sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um texto ruim


                                                                 (phew for a minute there i lost myself ilost myself

Estou num processo de depressão progressiva e minha ação de abrir uma conta no Facebook só fez com que ela ficasse mais grave. Nota-se que minha capacidade de síntese também ficou muito afetada com essa ação, pelo que de imediato se vê na frase acima. Eu abri minha página no F e todo aquele ritual de montagem da minha existência entre os adeptos foi acontecendo, fato que eu contribuí fazendo apenas o que me cabia fazer, que era ficar absolutamente inerte e deixar que o organismo do F fizesse tudo por mim, me incorporasse. Coloquei as fotos que eram para ser colocadas, para que a coisa ficasse minimamente apresentável, algo que executei sem qualquer traço de empolgação, e fui respondendo até onde minha paciência aceitava as perguntas automáticas de praxe. Pronto, eu já tinha um F. Olhei a superficialidade da página, sua grotesca intranscendência, sua gritante breguice, sua fundamental ausência de interesse humano... um desinteresse tão explícito que até quando a máquina me joga suas opções de gelados contatos com outros usuários, ela me informa que fulano "comentou sua foto", pois é aceito irrevogavelmente pelo aparelho que ninguém tem conteúdo suficiente para mostrar a não ser o clichê vazio de uma foto pessoal ortodoxa, sorrisos, poses descoladas, a felicidade em falsete. Pronto, minha impressão amargurada de que ninguém está aí para a porra do outro ficara mais forte. Um bando de coitados tentando ser interessante, inteligente, intrigante, genuíno, charmoso e engraçado. É isso, meu Deus? O quanto eu estou defasado e continuarei assim até a morte, o quanto sou negativo e inadaptável. Acesso meu F, e a jornada se inicia. Antes, a construção de meu quadro de amigos, e, como não deveria deixar de ser, a necessidade de rebater aquele tanto de pornografia e más intenções que se oferecem aleatoriamente para serem meus amigos. Então a coisa está feita. Sento-me à mesa, abro meu notebook, e acesso a minha página do F. É um filme de terror. Um pavor fundo. Não dá para ler nada, para ter a empatia e o recolhimento de angariar algum valor com os tantos posts, os tantos links para matérias da hora, para textos de vários jornais do mundo, para cada oferecimento produzido pelas vaidades retumbantes dos meus amigos do que eles julgam fundamental. Não leio nada; só fico muito tempo puxando o cursor para baixo para dar uma panorâmica em tudo, embora tudo seja uma impossibilidade inalcançável. Não consigo ler mais que 4 linhas de um post. Se um post tem 5 linhas, não leio. Mas, pela boa educação_ uma cordialidade estúpida e sem sentido, visto a extrema velocidade e extrema ausência de concentração da coisa_, eu vou apertando a tecla curtir. No segundo dia, já estou em um debate com vários usuários, falando sobre livros, uma montanha de livros. Parecem-me apaixonados pela leitura, ardorosos pretendentes a intelectuais: mas onde acharão tempo para a devoção aos livros, se, pelo que se me afigura, não saem do F? Entro numa roubada de instalar o aplicativo de conversa em meu celular, e daí mesmo quando estou caminhando meus 10 quilômetros diários a parafernália não para de apitar, avisando das mensagens recebidas. Estou dirigindo, e o celular apita. De madrugada, apita. Onde essas boas pessoas acharão lugar em suas compulsões para a leitura? Alguns almejam a carreira literária, sonham com rebeldias explosivas. Há uma garota que até me espanta com a alta qualidade de seus poemas. Mas cadê o recolhimento? A depressão aumenta. Hoje eu passei cabisbaixo, envelhecido, sem energia. Li as páginas que eu escrevo em meu livro, e de repente parecem estúpidas; a estupidez é tão visível nelas que eu esmoreço, vou tomar um suco, ligo a televisão num noticiário. Me espanta meu conformismo. Tudo bem, se eu não consigo, tudo bem, deixo de lado. A negação da chama, por mais que ela seja pequena. Escrever, ora bolas, para quê? Para quem? Aquela velhas perguntas, só que bem mais fodas, bem mais realistas e acachapantes. Há tantos gênios pelo F.; tantas palavras da ordem, tanta ideia fresca e motivacional. Onde eu caibo nessa? Algumas vezes, quando eu consigo ler um texto inteiro de um desses grandes formadores de opinião de 20 mil curtidas e um milhão de amigos, eu penso: para que o mundo precisará mais do que isso? Esse cara, ou essa mulher, com suas estantes de livros ao fundo, com seus posts anteriores falando o que comeram no jantar, esses bem humorados divinatórios, limpos e perfeitos, asseclas da