domingo, 28 de junho de 2020

Scenio



Enrietta foi assassinada há 13 anos. O sr. Flibas parou diante o semáforo para pedestres, que no momento apresentava o homenzinho em pose marcial circunscrito em seu quadrângulo vermelho, e olhou os rostos atônitos do outro lado da rua apontando seus olhos para onde ele estava sem o verem. Foi no bairro de São Bento, a dez quilômetros dali, quando Enrietta ia às seis da manhã para o serviço de conselho tutelar no qual se ingressara fazia um ano. O rapaz_ na verdade, um pertencente à faixa etária indefinida entre a infância e a adolescência_, passara por ela, estacara dois metros além e, como se algo que exigisse sua atenção tivesse quase passado batido, mas que se recuperara pelo seu afinco em ser efetivo a algum zelo irretocável, deu meia volta e voltou calmamente até onde ela estava, naquela mesma posição em que o sr. Flibas agora estava diante o semáforo, à espera de que a marcha de carros fosse interrompida na transversal e o caminho para as pessoas fosse liberado. Ela levava uma bolsa de pano bordado com uma mixórdia de desenhos africanos pendurada no ombro, e na hora em que o menino a puxou com violência, seu corpo pendera para o lado; o desequilíbrio fez com que os grandes óculos ray-ban escuros ficassem inclinados no meio do rosto e seus cabelos crespos, que lhe conferiam o principal toque de personalidade, formassem um nimbo na região acima da testa, o que era o detalhe mais visível na câmera de monitoramento de uma panificadora, que registrara tudo e que os policiais mostraram para o sr. Flibas alguns dias depois. A luz vermelha se apagou e o quadrângulo verde, com o homenzinho atarefado estendendo a perna para efetuar um passo, acendeu, o efeito entre cores tão avessas provocando o acionamento de todas as pernas da fila lateral de pedestres que esperavam por aquela adstringente libertação. O sr. Flibas agilizou para chegar ao outro lado, com a desconfiança supersticiosa de que os carros parados eram seres brutais de vontade própria que poderiam avançar a qualquer momento, sem respeito às leis. Enrietta jamais fizera aquele gesto que ele fazia agora, jamais atravessara a rua. Nos primeiros meses, mesmo nos primeiros lentos e imprecisos 5 anos, ele caía na divagação de se não comportava uma culpa pessoal em não ter sido audaz o suficiente para ensina-la a controlar certos movimentos condicionados. Se não teria sido um grande lapso não ter dedicado a instruir um ser tão imolado pela malícia sobre a corrupção que imperava do lado de fora da porta de seu refúgio. Talvez ela não teria simulado reação, como puxar a bolsa de volta, respondendo proporcionalmente à força do ladrão com a energia muscular de seu braço fino mas vigoroso. Algum transeunte que testemunhara a cena talvez tivesse expressado um gesto de admiração e achado que a história teria sido ganha, o mal enxotado e a pobre figura de David vitorioso sido representado na transfiguração de uma raquítica mulher de meia idade, quando o rapaz se estatelou no chão, sem a bolsa e de olhar primeiramente atordoado de surpresa. Mas o sr. Flibas, os policiais e a história já sentenciada de sua vida, sabiam, ao ver num ângulo apical e em preto-e-branco na imagem gravada, que a conclusão não havia sido essa. O movimento da funda tinha sido feito, não com precisão suficiente, e a pedra passara em direção perdida alheia à cabeça do Golias. O mal não se evadira, se levantara em suas orgulhosas e ofendidas pernas juvenis, fitara com um ódio transfigurador o que tinha pela frente, e acertara em Enrietta um murro carregado de fúria que a fez cair instantaneamente sem vida. Foi isso que o laudo do instituto médico legal declararia para o inquérito, um murro tão bem dado que partira seu maxilar e lhe causara uma hemorragia cerebral instantânea. Essa aberração fria, asséptica e sem transcendência o fazia ter pensamentos absurdos como achar que era uma sorte ela não ter sentido a série de chutes que o criminoso dera em sua cabeça em seguida. Não queria se lembrar daquilo, daquela cena registrada nas fitas da caixa da panificadora; os agentes policiais tocaram-lhe nas costas e pediram gentilmente que se retirasse, enquanto um deles dava o sinal para que desligassem o vídeo, mas já era tarde, por distração todos estavam de frente à televisão e a cena continuara a transcorrer, cada um afundado em seus pensamentos, confusos diante a análise que tinham de fazer diante algo que a tecnologia destilara até uma seca trivialidade, desinflando através da repetição a brutalidade de um assassinato absolutamente desproporcional e vazio.
            O sr. Flibas seguiu a recomendação do policial e passou pela porta até o outro lado da pequena sala de perícias, onde a efervescência de uma delegacia de policia continuava à toda com algumas pessoas sentadas à espera de que fossem promovidas de seres congelados no interstício entre a ação e a captura para o centro de interrogatórios pormenorizados, ao que alguns deles responderiam com prontidão, como se narrassem eventos cometidos não por eles mas por desconhecidos tomados pelo ensandecimento; outros iriam se calar com uma fúria concentrada; outros não falariam nada com nada, perturbados pela química ou pela loucura do excesso de afronta que a vida lhes fazia. Seus olhos aturdidos pousaram por um longo momento em uma mulher que estava em uma das cadeiras ligadas por uma barra de aço embaixo, sentada em uma pose inusitada, como se seu corpo não tivesse apenas um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura ou algo em torno disso mas fosse extenso o suficiente para atravessar pelas outras cadeiras numa declarada provocação. Mascava chiclete, era morena, cabelos crespos, ensebados e juntados em feixes pontiagudos revelando uma série de cuidados cosméticos tentados sem nenhuma resposta satisfatória e deixados assim como estavam, inóspitos, irregulares, um quebra-cabeça; aliás, ela percebera que era alvo da deseducada atenção do sr. Flibas, através da percepção da presa que costuma saber da presença do predador através de radares sensoriais sutis, e por isso ela parou de mascar o chiclete; o corpo, que emitia um movimento barcolejante, levando a perna cruzada acompanhando a linha da outra perna até onde ficava o limite da cadeira de uma outra mulher mais velha sentada a seu lado, se interrompeu, e seus olhos foram se iluminando de algo que parecia uma intensidade furiosa emitida à distância de dentro de uma caverna, o que faria seu observador cogitar se de dentro pularia uma fera atiçada ou revoariam criaturas noturnas acuadas em busca de outro refúgio. O sr. Flibas a via, mas não a enxergava; sua mente estava desbaratinada; um enorme cansaço como jamais sentira antes afundou seu peso em seus ombros, de forma que ele se encolhera e seus braços retos e desamparados sentiam a necessidade insurgente de abraçarem alguma coisa, nem que fosse seu próprio corpo. Seu cérebro sofrera uma pane, deixando os membros que tinham a obrigação de comandar a seus próprios domínios, e, em consequência, era como se sua alma partisse por um instante, o que ocasionara deixar seus olhos firmemente presos no último objeto em que se sentaram. Os policiais foram buscar um laudo para que ele assinasse e o deixaram ali, tomado por uma insípida vontade de desaparecer. Algo estava muito errado com o que estava acontecendo. Ele não merecia aquilo. Não, não; não era uma questão filosófica, não era uma reivindicação moral, que isso ficasse nos livros, nos compêndios e nos tratados, ele pouco se importava com eles; o que exigia em um destemperado silêncio era seu direito de não ser interessante, era seu mérito em ser invisível, era que a lei cumprisse sua obrigação sobre ele no antigo acordo que ele fez em não imolar o mundo, em não querer do mundo nada a não ser a sua porção satisfatória ínfima e cabível para que levasse sua vida, estendesse complacente sua não competição no jogo e fosse deixado em paz; sua animalidade, porque ao menos seres como ele e Enrietta tinham o direito de perfazerem seus anos em exílio pacífico, não chamando a atenção daquela fúria tão ocupada e sequiosa do mundo. Mas, como se o mistério inquirido não aceitasse mais capitulação, seu devaneio foi quebrado pela pequena mulher, que se levantara agora da cadeira e avançara para o sr. Flibas, os braços formando duas asas com as mãos na cintura, os olhos arregalados, a boca cuspindo chispas de impropérios por entre cacos de dentes amarelos. O sr. Flibas olhava-a com tênue estupefação, como se aquilo não condissesse com alguma linha de lógica que ainda se prestasse a envolver aquela zona da realidade, e a mulher esmoreceu, percebeu seu abatimento, provavelmente sentiu através dos canais telepáticos dos grandes sofredores o inferno que lhe ia por dentro e parou, silenciou de uma vez; voltou seu corpo miúdo e se sentou com uma nova integridade, como se o que vira no sr. Flibas, em sua apatia, exigisse dela uma postura respeitosa. O sr. Flibas vira que era uma menina ainda.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A cadela



