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sexta-feira, 25 de março de 2016

A solidão inviolável da mente_ "Eichmann em Jerusalém", de Hannah Arendt




Hannah Arendt, assim como Walter Benjamin, faz parte do gênero raro de pensadores inclassificáveis. Quando tentam fazer um retrato aproximado do que tais pensadores foram, o retrato torna-se capenga, sisudo, frágil ou descomedidamente forte, esquemático, falso, bastante distante da realidade. Mesmo um artista tão capacitado como J. M. Coetzee, ao escrever um ensaio sobre Walter Benjamin, apequena e brutaliza tudo o que Benjamin tinha de riqueza interpretativa e capacidade infinita de ver além das coisas. Assim é com Arendt, quando tentam dramatizar sua vida em um filme: a urbanidade cotidiana é alçada a um primeiro plano e o universo que se abria no gabinete da autora, em seus papéis de altíssima qualidade estética e investigativa da alma, se torna mero adorno, mero acidente colateral das paixões de cama e curiosidades de jornal que são os propósitos únicos dos grandes veículos de entretenimento em massa. É um tanto histriônico pensar que, com o eventual sucesso do filme, Hannah Arendt possa fazer parte dos twitter e facebook e redes sociais como um novo ícone de consumo para uma juvenilidade descolada e pretensamente culta, posicionando-a no mesmo nível de qualquer outra figura do show-business; seria de se perguntar se a linguagem cifrada do ciber espaço consegue perceber a ironia autofágica de aclamar como modelo venerável de lucidez uma autora que cunhou o conceito de alienação e dos seguidores marciais de clichês da metade final do século passado, que elevou a expressão da mente humana a um patamar de clareza e percepção de zonas sutis da verdade pouco alcançado nos milênios da escrita, e que por isso, para um entendedor medianamente arguto, é um tanto absurdo que ela seja consumida por essa gente que escreve em caracteres limitados e palavras mutiladas e que ela seria a primeira a classificá-la, como bem o fez quanto a seus antecessores de gênero em seu livro sobre o totalitarismo, como a ralé. Nada é mais avesso a Arendt do que a tentativa da sua reprodução padronizada, à lá Marilyn Monroe de várias cores de Warhol, do que sua assentada no gosto do senso comum da geração mais propícia à aquiescência descerebrada do domínio totalitário surgida depois da segunda guerra, como o é a geração de amigos e mútuos seguidores da realidade virtual de hoje; seria o equivalente ao Vaticano estampar imagens de Tolstói em camisetas oficiais e exportá-las para a igreja ortodoxa russa, ou alguém abrir uma fundação para a proteção dos leões africanos com o nome de Ernest Hemingway, ou a Nike eleger Stephen Hawking como garoto propaganda para seu novo modelo de tênis. Como o poema de Whitman, a juventude nada tem a ver com Arendt, os domínios de sua linguagem estão inalcançavelmente distantes do bairrismo cool dos que irão comprar seu livro sobre Eichmann e lê-lo talvez só até a metade porque alguém tuitou que ele é o máximo, deu a ele uma carinha amarela de aprovado na classificação junto ao novo vídeo de música lançado na rede. Para se avizinhar da compreensão de Walter Benjamin, tem-se que, ao menos, ler como Benjamin consegue escrever sobre alguém da estatura inclassificável de Proust, Kafka e Baudelaire, entrando em seus mundos, não sentenciando ou dando valorizações, mas aceitando o modo de visão desses artistas no que eles tem de combatividade independente na procura da verdade_ por isso o ensaio de Coetzee é um exemplo de escrita sistematicamente superior vazia e vaidosa, pois pega Benjamin por sua obra mais excêntrica, o Passagens, e faz uma esquematização do fracasso pessoal e das tantas insuficiências de alguém que, em vez disso, tem tantas qualidades esotéricas para oferecer.

É por essa suspeita fundamentada de que Arendt só é alcançável através do que ela escreveu que eu não vi o filme sobre ela lançado ano passado e nem pretendo ver. Me afasto desse tipo de interpretação. Supondo que tal filme tenha, ao menos, uma reavaliação histórica premonitória, no mesmo nível de A fita branca, com aquela apresentação paulatina e assustadora do mal acordando entre os moradores de um povoado alemão instigados a se assimilarem às exigências normativas de uma nova realidade nacional, ainda assim me vem à memória a redução à simples imagem de algo que está além da imagem. Me vem à memória a atriz que interpretou a Rosa Luxemburgo manquejando pela prisão: a vítima martirizada que fica na retina do espectador de cinema como uma coisa já definida, já tornado ela no momento em que sua corporificação se extinguiu no tempo: algo em que esvaiu por completo a transcendência. Faço uma digressão antes de entrar no livro da Arendt: há um conto de Don Delillo que se intitula Baader-Meinhof, na coletânea O anjo Esmeralda. Neste conto, uma moça e um rapaz se conhecem por acaso em uma exposição das pinturas sobre os últimos dias dos participantes do grupo terrorista Baader-Meinhof; de modo vago, eles vão interpretando o que as figuras sobrepostas a fotografias do corpo enforcado da mulher lhes provocam, sobre o aparente sorriso de um dos sentenciados, sobre uma árvore ao fundo que, no entendimento da moça, é o símbolo de que mesmo para o que fizeram há o perdão da sombra da cruz; daí, por uma inércia a que nenhum dos dois impõe resistência, eles vão até o apartamento da moça e, sentados à mesa diante um copo de água com gás com fatias de limão, prosseguem a discussão sobre os quadros, de forma desapaixonada, desconcentrada, com se atendendo a uma exigência protocolar que esperam que eles cumpram. E é reivindicando essa exigência que o rapaz tenta estuprar a moça, alegando que se eles estavam ali sozinhos, eles tinham que, necessariamente, perfazerem os mesmos passos da intuição do ato social firmada quando um homem e uma mulher estão em um apartamento silencioso, gastando conversa fiada como precondição do coito. A moça se refugia no banheiro; o rapaz, aparentemente, se masturba no quarto e, cumprido deste modo os movimentos da relojoaria, ele se desculpa através da porta e vai embora. No outro dia, retornando à exposição, a moça encontra o rapaz sozinho, sentado diante uma outra obra do ciclo, "de longe a maior e talvez a mais impressionante, a dos caixões e da cruz, chamada Funeral". Aqui nós temos, através do impressionante olhar visionário de Delillo, todo o diagnóstico da rarefação mental da conduta institucionalizada diante o assombro da história, toda a propensão inexorável que o indivíduo agregado à coletividade tem de filtrar a percepção de uma realidade de camadas e subníveis infinitos para um modo seletivo de entendimento; aqui, Delillo reconstrói a observação de impacto retardatário sobre a banalidade do mal feita por Arendt, retardatário porque intuitivamente sempre sabemos que o mal não é uma entidade, não é um demônio inteligente que conspira contra nossa espécie, lançando crias de cruel determinação e precisão letal, mas circunstâncias acumuladas por um corriqueiro estômago social que vai apascentando todo o contraditório incômodo até que o conforto de uma unanimidade desespiritualizada tome conta e coordene tudo_ mas que, ainda assim, quando nos deparamos com a vocalização de nosso estado de domínio, a reação que temos é de assombro, de vermos-nos como de uma posição alheia alienígena; como se o espírito, retirado do sono por um momento, mostrasse um fibrilar de indignação que comprova a sua existência. Nosso assombro parece confirmar o gene vestigial de que, no final das contas, lá no fundo, ainda temos uma boa visão elogiável sobre nós debaixo dessa escumalha toda de mediocridades e medianismos. Esse assombro é a pauta sobre a qual escreve Delillo em seu conto e Arendt em todos os seus grandes e fundamentais livros. No conto de Delillo, os personagens se veem no desamparo que oferece a exuberância de interpretação dos quadros, diante a qual eles tem que, combativamente, rejeitar para uma aquisição saudável, sanitizada, inofensiva em sua emoção regulada, de forma que não se percam da trilha usual que tem que seguir no ordenamento do mundo. Ambos estão desempregados, ambos são adventistas de um pragmatismo civilizado maturado em parte pelos arroubos de violência de refugos do alinhamento legal como os terroristas do Baader-Meinhof, e ambos se veem diante as possibilidades que essa norma poderia chegar para cobrar deles o sacrifício de sua humanidades em nome da regulação e da manutenção da ordem. A conversa entre os dois comporta a enunciação de seus possíveis planos para o futuro_ possíveis pois eles sempre estão nessa narcolepsia juvenil de viverem apenas no presente, nessa inconsequência de se julgarem inquestionavelmente imortais_, e o rapaz diz que pretende ter um emprego e uma "criaturinha pequena e macia" para criar. Por detrás dessas linhas aparentemente inofensivas, aterrorizantemente comezinhas, vemos a distorção à espera, a dissonância, o ruído surdo por cima dos escombros, as possibilidades nefastas: o quanto a história, assim como o deus bíblico fez com Jó, estaria disposta a testar a eficiência do pedantismo dessas pessoas até um nível extremo, ou não tão extremo visto que elas talvez se vergariam o mais rápido possível. Aqui nos remetemos a Eichmann em Jerusalém: "No entender de Eichmann, ninguém protestou, ninguém se recusou a cooperar. (Dia após dia, as pessoas aqui partem para seu próprio funeral), como disse um observador judeu em Berlin, em 1943".

São notórias as circunstâncias históricas que engendraram e direcionaram a escrita de Eichmann em Jerusalém; tudo o mais fora delas é a mais autêntica liberdade de pensamento e atrevimento por parte de Hannah Arendt. Os fatos são facilmente colhidos em uma pesquisa no Google: uma comitiva de agentes secretos israelense sequestraram Adolf Eichmann de seu esconderijo na Argentina, em 1960; Eichmann era apontado como carrasco nazista responsável pela morte de milhares de judeus durante a Solução Final promovida pelo Terceiro Reich; Eichmann foi julgado por um tribunal montado e mantido em Jerusalém, praticamente à revelia de todas as leis e tratados internacionais; Eichmann é condenado à morte e enforcado por seus crimes contra o povo judeu; a assim chamada filósofa e teórica política Hannah Arendt, já mundialmente conhecida por sua obra sobre as origens do totalitarismo e sua análise sobre a Condição Humana, é enviada pela New Yorker para cobrir passo a passo do processo do julgamento, afim de escrever uma espécie de coleção de peças de jornalismo literário com inédita fundamentação filosófica a serem publicadas paulatinamente pelo periódico. O que Arendt faz, o que não deveria ser em absoluto causa de surpresa por parte de seus contratantes, é o mais fantástico, profundo e pouco laudatório retrato da alienação humana e propensão do indivíduo permeabilizado nas massas em seguir cegamente líderes e doutrinas. Arendt compõe uma obra que não deixa nenhum ídolo em pé, a começar por sua polêmica condenação das atitudes de Israel em passar por cima das leis internacionais com a promoção do crime de sequestro em nome da penalização de um crime de genocídio que os líderes judaicos identificavam não como um crime contra a humanidade, mas como um ataque específico que dava a legitimidade aos judeus para a vingança, não considerando, em um racismo exclusivista que Arendt apontava ser tão descomedido quanto o dos nazistas, os outros povos que sofreram dizimação pelos exércitos de Hitler, como os ciganos, os romenos e outras etnias médio-européias. Para um judeu com certa intimidade com os escritos de Arendt, que uma vez respondeu a um jornalista não ter nenhum apreço pelo povo judeu, mas por amigos judeus, essa visão de seu novo trabalho não deveria ter causado impacto algum: já em Origens do Totalitarismo ela destina várias páginas em reportar a intransponível distância que os judeus ricos impunham entre eles e os judeus pobres, ou nascidos em famílias sem distinção social, assinalando o anti-semitismo que sempre existiu entre os judeus. Para qualquer outro leitor que conhecesse o trabalho da autora, também seria sem razão o choque pela sua honestidade intelectual diante as evidências anteriores de falta total de comprometimento da escritora com órgãos de ofício ou linhas de pensamento estigmatizado: Arendt, judia, era especialista em santo Agostinho e Kierkegaard, tendo escrito um ensaio sobre o pensamento do filósofo católico direcionado ao público protestante, e tendo escrito um belíssimo texto sobre o papa Angelo Giuseppe Roncalli, que bem poderia ter colocado a igreja católica de cabelo em pé ao colocar como título a ironia fina de "Um cristão no trono de São Pedro". A alta cúpula israelita, ao ver que a autora não admitia a cartilha da vitimização e da fácil alcunha de Eichmann como monstro, põe-se imediatamente a retalhá-la na imprensa mundial, cobrando da New Yorker a rejeição e recusa do restante dos textos sobre o julgamento. Como não deixaria de ser, Arendt passa a ser associada ao anti-semitismo e à traição ao povo judeu, o que seria alimentado mais ainda pelas relações mútuas de afeto e admiração entre ela e o filósofo Heidegger, tido como anti-semita aguerrido.

