as virgens suicidas, são lembradas no que tem de fetiche consumível, seus cheiros estomacais, suas olheiras, seus cabelos louros desgrenhados, suas calcinhas usadas ajuntadas no inquérito policial e vistas após anos dos eventos. Por mais que os narradores tentem entender o motivo das mortes, é só com a extenuação das tantas hipóteses levantadas que eles conseguem vislumbrar uma razão, já no final do livro: "No final, as torturas que haviam dilacerado as Lisbon apontavam para uma recusa simples e lógica de aceitar o mundo como lhes era oferecido, tão cheio de falhas." Há na contracapa da edição da Rocco essa avaliação sobre o romance, como um lenitivo mercadológico: "ao contrário do que possa parecer, este livro é tudo menos triste". Se trata de uma enorme mentira, que o autor diagnostica no meio da narrativa, ao escrever "o que minha tia nunca conseguiu entender na América é por que todo mundo finge ser feliz o tempo todo". O livro é tristíssimo, e de um beleza inigualável. Mas para quem Eugenides fala, em um mundo onde a percepção da ironia se atrofia à velocidade assustadora, em que as sutilezas do discurso se perdem pela exposição massiva a reality shows grotescos, em que mesmo as pessoas que tiveram a melhor educação ortodoxa (ou, em razão disso), são treinadas a não se importarem mais com o próximo, a não ser através de redes sociais em que podem simular o amor de maneira efêmera e confortavelmente anestesiadas, sem compromisso? Talvez a lógica desse exercício contínuo da escrita não esteja de todo no controle consciente do autor, e ele é movido por um moto universal que esteve por detrás das estatuas da idade média cujos feitores as colocavam no alto das catedrais justamente para não serem vistas_ a mensagem sendo algo invisível e intocável, mas ainda assim não perdida, sentida por um cambiamento palimpséstico de alguma forma pertencente à espécie inteligente. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Joseph Anton, as Memórias de Salman Rushdie



Uma das ironias que recheiam a auto-biografia de Salman Rushdie é que, durante os doze anos nos quais o autor estava sentenciado de morte pelo aiatolá Khomeini, na iminência constante de ataques por parte dos incumbidos a cumprirem a fatwa (e ganharem o prêmio de um milhão de dólares avaliado para sua cabeça, que subia cada vez mais, oferecido por um dos novos aiatolás), vivendo em acirrada vigilância da Divisão Especial da polícia inglesa e sem endereço fixo, foi ele quem sobreviveu e viu vários de seus amigos e intelectuais de vidas mais amenas sucumbirem pelas mesmas causas prosaicas de sempre. Rushdie reflete essa surpresa impotente ao escrever: "O câncer dominou Angela Carter, e, embora lutasse arduamente, ela não o derrotou. Em todo o mundo, grandes escritores estavam morrendo cedo: Italo Calvino, Raymond Carver, e agora ali estava Angela lutando com a Parca. Uma fatwa não era o único meio de morrer. Havia sentenças de morte mais antigas que ainda funcionavam muito bem." Nas próximas páginas, outros personagens da vida de Rushdie recebem o diagnóstico de câncer e seguem com uma sobrevida para o mesmo destino: sua ex-esposa morre de câncer, seu amigo Edward Said de leucemia, Allen Ginsberg de câncer inoperável no fígado, John Diamond de câncer na garganta. Rushdie se denomina um ateu apaixonado por religião; toda sua obra está pautada por símbolos e termos religiosos; diz no questionário Proust ser religião a palavra que mais abomina; de forma que não seria simples questão de uma mente paranoica achar um sentido de prevenção verdadeiro na condenação explosiva e sem qualquer concessão dos ateus ortodoxos à religião, e, por consequência, relacionar o mal que se abateu sobre ele como um preço caro que teve de pagar por sua leviana curiosidade aproximativa. Enquanto seus amigos viviam livremente, viajavam e eram ativos participantes da vida cultural global, criavam suas famílias ou podiam traí-las por direito, tendo o livre arbítrio de morrerem com os mesmos dramas e a mesma resignação diante o inevitável, Rushdie viveu em estado suspensivo, envelheceu e engordou, passou sete anos sem escrever que o convencera de ter perdido o talento, esteve distante do filho e perdeu a esposa, e seu cotidiano era de uma clausura infinita em que ouvia suas opções de normalidade como permissões restritas para saídas vigiadas às ruas. A invisibilidade cuidadosamente imposta determinou essa sobrevivência sobre os demais, sem valor, que foi para ele o maior dos infernos.