Os dias tinham uma oligarquia própria e os domingos eram os reis depostos, os monarcas guilhotinados da cosmogonia sem surpresas da semana de Timos. Quando era jovem, odiava os domingos, que eram dias em que sua independência ficava ainda mais longe de ser conseguida porque tinha que se subordinar à vontade da viagem da mãe, ou dos encontros protocolares com alguma namorada. Agora, aos 38 anos, esses dias lhe pareciam o que na verdade eram, mas estava distante da possibilidade de visão do homem citadino: eram encaixes lógicos do mecanismo, recortes da perfeição matemática do objeto obscuro e sem sentido da prisão da rotina. Trabalhar, transportar-se, apetites reativados, colheradas, coito, e depois, trabalhar, se deixar levar pelos ônibus com o odor acidulante da graxa passada por cima de camadas de suor que nenhum alvejante conseguia limpar. E aqueles dias imóveis, iluminados como se para sua realidade brutal fosse atenuada, entrepostos como guardas eunucos em cima do parapeito de um castelo. Restava em Timos a resignação contra o caráter acachapante dos domingos que era sempre conseguir transformá-los em inspiração para músicas ou letras baratas, nas simulações solitárias de que tinha uma banda de rock. Uma abstração fundamentada em olhá-lo não diretamente mas por vias distorcidas, de maneiras que podiam ser representados por rostos femininos escorados na janela, lânguidos corpos seminus em sacadas áridas. Naquele país os domingos atrelavam-se a golpes, mas nada os tornavam mais detestavelmente mortíferos do que serem o dia primordial dos péssimos programas de televisão. Sua mãe e ele nunca assistiam a esses programas, que em sua infância ele recordava como aberrações de velhos vestidos de palhaços e dançarinas de colant com sorrisos vazios. Onde quer que fossem, a televisão estava sempre ligada, armazéns, barbearias, alguma eventual visita a familiares. De modos que era impossível ficar longe daquilo. E nos domingos a alma do país, incorporada na sacralidade vicking do futebol, passava na tela no desfile dos guerreiros de shorts e camisetas coladas posicionando-se para lutar pela nação, ou por uma das tantas partes da nação que se digladiariam umas com as outras na dramatização de uma guerra civil que fora daqueles ensaios nunca existira. O futebol lhe causava indiferença da mesma forma que os pastiches de auditório, mas aquilo acabou por se escorrer para dentro dele, ou, antes, escorrer para dentro do modo como ele apercebia aquele rei gordo e decapitado que estava na linha de sucessão perpétua às segundas-feiras matronas, às terças-feiras beatas, às quartas-marinheiros deixadas em terra firme, às prometedoras quintas-feiras dos filósofos socráticos que por sua vez eram substituídas pelo ar da montanha das sextas-filósofos germânicos clássicos e pelo sábado-existencialista. Ou algo assim, Timos nunca catalogara a sequência além de uma piada silenciosa e vagamente cerebral. Mas os domingos sim se encaixavam como uma luva à figura de monarcas caídos. Um palácio de Versalhes em ruínas sobressaía-se como um fogo fátuo às praças desertas da cidade.
          Ele fizera um chá preto e o tomava de frente à janela, olhando a rua deserta por onde passava uma procissão de cachorros. Uma esfarrapada cadela marrom, acostumada com uma vida sem eufemismos, se mantinha séria e concentrada à frente deles. Não fazia que não via os seis ou sete cães miseravelmente fanatizados dentro do raio de sua vulva inchada, mas realmente não tinha tempo para notar à turba mais do que veria algumas moscas que a incomodassem. Timos observava as grades das sacadas dos prédios em frente, os jornais arrastados pelo vento pelas ruas, o sol projetando-se com a falta de estímulos regimental de um funcionário público nas vitrines, quando os cães surgiram. Dobraram no alto da esquina à esquerda e vieram se aproximando em uns trancos desconjuntados e desgraciosos, se chocando como um só organismo de múltiplos pés e cabeças contra as paredes e uma lata de lixo, até que entraram de vez no seu campo visual pegando um tanto do deleite de sua distração para si. Uns cães inteiramente motivados por um propósito, com exceção da cadela, que estava inserida na vida com as quatro patas. Os machos pulavam-na, cheiravam sua vulva, às vezes um entrava na dimensão solipsistas do outro e era rechaçado por um rosnado e uma mordida, enquanto ela focinhava a sarjeta, vasculhava debaixo das lixeiras, parava um instante para olhar ao longe do outro lado da rua, como uma matrona atarefada olhando se o açougueiro abrira o açougue, e depois seguia, lascando suas mordidas e reclamando daquele contratempo ridículo que lhe estavam causando. De repente, com uma fortuidade astuta, um dos machos galgou suas ancas, sem pressa, deslizando-se na lei milenar que lhe autorizava a isso, e começou a encaixar o projétil rosa desbotado que tinha como pênis por entre as almofadas tesas e vistosas do sexo dela. Isso pareceu acionar alguma antiga lembrança na cadela, como se uma frase ouvida de algum passante a fizesse se lembrar de algo importante que indesculpavelmente havia esquecido, mas tal sensação passara rapidamente e ela sentiu a velha coisa exigindo entrada em sua velha porta de acepção e imediatamente ela virou a cabeça numa versatilidade que se servia de um bem moldado feixe de músculos e tascou uma mordida de extrema ferocidade na orelha do cão. Este, apesar de ser um pouco maior que ela, e bem mais jovem, pulou fora e ganiu com um desamparo que parecia pedir justo à sua agressora algum piedoso refúgio maternal.
          Timos sorvia o chá e olhava com inesperado interesse àquela quebra de continuidade do cenário. Não eram felizes, nem os famintos e obcecados, nem a fêmea atarantada pelos arranjos da sobrevivência. Ele adorava cachorros, mais do que gatos; ou não, fizera uma curva proibitiva em seus gostos e passara a gostar de gatos tanto quanto gostava de cachorros, mas compreendia porque os muçulmanos julgavam cães animas imundos. Eram os mais humanos dos animais no sentido da abjeção e da libido, e, ao contrário do homem, que disfarçava suas lástimas higiênicas escondendo-as em tecidos e perfumes, toda a selvageria da natureza transparecia em seus pelos. Deus parece ter tido piedade dessa sua criação pois retirou dela a tragédia de suar pela pele, limitando a fazerem isso pelas almofadas das patas. Do contrário, o grau de degradação seria tão grande que vai ver não teriam sobrevivido, a evolução teria acabado com eles como fizera com as aves de escamas, ou teria destinado a eles, como uma misericórdia ocasional, uma região insular própria, como fez com as equídeas. Continuou olhando a matilha por algum tempo mais, já sem prestar atenção, e seus pensamentos planaram sobre cães e gatos, imaginou se o professor doutor que morava no andar de baixo teria um gato, não era a cara dele, mas se algum dia se deparasse com um siamês gordo e cinza identificaria imediatamente alguns pontos de atalho para se chegar a um núcleo recôndito da personalidade dele. Um gato com um nome de um filósofo, ou quem sabe de algum obscuro e muito específico historiógrafo de alguma guerra da Europa medieval que se ele desaparecesse com seus livros e alguma estante de uma faculdade pacata pegasse fogo estaria esquecido para sempre. Um gato chamado Kant, Timos pensou, sorvendo o chá ainda bastante quente e olhando a estoica cadela atarefada dobrar a esquina seguinte, sumindo daquele setor do universo que coube a ele registrar na memória, naquele domingo desterrado do infinito, como diria Baudelaire. Um dia teria o ânimo para bater à porta do professor, na maior cara dura, e violenta-lo com uma conversa? Um dia veria o sedoso gato vernacular, com seus bigodes obsidianos e seus olhos carregados de um tédio avaliativo deitado em cima de um livro em capa de couro?
