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domingo, 10 de julho de 2016

Ricardo Reis



Eu sou um leitor apaixonado de José Saramago. Considero-o um dos maiores e mais inovadores escritores do século XX. O verdadeiro reconhecimento de Saramago está para acontecer; será, quem sabe, daqui uma três décadas, quando o reconhecerão insofismavelmente como um gênio. Mas ele nunca teve motivos para reclamar de sua vida de escritor. Na verdade, no início, havia vários motivos, mas ele não professava esse fado lamuriento que, infelizmente, é tão característico dos escritores brasileiros. Em vez de reclamar do desemprego, da perseguição política, da falta de leitores, características pelas quais o jovem Saramago passara, ele trabalhava. Escrevia continuamente. Enquanto a independência econômica literária não vinha, ele também trabalhava em vários outros ofícios artesanais que lhe garantiam a sobrevivência. Muito semelhante a Saramago é Günter Grass, autor pelo qual da mesma maneira sou apaixonado, e com quem exerceu uma espécie de co-autoria no último livro publicado, postumamente, pelo português. Grass e Saramago, a meu ver, são irmãos literários: escreviam uma prosa absolutamente original, escreviam o que queriam, escreviam contra todas as correntes da escrita comercial, não eram consumíveis e mesmo assim venderam milhões de livros pelo mundo. E nunca reclamavam. E eram escritores não-literários do ponto de vista acadêmico: eram escritores não catedráticos. Escritores que firmaram seus estilos, principalmente, em cima do modelo da tradição oral da narrativa. Eram escritores labutadores, artistas plenos, desses que pouco se importavam com a miséria e com as consequências do seus ofícios alheios aos seus lápis e a seus cadernos de trabalho. Estou por encerrar minha terceira leitura de Anos de cão, de Grass, e, por uma dessas confluências comandadas pelo meu leitor interno, antes de ontem, sem premeditação, peguei o O ano da morte de Ricardo Reis e, quando menos percebi, já estou na metade, também no que equivale à minha terceira leitura desse livro.

Ricardo Reis é uma delícia de livro. Uma das prosas mais envolventes que tenho conhecimento. Identifico o leitor incompleto quando vejo alguém dizendo que Saramago é chato, difícil de ler. Vejo isso com menos raridade que eu esperava, pois Saramago sempre foi best-seller no Brasil_ seus livros atravessam dezenas de reedições e reimpressões. O cara tem humor, sofisticação, ternura, reflexão, aforismos, e a veia do contador de histórias legítimo. É um dos raros escritores completos, para o qual nada falta no campo do virtuosismo exemplar da escrita. E Ricardo Reis, que me perdoem Ensaio sobre a cegueira, Jangada de pedra, O homem duplicado e O evangelho segundo Jesus Cristo, é seu melhor livro. Aquelas primeiras páginas, que falam da chuva torrencial em Lisboa, com o navio que aporta trazendo o exilado Ricardo Reis de volta à sua terra, tenho por mim ser uma das melhores que já li. O romance todo é muito bem escrito; parece um objeto precioso que passou pelo processo de ourivesaria mais detalhado, e ainda assim soa tão espontâneo e tão fluido. E me traz uma enorme felicidade. E também me potencializa ao máximo meu amor pela língua portuguesa: como Saramago faz com que ela soe com toda sua beleza e imprescindibilidade!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mais triste dos tristes escritores


                                                 "A melancolia é a felicidade de se ser triste" (Victor Hugo)


Não há como não ver como uma estupidez com indigerido traço etnocêntrico o pouco caso que Coetzee faz a Mia Couto em seu livro de ensaios Mecanismos internos. Por mais que eu goste de dois ou três romances de Coetzee a ponto de usá-los como recorrentes presentes a amigos, a única frase que ele dedica a Mia Couto, de forma ostensiva e prepotente, alegando que o moçambiquense não era representativo da literatura produzida no continente africano, estraga um tanto a imagem desse prêmio Nobel que é indiscutivelmente um dos maiores autores vivos da língua inglesa, mas que esbraveja a sua carteirinha de esnobismo elitista de autor europeu (mesmo adotado), de aristocrata que tem sua importância medida e aceita sem reservas acima do senso comum mais idiota dos excêntricos e periféricos. Tal atitude, que por ser explicitamente gratuita (já que ele cita o nome de Mia Couto sem nenhum propósito além de sentencia-lo como descartável), é semelhante em sua violência segregacionista a de escritores como Kingsley Amis ao apontar José Saramago em uma reunião de escritores e dizer a um amigo alguma festiva frase sobre a mediocridade de tais pessoas como o português em se tornarem escritores. O que há por detrás de pontos de vista inerciais como estes é algo constrangedoramente simplista: o mero preconceito; o preconceito mais baixo que junta no mesmo cesto de identidade fechada de casta a proeminência financeira de uma nação sobre a outra, o valor comercial de um idioma sobre o outro, até as mesquinharias mais provincianas como aspectos de cor e raça.

