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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Joseph Anton, as Memórias de Salman Rushdie



Uma das ironias que recheiam a auto-biografia de Salman Rushdie é que, durante os doze anos nos quais o autor estava sentenciado de morte pelo aiatolá Khomeini, na iminência constante de ataques por parte dos incumbidos a cumprirem a fatwa (e ganharem o prêmio de um milhão de dólares avaliado para sua cabeça, que subia cada vez mais, oferecido por um dos novos aiatolás), vivendo em acirrada vigilância da Divisão Especial da polícia inglesa e sem endereço fixo, foi ele quem sobreviveu e viu vários de seus amigos e intelectuais de vidas mais amenas sucumbirem pelas mesmas causas prosaicas de sempre. Rushdie reflete essa surpresa impotente ao escrever: "O câncer dominou Angela Carter, e, embora lutasse arduamente, ela não o derrotou. Em todo o mundo, grandes escritores estavam morrendo cedo: Italo Calvino, Raymond Carver, e agora ali estava Angela lutando com a Parca. Uma fatwa não era o único meio de morrer. Havia sentenças de morte mais antigas que ainda funcionavam muito bem." Nas próximas páginas, outros personagens da vida de Rushdie recebem o diagnóstico de câncer e seguem com uma sobrevida para o mesmo destino: sua ex-esposa morre de câncer, seu amigo Edward Said de leucemia, Allen Ginsberg de câncer inoperável no fígado, John Diamond de câncer na garganta. Rushdie se denomina um ateu apaixonado por religião; toda sua obra está pautada por símbolos e termos religiosos; diz no questionário Proust ser religião a palavra que mais abomina; de forma que não seria simples questão de uma mente paranoica achar um sentido de prevenção verdadeiro na condenação explosiva e sem qualquer concessão dos ateus ortodoxos à religião, e, por consequência, relacionar o mal que se abateu sobre ele como um preço caro que teve de pagar por sua leviana curiosidade aproximativa. Enquanto seus amigos viviam livremente, viajavam e eram ativos participantes da vida cultural global, criavam suas famílias ou podiam traí-las por direito, tendo o livre arbítrio de morrerem com os mesmos dramas e a mesma resignação diante o inevitável, Rushdie viveu em estado suspensivo, envelheceu e engordou, passou sete anos sem escrever que o convencera de ter perdido o talento, esteve distante do filho e perdeu a esposa, e seu cotidiano era de uma clausura infinita em que ouvia suas opções de normalidade como permissões restritas para saídas vigiadas às ruas. A invisibilidade cuidadosamente imposta determinou essa sobrevivência sobre os demais, sem valor, que foi para ele o maior dos infernos.