          Saiu de frente da janela e voltou para as sombras do quarto. Era hora de acender a luz. As unhas defuntinas do domingo se alastravam por cima da cama, como um ator alquebrado de um filme alemão dos anos 20. O domingo ia embora e Timos mais uma vez saiu ileso dele. A cabeça acostumada com a luxúria da coroa rolava pelo cadafalso e nada acontecera, nem uma revelação, nenhuma notícia desagradável. Perseverou com a luz apagada, olhando as cobertas revoltas no colchão da sala, uma revista de filmes aberta por sobre a poltrona de couro, o abajur parecendo uma pirâmide tailandesa ao lado, verde musgo no meio do escuro por sobre a escrivaninha que continha um palimpsesto das contas de luz e extratos bancários. Atirou a revista por cima do colchão, comprada na livraria do shopping quando comprara uma lote de resmas de papel para escrever seu tratado, e se sentou. Não queria escrever. Escrevera por horas seguidas naquela tarde, e era por isso, segundo a crença de seus instintos, que o tempo correra tão depressa. Se escrevesse um mês sem parar, com pausas apenas para se alimentar e realizar suas necessidades básicas, quanto tempo pularia para o futuro? Sentia-se leve, a mente latejando, agradavelmente sem ideias, se permitindo um estágio de afasia idiótica, como se tivesse cumprido seus deveres com o que determinava a razão de sua existência e agora estivesse no crédito. Em certo momento em que fazia a síntese mais concentradamente costurada do que ele sabia sobre a tirania, viera-lhe a dúvida de se aquilo tudo não era um engodo auto motivado. Se tudo aquilo não era apenas uma brincadeira, como ele fazia no pátio do prédio quando era criança. O que havia para dar legitimidade ao que ele retirava do profundo de sua alma e depositava no papel? Apenas o fato literal que comportava nesta frase, o fato de ser algo que ele acreditava profundo e vindo de uma abstração que ele tinha que acreditar para justificar não ser apenas um gorila destrinchando uma folha, isso que ele chamava de alma. Mas continuara escrevendo, continuara seguindo aquela vontade que funcionava mecanicamente. Se era a alma, era podia render através de espremidas constantes da mesma forma que uma madeira rende sob o fornilho ou a vaca produz sob o empuxo da mão que ordenha. Era um ponto de conexão com a matéria que tornava a alma muito suspeitamente uma imaginação de uma glândula. E o cansaço beatifico que o manuseio bruto da alma causava aumentava essa impressão. Se isso fosse verdade, ele percebia o paradoxo que era destilar o que lhe parecia o sumo mais refinado da alma e coloca-lo como pensamentos no papel e a própria fisiologia da alma dizer que sua carnalidade pura autorizava todo o tema de seu trabalho. A alma sendo glândula a tirania e a própria miséria inescapável da história seriam o que há de mais natural, a disputa a céu aberto que acontecia na caravana de dias iguais seria a razão da existência, sua força combustiva, sua bateria solar de energia inesgotável. Tudo que ele estava escrevendo e os séculos de poesia seriam inúteis, todos seriam apenas crianças brincando no pátio simulando que era uma floresta. E tudo indicava que a verdade era essa. Era essa a verdade, Timos falou em voz alta, analisando a textura de suas palavras para ver como soaram. Schopenhauer teria uma voz cinzenta, depravadamente alcoólica, abnegadamente feliz saboreando essa verdade como um ácido cítrico excessivamente azedo na língua. Enquanto sua voz soava apenas como um cidadão sem muitas impurezas a não ser as horas que o separavam do banho de ontem, sem nenhum pecado. Schopenhauer seria a cadela no cio já em um estágio de pureza de sofrimento que não tinha tempo de se ligar a uma penetração anal ligeira. Não era certo falar assim de um busto tão reverenciado. Ainda que o velho alemão gostasse muito de falar umas sandices para as prostitutas que levava para seu pequeno quarto. Ele deveria sentá-las no colo, uma em cada perna_ porque o regime almático de metafísica desconstruidora deveria lhe dar uma libido imune à idade_, e dizer algo sobre Hegel, como aquele honorável professor de voz pausada, tendente ao agudo feminil quando lhe despertava o ódio ao um de seus discípulos fieis fofocar que o professor sem alunos e velhuscamente alquebrado andava dizendo barbaridades sobre ele, aquele grande pensador limpo e bonito, bem criado nas artimanhas da vida fútil burguesa para ver a desgraça a que tudo se dirigia infatigavelmente em um prazeroso conforto. Deveria rir para as putas enquanto o imitava, e se tinha algo que o Schope era bom era na arte da maledicência, e elas riam de volta com suas carinhas sacanas olhando para ele entreabrindo os olhos de lascívia, sem entender nada do que ele dizia mas sabendo que era o veneno depurado mais mortal do mundo. A velha cadela do Schopenhauer. Riu alto ao saborear a descompostura e deselegância da frase. Daria o título de um ensaio, desses que a gente usa para suicidar a carreira e procurar a fênix que iria nascer no lugar.
          Não sentia a mínima vontade de averiguar o que escrevera. Estava tudo no computador, 17 páginas em fonte colibri e tamanho 16. Apesar de tudo, sentia que tinha voado sobre uma região aprazível, sentira o vento da tundra e o gelo onde os lobos corriam embaixo. Uma glândula era o tesouro da biologia. Havia tanto desejo nela, tanta previsão de mundos, tantas utopias redivivas e eternas que se repetiam como um cacoete passado de avô para pai e de pai para filho. Não adianta resistir a ela nem com toda a lucidez científica do mundo. Um glândula comportava algo do porvir do homem na última escala da evolução, sua mesma asfixiante felicidade e sua mesma resignada tristeza.
           A caneca estava vazia. Testou a garrafa para ver se caia uma última gota de chá, mas ela estava vazia como se um vento do deserto a tivesse exaurida enquanto pensava todas essas coisas. Estava vestido de calça jeans, camiseta e um pulôver para se proteger do frio, e usava meias marrons finas nos pés, descosturadas ao longo como espinha de peixe. Esticou as pernas, espreguiçou-se estendendo os braços até o limite, e sentiu um desejo de dormir, dormir como nunca fizera depois que crescera, dormir como quando dormia na infância, atarefadamente, com compromisso, em busca de resultados conhecidos. Sabia que não era mais apto a esse tipo de desligamento, por isso se deixou cair em cochilos na poltrona. Era uma poltrona muito boa, que sua mãe lhe dera da sua biblioteca particular. Chama-se poltrona do papai, ela disse, quando ele a visitara e ela lhe levou onde estava “algo que não lhe servia mais e queria lhe dar”. Viu aquele objeto tão espetacularmente feito para descansos inauditos e a quis de imediato. Raras as vezes acontecia isso de não ter o que confrontar aos agrados de sua mãe, por isso ele se calou, olhando o feltro macio desgastado, a plataforma de se encostar as costas, da cabeça aos pés, se inclinando em um v que se alteava nas extremidades e que deveria ser como deitar nas nuvens. Era velha, olhando para ela tinha-se a impressão de que seu tempo de uso gerira alguma trave quebrada entre o esqueleto de madeira escondido por debaixo da pele, e o tecido estava esgarçado, com fiapos alteando-se para o céu de brinquedo que comportaria aquelas fogueiras de felpo congeladas na cena após as tribos nômades terem-lhe abandonado. Tá bom, mãe, eu vou levar. Aquele presente entrara-lhe tanto no gosto que não raciocinara que era impossível leva-la nas costas até seu apartamento, exigiria um procedimento de mudança, homens fortes a carregando pela porta, um caminhão no qual ela iria para o outro lado da cidade. Queria ela naquele momento, às sete horas da noite. Como fora possível que não a vira antes? Fazia tanto tempo que não visitava a mãe? Sente-se nela, veja se é o seu tamanho, ela disse. Ele titubeou olhando-a com demora, ficou sem jeito e riu encabulado, daí passou uma perna por sobre os braços cantonados do móvel, de maneira pouco inteligente e improdutiva, cuja finalidade só poderia ser uma distensão dos músculos da virilha, e, quando viu que havia feito besteira deu um pulo por sobre ela, se segurando com uma mão no assento, e pôs o corpo por sobre ela, afundando levemente, cruzou os pés e ajeitou a cabeça por sobre as mãos lá em cima, no encaixe para a cabeça. A desembargadora riu, talvez lhe voltara algum fragmento de 30 anos atrás, algo terno e que trazia alguma centelha de culpa pelas recorrentes desistências de sua parte em avaliar, algo solto na prancha onde as lembranças mais importantes e necessárias ficavam grudadas. Pegue aquele livro do Kipling para mim, ele lhe pediu, apontando para a terceira estante de mogno, a encomendada por último porque a tinta vermelha sanguínea demonstrava ser recente, recente na escala de sua mãe de dois anos, encostada nas sombras rembranteanas que toda biblioteca doméstica tinham, o Kipling da coletânea de contos de terror, aquele livro que ele amava infinitamente, e que como todo amor infinito ele não trazia seu objeto junto a si por onde andava, porque sabia que o amor para esses pequenos gigantes fundamentos de sua alma eram reecontrados após longos anos de abandonos e justo em momentos memoráveis. E aquele era um momento memorável, ela retirou o livro da estante, sem deixar tombar os outros que lhe avizinhavam (sempre muito perita com o uso do corpo, quem ele havia puxado em sua falta de charme e sua total falta de economia gestuária, já que seu pai também era como um Nijinski dos atos cotidianos, que pegava uma xícara de café da cafeteira como se fosse uma espada samurai de porcelana), e lhe entregara. Quando ela saiu, ele abrira no conto “Eles”, sobre as crianças fantasmas no jardim da senhora inglesa cega, e no final do segundo parágrafo, quando o impressionado e ostensivo Kipling passeava com seu automóvel à combustão, uma invenção caríssima e recente, ele caíra em um sono absoluto.