O leitor que conheça o potencial de escritores que exorbitam o eixo de glamour intelectual das regiões cosmopolitas vinculadas à riqueza financeira, sabe bem que dificilmente Coetzee deva ter lido Couto. Ainda mais que um dos ensaios de Mecanismos internos fala minuciosamente sobre o pior livro de um escritor que teria tudo para ser enquadrado nas esferas de subdesenvolvimento literário que Coetzee parece atribuir a Couto: o Memórias de minhas putas tristes, do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Coetzee faz uma radiografia pedante sobre esse fraquíssimo livro, para no final dizer o que qualquer leitor menos devotado já tem por certo: é um romance descartável entre a bibliografia em três títulos prodigiosa de GGM. Gastando tanto tempo em um livro constrangedoramente menor de um cultuado autor, e relegando toda a obra com momentos imortais como Terra sonâmbula de outro com uma frase absurdamente derrisória, Coetzee mostra, apesar da sofisticação utilizada na maior parte de seus ensaios, uma visão medíocre, cerceada pelo mais atrasado selo de qualidade senhorial, pela sutileza mais gritante que remete a pensarmos o quanto o autor de uma obra como Desonra sucumbe ao clichê da pior espécie, talvez pela velhice ornamentada com seus importantes prêmios (mas não menos velhice), e sua empáfia diante o que ele pressupõe ser o extremo oposto de si mesmo (ele, um autor africano branco, que escreve uma prosa realista seca, que transita por esferas intelectuais assepsiadas de sentimentalismo, e Mia Couto, um autor africano branco, que escreve uma prosa barroca com cores sinestésica e profundamente poética). E se quisermos sair desse diagnóstico como algo precipitado, basta ver o ensaio no mesmo volume sobre Sándor Marái, em que suas palavras, agora prolixas e diretas, são assim mais pesadas em seu descarte em dizer que Sándor é um péssimo romancista (ele dedica várias páginas em destruir o romance, para já no final, como se estivesse cansado daquilo, empregar seu carimbo definitivo por sobre o autor, dessa vez segregado tanto por sua origem étnica como pelo passar do tempo, como se Coetzee estivesse a dizer que estilos assim já estão ultrapassados, que o que conta é sua linguagem dilapidada de adornos desnecessários).

