quinta-feira, 31 de março de 2011

Berman, Brasília, Niemeyer _ e Marc




 Há alguns meses nós frequentadores do blog do Milton Ribeiro, tivemos uma pequena querela por lá. Dividimo-nos entre os que admiram Niemeyer, e os que, trocando em miúdos e sem firulas, o abominam.  Faço parte dessa última categoria. Citei Marshall Berman , o antológico prefácio e o capítulo referente de Tudo que É Sólido Desmancha no ar, e, como assustadoramente parece estar sendo frequente, não agi com muita cortesia ao defender meu ponto de vista (preciso me tratar!). Talvez porque Brasília faça parte dos meus pesadelos, e tudo relacionado a ela, das formas mais materiais às puras abstrações mais horríveis. Eu jamais conseguiria morar lá, assim como quando tenho que visitá-la (uma vez por semestre), o faço o mais rápido possível. É uma representação associada por demais à história monocórdia e inerte do país, carregada por demais de peso metafórico, para que consiga respirar com alívio. O texto abaixo foi recortado da parte final do último de dois artigos do Luiz Schwarcz, publicados no Blog da Companhia das Letras. Vale a pena lê-los na íntegra.

" Berman dialogou com intelectuais como Marilena Chaui, Nicolau Sevcenko, Francisco Foot Hardman, entre outros. As críticas, no entanto, não tardaram a aparecer. Lina Bo Bardi foi uma das primeiras a se manifestar, defendendo Niemeyer. Numa palestra super lotada no auditório da USP, o pensador norte-americano foi aplaudido e apupado, enquanto a arquiteta Regina Meyer, professora da FAU, pedia respeito em relação à obra do grande arquiteto brasileiro, sugerindo que Berman se aprofundasse mais antes de opinar.


Fiquei muito impressionado com a forma com que Marshall falava, sempre de olhos fechados, e com sua expressão sempre triste e soturna. Sua presença física lembrava um hippie dos anos sessenta. Um amigo meu, com ironia, disse que Berman parecia estar voltando a pé de Woodstook. Ele ia a todos os eventos com jeans surrados, sandália franciscana, a mesma camiseta e os cabelos desgrenhados. Trouxera poucas mudas de roupa para o Brasil e pouco se importava com isso. Sua presença, enorme, era antes de mais nada triste. Eu depreendera, a partir da leitura da apresentação de Tudo que é sólido desmancha no ar, que Berman passara por um enorme trauma familiar, mas até então não tivera a coragem de perguntar sobre o assunto.

Aqui no Brasil, e depois em uma longa visita que eu fiz ao escritor em Nova York, Marshall contou-me o seu terrível drama pessoal. Quando Tudo que é solido estava prestes a ser publicado nos Estados Unidos, a então esposa do autor, sofrendo de psicose aguda, atirou Marc, o filho de cinco anos do casal, pela janela, tentando em seguida se suicidar, sem sucesso. Berman se referia a Marc como um anjo. Não chorava ao falar, mas nem era preciso. Seu choro estava presente o tempo todo, ao cerrar os olhos para responder as perguntas do público brasileiro, que o recebeu como um verdadeiro ídolo, e na constante expressão de silêncio que entregava ao mundo. Para Berman, a vida se desmanchara no ar com a morte de Marc."

Parte 1:http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/03/brasilia-se-desmancha-no-ar/

Parte 2:http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/03/marc-o-anjo/

Czeslaw Milosz



Gostaria de antecipadamente esclarecer um mal-entendido. Pessoalmente, não sou a favor da arte subjetiva demais. Minha poesia sempre foi um meio de conferir a mim mesmo. Por meio dela, poderia apurar o limite a partir do qual a falsidade de estilo testemunha a falsidade da posição do artista; tentei não cruzar essa linha. Os anos de guerra me ensinaram que um homem não deve pegar uma caneta meramente para comunicar aos outros o próprio desespero e derrota. Essa é uma comodidade barata demais; leva muito pouco esforço possibilitar ao homem que se orgulhe por ter feito isso. Quem viu como muitos viram uma cidade reduzida a escombros_ quilômetros de ruas nas quais não sobrou nenhum sinal de vida, nem mesmo um gato ou cachorro de rua_ saiu dessa experiência com uma atitude irônica para com as descrições do inferno na própria alma. Um verdadeiro "depósito de lixo" é mais terrível que qualquer cenário imaginário. Quem não viveu em meio ao horror e pânico não pode saber o quão fortemente uma testemunha ou participante protestam contra si mesmos, contra sua própria negligência e egoísmo. A destruição e o sofrimento são a escola do pensamento social.