Não é menos irônico reconhecer que os críticos de Rushdie possam estar certos ao dizerem que também foi o confronto do autor com a religião que o tornou famoso em todo o mundo. Em boa parte da década de 90, no período entre 1989 e 2002 em que durou a fatwa, Rushdie foi o segundo homem mais conhecido do mundo. Antes disso, havia ganho o mais importante prêmio literário inglês, o Booker Prize, por seu romance Os Filhos da Meia Noite, e escreveu depois um outro romance representativo, Shame, antes que se tornasse interessante para a História. As partes mais deliciosas de sua biografia são as que se dedica a descrever o processo de concepção de seus livros; Os Filhos da Meia Noite (que segue sendo o livro o qual, pelo valor artístico e pelas amplas qualidades da prosa e da imaginação, o tornará lembrado como escritor), veio pelo mês de aprofundamento na alma da Índia, na excursão pelo interior do país realizado com o estipêndio da publicação de seu primeiro romance, a percepção whitamniana da ebulição do povo, as sonoridades das línguas e a impossibilidade de aquietamento das ruas efervescidas. Quando ele passa a descrever as formas de conexão de ideias que gerou Os Versos Satânicos (que segue sendo o qual o tornará lembrado pela história), a inocência e alegria com que o então jovem promissor escritor indu-britânico recebe a liberdade de se expressar pela arte é carregada por negras premonições tardias. E o mais terrivelmente irônico de tudo_ para continuarmos nesta hipótese de condução de um destino por forças metafísicas que estão mais propícias a serem definidas como sarcásticas_ é que o cerne de Versos advém de um erro admitido pelo próprio profeta Maomé no Alcorão. Quando Rushdie estudava em Oxford, foi o único participante de um curso optativo sobre as raízes histórias do Islã oferecido por um de seus maiores entendedores; ele recorda que foi, também, seu primeiro ato de confrontação ao sistema, visto que a universidade cancelara o curso por falta de interesse do corpo discente, mas o incipiente Rushdie, que tanto se silenciara diante as discriminações raciais sofridas por ser negro, ter as maiores notas, e não gostar de futebol (as três características que, em separado, podiam valer para tornar-se socializado com sucesso, mas cuja presença das três definia o aluno como um excluído permanente), perseverou com o diretor sobre as regras internas de que, havendo um só aluno matriculado na disciplina, o instituto era obrigado a ministra-la. Ali, junto ao professor de ar recolhido (uma mostra do talento de Rushdie por desenhar personalidades enternecedoras), ele toma conhecimento da surata 53, os assim definidos pelo islã como versos satânicos registrados no Alcorão, em que Maomé dita a mensagem que, num primeiro momento, diz ter ouvido de Alá, na qual é oferecida a possibilidade de reconciliação da nova religião com as três entidades pagãs adoradas em Meca (al-Lat, al-Uzza e Manat). Como os seguidores do profeta, diz Rushdie, rejeitaram enfaticamente essa admissão súbita de uma trinca de deidades auxiliares ao único deus, Maomé rapidamente corrigiu o erro afirmando que Alá o alertara que tal recitamento fora-lhe entregue por Satanás, que se fez passar pelo divino, e, portanto, era para desconsiderá-la imediatamente. As implicações políticas do erro fomentaram a proto-ideia do romance na cabeça de Rushdie (a vantajosa aproximação da ainda avessa Meca à nova religião, através da urdida aceitação de seus deuses), e os símbolos satânicos e de redenção aplicados à realidade do fim do século XX serviram à composição da historia em que Saladim Chamcha, o diabo, e Gibreel Farishta, o anjo, sobrevivem a um acidente aéreo caindo na Inglaterra.

Está-se pronto Os Versos Satânicos, e aqui, a narrativa de Rushdie em sua biografia sofre perceptivelmente, como não deveria deixar de ser, uma mudança de tom. A descrição progressiva do pesadelo da fatwa forma uma sequência de páginas de inigualável estudo sobre como a realidade, como coesão imposta por fatores que servem a uma rede de conexões políticas manutenciada, é uma obra de fantasia tenra, sujeita a se quebrar por um impacto dado de forma precisa. E esse impacto inicia-se com aquela inofensividade falsa dos pesadelos, aquela docilidade peçonhenta cujo veneno maior é não indicar nenhuma ameaça à imunidade cotidiana. Uma jornalista de um jornal iraniano lê os Versos, detecta a singular ofensa e a apostasia; a matéria chega em mãos de uma aiatolá Khomeini alquebrado e posto em uma delicada linha de descrédito por seus próprios sequazes devido ao desgaste das tantas mortes de iranianos na guerra contra o Iraque, e esse aiatolá, numa astúcia salvadora, percebe ali uma chance de recuperar a estima junto ao povo. Rushdie é dado como um grande presente restaurador para Khomeini, uma impulsão que ele precisava para justificar a morte de jovens iranianos na guerra através da renovação da fé em um propósito ainda mais violento e fanatizante: ele institui que Rushdie ofendeu o profeta e a Alá, de forma inadmissível, e a única maneira do islã recuperar o respeito e impor sua distinção religiosa ao ocidente é assassinar  o demônio que escreveu o livro insultuoso e cheio de prostituição e blasfêmia, Os Versos Satânicos, cujo autor é Salman Rushdie.

Com essa distorção extrema de toda a segurança pretensamente oferecida pela democracia ocidental, Rushdie, pelas extensas páginas de sua biografia, pragmatiza para a vida ensolarada das grandes metrópoles tidas como resguardadas, numa série de descrições que se transformam em uma visível transposição esquemática do diário que manteve na época, o simbolismo da opressão das obras de Kafka, o alerta até então restringido ao universo da literatura sobre a perecividade do humano diante as forças do mal. Ler essas páginas é desmistificar o Rushdie elaborado por 15 anos pela imprensa e pela mídia corporativa que envernizava a realidade passando a imagem de ativa colaboradora da democracia. Lembro que, ao ver Rushdie pela primeira vez anunciado na televisão, quando eu tinha lá meus 15 anos, na matéria em que o repórter segura em mãos a capa famosa simulando um mármore azul da edição em capa dura inglesa de The Satanic Verses, e falando sobre seu decreto de morte, o adolescente que eu era raciocinou dentro da certeza de que o ocidente que passou pelo iluminismo iria dar conta do recado e resolver da melhor forma possível aquela aberrante injustiça. Jamais me ocorreria a possibilidade de que Rushdie fosse deixado de lado e, hipótese ainda mais impensável, condenado por essas mesmas forças ocidentais como o verdadeiro culpado daquilo tudo. Por isso é um tanto claustrofóbico ver o quanto Rushdie esteve na  iminência de ser abandonado a seus assassinos, pelo governo inglês que estudava incansavelmente uma forma de retirar os serviços de proteção, alegando que era uma oneração gratuita demais e excessiva (comparando que Thatcher os tinham por prestar enormes serviços à sociedade; mas o que ele oferecia em troca?); o quanto pessoas vistas como esclarecidas e até então respeitadas por mim como artistas e intelectuais defenderam que Rushdie fosse morto, como é o caso de Cat Stevens (ou Yusuf Islam, que, constrangedoramente, nega sua apologia estúpida ao assassinato hoje em dia, mesmo sendo confrontado com os artigos de jornais que escreveu e as imagens gravadas), e John Berger (que, movido pelo mais canhestro esquerdismo, afirmava que Rushdie deveria ser morto pois assim queriam milhões de muçulmanos, e as massas jamais estariam erradas). O quanto os políticos desviavam a atenção, propositadamente, do caso Rushdie, se negando a recebê-lo em seus gabinetes, pois seus países tinham acordos comerciais com o Irã e eles não queriam prejudicá-los por um motivo tão irrisório (!!!). Como diversos países negaram a entrada de Rushdie; como jornais importantes dos EUA publicavam artigos ensandecidos de representantes importantes do islã, reiterando o prêmio pela cabeça de Rushdie, e afirmavam que o faziam pelo direito de expressão garantido pela democracia. Esse isolamento é representado pelo pseudônimo que a equipe de segurança do autor recomendou que Rushdie adotasse; vendo-se sem o direito a conservar esse traço legítimo de sua personalidade, Rushdie criou a composição dos dois nomes dos escritores que mais admirava para se vestir de um outro nome: Joseph Anton, Joseph de Joseph Conrad, Anton de Anton Tchécov. (Quem se interessa por Rushdie e leu sobre ele nesses últimos anos, com certeza se deparou com vários retratos de um escritor maníaco, martirizador violento de suas esposas, egocêntrico, esnobe; um gárgula a que juntaram insinuações de lascívia sexual que cai com precisão estudada às suas sobrancelhas capricornianas e suas pálpebras caídas, assim como se demoniza V.S. Naipaul como portador das mesmas excentricidades; uma outra parte compensadora dessa biografia é ver como o autor se desmistifica dessas simplificações criadas nos anos em que ele se tornara invisível, e passível a se visibilizar com qualquer máscara colocada de fora.)