boa aventurança de um novo lugar comum da saúde midiática, já são o auge do esclarecimento, o que se pode exigir mais do que isso? Eles escrevem com agilidade, graça, ferocidade, tudo muito bem medido, sem pompas, como se eu batesse na porta de seus apartamentos vizinhos ao meu e eles me dessem essa incomensurável demonstração de calor biológico me explicando tudo o que eu não sei, tão acessíveis; e fazem vídeos caseiros complementado o ensinamento, em que um lance de sobrancelhas já tem o poder de ficar nas mentes por meses, abrindo espaços de significância. Literatura para quê? Diante deles, escritores como Dostoiévski, por exemplo, é um completo doente. Imagino o quanto Dostoièvski seria execrado se tivesse um F. Doente, imoral, infeliz, perverso, avesso, desconstrutivista, CHATO. Na verdade, Dostoiévski passaria batido, ninguém se importaria com ele. Mas Dostoiévski é um ponto limite, talvez não sirva como exemplo. O que quero dizer é que isso, esse simpaticismo radiante, me deixa numa tristeza só. Fico pensando se, assim como vemos hoje pela série Madmen o quanto o cigarro era incorporado na vida cotidiana de 50 anos atrás, o F futuramente seria visto como um vício extremamente perigoso que a sociedade não percebia. Porque é de uma aberração sem igual ficar todo o dia e noite acessando o F para ver essa caravana de futilidades, essa procissão de vaidades vazias e recalques desbaratados pela fantasia do conteúdo, essa inadvertida construção de uma nova razão para se ter remorso na velhice pela ostentação de não ter feito. Esse fogo fátuo das ideias. O que me assombra mais é o quanto o F prescinde de toda estética, em sua forma quadrangular, sua descansada admissão de que seus usuários são efêmeros, lembra folhetos de propaganda de supermercados e lojas de eletrodomésticos, aliás, não só lembra, mas é um folder de propaganda contínua; é como cultivar a acachapante ilusão de imprimir o espírito entre as cores aberrantes que anunciam as televisões das Casas Bahia, escrever nos interstícios do vermelho e da foto do homem gozado gritando "esse preço só até sexta-feira" a confissão pura e recolhida no fundo da alma. É uma dificuldade procurar as postagens anteriores do usuário, porque o F não foi criado para ser uma reserva progressiva de conteúdos além daquele do dia. Mas não tenho a esperança e o otimismo de acreditar que vá acontecer algum dia essa lucidez libertária de se perceber o quanto o cidadão atual virou uma besta acéfala, regido por fantasias estúpidas de pertencimento a uma comunidade global, ensandecido pelo puxa-saquismo mútuo de que é um gênio e um grande ser humano; mas não acho que vai ficar pior; o F vai acabar, sendo naturalmente substituído por outras roupagens, e o ser humano vai estacionar em sua afasia, o que tal realidade, pode-se dizer, já está acontecendo agora: o ser humano vai se limitar a ser apenas essa vontade não pragmatizada, esse ectoplasma insuflado pela promessa de que pode ser tudo através de uma masturbação cibernética, sem nunca ser nada. Não se pode dizer que se será cada vez mais inumano, porque a lógica é a inércia harmonizar tudo em um mesmo patamar de ausência de valor. Não seria tão terrível se se pudesse transferir tudo para o universo inaugurado pelo F, se tudo fosse da mesma maneira plástica e de sensibilizações amorfas e instantâneas; mas acontece que o mundo do lado de fora, o que antes era tido por mundo real, vai continuar a existir. Inteligências tornadas peculiares pelo corte da amplitude, ternuras excisadas e altruísmo atrofiado até o desaparecimento, vão propiciar um estado de dominação política e social e econômica que, pelo que tudo indica, alcançará níveis de brutalidade inéditos, em uma miríade de formas. E não haverá nada que poderia reverter essa situação, uma vez os seres humanos terem se tornado o homem apascentado e frouxo predito pelo Nietzsche. Isso são pensamentos de um depressivo, que vê a distopia como a realidade corrente, e que escreveu esse texto ruim. Sempre foi um erro e uma ingenuidade imensa acreditar que a dominação viria após revoluções sanguinárias, baderna e anarquismo, que se proibiria ler livros queimando-os todos para que a população não tivesse esclarecimento, que se arrebanharia pessoas em laboratórios e se as produziria em série; a dominação não veio com a censura, mas com a liberdade total; oferecendo-se livros e música de graça para pessoas distraídas a um nível tão extremo que já não conseguem ler livros e ouvir música. Distraídos da distração pela distração, como disse Eliot. E como ele também disse, o fim do mundo não vem com uma explosão, mas com um murmúrio.