(Mente Cativa, editora Novo Século, tradução de Dante Nery, p.215)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Azulejos



Não tenho a inteligência funcional que fez ricos alguns integrantes da minha família. Sou um completo estúpido em relações publicas, a ponto de não transmitir muito entusiasmo no cumprimento aos vizinhos. Não sei parar de frente ao portão e ficar alguns minutos na troca de conversa funcional cujo propósito não é o conteúdo do que se diz em si, mas o som da fala preenchendo um tempo contábil de cordialidade para que no natal se tenha o nome lembrado na oração junto à mesa da ceia, ou para ser avisado para prender o cachorro e recolher as crianças no quarto porque um ouriço-cacheiro fora visto passando pela rua, ou para dar o número do telefone à moça de voz anasalada do crediário e ela possa ouvir pelo outro lado que somos gente de boa índole e polidos de qualquer extravagância, nunca tendo sido flagrados andando ao lado do muro olhando os pássaros ou contando as nuvens, ou parando no meio dos gestos marciais vespertinos para falarmos em como Albenondes fez mal em não levar Lucinda para um passeio na carruagem do conde de Wallenberg; enfim tão normais quanto esse homem dócil que certo dia a polícia resolve cavar a terra dos fundos de sua casa e encontra enterrados 37 cadáveres de mulheres que outrora todas tinham os cabelos curtos, na faixa de 27 anos, ascensoristas por temperamento e adeptas do uso de maquiagem facial indelével. Nunca ficarei rico por esses meios e tampouco me elegerei para a Câmara Municipal.

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A impressão de que estava ficando louco me tomava conta quando era mais jovem. Era algo perturbador: eu achava que fosse implodir e uma apreensão da verdade não permitiria mais que eu continuasse vivo. Aos 17 tive uma crise. Dizem que a coisa não vem de uma vez, mas vai se criando. De súbito o tecido estendido ao máximo se parte e tudo nos cai em cima. O cérebro não apaga a coisa com a tarja de Censurado por Questões de Sanidade, como faz com acidentes físicos ( minha mãe nunca se lembra das 17 horas entre o traumatismo craniano e a primeira fase da recuperação); é como se o cérebro quisesse um porta-retrato de sua maturação radical por inteiro, e o cérebro é o cérebro fazer o quê. Estava sentado no banco de uma praça, à noite, o avião que estacionaram no lugar da fonte, em memória a um general esquecido ou a alguma virtude de derrota de guerra, pressagiando a vertigem das superposições significativas, e me veio uma imensa lucidez, um instante em que todos os ornamentos sumiram e só ficara eu e um infinito vazio contra o qual não se erguia nada, dentro do qual nenhuma sombra ou luz se enunciava, uma espécie de plenipotência do átomo que não se deixava questionar ou transcender. Uma iluminação do avesso de que eu era matéria orgânica perecível, e só. Durou, creio, uns cinco minutos, mais eu não aguentaria. Quando foi embora o foi por inteiro, um ruflar de asas em que não sobrara uma pena para mostrar como prova. Só a marca em baixo relevo da lembrança, como a impressão que a radiação extrema desenha no chão, contornando a forma do corpo evaporado.

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Conheci depois uma moça que viveu 7 meses nesse inferno. Era amarrada na cama pelos pais, nos primeiros meses, e monitorada sem trégua obedecendo-se a regra severa de não se deixar nenhum objeto perfurante por perto, nenhum cadarço, comprimidos, trancando-a durante o dia e se sentando ao lado da cama à noite, ouvindo seu respirar de animal ferrenhamente obcecado  pela fuga, seus olhos atentos que apareciam vagarosamente no escuro por sobre o travesseiro, solenemente planejadores. Os pais não aceitavam visitas; a casa, naquele descuido em que se deixa levar pelo desvelo, foi ficando cheia de sombras e silêncio, de forma que as pessoas de fora se questionavam se isso não agravava a situação da enferma, mas os pais sabiam que a depressão dela atingira um nível de auto-gerência tão profundo, que aspectos de fora não lhe significavam nada. Era uma colega de faculdade e uma noite os pais permitiram que nós entrássemos para vê-la, talvez isso lhe fizesse bem, ver os antigos amigos.  Era uma moça realmente linda, com traços exóticos indianos, apesar de não ter nenhum ascendente oriental conhecido. Eu brincara cortejá-la certa vez, mas tornamo-nos mesmo era amigos. Ela estava de camisola, sentada atravessada na cama, com as costas apoiadas contra a parede. Tinha um ar coloquial demais para ser alvo de um experimento psicológico, de maneiras que caímos na leviandade de que nosso humor despudorado conseguiria fazer o que os médico falharam. Ela não era receptiva a nenhuma de nossas brincadeiras, estava além de qualquer contato, não se zangava e não tinha auto-crítica. Utilizando o espaço da fala destinado aos atos sociais de como vai e como foi o seu dia, nos comunicou que iria cortar os pulsos. Isso para ela não tinha nenhuma importância. Ela se recuperou. Casou-se com um fazendeiro. Tem hoje, o que se chama de uma vida normal. Na verdade me pareceu que ela nunca se curara, mas atingira um estágio adaptativo de encenação persistente mas pouco talentoso. Percebia-se a tendência de seus olhos para a dispersão. Seu marido era obtuso o suficiente para achar que uma mulher colada à megalomania financeira era assim mesmo, uma boneca de carne da qual não é cavalheiresco exigir participação efetiva na realidade. Como naquele pesadelo em que o sonhador vai saindo de um quarto para outros infinitos quartos exteriores até chegar ao último que lhe possibilitará acordar incólume, ela parecia ter sido desperta antes de completada a jornada, e ficado confinada numa zona intermediária para sempre.