Saul Bellow escreveu que mantinha com Arendt longas conversas informais por restaurantes e bares destinados a escritores, em Nova York, em que Arendt lhe esclarecia tudo sobre a obra de William Faulkner. Sendo admiradora de Faulkner, não é para menos notar que as páginas iniciais de Eichmann em Jerusalém se assemelham no tom recolhido diante o opressor gigantismo ortodoxo dos tribunais às primeiras páginas do romance A Mansão, de FaulkneNesta última parte da trilogia dos Snopes, começa com o assassino de Flem Snopes sendo admitido pela corte de julgamento que o sentenciará; a madeira da bancada do juiz, as cadeiras de escoro alto empoeiradas de distinção, as batas dos oficiais da lei e a atmosfera hermética de respeito sagrado se encaixam com a descrição detalhada da sala de julgamento de Eichmann, em que os vários juízes se posicionam uma bancada acima do público, e onde à esquerda deles fica o reservado protegido com vidro reforçado em que o réu, de cara insofismavelmente cordial e disciplinada, espera sentado. Nessas duas obras vemos as motivações mais profundas que levaram ao crime, e aqui se trata da escrita sublime de dois gigantes das letras: Faulkner descrevendo que o mal é consuetudinário, ligado aos deveres do sangue, da família e da honra, que nasce junto ao desbravamento das terras e na construção da sociedade por sobre a selva incorruptível, que é fruto de desrespeitos sucessivos nunca digeridos mas alimentados no silêncio, e que muitas vezes aplaca o alvo que o originou quando este, pela velhice ou por uma calejada e involuntária sabedoria, já por si mesmo se penitenciou da maldade. Arendt conduz essa linha faulkneriana para uma interpretação universal da história, embasando todos os sinais apontados por Faulkner com a raiz unívoca da imensa capacidade humana pela veneração e pelo escamoteamento da verdade. Arendt diz, em seu revelador e desnudo ensaio sobre Heidegger, em Homens em tempos sombrios, que "a tendência ao tirânico pode se constatar nas teorias de quase todos os grandes pensadores (Kant é a grande exceção)". E por isso abjura que a única forma de se manter íntegro e lúcido no confrontamento com o mal é através da solidão inviolável do pensamento, a não-coaptação a nenhuma forma ou modelo ou moda ou tendência, a não aceitação de heróis, a não se ajoelhar diante os ditos grandes e poderosos, mesmos esses tendo o poder intelectual de um Heidegger ou a mansidão de um papa morto prematuramente, ou diante as idiossincrasias auto-protetoras de um povo ressabiado que sempre foi perseguido. Não se envergar diante santidades ou sistemas. O retrato que Arendt faz de Eichmann é sinistramente natural e límpido, esse pai de família exemplar, esse homem que em toda a vida leu apenas dois livros e por isso se via mais capacitado que os demais das facções hitleristas que não haviam lido nenhum, esse homem que, no início, se prontificou a ir contra o extermínio e fez esforços que resultou na salvação de várias vidas de judeus, mas que depois, pelo estado, pelo eufemismo da ordem social, pela visão acabestrada de um destino histórico nacional que só os muito enredados não viam se direcionar para a ruína, se transformou no mais exemplar funcionário do sistema. Eichmann, esse gênio do clichê, esse homem impoluto que nada tinha de monstruoso, esse reflexo preciso de qualquer um de nós quando pressionado pelos nós das forças da manutenção.

"Adolf Eichmann foi para o cadafalso com grande dignidade. Pediu uma garrafa de vinho tinto e bebeu metade dela. Recusou a ajuda do ministro protestante, reverendo William Hull, que se ofereceu para ler a Bíblia com ele: tinha apenas mais duas horas e para viver, e portanto nenhum 'tempo a perder'. Ele transpôs os quarenta metros que separavam sua cela da câmara de execução andando calmo e ereto, com as mãos amarradas nas costas. Quando os guardas amarraram seus tornozelos e joelhos, pediu que afrouxassem as cordas para que pudesse ficar de pé. 'Não preciso disso', declarou quando lhe ofereceram o capuz preto. Estava perfeitamente controlado. Não, mais do que isso: estava completamente ele mesmo. Nada poderia demonstrá-lo mais convincentemente do que a grotesca tolice de suas últimas palavras. Começou dizendo enfaticamente que era um Gottgläubiger, expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era cristão e não acreditava na vida após a morte. E continuou: 'Dentro de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei'. Diante da morte, encontrou o clichê usado na oratória fúnebre. No cadafalso, sua memória lhe aplicou um último golpe: ele estava 'animado', esqueceu-se que aquele era seu próprio funeral.

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou_ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos." (Hannah ArendtEichmann em Jerusalém, p. 274, tradução José Rubens Siqueira, Companhia das Letras)

Mais sobre Arendt, aqui.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Meus 10 melhores romances (lista alternativa)_ um post carregado de superlativos

Já que minhas férias acabam hoje, e não terei tanto tempo livre para me dedicar ao blog_ não de forma programada_, vamos a um desses post preenche lacuna bem engraçadinhos. O início de uma lista alternativa de meus melhores romances. Preparados, fãs?

1. Os irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski.



Convenhamos, a arte parasitante que sempre se alimentou de Dostoiévski é tétrica. Não me refiro nem ao trabalho que os acadêmicos fazem para causar terror no propenso leitor e desmotivá-lo para toda a vida quanto a um autor que é o maior barato, como Dostô, transformando-o em algo como um filósofo rancoroso complicado e sombrio. Me refiro aos desenhos, seja lá por qual firmada e bastante equívoca tradição, que atulham a grande maioria de edições da obra do moscovita. Nada contra ilustrações, aliás eu adoro quando são boas, mas as que desenham para Dostô segue uma odiosa estética monotemática de que devem ser pesadas, depressivas, sempre de um abstracionismo opressivo, sempre fazendo menção direta a patologias e maldição espiritual. Pegas isoladamente, sem que se saiba ligadas à obra para a qual foram feitas, podem facilmente ser confundidas com ilustrações de algum desses livrinhos pentecostais cheios de danações da alma e predigas de nociva atenção contra o pecado. Podem bem servir para figurarem também nesses panfletinhos que nos entregam nas esquinas falando sobre Madame Tal que lê as mãos e desfaz ou faz encostos. São realmente muito assustadores. E não são criações do mercado editorial brasileiro, sejamos justos. Já conheço muitas edições de Portugal e da Espanha, assim como de outros países de língua espanhola, em que o mesmo horrorama é fielmente seguido: loucura, depressão, esquizofrenia. Nas edições russas que já vi, também, como não deveria deixar de ser, estão lá: o velho trem fantasma que precede e muitas vezes encerra a vontade de ler Dostoiévski. Se me sobrasse tempo, interesse e verba, eu poderia fazer um estudo pormenorizado do porquê dessa aberração. Será uma contra-propaganda inteligente e perversa do regime soviético, para afastar o leitor? Ou será a recorrente obra dos ignorantes, que são armas de perversão mais antigas da Terra, que não leram a obra antes de trabalharem com ela, ou a leram bem mal, ou não a entenderam? Dostoiévski, meus irmãos (àqueles pequeninos que futuramente acharão esse blog de um autor já morto nas arqueologias das pesquisas pela net), nada tem a ver com esse negror e essa tristeza inexorável. Eu também, graças a essas pinturas, por muito tempo, na adolescência, fiquei afastado do Escritor Maníaco que me parecia ser o Dostoiévski, ou por me achar burro demais para um existencialismo tão expressivo, ou porque não queria que meus dias no reino inóspito da juventude ficassem ainda mais difíceis de serem vividos com aquelas dúvidas mefistofélicas que os desenhos demonstravam haver nos livros.

O mesmo ocorre com os livros da Editora 34. Caramba, o livro dos Karamázov tem excesso de ilustrações. Tem partes, no volume 1, em que elas aparecem a cada três páginas. Se somadas, creio dar um volume considerável de páginas que poderia bem ser retirado sem prejuízo algum para a estética da edição, além do benefício de diminuir substancialmente seu preço. Como disse, nada contra, mas por que os desenhos para Dostô não podem ser bonitos e refinados como os clássicos desenhos dos livros do Dickens, por exemplo? Por que algum discípulo do Gustavo Doré nunca fez desenhos para Dostô? Na certa, seria barrado pelos editores, que tem uma convenção a cumprir. 

Encontrei um texto sobre o David Foster Wallace em que ele escreve para um amigo que os escritores atuais deveriam escrever com paixão e humanismo como fez e viveu Dostoièvski. Escreveu sobre isso após ter lido os cinco volumes daquela clássica biografia do Dostô (que ainda não li, mas é um dos planos para esse ano, fazer uma boa economia e adquirir tais livros, que são ofensivamente caros no Brasil). DFW tem se demonstrado um guia lúcido e valioso para novos escritores, que contudo esses tem seguido logo as características de DFW que ele mesmo deplorava e tratava com ironia sublime (como eu rio ao ver escritores enchendo seus livros de notas de rodapé, à maneira de DFW, mas demonstrando uma completa falta de compreensão do humor auto-destruidor de notas de rodapé do Wallace). Pois é isso aí, meu caro Wallace (que vontade que dá conversar com um cara desses, quando vejo seus profundos insights), a literatura estaria bem mais interessante, bem mais propícia a mudar os corações e os espíritos das pessoas, se Dostoiévski fosse mais lido e seguido. Nenhum livro que eu já li tem a octanagem sensorial e sensitiva, a verdade de frente e a paixão e o amor desencorporado, o enraivecido e bombástico abraço, que tem os Karamázov. É o livro mais humano que já li, o mais terno, o mais ferino. Isso não é um exagero. Podem vir os idiotas sofisticados que condenam os superlativos. Os Karamázov é superlativo, me curvo diante ele. O maior dos escritores escreve contra todas as pompas, contra os empolamentos, contra as etiquetas, e se declara humano, se rebaixa à condição pura do homem. Toda a literatura do século XX é filha de Dostoiévski, sobretudo dos Karamázov, o que demonstra o quanto a liberdade de seu autor em escrever um romance libertário foi revolucionária. Mas claro que, assim como os seguidores de DFW tendem a seguir as coisas erradas de seu mestre, os seguidores de Dostô retiraram essa franqueza da alma, essa comunhão, esse desnudamento dos Karamázov, decretando o que faz a grandiosidade do livro como algo brega, emotivo demais, e transformaram a escrita em algo progressivamente desumanizado, coisificada, pura em seu materialismo radical, em sua falta de glândulas, em sua robótica carnal intuída, em sua numerologia serial de fábrica. Tudo o que Dostô combate e abomina em Karamázov. O existencialismo desinibido e sem freios de Karamázov se transforma na sequidão destinada à derrota e à tristeza da literatura do século XX. E é contra isso que DFW ataca, o que não é um bom sinal que isso venha de um grande escritor que desistiu da vida. Sejamos frágeis sem vergonha alguma da fragilidade, como disse um dos mais devotos seguidores de Dostô, Tarkóvski. Voltemos a nos concentrar no homem, no humano, nessa época em que o relativismo ampara a destruição do mundo e a preparação já acionada do aparecimento de uma Coisa inimaginável para suplantar o homem (suplantar o homem no homem). Sejamos emotivos, falemos sobre o que interessa. Assim se sai dos Karamázov, transformado, com a certeza fecunda de que isso não é apenas um romance, transcende, arrebata, mexe. E é, por incrível que pareça, um grande romance que enche de felicidade diante as coisas estabelecidas, os obstáculos severos demais e intransponíveis demais. Nada é mais difícil para o homem do que fazer o óbvio, o que tem que ser feito. O que tem que ser feito para a preservação da identidade humana. Lembremos disso quando os carros pipas chegarem.