domingo, 24 de março de 2019

Vislumbre de uma estação


                         


Timos passou a noite em sonhos estranhos. O que mais o assustava era que ao acordar pouco se lembrava deles. Antes era fácil. Bastava que aquele ocre mundo em perspectiva lhe enviasse algum sinal, geralmente quando fazia o chá ou olhava pela janela a rua aos poucos se acendendo, e com base nessa pequena distração do lado de lá quanto ao zelo de seus segredos ele seguia a pista e quase todo o sonho lhe aparecia de volta, como se o lacre não funcionasse bem e ficasse uma abertura por onde algo mais passava. Agora não era mais assim; necessitava de muito esforço, mas esforço nesse assunto era uma ofensiva inútil. Achava que não era porque estivesse envelhecendo; algumas poucas coisas melhoram com a idade, e a aproximação dos outros elementos do sono deveriam fazer com que as apreensões de quando estava lá não fossem barradas de modo tão definitivo ao acordar.  
             Quando preparava o chá preto veio-lhe uma fagulha do que era, um estampido que espalhava luz e que a mancha em negativo revelava. Era sobre sua avó. Nunca sonhara com ela, nem quando era criança e ela, de certo modo, exercera uma influência factível de lhe impressionar; e nem quando morrera há oito meses. Ela morreu com 92 anos. A mãe de sua mãe. Chamava-se Mircéa. Tinha sido governanta nos EUA. Trabalhara com nomes importantes e pagavam caro pelos seus serviços. Quando voltara, após 50 anos que teriam rendido um livro de memórias fabuloso_ e, dependendo do grau de rancor que sua misoginia estivesse com a condição humana, bastante desiludido_, a vida se tornara para ela uma comunhão inexorável entre o tédio e a mesmice. A família aprendera logo a não usar com ela alguns dos atos sociais; perguntar sobre sua saúde, por exemplo, era cair na armadilha de ouvir como resposta a alma encarnada em uma senhora de um filósofo classicista alemão que não tinha nenhuma digna gratidão pela longevidade. Ela perfilava uma série de queixumes sobre doenças com minuciosa exatidão que fazia o interlocutor pensar o quanto a literatura do rancor perdia por não existir o tal livro de memórias. Sua avó e Schopenhauer; era uma espécie de Thomas Bernhard cuja Áustria cínica e repugnante que tinha para purgar era seu próprio corpo e os dias incontáveis que lhe restavam pela frente e que voltaram a ser tão asfixiantemente longos como os da infância. A última vez que Timos a vira, em um aniversário de 3 anos atrás, ela se recusara a olhar para ele quando algum parente engraçadinho lhe perguntou se ela se lembrava quem era aquele rapaz. Ela respondera, com uma lápide de mal humor que azedaria até o canto dos pardais se eles houvessem pela janela, que aquele não poderia ser o Timos que ela conhecera, tão lindo e arthuriano, e se transformara nesse bolchevique barbudo e mal encarado. Foram estes os termos que ela usara. Empregava um timbre de voz reticente, como se tudo que o mundo lhe emitia para que ela o conceituasse não merecesse senão aquele hausto de fôlego fissíparo. Timos sorriu, admirado por aquela estética altiva, e se sentara em silêncio duas cadeiras longe dela. Ficara magoado, de certa forma. 
            A avó tinha sido um exemplo de vida para ele. Um de seus discursos mentais quando o assunto era a crítica desiludida do padrão familiar de ganância por posição social e dinheiro e por cortejos sexuais de todos os estilos, era na avó que Timos pensava, em sua aspereza, sua concentração, sua corajosa disposição em não fazer parte do mundo óbvio e brutalizado. Sua mãe lhe contara que tivera pouco contato com ela quando era criança e mesmo na adolescência o círculo fechado com censuras atemorizantes contra a mulher que abandonara os filhos criado pela esposa substituta do pai (e pelo silêncio omisso dele) não lhe permitia que tivesse um real contato com ela. Você nunca pensou que teria se identificado com ela?, Timos perguntara à mãe. Ela o olhou com os olhos acendidos pela incrivelmente não cogitada ideia e negou, talvez para não dar o braço a torcer por aquela obviedade da qual não suspeitara, e a seu favor disse que Mircea se esvaziara dos sonhos e da ilusão necessária à vida, em prol de um regime espartano de pureza que a transformava cada vez mais em uma misógina insuportável. A irmã de sua mãe, a tia Alda, havia adotado uma menina alsaciana e a velha falava pelos cantos sobre o derrisório tom oliva da pele dela, o que era sabido por todos. E a avó desprezava com veemência incontornável o prosaísmo daquele povo subdesenvolvido da cidade, tão avesso a atirar o lixo na lata de lixo e não nas calçadas e incapaz de dirigir um carro de modo minimamente não homicida. 
               Timos levava essas coisas como desabafo de uma mulher que exigira o divórcio numa época em que isso era a heresia inaudita que deveria servir a reerguer as fogueiras calvinistas na mente de todo mundo, quando descobrira a rede de concubinas que seu marido alimentava. As pessoas a admoestaram, viraram as costas para aquela esnobe embrutecida pela ilusão de casta que seus diplomas de pedagogia lhe incutira, e ficaram do lado do injustiçado esposo, o patriarca de cabelos colados à moleira da cabeça por vaselinas Iliodora e de bigodes perfumados que a maledicência popular jamais assimilariam dentro da visão pejorativa do cafajeste barato que seduz pobres arrumadeiras de quarto, mas sim como a estampa que necessariamente há de se ter um doutor farmacêutico que respeita tradicionais normas de higiene social. A mãe não a chamava de mãe, só Mircea, o que, com os anos, ia apegando certo desconforto e o nome ganhava na boca das filhas refratáveis um peso excessivo, como se em vez do nome daquela mulher que suportara tanta solidão e se demonstrara ser uma rocha de vontade e persistência estivessem repetindo a alcunha de um demônio que já não as aterrorizavam. 
          Naquelas cartas, Timos disse à sua mãe, sobre os gordos pacotes de folhas amarelas apergaminhadas que Mircéa, inesperadamente, começou a enviar dos EUA para ele do nada, cheio de pensamentos recolhidos e retumbantes, naquelas cartas ela não se mostrava dessa maneira sem vida; pelo contrário, ela me contou tudo do seu ângulo de visão, o que acontecera entre ela e meu avô para que ela atingisse tal ponto de escolhas. A desembargadora jamais permitia que falassem contra seu pai, o icônico e estranhamente canonizável pelos tantos pecados que tinha boticário, era a fraqueza reservada para sua mãe ter entre as tantas qualidades de vulto de sua inteligência e sua independência. 
          A mãe o olhara com o cenho já posicionado para exigir que ele mudasse de assunto, tendo retido a colherzinha na xícara de chá, mas Timos trafegou espertamente para um atalho. O avô se casou com a empregada, não se casou?, depois que Mircéa saiu de casa e atravessou o oceano para a América, havia uma madrasta na sua casa, não havia? Então eram fatos, a desembargadora não podia ir contra eles, eram notícias da narrativa da família bastante conhecida e já chegando ao estágio de não ter mais quem sentisse vontade de examinar mais o assunto. Pois nessas cartas, Mircéa falava das agruras do novo mundo, da estranheza que era falar uma língua que ela aprendera na academia por questão de ler os volumes de educação internacionais não traduzidos no país, mas que agora ela tinha que utilizá-la para sobreviver não mais com a cultura, mas com a subserviência doméstica, saber como se fala polidamente com uma madame casada com o mecenas das pias de banheiro de porcelana Avidecent, ou como lidar com o rosto gargulino do agente de emprego que lhe pergunta quais as condições de contrato que ela leu no formulário 25 estariam de acordo com sua capacidade de mão-de-obra, se sua instrução era de grau 4 ou 9, se ela sabia o que era uma comunhão de direitos empregatícios em que um casal em litígio de separação receberiam-na na casa em horários diferentes para não terem que se ver nos momentos mais delicados da questão judicial. E ela voltava para casa depois dessas aventuras sombrias, atravessando as ruas geladas de geometrias que deveriam lhe oprimir por se sentir apequenada naquele universo prisional que lhe lançara muito cedo um destino que pouquíssimas pessoas conseguiriam suportar. 
            Você já pensou por que ela mandava essas cartas para mim?, Timos perguntou, e a mãe, nunca querendo ser engolida pelas sugestões perigosas que a falsa simpatia do filho abria naquelas vastas visões panorâmicas, sorria e dizia que era porque ele era o único que ela não conhecia para odiá-lo. Você tinha 13 anos e ela ainda não te conhecia, só foram se ver dois anos depois, quando ela retornara para cá. Pois eu sei, ele respondeu, o tom triste e extasiado ao mesmo tempo, o que não era um oximoro impossível na prática quando ele já antevia a alegria que lhe causava quartos solitários em um dos quais era o quarto do apartamento da mãe em que ele abria as cartas da avó e as lia com uma atenção perfunctória, como se o amarelo inusitado da folha alimentasse a impressão de que desvendava uma segredo faraônico reservado apenas a ele. Tudo bem, Timos, e mãe, que havia tomado o chá talvez mais rapidamente que em uma situação em que o espírito de revisão das anistias mútuas de todos os envolvidos não estivesse tão alardeante, enxugou as mãos em um pano de prato após lavar a sua xícara de carrara e se voltou pronta para ouvi-lo com exímia atenção, mesmo que isso pudesse envolver passagens do discurso que poderia por o dia de comunhão entre os dois em ruínas. Timos a olhou fundo nos olhos_ essa conversa acontecera há 20 anos, como tudo na vida do progressivamente distante Timos parecia ter ocorrido_, as pupilas tremendo e as mãos crispadas em um gesto teatral shakespereano, um tanto inconsciente nele para que se importasse com o ridículo. Ela sabia que eu era o primeiro da nossa família a nascer livre, ele disse.