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A foto mais memorável de Robert Capa, entre as tantas que fez em sua incursão com John Steinbeck à União Soviética, foi apreendida pelos guardas do partido. Mostrava a menina louca de menos de 8 anos que morava sozinha nos escombros de uma rua bombardeada. Acostumara-se a viver como um animal, e em determinadas horas podia ser vista saindo do meio das lajes destruídas, com seu único vestido esfarrapado, seus pés descalços imundos, para pegar o pouco de comida que as pessoas sacrificavam de seus já minguados orçamentos para alimentá-la. Na verdade não era fácil vê-la. Mas a câmera paciente de Capa conseguiu flagrá-la em sua pressa arredia, em suas feições consonantais. A foto se perdeu para sempre. Consigo imaginar seus prováveis ângulos, a luz na qual foi tirada, a plasticidade do cenário em preto-e-branco ao fundo, mas  nunca consegui imaginar a menina. Quando tento, me vem apenas os modelos de Sebastião Salgado, ou uma criança feliz, com ambos os pais, selecionada num teste de estúdio. Uma representação de uma grandiosidade dramática falsa e previsível que sei que ela jamais teve.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee



As Aventuras de Augie March  deveria ter um personagem central menos quedado na idiotia, e uma trama menos dispersa e inofensiva; o relacionamento de Florentino Ariza com a adolescente de 14 anos América, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, carece de uma explicação moral, limitando-se a ser apenas uma apologia truncada da pedofilia (com "ecos arcanos de Lolita"); o escritor moçambicano Mia Couto é influenciado demais pelo realismo mágico"para merecer confiança como cronista do passado do seu país"; Walter Benjamin expressa uma deslocada ingenuidade ao centrar o seu grande tratado de colagens sobre o capitalismo nos grands magasins de Paris e não nas lojas de departamentos de Nova York e Chicago, da mesma forma que Walt Whitman desconhece os rumos contemporâneos da história norte-americana ao cantar o clima fraterno dos artesãos e pequenos proprietários num Estados Unidos em que  uma fase febril do capitalismo industrial acirrava a busca individual pelo lucro.

Essas são algumas observações feitas por Coetzee ao longo de seu mais recente volume de ensaios, lançado  no Brasil pela Companhia das Letras no mês passado com  o título Mecanismos Internos- Ensaios sobre literatura (2000-2005). Sem tocar de imediato no mérito de se concorda ou não com essas opiniões, esses ensaios dão ao leitor ao menos três certezas indiscutíveis sobre o ficcionista:  1. Coetzee explora os autores escolhidos com uma amplitude extrema, demonstrando ter lido não apenas toda a obra, como biografias e traduções principais, com uma acuidade investigativa que se aproxima da vertente acadêmica de um ensaísta que leva muito a sério o seu tema, distanciando-se ou quase não remetendo-se ao Coetzee romancista; 2. Coetzee, ao menos nesses ensaios de sua produção tardia, demonstra grande preocupação com a questão moral do escritor frente a um  mundo fragmentário e absurdo, perspassando a validez da produção intelectual pela capacidade de seu criador em reagir ao meio através da construção de um mundo exilado da bestialidade dos tempos históricos, mas acirradamente conectado à realidade de forma denunciadora e não conivente. (Daí ser representativo que parte dos escritores analisados sofreu a perseguição nazista, muitos destes sucumbindo ao suicídio ou à execução). 3. Como esses ensaios, numa percepção indireta, contribui para uma maior compreensão dos romances de Coetzee.

São 21 ensaios, a maioria publicada na New York Review of Books, que apresentam um Coetzee surpreendentemente diferente para os que só tinham lido, até então, a obra de ficção do autor. Aqui ele está mais prolixo (não palavroso), e um tanto mais caloroso e entusiasta que a voz lacônica e desapaixonada de romances como Desonra e O Mestre de Petersburgo. Pelo menos 7 desses ensaios são fundamentais, não tendo temor em dizer que foram escritos num padrão mesmo superior a de críticos literários de formação, como Harold Bloom e James Wood, mas em todos os outros o autor nos regala com sua inteligência, a elegância da escrita, e uma devoção à literatura que o leitor às vezes se sente culpado por suspeitar se Coetzee não está sendo anacrônico.

Coetzee mostra a sua mestria na composição ensaística ao assinalar que não só ao romance os tempos atuais impõe a necessidade de renovação, mas também aos outros gêneros que derivam do romance, como o ensaio literário, as narrativas de viagem, os mini-textos aforísticos, as memórias. Sua contribuição para o ensaio é mais que substancial, chega a desarmar possíveis debatedores pelo efeito desencorajador de falta de conhecimento suficiente, ou de ter-se que encetar a releitura para captar o que Coetzee demonstra ter passado batido. Coetzee contorna  por todos os lados o texto analisado, a vida do autor, e as opiniões correntes do mundo sobre ele, explora as contradições, as fraquezas, mergulha na direção menos laudatória que a ambiguidade criou, esclarece aspectos históricos sobre o tempo no qual está imergido o autor, que se mostram impactantemente essenciais mas que, contudo, foram desconsiderados pela crítica. A exemplo desse último, no ensaio arrebatador sobre Walt Whitman, Coetzee não cai na repetição da fórmula maçante de relacionar o poeta à democracia e às comunidades alternativas como a dos quackers, mas explora o homoerotismo de Whitman de maneira desassombrada, interagindo com seu talento cenográfico de romancista em mostrar um velho Whitman transitando pelos hospitais de Washington, abraçando os belos soldados à beira da morte e dizendo-lhes palavras de amor fraterno. "Entre 1862 e 1865", escreve Coetzee, "Whitman prestou cuidados a cerca de 100 mil homens." E revela que, a proibição de Folhas da Relva na América de finais do século XIX, se deveu ao erotismo expresso entre homens e mulheres, que ofendeu a classe média puritana, e não às descrições de relações sexuais homem com homem, pois estas últimas, para o pasmo do leitor que pensava que o liberalismo sexual é criação dos anos 1960, era comum e aceita sem nenhum traço de polêmica pela sociedade daquela época.