Claro que Rushdie não foi o primeiro nem o último a sofrer esse tipo de perseguição religiosa, mas, a descrição do outro lado, do lado radioso dos que o defenderam, ilumina a escuridão dessas páginas e mostra que foi uma conflagração de quantidade inédita de intelectuais em nome de um escritor, no século passado. Rushdie escreve, com incontida comoção, o quanto a elevação de vozes pelo mundo todo mostrou, enfim, que ele não se dirigia desguardadamente para a própria aniquilação. Estas páginas reacendem o interesse dos que gostam de biografias de escritores, pelo que estas oferecem de intimidades do mundo das letras. Aqui há conversas com Günter Grass, Paul Auster, Chistopher Hitchens (admirável pela frente que tomou do caso, abrindo portas, quase aos ponta-pés, de políticos e representantes de organizações internacionais), Martin Amis (também sempre presente, e protagonista de um mea culpa por parte de Rushdie por um Rushdie bêbado ter se comportado tão infantilmente com ele, em um bar), Mario Vargas Llosa, e uma série de outras personalidades. Graças à visibilidade que este grupo promoveu, os líderes políticos se viram obrigados a arvorarem a defesa da democracia e do uso sem censura da palavra, tendo que colocar restrições econômicas ao Irã_ a Suécia, numa atitude reveladora, mesmo antes dessa defesa de Rushdie ter sido construída, já rompera um tratado de 1,5 bilhões de dólares com o Irã, a título daquele país retirar a fatwa. Mesmo autores que não participaram ativamente da defesa, aparecem no livro como instigadores de fé, o que rende cenas memoráveis: Thomas Pynchon recebe Rushdie com sua comitiva em sua casa, e se põe a monologar até altas horas da noite, ao que todos, exaustos, se negam a interromper o momento, pois, afinal, é o Thomas Pynchon. Na casa de Carlos Fuentes, este passa o telefone para Rushdie, e eis que é o Garcia Marquez, que o brinda com uma longa conversa,  e que diz ser ele, junto com Coetzee, os escritores que mais lhe interessam, sem tocar uma só palavra sobre a fatwa, o que é o maior elogio já recebido por Rushdie.

A biografia de Rushdie é a mais sui-generis das biografias de escritores. Há algumas partes atiradas a esmo, que causam a impressão de entrave na velocidade da leitura, em que fica óbvio serem partes tomadas dos diários do autor: reuniões com secretários de segurança, com representantes políticos, com entidades governamentais. Mas como não cair nesses impasses da inércia alguém cuja vida, por um longo período, se restringiu à excisão de sua liberdade cotidiana? A diferença de ritmo entre a biografia de Rushdie e de outro escritor aprisionado, como Soljenítsin, é que esse último tinha o interesse da opressão em sua forma clássica, em sua violência física premente, em sua restrição de espaço o qual tinha-se de procurar as compensações espirituais nos refúgios do recolhimento mais íntimos; já a Rushdie não foi oferecido esses amplos campos de arames farpados nem as celas de paredes umidificadas das prisões siberianas _na surrealista escala das formas a que podem chegar as casas dos mortos, a contínua ironia, a mais cruel, de sua prisão, era ele dispor de tudo, mas ser limitado a passar ao largo, em sua compulsoriedade de ser invisível.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Sobre a possibilidade de se a alma humana possa ainda interessar ao demônio_ uma leitura de Doutor Fausto, de Thomas Mann