           Ele era ainda muito jovem para ter dito isso. Teria acreditado mesmo nisso em algum momento da juventude, naquela falácia tão fácil de cair mesmo os espíritos calejados? Livre de quê, se ele estava na fila da consumação em passo lento e regrado para fazer o mesmo cronograma que todo mundo. Fez sua faculdade, ingressou-se em uma escola ouvindo o eco daquele coro repetido à exaustão de que melhoraria os índices educacionais do país, e só encontrara a mesma falta de horizontes, alunos basbaques sentados com nébulas de distrações nos cérebros, dispostos a soldarem os ouvidos e se entregarem ao mar infinito de aberrações da mentira. Para quem então sua avó escrevia? Quem ela fantasiava que algum dia aquele menino ectoplásmico que alguma vez deveria tê-la visitado em sonhos se tornaria? Um filósofo, um eremita, um médico, um advogado. Não conseguia acreditar que no fundo daquela renitente esperança dela houvesse a imagem de um adulto misógino e arredio, e aqueles fossem seus ensinamentos de como odiar o mundo com suficiente estilo. Manual do rancor da senhora exilada, da diaba branca da família que andava pela vila nas noites de lua cheia atrás de sua filha diaba desaparecida. Por detrás daquele ensejo havia sua última fé de que a criança que a lia de alguma forma não seria contaminada por suas palavras amargas, sua apreensão sufocante da realidade de presídio de toda a terra.
                Ela destilava sua ira, exsudava um tanto do fel de seu desespero calibrado no papel, mas não queria que o menino fosse intoxicado. Era o paradoxo da condenada que joga suas cartas pelas grades do presídio supondo achar o ouvinte perfeito, e entre tantos andantes pelo muro do lado de fora ela havia tido a sorte rara de ter à sua inteira disposição um mensageiro já pronto, já visualizável com alguma exatidão entre a névoa de sua utopia. Ele não soube dizer isso à mãe, mas a mãe entendeu bem o que ele queria dizer. Ele interpretara que ela lhe ouvia com uma aquiescência aceitando a sua exclusividade cheia de expectativas no caminho diferente que ele seguiria para não se tornar um boçal, achava com orgulho que botara a desembargadora no chinelo e mostrava a sua originalidade predestinada, o segundo membro da família, ele e a avó, que romperiam para si o muro do dogma escritorial em que os outros estavam trancados do lado de dentro. E os anos se passaram e a avó não o reconhecera. Depois de todas as cartas, depois que retornara da América e os dois se encontraram e tomaram alguns sorvetes, e ambos insistiram durante um tempo em forçarem aquele laço que perdia desamparadamente o laço quando transposto das palavras para a atmosfera, ela o rejeitara como um traidor, ela o excluíra de seu hermético clube da dignidade rancorosa que tinha apenas ela como membro.
         Antes de ir para a clínica, na madrugada fria em que os ruídos já eram ouvidos pela ciência da acústica formada entre canos, cimento, vácuo e pessoas nas ruas, ele se lembrou do sonho. Havia uma sala ampla, bem iluminada, com uma luz incisiva de uma série de lâmpadas fluorescentes, paredes brancas e uma ressonância oca e infinita que revelava que era uma estação de passagem, uma zona de embarque. A avó estava sentada em um dos bancos largos de metal, solitária como em um documentário sobre a velhice abandonada. Ela estava vestida com um terno cinzento, bem alinhado, saia da mesma cor tendendo para o branco, um lenço bem apessoado no pescoço, um uniforme inglês que revelava uma distinta funcionária exemplar. Seus sapatos eram escuros e bem tratados, ela devia engraxa-los todos os dias, mas na posição em que estava sentada, com as pernas juntas em v lateral, os tornozelos em primeiro plano e os pés enfiados suavemente para debaixo do assento, revelavam que estavam frouxos nas laterais, como se os houvesse comprado por engano ou por alguma comodidade econômica um número maior, como se estivesse cansada, um cansaço malbaratado, como se aquele local ermo a que ninguém pareceria apetecível a agradasse. Um local que era um retrato de seu espírito. No sonho ele observava a cena sabendo-se que não estava lá, a limpidez da imagem sendo transmitido para suas vistas concentradas como se numa tela, um cinema frio e escuro que cambiava o que sua avó sentia no exterior da pele por sob o terno estando naquele local. 
         O rosto dela estava desfocado, ou a mente em atividade idílica de Timos não estava sendo totalmente receptiva no centro da projeção. Ela não o via, os dois estavam mais distantes que duas galáxias, talvez ela estivesse em outro mundo, no mundo de lá, no tal reino dos mortos, talvez aquela amostra de sua nova aventura na opressiva eternidade fosse mais uma das reativações constantes do enigma que esse lado de cá não se cansa de propor, um novo mistério dentro de incontáveis outros mistérios que nunca seriam resolvidos porque seu propósito era apenas uma gratuita enganação. Quem o propôs, se havia mesmo algum jogador, não se preocupava nem um pouco com alguma lógica coerente, algum resultado que zerasse a equação. Depois acordara, ou passara para outras questiúnculas que pregara em sua percepção durante aquele dia e que tentavam por alguma razão absurda se resolverem na forma de sonhos_ como se a vigília fosse um estágio desacreditado na ortodoxia da dialética das sensações acumuladas e a resolução do que elas queriam dizer passassem para a ludismo do sono.
         Sua avó não era só a primeira exilada da família, pelo menos na linha recente dos últimos cem anos buscados na árvore genealógica, mas também era a única suicida. Aos 92 anos, ela se dera ao luxo de se matar. Até isso foi ao gosto dela, partiu de seu inteiro livre arbítrio destituído de glamour. Não usara veneno, como parecia ser a escolha de maior sucesso entre os velhos, pendurar-se por uma corda pelo pescoço deveria lhe parecer pavoroso e de contra toda a ética de sua vida, assim como qualquer das outras soluções que desfigurassem o corpo. 
        Na certa imaginava que seria uma vingança oferecida em bandeja para todas as pessoas que desprezara ostensivamente se suas pernas varicosas, sua pele sensível ao nível de se rasgar por um simples toque, se sua cara sem o eufemismo da maquiagem, de um azul baço e libidinoso que só se via na carne no estágio terminal da vida, aparecesse em alguma situação fora de seu controle, atirado do quarto andar no asfalto, esfacelado por um projétil. Isso estaria fora de cogitação. Por isso ela resolvera apenas parar de comer. Fechara a boca não só para as papinhas indignas e as frutas picadas que as enfermeiras particulares lhe davam, como também parou de conversar. Não emitiu nem o mais sussurrante som. 
          No final do primeiro dia, as enfermeiras telefonaram para a desembargadora e para o outro filho advogado, tio Marsh. Eles foram para o apartamento e encontraram-na deitada na cama de solteira, os braços e pernas rígidos da antiga menina emburrada, talvez era assim que ela ficava na cama de febre quando sua mãe lhe trazia a sopa, encontraram-na olhando para um ponto só no espaço, determinantemente não cruzando o olhar com seus filhos ou com qualquer outro espécime deste mundo pueril em que ela estupidamente, agora via, perseverara em estar. A desembargadora lhe falou com um tom amável sincero recuperado no fundo de todo o depósito de atitudes defensivas que tivera contra ela ao longo da vida. 
              Não era mais a mulher anacronicamente elegante que tentava falar com ela no quintal de casa, aparecida como se do nada mas que se tratava de um arranjo estratégico dos adultos envolvidos para permitir que chegasse nos filhos sem os espantar, sem os estarrecer; era apenas o resquício do antigo ego poderoso, era a desistência, era o arrependimento de ter sido enganada sempre de que havia um pote não de ouro mas pelo menos de um respeito surpreendente e resplandecentemente novo que os esperassem no fim de toda aquela indignidade pujante e asquerosa que eles tinham que atravessar sem propósito algum. Era só uma velha senhora sem mais cartas na manga, sem mais ódios, sem mais rancores, sem mais disputas, sem mais enfrentamentos para ver se encontrava o palhaço que iria lhe colocar nos ombros e passear com ela pelo picadeiro circular acima de todos os outros a escolhida, não mais palavras frias e bem calculadas para desestabilizar, não mais olhares atravessados que dardejavam pelos cantos, nada mais disso. Tudo um imenso tempo perdido, tudo um grande exercício de idiotice em que ninguém nunca era melhor que ninguém, apenas igualmente imbecis. 
           E o filho, o advogado de controle absoluto sobre seus sentimentos, que falava com uma voz de trovão que treinara durante toda a adolescência e juventude, até firmar-se como algo natural seu, segurando-lhe a mão e tentando invoca-la daquele invólucro, falando com uma tenacidade que usava com seus clientes no escritório, acreditando que naquele assunto exórdio as regras do mercado de invocação da verdade relativa também funcionassem, era só repetir o mantra cotidiano. 
         Chamaram a ambulância e a levaram para o hospital. Dois dias do mesmo modo, e ela entrou em coma. Os vidros opacos que se adaptavam à luz ambiente e as horas rígidas para que só os filhos visitassem na UTI cara impediram, enfim, que vissem a desfiguração inevitável de toda maneira que seu corpo sofrera, as veias azuis sob a camisola comunal e despersonalizante, os aprofundamentos zigomáticos da murchação da carne. 
        Timos estava na clínica quando a mãe lhe telefonara para avisar que a avó morrera. Nunca ouvira a voz da mãe daquele jeito, tão triste, tão sombria. Ela só falara o básico, não queria consolações e nem entrar em muito detalhe. Não lhe pedira para que fosse ao hospital, mas ele sabia que era isso que ela mais desejaria, e ele saiu às pressas só avisando para Ofélia, que lhe olhou como se a informação de que tivesse uma avó, e ela fosse humana o suficiente para morrer, o demovesse do local onde ele estava na zona resolvida em que ela definira com um prego numa placa de isopor.
          Na época, quando vestira o casaco e abrira a porta, parando na calçada para se situar de volta no frio de chuva e vento da rua, passou-lhe pela cabeça que um círculo se fechava e que seria num dia apropriado que os dois se encontrariam novamente. Era uma história sem encaixes narrativos satisfatórios e completamente entregue à aleatoriedade, mas o velho cinismo cósmico, que muito provavelmente trabalhava em ponto morto, continuava insinuando que havia um sentido por detrás das desbastadas camadas do enigma. Se tinha uma coisa que ele determinadamente não desejava era ir ao hospital.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Já pensou?

