domingo, 24 de março de 2019

Vislumbre de uma estação


                         


Timos passou a noite em sonhos estranhos. O que mais o assustava era que ao acordar ele agora pouco se lembrava deles. Antes era fácil. Bastava que aquele ocre mundo em perspectiva lhe enviasse algum sinal, geralmente quando fazia o chá ou olhava pela janela a rua aos poucos se acendendo, e com base nessa pequena distração do lado de lá quanto ao zelo de seus segredos ele seguia a pista e quase todo o sonho lhe aparecia de volta, como se o lacre não funcionasse bem e ficasse uma abertura por onde algo mais passava. Agora não era mais assim; necessitava de muito esforço, mas esforço nesse assunto era quase uma ofensiva inútil. Achava que não era porque estivesse envelhecendo; algumas poucas coisas melhoram com a idade, e a aproximação dos outros elementos do sono deveriam fazer com que as apreensões de quando estava lá não fossem barradas de modo tão definitivo ao acordar.  
             Quando preparava o chá preto veio-lhe uma fagulha do que era, um estampido que espalhava luz e que a mancha em negativo revelava. Era sobre sua avó. Nunca sonhara com ela, nem quando era criança e ela, de certo modo, exercera uma influência factível de lhe impressionar; e nem quando morrera há oito meses. Ela morreu com 92 anos. A mãe de sua mãe. Chamava-se Mircéa. Tinha sido governanta na Inglaterra. Trabalhara com nomes importantes e pagavam caro pelos seus serviços. Quando voltara, após 50 anos que teriam rendido um livro de memórias fabuloso_ e, dependendo do grau de rancor que sua misoginia estivesse com a condição humana, bastante desiludida_, a vida se tornara para ela uma comunhão inexorável entre o tédio e a mesmice. A família aprendera logo a não usar com ela alguns dos atos sociais; perguntar sobre sua saúde, por exemplo, era cair na armadilha de ouvir como resposta a alma encarnada em uma senhora de um filósofo classicista alemão que não tinha nenhuma digna gratidão pela longevidade. Ela perfilava uma série de queixumes sobre doenças com minuciosa exatidão que fazia o interlocutor pensar o quanto a literatura do rancor perdia por não existir o tal livro de memórias. Sua avó e Schopenhauer; era uma espécie de Thomas Bernhard cuja Áustria cínica e repugnante que tinha para purgar era seu próprio corpo e os dias incontáveis que lhe restavam pela frente e que voltaram a ser tão asfixiantemente longos como o da infância. A última vez que Timos a vira, em um aniversário de 3 anos atrás, ela se recusara a olhar para ele quando algum parente engraçadinho lhe perguntou se ela se lembrava quem era aquele rapaz. Ela respondera, com uma lápide de mal humor que azedaria até o canto dos pardais se eles houvessem pela janela, que aquele não poderia ser o Timos que ela conhecera, tão lindo e arthuriano, e se transformara nesse bolchevique barbudo e mal encarado. Foram estes os termos que ela usara. Empregava um timbre de voz reticente, como se tudo que o mundo lhe emitia para que ela o conceituasse não merecesse senão aquele hausto de fôlego fissíparo. Timos sorriu, admirado por aquela estética altiva, e se sentara em silêncio duas cadeiras longe dela. Ficara magoado, de certa forma. 
            A avó tinha sido um exemplo de vida para ele. Um de seus discursos mentais quando o assunto era a crítica desiludida do padrão familiar de ganância por posição social e dinheiro e por cortejos sexuais de todos os estilos, era na avó que Timos pensava, em sua aspereza, sua concentração, sua corajosa disposição em não fazer parte do mundo óbvio e brutalizado. Sua mãe lhe contara que tivera pouco contato com ela quando era criança e mesmo na adolescência o círculo fechado com censuras atemorizantes contra a mulher que abandonara os filhos criado pela esposa substituta do pai (e pelo silêncio omisso dele) não lhe permitia que tivesse um real contato com ela. Você nunca pensou que teria se identificado com ela?, Timos perguntara à mãe. Ela o olhou com os olhos acendidos pela incrivelmente não cogitada ideia e negou, talvez para não dar o braço a torcer por aquela obviedade da qual não suspeitara, e a seu favor disse que Mircea se esvaziara dos sonhos e da ilusão necessária à vida, em prol de um regime espartano de pureza que a transformava cada vez mais em uma misógina insuportável. A irmã de sua mãe, a tia Alda, havia adotado uma menina alsaciana e a velha falava pelos cantos sobre o derrisório tom oliva da pele dela, o que era sabido por todos. E a avó desprezava com veemência incontornável o prosaísmo daquele povo subdesenvolvido da cidade, tão avesso a atirar o lixo na lata de lixo e não nas calçadas e incapaz de dirigir um carro de modo minimamente não homicida. 
               Timos levava essas coisas como desabafo de uma mulher que exigira o divórcio numa época em que isso era a heresia inaudita que deveria servir a reerguer as fogueiras calvinistas na mente de todo mundo, quando descobrira a rede de concubinas que seu marido alimentava. As pessoas a admoestaram, viraram as costas para aquela esnobe embrutecida pela ilusão de casta que seus diplomas de pedagogia lhe incutira, e ficaram do lado do injustiçado esposo, o patriarca de cabelos colados à moleira da cabeça por vaselinas Iliodora e de bigodes perfumados que a maledicência popular jamais assimilariam dentro da visão pejorativa do cafajeste barato que seduz pobres arrumadeiras de quarto, mas sim como a estampa que necessariamente há de se ter um doutor farmacêutico que respeita tradicionais normas de higiene social. A mãe não a chamava de mãe, só Mircea, o que, com os anos, ia apegando certo desconforto e o nome ganhava na boca das filhas refratáveis um peso excessivo, como se em vez do nome daquela mulher que suportara tanta solidão e se demonstrara ser uma rocha de vontade e persistência estivessem repetindo a alcunha de um demônio que já não as aterrorizavam. 
          Naquelas cartas, Timos disse à sua mãe, sobre os gordos pacotes de folhas amarelas apergaminhadas que Mircéa, inesperadamente, começou a enviar dos EUA para ele do nada, cheio de pensamentos recolhidos e retumbantes, naquelas cartas ela não se mostrava dessa maneira sem vida; pelo contrário, ela me contou tudo do seu ângulo de visão, o que acontecera entre ela e meu avô para que ela atingisse tal ponto de escolhas. A desembargadora jamais permitia que falassem contra seu pai, o icônico e estranhamente canonizável pelos tantos pecados que tinha boticário, era a fraqueza reservada para sua mãe ter entre as tantas qualidades de vulto de sua inteligência e sua independência. 
          A mãe o olhara com o cenho já posicionado para exigir que ele mudasse de assunto, tendo retido a colherzinha na xícara de chá, mas Timos trafegou espertamente para um atalho. O avô se casou com a empregada, não se casou?, depois que Mircéa saiu de casa e atravessou o oceano para a América, havia uma madrasta na sua casa, não havia? Então eram fatos, a desembargadora não podia ir contra eles, eram notícias da narrativa da família bastante conhecida e já chegando ao estágio de não ter mais quem sentisse vontade de examinar mais o assunto. Pois nessas cartas, Mircéa falava das agruras do novo mundo, da estranheza que era falar uma língua que ela aprendera na academia por questão de ler os volumes de educação internacionais não traduzidos no país, mas que agora ela tinha que utilizá-la para sobreviver não mais com a cultura, mas com a subserviência doméstica, saber como se fala polidamente com uma madame casada com o mecenas das pias de banheiro de porcelana Avidecent, ou como lidar com o rosto gargulino do agente de emprego que lhe pergunta quais as condições de contrato que ela leu no formulário 25 estariam de acordo com sua capacidade de mão-de-obra, se sua instrução era de grau 4 ou 9, se ela sabia o que era uma comunhão de direitos empregatícios em que um casal em litígio de separação receberiam-na na casa em horários diferentes para não terem que se ver nos momentos mais delicados da questão judicial. E ela voltava para casa depois dessas aventuras sombrias, atravessando as ruas geladas de geometrias que deveriam lhe oprimir por se sentir apequenada naquele universo prisional que lhe lançara muito cedo um destino que pouquíssimas pessoas conseguiriam suportar. 
            Você já pensou por que ela mandava essas cartas para mim?, Timos perguntou, e a mãe, nunca querendo ser engolida pelas sugestões perigosas que a falsa simpatia do filho abria naquelas vastas visões panorâmicas, sorria e dizia que era porque ele era o único que ela não conhecia para odiá-lo. Você tinha 13 anos e ela ainda não te conhecia, só foram se ver dois anos depois, quando ela retornara para cá. Pois eu sei, ele respondeu, o tom triste e extasiado ao mesmo tempo, o que não era um oximoro impossível na prática quando ele já antevia a alegria que lhe causava quartos solitários em um dos quais era o quarto do apartamento da mãe em que ele abria as cartas da avó e as lia com uma atenção perfunctória, como se o amarelo inusitado da folha alimentasse a impressão de que desvendava uma segredo faraônico reservado apenas a ele. Tudo bem, Timos, e mãe, que havia tomado o chá talvez mais rapidamente que em uma situação em que o espírito de revisão das anistias mútuas de todos os envolvidos não estivesse tão alardeante, enxugou as mãos em um pano de prato após lavar a sua xícara de carrara e se voltou pronta para ouvi-lo com exímia atenção, mesmo que isso pudesse envolver passagens do discurso que poderia por o dia de comunhão entre os dois em ruínas. Timos a olhou fundo nos olhos_ essa conversa acontecera há 20 anos, como tudo na vida do progressivamente distante Timos parecia ter ocorrido_, as pupilas tremendo e as mãos crispadas em um gesto teatral shakespereano, um tanto inconsciente nele para que se importasse com o ridículo. Ela sabia que eu era o primeiro da nossa família a nascer livre, ele disse.