domingo, 7 de agosto de 2016

Ninho



Minha alma eterna (me permitam que o diga assim), minha alma eterna está me deixando aos poucos e quase estou sentindo sua resignação decepcionada: mais uma casa onde não consegui fazer meu ninho... (Imre Kertész, Eu, um outro)

Gráfico



Eu sempre achei fascinante esse deslumbramento provocado pelo futebol (e outros esportes) no Brasil; basta uns fogos de artifício e umas coreografias para que se instale a impressão de que tudo está bem, de que nosso amor pátrio é intacto e justificadamente alimentado. Essa capacidade que o futebol tem por aqui de despertar o ufanismo acrítico mais retumbante faz ver que esse tipo de dominação está instalada no gene nacional. Na Copa foi a mesma coisa: críticas no começo, daí  vem o time nacional e ganha de algumas seleções pés-de-chinelo, e todo mundo fala que é "a Copa das Copas", esquece-se das mortes recordes com o despencamento de viadutos e trabalhadores da construção nos projetos faraônicos superfaturados, esquece-se da segregação dos pobres arrastados pelas patrolas dos estádios, esquece-se da sempre reinante divindade da emissora de televisão que coloca seus apresentadores de sempre e suas anittas da hora para representar os eventos, na mais abissal encarnação do panis et circenses, de tal forma que a anitta da hora é tida com a unanimidade mais estúpida como uma "grande intérprete da tradição do samba"; aí vem o 7 a 1 e acaba com tudo, esquece-se de se continuar esquecendo o que já se esqueceu e não sobra mais nada senão o mesmo vexame de reconhecermos o quanto esse tipo de coalizão nacional é falho e desproteinizado, volta a ânsia das diferenças e o grande ódio recíproco que infesta a internet, e ficamos com os rabinhos entre as pernas, envergonhados, prometendo a nós mesmos não cairmos mais tão facilmente nesse tipo de engodo, de sermos mais maduros, e aí vem a Olimpíada e se repete os mesmos sintomas, a mesma ciclicidade resumida na fórmula da veneração descerebrada. O brasileiro pode ser colocado em gráficos de mensuração de comportamento altamente precisos e calibrados. Seja quais forem os próximos eventos futebolísticos globais que o Brasil tiver, a situação se repetirá eternamente.

domingo, 31 de julho de 2016

O tradutor cleptomaníaco



O conto O presidente,  de Dezsö Kosztolányi, contido em O tradutor cleptomaníaco, da Editora 34, é um dos cinco melhores que já li. Está no mesmo patamar que Bartleby e O alienista _ trata do mesmo tema destes, a alienação voluntária à grotesca realidade terrena, a "fuga da história". No conto do húngaro, o alto humor pontua a visão fortemente niilista quanto às instituições culturais e científicas; dei gargalhadas ao mesmo tempo em que tive a certeza de que estava lendo uma das críticas mais ácidas contra a estupidez humana. Aqui reproduzo uma das partes mais hilariantes do conto, em que o personagem Kornél Esti descreve a singularidade dos alemães:


"Um mundo novo se abriu diante de mim. Assim que meu trem rolou em trilhos alemães, passava de uma surpresa para a outra. Pode-se dizer que estava sempre de boca aberta, a partir do que meus companheiros de viagem deduziram que eu era um débil mental. Ordem e limpeza em todo canto, nos objetos e até nas pessoas.
        Desci a primeira vez num pequeno balneário, para lavar a poeira. Não precisei perguntar para ninguém onde era o mar. Nas limpas e varridas ruazinhas, precisamente a cada dez metros, havia um elegante poste, nele uma placa branca esmaltada, com uma mão que aponta, embaixo a inscrição: Caminho para o mar. Seria impossível guiar melhor um turista. Cheguei ao mar. Lá, fiquei um pouco pasmado. Na areia, a um metro da água, um poste um pouco mais alto, mas totalmente parecido com os anteriores despertou minha atenção, e nele, uma placa branca esmaltada, um pouco maior, mas totalmente parecida com as outras, com esta inscrição: O mar.
          Para mim, proveniente de um lugar latino, parecia-me a princípio totalmente desnecessário. Pois uma agitada imensidão espumava diante de mim, e era óbvio que ninguém poderia confundir o Mar do Norte com uma escarradeira, ou com uma lavanderia. Mais tarde reconheci que me enganara na minha superficialidade juvenil. Era justamente nisso que estava a verdadeira grandeza dos alemães. Isso era a própria perfeição. A inclinação dos alemães para a filosofia exigia que concluíssem a tese e apontassem o resultado, como muitas vezes um matemático escreve numa demonstração que 1 = 1, ou na argumentação lógica, em que muitas vezes se constata que Pedro = Pedro (e não a Paulo).”