2. O homem sem qualidades, Robert Musil.



Um romance escrito por um matemático. Já viram isso, asseclas? Concebem o estranhismo de tal coisa, pequenos gafanhotos? Deixe-me ver... Primo Levi e Canetti foram químicos (o primeiro trabalhou isso em sua obra, o segundo confessava abominar quando passava de frente à antiga faculdade). Na história da literatura, talvez esse seja o único caso de um homem das ciências exatas a escrever uma grande obra, uma das maiores obras da literatura. E todo o livro contêm uma prosa maravilhosa e única em que apresenta a constância da análise espiritual com a abstração totalizadora da matemática. Ulrich, o herói, tece ensaios sobre a indústria cultural, sobre a história, onde o que mais aparece é sua compreensão de que na modernidade (o tempo é o pré-primeira guerra) cada vez é mais difícil às pessoas terem uma alma. As reflexões de Ulrich, apresentadas em terceira pessoa, são tão belas e profundas quanto o melhor de Nietzsche. Essas reflexões, tecidas durante as andanças de Ulrich por Viena, compõem várias das páginas mais bem escritas da literatura dos últimos cem anos. No meu entendimento, esse é o suprassumo, o ápice, dos romances-ensaios, gênero que detêm os melhores trabalhos de escritores como Thomas Mann, Philip Roth, Saul Bellow, Saramago, etc. Os que quiserem fazer um test-drive, leiam o capítulo 72, intitulado "O dissimulado sorriso da ciência, ou primeiro encontro detalhado com o mal" e me digam se não é impossível não ficar cativado pelo poder das palavras de Musil. É difícil resumir o livro, mas aventuraria em dizer que se trata de personagens em diversos graus comprometidos com a necessidade de terem uma alma. Desde Ulrich, um matemático ultra-inteligente que se nega a ter as qualidades requisitadas pela sociedade da vida que se exibe_ um dos personagens mais livres da literatura (o fato de ser matemático não o faz cair na pobreza conceitual de liberdade-clichê do existencialismo e das demais escolas da depressão requintada)_; Arnheim, o rival intelectual de Ulrich, um empresário multi-milionário com sofisticadas ideias sobre a redenção neo-liberalista do homem, para quem todo o progresso anunciado no século é motivo de otimismo sobre os bens a serem colhidos para a humanidade (as más línguas dizem que Musil tomou Mann emprestado para criar este personagem)_ Arnheim também é responsável por capítulos extraordinários de reflexões contrárias às de Ulrich; até personagens díspares mas imortais, como o assassino no corredor da morte Moosbrugger, e as quatro mulheres com quem Ulrich se envolve. São personagens que trazem esse vínculo em comum: a procura pela legitimidade de uma alma, habitando um mundo no qual a destruição de todos os valores e a revelação de algo monstruoso e intolerável está para acontecer, um mundo que também busca desesperadamente por um significado, uma direção. Em todo o romance, os personagens estão empenhados na construção de uma liga mundial sedimentada na cultura germânica, chamada Ação Paralela, organização em que se revela ainda mais o vazio e o engano que são as reais forças a conduzirem a sociedade. Apenas Ulrich, em seu isolamento cerebral, se conserva íntegro, em um novo estoicismo. O homem sem qualidades é um dos maiores e mais deliciosos romances de qualquer tempo.

3. O mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov.



Os capangas do capeta vem à Terra para acabar com a massacrante corrupção da União Soviética. Quem saboreou o gosto da vingança impossível de filmes como Busca implacávelO protetor e Lucy, vai adorar esse livro. Todas as outras pessoas também, desde que tenham ao menos 0,00001% de sangue nas veias. Aliás, todos os humanos vão adorar este livro. Quem não gostar, digo, quem não amar fervorosamente este livro e não o tiver entre seus preferidos, entra naquelas cifras de gente perigosa que não gosta de criança e cãezinhos. A diferença é que com estas últimas ainda dá para levar um papo descontraído na fila do banco. Bulgákov é bem melhor que Luc Besson. Outros autores russos são mestres na felicidade (Tolstói), no paisagismo com contestação social (Turguêniev), nas profundezas da alma com romance policial (Dostô), na ternura da visão sobre as grandes limitações humanas (Chékov), Bulgákov é mestre incomparável na arte da vingança. Notem bem: a vingança de Bulgákov é algo tão supremo que pode transformar a política, depor ditadores, acabar com injustiças. Não à toa esse seu romance foi condenado e perseguido por décadas. E o humor.... Deixe eu me sentar (como se eu estivesse capaz de digitar em pé depois de duas doses regradas de canjebrina): ninguém é mais engraçado que Bulgákov, ninguém. Há cenas nesse livro que provocam cãibras na barriga, sem exagero. Os demônios do livro são contrabalanceados com a narrativa dos últimos momentos de Jesus, o que localiza esse romance entre as grandes narrativas ficcionais sobre Cristo. O Cristo de Bulgákov é um personagem doce, simplório e sublime, que desconcerta os poderes instituídos. O Cristo de Bulgákov é todo o povo russo, que se conserva em uma primitiva ingenuidade protegida da perda total do ideal da revolução apodrecido por Stalin. Um belíssimo livro, que tem a mesma grandeza dos romancistas russos do século 19.

Aqui reproduzo um texto meu sobre esse romance:

Uma das minhas mais gratificantes leituras dos últimos tempos foi O mestre e Margarida, de Bulgákov. Relinchei de tanto rir o romance todo. Cheguei a babar em grande parte dele. Há um capítulo em que toda uma repartição pública, dessas repartições públicas stalinistas que conhecemos bem por aqui, é possuída: a visita de um dos asseclas do diabo faz com que os funcionários dela passem a cantar uma ópera (baseada na obra) de Púskhin. Ri tanto nesse capítulo que achei mesmo que a possessão demoníaca extrapolara as páginas e caíra sobre mim. Imaginem as pessoas em um prédio do governo não tendo como se controlar, com os olhos desesperados, todos cantando em alto e bom som toda uma obra operística, até serem internados em um manicômio_ e os ônibus que os conduzem passando por uma plateia de populares que acham que é alguma das marchas marciais acontecendo na avenida? Outra cena espetacular é a transformação de Margarida em bruxa, seu voo pelas paisagens noturnas magníficas da Rússia até um distante rio da Sibéria, onde ela se encontra com outras das instigantes figuras infernais para uma espécie de batismo. De imediato, Bulgákov se tornou meu mestre. Anos e anos para que ele chegasse até mim dessa forma sem formalidades, como se não fosse um dos acontecimentos da minha vida, mas uma trivialidade a mais. 

O mestre e Margarida tem também uma narrativa sobre os últimos momentos de Cristo. Em certa época de minha juventude, eu lia tudo na alta literatura sobre Cristo: Barrabás, A última tentação, O evangelho segundo Jesus Cristo. Esses capítulos estão entre as melhores páginas apócrifas sobre o Cristo_ empatam com o magnífico e esotérico livro do Kazantzakis. Por que Bulgákov conta os momentos finais de Jesus em seu livro? Por que, em uma crítica fantástica que faz contra a corrupção do estado soviético, ele intercala esses momentos estranhos, deslocados? Seu cristo tem só um apóstolo, o cobrador de impostos Matheus. Todos são mencionados com seus nomes originais, o que causa uma maior ambientação humana no calor arrogante da Judéia, entre homens brutos cujas barbas parece que sentimos nas mãos: Jesus é Yeshua Ha-Notzri, Barrabás é Bar-Raban, Judas é Judas de Kerioth. Jesus está lá, trocando em miúdos, da mesma forma que Jesus está em Stalker, de Tarkóvski: um homem comum, bastante lelé da cuca, bastante medíocre em sua simploriedade constrangedora, inculto, mas que deixa Pôncio Pilatos fora dos eixos por suas enormes e inusuais palavras inéditas sobre o perdão, sobre a bondade intrínseca do homem. Jesus de Bulgákov é um homem que ninguém suporia, nem nos sonhos mais disparatados, ser algo mais que um louco de bom coração, vítima de sua própria desprovidão de astúcia. Mais uma vez, o Jesus de Bulgákov se encontra com o Jesus de Tarkóvski: em sua aposta de que a fragilidade é a verdadeira força.

Mas o mais fascinante aqui é a comitiva de seres infernais do romance. Bulgákov é um gênio visual: seu romance se assiste, não se lê (estudei métodos de leitura dinâmica que defendem a imaginação da leitura como forma de rapidez sem perder concentração, e nenhum escritor se emprega melhor a essa técnica que esse russo). As cenas são tão ricamente descritas, seus personagens são tão vivos e naturais, que lembro das cenas como se as tivesse visto: na audiência de Yeshua diante de Pilatos, quando Yeshua fala com Pilatos informalmente, como se fossem íntimos, o escrivão que anotava as palavras pára a pena e olha de queixo caído para seu chefe, e isso é oferecido com tanta maestria que dificilmente o cinema seria mais elaborado que a mente do leitor. E os diálogos!: meus irmãos, tenho sido presenteado com o que há de melhor em diálogos em minhas últimas leituras, e Bulgakóv é uma festa à inteligência, é uma overdose. Que prazer e aprendizado saber, mais uma vez, que a literatura pode ser tão libertadora e ensinar tanto.