Em certo romance de Saul Bellow, o narrador questiona se existem divindades, mesmo que demoníacas, que ainda se importam com o destino humano. Thomas Mann vai mais além jogando com esse ceticismo durante toda a sua última magnum opusDoutor Fausto, servindo-se para isso de profundos e muitas vezes sutis simbolismos, que vão desde o estilo anacronicamente rebuscado (desamparadamente atrás de um impossível helenismo), até à representação jocosa de um demônio bonachão e alcoviteiro, desinflado de quaisquer atributos de provocar medo. Reler Doutor Fausto no século XXI revolve todo esse peso multifacetado imposto pelo autor dando direito ao leitor de se chocar com o quanto Mann é atual e, recaindo aqui em um clichê não por isso menos verdadeiro, estava à frente de grande parte dos outros escritores de seu tempo. Embora A Montanha Mágica esteja à frente de Doutor Fausto na ordem de grandeza dos romances em alemão do século passado, existe uma enorme distância entre esses livros, de tal forma que os maravilhosos diálogos e monólogos filosóficos de personagens como Lodovico Settembrini, que se vê no primeiro, só às custas de um sarcasmo imoderado poderiam aparecer no último. Doutor Fausto é o elo mais forte do prosseguimento, senão mesmo o fundador, da literatura da brutal mea culpa e do retorno ao primitivismo espiritual depois da destruição de toda herança humanista que passa a acontecer na Alemanha, sendo Günter Grass seu principal continuador. DF é um romance de uma terribilidade e negritude que exige do leitor uma experiência real para se poder enxergar a devastação que ele traz. Minhas duas primeiras leituras dele não me tiveram nessas condições, de forma que na minha infância, quando o li pela primeira vez, eu só pude ver a superfície enganadora do humanismo, não percebendo que se tratava de uma angustiada elegia, e em meus trinta anos, em minha segunda leitura, eu ainda estava sob o efeito da propaganda em torno da grandeza de Mann e isso atrapalhou ver o quanto os arquétipos estéticos escondiam a complexidade da mensagem. Tendo-o lido pela terceira vez, em meus 42 anos, a pátina das tantas coisas que o passar da juventude e a admissão das circunstâncias inescapáveis da vida nos vai fazendo, tanto as boas coisas (como a paternidade) quanto as más (a quebra do egoísmo anestesiado que advém com a paternidade, ao enxergar subitamente o mundo como uma casa em processo de destruição na qual se teve como última consequência de tal egoísmo a imprudência de nele se colocar filhos), nos dá a disposição mais aproximada para apreendermos o grande horror do Doutor Fausto.

A começar pela compreensão certa de seu personagem principal, o compositor Adrian Leverkühn. Trata-se, sob amplos aspectos, de um artista medíocre. Não há nele nenhum traço da genialidade da tradição dos grandes compositores alemães e austríacos. Não há nele o ensejo de seguir em um antagonismo reacionário a tais compositores, no estilo revigorante que criadores musicais tanto da Europa quanto da América frentearam no século passado nas tantas experiências com o dodecafonismo, atonalidade, minimalismo, etc. Leverkühn, entretanto, é profundamente interessante como artista por ser, em uma profundidade de mesmo porte e frontalmente original, profundamente humano. Seu humanismo é expresso em uma lucidez tão impactante que se pode ver que o excesso se lhe revela um inferno desde quando ele era criança. Mann aqui começa sua fina catedral com um símbolo: no pressuposto de impossibilidade de que se faça poesia após os horrores de Auschwitz, na célebre frase de Theodor Adorno, Adrian Leverkühn é a encarnação desse silenciar peremptório e dessa impotência voluntária e inexorável à beleza. Não uma impotência, corrijo, mas a atenção veemente em abortar no mundo qualquer mínima expressão que a beleza ouse ter. Leverkühn, por isso, é arredio a todo contato humano, a toda coaptação, a todo pertencimento. Ele é a pragmatização da insofismável verdade de que não há divindades zelando pelo destino humano, de que não existe deus ou o demônio que perca tempo com os interesses do homem, verdade consolidada em definitivo com a perda de qualquer luz especial que o homem acreditou ter pelos horrores cometidos por ele os quais Auschwitz é apenas a ponta do iceberg. Leverkühn é o último homem íntegro, no paradoxo de ser o único que enxerga tão adentro a inocuidade da espécie a que pertence. Em oposição a ele temos esse outro personagem que é mais uma expressão da genialidade dessa obra: o narrador Serenus Zeitblom. Mann vai deixando que o leitor se sinta cativado e tenha completa confiança em Zeitblom, um homem excessivamente modesto quando ressalta a sua desimportância em relação a Leverkühn, de cuja vida ele pretende estar biografando no livro. 

Zeitblom é o reduto de todo o humanismo e grandeza alemã, a representação fiel do detentor da tradição helenista_ de tal forma que, ele confessa, uma das causas principais de ter escolhido sua esposa é ela se chamar Helena. A linguagem que Mann emprega no romance é a linguagem de Zeitblom, proparoxítona, palavrosa, pomposa, ciente de sua suma importância, amplamente digressiva nos estudos extasiados filosóficos das impressões do século. Essa estética retrógrada faz com que os lamentos de Zeitblom pelos avanços da barbárie hitlerista no momento em que compõe o livro em seu refúgio protegido, soem estáticos, redundantes, de um romantismo ao avesso, de uma paixão pelo pieguismo das tribunas. Páginas e páginas são preenchidas com seu canto despropositado às musas quando ele atualiza no livro o avanço do exército de coalizão contra a Alemanha, quando ele oferece no altar do sacrifício da História o espírito corrompido alemão. As relações entre duas figuras tão opostas, Leverkühn e Zeitblom, é o ápice da astúcia e sutileza de Mann. Como podem seres tão extremos serem amigos? Acontece que a amizade alardeada por Zeitblom é, para o leitor atento a todas as refinadas artimanhas do livro, de mão única. Zeitblom realmente parece ter uma adoração por Leverkühn, uma adoração que só tem sentido porque Leverkühn é a pobre representação do que sobrou da cultura teutônica. Zeitblom se obriga a amar Leverkühn quase porque não há outra opção. Esse seu amor é sua arma para justificar diante as evidências contrárias em uma terra devastada de que seu helenismo ainda é possível, mesmo que as composições de seu objeto de culto sejam pavorosas expressões de que ele está errado. Já Leverkühn, em seu exílio do mundo, nutre por Zeitblom uma atitude cordial, uma empatia que parece se adequar a um ato social. Quando ele realiza sua única tentativa de conivência com o mundo, o pedido de apresentação de suas intenções amorosas a uma mulher, ele recorre não a Zeitblom, mas a um violinista amigo. Faltam tantas revelações pessoais a Zeitblom de seu biografado, denotando a ausência reflexa de intimidade, que os lances biográficos são muito poucos no livro. Claro que o livro é escrito por Mann, e não Zeitblom, e Mann ocupa a maior parte de sua obra com reflexões e descrições que estão entre o que há de melhor na prosa. Os espaços de insuficiência na relação desses dois amigos, admitindo o uso de uma palavra tão taxativa, são moldados pela mensagem subliminar do rico simbolismo manniano.