Pois bem. Essa lembrança de Coetzee me veio hoje ao ler uma resenha do Luís Augusto Farinatti sobre Bolaño, que me fez passar boa parte da tarde desse domingo folheando Os detetives selvagens. Assim como eu, Farinatti teve que passar pelo desgaste que o culto a Bolaño cria em quem quer ler Bolaño, a excessiva exposição do autor chileno. Eu li quase tudo de Bolaño, e há tempos não ouço falar dele. Assim, foi com surpresa que li sobre a iniciação feliz de Farinatti, ele que adora literatura latino-americana e produz bons contos, pois me fez retornar ao Bolaño nessa hora que, percebi com certo espanto, parece que passou o fervor em torno da figura do autor de 2666. Ou eu é que, de tanto me esquecer dele, não ando acompanhando os tantos sites dedicados à sua celebração. Para mim, pois, Bolaño agora atingiu sua plenitude, pode-se_ ou posso_ voltar a ele com a virginalidade de quem o descobre por iniciativa própria, sem os ecos de tantas opiniões translativas. Reli o primeiro capítulo de Os detetives selvagens emocionado, devo confessar. Depois reli as últimas dez páginas, que a mim afiguraram como o melhor desse romance, quando o explorei há seis anos. Eu achei bastante ruim Os detetives selvagens, por uma série de razões que já expus a exaustão. Na verdade a palavra correta é que desgostei-me dele, pois aguardava um escritor extático, e encontrei o mais triste dos tristes escritores. A última página desse romance é belíssima, sublime, estranha e ambiguamente eloquente. Passei muito tempo entendendo o que ela diz, e ela diz muitas coisas de várias maneiras. Mas, como ia dizendo, o livro_ tido por uma legião de pessoas sérias como uma grande obra-prima_ me desgostou porque era triste demais, latino-americano de uma forma sem subterfúgios, pura e intranscedente. Talvez porque na época me causava desespero pertencer ao país mais latino-americano dos latino-americanos, e Bolaño pregasse o dedo em minhas feridas com sua lucidez insensata. E o fato de que o celebravam em todo o canto do mundo como o novo Garcia Marquez, isso me doía ainda mais: era a celebração de tudo que eu via em torno de mim como atraso, a celebração de sua visão já sem redenções do latino-americano. GGM criou uma mitologia própria ao latino-americano, e Bolaño, seu substituto legal, vinha acabar com tudo falando da extrema violência e primitividade, dos jovens poetas predestinados à morte precoce, dos detetives selvagens do título que traziam nessa outorga o sarcasmo de serem detetives sem a possibilidade de desvendarem nada, e selvagens porque eram frágeis demais em seus sonhos, revolucionários obsoletos, poetas de uma era em que o vocabulário não tinha mais a mínima importância. Bolaño, me parecia, era a última concessão dada à expressividade de todo nosso continente, e ele assumia saber disso em sua intenção de sepultar de vez as letras.

Devo admitir hoje, após o post do Farinatti e minhas releituras descansadas de Os detetives selvagens, que só agora eu perdi certo receio contra Bolaño, eu passo a compreendê-lo melhor. Acho que isso tem a ver com meus esforços mais concentrados em escrever um romance, uma tarefa mais madura e auto-combativa (afastando e destruindo uma série de bobeiras aprendidas também pela inércia). O mais triste de todos os tristes escritores é também de um visceralismo só tido em raros companheiros seus de profissão. Após ler o último romance de Martin Amis, por exemplo, a impressão de artificialidade artística, de bater as teclas da máquina com proficiência mas sem muito coração, é algo que vejo impossível em Bolaño. Amis é um escritor muito bem pago, e sua obrigação é vencer o enfado do conforto de viver no extremo mais rico do mundo, cavar uma experiência que ele não tem, e dar vida a essa simulação com todos seus hercúleos esforços retóricos. O mesmo ocorre com McEwan, que há muito não escreve nada que se pareça com a realidade lá de fora de seu gabinete. E Coetzee, o meu amado e festejado Coetzee, já distante de seu auge da palavra, vem construindo suas zonas mentais aprimoradas, suas fábulas complexas kafkianas, e que cansaço benéfico ao final da tarde deve tomar conta de seus olhos míopes que caem por um tempo gratificante por sobre o aveludado tapete por debaixo de seus pés. Essa percepção de cavar a verdade passou pela cabeça do Philip Roth de Entre nós, quando ele confessa a inveja que tem de escritores como Ivan Klíma, que tem todo o provimento de assuntos capitais oferecidos pelas agruras cotidianas de sua pátria política. Tentar escrever tem me dado uma piedade de visão e uma profundidade muito mais reveladora que a passiva aquisição da escrita pela leitura. Um humanismo que me faz rever conceitos imediatos que se colam com uma facilidade parasita e assustadora em minha mente. Uma nova ciência do olhar muito útil nesses nosso tempos em que se prende menores infratores em postes com trancas de bicicleta, e a primeira sensação demanda uma insensível e brutalizada comemoração. Vendo o vídeo de Mia Couto falando sobre o medo_ a sua integridade, a sua segurança, a sua calma e cordial e cavaleiresca presença, a sua seriedade e auto-confiança_, e repassando Bolaño, e lendo Saramago, e Bernardo Carvalho, e na iminência de ler tantos escritores que ficam do lado de fora dessa batalha ignóbil de etnocentrismos, eu penso, feliz, que a tristeza de Bolaño é, em contrapartida, uma alegria libertária da expressão. Isso reforça de uma maneira indizível minha fé na literatura.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sobre um conto de Bernardo Carvalho e um livro de José Saramago