Os demônios de Bulgákov_ demônios sem nenhuma misericórdia, maus até a medula, e fascinantemente sarcásticos e elegantes_, são como agentes da transformação, como se Deus, após ter mandado os arcanjos para Sodoma e Gomorra, cidades cujo nível de pecado quase perverteu essas criaturas imaculadas (lembro de minha avó pentecostal me lendo a famosa passagem em que os habitantes avaliam o potencial libidinosamente consumível da carne desses seres etéreos), ficasse mais receoso e enviasse dessa vez capangas incorruptíveis, fascinados pelo cumprimento dos terríveis expurgos. Ver as maldades que Azazello, o ser mais feio do universo, Behemoth, o famoso gato preto que anda sobre duas patas, Korôviev, e Hella, uma mulher nua com uma extensa cicatriz no pescoço, fazem sob o comando de Woland, o próprio demônio que se apresenta como doutor em magia negra, é uma maravilha. Nietzsche, que adorava Petrônio, teria adorado Bulgákov. Este romance é um relicário, desses que os fiéis apertam contra o peito à espera de justiça divina, e Bulgákov dá uma ostensiva justiça luciferina em que a hipocrisia da sociedade e a corrupção generalizada que parte do estado soviético se cumpre com decapitações de intelectuais do partido, oligofrenia de poetas ponderados, a loucura de agentes da burocracia. Seria uma vingança meramente placebo, se Bulgákov não fosse tão superior e magistral, tanto que seu romance foi censurado, abreviado, condenado, rasgado, desprezado. Em sociedades tão encalacradas na corrupção e na idiotice como a nossa, Bulgákov ensina, otimista, que a única salvação é o humor libertário, o humor corrosivo, iconoclasta, satânico, insubmisso, subversivo, violento e visceral. Se eu ainda tivesse capacidade de rezar, rezaria ao Santo Bulgákov que intercedesse por nós, para que o Demônio expurgasse esse nosso triste e intranscedente país.

4. A quarentena, Jean-Marie Gustave Le Clézio.





A situação de falta de água em São Paulo é uma dessas realidades difíceis de acreditar. Li em uma matéria que faltam menos que 50 dias para acabar de vez a água em São Paulo_ não que vai faltar, mas vai acabar toda a reserva de água. Os lenitivos para amenizar esse quadro de horror traz uma sensação de que o horror ficará mais acentuado ainda: serão enviados carros-pipas cheio de água colhida nas regiões interioranas com reservas ainda não esgotadas para a grande cidade, e esses caminhões distribuirão baldes de água em quantidades regradas para os moradores. Para diminuir o impacto da cena, essa frota de caminhões adentrará pela cidade de madrugada_ o que me lembra a fantasmagoria de Ensaio sobre a lucidez.  A autora do artigo aventa todas as consequências que pode haver com esse estratagema: violência, desespero, roubo de caminhões, segregação. Ela retira um véu por sobre um detalhe incômodo: as pessoas se sentirão ofendidas em suas dignidades de não poderem dar descargas nas privadas, e isso aumentará ainda mais a situação de guerra. Creches, indústrias, empresas, escritórios, terão que dispensar seus funcionários por causa da falta de água, e isso descambará para uma crise econômica em avalanche e sem precedentes na história do país. Um convidado em um programa da Globo News desse final de semana tocou em mais uma das tantas feridas inesperadas que apareceu no corpo combalido da nação nesse começo dramático de ano: o Brasil se tornará, em questão dos próximos meses imediatos, a nova Grécia. Essa realidade se repete, em menor expoente mas não com menor gravidade, em Rio e Minas, e tudo indica que logo a calamidade estará instalada em todo o restante do país. A situação poderia em muito ser acautelada se os governantes de todas as instâncias tivessem alertado a população e tomado as precauções de racionamento certas, mas o ano passado era ano político e os políticos dessa nação inglória são o que são. Nas redes sociais e nas caixas de comentários dos informativos virtuais, é assustador ver os xingamentos entre pessoas que se dizem de São Paulo, e as que se dizem da região nordeste do país.

Após ler isso, minha filha deitou em meu colo e eu pensei o que eu faria para protegê-la, até onde eu iria. Imaginei-me abatido com um tiro nas costas junto a outras pessoas que invadiram residências de lotes fechados de alto luxo para roubar água. Imaginei o quanto foi terrível para os pais de Auschwitz ficarem impotentes diante o sofrimento de seus filhos. Imaginei o quanto essas reviravoltas da história é que são os nós por onde saltam as mudanças.

Esse livro trata de uma história de miséria e segregação e violência similar. Le Clézio imagina os meses em que seu avô ficou exilado em uma ilha, quando jovem, junto a um grupo de pessoas, em quarentena, porque sua família caiu em desgraça com o dirigente das Ilhas Maurício, para a qual não podia retornar. Nessa ilha fica a comunidade de doentes e os escravos. Nessa ilha, sediado pela fome, o avô conhece uma garota índia pela qual se apaixona. Le Clézio prova através da literatura a força da perseverança para não ver o fim quando a desgraça atinge um elevado grau de opressão. Tudo é mágico e intensamente poético nesse livro. E uma lição de vida. E um potente sopro de esperança, como aliás são todos os livros de Le Clézio. O tema desse grande escritor sempre foi a esperança efetivada dos pacientes, dos simples, dos que não se desesperaram, para os quais todas as janelas e portas se fecharam e toda resposta foi um impiedoso não. Mas que se deparam sempre com um novo e imprevisível caminho. Inesquecível!

5. Coração tão branco, Javier Marías



Coração tão branco é um progressivo suspense em que seu autor faz o que bem quer com o leitor. Começa com um capítulo onde é narrado com um assombroso coloquialismo um suicídio em família, segue capítulos que tem a melíflua dissimulação de nada terem a ver com o tema, e se encerra com o perfeito amarrar de todas as pontas soltas em uma tensão que lembra a coda de uma sinfonia clássica. Entremeando a narrativa, o livro está recheado de reflexões desse autor cujo sofisticado talento para a digressão se tornou uma assinatura. Minha porta de apresentação para Marías, esse romance me pareceu há cinco anos quando o li, o exemplo de uma obra genialmente elaborada, e me surpreendeu ainda mais saber que vendeu milhões de exemplares pelo mundo. Os títulos da maioria dos livros de Marías são belos e sonoros enigmas retirados de Shakespeare, e o deste remete a um momento de Macbeth de insuportável remorso. Tem a leveza de retratar enganos singelos de gestos de desconhecidos vistos pela janela, de crimes intuídos em rumores apreendidos pela parede que divide vizinhanças, e tem o peso quase macabro de descobrir que dessas supostas abstrações pode vir um horror por demais concreto.

6. Ruído branco, Don Delillo



A morte é um tabu nunca mencionado na sociedade mais hedonista do planeta, e esse romance sarcástico é um estudo cruel sobre as formas mais eficientes de um americano padrão descobrir que ele irá morrer. Tem a velocidade de incontroláveis acidentes fatais e um adstringente riso do estranho alívio que é se saber a um passo da morte. Os personagens mantêm a compulsiva ocupação de se distraírem da realidade da morte, com seus trabalhos regimentais, suas famílias justificadoras de um propósito de servidão injustificável, suas televisões e seus teatros frenéticos de consumo, até que um acidente em uma indústria química os confrontam com a perda total do eufemismo. Nessa epifania de insights de humor sombrio que o romance se torna, com alguns dos diálogos mais inventivos da literatura do último meio século, surge a possibilidade de se obter no mercado negro o milagre de não pensar mais na morte, através de uma pílula de um cientista maluco. Delillo consegue a proeza de tornar uma história que aparenta ser corriqueira (com um primeiro parágrafo propositalmente desmotivador com sua sufocante descrição de manobras de caminhões industriais), em uma mirabolante fábula urbana sobre a procura pelo Graal. O autor desvela a hipocrisia narcotizada de uma sociedade que simula se julgar imortal, dando a seus leitores a única evidência de permanência através da supressão lenitiva do medo da extinção, com freiras que cumprem sua função social de fingirem crer em um deus, de uma ciência cuja única conquista é aceitar da mesma forma o segredo de que não existe qualquer tipo de transcendência. E de homens e mulheres comuns cujo destino milenarmente aceito é a de animais intimamente cansados da prepotência de acreditarem deter uma fagulha de luz inorgânica. E como todas as grandes conquistas, Ruído branco, apesar_ ou devido a_ de sua acidez, de sua inteligência impiedosa, passa a dedução de que essa fagulha possa estar na obra.

7. Visível escuridão, William Golding



O leitor de Faulkner vai reconhecer neste livro uma versão inglesa mais radical de Luz em agosto. Há aqui todos os elementos desse grande romance de Faulkner: o exílio imposto a uma criança deformada (espiritual em um caso, e espiritual e fisicamente em outro); um zelador de colégio dotado de uma maldade genuína; em servo de deus que atinge um nível de reclusão auto-santificada que vai além da psicopatia; uma mulher que cumpre a contrapartida de ser a insígnia da liberdade em um mundo caótico. Esse é um dos poucos romances que conheço para o qual se pode usar o conceito de ser verdadeiramente assustador.

8. David Copperfield, Charles Dickens



Wislawa Szymborska diz em um poema que prefere Dickens a Dostoiévski. Li este livro a primeira vez quando tinha 17 anos, e fiquei deslumbrado. Desde então meu amor pela Londres de Dickens se tornou um dos constituintes de minha personalidade. A segunda leitura, feita nos últimos dois meses, foi ainda melhor. Merece um post, no momento certo.

9. Fome, Knut Hamsun




É uma pena que este romance esteja há décadas fora das prateleiras das livrarias nacionais. Hamsun aqui é todo eletricidade; esse livro exuma uma felicidade e uma juventude única, mesmo que seu tema seja os anos de fome e solidão terríveis que o jovem autor passou na Noruega, antes de se emigrar para os Estados Unidos. Tem a fé inabalável do primeiro Dostoiévski, e a pureza de se enxergar como um ser agarrado em suas convicções de incorruptibilidade em um mundo pérfido. É magistralmente bem escrito em sua antecipação da literatura beat, e desses romances que, lidos na febre da juventude, se tornam icônicos para toda a vida. Fui imensamente feliz quando o li em uma biblioteca, pois há nele a mesma paixão irrefreável pela literatura que eu sentia, a mesma vontade de abnegação em busca de aventuras de descobertas, a mesma percepção de que o mundo era maravilhoso demais para que eu não saísse em completa desobediência às convenções sem rumo certo para pertencer verdadeiramente a ele. O alter ego de Hamsun aqui é um vagabundo, despejado de pardieiros e com uma fome brutalizadora constante. A cada página o vemos apertar mais o cinto para que a calça não lhe caia pelas pernas magérrimas. E mesmo quando ele está atolado em total abandono e miséria, ele passa suas longas horas ociosas de segregado (sofrendo estalos no lombo de chicotes de cocheiros e apitos de guardas de praça) escrevendo um ensaio cujo propósito é desmistificar Kant, que para ele é um fanfarrão. Em todo o livro o narrador está sempre em volta com a escrita, mandando contos para revistas que na maioria das vezes os rejeitam. Hemingway escreveu certa vez que seu único propósito quando se lançou no mesmo empenho de suicida radical na escrita, era escrever tão bem como Hansum escrevia. Hamsun purgou fracassos terríveis, até que conseguiu provar para o mundo inóspito que sempre salientava não ter nenhum lugar para ele que sua tremenda prepotência em ser grande escritor se cumpriria. Era um escritor tão livre e concentrado, que quando recebeu o Nobel que consagrou toda sua gigantesca obra, esqueceu o polpudo cheque do prêmio no elevador do hotel.

10. VALIS, Philip K. Dick


Resenha em algum lugar do blog.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um romance de Don Delillo e uma forma de compreensão pessoal



É no próprio Ruído Branco que vem escrito que o costume de se contratar carpideiras para chorarem em enterros talvez atenda à necessidade de fazer com que as pessoas conservem uma aparência de pesar pelo morto e não transformem a cerimônia fúnebre em uma festa involuntária. É fácil perceber que há um riso premente por detrás de tudo, aguardando a hora em que a nossa impostura de seriedade se distraia e ele possa aparecer, com todo seu ofensivo glamour de libertinagem.