No ensaio sobre Faulkner, que também é um dos que indicam que Coetzee já teria seu espaço garantido no mundo das letras se tivesse sido apenas ensaísta, vemos o retrato de um escritor misto de um enorme talento  natural destinado a criar algo que nunca havia sido feito antes (uma nova corrente literária), e um aprendiz restringido à leitura de Balzac, Dickens, Conrad, ao Antigo Testamento, Shakespeare e Moby-Dick. Coetzee nos apresenta um Faulkner limitado em sua vida cotidiana a um casamento infeliz, ao alcoolismo degenerador, a uma espécie de desconhecimento espontâneo do mundo tanto geográfico quanto político, que tinha grande apego à alienação para tudo que exorbitasse a estrita região sulista que ele recolheu da realidade para criar seu espaço ficcional próprio no Condado de Yoknapatawpha. Coetzee revela o quanto Faulkner era um homem comum desprovido de graça _que ficava violento a ponto da esposa e filha terem que se esconder de suas inúmeras crises alcoólicas _, quando era convocado a sair de sua zona de precisão para se apresentar a um público pouco convencido de suas ideias políticas desarroadas e suas concepções raciais e escavocratas inconsistentes. Mas como ele foi profundo estudioso da alma humana em seus romances, e o rico cenário por ele erigido dá margem a avaliações políticas que transcendem a obtusidade de faixada.

Aliás esse é um dos pontos principais desses ensaios: a dicotomia entre o homem trivial e o grande criador que se esconde dentro dele. As formas usadas para que esse criador se exteriorize, ainda mais em tempos difíceis e sombrios como foi o século passado, e se mostre, de diversos ângulos contrapontistas, reativo ao caráter eventual que quer lhe abater e restringí-lo ao mero número participativo, ao mero cidadão colaborador. Assim, no também magnífico ensaio sobre Walter Benjamin, Coetzee inicia com uma técnica policial narrando os últimos instantes do escritor, antes que ele tomasse uma dose letal de morfina, ao se ver barrado na sua fuga dos nazistas pela fronteira espanhola. Benjamin levava uma mala desnecessariamente pesada para um fugitivo, e, quando questionado por uma das outras fugitivas o por que não abandonava a mala, ele responde: "Não posso correr o risco de perdê-lo. Precisa ser salvo...É bem mais importante do que eu." E no ensaio sobre Bruno Schulz, o romancista e pintor polonês que, tendo levado uma vida de refugiado atento e em iminente deslocamento, se deixa executar quase por acaso "durante um dia de anarquia promovido pela Gestapo" em Drohobycz, e que repetia na escrita o sinergismo kafkiano de transformar as vítimas da opressão em insetos abomináveis. Esse motivo do escritor que busca um reduto representativo em que possa alimentar uma indeterminada lógica reflexa do mundo que o cerca, também aparece no ensaio sobre os contos de Samuel Beckett, que "era um artista possuído por uma visão da vida sem consolo nem dignidade ou promessa de graça, em face da nosso único dever_ inexplicável e de finalidade fútil, mas ainda assim um dever_ é não mentirmos para nós mesmos."

Esses ensaios, como foi assinalado acima, servem para uma maior compreensão da obra ficcional de Coetzee, principalmente quanto à moral subliminar que vemos em romances como Vida e Época de Michael K., A Idade do Ferro e, de forma mais sutil, em Desonra. Coetzee não se mostra desconfortável ou preocupado em ser acusado de funcionalismo ao exigir, muitas vezes sutilmente, que a literatura seja socialmente enquadrada, positivamente construtiva, ainda mais nas sociedades em que imperam os conflitos étnicos e políticos, como as descritas nos ensaios sobre Nadine Gordimer, V. S. Naipaul, Günter Grass, e, um pouco menos significativo, Garcia Marquez. A inteligência e cognição multitudinária que recheiam estes ensaios realmente sublimes parece dar a Coetzee o álibe de que seja até uma necessidade mais que formal a sua defesa por uma literatura engajada, livre da impunidade da fantasia pela fantasia, inserida nos contextos urgentes da hora; que as parábolas sejam interseccionadas com a denúncia contra a opressão, e as imagens mais distorcidas não sejam meros arroubos artisticos, mas uma exploração dialética do momento.