           Ele era ainda muito jovem para ter dito isso. Teria acreditado mesmo nisso em algum momento da juventude, naquela falácia tão fácil de cair mesmo os espíritos calejados? Livre de quê, se ele estava na fila da consumação em passo lento e regrado para fazer o mesmo cronograma que todo mundo. Fez sua faculdade, ingressou-se em uma escola ouvindo o eco daquele coro repetido à exaustão de que melhoraria os índices educacionais do país, e só encontrara a mesma falta de horizontes, alunos basbaques sentados com nébulas de distrações nos cérebros, dispostos a soldarem os ouvidos e se entregarem ao mar infinito de aberrações da mentira. Para quem então sua avó escrevia? Quem ela fantasiava que algum dia aquele menino ectoplásmico que alguma vez deveria tê-la visitado em sonhos se tornaria? Um filósofo, um eremita, um médico, um advogado. Não conseguia acreditar que no fundo daquela renitente esperança dela houvesse a imagem de um adulto misógino e arredio, e aqueles fossem seus ensinamentos de como odiar o mundo com suficiente estilo. Manual do rancor da senhora exilada, da diaba branca da família que andava pela vila nas noites de lua cheia atrás de sua filha diaba desaparecida. Por detrás daquele ensejo havia sua última fé de que a criança que a lia de alguma forma não seria contaminada por suas palavras amargas, sua apreensão sufocante da realidade de presídio de toda a terra.
                Ela destilava sua ira, exsudava um tanto do fel de seu desespero calibrado no papel, mas não queria que o menino fosse intoxicado. Era o paradoxo da condenada que joga suas cartas pelas grades do presídio supondo achar o ouvinte perfeito, e entre tantos andantes pelo muro do lado de fora ela havia tido a sorte rara de ter à sua inteira disposição um mensageiro já pronto, já visualizável com alguma exatidão entre a névoa de sua utopia. Ele não soube dizer isso à mãe, mas a mãe entendeu bem o que ele queria dizer. Ele interpretara que ela lhe ouvia com uma aquiescência aceitando a sua exclusividade cheia de expectativas no caminho diferente que ele seguiria para não se tornar um boçal, achava com orgulho que botara a desembargadora no chinelo e mostrava a sua originalidade predestinada, o segundo membro da família, ele e a avó, que romperiam para si o muro do dogma escritorial em que os outros estavam trancados do lado de dentro. E os anos se passaram e a avó não o reconhecera. Depois de todas as cartas, depois que retornara da América e os dois se encontraram e tomaram alguns sorvetes, e ambos insistiram durante um tempo em forçarem aquele laço que perdia desamparadamente o laço quando transposto das palavras para a atmosfera, ela o rejeitara como um traidor, ela o excluíra de seu hermético clube da dignidade rancorosa que tinha apenas ela como membro.
         Antes de ir para a clínica, na madrugada fria em que os ruídos já eram ouvidos pela ciência da acústica formada entre canos, cimento, vácuo e pessoas nas ruas, ele se lembrou do sonho. Havia uma sala ampla, bem iluminada, com uma luz incisiva de uma série de lâmpadas fluorescentes, paredes brancas e uma ressonância oca e infinita que revelava que era uma estação de passagem, uma zona de embarque. A avó estava sentada em um dos bancos largos de metal, solitária como em um documentário sobre a velhice abandonada. Ela estava vestida com um terno cinzento, bem alinhado, saia da mesma cor tendendo para o branco, um lenço bem apessoado no pescoço, um uniforme inglês que revelava uma distinta funcionária exemplar. Seus sapatos eram escuros e bem tratados, ela devia engraxa-los todos os dias, mas na posição em que estava sentada, com as pernas juntas em v lateral, os tornozelos em primeiro plano e os pés enfiados suavemente para debaixo do assento, revelavam que estavam frouxos nas laterais, como se os houvesse comprado por engano ou por alguma comodidade econômica um número maior, como se estivesse cansada, um cansaço malbaratado, como se aquele local ermo a que ninguém pareceria apetecível a agradasse. Um local que era um retrato de seu espírito. No sonho ele observava a cena sabendo-se que não estava lá, a limpidez da imagem sendo transmitido para suas vistas concentradas como se numa tela, um cinema frio e escuro que cambiava o que sua avó sentia no exterior da pele por sob o terno estando naquele local. 
         O rosto dela estava desfocado, ou a mente em atividade idílica de Timos não estava sendo totalmente receptiva no centro da projeção. Ela não o via, os dois estavam mais distantes que duas galáxias, talvez ela estivesse em outro mundo, no mundo de lá, no tal reino dos mortos, talvez aquela amostra de sua nova aventura na opressiva eternidade fosse mais uma das reativações constantes do enigma que esse lado de cá não se cansa de propor, um novo mistério dentro de incontáveis outros mistérios que nunca seriam resolvidos porque seu propósito era apenas uma gratuita enganação. Quem o propôs, se havia mesmo algum jogador, não se preocupava nem um pouco com alguma lógica coerente, algum resultado que zerasse a equação. Depois acordara, ou passara para outras questiúnculas que pregara em sua percepção durante aquele dia e que tentavam por alguma razão absurda se resolverem na forma de sonhos_ como se a vigília fosse um estágio desacreditado na ortodoxia da dialética das sensações acumuladas e a resolução do que elas queriam dizer passassem para a ludismo do sono.
         Sua avó não era só a primeira exilada da família, pelo menos na linha recente dos últimos cem anos buscados na árvore genealógica, mas também era a única suicida. Aos 92 anos, ela se dera ao luxo de se matar. Até isso foi ao gosto dela, partiu de seu inteiro livre arbítrio destituído de glamour. Não usara veneno, como parecia ser a escolha de maior sucesso entre os velhos, pendurar-se por uma corda pelo pescoço deveria lhe parecer pavoroso e de contra toda a ética de sua vida, assim como qualquer das outras soluções que desfigurassem o corpo. 
        Na certa imaginava que seria uma vingança oferecida em bandeja para todas as pessoas que desprezara ostensivamente se suas pernas varicosas, sua pele sensível ao nível de se rasgar por um simples toque, se sua cara sem o eufemismo da maquiagem, de um azul baço e libidinoso que só se via na carne no estágio terminal da vida, aparecesse em alguma situação fora de seu controle, atirado do quarto andar no asfalto, esfacelado por um projétil. Isso estaria fora de cogitação. Por isso ela resolvera apenas parar de comer. Fechara a boca não só para as papinhas indignas e as frutas picadas que as enfermeiras particulares lhe davam, como também parou de conversar. Não emitiu nem o mais sussurrante som. 
          No final do primeiro dia, as enfermeiras telefonaram para a desembargadora e para o outro filho advogado, tio Marsh. Eles foram para o apartamento e encontraram-na deitada na cama de solteira, os braços e pernas rígidos da antiga menina emburrada, talvez era assim que ela ficava na cama de febre quando sua mãe lhe trazia a sopa, encontraram-na olhando para um ponto só no espaço, determinantemente não cruzando o olhar com seus filhos ou com qualquer outro espécime deste mundo pueril em que ela estupidamente, agora via, perseverara em estar. A desembargadora lhe falou com um tom amável sincero recuperado no fundo de todo o depósito de atitudes defensivas que tivera contra ela ao longo da vida. 
              Não era mais a mulher anacronicamente elegante que tentava falar com ela no quintal de casa, aparecida como se do nada mas que se tratava de um arranjo estratégico dos adultos envolvidos para permitir que chegasse nos filhos sem os espantar, sem os estarrecer; era apenas o resquício do antigo ego poderoso, era a desistência, era o arrependimento de ter sido enganada sempre de que havia um pote não de ouro mas pelo menos de um respeito surpreendente e resplandecentemente novo que os esperassem no fim de toda aquela indignidade pujante e asquerosa que eles tinham que atravessar sem propósito algum. Era só uma velha senhora sem mais cartas na manga, sem mais ódios, sem mais rancores, sem mais disputas, sem mais enfrentamentos para ver se encontrava o palhaço que iria lhe colocar nos ombros e passear com ela pelo picadeiro circular acima de todos os outros a escolhida, não mais palavras frias e bem calculadas para desestabilizar, não mais olhares atravessados que dardejavam pelos cantos, nada mais disso. Tudo um imenso tempo perdido, tudo um grande exercício de idiotice em que ninguém nunca era melhor que ninguém, apenas igualmente imbecis. 
           E o filho, o advogado de controle absoluto sobre seus sentimentos, que falava com uma voz de trovão que treinara durante toda a adolescência e juventude, até firmar-se como algo natural seu, segurando-lhe a mão e tentando invoca-la daquele invólucro, falando com uma tenacidade que usava com seus clientes no escritório, acreditando que naquele assunto exórdio as regras do mercado de invocação da verdade relativa também funcionassem, era só repetir o mantra cotidiano. 
         Chamaram a ambulância e a levaram para o hospital. Dois dias do mesmo modo, e ela entrou em coma. Os vidros opacos que se adaptavam à luz ambiente e as horas rígidas para que só os filhos visitassem na UTI cara impediram, enfim, que vissem a desfiguração inevitável de toda maneira que seu corpo sofrera, as veias azuis sob a camisola comunal e despersonalizante, os aprofundamentos zigomáticos da murchação da carne. 
        Timos estava na clínica quando a mãe lhe telefonara para avisar que a avó morrera. Nunca ouvira a voz da mãe daquele jeito, tão triste, tão sombria. Ela só falara o básico, não queria consolações e nem entrar em muito detalhe. Não lhe pedira para que fosse ao hospital, mas ele sabia que era isso que ela mais desejaria, e ele saiu às pressas só avisando para Ofélia, que lhe olhou como se a informação de que tivesse uma avó, e ela fosse humana o suficiente para morrer, o demovesse do local onde ele estava na zona resolvida em que ela definira com um prego numa placa de isopor.
          Na época, quando vestira o casaco e abrira a porta, parando na calçada para se situar de volta no frio de chuva e vento da rua, passou-lhe pela cabeça que um círculo se fechava e que seria num dia apropriado que os dois se encontrariam novamente. Era uma história sem encaixes narrativos satisfatórios e completamente entregue à aleatoriedade, mas o velho cinismo cósmico, que muito provavelmente trabalhava em ponto morto, continuava insinuando que havia um sentido por detrás das desbastadas camadas do enigma. Se tinha uma coisa que ele determinadamente não desejava era ir ao hospital.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Já pensou?