Já pensou se todos os delírios do brasileiro médio se tornassem realidade?; um país em que acontecesse, ao mesmo tempo, do governo mais capitalista da sua história ter feito uma revolução comunista bolivariana; em que os estados do sul e São Paulo decretassem independência e terem, assim, se transformados não nos óbvios Paraguais que seriam seus destinos, mas em Suécias confortáveis e subitamente de altos padrões culturais e financeiros; em que o mundo dobrasse os joelhos e confirmasse que Olavo de Carvalho não só é o maior pensador da atualidade, como é o maior depois de Sócrates; em que os Alexandres Frotas, as Joices Hasselnãoseidasquantas, os artistas ex-globais falidos e sem fama, os playboyzinhos neoliberais que querem viver das custas do estado, os youtubers, etc, assumissem todos o poder e se revelassem não os parvos mercenários com medo do desemprego que são, mas gênios econômicos que provassem a todos, através de uma riqueza generalizada, que a venda da nação era mesmo o melhor a ser feito; em que um fascista era eleito e se vestisse de Rambo e saneasse todo o país com ações pirotécnicas de altíssimo risco mas afiadamente eficientes, matando bandidos, explodindo favelas, empalando políticos corruptos na praça do Congresso, tudo antes do churrasco de comemoração cossaca cristã feita pelos seus nobres seguidores com fogueiras a céu aberto, e tudo com trilha sonora adrenérgica e filmada em tempo real para de quebra promover o excelente cinema nacional; em que, além disso tudo, houvesse um sistema político em que seus personagens não fossem primeiras damas inexpressivas que caíssem em lagos para salvar cachorrinhos, nem mandatários e chefões da políticas afundados em uma cafonice e breguice sem igual, mas príncipes e princesas e duques de uma realeza finíssima e elegante. Pena que todo esse sonho esquizofrênico tão lindo seria imediatamente destruído, escoado para o abismo, visto que o planeta teria se tornado achatado pois o delírio atenderia também aqueles brasileiros que acreditam que a Terra é plana.