Minha mãe, quando eu era criança, sofria horrores pelo deslocamento de seu braço direito, causado pela luxação da articulação do ombro. Bastava ela se descuidar e tentar pegar uma caixa de sapatos em cima do guarda-roupa, ou apanhar um objeto mais pesado com o braço debilitado, para que a cabeça do úmero se soltasse de seu ponto de ligação com a escápula. Eu aprendi cedo esses nomes da anatomia, que sempre me faziam pensar em formações geométricas, como peças de encaixe: se o úmero da minha mãe saía de sua composição angular perfeita, o círculo rompia seu côncavo descanso funcional, a coisa ficava muito feia. Pequenos nervos ultra-sensíveis eram esmagados e minha mãe gritava de dor. Eram os piores momentos da minha infância: vê-la dando o espasmo gutural que acionava imediatamente o alarme de que seu braço saíra fora do lugar, o que equivalia para mim em minutos eternos de aflição enquanto ela ficava encolhida, imóvel no lugar que estava, enquanto corríamos para o telefone para chamarmos a única pessoa capaz de colocar seu braço de volta, meu tio Pedro. Meu tio Pedro atendia o telefone, a qualquer hora, e eu o via vestir calmamente a camisa, apagar o cigarro ou acendê-lo, avisar minha tia Tânia de que o braço da Telma saíra novamente do lugar e que ele precisaria ir lá resolver, abotoar a camisa perguntando onde estão as chaves do carro, dizendo "ah! Achei, estão aqui na estante", apertar o botão do elevador enquanto examinava tranquilamente se os documentos do carro estavam todos dentro da carteira, descer os longos lances de 12 andares do prédio dentro do elevador vagaroso, entrar no carro e acionar a chave, aguardar com o pé no acelerador enquanto o motor a álcool se esquentasse, sair pela porta da garagem e atravessar a cidade até seu outro extremo... Era uma saga nórdica rica de movimentos lentos até que meu tio Pedro entrasse em nosso apartamento com sua cantada voz de alcoólatra abstinente que sabia profundamente sobre dor para se exaltar diante mais uma de suas infinitas manifestações no mundo, uma voz adstringente que me enchia de segurança assim que meus ouvidos atentos a ouviam soar pela porta. E era questão de segundos de uma destreza infalível para que ele colocasse o braço da minha mãe no lugar, não sem antes os acréscimos indispensáveis da coda musical do desespero final da minha mãe, com sua frase cerimonial de "Não, Pedrinho! Espera, Pedrinho! Devagar! Devagar!". E tudo estava concluído. Tão fácil que retroativamente sempre parecia absurdo tanto sofrimento. E o tio Pedro dizia algumas palavras finais de estoico consolo, relembrando que ele também tinha o mesmo problema com o braço, daí ele se sentava e mostrava mais uma vez como fazia com o próprio braço, em um movimento de simplicidade mágica, para encaixá-lo no lugar. Ele se despedia dizendo que, qualquer coisa, era só chamá-lo, e voltava em linha inversa toda a via sacra até o momento inalterável em que estava despido da camisa sentado no sofá com seu livro do Tex em mãos, ou se preparando para dormir. Mas o que eu quero dizer é que houve uma vez, uma só vez nesse martírio todo, em que, inesperada e insanamente, eu reagi às dores da minha mãe com gargalhadas; ri tanto que as minhas tias começaram a pensar o que fazer comigo, quais as possíveis consequências desse meu ato para a homeostase da família dali para frente, eu rolando no chão apontando o dedo para minha mãe encurvada na cama, tentando mostrar para o restante da platéia o quanto aquilo era flagrantemente cômico, cada grito da minha mãe repercutindo um lance de gargalhada da minha parte. Talvez fosse reação do meu desespero, talvez fosse porque aquela rotina ortodoxa em que a dor acionava uma relojoaria precisa e cerimoniosa finalmente se me mostrara em sua nudez sem sentido para que tivesse autoridade de exigir tanto comburente dramático. Depois disso, a primeira coisa que faziam quando o martírio da minha mãe começava era me mandarem passear na praça em frente ao prédio, até que eu visse o carro do tio Pedro chegar.

Dito isso, pode-se dizer que eu tenha uma antena para perceber distorções na seriedade que servem para evidenciar algum fator de risco em mim quanto ao respeito nos momentos de tragédia. Inadvertidamente algum mecanismo surgido em uma infância não muito saudável para qualquer diagnóstico psicopatológico aciona em mim uma capacidade de associação histriônica que, se eu falasse para alguém o que me passa pela cabeça enquanto o correto é um pomposo silêncio ou as lágrimas incontidas, eu cairia muito na escala social do que é tido como a sanidade civilizada. Não que eu não sofra ou que eu seja insensível, absolutamente pelo contrário. Eu sofro bastante. Mas é impossível para mim calar minha mente, minha forma de pensar. Isso tudo que eu estou dizendo é para chegar ao assunto capital deste texto: a morte na quarta-feira de cinzas de meu sogro, seu Gercino. Eu havia me levantado nesse dia de chuva um pouco mais tarde, creio que às nove horas, pois havíamos ido a uma festa na casa de um amigo na noite anterior. Sentara-me na varanda e, coisa estranhíssima e sem explicação, colocara alguns álbuns do Chico Buarque gravados em um pen-drive para tentar ouvir. Um de meus grandes amigos aqui gosta muito do Chico Buarque, e eu me esforçava para ao menos perceber alguma fímbria de conteúdo esotérico na obra desse compositor em sinal de respeito a esse amigo. Mas não saberia dizer porque escolhera essa manhã chuvosa, em que poderia está-la preenchendo melhor com Mahler do que com um exercício de atenção relativamente exigente. Ouvi o Saltimbancos, a primeira música, que minha filha gostava, mas pulei toda a narrativa que me parecia sempre empolada e pobremente doutrinária, e passei para o álbum com as únicas duas músicas as quais eu ouvia com prazer genuíno, Construção, as quais eram a música título e Cotidiano. Escutei Cotidiano, e passei para a proeza manciniana de Construção. Uma música realmente fabulosa, mas que naquela hora me fez pensar para quem era dirigida; se eu estivesse na classe econômica dos personagens e dos eventos dessas músicas, me passou o pesar de que provavelmente eu iria querer me deportar desse mundo, cair fora. Eram eventos depressivos demais, de uma realidade tão inescapável que entendi porque a música de Chico Buarque era tão elitizada: o sofrimento era emoldurado em âmbar e vendido como joia fina para alimentar um tipo de aquisição estética de uma turma de abastados, uma forma de beleza sofisticada em que planificava-se a dor em uma forma higienizada que dava a impressão digesta de se apreender um panorama da alma nacional. Ou seja, o meu exercício para gostar de Chico Buarque para agradar a um amigo estava indo ladeira abaixo com esses raciocínios e eu estava entrando mais uma vez no ciclo de conceitos que me fazia desgostar cada vez mais de Chico Buarque. 

Então surge a Dani, minha esposa, que eu não vira que acordara, no meio da música Construção (antes que começasse os extraordinários acompanhamentos de metais), e me entrega o celular dizendo que a mãe dela, dona Maria, queria falar comigo. A Dani bocejando e com os cabelos preguiçosamente desalinhados, preparada para voltar para a cama. Eu faço uma cara de tédio profundo, querendo que isso inutilmente me poupasse de falar com a dona Maria naquela hora da manhã de feriado, mas pego o telefone. A dona Maria sempre que quer falar comigo é sobre problemas ligados à saúde de alguém daquela casa ampla e cheia de vida energicamente tumultuosa em que eles vivem, algo sobre a gripe dos meninos, ou o ataque epilético da filha mais nova, ou às dores nefrálgicas do seu Gercino; algo que eu e a Dani estávamos tão acostumados a ver potencializado ao máximo pela propensão da dona Maria ao drama, que nem levávamos a sério_ e que a dona Maria salientava mais o drama por pedir para falar comigo, com receio de que o que tem para dizer pudesse afetar a estabilidade emocional da Dani. Digo: "Fala dona Maria", na hora em que o cidadão aprisionado em sua esfera de realidade determinista e imutável da música segue passo a passo a inexorável ida para a morte, atrapalhando o trânsito. Não ouço o que a dona Maria responde, devido sua voz sussurrada, e peço, com certa brusquidão, para que ela fale mais alto: "Pode falar mais alto, dona Maria, a Dani não está por perto para ouvir". (A Dani sabe que meu santo não bate com o santo da sua mãe; eu já o disse várias vezes; se há uma pessoa com a qual não consigo ficar cinco minutos perto é a mãe da Dani; sua reverberação, sua maníaca paixão pela tragédia e o crime; seu fanatismo de tabloide pelas matérias policialescas.) Aí ela repete um pouco mais alto, mas ainda com a voz condicionada pela necessidade cênica de imprimir suspense: "O Gercino acabou de ser atropelado, Charlles. Ele estava instalando uma câmera de segurança, atravessou a rua para observar o serviço, e na hora que voltava, um carro em alta velocidade passou por cima dele. Parece que está muito grave. Dá um jeito de contar com cuidado para a Dani". Eu questiono mais alguma ou outra coisa, com a voz descrente de que tenha sido mesmo algo grave, e desligamos a ligação. Conto para a Dani, dizendo "você sabe como é a sua mãe". Ela não esboça reação de medo ou receio, pois sabe como é a mãe. Mas a reação vai surgindo aos poucos, e ela decide ligar para o Fábio, genro do seu Gercino e sócio dele na pequena empresa que montaram de instalação de câmeras de segurança. O Fábio conta que, aparentemente, seu Gercino quebrou os dois braços, mas fora isso, está bem, a caminho do hospital. Vamos ao supermercado, que, como sempre, está aberto mesmo nos feriados, e compramos a carne que falta para a almoço. No caminho de volta o celular da Dani toca e a prima dela pede para falar comigo. Estaciono o carro e desligo o celular após falar, me viro para a Dani e digo com candura, mas de uma vez, que seu Gercino acabara de falecer. A Dani cai em um choro convulsivo. Morreu na contramão atrapalhando o trânsito, me diz a voz daquela criança que colocavam para fora até o tio Pedrinho chegar, agora você pode solipsismar à vontade que Chico Buarque matou seu sogro.