Essa visão é coerente com toda a obra ficcional de Coetzee, que sempre teve pé no realismo revisionista da culpa histórica do europeu (Desonra); da exclusão econômica dos não-assimiláveis do capitalismo (A Idade do Ferro, Michael K.); da inerente e inconsciente propensão do homem branco ao domínio das "raças" oriundas da mal digerida ruptura colonial (À Espera dos Bárbaros, Homem Lento). Assim, Coetzee não está oferecendo nenhum ingrediente novo ao amparar um dos valores literários na diretriz causa e efeito moral, mas, assim exposto, sem a roupagem ficcional, isso tanto dá novas opções de debate sobre seus romances, como revela que a régua usada por Coetzee ao discriminar algumas obras não é a mais adequada. Se ele repudia_ com toda a elegância e respeito que tem por Bellow_ Augie March, por sua "idiotia" em não ter uma estatura de esclarecimento reacionário ao momento histórico de múltiplas transformações em que os E.U.A. passavam na metade do século XX, e se ele condena o famoso capítulo 16 desse romance por ser uma gratuita e desnecessária narrativa sobre adestramento de uma águia, demonstra que, apesar do enorme talento perceptivo artístico que tem, lhe escapa muito facilmente os propósitos que Bellow destinou a esse romance picaresco. O ensaio sobre Bellow desconsidera, então, um dos mais ricos e grandes romances americanos do século passado, para se ocupar com um outro romance menor e quase esquecido de Bellow, A Vítima, "a poucos centímetros de Billy Budd na primeira fila das novelas americanas", porque este, com sua temática pós-existencialista em que um bancário analisa a futilidade de sua vida, cercada por um cotidiano que lhe veda a acepção das grandes ideias da humanidade, condiz mais a um conteúdo formativo.

Da mesma forma, lhe escapa o potencial da prosa sinérgica de Mia Couto, o que soa irônico (ou até discriminativo por outras razões, já que uma simples sentença demonstra que um ensaísta de fôlego ilimitado como Coetzee desconhece a obra de Mia Couto não por preguiça), visto que dedica ao moçambicano apenas uma observação passageira, descartando-o pelo que ele não é: adepto do realismo mágico (p. 334, segundo parágrafo). E também, Coetzee mostra não ter percebido que Walter Benjamin é significativo e original justo por ter composto uma análise do capitalismo a partir dos objetos espúrios e invisíveis, o que lhe assentava mais as lojinhas parisienses e não os shoppings de Manhattan.

Para uma nova análise da obra ficcional de Coetzee, que não será desenvolvida neste texto, surgem as perguntas: o médico que narra a parte final de Michael K. soa mesmo despropositadamente didático, em prejuízo da obra? Na linha de delimitação da moral, que vemos nos ensaios, uma releitura de Desonra o transforma ainda mais em um romance espantoso, de propostas que tanto pode envolver um cristianismo de níveis esotéricos sobre-naturais, quanto um sarcasmo desproporcional.



terça-feira, 15 de março de 2011

Resiliência



Passa-me pela cabeça um misto de perplexidade e a sensação de que a história nos prepara para os  círculos de convolução que, coincidentemente, acontecem no início de cada século (lembrando da gripe espanhola do século passado, etc). Estou re-transitando pelas zonas íntimas do inferno lendo "Mente Cativa", do Czeslaw Milosz, o reencontrar da frase que o poeta polonês ouviu de um colega: "não há nada dentro do homem. Somos vazios." Há relatos ali que amparam esse nosso vazio, ocasionalmente preenchido pela besta. Uma mulher que, assim que é descarregada junto a seu filho em Auschwitz, foge da criança, que corre-lhe atrás   gritando: "mamãe, mamãe, não fuja de mim". Ela percebe que só sobrevivem as solteiras, que as mães e seus filhos são imediatamente executados pelas forças nazistas. Um guarda do campo lhe pega pelos cabelos, lhe atira dentro do caminhão, gritando: "vaca judia desnaturada, fugindo do próprio filho". Depois, o guarda pega a criança de 5 anos e a atira como um saco de batatas junto à mulher, e os mandam para o crematório.
 

Gostaria de compreender o que Tagore escreveu, que é muito difícil matar um homem, que cerca o homem um conjunto de forças vetoriais que o aniquilaria se não fosse uma ordem harmônica imprecisa que equilibra as coisas. Mas Tagore escreveu isso antes de 1939. Apesar de nós mesmos, de nosso vazio equivocadamente preenchido, e apesar da indiferença da natureza quanto à pequenez de nossos projetos e senso de segurança, de algum modo tocamos as coisas pra frente. Os japoneses calmamente se solidarizando nas filas de mantimentos, recompondo as peças dos destroços, como no relato de John Hersey, os mutilados de Hiroshima já um dia depois da bomba acreditando que o Japão patriarcal renasceria lentamente da incrível unanimidade de escombros.

É difícil mostrar otimismo numa situação destas, mas as bolsas de valores (que sempre foram os reais indicadores morais) despencaram quanto às ações da energia nuclear, e subiram exponencialmente quanto às ações das outras energias alternativas.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sabres e Utopias, de Mario Vargas Llosa