domingo, 1 de abril de 2018

Azulejos



Não tenho a inteligência funcional que fez ricos alguns integrantes da minha família. Sou um completo estúpido em relações publicas, a ponto de não transmitir muito entusiasmo no cumprimento aos vizinhos. Não sei parar de frente ao portão e ficar alguns minutos na troca de conversa funcional cujo propósito não é o conteúdo do que se diz em si, mas o som da fala preenchendo um tempo contábil de cordialidade para que no natal se tenha o nome lembrado na oração junto à mesa da ceia, ou para ser avisado para prender o cachorro e recolher as crianças no quarto porque um ouriço-cacheiro fora visto passando pela rua, ou para dar o número do telefone à moça de voz anasalada do crediário e ela possa ouvir pelo outro lado que somos gente de boa índole e polidos de qualquer extravagância, nunca tendo sido flagrados andando ao lado do muro olhando os pássaros ou contando as nuvens, ou parando no meio dos gestos marciais vespertinos para falarmos em como Albenondes fez mal em não levar Lucinda para um passeio na carruagem do conde de Wallenberg; enfim tão normais quanto esse homem dócil que certo dia a polícia resolve cavar a terra dos fundos de sua casa e encontra enterrados 37 cadáveres de mulheres que outrora todas tinham os cabelos curtos, na faixa de 27 anos, ascensoristas por temperamento e adeptas do uso de maquiagem facial indelével. Nunca ficarei rico por esses meios e tampouco me elegerei para a Câmara Municipal.

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A impressão de que estava ficando louco me tomava conta quando era mais jovem. Era algo perturbador: eu achava que fosse implodir e uma apreensão da verdade não permitiria mais que eu continuasse vivo. Aos 17 tive uma crise. Dizem que a coisa não vem de uma vez, mas vai se criando. De súbito o tecido estendido ao máximo se parte e tudo nos cai em cima. O cérebro não apaga a coisa com a tarja de Censurado por Questões de Sanidade, como faz com acidentes físicos ( minha mãe nunca se lembra das 17 horas entre o traumatismo craniano e a primeira fase da recuperação); é como se o cérebro quisesse um porta-retrato de sua maturação radical por inteiro, e o cérebro é o cérebro fazer o quê. Estava sentado no banco de uma praça, à noite, o avião que estacionaram no lugar da fonte, em memória a um general esquecido ou a alguma virtude de derrota de guerra, pressagiando a vertigem das superposições significativas, e me veio uma imensa lucidez, um instante em que todos os ornamentos sumiram e só ficara eu e um infinito vazio contra o qual não se erguia nada, dentro do qual nenhuma sombra ou luz se enunciava, uma espécie de plenipotência do átomo que não se deixava questionar ou transcender. Uma iluminação do avesso de que eu era matéria orgânica perecível, e só. Durou, creio, uns cinco minutos, mais eu não aguentaria. Quando foi embora o foi por inteiro, um ruflar de asas em que não sobrara uma pena para mostrar como prova. Só a marca em baixo relevo da lembrança, como a impressão que a radiação extrema desenha no chão, contornando a forma do corpo evaporado.

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Conheci depois uma moça que viveu 7 meses nesse inferno. Era amarrada na cama pelos pais, nos primeiros meses, e monitorada sem trégua obedecendo-se a regra severa de não se deixar nenhum objeto perfurante por perto, nenhum cadarço, comprimidos, trancando-a durante o dia e se sentando ao lado da cama à noite, ouvindo seu respirar de animal ferrenhamente obcecado  pela fuga, seus olhos atentos que apareciam vagarosamente no escuro por sobre o travesseiro, solenemente planejadores. Os pais não aceitavam visitas; a casa, naquele descuido em que se deixa levar pelo desvelo, foi ficando cheia de sombras e silêncio, de forma que as pessoas de fora se questionavam se isso não agravava a situação da enferma, mas os pais sabiam que a depressão dela atingira um nível de auto-gerência tão profundo, que aspectos de fora não lhe significavam nada. Era uma colega de faculdade e uma noite os pais permitiram que nós entrássemos para vê-la, talvez isso lhe fizesse bem, ver os antigos amigos.  Era uma moça realmente linda, com traços exóticos indianos, apesar de não ter nenhum ascendente oriental conhecido. Eu brincara cortejá-la certa vez, mas tornamo-nos mesmo era amigos. Ela estava de camisola, sentada atravessada na cama, com as costas apoiadas contra a parede. Tinha um ar coloquial demais para ser alvo de um experimento psicológico, de maneiras que caímos na leviandade de que nosso humor despudorado conseguiria fazer o que os médico falharam. Ela não era receptiva a nenhuma de nossas brincadeiras, estava além de qualquer contato, não se zangava e não tinha auto-crítica. Utilizando o espaço da fala destinado aos atos sociais de como vai e como foi o seu dia, nos comunicou que iria cortar os pulsos. Isso para ela não tinha nenhuma importância. Ela se recuperou. Casou-se com um fazendeiro. Tem hoje, o que se chama de uma vida normal. Na verdade me pareceu que ela nunca se curara, mas atingira um estágio adaptativo de encenação persistente mas pouco talentoso. Percebia-se a tendência de seus olhos para a dispersão. Seu marido era obtuso o suficiente para achar que uma mulher colada à megalomania financeira era assim mesmo, uma boneca de carne da qual não é cavalheiresco exigir participação efetiva na realidade. Como naquele pesadelo em que o sonhador vai saindo de um quarto para outros infinitos quartos exteriores até chegar ao último que lhe possibilitará acordar incólume, ela parecia ter sido desperta antes de completada a jornada, e ficado confinada numa zona intermediária para sempre.