Nos excessos da visão de Zeitblom vemos a realidade em contraprova da versão de Leverkühn. E nada mais exemplar dessa antinomia do que o episódio em que Leverkühn dialoga com o demônio. Essa é a chave do romance e sua cena principal, em que se estabelece a conexão de interpretações da venda da alma de Leverkühn ao diabo. Leverkühn contrai sífilis em uma casa de tolerância (com amplas menções a Nietzsche), o que suas duas tentativas de tratamento recaem em uma comédia de erros que o desestimula e faz com que o quadro da doença evolua para uma manifestação cerebral. Diante essa sentença, o diabo uma bela tarde aparece no bucólico quarto de Leverkühn propondo lhe dar precisos 24 anos a mais de vida afim de que ele possa completar com glória suas obras musicais. Leverkühn narra em uma longa carta tal encontro, carta que cai nas mãos de Zeitblom. E aqui temos um momento pleno de genialidade de Mann: o leitor lê a carta com o olhar contraposto dos dois personagens, com o olhar de uma ironia estoica além da ironia de Mann, e com seu próprio olhar que recebe o encargo de labutar na decifração de qual das leituras é a correta. Mann arma um jogo que enquadra toda a estrutura do livro. Mann coloca todos os seus detratores no chinelo com essa exuberante manifestação do quão longe pode ir a conexão de todas as forças expressivas da literatura no empenho de dar a sua estocada: ele amealha aqui o humor, o terror, a história, o futuro previsto, a nova visão estoica e sem ilusão de si mesmo do homem, o abismo, e, lá longe, na zona das últimas consequências, oferece as fagulhas indefinidas de alguma saída, de algum alento. Ele reverte o jogo e transforma o leitor que não esteja disposto ao uso de toda sua atenção em um conivente ou com o conformismo pueril de Zeitblom, ou com o niilismo perfeitamente retilíneo de Leverkühn. É dessas coisas das quais nunca se terá uma resposta determinada saber se houve mesmo a manifestação do demônio, se houve uma relação de compra, se houve uma promulgação de tempo pago com a punição eterna. Tudo demonstra que não. A leitura de um homem de 42 anos demonstra claramente que não, mas suas duas leituras anteriores teve como quase certo que sim. Pode ser que para o leitor de daqui 50 anos, sob o efeito de uma outra realidade circunstancial, de um outro panorama social, econômico e político, volta-se a acreditar com uma deliberação inteligente que o diabo realmente apareceu para Leverkühn, e Leverkühn realmente tenha aceito seu acordo. Mas eu estou em uma época cínica, em um mundo em que a overdose de informação mostra o quanto o estágio de sofrimento e egoísmo do homem se sustenta em um mesmo patamar de indigência que naqueles pouco distantes anos em que Leverkühn narrou seu encontro, e por isso é impossível crer que uma entidade divina como o demônio se ocupe com essas querelas inofensivas as quais para nós nessa dimensão paupérrima se afiguram de primeira ordem. O demônio de Leverkühn é um ser cômico, que se transmuta na figura de um banqueiro, de um artista menor, de um alcoviteiro, de um acadêmico com histriônica aparência suscitada por sua desproporcional preocupação com sua vestimenta; o diálogo tido com um ser circense destes, incapaz de produzir medo, passa pela baixa gama do psiquismo, não tem um pingo de grandiosidade, de graça, de aviltamento; Mann o insere propositadamente precoce na narrativa, mostrando que nele não há nenhuma comburência para ser o resumo final, a coda, não é o Grande Inquisidor; sob determinados aspectos, se percebe a preguiça bem construída ao se escrever a cena. Para Leverkühn, trata-se de uma alucinação que lhe deu algumas horas de alento em sua composição na escrita contra sua enxaqueca. Mas para Zeitblom, o antiquado, o conformado, o lamentador protegido em sua fortaleza a maior parte do tempo das desgraças da guerra, a carta parece real, parece haver mesmo uma importância no homem para que ele seja a peça principal em um jogo cósmico eterno entre dois deuses plentipotenciários. As grandes obras a preencherem os supostos anos conferidos pelo demônio não são sinfonias, grandes óperas, grandes sequências de quartetos e peças camarísticas, como haveria de ser se o demônio apostasse nos poderes de criação do espírito humano, mas Leverkühn compõe um concerto para violino (o qual mesmo Zeitblom admite ser uma obra menor), pequenas canções e um oratório que quer ser sua maior realização. O verdadeiro discurso bombástico do livro é o que Leverkühn faz a um grupo de convidados, quando da apresentação de sua Lamentação do Doutor Fausto, em que ele se desabafa de toda uma vida de silêncio e visão lúcida e apartidarismo dos ofícios do mundo, em que ele, de frente às sumidades da Alemanha, artistas comprados, aristocratas na iminência de sofrerem as consequências de seus crimes de conivência perpetrados pela nação, representantes da vida corrompida, revela com uma carga severa de sarcasmo seu pacto com o diabo, sua missão em destruir e impossibilitar toda forma de beleza, sua apoteosa do aborto e seu arauto da extinção. Um por um dos convidados vai saindo da sala diante a evidência da loucura do homem que diz esse discurso. Nesse momento, uma revelação fulmina o leitor: quem se manteve íntegro, não-conivente; quem foi detentor do único humanismo e helenismo possível por assumir o grande trabalho de ter que partir novamente de um primitivismo da estaca zero, quem foi o único que não vendeu a alma ao demônio, foi Adrian Leverkühn.