Não é menos irônico reconhecer que os críticos de Rushdie possam estar certos ao dizerem que também foi o confronto do autor com a religião que o tornou famoso em todo o mundo. Em boa parte da década de 90, no período entre 1989 e 2002 em que durou a fatwa, Rushdie foi o segundo homem mais conhecido do mundo. Antes disso, havia ganho o mais importante prêmio literário inglês, o Booker Prize, por seu romance Os Filhos da Meia Noite, e escreveu depois um outro romance representativo, Shame, antes que se tornasse interessante para a História. As partes mais deliciosas de sua biografia são as que se dedica a descrever o processo de concepção de seus livros; Os Filhos da Meia Noite (que segue sendo o livro o qual, pelo valor artístico e pelas amplas qualidades da prosa e da imaginação, o tornará lembrado como escritor), veio pelo mês de aprofundamento na alma da Índia, na excursão pelo interior do país realizado com o estipêndio da publicação de seu primeiro romance, a percepção whitamniana da ebulição do povo, as sonoridades das línguas e a impossibilidade de aquietamento das ruas efervescidas. Quando ele passa a descrever as formas de conexão de ideias que gerou Os Versos Satânicos (que segue sendo o qual o tornará lembrado pela história), a inocência e alegria com que o então jovem promissor escritor indu-britânico recebe a liberdade de se expressar pela arte é carregada por negras premonições tardias. E o mais terrivelmente irônico de tudo_ para continuarmos nesta hipótese de condução de um destino por forças metafísicas que estão mais propícias a serem definidas como sarcásticas_ é que o cerne de Versos advém de um erro admitido pelo próprio profeta Maomé no Alcorão. Quando Rushdie estudava em Oxford, foi o único participante de um curso optativo sobre as raízes histórias do Islã oferecido por um de seus maiores entendedores; ele recorda que foi, também, seu primeiro ato de confrontação ao sistema, visto que a universidade cancelara o curso por falta de interesse do corpo discente, mas o incipiente Rushdie, que tanto se silenciara diante as discriminações raciais sofridas por ser negro, ter as maiores notas, e não gostar de futebol (as três características que, em separado, podiam valer para tornar-se socializado com sucesso, mas cuja presença das três definia o aluno como um excluído permanente), perseverou com o diretor sobre as regras internas de que, havendo um só aluno matriculado na disciplina, o instituto era obrigado a ministra-la. Ali, junto ao professor de ar recolhido (uma mostra do talento de Rushdie por desenhar personalidades enternecedoras), ele toma conhecimento da surata 53, os assim definidos pelo islã como versos satânicos registrados no Alcorão, em que Maomé dita a mensagem que, num primeiro momento, diz ter ouvido de Alá, na qual é oferecida a possibilidade de reconciliação da nova religião com as três entidades pagãs adoradas em Meca (al-Lat, al-Uzza e Manat). Como os seguidores do profeta, diz Rushdie, rejeitaram enfaticamente essa admissão súbita de uma trinca de deidades auxiliares ao único deus, Maomé rapidamente corrigiu o erro afirmando que Alá o alertara que tal recitamento fora-lhe entregue por Satanás, que se fez passar pelo divino, e, portanto, era para desconsiderá-la imediatamente. As implicações políticas do erro fomentaram a proto-ideia do romance na cabeça de Rushdie (a vantajosa aproximação da ainda avessa Meca à nova religião, através da urdida aceitação de seus deuses), e os símbolos satânicos e de redenção aplicados à realidade do fim do século XX serviram à composição da historia em que Saladim Chamcha, o diabo, e Gibreel Farishta, o anjo, sobrevivem a um acidente aéreo caindo na Inglaterra.

Está-se pronto Os Versos Satânicos, e aqui, a narrativa de Rushdie em sua biografia sofre perceptivelmente, como não deveria deixar de ser, uma mudança de tom. A descrição progressiva do pesadelo da fatwa forma uma sequência de páginas de inigualável estudo sobre como a realidade, como coesão imposta por fatores que servem a uma rede de conexões políticas manutenciada, é uma obra de fantasia tenra, sujeita a se quebrar por um impacto dado de forma precisa. E esse impacto inicia-se com aquela inofensividade falsa dos pesadelos, aquela docilidade peçonhenta cujo veneno maior é não indicar nenhuma ameaça à imunidade cotidiana. Uma jornalista de um jornal iraniano lê os Versos, detecta a singular ofensa e a apostasia; a matéria chega em mãos de uma aiatolá Khomeini alquebrado e posto em uma delicada linha de descrédito por seus próprios sequazes devido ao desgaste das tantas mortes de iranianos na guerra contra o Iraque, e esse aiatolá, numa astúcia salvadora, percebe ali uma chance de recuperar a estima junto ao povo. Rushdie é dado como um grande presente restaurador para Khomeini, uma impulsão que ele precisava para justificar a morte de jovens iranianos na guerra através da renovação da fé em um propósito ainda mais violento e fanatizante: ele institui que Rushdie ofendeu o profeta e a Alá, de forma inadmissível, e a única maneira do islã recuperar o respeito e impor sua distinção religiosa ao ocidente é assassinar  o demônio que escreveu o livro insultuoso e cheio de prostituição e blasfêmia, Os Versos Satânicos, cujo autor é Salman Rushdie.