Certo fetiche pela contradição entre as ações e opiniões do homem que está por detrás do escritor, e a obra escrita do escritor, parece fazer parte das zonas de interesse que o leitor médio nutre em relação à literatura. O leitor médio, que abrange desde o ocasional seduzido pelas listas dos mais vendidos das revistas semanais, até o professor de universidade altamente titularizado, percebe com uma passionalidade cristalina o fino limite  existente entre literatura e as colunas de fofoca. E esse último tipo de leitor médio, que ingressa nas universidades e vai obtendo todo mérito mensurável que os diplomas de  letras douradas conseguem legitimar, é o que mais serve a abranger o fetiche pelo lado das fotos em que tal escritor, às vezes barbado, às vezes de terno social sóbrio ou casaco descolado por sobre camisa de gola aberta, aparece, ao lado de ministros de estado, ditadores, papas, presidentes, altos dignatários do partido, sempre com sorriso do mais concentrado alheiamento quanto ao que os holofotes e os grandes jantares requintados podem trazer de disparidade à raiva, à revolta, e à condenação intelectual a essas situações que  fizeram artisticamente interessantes seus romances, ensaios e contos. É como se o homem por detrás do escritor detivesse, com a prática social obtida pela fama, uma percepção mais realista e adulta do que a verdade política tem a oferecer, que o escritor, afundado em sua solidão onírica e juvenil, não consegue visualizar. E é esse escritor que costuma obter o aval da perpetuidade junto à cátedra universitária estabelecida, pois o leitor médio que se elevou às alturas do doutorado se delicia na mesma medida com a propensão  que tem o homem das letras ao glamor emprestado dos jogadores de futebol e dos cantores de música pop.

Tudo o que foi dito no parágrafo acima adquire uma qualidade sui generis quando se trata da América Latina e, especificamente, do Brasil. Por aqui, o leitor médio universitário, que passaremos a chamar de agora em diante como especialista acadêmico, tem a imensa incapacidade de separar a literatura da política. De forma que mesmo a literatura política, para o especialista acadêmico, tem necessariamente que vir carimbada com o selo de garantia da ortodoxia de esquerda. E, como a esquerda latino-americana é mais uma região temporal estática do que um conjunto de posicionamentos ideológicos quanto à política e ao Capital, o escritor de valor para o especialista acadêmico é aquele que defende acirradamente a canção ouvida com o coração enfebrecido no conteiner do passado em que, facilmente, se distinguia os bons dos maus, os opressores dos oprimidos. Quando se fala romancista de esquerda latino-americano, o especialista acadêmico, que viveu naqueles anos dourados, ou é filho ou neto do portador da experiência, já vê o ícone da sagração à sua frente, uma espécie de velho soldado que retornou glorioso de uma batalha de resgate da alma patriótica e merece a aposentadoria digna da genialidade incontestável. Por isso é compreensível que nada haja de pior e mais desprezível para o especialista acadêmico do que um desses escritores resolver trair o eclesiastismo do passado, a causa e os jargões do discurso de esquerda intensamente solidificados. O escritor ou intelectual ou artista ou ativista político que, por uma ou outra razão, se diz emancipado dos baluaques da tradição esquerdista, é taxado sem piedade e sem nenhum nuance como adepto da ultra-direita, neoliberal reaganiano, cachorro do imperialismo norte-americano, inimigo dos pobres, promotor de todas as mazelas multitudinárias do subdesenvolvimento latino-americano, das crianças famélicas das favelas, às prostitutas das periferias.

O exemplo do escritor esquerdista respeitado é Gabriel Garcia Márquez, que Roberto Bolaño bem definiu a um entrevistador o que o colombiano lhe representava: alguém que gosta muito de ser visto ao lado de ditadores e padres. O exemplo do escritor que deve ser desprezado e relegado mais cedo ao esquecimento, é Mario Vargas Llosa, que, já que citamos Bolaño, era seu escritor hispano-americano preferido. Mas esqueçamos Bolaño. García Márquez há 28 anos que não escreve nada de interessante, porém, sempre que é citado pelas revistas e intelectuais de esquerda, sublinha-se as qualidades geniais da última obra em questão que esse senhor hoje octogenário manda ao prelo. Assim, quando a tradução de sua novela de menor calibre, Memórias de Minhas Putas Tristes, foi lançada por aqui, a Carta Capital, sob a pena de Miguel Sanches Neto, disse com todas as letras que esse livro, que não se sustenta nem mesmo entre a produção mediana do escritor, era "obra prima da literatura universal". Já Llosa, ao ganhar o Nobel do ano passado, recebeu uma série tão pesada de críticas depreciativas, não por uma publicação recente ou algum volume específico, mas por toda a sua obra e, acrescenta-se, por sua figura humana. Aliás, em alguns blogs, a própria humanidade do peruano foi colocada em dúvida. Os mais cordiais comentários sobre o autor de Conversa na Catedral lamentam que alguém que escreve tão bem seja um "monstro moral", que seja o "Céline das letras latino-americanas". Ernani Ssó, num texto re-publicado neste blog, relata o quanto foi penalizado pelos amigos ao ser flagrado relendo Llosa, "o que você está fazendo lendo esse lixo!", uma repreensão tão carregada de carimbo de mácula como se lhe pegassem com um álbum de fotos de pedofilia.