Já pensou se todos os delírios do brasileiro médio se tornassem realidade?; um país em que acontecesse, ao mesmo tempo, do governo mais capitalista da sua história ter feito uma revolução comunista bolivariana; em que os estados do sul e São Paulo decretassem independência e terem, assim, se transformados não nos óbvios Paraguais que seriam seus destinos, mas em Suécias confortáveis e subitamente de altos padrões culturais e financeiros; em que o mundo dobrasse os joelhos e confirmasse que Olavo de Carvalho não só é o maior pensador da atualidade, como é o maior depois de Sócrates; em que os Alexandres Frotas, as Joices Hasselnãoseidasquantas, os artistas ex-globais falidos e sem fama, os playboyzinhos neoliberais que querem viver das custas do estado, os youtubers, etc, assumissem todos o poder e se revelassem não os parvos mercenários com medo do desemprego que são, mas gênios econômicos que provassem a todos, através de uma riqueza generalizada, que a venda da nação era mesmo o melhor a ser feito; em que um fascista era eleito e se vestisse de Rambo e saneasse todo o país com ações pirotécnicas de altíssimo risco mas afiadamente eficientes, matando bandidos, explodindo favelas, empalando políticos corruptos na praça do Congresso, tudo antes do churrasco de comemoração cossaca cristã feita pelos seus nobres seguidores com fogueiras a céu aberto, e tudo com trilha sonora adrenérgica e filmada em tempo real para de quebra promover o excelente cinema nacional; em que, além disso tudo, houvesse um sistema político em que seus personagens não fossem primeiras damas inexpressivas que caíssem em lagos para salvar cachorrinhos, nem mandatários e chefões da políticas afundados em uma cafonice e breguice sem igual, mas príncipes e princesas e duques de uma realeza finíssima e elegante. Pena que todo esse sonho esquizofrênico tão lindo seria imediatamente destruído, escoado para o abismo, visto que o planeta teria se tornado achatado pois o delírio atenderia também aqueles brasileiros que acreditam que a Terra é plana.