Com essa distorção extrema de toda a segurança pretensamente oferecida pela democracia ocidental, Rushdie, pelas extensas páginas de sua biografia, pragmatiza para a vida ensolarada das grandes metrópoles tidas como resguardadas, numa série de descrições que se transformam em uma visível transposição esquemática do diário que manteve na época, o simbolismo da opressão das obras de Kafka, o alerta até então restringido ao universo da literatura sobre a perecividade do humano diante as forças do mal. Ler essas páginas é desmistificar o Rushdie elaborado por 15 anos pela imprensa e pela mídia corporativa que envernizava a realidade passando a imagem de ativa colaboradora da democracia. Lembro que, ao ver Rushdie pela primeira vez anunciado na televisão, quando eu tinha lá meus 15 anos, na matéria em que o repórter segura em mãos a capa famosa simulando um mármore azul da edição em capa dura inglesa de The Satanic Verses, e falando sobre seu decreto de morte, o adolescente que eu era raciocinou dentro da certeza de que o ocidente que passou pelo iluminismo iria dar conta do recado e resolver da melhor forma possível aquela aberrante injustiça. Jamais me ocorreria a possibilidade de que Rushdie fosse deixado de lado e, hipótese ainda mais impensável, condenado por essas mesmas forças ocidentais como o verdadeiro culpado daquilo tudo. Por isso é um tanto claustrofóbico ver o quanto Rushdie esteve na  iminência de ser abandonado a seus assassinos, pelo governo inglês que estudava incansavelmente uma forma de retirar os serviços de proteção, alegando que era uma oneração gratuita demais e excessiva (comparando que Thatcher os tinham por prestar enormes serviços à sociedade; mas o que ele oferecia em troca?); o quanto pessoas vistas como esclarecidas e até então respeitadas por mim como artistas e intelectuais defenderam que Rushdie fosse morto, como é o caso de Cat Stevens (ou Yusuf Islam, que, constrangedoramente, nega sua apologia estúpida ao assassinato hoje em dia, mesmo sendo confrontado com os artigos de jornais que escreveu e as imagens gravadas), e John Berger (que, movido pelo mais canhestro esquerdismo, afirmava que Rushdie deveria ser morto pois assim queriam milhões de muçulmanos, e as massas jamais estariam erradas). O quanto os políticos desviavam a atenção, propositadamente, do caso Rushdie, se negando a recebê-lo em seus gabinetes, pois seus países tinham acordos comerciais com o Irã e eles não queriam prejudicá-los por um motivo tão irrisório (!!!). Como diversos países negaram a entrada de Rushdie; como jornais importantes dos EUA publicavam artigos ensandecidos de representantes importantes do islã, reiterando o prêmio pela cabeça de Rushdie, e afirmavam que o faziam pelo direito de expressão garantido pela democracia. Esse isolamento é representado pelo pseudônimo que a equipe de segurança do autor recomendou que Rushdie adotasse; vendo-se sem o direito a conservar esse traço legítimo de sua personalidade, Rushdie criou a composição dos dois nomes dos escritores que mais admirava para se vestir de um outro nome: Joseph Anton, Joseph de Joseph Conrad, Anton de Anton Tchécov. (Quem se interessa por Rushdie e leu sobre ele nesses últimos anos, com certeza se deparou com vários retratos de um escritor maníaco, martirizador violento de suas esposas, egocêntrico, esnobe; um gárgula a que juntaram insinuações de lascívia sexual que cai com precisão estudada às suas sobrancelhas capricornianas e suas pálpebras caídas, assim como se demoniza V.S. Naipaul como portador das mesmas excentricidades; uma outra parte compensadora dessa biografia é ver como o autor se desmistifica dessas simplificações criadas nos anos em que ele se tornara invisível, e passível a se visibilizar com qualquer máscara colocada de fora.)