Os arranjos que se seguem são: eu fico em casa com as crianças, e a Dani vai ao enterro, que se realizará na cidade natal do seu Gercino, em uma cidade a 40 quilômetros de onde moramos. O restante da família espera que o IML libere o corpo, e o transportam de Anápolis até a cidade natal. Abraçamos a Dani e repetimos sobre o quanto a amamos, e isso, inesperadamente, tem um alto efeito de fazê-la se acalmar. Eu digo que a amo. O primo dela vem buscá-la já de madrugada. Enquanto as crianças dormem, eu me refugio na biblioteca e não sei por quê, por quais canais de assimilação, pego Ruído Branco, um romance de Don Delillo que comprei há mais de ano e que ainda não o li. É um desses livros do qual não faço nem a mais remota ideia sobre do que seja. Me domina uma enorme descrença cosmogônica, uma enorme falta de predisposição a acalentar pensamentos de que Deus também pode ser irônico, de que a obra Dele é tão milimetricamente rica que o que vemos como sarcasmo não passa de mais uma das circunvoluções de múltiplos significados. Me passa pela cabeça a culpa de que a última vez em que seu Gercino esteve em minha casa eu agi com certo grau de agressividade, pois eu estava estressado e me sentia meio abandonado devido à iminente cirurgia cardíaca pela qual a Dani iria passar. Lembro que eu o respondia com apressada falta de deferência de tal forma que minha intenção fora alcançada e ele sentira. A anterior cirurgia da Dani não havia surtido o efeito esperado e ela teria que passar por uma nova, muito mais agressiva, e isso me deixara bastante amargo com eles, pois, no fundo, no local mais comezinho onde estão minhas cobranças insofismáveis e pragmaticamente imediatas, eu queria que eles estivessem junto a nós e sofressem como nós. Ele sentira essa ofensa, de modos que, meses depois, no hospital, ele fez questão de me deixar descansar de uma semana de insônia e ficar do lado da Dani no hospital pelos últimos três dias. Ele sentado à cadeira dura, e eu deitado na outra cama, em um desmaio de semi-consciência atribulado. Agiu com extremo cavalheirismo, de maneira que eu vi nele o quanto era um ser nobre, o quanto era superiormente abnegado. Estava com câncer metastático há seis anos. O câncer se espalhara de seu único rim conservado após uma cirurgia de emergência para retirar o outro, e atingira fígado e intestinos. O médico havia lhe dado no máximo oito meses de vida. Amargurava-lhe a possibilidade tida por certa de que ele não conheceria nossa filha Júlia, mas ele não só a conhecera, como ela se deliciava de se deitar em seu colo e coçar-lhe a barba branca. Ele a pegava como se ela fosse um objeto de porcelana extremamente sensível, com incrível delicadeza. Se fosse alguém corpulento, eu pensaria que o fazia assim temendo a machucar involuntariamente. 

Sentado na biblioteca, à meia luz, escutando a chuva contínua lá fora, não me era possível evitar pensar que ele era um sobrevivente que sucumbira a uma distração brutal frente a mais estúpida eventualidade. Sua força de vontade em viver driblara intrincados cristais da lógica e arranjara uma fórmula matemática própria que transformara os oito meses em seis anos, e uma súbita falta de concentração, uma súbita falta de tensão e arrefecimento o fez perder os tantos anos que ainda teria pela frente para um acidente espantosamente leve. Talvez o milagre requeresse justamente a leveza para acontecer, e tal morte não fosse mais que um excesso de zelo da sua parte, um excesso de confiança. Lembro que à mesa da sala eu havia dito isso para a Dani: "Como é que seu pai faz uma coisa dessas, trai dessa forma displicente um milagre". Pois todos os médicos pelo qual ele passou jamais acreditariam que ele chegasse ao fim daquele ano em que lhe deram o prognóstico, e agora, em seu humor pueril, em sua espontânea concordância com a potestade das risíveis trivialidades teatrais das reviravoltas dessa comédia de erros, ele sucumbira tal como o bêbado da anedota clássica que não morre de seu vício, mas da intoxicação por uma empada estragada. Que grande merda!

Como acreditar em Deus depois disso?

Conversando por e-mail com um amigo, ele me pergunta se, à maneira de Philip Roth em Operação Shylock, eu também me refugiava na leitura de romances em momentos de tragédias pessoais. Me dou conta de que fiz isso, ao passar boa parte da noite lendo Ruído Branco. Há uma rima nisso; essa reação pode ser uma genética acondicionada de todo leitor, pois os romances alcançados nessa hora sempre, sempre, tem a ver com o que se está passando no mundo de interação dos vivos. Em Ruído Branco há uma droga em desenvolvimento trabalhada por um grupo de cientistas ultra-secretos, chamada Dylar, que promete a cura do medo da morte. É uma cápsula em forma de disco voador coberta por sofisticadas moléculas de polietileno, com um furo minúsculo em uma das extremidades, pelo qual a química do esquecimento da finitude é administrada lentamente, sem efeitos colaterais, através das paredes intestinais. A esposa de Jack, o narrador do livro, é uma das cobaias que se ofereceram para testar o remédio. Jack e sua esposa tem um patológico, um angustiante, medo da morte. Tem tanto medo da morte que suas vidas são vividas em supermercados e na imersão quase completa na sinestesia bruxuleante do ambiente cotidiano sem descanso de cores, sons e movimentos da vida sintética da América moderna. O livro foi publicado em 1984, muito antes pois da vida emigrada para a realidade cibernética da internet, o que pode causar um certo estranhismo ao leitor diante uma privação retrógrada tão veemente, uma falta de premeditação futura para abraçar um lenitivo com cara de mais acertada eficiência. Pois o Dylar não faz o efeito esperado em Babette, a esposa de Jack. Ele a pega parada de frente a janela, com o olhar vazio. Ela tende a esquecer os prosaísmos caseiros mais adquiridos. Aos poucos, baseado nessas reações alienígenas da esposa, Jack vai descobrindo a história do Dylar, de como Babette teve que se sujeitar às mais profundas abjeções (inclusive sexuais) para fazer parte do grupo de testes. Mas Jack tende a compreender a esposa, avaliando seu próprio terror pela morte. Ele sabe que Ivan Illich gritou três dias antes de morrer, e o próprio Tolstói nunca conviveu dignamente com sua morte. Há um amigo de faculdade de Jack, Murray, que, ao saber que Jack traz a possibilidade de um grande tumor causado pela exposição a um elemento altamente radioativo (que levou à evacuação da cidade onde Jack mora, na segunda parte do romance), lhe diz que ele tem que se manter digno, mostrar para a posteridade que aceitou a morte de forma nobre e educada; tem que ser um exemplo para conservar os que ainda tem saúde dentro de seus confortáveis mobiliários de certezas. Antes você do que eu Jack, Murray diz, ao se despedirem, sou seu amigo e como amigo tenho que lhe dizer isso, pois é o que naturalmente todos pensam: antes você do que eu. E Jack sai meio que consolado com essa sinceridade privilegiada de seu amigo.

"Alguns minutos depois, eu já estava na rua. Um garoto corria atrás de uma bola de futebol sobre um gramado público, com os pés virados para o lado. Um outro menino, sentado na grama, arrancava fora as meias, puxando-as pelos calcanhares. Que coisa literária, pensei, irritado. As ruas cheias de detalhes de vida impulsiva enquanto o herói medita sobre mais uma fase de sua agonia. Era um dia de céu parcialmente nublado, com ventos que diminuíam à medida que se aproximava a hora do pôr-do-sol."

Pois meus genes de leitor me conduziram certeiramente a um romance que é uma comédia sobre a morte. Fiquei fascinado por esse Delillo. Ele alimenta nosso próprio medo da morte, e o desconstrói com cenas impagáveis de uma ridicularia que desbasta as pretensões e certeza em quaisquer gêneros sobre nossa condição na existência. Os colegas de Jack, nas hilárias cenas de conversa na sala de espera dos professores universitários, seres altamente eruditos e intelectualizados, proferem um sem número de frases desconexas sobre assuntos soltos no espaço. Diálogos rápidos de um jogo verbal que não diz nada, só trivializa. Primeiras experiências, nomes de filmes. Uns jogam bolas de papéis nos outros. Capítulos do livro se encerram com nomes de marcas industriais: Toyota Celica, Panasonic. O longo exame médico a que Jack se submete se finaliza com uma conversa em que o médico não faz nada além de um xadrez verbal com Jack. Tudo não passa disso, da manutenção do ruído de fundo da existência, da enorme distração que acoberta tudo, da trilha sonora caótica que encobre o único conhecimento que nos faz diferentes dos outros animais: somos os únicos que sabemos que vamos morrer. Não dividimos o potencial divino de um cão em ter o limite lúcido de que vive um um instante perpétuo e infinito. Só as crianças, no livro de Delillo, é que são genuínos e vivem um um estágio de felicidade plena selvagem. Por isso Jack se abstrai observando suas filhas e filhos dormindo à noite, por isso a cômica e bela cena final em que o filho de cinco anos de Jack enfrenta a avenida movimentada montado em seu triciclo. Há uma outra cena histriônica perturbadora em que Jack é acolhido em um hospital de freiras, no bairro alemão de sua cidade. De frente a um enorme quadro em que Kennedy passeia de mãos dadas por um campo celestial com o papa João XXIII, Jack pensa agradecido no bem de existirem ainda freiras e seres dedicados a crenças conservadas pela tradição religiosa, e diz isso à freira. Segue então um diálogo ensandecido em que a freira ri enfurecidamente de Jack por achar que ela acredita em anjos e campos celestiais, enquanto Jack se encolhe de indignação dolorosa pela mulher não representar a esperada fé na transcendência, mesmo a transcendência impossível. Nós apenas cumprimos nosso papel de simular acreditar para que os que não acreditam possam dormir em paz, diz a freira: os descrentes sentem necessidade de que alguém creia.

Pois este livro me adstringiu sobre os eventos da morte de meu sogro. Me fez compreender, ou intuir uma futura e progressiva compreensão sobre esses acontecimentos. Mais tarde, outro dia, sentados à mesa do jantar, eu disse à Dani que talvez essa sucessão de desgraças tenha sido cambiada para a vida da família de seus pais e irmãs através da dona Maria, sua mãe. Eu disse que talvez fosse bom que alguém instruísse à sua mãe para que fosse uma pessoa menos compulsiva por consumo de violência e aberrações policialescas. Há pesquisas científicas que falam sobre o poder da palavra e do pensamento impositivo e positivo. Um certo chinês ou japonês que ficou anos monitorando grupos de testes que xingavam potes de arroz, e outros grupos que, ao mesmo tempo, elogiavam e proferiam palavras gentis para outros potes de arroz. E que o arroz ofendido murchava e se decompunha, e o arroz agraciado pelas palavras emotivas vicejava e ficava mais vistoso. É isso: de dez palavras que sua mãe fala, nove são xingamentos, são ofensivos. Sua mãe é um tacógrafo para palavrões. Eu disse isso tudo. Em minha acepção ralé primária sobre a verdade da vida, eu via a dona Maria como uma bruxa que transformava por forças negativas a vida de quem morava à sua volta, e, injustamente, acabara por acabar com um milagre alcançado.