domingo, 1 de abril de 2018

Azulejos



Não tenho a inteligência funcional que fez ricos alguns integrantes da minha família. Sou um completo estúpido em relações publicas, a ponto de não transmitir muito entusiasmo no cumprimento aos vizinhos. Não sei parar de frente ao portão e ficar alguns minutos na troca de conversa funcional cujo propósito não é o conteúdo do que se diz em si, mas o som da fala preenchendo um tempo contábil de cordialidade para que no natal se tenha o nome lembrado na oração junto à mesa da ceia, ou para ser avisado para prender o cachorro e recolher as crianças no quarto porque um ouriço-cacheiro fora visto passando pela rua, ou para dar o número do telefone à moça de voz anasalada do crediário e ela possa ouvir pelo outro lado que somos gente de boa índole e polidos de qualquer extravagância, nunca tendo sido flagrados andando ao lado do muro olhando os pássaros ou contando as nuvens, ou parando no meio dos gestos marciais vespertinos para falarmos em como Albenondes fez mal em não levar Lucinda para um passeio na carruagem do conde de Wallenberg; enfim tão normais quanto esse homem dócil que certo dia a polícia resolve cavar a terra dos fundos de sua casa e encontra enterrados 37 cadáveres de mulheres que outrora todas tinham os cabelos curtos, na faixa de 27 anos, ascensoristas por temperamento e adeptas do uso de maquiagem facial indelével. Nunca ficarei rico por esses meios e tampouco me elegerei para a Câmara Municipal.

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A impressão de que estava ficando louco me tomava conta quando era mais jovem. Era algo perturbador: eu achava que fosse implodir e uma apreensão da verdade não permitiria mais que eu continuasse vivo. Aos 17 tive uma crise. Dizem que a coisa não vem de uma vez, mas vai se criando. De súbito o tecido estendido ao máximo se parte e tudo nos cai em cima. O cérebro não apaga a coisa com a tarja de Censurado por Questões de Sanidade, como faz com acidentes físicos ( minha mãe nunca se lembra das 17 horas entre o traumatismo craniano e a primeira fase da recuperação); é como se o cérebro quisesse um porta-retrato de sua maturação radical por inteiro, e o cérebro é o cérebro fazer o quê. Estava sentado no banco de uma praça, à noite, o avião que estacionaram no lugar da fonte, em memória a um general esquecido ou a alguma virtude de derrota de guerra, pressagiando a vertigem das superposições significativas, e me veio uma imensa lucidez, um instante em que todos os ornamentos sumiram e só ficara eu e um infinito vazio contra o qual não se erguia nada, dentro do qual nenhuma sombra ou luz se enunciava, uma espécie de plenipotência do átomo que não se deixava questionar ou transcender. Uma iluminação do avesso de que eu era matéria orgânica perecível, e só. Durou, creio, uns cinco minutos, mais eu não aguentaria. Quando foi embora o foi por inteiro, um ruflar de asas em que não sobrara uma pena para mostrar como prova. Só a marca em baixo relevo da lembrança, como a impressão que a radiação extrema desenha no chão, contornando a forma do corpo evaporado.

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Conheci depois uma moça que viveu 7 meses nesse inferno. Era amarrada na cama pelos pais, nos primeiros meses, e monitorada sem trégua obedecendo-se a regra severa de não se deixar nenhum objeto perfurante por perto, nenhum cadarço, comprimidos, trancando-a durante o dia e se sentando ao lado da cama à noite, ouvindo seu respirar de animal ferrenhamente obcecado  pela fuga, seus olhos atentos que apareciam vagarosamente no escuro por sobre o travesseiro, solenemente planejadores. Os pais não aceitavam visitas; a casa, naquele descuido em que se deixa levar pelo desvelo, foi ficando cheia de sombras e silêncio, de forma que as pessoas de fora se questionavam se isso não agravava a situação da enferma, mas os pais sabiam que a depressão dela atingira um nível de auto-gerência tão profundo, que aspectos de fora não lhe significavam nada. Era uma colega de faculdade e uma noite os pais permitiram que nós entrássemos para vê-la, talvez isso lhe fizesse bem, ver os antigos amigos.  Era uma moça realmente linda, com traços exóticos indianos, apesar de não ter nenhum ascendente oriental conhecido. Eu brincara cortejá-la certa vez, mas tornamo-nos mesmo era amigos. Ela estava de camisola, sentada atravessada na cama, com as costas apoiadas contra a parede. Tinha um ar coloquial demais para ser alvo de um experimento psicológico, de maneiras que caímos na leviandade de que nosso humor despudorado conseguiria fazer o que os médico falharam. Ela não era receptiva a nenhuma de nossas brincadeiras, estava além de qualquer contato, não se zangava e não tinha auto-crítica. Utilizando o espaço da fala destinado aos atos sociais de como vai e como foi o seu dia, nos comunicou que iria cortar os pulsos. Isso para ela não tinha nenhuma importância. Ela se recuperou. Casou-se com um fazendeiro. Tem hoje, o que se chama de uma vida normal. Na verdade me pareceu que ela nunca se curara, mas atingira um estágio adaptativo de encenação persistente mas pouco talentoso. Percebia-se a tendência de seus olhos para a dispersão. Seu marido era obtuso o suficiente para achar que uma mulher colada à megalomania financeira era assim mesmo, uma boneca de carne da qual não é cavalheiresco exigir participação efetiva na realidade. Como naquele pesadelo em que o sonhador vai saindo de um quarto para outros infinitos quartos exteriores até chegar ao último que lhe possibilitará acordar incólume, ela parecia ter sido desperta antes de completada a jornada, e ficado confinada numa zona intermediária para sempre.