Claro que Rushdie não foi o primeiro nem o último a sofrer esse tipo de perseguição religiosa, mas, a descrição do outro lado, do lado radioso dos que o defenderam, ilumina a escuridão dessas páginas e mostra que foi uma conflagração de quantidade inédita de intelectuais em nome de um escritor, no século passado. Rushdie escreve, com incontida comoção, o quanto a elevação de vozes pelo mundo todo mostrou, enfim, que ele não se dirigia desguardadamente para a própria aniquilação. Estas páginas reacendem o interesse dos que gostam de biografias de escritores, pelo que estas oferecem de intimidades do mundo das letras. Aqui há conversas com Günter Grass, Paul Auster, Chistopher Hitchens (admirável pela frente que tomou do caso, abrindo portas, quase aos ponta-pés, de políticos e representantes de organizações internacionais), Martin Amis (também sempre presente, e protagonista de um mea culpa por parte de Rushdie por um Rushdie bêbado ter se comportado tão infantilmente com ele, em um bar), Mario Vargas Llosa, e uma série de outras personalidades. Graças à visibilidade que este grupo promoveu, os líderes políticos se viram obrigados a arvorarem a defesa da democracia e do uso sem censura da palavra, tendo que colocar restrições econômicas ao Irã_ a Suécia, numa atitude reveladora, mesmo antes dessa defesa de Rushdie ter sido construída, já rompera um tratado de 1,5 bilhões de dólares com o Irã, a título daquele país retirar a fatwa. Mesmo autores que não participaram ativamente da defesa, aparecem no livro como instigadores de fé, o que rende cenas memoráveis: Thomas Pynchon recebe Rushdie com sua comitiva em sua casa, e se põe a monologar até altas horas da noite, ao que todos, exaustos, se negam a interromper o momento, pois, afinal, é o Thomas Pynchon. Na casa de Carlos Fuentes, este passa o telefone para Rushdie, e eis que é o Garcia Marquez, que o brinda com uma longa conversa,  e que diz ser ele, junto com Coetzee, os escritores que mais lhe interessam, sem tocar uma só palavra sobre a fatwa, o que é o maior elogio já recebido por Rushdie.

A biografia de Rushdie é a mais sui-generis das biografias de escritores. Há algumas partes atiradas a esmo, que causam a impressão de entrave na velocidade da leitura, em que fica óbvio serem partes tomadas dos diários do autor: reuniões com secretários de segurança, com representantes políticos, com entidades governamentais. Mas como não cair nesses impasses da inércia alguém cuja vida, por um longo período, se restringiu à excisão de sua liberdade cotidiana? A diferença de ritmo entre a biografia de Rushdie e de outro escritor aprisionado, como Soljenítsin, é que esse último tinha o interesse da opressão em sua forma clássica, em sua violência física premente, em sua restrição de espaço o qual tinha-se de procurar as compensações espirituais nos refúgios do recolhimento mais íntimos; já a Rushdie não foi oferecido esses amplos campos de arames farpados nem as celas de paredes umidificadas das prisões siberianas _na surrealista escala das formas a que podem chegar as casas dos mortos, a contínua ironia, a mais cruel, de sua prisão, era ele dispor de tudo, mas ser limitado a passar ao largo, em sua compulsoriedade de ser invisível.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Anti-Rousseau e o Bullying em Dois Romances Ingleses