A solidão inviolável da mente_ "Eichmann em Jerusalém", de Hannah Arendt



Hannah Arendt, assim como Walter Benjamin, faz parte do gênero raro de pensadores inclassificáveis. Quando tentam fazer um retrato aproximado do que tais pensadores foram, o retrato torna-se capenga, sisudo, frágil ou descomedidamente forte, esquemático, falso, bastante distante da realidade. Mesmo um artista tão capacitado como J. M. Coetzee, ao escrever um ensaio sobre Walter Benjamin, apequena e brutaliza tudo o que Benjamin tinha de riqueza interpretativa e capacidade infinita de ver além das coisas. Assim é com Arendt, quando tentam dramatizar sua vida em um filme: a urbanidade cotidiana é alçada a um primeiro plano e o universo que se abria no gabinete da autora, em seus papéis de altíssima qualidade estética e investigativa da alma, se torna mero adorno, mero acidente colateral das paixões de cama e curiosidades de jornal que são os propósitos únicos dos grandes veículos de entretenimento em massa. É um tanto histriônico pensar que, com o eventual sucesso do filme, Hannah Arendt possa fazer parte dos twitter e facebook e redes sociais como um novo ícone de consumo para uma juvenilidade descolada e pretensamente culta, posicionando-a no mesmo nível de qualquer outra figura do show-business; seria de se perguntar se a linguagem cifrada do ciber espaço consegue perceber a ironia autofágica de aclamar como modelo venerável de lucidez uma autora que cunhou o conceito de alienação e dos seguidores marciais de clichês da metade final do século passado, que elevou a expressão da mente humana a um patamar de clareza e percepção de zonas sutis da verdade pouco alcançado nos milênios da escrita, e que por isso, para um entendedor medianamente arguto, é um tanto absurdo que ela seja consumida por essa gente que escreve em caracteres limitados e palavras mutiladas e que ela seria a primeira a classificá-la, como bem o fez quanto a seus antecessores de gênero em seu livro sobre o totalitarismo, como a ralé. Nada é mais avesso a Arendt do que a tentativa da sua reprodução padronizada, à lá Marilyn Monroe de várias cores de Warhol, do que sua assentada no gosto do senso comum da geração mais propícia à aquiescência descerebrada do domínio totalitário surgida depois da segunda guerra, como o é a geração de amigos e mútuos seguidores da realidade virtual de hoje; seria o equivalente ao Vaticano estampar imagens de Tolstói em camisetas oficiais e exportá-las para a igreja ortodoxa russa, ou alguém abrir uma fundação para a proteção dos leões africanos com o nome de Ernest Hemingway, ou a Nike eleger Stephen Hawking como garoto propaganda para seu novo modelo de tênis. Como o poema de Whitman, a juventude nada tem a ver com Arendt, os domínios de sua linguagem estão inalcançavelmente distantes do bairrismo cool dos que irão comprar seu livro sobre Eichmann e lê-lo talvez só até a metade porque alguém tuitou que ele é o máximo, deu a ele uma carinha amarela de aprovado na classificação junto ao novo vídeo de música lançado na rede. Para se avizinhar da compreensão de Walter Benjamin, tem-se que, ao menos, ler como Benjamin consegue escrever sobre alguém da estatura inclassificável de Proust, Kafka e Baudelaire, entrando em seus mundos, não sentenciando ou dando valorizações, mas aceitando o modo de visão desses artistas no que eles tem de combatividade independente na procura da verdade_ por isso o ensaio de Coetzee é um exemplo de escrita sistematicamente superior vazia e vaidosa, pois pega Benjamin por sua obra mais excêntrica, o Passagens, e faz uma esquematização do fracasso pessoal e das tantas insuficiências de alguém que, em vez disso, tem tantas qualidades esotéricas para oferecer.