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A foto mais memorável de Robert Capa, entre as tantas que fez em sua incursão com John Steinbeck à União Soviética, foi apreendida pelos guardas do partido. Mostrava a menina louca de menos de 8 anos que morava sozinha nos escombros de uma rua bombardeada. Acostumara-se a viver como um animal, e em determinadas horas podia ser vista saindo do meio das lajes destruídas, com seu único vestido esfarrapado, seus pés descalços imundos, para pegar o pouco de comida que as pessoas sacrificavam de seus já minguados orçamentos para alimentá-la. Na verdade não era fácil vê-la. Mas a câmera paciente de Capa conseguiu flagrá-la em sua pressa arredia, em suas feições consonantais. A foto se perdeu para sempre. Consigo imaginar seus prováveis ângulos, a luz na qual foi tirada, a plasticidade do cenário em preto-e-branco ao fundo, mas  nunca consegui imaginar a menina. Quando tento, me vem apenas os modelos de Sebastião Salgado, ou uma criança feliz, com ambos os pais, selecionada num teste de estúdio. Uma representação de uma grandiosidade dramática falsa e previsível que sei que ela jamais teve.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Um desabafo

Minha esposa teve duas paradas cardíacas quando estava grávida de nossa primeira filha, a Júlia. A Dani sempre foi muito saudável, mas desenvolveu uma doença grave na válvula mitral, que só se manifesta na gravidez, e os médicos disseram que as chances dela e de nossa filha chegarem vivas no final eram poucas. Fomos em vários médicos e todos nos falaram isso. A junta médica para conseguir minha dispensa de acompanhamento_ que eu achava que me trataria com extrema burocracia e me concederia uma semana apenas_, ficou tão espantada com a situação que me deu 3 meses, o que me pareceu um prognóstico ainda mais soturno.

Recordo como se fosse agora_ e isso faz quase oito anos_, minha irmã e eu comprando o primeiro vestidinho, uma peça linda, azul, para a Júlia vestir_ lembro do sorriso compungido e do silêncio de nós dois. Recordo dos movimentos na barriga; nós passávamos Mozart para ela ouvir. Uma vez a Júlia deu um chute tão grande durante um exame, que o cardiologista deu um pulo com a mão na barriga da Dani. Eu nunca fui um homem de fé. Sempre fui de um pessimismo prostrante. Minha primeira reação a tudo é o escape. Mas eu nunca, nem sequer por um segundo_ e isso é a coisa mais verdadeira da minha vida_, eu tive nem a sombra de dúvida que a Júlia ia nascer e de que a Dani estaria lá para recebê-la nos braços.

A Dani passou por tanta coisa, tomou uma batelada de remédios devastadores, que havia a chance bastante real de que a Júlia nascesse com algum problema. A Dani ficou magérrima durante a gravidez, com as maçãs do rosto salientes, por causa de um diurético que ela tomava todos os dias para suavizar o coração (um amigo me confessou depois que, ao vê-la, perdera toda a esperança). A Júlia podia ter nascido na forma de um rabanete que eu a amaria acima de todas as coisas. Podia ter nascido com o problema que fosse, mental, teratogênico, que eu a amaria com toda minha alma. E eu sequer pensava nisso, sequer dediquei uma pestana em me preocupar com isso. Pelo tanto de anos que me resta viver, essa temporada de angústia foi o mais próximo de um sentimento religioso profundo que eu tive, o mais próximo a uma descansada e paradoxal fé que eu tive de que um deus agiria em meu favor. Qualquer coisa que ele nos entregasse seria maravilhoso e eu estaria profundamente agradecido.

No dia do parto eu só não aguentei esperar no hospital. Eu pedi licença a toda família e saí, fui passear em um parque vizinho majestoso. Eu iria desmaiar se ficasse ali, o que seria ainda pior para todos. Fiquei sentado em um banco diante um riacho, calmamente olhando à distância uma moça lendo um livro, em uma sexta-feira em que o mundo continuava girando em absoluta indiferença. Ouvi uma buzina, me virei e vi a obstetra me gritando do carro: "O papai fujão não vai lá pegar a filha no colo não? Deu tudo certo". Eu saí correndo, chorando muito, até o hospital, e vi pela primeira  vez a Júlia. Ela era minúscula, quase cabia na palma da minha mão, era sequinha, frágil a ponto que parecia ir se desmanchar, de tal modo que eu tive muito receio de machucá-la ao pegá-la no colo. A sensação que eu tive ao vê-la envolta em uma manta, deitada de lado no berço do berçário, com um filete de vômito escorrendo pela boca, foi_e eu jamais vou deixar de parecer piegas ao tentar verbalizar essa impossibilidade_ como se eu estivesse tocando o sol: eu estava diante um mistério extraordinário do cosmos, um vulcão em erupção, um buraco negro, um tufão. Uma criaturinha cujo tornozelo tinha a espessura de meu mindinho, e era um milagre cromossômico devastador.

A Dani passou por duas cirurgias, abriram-lhe o tórax, e ela está curada. Tanto que nos permitiram ter um segundo filho. Eu brinco dizendo à Dani que a Júlia é minha alma gêmea. A Júlia cresceu, dá sinais de que vai ser uma moça bastante alta. Ela tem uma inteligência apurada, um gosto estético recolhido, uma curiosidade e uma paixão pela vida que me deixa continuamente deslumbrado. Mas foi o bebê mais magro e minúsculo que eu já vi, e esteve ali no prisma das deficiências e dos resultados da falta de oxigenação cerebral suficientes para que fosse uma criança excepcional_ o que teria transformado o meu amor e o da Dani em um amor também excepcional, nem maior e nem menor do que nosso amor de hoje, mas um amor especial (muito provavelmente ainda mais intenso).