William Golding
Recusei-me a brincar de sociólogo de plantão e de analista das causas do mal quando do trágico evento do assassino da escola do Realengo. Contruiu-se da noite para o dia, na internet ,tantos textos cuja pretensão de alçarem-se a um nível oxfordiano de inédita visão emancipatória da violência só atendiam mesmo à disposição simplória de revelarem o quanto havia de polemismo torpe por detrás da atitude de seus autores. Retiravam tudo do balaio comum de que o assassino era um monstro, no exame puramente clínico de alguém que executa crianças indefesas de "cima para baixo", e, na falta de horizontes mais expansivos, colocavam tudo no outro balaio de dizer que o monstro não era nada senão a vítima mais merecitória de piedade. E, contudo, depois que a polícia e o instituto médico legal liberaram o corpo do assassino para ser enterrado numa vala de indigentes, esses visionários da extrema solidão que leva uma criança rejeitada a buscar a catarse do martírio conjunto não apareceram para acompanhar o sepultamento, como quis o morto que uma alma generosa rezasse por ele. Os corajosos escritores virtuais, uma pequena parte só informada o suficiente para repetir Gore Vidal afirmando que o assassino de Oklahoma era um jovem superior, na hora de mostrarem as caras além das fotos de frontispício de seus textos em que aparecem com uma seriedade nietzschiana, limitaram-se à confortável acepção de que tudo é muito passageiro na internet para que marcassem seus pontos de vista de forma tão inadequadamente peremptória, e partiram para a nova polêmica da semana. A net nos agracia com essa perecividade em escala regressiva em que a primeira nota retumbante vai degradando-se até as três notas de encerramento de música de feira, em que a cortina se fecha e todas as máscaras de expressões veementes são guardadas no camarim. Em um site ao qual eu costumava visitar, postou-se um longo texto em "homenagem àquele que ninguém nunca passou a mão na cabeça", referindo-se ao assassino de Realengo; outro fez suas vezes de Bernard Shaw revirador de conceitos afirmando que no Brasil "há excesso de punição", sem que houvesse qualquer energia posteriora para discorrer de uma partida de argumentação tão olímpica; e muitos e muitos outros, nos mais diferentes graus de erudição, propondo a relativização tresloucada e a indignação desidratada cheirando a academicismos e mostrando que seus autores usavam ternos ao escrever, no valor uniforme de colocar o assassino como vítima e desconsiderar como simples padrões numéricos  os 12 mortos e tantos feridos que tal assassino produzira. Como acontece se olhamos com muita atenção um enigma visual, as vistas se embaralham e a armação intimamente farsesca da figura se revela, e o quanto a internet tem de caráter de informação democrática se mostra na mesma medida em seu descompromisso com as mínimas parcelas humanas dos fatos; na ânsia de originalidade e de serem paladinos de uma justiça real e abrangente, acima dos clichês, não há mais que a frieza de serem confrontados pela possibilidade não tão fortuita de um dos sobreviventes ou um dos pais das crianças mortas ler suas apologias de quem as matou e as feriu, de quem quer transformar a dor incomensurável numa estatística. Só essa possibilidade de aumentarem a dor de quem viveu o fato, já torna esses escritores parte do bullying que começa nas escolas e vai além, no abraço que engolfa os mortos que não se conseguiu evitar e as teorias vazias e estúpidas que aniquilam o desabafo restante de se lamentar por eles.