O caderno de capa vermelha



Entrementes, não começou assim. Desde que me internaram e os sintomas do meu mal foram diminuídos até que tudo fosse expressivo demais ou visível demais a um nível pouco elegante, o doutor Toledo arranjou de elogiar meu ego me pondo a escrever. Digo elogiou-me porque por detrás de sua boa estampa de cavalheiro para o qual o mundo se curva em amenidades solenes, há a astúcia fria e um tanto perversa do homem da ciência. Trouxe-me da primeira vez um desses cadernos vulgares, cujo vermelho berrante da capa provocava a angústia de se lembrar que além dos muros da clínica a bestialidade continuava a bruxulear à toda força lá do lado de fora. Justo quando concluía-se o segundo mês de meu confinamento onde se firmara que é voluntário, que a qualquer hora que me faça desejável eu posso muito bem deixar a clínica e voltar para casa, e eu estava me acostumando com as vantagens recolhidas da falta de liberdade, aparece-me de frente esse vermelho de verniz explosivo, esse eloquente corte de verbas de um produto feito para a alienação dos estúpidos cumpridores de regras. Não foi por menos que o doutor Toledo percebeu no ato a minha profunda decepção quanto à sua falta de sutileza. Pelo canto dos olhos, em nossos estudos mútuos de nossas humanidades recíprocas_ pois o centro dos olhos prostrava-se naquele objeto pueril que era o caderno de vermelho berrante_, foi-me possível apreender sua impavidez marcial titubeando diante a consciência de seu lastimável passo em falso. Ele já não podia voltar atrás e admitir que havia quebrado alguns dos preceitos de nosso pacto de confiança, de forma que recorreu a toda força de sua ortodoxia profissional para se fazer de correto. Disse-me para escrever sobre minha vida, o que me passasse pela cabeça; que eu caçasse a fundo a raiz do que desencadeara esse estágio no tempo em que singularidades de comportamento e de íntimas contenções define o Halperin Sás que agora desvanece seus dias nessa clínica, se contrai em aquiescente deleite à condição de vigiado para quem eufemizam sua realidade de prisioneiro. Com sua voz acalentadora, uma voz que é uma dimensão em si mesma onde meus ouvidos sentem os vastos campos de papoula florescendo, o doutor Toledo me instiga a depositar naquelas folhas o que eu sou. Depois vai embora porta afora e me deixa com essa excrescência rubra no colo; propósito: tornar meu espólio espiritual tão empobrecido quanto esse caderno. Por pura raiva, na verdade uma raiva também progressivamente aquiescente, começo a escrever. O lápis que ele pôs em minha mão, como não haveria de deixar de ser nesse sistema de confluências lógicas, é da mesma vulgaridade de trinta centavos, encontrados nos balcões dos armazéns de esquina como troco complementar às moedas faltantes no começo do expediente; pelo menos é negro; analisando-o com certa resignação, neste a indústria dos rebanhos pacificados não achou a matemática de retorno de lucros que autorizasse um azul diatomáceo ou um vermelho acrílico encegante. Um negro comportado, de alguma forma digno se meu cérebro não trabalhasse para desfilar as tantas imagens em que homens de ternos baratos tem exemplares dele em mãos para fazer toscas contas de despesas de final de mês. É tudo de uma vulgaridade tão brutal que sinto na garganta um grito subindo, que eu engulo com a força de todos os músculos do pescoço, e me admoesto: "Sua nova regra, Halp: aceitar as coisas como são: inserir-se no tempo, não mais o recusar. Foi-se a época do Pequeno Nero. Agora te pegaram. Envenenaram-te com estudada parcimônia para que todos os excessos fossem desbastados." Sinto minhas mãos em uma situação de plenitude afásica, estendidas nas minhas coxas como se não fossem mais minhas. Pequenas mãos enodoadas pelo derrame de melanina, dedos infantis tortos, juntas grossas deformadas, a dupla materialidade do anúncio da velhice, uma moldura engordurada em torno. Mãos do tipo físico clínico que indicam a ausência da ganância. Mãos cujo único desejo foi nunca possuírem. Lembro então que as mãos de meus tios eram enormes, como aranhas subaquáticas surgidas na rede pesqueira com uma surpresa terrorífica, vindas lá do fundo, loucas para adivinharem a luz e embriagadas o suficiente para substituírem o êxtase para as quais sabem incapazes pela compulsão da posse. Mãos abissais, fartas da escuridão mas intimamente definidas por ela. Sempre que uma dessas tomavam as minhas em seus centros ásperos e quentes, o poder de sua imensidão me apequenava ainda mais. "Que mãozinhas delicadas tem o Halp", diziam, com aqueles animais hipertrofiados regurgitando com um carinho seco os ossinhos das minhas mãos, devolvendo-mas depois com gentileza. Sentia a estrutura rígida de seus músculos, suas inteligências maquinais carregadas de vaidade por saberem as preciosidades anatômicas que eram. Pensando nisso tudo, me levando por essa desalentadora corrente de sugestões, baixo meus olhos e esfrego uma nas outras as minhas mãos indispostas a novos começos. Mesmo assim, minha mão direita pega o lápis e começa a escrever na primeira página do caderno vermelho.

sábado, 30 de julho de 2016

A chegada, de Shaun Tan

Uma das mais belas graphic novels do mundo não contém uma palavra. Ontem, eu e a Júlia aproveitamos o início do último final de semana das férias para "lê-la" até a madrugada. "A chegada", de Shaun Tan, uma obra-prima simplesmente genial. Um livro cinema-mudo.