E por que escrevi todo esse relato? Porque assisti ao Fantástico a matéria sobre a morte da Marielle e do seu motorista, Anderson. Porque li as opiniões que a desembargadora Marília Castro Neves veio repetindo insistentemente sobre sua cruel e insípida visão de mundo. A desembargadora, além de todos os absurdos que disse sobre a morte da Marielle, escreveu desmerecendo uma professora com Síndrome de Down. E aí eu vejo, na matéria que o Fantástico fez sobre o Anderson, que o filho dele nasceu com problemas, com algum tipo de má formação (isso foi anunciado na reportagem). Eu estava sozinho na sala e fui acometido por uma crise de choro, que foi o estopim de desabafo a tudo isso que vem acontecendo no país, ao ver a foto do Anderson ao lado de seu filho, um bebezinho minúsculo (assim como a Júlia ao nascer). E a desembargadora, em cima de sua vida de privilégios que no final são vantagens medíocres, em cima de sua paupérrima e lamentável impressão de superioridade, com sua cara plasticiada que depende de exercícios de auto-aceitação que só ela deve saber o quanto são inglórios, botoxiada nas tentativas falhas de esconder o galope avançado e inevitável da idade, vem despejar insistentemente sua deformação interior. Por isso tudo, minha explosão de choro e meu desabafo diante a foto do Anderson e seu filho: o amor na cara do pai, a alegria inocente e plena na cara do bebê_ o sol ali, o buraco negro, o tufão, a imensa, irrefreável e invencível manifestação da Lei.

sábado, 3 de março de 2018

Justificativas



A vizinha, mãe de dois meninos, abandonados pelo pai, que se mudou semana passada para a casa ao lado, gritando com os filhos: "Não mexe em lixo do quintal não, suas pestes! Já não basta que todo mundo nos ache um lixo, que todo mundo nos trata como lixo, e vocês ainda ficam brincando com lixo!"

Um senhor alto, muito velho, em pé sozinho no fundo do elevador, olhos aguados, alguns instantes depois em que responde meu cumprimento quando me adentro: "Meu maxilar se partiu e fechou o canal dos meus ouvidos. Se o senhor falou alguma coisa para mim e eu não respondi, peço que me perdoe, não estou ouvindo."

O catador de ferro-velho, de idade indefinida, cabelos e bigode tingidos de preto, que me grita um cumprimento onde nos vemos como se já tivéssemos trocado alguma palavra antes, e que eu surpreendentemente vejo andando em volta da represa empurrando em uma cadeira de rodas um menino loiro de um ano e meio. O "boa tarde" radiante que ele lança para mim, para minha esposa e meus filhos.

E o sorriso do menino loiro.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um súbito poder