                                                              ***

Não é uma simples coincidência que dois grandes romances sobre o bullying tenham vindo daquele país de tradicionais escolas com severa hierarquia interna e alta seletividade de alunos como a Inglaterra. William Golding escreveu duas das maiores análises sobre a violência inerente ao comportamento de grupo em O Senhor das Moscas e Visível Escuridão. Explorou o tema do caos pré-social, do estado natural hobbesiano, em outros títulos, como Os Herdeiros, mas foi nesses outros que estabeleceu seu tema central: a concepção anti-rousseana de que o mal é próprio da natureza humana, que a barbárie é uma estação elementar de partida de onde o homem dá seus primeiros passos. O Senhor das Moscas, publicado em 1954, contraria o gosto britânico pelas histórias juvenis de formação, mexendo no solo sagrado da visão infantil colocando um grupo de crianças náufragas em uma ilha deserta,  e usando-o para compor um ensaio narrativo chocante, tortuoso, em que as teorias da etologia desenvolvidas por Konrad Lorenz são levadas à última consequência na esfera humana. Como ficou comprovado no estudo de várias comunidades de símios, o mais forte exerce uma supremacia quase tirânica sobre os demais do grupo. O macaco alfa possui todas as fêmeas (mesmo que seja comum os deslizes de distração debaixo das quais as fêmeas cedem para os mais fracos), e reforça a aceitação do seu poder supremo simulando a cópula oprimindo os outros machos do grupo debaixo de seu corpo. O que acontece nessa ilha deserta onde não existe nenhum adulto, é uma emulação minimalista da história, onde as crianças se defrontam com a exigência de buscarem espontaneamente os arquétipos sociais que permitem a coerência primitiva que os unem contra o caos da seleção natural, do isolamento geográfico, e de, abruptamente, perderem o vínculo com a civilização e se verem na base da cadeia alimentar. Aos poucos, a sinergia do estado natural, os cheiros, sons, gosto e adrenalina viciantes da selvageria (a caça ao javali, o banho nu na praia, a liberdade paradisíaca de dispensarem as etiquetas metropolitanas, as insinuações latentes de entendimento sexual), vão limpando da memória o fragmento de que pertenciam a uma enorme comunidade firmada pelo apuro evolutivo sobre regras e diretrizes rígidas, e essa descoberta de que tudo pode ter um novo começo dispensa que continuem esperando por um resgate. A evolução, em sua onipotência mais generosa de não descartar um grupo de crianças deserdadas pela sorte em uma ilha há milhas da costa povoada mais próxima, lhes dá a ferramenta necessária do esquecimento para poder construir uma ordem sui generis em que se adapte ao meio. E essa ordem se firma progressivamente como a mais violenta, desenfreada e tirânica possível, desintegrando junto a visão de que todos ali são crianças. Como numa sociedade de macacos, agravada pelas infinitas sutilezas da imaginação violenta de um cérebro mais biologicamente refinado, o grotesco dos regimes autoritários que estavam no auge na época do romance (com clara convergência na intenção representativa de Golding), a aptidão assassina, o vazio espiritual diante a falência dos sistemas de pertença cultural, tudo se evidencia numa sociedade tribal onde o infantilismo na mais baixa acepção etmológica reduz o grupo a seres autômatos maléficos e auto-destrutivos.

Já em Visível Escuridão, essa solidão intranscendente se incorpora numa só criança, o menino de rosto seriamente deformado por uma das bombas que caíram sobre Londres. Desprezado por todos, órfão, sendo-lhe negado as mínimas interações de grupo, a maudade maior é a inércia de permitirem-lhe o esboço de uma vida juvenil normal sem que ela seja lhe dada efetivamente. Os colégios, a residência, a religião, tudo que lhe é falsamente oferecido, o mesmo caráter adaptativo roubado da biologia que permitira ao grupo de crianças náufragas ter uma sobre-vida na ilha, faz com que ele assimile essas molduras e configure por si mesmo, com sua imaginação infantil infinitamente solitária, seu próprio colégio, sua própria religião, e sua própria residência_ em suma, sua própria ilha. Romance mais impactante ainda que seu predecessor, o menino cria para si uma religião pagã original, um conceito de deidade desprovida de paixão e coração afetivo que sempre e cada vez mais exige dele penitência, pecador inveterado cujo pecado maior é seu rosto corrompido.