Um dos pesos de consciência que tenho como leitor é jamais conseguir ler de cabo a rabo uma revista. Tentei várias vezes, mas sou incapaz desse exercício severo de disciplina. Sou um leitor bastante indisciplinado e, convenhamos, nessa altura da vida tenho que me resignar com alegria a esse traço irretocável de caráter. Meus amigos leitores da vida real, por ironia do destino, são patologicamente dogmáticos. Estava caminhando com um deles ontem e ele recuou um passo diante o susto ao me ouvir dizer que estava lendo cinco livros de uma vez. "Eu jamais faço isso", ele disse, "pego um livro apenas e vou nele até o final". E tem a questão dos sublinhamentos, que sempre pensei em fazer um texto específico sobre isso; nenhum desses meus amigos sublinham seus livros, enquanto eu risco, sem dó, usando uma régua e uma caneta respeitosas, todas as partes que me tocam e que, se eu não as individualizasse entre as milhares de páginas que tenho na biblioteca, jamais tornaria a rever a maior parte delas, ficariam perdidas para sempre. O que é que faz com que tais amigos não sublinhem seus livros? Um temor de que algum dia tenha que vendê-los? De que, se os emprestar, a pessoa portadora vai se incomodar com os riscos? Pois eu jamais venderei o menor e menos amado de meus livros, assim como raríssimas vezes empresto algum deles (também tenho uma opinião misógina sobre empréstimo de livros; trata-se de uma questão delicadíssima, na qual me vi muitas vezes vilipendiado pelo costume do vulgo em não dispender o mínimo respeito a livros, como se livros fossem sacolas de pão que não exigem melhores tratos do que jogá-los por sobre a mesa e consumi-los dentro de um prazo de validade; não empresto e não tomo emprestado livros, visto que sempre que tomo emprestado sinto a compulsão de adquirir o volume).

Mas esse texto solto e irresponsável de sábado, que escrevo não para o deleite dos esporádicos frequentadores do blog mas para retardar um pouco mais a inglória tarefa que tenho pela frente em limpar sozinho a casa (a patota chega de volta amanhã; qual música ouvir durante a limpeza?, tendente a Crosby, Stills & Nash, ou Crosby, Stills, Nash & Young, e mais um The Jayhawks que se casam bem com o ar chuvoso desse começo de sábado). Então vamos lá. Uma vez me propus enfim a ler toda uma revista Piauí. A começar pelo início_ sempre leio de trás para diante. Mas me detive diante um artigo sobre futebol, o que atrapalhou definitivamente o processo. Eu não leio nada sobre futebol, essa é uma das poucas certezas insofismáveis e bem resolvidas da minha vida.

Ontem me detive novamente diante um conto curto de Bernardo Carvalho, na edição da Piauí desse mês. Leitor sistemático da Piauí, mesmo pulando páginas, sei que há arranjos nessa revista para se fazer de interessante e cool que me causam bastante suspeita. E ver um texto do Bernardo Carvalho, curto, intitulado "Deus é burro?", me fez puxar mais uma vez o laço do cavalo. Não perderia tempo com um texto astucioso, colocado ali por obrigações compulsórias de ambas as partes, do autor e da revista (afinal, para o padrão da Piauí, que publica textos infindáveis, ter um de apenas duas páginas como aquele afirmava sua função de tamponamento de espaço sobrante). Mas eis que começo a lê-lo, o acho a princípio fraco, mas logo, lá pelo final, Bernardo (que é, mesmo na opinião desse insuficiente leitor de literatura brasileira que sou eu, o melhor de nossos autores, disparado) solta aquilo que já foi definido por um importante ficcionista metalinguístico, a "estocada repentina que o autor dá em seu leitor", aquilo que faz os cabelos da nuca arrepiarem e a mensagem ser entregue com catarse satisfatória e imprevisível. E o que ele disse, consubstanciava-se ao romance de Saramago que eu estava lendo, "O homem duplicado". Carvalho, das poucas coisas que li dele, sempre se me mostrou um autor profundo. Ele sempre tem algo para dizer, tocante, relevante, sério. Daí que foi essa fé de meu inconsciente que fez com que eu lesse o conto dele até o fim. O texto é mais uma narrativa em forma de prólogo a uma suposta obra de Blaise Pascal esquecida e recém descoberta pelo papa Francisco. É um exercício temático borgeano, (embora o autor se restrinja a não copiar o estilo de Borges), em que se é mostrado um Pascal de uma terceira fase de revelação mística cujo mote surpreendente é uma definição deísta que aponta para um total ateísmo. Até aqui, um texto bem costurado, sem sarcasmos ou humorzinho fútil de diversão, com um tom que beira coisas contundentes ditas por Dellilo e outros autores. Mas o que me provoca a catarse nada tem a ver com as questões religiosas levantadas. Talvez eu seja mesmo um leitor espantosamente lúcido e excepcional, pois adquiro daquele textinho toda a astúcia que Bernardo parece querer passar, usando a superfície inteligente da questão irrisória da contradição pascaliana. Bernardo está a falar sobre literatura e seus poderes em nossa época de boçalidade virtual, eu penso, mas como muito já foi dito sobre isso, muito se critica sobre a geração facebook e tal, ele, grande escritor que é, utilizou um escorço na escrita, caminhou pela senda muito caminhada para então dobrar por um atalho súbito e não visto; usou o tema da religião para falar sobre o quanto a linguagem vem perdendo seus condimentos históricos, suas nuances e suas riquezas. O Pascal de Bernardo é um Dimitri Karamazóv, um profeta niilista absoluto. Não sou adepto a citações, mas seria um crime se eu não colocasse aqui toda o grandioso coração do conto de Bernardo Carvalho:

"Pascal, nostálgico das suas façanhas de jovem inventor, imagina uma máquina de se expressar que leva os homens a tornar tudo imediatamente público, a começar por suas vidas íntimas, seus sentimentos menos elaborados. Os sentimentos mais egoístas, que antes só eram expressos na esfera privada, porque manifestá-los em público significa comprometer-se (uma vez que esses sentimentos também expõem uma burrice e uma truculência que já não disfarçam o objetivo de destruir tudo o que não estiver a seu serviço e a seu favor), passam a ser proferidos simultaneamente, com orgulho e empáfia, em alto e bom som. A vergonha e o pudor moral foram banidos desse mundo e não fazem mais nenhum sentido na distopia imaginada pelo filósofo. E, como em princípio cada um desses indivíduos, além de exprimir seu interesse incompatível com os interesses dos demais, também fala em nome de Deus e o define de um modo incompatível com os demais, sendo o que todos dizem, ao mesmo tempo, acreditar num único e mesmo Deus absoluto, como hoje dizemos da democracia, fica clara, a um só tempo, não apenas a exigência de uma igreja unificadora de sentido, mas que esse Deus simplesmente não existe nem poderia existir. Nunca."

E aqui entra as dificuldades que eu estava tendo para chegar ao fim de "O homem duplicado", de José Saramago. Trata-se de um dos mais elogiados romances de Saramago, convertido em cinema por um cineasta holywoodiano. Li até a metade com deleite, sentindo o quanto retornar à prosa do autor português era uma alegria. Encomendei-o pela livraria local e veio dois, e um de meus amigos leitores o comprou e marcamos de lê-lo em comunhão para futuras conversas. Mas empaquei na metade para o final. Uma pulga saltou-me para trás da orelha e me lançava mensagens sobre se Saramago ali não estava me enrolando. Se Saramago ali não era mais o grande escritor de romances recolhidos como o magnífico "O ano da morte de Ricardo Reis", mas um comerciante nobeliado que aproveitava da grife que se tornou seu nome para fazer mais uns excelentes trocados. Pois o romance parecia estacado em volta de sua própria cauda. E depois da leitura desse conto de Carvalho, volto com afinco para as páginas do romance de Saramago, já desconfiado do leitor de merda e de pouca fé que eu sou. (Aqui entram elementos subjetivos da leitura: o assustador preconceito de alunos portugueses da Universidade de Coimbra contra estudantes brasileiros, aparecido nos jornais nacionais há poucas semanas, e a troca ainda mais assustadora de xingamentos entre brasileiros e portugueses pela internet devido a isso; e um link que o Matheus me mandou por e-mail de um artigo de jornal português falando sobre o passado de possível comunista truculento de Saramago, quando Saramago era diretor do Jornal de Notícias de Portugal; tais notícias me indispondo sem que eu veja e pondere racionalmente o peso de tais questões, me enquadrando no diagnóstico pouco alentador do conto de Carvalho.)