E isso porque Llosa, já no final da década de 1960, renegou a versão marxista-leninista-maoista praticada em diversos países da América Latina. Isso porque Llosa encabeçou uma famosa Carta a Fidel Castro, co-assinada por dezenas de intelectuais (entre eles Juan Rulfo, Jean-Paul Sartre [!!], Alberto Moravia, Jorge Semprum e Italo Calvino), que repudiava as confissões de culpa forjadas por Fidel, e assinadas sob o cano da baioneta por dissidentes do regime cubano, carta que foi o estopim para que Llosa deixasse peremptoriamente os sonhos da esquerda congelada nos cantos de glória temporal, e se tornasse um crítico incansável do quanto esses regimes ditos democráticos e derrubadores de tiranos repaginam as situações de extermínio, censura ideológica, estagnação social e atraso econômico cruentos, que eles pregam terem derrubado dos governos de direita do passado. Esse Llosa que resolveu, durante um longo período de crise ideológica, olhar a fundo e sem eufemismos a classe insurgente de patriarcas populistas dos regimes de esquerda conquistados pelas arma, nos vários países da América Central e do Sul, e ampliar essa visão no embasamento teórico de críticos do marxismo como Jean-François Revel, Isaiah Berlin e Raymond Aron. Esse é, enfim, o escritor maldito da esquerda latino-americana, o pensador taxado com a marca denigritória na testa, o anti-herói da mentalidade formada pelas camisetas do Che e pelos bonés de estrela vermelha, o boneco malhado nas salas de aula dos cursos de letras, onde os líderes do gosto e da assimilação da verdade impõem do alto da cátedra que deva ser diminuído, desprezado, combatido como uma piada de péssimo gosto e fraqueza moral.


E ninguém dessa esquerda se dispõe a ler o compêndio da reviravolta ideológica de Llosa, publicado no Brasil pela editora Objetiva, intitulado Sabres e Utopias, para colocar à prova a real perniciosidade do morto. O volume, uma compilação de ensaios políticos e literários do peruano, selecionados por Carlos Granés, traz, em didática ordem cronológica, o posicionamento de Llosa, desde de um otimismo cauteloso _ nunca exultante_ quando da célebre noite em que Fidel Castro o recebe em seu palacete em Havana,  pouco depois da revolução cubana, junto a uma turma de jornalistas e escritores, para anunciar que nenhum jornal seria fechado ou censurado em Cuba, até a sua virada para o liberalismo em que se alavanca a acusador das ditaduras repressivas de Cuba, Haiti, Peru e Venezuela. Ler Sabres e Utopias é se submeter ao risco de ter que abrir mão do rótulo que anula o problema, e se prestar a entender a história da América Latina por um ângulo em que não se antepõe o filtro ótico da utopia política da esquerda, se vulnerabilizando a descobrir que o Llosa demonizado é, talvez, o pensador mais equilibrado e lúcido da América Latina, o único que se ombreia às formas de reflexão desatreladas dos moldes ideológicos impostos pela correção acadêmica e  vínculo partidário, com outros intelectuais que "dizem a verdade" ao poder (na frase cunhada por Edward Said), em qualquer extremo do prisma político, como Coetzee, Naipaul, Ohram Pamuk (que lhe escreveu um belo ensaio em Outras Cores), Chomsky. Como bem diz Carlos Granés, no prefácio do livro, a sucessão de declarações de Llosa revela o quanto seu interesse é "a luta instintiva pela liberdade", e nenhuma palavra cabe tão bem aqui que "instintiva", pois Llosa mostra nessas 400 páginas o quanto foi guiado por uma observação decantada de veneração dos homens que estavam ou estão à frente das nações latino-americanas.


Cada um desses ensaios tem uma riqueza própria, uma pedra de toque que reafirma o talento de prosador e analista humano de Llosa. No ensaio que abre o volume, O País das Mil Faces, publicado em 1983, Llosa traça um panorama sentimental do Peru, desde Arequipa, sua cidade natal _ confrontando os alicerces mentais do litoral com o centro/periferia_ até Cuzco, dizendo o quanto essa capital do império inca lhe parecia horrivel, e o quanto "já tenha odiado o Peru, esse ódio, como no verso de César Vallejo, foi sempre impregnado de ternura". Llosa utiliza sua memorialística subjetiva da infância para tornar esse ódio terno uma oposição sensível à mazelas morais e políticas do país, indo contra a tradição do subdesenvolvimento de as investir de um caráter sagrado e patriótico. Nega-se a adotar o vínculo espiritual à terra, e assim se anular intelectualmente, e a condena em tudo aquilo que o eco do enquadramento da dominação ideológica afirma ser o dever do amor à bandeira e à co-sanguinidade nacional. Consegue um nível de acidez quase tão apurada nesse ódio quanto Thomas Bernhard em relação à Àustria, e Roberto Bolaño em relação à toda América Latina.


Em um ensaio sobre Omar Torrijos, reconhece o empenho sério desse general carismático em converter o prêmio do canal em benefício da diminuição da desigualdade social do Panamá,  nessa que é a última entrevista dada por Torrijos antes que a sua determinada oposição à dominação norte-americana o levasse à morte. Não era seu tipo de político, Llosa diz, mas o apartidarismo de Torrijos, sua facilidade despreconceituosa de fazer amigos, o permitia angariar o melhor a seu projeto tanto de "Fidel Castro, o Xá, Carlos Andrés Pérez, Jimmy Carter, os sandinistas e Nelson Rockfeller (que o presenteou com dois helicópteros no dia em que o conheceu)".


 Mas a parte mais esclarecedora de Sabres e Utopias, se compõe dos nove ensaios do capítulo 4, intitulado Em Defesa da Democracia e do Liberalismo. Só o ensaio Confissões de um Liberal, já serviria a propôr um diálogo construtivo com quem se opõe às ideias de Llosa. Só esse ensaio já vale o preço do livro _ e olha que a carga de atenção política na verdade esconde os textos deliciosos sobre literatura que o organizador reserva para o capítulo final_, mostrando o quanto a maior parte dos especialistas acadêmicos está despreparada para um eventual debate sério com o autor. Aqui, Llosa expõe com todas as palavras que liberal é um conceito impossível de ser entendido independentemente das tensões geográficas e históricas de cada ponto do conflito político.