terça-feira, 26 de julho de 2016

As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg



Na faculdade eu tinha uma amiga que era fã de Hemingway. Ela era miúda, de óculos, ruivinha, e fazia medicina_ e era apaixonada por Hemingway. Era tão exótica em seu ambiente quanto eu com meu livro do William Golding nos pátios da Veterinária. O que mais me espantava não era o fato dela estar se integrando nos quadros da profissão que menos lê além dos compêndios técnicos, mas pelo fato dela, tão feminina, gostar de um autor que volta e meia utilizava a apologia de seus "colhões" como eixo condutor da frase. Eu perguntava para ela, realmente querendo saber, como uma mulher suportava ler Hemingway. Na minha incapacidade de correlação, imaginava que seria o mesmo que um homem ler Barbara Cartland. Ela me respondia que adorava aquele masculinismo, mas compreendia talvez de uma maneira que me faltava os meios a fragilidade do autor. Ela, por exemplo, detestara Adeus às armas, achava-o esquemático, cheio de clichês, com um final tão falho quanto um desfecho de uma novela televisiva mexicana, enquanto eu ainda estava sob o fascínio da extrema concisão daquela última página que, repeti para ela, segundo consta, Hemigway a reescrevera 30 vezes. Por outro lado, ela e eu dividíamos a reverência pelos contos de H., em especial Gato na chuva e Montes como elefantes brancos, e julgávamos também de comum acordo que Do outro lado do rio, por entre as árvores era seu melhor romance. Guardei desses anos meu preconceito ingênuo de achar que boa parte da literatura era insultuosa para mulheres, já que era escrita por homens e para homens.

Hoje estava acabando de ler o livro As pequenas virtudes, da Natalia Ginzburg, publicado pela Cosac Naify. Vou admitir: já li várias escritoras, mas só agora, com esse belíssimo livro em mãos, entendi. Talvez só me veio a compreensão porque, de forma geral, Ginzburg seja a mais feminina das escritoras. Ela, felizmente, não tem a ostensividade de gênero que às vezes extrapola o vulgar em Hemingway. Ginzburg é... como direi...absolutamente sem medo, absolutamente verdadeira. Não há nenhum artifício nela, para o bem ou para o mal. Ela é feminina de um jeito primordial, nela está a resignação e algo que transcende a resignação da mulher diante a sina de sofrer pela imaturidade e instabilidade do macho. Nunca vi uma escritora tão só, e tão preenchida da missão em analisar puramente a solidão da mulher no século passado, nas guerras, na deportação, no exílio. E o mais belo nela é sua desproteção, sua maneira de ser gigantesca sendo pequena. E o que torna isso maior ainda é que, ao contrário da literatura masculina, ela não precisa da astúcia para ter legitimidade, não precisa do ódio, do rancor, que são tão características da literatura produzida pelo gênero masculino. Todos os contos desse livro, grande parte bem ligeiros, são obras primas, calam fundo, são brisas frescas em um quarto acolhedoramente escuro. Não tem como sair desse livro sem cultivar um amor pela Ginzburg, sem procurar sua foto e ver seu rosto expressivo, não trivial, de ângulos tão propícios ao sofrimento e à reflexão, seu rosto espichado, pouco bonito, ou feito para ter todo o esplendor de sua beleza recolhida na velhice. Seu rosto não tem a propensão à neurastenia da Virginia Woolf, é bem mais forte; vê-se isso em sua falta de pudores para sorrir e se comportar com sua saudável normalidade nas fotos, ao contrário de Woolf, cuja incapacidade de sair da ética burguesa feminina de posar como um fauno deve tê-la irritado bastante. O conto Ele e eu, presente nesse volume, mostra seus sentimentos resignados diante a imposição patriarcal do marido, diante seus sarcasmos e sua tirania em rebaixá-la. Ginzburg usa de toda sua fragilidade assumida para construir uma das reivindicações mais tocantes para a liberdade de ser simples sem ser simplória; ela acaba saindo com uma estatura bem mais íntegra no final do conto do que seu marido, sem que, repito, tenha usado de nenhum artifício melífluo para tal. É um conto que em meus anos de ingenuidade eu acharia se tratar de uma literatura inócua ao homem, só assimilável a uma outra mulher, como um segredo, uma identificação, um sinal de pertencimento. Hoje percebo o mesmo que minha amiga, bem mais inteligente do que eu, em fazer da leitura um aprendizado sistemático, imune a clubismos. Uma felicidade sem tamanho ter encontrado esse livro.