A Dani então me contou a história de sua mãe. Me lembrei que ela já tentara fazer isso antes, contando fragmentos da história da dona Maria, que eu pouco dava ouvidos por absoluto desinteresse. Passei meia hora ou mais a escutando dessa vez, e se não fosse a ojeriza muito cultivada que sempre tive por sua mãe, eu senti que eu acabaria fazendo uma cena de choro na frente da Dani, o que seria terrível em tais condições. Foi uma das vezes em que a Dani foi mais literalmente lúcida e humana desses anos todos em que a conheço. Ali não estava a Dani de coração bombástico que uma vez me instigara a processar a empresa de ônibus porque, grávida, ela fora a única sensível que se levantara para dar lugar a uma velhinha se sentar. Não estava a Dani passional e avaliativa, mas a Dani que me expressava uma experiência profundamente sedimentada, intocada já por ter dado tudo de si em seu núcleo memorialístico. Algo que fazia parte dela de maneira calma e finalizada, sobre a qual sua voz se harmonizava para passar para mim o quanto aquela aparente tempestuosidade já estava acalentada por seu registro no tempo. Um mérito antigo e sagrado. Uma forma de eternidade. Pareceu-me, naquele momento à mesa, que a Dani me mostrava registros do mesmo nível de valor que os que Faulkner escreveu sobre seus demônios degastados de maldade em seus livros soberbos. A Dani me contou que a mãe da dona Maria morrera no parto. Por não ter mais ninguém, uma vizinha acabou cuidando da dona Maria. Ela não tinha pai, desconheceu sempre o pai. A família que a criou tinha o receio de que aquela intrusa levasse parte da herança. Martirizaram ela a vida inteira. Colocaram-na para lavar o chão e cuidar das velhas e das crianças. Batiam e desprezavam ela todos os dias. Passou fome. Essas coisas todas a Dani falando com aquele tom acima da indignação e da benevolência, além da vingança e das compensações temporais pacientemente à espera. Tratava-se de uma dor legítima demais para ser diluída com derivativos cogitáveis. Daí a dona Maria se engravidou da Dani, e o pai da Dani se escafedeu. A Dani não conhecia seu pai. Continuaram batendo na dona Maria, até que a mãe adotiva dela se enterneceu pela Dani e acabou com aquilo. Mas então, a dona Maria se casou com o seu Gercino. A Dani me disse que o seu Gercino espancava sem dó a dona Maria. Bateu nela certa vez que tiveram que levá-la ao hospital. Aquele homem que pesava 50 quilos, que no atropelamento disseram os jornais ter 70 anos mas que tinha na verdade 55, e que era sempre amável com todos. E que segurava a Júlia com uma delicadeza como se temesse que algum mal involuntário partisse de seu corpo mirrado de avô bondoso. 

domingo, 16 de março de 2014

Ruído Branco


Há quase duas semanas perdemos o pai da Dani. Morreu na quarta-feira de cinzas. Recebi um e-mail de um amigo que me lembrava: "Philip Roth conta em Shylock que sempre mergulhava na leitura de romances em momentos de tragédias pessoais". Eu mergulhei em Ruído Branco, pegando-o a esmo e sem premeditação da estante em que ele esperava há mais de um ano pela leitura. Compreendi muita coisa com esse livro excepcional. Reservei sua leitura para que eu o fosse consumindo aos poucos, de modos que concluí a última página hoje. Vejo que Delillo está com 78 anos. Um livro que fala sobre o medo da morte. De todos os escritores americanos vivos, começo a pensar que ninguém merece mais o Nobel do que Delillo. Amanhã, assim que chegar de meu serviço, por volta das nove da manhã, sentarei-me diante essa máquina e me porei a colocar para fora todas as aflições e incertezas que me tomaram conta nesses dias complexos, e que este romance de Delillo aprofundou ainda mais as cargas de interpretações.

"Na escuridão, o cérebro dispara como uma máquina voraz, a única coisa acordada em todo o universo." (Don Delillo)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O anjo Esmeralda, de Don Delillo



O conto que dá título a esse livro é uma obra-prima; um dos vinte ou dez maiores contos que já li; só ele vale o investimento nesse passeio pela genialidade de Don Delillo (não há outra palavra), por sua apreensão absolutamente original das mínimas nuances do tema. Não saberia por onde começar para mostrar o quanto este conto é antológico: em como ele parte de um coloquialismo recheado de diálogos soberbos e faz o leitor se afundar na cena, como se estivesse lá; em como Delillo trabalha uma ternura subjazente, quase cruel, quase inexistente, e que deixa uma marca no espírito do leitor que, para mim, é eterna; em como o estranhismo dessa narrativa simula dispensar o valor humano individual de tantas personagens em prol de uma frieza que unifica tudo numa impressão de niilismo comunitário passageiro. Há duas freiras que peregrinam pelas zonas mais degradadas da cidade grande, onde moram os miseráveis, os marginais e os famélicos; há um grupo de jovens grafiteiros que dominam rudimentarmente o idioma inglês, e que desenha um anjo nos prédios derruídos e abandonados em homenagem a cada criança assassinada do bairro; e há a menina Esmeralda, de 12 anos, sem pais e sem casa, que se esconde nas ruínas (me lembrou a menina louca da foto de Robert Capa confiscada pelos soldados russos, no A Russian Journal, de John Steinbeck), estuprada e morta e atirada de cima da ponte, e que uma disposição inusitada dos faróis dos caminhões à certa hora do entardecer dá a uma multidão de curiosos que atrapalha o trânsito a certeza de que passa a aparecer por milagre em um outdoor. Tudo é descrito com um realismo hiper-atrofiado, com uma lucidez além da literatura que parece prescindir da presença do escritor_ como se o escritor fosse um canal, um instrumento. Sabemos que Delillo está ali porque hora e outra a velocidade diminui para receber uma sentença lapidada como um diamante de brilho intenso, frases aforísticas típicas de Delillo, frases com esta, "se você sabe que não vale nada, a única maneira de gratificar a sua vaidade é brincar com a morte", tirando isso, tudo é encorporação e mediunidade. É um conto que, à maneira retilínea dos outros oito contos do volume, desconforta, incomoda, angustia, obriga a pensar, obriga a um posicionamento ativo, a uma auto-averiguação. Quem já leu Submundo, o grande romance de Delillo, vai se lembrar desse conto inserido como mais um dos mosaicos do infinito tecido humano lá no capítulo 8.

Delillo é uma presença inclassificável nas letras norte-americanas atuais. Alguns o aproximam a Pynchon, outros tentam assimilá-lo às críticas ácidas de Philip Roth; mas Delillo não se enquadra nem em um modelo nem em outro. Não exito em dizer que Delillo tem a mesma urdidura dos artistas profetas, afetados por uma maneira de ver que enxerga através de portas que só raramente são abertas, artistas como William Blake e Swedenborg. Seus contos assombram por serem escritos de maneira pouco convencional, fugindo da clássica fórmula de terem uma surpresa ou uma justificativa no final. Como disse certo crítico em referência a eles, cada frase conta e é indispensável. Não se enganem os que acharem que mesmo a mais trivial dessas nove peças não contêm um vislumbre quase insustentável da verdade.

A solidão inviolável da mente_ "Eichmann em Jerusalém", de Hannah Arendt



Hannah Arendt, assim como Walter Benjamin, faz parte do gênero raro de pensadores inclassificáveis. Quando tentam fazer um retrato aproximado do que tais pensadores foram, o retrato torna-se capenga, sisudo, frágil ou descomedidamente forte, esquemático, falso, bastante distante da realidade. Mesmo um artista tão capacitado como J. M. Coetzee, ao escrever um ensaio sobre Walter Benjamin, apequena e brutaliza tudo o que Benjamin tinha de riqueza interpretativa e capacidade infinita de ver além das coisas. Assim é com Arendt, quando tentam dramatizar sua vida em um filme: a urbanidade cotidiana é alçada a um primeiro plano e o universo que se abria no gabinete da autora, em seus papéis de altíssima qualidade estética e investigativa da alma, se torna mero adorno, mero acidente colateral das paixões de cama e curiosidades de jornal que são os propósitos únicos dos grandes veículos de entretenimento em massa. É um tanto histriônico pensar que, com o eventual sucesso do filme, Hannah Arendt possa fazer parte dos twitter e facebook e redes sociais como um novo ícone de consumo para uma juvenilidade descolada e pretensamente culta, posicionando-a no mesmo nível de qualquer outra figura do show-business; seria de se perguntar se a linguagem cifrada do ciber espaço consegue perceber a ironia autofágica de aclamar como modelo venerável de lucidez uma autora que cunhou o conceito de alienação e dos seguidores marciais de clichês da metade final do século passado, que elevou a expressão da mente humana a um patamar de clareza e percepção de zonas sutis da verdade pouco alcançado nos milênios da escrita, e que por isso, para um entendedor medianamente arguto, é um tanto absurdo que ela seja consumida por essa gente que escreve em caracteres limitados e palavras mutiladas e que ela seria a primeira a classificá-la, como bem o fez quanto a seus antecessores de gênero em seu livro sobre o totalitarismo, como a ralé. Nada é mais avesso a Arendt do que a tentativa da sua reprodução padronizada, à lá Marilyn Monroe de várias cores de Warhol, do que sua assentada no gosto do senso comum da geração mais propícia à aquiescência descerebrada do domínio totalitário surgida depois da segunda guerra, como o é a geração de amigos e mútuos seguidores da realidade virtual de hoje; seria o equivalente ao Vaticano estampar imagens de Tolstói em camisetas oficiais e exportá-las para a igreja ortodoxa russa, ou alguém abrir uma fundação para a proteção dos leões africanos com o nome de Ernest Hemingway, ou a Nike eleger Stephen Hawking como garoto propaganda para seu novo modelo de tênis. Como o poema de Whitman, a juventude nada tem a ver com Arendt, os domínios de sua linguagem estão inalcançavelmente distantes do bairrismo cool dos que irão comprar seu livro sobre Eichmann e lê-lo talvez só até a metade porque alguém tuitou que ele é o máximo, deu a ele uma carinha amarela de aprovado na classificação junto ao novo vídeo de música lançado na rede. Para se avizinhar da compreensão de Walter Benjamin, tem-se que, ao menos, ler como Benjamin consegue escrever sobre alguém da estatura inclassificável de Proust, Kafka e Baudelaire, entrando em seus mundos, não sentenciando ou dando valorizações, mas aceitando o modo de visão desses artistas no que eles tem de combatividade independente na procura da verdade_ por isso o ensaio de Coetzee é um exemplo de escrita sistematicamente superior vazia e vaidosa, pois pega Benjamin por sua obra mais excêntrica, o Passagens, e faz uma esquematização do fracasso pessoal e das tantas insuficiências de alguém que, em vez disso, tem tantas qualidades esotéricas para oferecer.