É por essa suspeita fundamentada de que Arendt só é alcançável através do que ela escreveu que eu não vi o filme sobre ela lançado ano passado e nem pretendo ver. Me afasto desse tipo de interpretação. Supondo que tal filme tenha, ao menos, uma reavaliação histórica premonitória, no mesmo nível de A fita branca, com aquela apresentação paulatina e assustadora do mal acordando entre os moradores de um povoado alemão instigados a se assimilarem às exigências normativas de uma nova realidade nacional, ainda assim me vem à memória a redução à simples imagem de algo que está além da imagem. Me vem à memória a atriz que interpretou a Rosa Luxemburgo manquejando pela prisão: a vítima martirizada que fica na retina do espectador de cinema como uma coisa já definida, já tornado ela no momento em que sua corporificação se extinguiu no tempo: algo em que esvaiu por completo a transcendência. Faço uma digressão antes de entrar no livro da Arendt: há um conto de Don Delillo que se intitula Baader-Meinhof, na coletânea O anjo Esmeralda. Neste conto, uma moça e um rapaz se conhecem por acaso em uma exposição das pinturas sobre os últimos dias dos participantes do grupo terrorista Baader-Meinhof; de modo vago, eles vão interpretando o que as figuras sobrepostas a fotografias do corpo enforcado da mulher lhes provocam, sobre o aparente sorriso de um dos sentenciados, sobre uma árvore ao fundo que, no entendimento da moça, é o símbolo de que mesmo para o que fizeram há o perdão da sombra da cruz; daí, por uma inércia a que nenhum dos dois impõe resistência, eles vão até o apartamento da moça e, sentados à mesa diante um copo de água com gás com fatias de limão, prosseguem a discussão sobre os quadros, de forma desapaixonada, desconcentrada, com se atendendo a uma exigência protocolar que esperam que eles cumpram. E é reivindicando essa exigência que o rapaz tenta estuprar a moça, alegando que se eles estavam ali sozinhos, eles tinham que, necessariamente, perfazerem os mesmos passos da intuição do ato social firmada quando um homem e uma mulher estão em um apartamento silencioso, gastando conversa fiada como precondição do coito. A moça se refugia no banheiro; o rapaz, aparentemente, se masturba no quarto e, cumprido deste modo os movimentos da relojoaria, ele se desculpa através da porta e vai embora. No outro dia, retornando à exposição, a moça encontra o rapaz sozinho, sentado diante uma outra obra do ciclo, "de longe a maior e talvez a mais impressionante, a dos caixões e da cruz, chamada Funeral". Aqui nós temos, através do impressionante olhar visionário de Delillo, todo o diagnóstico da rarefação mental da conduta institucionalizada diante o assombro da história, toda a propensão inexorável que o indivíduo agregado à coletividade tem de filtrar a percepção de uma realidade de camadas e subníveis infinitos para um modo seletivo de entendimento; aqui, Delillo reconstrói a observação de impacto retardatário sobre a banalidade do mal feita por Arendt, retardatário porque intuitivamente sempre sabemos que o mal não é uma entidade, não é um demônio inteligente que conspira contra nossa espécie, lançando crias de cruel determinação e precisão letal, mas circunstâncias acumuladas por um corriqueiro estômago social que vai apascentando todo o contraditório incômodo até que o conforto de uma unanimidade desespiritualizada tome conta e coordene tudo_ mas que, ainda assim, quando nos deparamos com a vocalização de nosso estado de domínio, a reação que temos é de assombro, de vermos-nos como de uma posição alheia alienígena; como se o espírito, retirado do sono por um momento, mostrasse um fibrilar de indignação que comprova a sua existência. Nosso assombro parece confirmar o gene vestigial de que, no final das contas, lá no fundo, ainda temos uma boa visão elogiável sobre nós debaixo dessa escumalha toda de mediocridades e medianismos. Esse assombro é a pauta sobre a qual escreve Delillo em seu conto e Arendt em todos os seus grandes e fundamentais livros. No conto de Delillo, os personagens se veem no desamparo que oferece a exuberância de interpretação dos quadros, diante a qual eles tem que, combativamente, rejeitar para uma aquisição saudável, sanitizada, inofensiva em sua emoção regulada, de forma que não se percam da trilha usual que tem que seguir no ordenamento do mundo. Ambos estão desempregados, ambos são adventistas de um pragmatismo civilizado maturado em parte pelos arroubos de violência de refugos do alinhamento legal como os terroristas do Baader-Meinhof, e ambos se veem diante as possibilidades que essa norma poderia chegar para cobrar deles o sacrifício de sua humanidades em nome da regulação e da manutenção da ordem. A conversa entre os dois comporta a enunciação de seus possíveis planos para o futuro_ possíveis pois eles sempre estão nessa narcolepsia juvenil de viverem apenas no presente, nessa inconsequência de se julgarem inquestionavelmente imortais_, e o rapaz diz que pretende ter um emprego e uma "criaturinha pequena e macia" para criar. Por detrás dessas linhas aparentemente inofensivas, aterrorizantemente comezinhas, vemos a distorção à espera, a dissonância, o ruído surdo por cima dos escombros, as possibilidades nefastas: o quanto a história, assim como o deus bíblico fez com Jó, estaria disposta a testar a eficiência do pedantismo dessas pessoas até um nível extremo, ou não tão extremo visto que elas talvez se vergariam o mais rápido possível. Aqui nos remetemos a Eichmann em Jerusalém: "No entender de Eichmann, ninguém protestou, ninguém se recusou a cooperar. (Dia após dia, as pessoas aqui partem para seu próprio funeral), como disse um observador judeu em Berlin, em 1943".

São notórias as circunstâncias históricas que engendraram e direcionaram a escrita de Eichmann em Jerusalém; tudo o mais fora delas é a mais autêntica liberdade de pensamento e atrevimento por parte de Hannah Arendt. Os fatos são facilmente colhidos em uma pesquisa no Google: uma comitiva de agentes secretos israelense sequestraram Adolf Eichmann de seu esconderijo na Argentina, em 1960; Eichmann era apontado como carrasco nazista responsável pela morte de milhares de judeus durante a Solução Final promovida pelo Terceiro Reich; Eichmann foi julgado por um tribunal montado e mantido em Jerusalém, praticamente à revelia de todas as leis e tratados internacionais; Eichmann é condenado à morte e enforcado por seus crimes contra o povo judeu; a assim chamada filósofa e teórica política Hannah Arendt, já mundialmente conhecida por sua obra sobre as origens do totalitarismo e sua análise sobre a Condição Humana, é enviada pela New Yorker para cobrir passo a passo do processo do julgamento, afim de escrever uma espécie de coleção de peças de jornalismo literário com inédita fundamentação filosófica a serem publicadas paulatinamente pelo periódico. O que Arendt faz, o que não deveria ser em absoluto causa de surpresa por parte de seus contratantes, é o mais fantástico, profundo e pouco laudatório retrato da alienação humana e propensão do indivíduo permeabilizado nas massas em seguir cegamente líderes e doutrinas. Arendt compõe uma obra que não deixa nenhum ídolo em pé, a começar por sua polêmica condenação das atitudes de Israel em passar por cima das leis internacionais com a promoção do crime de sequestro em nome da penalização de um crime de genocídio que os líderes judaicos identificavam não como um crime contra a humanidade, mas como um ataque específico que dava a legitimidade aos judeus para a vingança, não considerando, em um racismo exclusivista que Arendt apontava ser tão descomedido quanto o dos nazistas, os outros povos que sofreram dizimação pelos exércitos de Hitler, como os ciganos, os romenos e outras etnias médio-européias. Para um judeu com certa intimidade com os escritos de Arendt, que uma vez respondeu a um jornalista não ter nenhum apreço pelo povo judeu, mas por amigos judeus, essa visão de seu novo trabalho não deveria ter causado impacto algum: já em Origens do Totalitarismo ela destina várias páginas em reportar a intransponível distância que os judeus ricos impunham entre eles e os judeus pobres, ou nascidos em famílias sem distinção social, assinalando o anti-semitismo que sempre existiu entre os judeus. Para qualquer outro leitor que conhecesse o trabalho da autora, também seria sem razão o choque pela sua honestidade intelectual diante as evidências anteriores de falta total de comprometimento da escritora com órgãos de ofício ou linhas de pensamento estigmatizado: Arendt, judia, era especialista em santo Agostinho e Kierkegaard, tendo escrito um ensaio sobre o pensamento do filósofo católico direcionado ao público protestante, e tendo escrito um belíssimo texto sobre o papa Angelo Giuseppe Roncalli, que bem poderia ter colocado a igreja católica de cabelo em pé ao colocar como título a ironia fina de "Um cristão no trono de São Pedro". A alta cúpula israelita, ao ver que a autora não admitia a cartilha da vitimização e da fácil alcunha de Eichmann como monstro, põe-se imediatamente a retalhá-la na imprensa mundial, cobrando da New Yorker a rejeição e recusa do restante dos textos sobre o julgamento. Como não deixaria de ser, Arendt passa a ser associada ao anti-semitismo e à traição ao povo judeu, o que seria alimentado mais ainda pelas relações mútuas de afeto e admiração entre ela e o filósofo Heidegger, tido como anti-semita aguerrido.