Num ensaio de Salman Rushdie sobre Desonra, o romancista anglo-indiano diz que J.M. Coetzee compôs um belo romance, falho em suas intenções, não conseguindo dar a proposição segura sobre o grande problema da miscigenação racial na África do Sul. (Aliás, Rushdie não só teve essa leitura, mas alega que seu autor desviou-se de uma solução útil pela interposição perigosa da desistência de David Lurie à realidade.) Assumindo que um romance possa ser um utensílio equivalente a um tratado social, esses dois romances de Golding falam mais das teorias Hobbesianas do que viram os críticos que ressaltaram o desencanto do autor pela perda espiritual do século XX. Os dois protótipos experimentais de Golding conseguem fins diferentes do previsível. O menino mutilado não opta pela ação violenta. É absorvido de maneira efetiva por seu universo pessoal, o que não deixa de ser considerado como sucesso. As crianças náufragas, quando estavam por atravessar a linha mais centrífuga da bestialidade, são resgatadas pelos aviões de busca.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rock- Uma nota para capa

                                                                   Frank Zappa
por Salman Rushdie

Frank Zappa e The Mothers of Invention estão se apresentando no Albert Hall. É o começo dos anos 70. (Como dizem, se você lembra a data exata é porque não estava lá.) Na metade do concerto, um enorme negro de camisa roxa brilhante sobe ao palco. (A segurança era mais leve naqueles dias inocentes.) Ele oscila um pouco e insiste em tocar com a banda.

Zappa, imperturbável, perguntou, sério: “Sim,senhor, e qual é o seu instrumento preferido?”.

“Trompete”, resmungou o Cara de Camisa Roxa.

“Dê um trompete para o cara”, Frank Zappa mandou. No momento em que o Cara de Camisa Roxa toca a sua primeira nota terrível, fica claro que a habilidade dele com o trompete deixa muito a desejar. Zappa parece brevemente perdido em um pensamento, queixo apoiado na mão. “Humm.” E vai ao microfone. “Estou pensando”, ele medita, “no que q gente podia tocar para acompanhar esse cara com o trompete.” Ele tem um estalo, uma inspiração trombeteira. “Já sei! O poderoso órgão de foles do Albert Hall!”

O poderoso órgão de foles do Albert Hall estava efetivamente interditado à banda, mas agora um dos Mothers começa de fato a escalar a grande fera, se encaixa na cabine do organista, puxa cada uma das alavancas e quase põe teatro abaixo com uma versão ensurdecedora de “Louie, Louie”. Fom-fom-fom/ fom-fum!

Enquanto isso, no palco, o Cara de Camisa Roxa apita, absolutamente feliz, totalmente inaudível, enquanto Frank Zappa o observa carinhosamente, como o benevolente e subversivo pensador que é.
                                   
                                                                     * * *

Essa vivacidade não é geralmente uma qualidade associada ao rock, e quando se escuta os grunhidos de Cro-Magno da maioria das estrelas do rock, rapidamente se entende por quê. Apesar das Spice Girls, porém, o rock-and-roll tem uma longa história de achados e acertos musicais.

Tem Elvis dizendo ser tão agitado como um homem alérgico numa árvore felpuda.

Tem a agilidade verbal de John Lennon. (“Como você achou os Estados Unidos?” “Virei à esquerda na Groenlândia”.)

Tem Randy Newman, que prova, em “Sail Away” [Navegar para Longe], que uma canção pode ao mesmo tempo ser um hino e satírica. (“Na América, tem muita comida/ Ninguém precisa ir para a floresta e gastar os pés.”)

Tem as letras surrealistas associativas de Paul Simon. (“Por que eu tenho coração tão mole/ se todo o resto da minha vida é tão duro?”)

E tem o trovador que fica acima de qualquer categorização, Tom Waits, contando suas ásperas histórias de vagabundo sobre gatos de rua e cães vadios. (“Tenho as cartas mas não tenho a sorte/ tenho as rodas mas não tenho o caminhão/mas, ah, eu sou grande no Japão.”)

Em tudo isso já há muita coisa para o pessoal literário estudar e admirar. Não faço parte da escola de exagero dos fãs de rock que acham que letra de música é poesia. Mas sei que ficaria ridiculamente orgulhoso de ter escrito qualquer coisa assim tão boa. E adoraria ter o talento, humor e a agilidade mental que Frank Zappa mostrou no Albert Hall aquela noite.

(De Cruze esta Linha, lançado pela Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, maio de 2007)