O sr. Mombertto Luccena perdera o braço por uma besteira monumental. Em um de seus raros momentos em que se dedicava a explicar esse restrito significado filosófico em sua vida, me disse que haveria alguma dignidade em um maneta se a causa de sua mutilação tivesse sido um acidente de trabalho, ou um duelo, ou uma doença degenerativa que tivesse tornado inevitável a remoção de suas raízes patológicas. Mas não em meu caso, Halp, dizia, já sem nenhum compadecimento, segurando o cachimbo com a mão esquerda, justamente a que sobrara em um destro para confirmar o quanto a providência__ ou a ausência dela_, tem inúmeros meios de trabalhar com a insensatez. As pessoas me veem, com razão, como um homem a ser poupado; não importa quem for, se algum de meus fornecedores com quem eu solto os cachorros e falo a merda que quiser, ou se for uma mulher que vem à loja para comprar alguma coisa e descobre que o proprietário não possui um quarto do corpo; todos me veem mas imediatamente fazem o máximo possível para me removerem de seus campos visuais. E eu não os culpo, Halp, dou total razão a eles. Eu posso ter o poder que tiver, a influência em bolsas de valores, ser marchant de importantes gênios das artes, ter contas na Ilha de Man ou um veleiro com as assinaturas no casco de todos os aventureiros mundialmente conhecidos daqui até Aleksandróvski,_a desincumbência que o destino me deu de não precisar mais levar um adendo corporal me torna imediatamente uma nulidade completa. E ninguém gosta de zeros a esquerda, Halp, ele dizia, soltando o bafejo de fumaça odorífica que vinha realimentando no bojo do cachimbo através de calibrados movimentos de influxo com a boca, fazendo uma pausa para me lançar um olhar carregado de dramaticidade, mas cujo significado doutrinário não me era de todo compreensível.
          Apesar de tudo era um belo homem. Podia-se perder uma discussão com ele apenas por se ficar fascinado o observando. Ele aparentava ser um desses paradoxos da inteligência que tem completa ingenuidade sobre si mesmo. À medida que envelhecia, seus traços ficavam mais realçados, percebia-se que toda delicadeza que algum dia ditara o tracejo de suas linhas faciais tornara-se inteiramente condizente com aquele enredo perverso que o destino tinha entremeado na narrativa de sua vida. Seus fartos cabelos encaneceram-se, a petulância francesa do nariz aquilino, que na certa fora alvo de recalques silenciosos em vista da inutilidade de um incremento desses em um maneta, se tornara ainda mais petulante mas agora legitimado por sua áurea de profeta rembrantiano de uma grandiosa decadência bíblica, seus olhos que disparavam rajadas inflamadas de ódio antes de terem se suavizado foram disciplinados por uma astúcia comercial em que uma ironia o posicionava acima e imune a todas as tramoias da ralé no qual ele era forçado a lhe dar todos os dias.
         Era impossível alguém vê-lo e não ficar tocado de alguma maneira com a impressão calada de que ali estava um ser de aparência majestática, cuja degradação brutal de seu lado direito se interromper no ombro acentuava sua imponência através do paradoxo de uma fragilidade que não era imediatamente digerida. Muitas pessoas tornavam a olhá-lo, quando ele não estava se dando conta, para se certificarem que não eram alvo de um engano ocular, e mesmo depois da realidade nua e crua comprovarem o que o fato ditava sem nenhuma dúvida, não saíam  pela porta do escritório do depósito de cereais achando que haviam logrado ou sido logradas por um aleijado. Pois era isso que M. fazia, lograva-os dentro daquele manual particular de sobrevivência financeira que ele nunca havia escrito (e nem o pretendia), mas que me passava algumas de suas leis fundamentais toda vez que saíamos para trabalhar. Um homem viril que passava a segurança de ser capaz de tudo; sereno, rígido de uma maneira que não lhe afetava morais de escritório e éticas de farmácia; alguém que independente do que seria necessário para um canalha autorizado pelos princípios do lucro esquecer o que havia feito de dia para poder repousar a cabeça no travesseiro, ele dormia como um pedra em uma paz que não precisava de nenhuma retórica escamoteadora mas que era uma simples intervenção da natureza; havia lido muito apesar de a impressão ser de que o trânsito atribulado de seu cotidiano não favorecia levar um volume de Eckermann por entre sacas de milho de cem quilos e caminhões aspergindo vapor de diesel não lhe daria a concentração adequada.
         Mas seus conhecimentos eram vastos; citava nomes e eventos históricos no meio de tramoias de comércio em conversas com velhos industriais pançudos e friamente mal-educados, e com uma voz inquebrantável fazia esses senhores desabrocharem impossíveis sorriso marotos achando que se tratava de informações avançadas lhes passadas em surdina. Ele falava com nós, seus funcionários, com uma rispidez que às vezes parecia aristocrática da pior maneira possível, como um senhor de terras russo falaria com seu servo mais preguiçoso, mostrando por detrás das palavras que se tinha aquele resquício de paciência era por ali conter uma censura ainda mais severa que não desejaríamos descobrir; mas a questão era que seus 35 empregados já trabalhavam com ele há anos e nenhum cogitava a ideia de sair dali e, novamente eu digo, isso não tinha a ver com seu aleijamento. Ele tinha esse magnetismo e sabíamos_ era visível de forma imediata_ que ele era humano, que a potestade que ele não acreditava e da qual não fora a perda de um braço que a faria ser a espectadora de seus monólogos estoicos sobre a desgraça que era a vida, não poderia ter errado-- era o que nós pensávamos, mesmo não tendo consciência disso_, algo assim não poderia ter acontecido com alguém que nascera tão pronto para o martírio da existência nessa zona intermediária entre o nada e a aposta infundada em um paraíso, cheia de eflúvios de culpa, traumas, patologias mentais, moléstias de caráter e depravações; a mão de um deus obscuro não havia apontado para ele sem cálculos precisos de que a história magnânima a ser registrada seria cortada no início por uma desistência e nem por um suicídio parcelado em uma vida de oitenta anos, ele iria perseverar e se viraria com tal presente da melhor forma possível.
          Ele perdeu o braço em uma prova infantil. Para ganhar respeito no grupo de machões do bairro, pulou o muro de uma usina abandonada e foi até o centro dela, passando por janelas quebradas e por estruturas de metal arruinadas e incompreensíveis, afim de trazer a tampa da destiladora de cana-de-açúcar e ficou com o braço preso na grade interna. Contou-me isso com um distanciamento desapaixonado, como se tratasse de um ritual de passagem sem muito interesse, como se um cerimonial de núpcias ou o dia em que abriu seu comércio equivalessem em etapas naturais ao sofrimento que aquilo representou por toda a vida para uma criança de 12 anos. Uma vez meu avô narrara no jantar uma pueril história sobre um burro que ele tinha em sua fazenda em Lajes, que empacara num campo de lama que levou seu esforço e de mais dois homens para demover a besta do lugar, e isso me impressionou pela falta de sabor em como uma história poderia ser narrada, a ausência de tramas, a pobreza total de reviravoltas no enredo.
         Quando M. falou daquele evento esquecido, que não dava sinais de fulminá-lo na intermitente volta da lembrança da dor, me voltou o velho burro amuado com os quatro cascos desgastados enfiados na lama, os olhos de azeviche não focando nada mergulhados em uma lamúria incompreendida remoendo suas íntimas filosofias de Platero, e os dois homens e meu avô salpicados até a alma do mesmo barro cuspindo esporadicamente os grossos e rústico pelos que se lhe enfiavam pela boca dando solavancos nas patas e enfiando as caras no traseiro e dizendo urra, vai maldito, e parando para esfregar o suor das testas com a mãos e olharem uns aos outros se rendendo à exaustão além de qualquer xingamento a ponto de um pouco da tristeza do animal lhes contaminar dolentemente o raciocínio. Com a mesma quase proposital intenção de expressar o acontecido mas sem dar-lhe relevância maior que a comportaria uma notificação da trivialidade mais banal. M. me contou a história de seu braço se gangrenando à medida que as horas passavam e ele tinha a certeza de que aqueles garotos broncos, espinhentos, com exalantes odores de excesso de hormônios, não iriam entrar na usina para saberem o que acontecera. Não ouviram seus gritos lá de fora, ou ouviram e não se importaram um centavo. Eu creio que ouviram, ele disse com um acento descendente, olhando para uma lasca do piso e batendo simpaticamente a barra da calça para tirar uma poeira imaginária, mas eles não iriam lá pra me salvar, não fazia parte da ética do jogo. Eram uns ignorantes que só simulavam entender de putas e cerveja e o jeito certo de cobiçar os carros que nunca iriam ter, eram almas inaptas para a alteridade, Halp, seres construídos em uma forja cujo princípio do artesanato em que foram idealizados comportavam pouca massa que não fosse carne, excesso de carne exultante, fremente, sem cultivo, programadas para a explosão e a flacidez no tempo certo.
         Não iriam voltar. Dizia, sem sentimentalismos, sem a nostalgia vingativa ou o recalque. Como eu disse, ele não se gastava em monólogos noturnos debatendo sobre a compreensão inacessível dos propósitos de um deus em que jamais acreditara. Desmaiou após uma hora de dor sem nome, uma dor tão premente e inimaginável que seu cérebro recorrera a ferramentas profundas, enterradas em zonas inacessíveis sedimentadas por séculos de memória armazenada de outras dores perdidas na distância dos seus mais remotos antepassados, para traduzir-lhe o que era aquilo, para que seu espírito não implodisse porque não há mais espaço para novos traumas, todos os traumas já foram suficientemente explorados e utilizados, todas as dores já foram desvendadas e não há como inventar novas dores por mais que seja prolixa a imaginação do destino futuro dessa espécie auto imoladora que é a espécie humana, Halp, de forma que eu apaguei, só fui acordar quando senti alguns homens mexendo com meu corpo, me revirando, perguntando se eu ainda estava vivo. Levaram-me para o hospital público de São Clemente, mas o braço já estava negro igual a uma peça de charque, eu não o sentia mais, havia partido em três lugares e a carne macerada em feridas que ficaram tanto tempo privadas de sangue que estavam em um vermelho pastoso e artificial, como se houvessem pintado e aquilo não fosse admissível na realidade. Amputaram-lhe na altura do ombro e a história tinha terminado, era isso. Aos 12 anos e sem um braço a tarefa não seria nada fácil. Meu pai era carregador de caixas em uma cooperativa do centro, minha mãe cuidava de mim e de meus três irmãos mais novos e às vezes cozinhava em um restaurante polonês que havia no bairro, e eu, predeterminado por essa rígida hierarquia social não tinha um destino melhor pela frente a não ser fazer parte dos honestos e viris trabalhadores braçais, que sustentavam literalmente o peso do que iria preencher as mesas de almoço do país por 12 horas diárias e depois voltava para ser recolhido em hibernação suspensiva em sua casa de dois cômodos até que o dia eternamente renascente o iria acionar novamente em toda sua plenipotência muscular, não sem antes de deitar passar no boteco e beber duas doses calibradas de trigo velho. E agora o prosseguidor dessa tradição se via sem o braço, pela razão mais estúpida de querer impressionar uns descerebrados marcados para serem tão infelizes em suas vidas obtusas e sem sentido quanto ele. Meu pai me olhava com descrédito; suas instâncias de frustração estoica que muitas vezes cambiavam para uma ira violenta não sabiam o que fazer com aquele ornamento rescendido de peso inútil que substituíra seu saudável filho na mesa de jantar; faltavam-lhe as palavras brutalizadas que usava com todos, os xingamentos, as ferramentas virtuosas de machucar que eram seus verbos bem pronunciados e escarrados pela moldura de seu rosto distorcido muito vermelho. Eu o observava pelo canto dos olhos, parado ali imóvel na entrada da cozinha, a boca semiaberta estupefata, reavaliando sua reação e não de todo excluindo a suspeita de que aquilo poderia ser uma peça que a vida lhe pregava, uma espécie de piada sofisticada demais para entender e que não tinha a mínima graça. Meus dois irmãos juntavam lixo e mandava para as caminhonetas de reciclagem particulares, e minha irmã era ainda nova demais para participar de alguma forma de rotina pragmática que não fosse ficar quieta e deixar minha mãe com suas panelas no fogão, e eu me transformara do dia para a noite em um objeto ornamental não desejado. Isso me revoltava, me fazia ter crises compulsivas de choro, M. me disse, sorrindo e soltando um muxoxo ríspido e curto contra alguma rearrumação que por força da distração não se fazia conforme seu desejo em sua mesa de escritório, o que eu não sei se esses movimentos esparsos faziam parte de uma encenação muito convincente de que pouco estivesse aí para o que contava ou se ele era mesmo insolvível a isso tudo, se o ele conseguira mesmo uma privilegiada posição acima da estúpida degradação do tempo. Eu saía para chorar nas escadas do bloco de apartamentos paupérrimo em que morávamos, com muito medo de ser visto, aliás eu passei a ter uma vergonha colossal de que me vissem em qualquer variação de humor, o aleijado, o maneta, o perdedor oficializado sobre o qual já não havia apostas nem que fosse um médio auxiliar de carregamento de cargas suficientemente pouco preguiçoso. Eu fugia de todo mundo, dava a volta pelo quarteirão, a cabeça só não mais baixa porque se sucumbisse à minha humilhação o corpo emborcava para o lado em que lhe faltava aquela porção valiosa. Mas daí me dei conta de algo espantoso, verdadeiramente revolucionário na minha vida: eu fazia de tudo para que não me vissem e as pessoas, ao final das contas, não me viam! De uma hora pra outra, eu passei a ser invisível. Não precisaria me esforçar tanto quanto eu fazia: meu objetivo era alcançado mesmo se eu ficasse estacado em meu canto, apenas observando. Uma vez, no auge da minha aflição por não ser visto, me flagraram chorando sentado nos degraus do porão. Era o porteiro e uma faxineira que passavam por ali não sei atrás de quais arranjos, e, quando se depararam comigo, simplesmente seguiram em frente em seus afazeres, pegando o balde e o esfregão, e se mandaram, apenas desviando-se de mim e fazendo com os olhos uma constatação da minha ocupação física do espaço, uma espécie de cumprimento resquicial, sem dó, sem acusações, sem constrangimento. Antes, quando meu corpo se compunha de todo o porcentual lhe concedido legitimamente pela biologia, havia momentos em que zombavam de meu modo de andar, de meu modo de falar, de minha extrema magreza, mas agora, que tinham o que encarniçar, eles não o faziam. Com o tempo fui alteando o porte, na medida em que me certificava do potencial desse meu súbito poder, e passei a ser realmente feliz com essa minha condição.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Assistindo Godot