Saul Bellow escreveu que mantinha com Arendt longas conversas informais por restaurantes e bares destinados a escritores, em Nova York, em que Arendt lhe esclarecia tudo sobre a obra de William Faulkner. Sendo admiradora de Faulkner, não é para menos notar que as páginas iniciais de Eichmann em Jerusalém se assemelham no tom recolhido diante o opressor gigantismo ortodoxo dos tribunais às primeiras páginas do romance A Mansão, de FaulkneNesta última parte da trilogia dos Snopes, começa com o assassino de Flem Snopes sendo admitido pela corte de julgamento que o sentenciará; a madeira da bancada do juiz, as cadeiras de escoro alto empoeiradas de distinção, as batas dos oficiais da lei e a atmosfera hermética de respeito sagrado se encaixam com a descrição detalhada da sala de julgamento de Eichmann, em que os vários juízes se posicionam uma bancada acima do público, e onde à esquerda deles fica o reservado protegido com vidro reforçado em que o réu, de cara insofismavelmente cordial e disciplinada, espera sentado. Nessas duas obras vemos as motivações mais profundas que levaram ao crime, e aqui se trata da escrita sublime de dois gigantes das letras: Faulkner descrevendo que o mal é consuetudinário, ligado aos deveres do sangue, da família e da honra, que nasce junto ao desbravamento das terras e na construção da sociedade por sobre a selva incorruptível, que é fruto de desrespeitos sucessivos nunca digeridos mas alimentados no silêncio, e que muitas vezes aplaca o alvo que o originou quando este, pela velhice ou por uma calejada e involuntária sabedoria, já por si mesmo se penitenciou da maldade. Arendt conduz essa linha faulkneriana para uma interpretação universal da história, embasando todos os sinais apontados por Faulkner com a raiz unívoca da imensa capacidade humana pela veneração e pelo escamoteamento da verdade. Arendt diz, em seu revelador e desnudo ensaio sobre Heidegger, em Homens em tempos sombrios, que "a tendência ao tirânico pode se constatar nas teorias de quase todos os grandes pensadores (Kant é a grande exceção)". E por isso abjura que a única forma de se manter íntegro e lúcido no confrontamento com o mal é através da solidão inviolável do pensamento, a não-coaptação a nenhuma forma ou modelo ou moda ou tendência, a não aceitação de heróis, a não se ajoelhar diante os ditos grandes e poderosos, mesmos esses tendo o poder intelectual de um Heidegger ou a mansidão de um papa morto prematuramente, ou diante as idiossincrasias auto-protetoras de um povo ressabiado que sempre foi perseguido. Não se envergar diante santidades ou sistemas. O retrato que Arendt faz de Eichmann é sinistramente natural e límpido, esse pai de família exemplar, esse homem que em toda a vida leu apenas dois livros e por isso se via mais capacitado que os demais das facções hitleristas que não haviam lido nenhum, esse homem que, no início, se prontificou a ir contra o extermínio e fez esforços que resultou na salvação de várias vidas de judeus, mas que depois, pelo estado, pelo eufemismo da ordem social, pela visão acabestrada de um destino histórico nacional que só os muito enredados não viam se direcionar para a ruína, se transformou no mais exemplar funcionário do sistema. Eichmann, esse gênio do clichê, esse homem impoluto que nada tinha de monstruoso, esse reflexo preciso de qualquer um de nós quando pressionado pelos nós das forças da manutenção.

"Adolf Eichmann foi para o cadafalso com grande dignidade. Pediu uma garrafa de vinho tinto e bebeu metade dela. Recusou a ajuda do ministro protestante, reverendo William Hull, que se ofereceu para ler a Bíblia com ele: tinha apenas mais duas horas e para viver, e portanto nenhum 'tempo a perder'. Ele transpôs os quarenta metros que separavam sua cela da câmara de execução andando calmo e ereto, com as mãos amarradas nas costas. Quando os guardas amarraram seus tornozelos e joelhos, pediu que afrouxassem as cordas para que pudesse ficar de pé. 'Não preciso disso', declarou quando lhe ofereceram o capuz preto. Estava perfeitamente controlado. Não, mais do que isso: estava completamente ele mesmo. Nada poderia demonstrá-lo mais convincentemente do que a grotesca tolice de suas últimas palavras. Começou dizendo enfaticamente que era um Gottgläubiger, expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era cristão e não acreditava na vida após a morte. E continuou: 'Dentro de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei'. Diante da morte, encontrou o clichê usado na oratória fúnebre. No cadafalso, sua memória lhe aplicou um último golpe: ele estava 'animado', esqueceu-se que aquele era seu próprio funeral.

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou_ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos." (Hannah ArendtEichmann em Jerusalém, p. 274, tradução José Rubens Siqueira, Companhia das Letras)