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A foto mais memorável de Robert Capa, entre as tantas que fez em sua incursão com John Steinbeck à União Soviética, foi apreendida pelos guardas do partido. Mostrava a menina louca de menos de 8 anos que morava sozinha nos escombros de uma rua bombardeada. Acostumara-se a viver como um animal, e em determinadas horas podia ser vista saindo do meio das lajes destruídas, com seu único vestido esfarrapado, seus pés descalços imundos, para pegar o pouco de comida que as pessoas sacrificavam de seus já minguados orçamentos para alimentá-la. Na verdade não era fácil vê-la. Mas a câmera paciente de Capa conseguiu flagrá-la em sua pressa arredia, em suas feições consonantais. A foto se perdeu para sempre. Consigo imaginar seus prováveis ângulos, a luz na qual foi tirada, a plasticidade do cenário em preto-e-branco ao fundo, mas  nunca consegui imaginar a menina. Quando tento, me vem apenas os modelos de Sebastião Salgado, ou uma criança feliz, com ambos os pais, selecionada num teste de estúdio. Uma representação de uma grandiosidade dramática falsa e previsível que sei que ela jamais teve.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Um desabafo

Minha esposa teve duas paradas cardíacas quando estava grávida de nossa primeira filha, a Júlia. A Dani sempre foi muito saudável, mas desenvolveu uma doença grave na válvula mitral, que só se manifesta na gravidez, e os médicos disseram que as chances dela e de nossa filha chegarem vivas no final eram poucas. Fomos em vários médicos e todos nos falaram isso. A junta médica para conseguir minha dispensa de acompanhamento_ que eu achava que me trataria com extrema burocracia e me concederia uma semana apenas_, ficou tão espantada com a situação que me deu 3 meses, o que me pareceu um prognóstico ainda mais soturno.

Recordo como se fosse agora_ e isso faz quase oito anos_, minha irmã e eu comprando o primeiro vestidinho, uma peça linda, azul, para a Júlia vestir_ lembro do sorriso compungido e do silêncio de nós dois. Recordo dos movimentos na barriga; nós passávamos Mozart para ela ouvir. Uma vez a Júlia deu um chute tão grande durante um exame, que o cardiologista deu um pulo com a mão na barriga da Dani. Eu nunca fui um homem de fé. Sempre fui de um pessimismo prostrante. Minha primeira reação a tudo é o escape. Mas eu nunca, nem sequer por um segundo_ e isso é a coisa mais verdadeira da minha vida_, eu tive nem a sombra de dúvida que a Júlia ia nascer e de que a Dani estaria lá para recebê-la nos braços.

A Dani passou por tanta coisa, tomou uma batelada de remédios devastadores, que havia a chance bastante real de que a Júlia nascesse com algum problema. A Dani ficou magérrima durante a gravidez, com as maçãs do rosto salientes, por causa de um diurético que ela tomava todos os dias para suavizar o coração (um amigo me confessou depois que, ao vê-la, perdera toda a esperança). A Júlia podia ter nascido na forma de um rabanete que eu a amaria acima de todas as coisas. Podia ter nascido com o problema que fosse, mental, teratogênico, que eu a amaria com toda minha alma. E eu sequer pensava nisso, sequer dediquei uma pestana em me preocupar com isso. Pelo tanto de anos que me resta viver, essa temporada de angústia foi o mais próximo de um sentimento religioso profundo que eu tive, o mais próximo a uma descansada e paradoxal fé que eu tive de que um deus agiria em meu favor. Qualquer coisa que ele nos entregasse seria maravilhoso e eu estaria profundamente agradecido.

No dia do parto eu só não aguentei esperar no hospital. Eu pedi licença a toda família e saí, fui passear em um parque vizinho majestoso. Eu iria desmaiar se ficasse ali, o que seria ainda pior para todos. Fiquei sentado em um banco diante um riacho, calmamente olhando à distância uma moça lendo um livro, em uma sexta-feira em que o mundo continuava girando em absoluta indiferença. Ouvi uma buzina, me virei e vi a obstetra me gritando do carro: "O papai fujão não vai lá pegar a filha no colo não? Deu tudo certo". Eu saí correndo, chorando muito, até o hospital, e vi pela primeira  vez a Júlia. Ela era minúscula, quase cabia na palma da minha mão, era sequinha, frágil a ponto que parecia ir se desmanchar, de tal modo que eu tive muito receio de machucá-la ao pegá-la no colo. A sensação que eu tive ao vê-la envolta em uma manta, deitada de lado no berço do berçário, com um filete de vômito escorrendo pela boca, foi_e eu jamais vou deixar de parecer piegas ao tentar verbalizar essa impossibilidade_ como se eu estivesse tocando o sol: eu estava diante um mistério extraordinário do cosmos, um vulcão em erupção, um buraco negro, um tufão. Uma criaturinha cujo tornozelo tinha a espessura de meu mindinho, e era um milagre cromossômico devastador.

A Dani passou por duas cirurgias, abriram-lhe o tórax, e ela está curada. Tanto que nos permitiram ter um segundo filho. Eu brinco dizendo à Dani que a Júlia é minha alma gêmea. A Júlia cresceu, dá sinais de que vai ser uma moça bastante alta. Ela tem uma inteligência apurada, um gosto estético recolhido, uma curiosidade e uma paixão pela vida que me deixa continuamente deslumbrado. Mas foi o bebê mais magro e minúsculo que eu já vi, e esteve ali no prisma das deficiências e dos resultados da falta de oxigenação cerebral suficientes para que fosse uma criança excepcional_ o que teria transformado o meu amor e o da Dani em um amor também excepcional, nem maior e nem menor do que nosso amor de hoje, mas um amor especial (muito provavelmente ainda mais intenso).

E por que escrevi todo esse relato? Porque assisti ao Fantástico a matéria sobre a morte da Marielle e do seu motorista, Anderson. Porque li as opiniões que a desembargadora Marília Castro Neves veio repetindo insistentemente sobre sua cruel e insípida visão de mundo. A desembargadora, além de todos os absurdos que disse sobre a morte da Marielle, escreveu desmerecendo uma professora com Síndrome de Down. E aí eu vejo, na matéria que o Fantástico fez sobre o Anderson, que o filho dele nasceu com problemas, com algum tipo de má formação (isso foi anunciado na reportagem). Eu estava sozinho na sala e fui acometido por uma crise de choro, que foi o estopim de desabafo a tudo isso que vem acontecendo no país, ao ver a foto do Anderson ao lado de seu filho, um bebezinho minúsculo (assim como a Júlia ao nascer). E a desembargadora, em cima de sua vida de privilégios que no final são vantagens medíocres, em cima de sua paupérrima e lamentável impressão de superioridade, com sua cara plasticiada que depende de exercícios de auto-aceitação que só ela deve saber o quanto são inglórios, botoxiada nas tentativas falhas de esconder o galope avançado e inevitável da idade, vem despejar insistentemente sua deformação interior. Por isso tudo, minha explosão de choro e meu desabafo diante a foto do Anderson e seu filho: o amor na cara do pai, a alegria inocente e plena na cara do bebê_ o sol ali, o buraco negro, o tufão, a imensa, irrefreável e invencível manifestação da Lei.

sábado, 3 de março de 2018

Justificativas



A vizinha, mãe de dois meninos, abandonados pelo pai, que se mudou semana passada para a casa ao lado, gritando com os filhos: "Não mexe em lixo do quintal não, suas pestes! Já não basta que todo mundo nos ache um lixo, que todo mundo nos trata como lixo, e vocês ainda ficam brincando com lixo!"

Um senhor alto, muito velho, em pé sozinho no fundo do elevador, olhos aguados, alguns instantes depois em que responde meu cumprimento quando me adentro: "Meu maxilar se partiu e fechou o canal dos meus ouvidos. Se o senhor falou alguma coisa para mim e eu não respondi, peço que me perdoe, não estou ouvindo."

O catador de ferro-velho, de idade indefinida, cabelos e bigode tingidos de preto, que me grita um cumprimento onde nos vemos como se já tivéssemos trocado alguma palavra antes, e que eu surpreendentemente vejo andando em volta da represa empurrando em uma cadeira de rodas um menino loiro de um ano e meio. O "boa tarde" radiante que ele lança para mim, para minha esposa e meus filhos.

E o sorriso do menino loiro.