"Aqui, nos Estados Unidos", ele escreve, "e em geral no mundo anglo-saxão, a palavra liberal tem conotações de esquerda e se identifica, às vezes, com socialista e radical. Em compensação, na América Latina e na Espanha, onde a palavra liberal nasceu, no século XIX, para designar os rebeldes que lutavam contra as tropas de ocupação napoleônicas, chamam-me de liberal _ ou, o que é mais grave, de neoliberal_ para me demonizar ou para me desqualificar, pois a perversão política de nossa semântica transformou o significado original do vocábulo _ amante da liberdade, pessoa que se levanta contra a opressão_, substituindo-o por conservador e reacionário, ou seja, algo que, na boca de um progressista, significa cúmplice de toda a exploração e das injustiças de que são vítimas os pobres do mundo."


Nas próximas páginas desse ensaio, Llosa desconstrói os aguilhões conceituais que matam a discussão sobre o liberalismo, mostrando-o não só como a opção mais válida para os problemas da democracia de faxada da América Latina, em que restringe a possibilidade da demência dos governos ditatorias, como mostrando também que os países por aqui que estão tendo um verdadeiro progresso político e econômico são os que se desvincularam da praxe dos dogmas da esquerda e abraçaram uma posição francamente reformista e alinhada à política mundial (o que se entende imediatamente como globalização). E o duro é que, mesmo tendo-se várias reservas a se antepôr a Llosa, o que seria a promoção do debate, há pouquíssimos caminhos de argumentação contrária. "Embora a palavra liberal seja um termo negativo que todo latino-americano politicamente correto tem a obrigação de abominar, o fato é que, de algum tempo para cá, ideias e atitudes basicamente liberais começaram também a contaminar tanto à direita quanto à esquerda nesse continente das ilusões perdidas", ele escreve. Mais à frente, lemos:  "Mas esses dois casos (Chaves e Castro) são exceções em um continente no qual, vale a pena destacar, nunca no passado houve tantos governos civis, surgidos de eleições mais ou menos livres, como agora. E há casos interessantes e alentadores, como o de Lula, no Brasil, que, antes de ser eleito presidente, apregoava uma doutrina populista, o nacionalismo econômico e a tradicional hostilidade da esquerda em relação ao mercado, e agora é um aplicador da disciplina fiscal, promotor de investimentos externos, da empresa privada e da globalização". Alguma dessas palavras não se encaixa no retrato da verdade?


Pode-se não concordar com diversas partes do discurso de Llosa, como o autor deste post não concorda _ salientando que nenhum escritor almeja a concordância absoluta_, mas é uma ignorância extrema subjugá-lo por ordens que vem das sumidades ditas sofisticadamente cerebrais da opinião acadêmica especialista. É uma perda que só se volta contra a classe pensante não ouvir o que o Mario Vargas Llosa escreve, e não o que dizem que ele escreve, pois Llosa, apesar de não definir bem a importância da revolta social, envolvendo-a de certa ambiguidade desqualificadora, apesar de não mostrar os possíveis freios de uma democracia futuramente equilibrada na liberdade do liberalismo, ao avanço do império global (seja dos EUA ou de que país da hora fôr), é o intelectual desse continente mais coerente, sagaz, independente e corajoso, o mais abnegado politicamente, sem vínculos partidários ou de outros corpos de ofício. Ao contrário de Garcia Márquez, que se tornou peça de adorno de Fidel Castro (o mesmo Garcia Márquez que escreveu uma das radiografias mais certeiras da ditadura latino-americana, em O Outono do Patriarca), Llosa mantêm a solidão requerida para que o escritor crie, longe dos holofotes que tanto agrada aos especialistas acadêmicos. E foi uma das únicas vozes que antecipou o terror que seu oponente vitorioso, Alberto Fujimori, iria causar ao fechar o congresso e destruir o legislativo, impondo no Peru mais um passo repaginado do caminho lógico que adoça a boca da esquerda diante ditadores sacramentados. Na tradição de conivência e omissão que as letras desse continente possui, só isso já é muito mais que fez Pablo Neruda ao afirmar que não poderia criticar os assassinatos cometidos na União Soviética revelada, por ter amigos no sistema, e Garcia Márquez, ao fazer que não viu o paredón de execução de Fidel Castro aos poetas e escritores que o criticavam.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Odontopediatria aos Cinco Meses!!!

A família na capital para os exames médicos de rotina, e eu sozinho em casa. Mesmo atulhado de trabalho, a saudade é colossal. De novo o Miles e eu, a partir das oito da noite, nos deitamos de frente ao som, para escutarmos uma musiquinha maneira. Ele com um pedaço de osso desidratado, eu com o meu insubstituível Gato Negro do lado. Até sexta, uma bateria de exames pediátricos, que minha desconfiança acredita ser um esquema dos médicos para ganhar uma mensalidade dos pais controlados pelas publicações da Sociedade Brasileira de Pediatria (que preconiza exames detalhados a cada mês, até o primeiro ano de idade).

Inventaram de levar a Júlia ao odontopediatra, agora! Espero que o doutor não recomende o uso de aparelho para os dentes.