Minha filha Júlia tem 7 anos. Nesse final de semana nós dois lemos e encenamos "Esperando Godot". Foi uma experiência maravilhosa nas nossas vidas. Enquanto chovia lá fora, por puro acaso e com espírito da mais risonha brincadeira, nós dois nos trancamos na biblioteca e eu encarnei Vladimir e ela Estragon. Ela esperava, eufórica e com os olhos cheios de sapequice, que eu chegasse logo a partes como as que Estragon olha dentro de sua bota, ou faz pirraça e finge que não ouve o que Vladimir lhe pergunta, ou pega os nabos em vez da cenoura, e, quando isso acontecia, ela saía correndo pela biblioteca fazendo todos os gestos que eu lia em voz alta. Como eu sabia que o longo monólogo de Lucky poderia ser bem difícil para ela, eu pedi que ela fizesse também o papel de Pozzo, e eu de Lucky. Eu lhe disse que havia um filme da peça, e ela ficava me pedindo que eu o achasse nos hds, insistentemente. Acaba que não encontrei, e fomos à casa de um amigo e ele gravou para nós. Ontem assistimos o filme. Que atores extraordinários! Por uma hora e quinze minutos ficamos os dois em estado de êxtase, mudos (ela tão entregue ao filme que dava pequenos pulinhos deitada no meu braço). Acabamos de madrugada e minha surpresa foi enorme ao ver que o filme consta com um "ato 2", em que a história toda é reencenada com algumas liberdades (como a de que o menino que aparece no final, dessa vez, é cego!). O Eric dormia emitindo um leve roquinho no meu outro braço, os dois amontoados em mim enquanto a Dani dormia no quarto. Antes de dormirmos_ a Júlia fazendo cara feia porque queria assistir o resto do ato 2_, eu perguntei a ela o que ela entendera sobre quem era o menino (o menino que surge para mandar o recado aos dois mendigos de que Godot só viria no dia seguinte), e a Júlia me disse que ele era um pastor de ovelhas da Bíblia. Fique deliciado e lhe perguntei se, talvez, o menino poderia ser Jesus. Ela ficou um longo instante pensando e respondeu, depois que lhe dei o beijo de boa noite, que ela ainda continuava achando que o menino era um pastor de ovelhas bíblico. Tenho certeza que nós dois demoramos a dormir, um pensando no que o outro disse. A primeira coisa que ela me diz hoje, ao acordar, é se poderíamos assistir todo o filme de novo.