É por essa suspeita fundamentada de que Arendt só é alcançável através do que ela escreveu que eu não vi o filme sobre ela lançado ano passado e nem pretendo ver. Me afasto desse tipo de interpretação. Supondo que tal filme tenha, ao menos, uma reavaliação histórica premonitória, no mesmo nível de A fita branca, com aquela apresentação paulatina e assustadora do mal acordando entre os moradores de um povoado alemão instigados a se assimilarem às exigências normativas de uma nova realidade nacional, ainda assim me vem à memória a redução à simples imagem de algo que está além da imagem. Me vem à memória a atriz que interpretou a Rosa Luxemburgo manquejando pela prisão: a vítima martirizada que fica na retina do espectador de cinema como uma coisa já definida, já tornado ela no momento em que sua corporificação se extinguiu no tempo: algo em que esvaiu por completo a transcendência. Faço uma digressão antes de entrar no livro da Arendt: há um conto de Don Delillo que se intitula Baader-Meinhof, na coletânea O anjo Esmeralda. Neste conto, uma moça e um rapaz se conhecem por acaso em uma exposição das pinturas sobre os últimos dias dos participantes do grupo terrorista Baader-Meinhof; de modo vago, eles vão interpretando o que as figuras sobrepostas a fotografias do corpo enforcado da mulher lhes provocam, sobre o aparente sorriso de um dos sentenciados, sobre uma árvore ao fundo que, no entendimento da moça, é o símbolo de que mesmo para o que fizeram há o perdão da sombra da cruz; daí, por uma inércia a que nenhum dos dois impõe resistência, eles vão até o apartamento da moça e, sentados à mesa diante um copo de água com gás com fatias de limão, prosseguem a discussão sobre os quadros, de forma desapaixonada, desconcentrada, com se atendendo a uma exigência protocolar que esperam que eles cumpram. E é reivindicando essa exigência que o rapaz tenta estuprar a moça, alegando que se eles estavam ali sozinhos, eles tinham que, necessariamente, perfazerem os mesmos passos da intuição do ato social firmada quando um homem e uma mulher estão em um apartamento silencioso, gastando conversa fiada como precondição do coito. A moça se refugia no banheiro; o rapaz, aparentemente, se masturba no quarto e, cumprido deste modo os movimentos da relojoaria, ele se desculpa através da porta e vai embora. No outro dia, retornando à exposição, a moça encontra o rapaz sozinho, sentado diante uma outra obra do ciclo, "de longe a maior e talvez a mais impressionante, a dos caixões e da cruz, chamada Funeral". Aqui nós temos, através do impressionante olhar visionário de Delillo, todo o diagnóstico da rarefação mental da conduta institucionalizada diante o assombro da história, toda a propensão inexorável que o indivíduo agregado à coletividade tem de filtrar a percepção de uma realidade de camadas e subníveis infinitos para um modo seletivo de entendimento; aqui, Delillo reconstrói a observação de impacto retardatário sobre a banalidade do mal feita por Arendt, retardatário porque intuitivamente sempre sabemos que o mal não é uma entidade, não é um demônio inteligente que conspira contra nossa espécie, lançando crias de cruel determinação e precisão letal, mas circunstâncias acumuladas por um corriqueiro estômago social que vai apascentando todo o contraditório incômodo até que o conforto de uma unanimidade desespiritualizada tome conta e coordene tudo_ mas que, ainda assim, quando nos deparamos com a vocalização de nosso estado de domínio, a reação que temos é de assombro, de vermos-nos como de uma posição alheia alienígena; como se o espírito, retirado do sono por um momento, mostrasse um fibrilar de indignação que comprova a sua existência. Nosso assombro parece confirmar o gene vestigial de que, no final das contas, lá no fundo, ainda temos uma boa visão elogiável sobre nós debaixo dessa escumalha toda de mediocridades e medianismos. Esse assombro é a pauta sobre a qual escreve Delillo em seu conto e Arendt em todos os seus grandes e fundamentais livros. No conto de Delillo, os personagens se veem no desamparo que oferece a exuberância de interpretação dos quadros, diante a qual eles tem que, combativamente, rejeitar para uma aquisição saudável, sanitizada, inofensiva em sua emoção regulada, de forma que não se percam da trilha usual que tem que seguir no ordenamento do mundo. Ambos estão desempregados, ambos são adventistas de um pragmatismo civilizado maturado em parte pelos arroubos de violência de refugos do alinhamento legal como os terroristas do Baader-Meinhof, e ambos se veem diante as possibilidades que essa norma poderia chegar para cobrar deles o sacrifício de sua humanidades em nome da regulação e da manutenção da ordem. A conversa entre os dois comporta a enunciação de seus possíveis planos para o futuro_ possíveis pois eles sempre estão nessa narcolepsia juvenil de viverem apenas no presente, nessa inconsequência de se julgarem inquestionavelmente imortais_, e o rapaz diz que pretende ter um emprego e uma "criaturinha pequena e macia" para criar. Por detrás dessas linhas aparentemente inofensivas, aterrorizantemente comezinhas, vemos a distorção à espera, a dissonância, o ruído surdo por cima dos escombros, as possibilidades nefastas: o quanto a história, assim como o deus bíblico fez com Jó, estaria disposta a testar a eficiência do pedantismo dessas pessoas até um nível extremo, ou não tão extremo visto que elas talvez se vergariam o mais rápido possível. Aqui nos remetemos a Eichmann em Jerusalém: "No entender de Eichmann, ninguém protestou, ninguém se recusou a cooperar. (Dia após dia, as pessoas aqui partem para seu próprio funeral), como disse um observador judeu em Berlin, em 1943".

São notórias as circunstâncias históricas que engendraram e direcionaram a escrita de Eichmann em Jerusalém; tudo o mais fora delas é a mais autêntica liberdade de pensamento e atrevimento por parte de Hannah Arendt. Os fatos são facilmente colhidos em uma pesquisa no Google: uma comitiva de agentes secretos israelense sequestraram Adolf Eichmann de seu esconderijo na Argentina, em 1960; Eichmann era apontado como carrasco nazista responsável pela morte de milhares de judeus durante a Solução Final promovida pelo Terceiro Reich; Eichmann foi julgado por um tribunal montado e mantido em Jerusalém, praticamente à revelia de todas as leis e tratados internacionais; Eichmann é condenado à morte e enforcado por seus crimes contra o povo judeu; a assim chamada filósofa e teórica política Hannah Arendt, já mundialmente conhecida por sua obra sobre as origens do totalitarismo e sua análise sobre a Condição Humana, é enviada pela New Yorker para cobrir passo a passo do processo do julgamento, afim de escrever uma espécie de coleção de peças de jornalismo literário com inédita fundamentação filosófica a serem publicadas paulatinamente pelo periódico. O que Arendt faz, o que não deveria ser em absoluto causa de surpresa por parte de seus contratantes, é o mais fantástico, profundo e pouco laudatório retrato da alienação humana e propensão do indivíduo permeabilizado nas massas em seguir cegamente líderes e doutrinas. Arendt compõe uma obra que não deixa nenhum ídolo em pé, a começar por sua polêmica condenação das atitudes de Israel em passar por cima das leis internacionais com a promoção do crime de sequestro em nome da penalização de um crime de genocídio que os líderes judaicos identificavam não como um crime contra a humanidade, mas como um ataque específico que dava a legitimidade aos judeus para a vingança, não considerando, em um racismo exclusivista que Arendt apontava ser tão descomedido quanto o dos nazistas, os outros povos que sofreram dizimação pelos exércitos de Hitler, como os ciganos, os romenos e outras etnias médio-européias. Para um judeu com certa intimidade com os escritos de Arendt, que uma vez respondeu a um jornalista não ter nenhum apreço pelo povo judeu, mas por amigos judeus, essa visão de seu novo trabalho não deveria ter causado impacto algum: já em Origens do Totalitarismo ela destina várias páginas em reportar a intransponível distância que os judeus ricos impunham entre eles e os judeus pobres, ou nascidos em famílias sem distinção social, assinalando o anti-semitismo que sempre existiu entre os judeus. Para qualquer outro leitor que conhecesse o trabalho da autora, também seria sem razão o choque pela sua honestidade intelectual diante as evidências anteriores de falta total de comprometimento da escritora com órgãos de ofício ou linhas de pensamento estigmatizado: Arendt, judia, era especialista em santo Agostinho e Kierkegaard, tendo escrito um ensaio sobre o pensamento do filósofo católico direcionado ao público protestante, e tendo escrito um belíssimo texto sobre o papa Angelo Giuseppe Roncalli, que bem poderia ter colocado a igreja católica de cabelo em pé ao colocar como título a ironia fina de "Um cristão no trono de São Pedro". A alta cúpula israelita, ao ver que a autora não admitia a cartilha da vitimização e da fácil alcunha de Eichmann como monstro, põe-se imediatamente a retalhá-la na imprensa mundial, cobrando da New Yorker a rejeição e recusa do restante dos textos sobre o julgamento. Como não deixaria de ser, Arendt passa a ser associada ao anti-semitismo e à traição ao povo judeu, o que seria alimentado mais ainda pelas relações mútuas de afeto e admiração entre ela e o filósofo Heidegger, tido como anti-semita aguerrido.

Saul Bellow escreveu que mantinha com Arendt longas conversas informais por restaurantes e bares destinados a escritores, em Nova York, em que Arendt lhe esclarecia tudo sobre a obra de William Faulkner. Sendo admiradora de Faulkner, não é para menos notar que as páginas iniciais de Eichmann em Jerusalém se assemelham no tom recolhido diante o opressor gigantismo ortodoxo dos tribunais às primeiras páginas do romance A Mansão, de Faulkne. Nesta última parte da trilogia dos Snopes, começa com o assassino de Flem Snopes sendo admitido pela corte de julgamento que o sentenciará; a madeira da bancada do juiz, as cadeiras de escoro alto empoeiradas de distinção, as batas dos oficiais da lei e a atmosfera hermética de respeito sagrado se encaixam com a descrição detalhada da sala de julgamento de Eichmann, em que os vários juízes se posicionam uma bancada acima do público, e onde à esquerda deles fica o reservado protegido com vidro reforçado em que o réu, de cara insofismavelmente cordial e disciplinada, espera sentado. Nessas duas obras vemos as motivações mais profundas que levaram ao crime, e aqui se trata da escrita sublime de dois gigantes das letras: Faulkner descrevendo que o mal é consuetudinário, ligado aos deveres do sangue, da família e da honra, que nasce junto ao desbravamento das terras e na construção da sociedade por sobre a selva incorruptível, que é fruto de desrespeitos sucessivos nunca digeridos mas alimentados no silêncio, e que muitas vezes aplaca o alvo que o originou quando este, pela velhice ou por uma calejada e involuntária sabedoria, já por si mesmo se penitenciou da maldade. Arendt conduz essa linha faulkneriana para uma interpretação universal da história, embasando todos os sinais apontados por Faulkner com a raiz unívoca da imensa capacidade humana pela veneração e pelo escamoteamento da verdade. Arendt diz, em seu revelador e desnudo ensaio sobre Heidegger, em Homens em tempos sombrios, que "a tendência ao tirânico pode se constatar nas teorias de quase todos os grandes pensadores (Kant é a grande exceção)". E por isso abjura que a única forma de se manter íntegro e lúcido no confrontamento com o mal é através da solidão inviolável do pensamento, a não-coaptação a nenhuma forma ou modelo ou moda ou tendência, a não aceitação de heróis, a não se ajoelhar diante os ditos grandes e poderosos, mesmos esses tendo o poder intelectual de um Heidegger ou a mansidão de um papa morto prematuramente, ou diante as idiossincrasias auto-protetoras de um povo ressabiado que sempre foi perseguido. Não se envergar diante santidades ou sistemas. O retrato que Arendt faz de Eichmann é sinistramente natural e límpido, esse pai de família exemplar, esse homem que em toda a vida leu apenas dois livros e por isso se via mais capacitado que os demais das facções hitleristas que não haviam lido nenhum, esse homem que, no início, se prontificou a ir contra o extermínio e fez esforços que resultou na salvação de várias vidas de judeus, mas que depois, pelo estado, pelo eufemismo da ordem social, pela visão acabestrada de um destino histórico nacional que só os muito enredados não viam se direcionar para a ruína, se transformou no mais exemplar funcionário do sistema. Eichmann, esse gênio do clichê, esse homem impoluto que nada tinha de monstruoso, esse reflexo preciso de qualquer um de nós quando pressionado pelos nós das forças da manutenção.

"Adolf Eichmann foi para o cadafalso com grande dignidade. Pediu uma garrafa de vinho tinto e bebeu metade dela. Recusou a ajuda do ministro protestante, reverendo William Hull, que se ofereceu para ler a Bíblia com ele: tinha apenas mais duas horas e para viver, e portanto nenhum 'tempo a perder'. Ele transpôs os quarenta metros que separavam sua cela da câmara de execução andando calmo e ereto, com as mãos amarradas nas costas. Quando os guardas amarraram seus tornozelos e joelhos, pediu que afrouxassem as cordas para que pudesse ficar de pé. 'Não preciso disso', declarou quando lhe ofereceram o capuz preto. Estava perfeitamente controlado. Não, mais do que isso: estava completamente ele mesmo. Nada poderia demonstrá-lo mais convincentemente do que a grotesca tolice de suas últimas palavras. Começou dizendo enfaticamente que era um Gottgläubiger, expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era cristão e não acreditava na vida após a morte. E continuou: 'Dentro de pouco tempo, senhores, iremos encontrar-nos de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei'. Diante da morte, encontrou o clichê usado na oratória fúnebre. No cadafalso, sua memória lhe aplicou um último golpe: ele estava 'animado', esqueceu-se que aquele era seu próprio funeral.

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou_ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos." (Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, p. 274, tradução José Rubens Siqueira, Companhia das Letras)

Mais sobre Arendt, aqui.