Leio até o final "O homem duplicado", com ira, tentando enfim tardiamente me inserir nas fileiras dos leitores de correção militar e me ensinar à marra um pouco de ortodoxia. Dispenso os afazeres comprometidos do dia, coloco para tocar as sublimes sonatas para piano executadas por Ronald Brautigam, e me assumo em férias diante o romance de Saramago. E Saramago aqui me surpreende mais uma vez. Se durante a leitura venho medindo forças entre ele e Javier Marías para ver quem é o melhor, Saramago faz aqui o mesmo nível de mestria que Marías faz em "Os enamoramentos". Abandonar Saramago pela metade seria um erro enorme. O homem duplicado é uma obra fechada, seleta, minuciosamente construída, e que só revela seu sentido e coesão quando chegamos às belíssimas últimas páginas, assim como acontece com o romance de Marías. Ali a força da escrita renovada, o acontecimento gratificante da palavra, e uma das formas de levar os melhores genes adiante da humanidade, de confrontar sossegadamente a bestialidade do que jaz lá fora. Tudo o que Saramago ia fazendo que a mim parecia excessiva dedicação aos movimentos cotidianos de seus personagens, não era outra coisa que reafirmar conscientemente em sua arte o papel de individualidade em um mundo em que, nas palavras de Carvalho, força-se para imperar a "burrice e a truculência". Por isso eu, um leitor tão auto-arvoradamente primoroso, deixei escapar por elementos discriminativos vagos e vazios, o que Saramago estava a dizer, deixei que me faltasse a perspectiva certa para apreender o quanto profundamente significantes eram os movimentos de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem do livro, em seu apartamento, em sua sala de aula como professor de história. É muito bom sentir o ensejo e a paixão da literatura legítima em tais exemplos com equívoca e maquiavélica roupagem trivialesca nessas duas obras.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Minha comunhão com José Saramago



Para mim a escrita de Saramago foi uma chapa de ferro medieval, um antigo prédio lisboeta restringido a ser o refúgio da literatura, e a antítese de um velho escritor fracassado que perdeu seu enorme talento. Como a memória emocional dos cheiros, Saramago para mim ficou vinculado de forma inconfundível com esses três aspectos do modo como comecei a me aproximar dele, no começo dos meus vinte anos. Eu ainda não o tinha lido, quando li em algum suplemento literário que ele tomara para si todo um prédio em algum ponto de Lisboa e nele construíra seu local de trabalho: havia uma foto, ou mais certamente eu devo ter imaginado-a, em que tal prédio aparecia, meio em ruínas, incontinente em meio a uma rua onde as demais construções recompunham a linha natural das habituais atividades comerciais humanas, os escritórios de sóbrios e ocupados advogados portugueses, as casas de penhora com algum indivíduo de origem judaica, de monóculo de grau para examinar a fundo a legitimidade dos anéis de ouro de matriarcas decadentes, as tabacarias, as lojas de vestidos usados; absurdo anacronismo em que todo um pequeno prédio de três andares (acho, ou imaginei assim) seja dedicado apenas à atividade da escrita de um só senhor. A foto deveria estar em sépia, para aumentar em mim o impacto de que Saramago definitivamente fazia de sua vida o que queria, inclusive voltar a um estágio no tempo em que podia-se institucionalizar com lucro sua solitária arte intelectual; ou, pensando agora, a foto era de um azul escuro, tempestuoso, que ressaltava os tijolos e o ambiente de recolhimento em histórias onde todas as artimanhas sagradas do classicismo estavam bem urdidas nas mãos de um mestre; um mestre que fazia de Lisboa a sua Londres coberta por um fog, sua Lisboa do início de O ano da morte de Ricardo Reis, que se transformara no cenário da chuva universal, a chuva que eu sempre procuro, intuitivamente, em todos os livros, para me isolar debaixo de um cobertor de frente a uma lareira e me deixar levar pela voz do livro. Essa foi a primeira das apreensões correlativas que tive de Saramago, antes de ler uma linha que ele tivesse escrito.

A segunda impressão me veio quando eu estava em uma praça, em meus 22 anos, junto a uma moça que eu havia namorado por três longos anos e que agora pouco sei dela, a não ser que ainda vive e tem dois filhos crescidos. A tal moça e eu líamos um jornal local, que tinha um pretensioso caderno de cultura que se invalidava com seu tom de independência reverenciosa pela notória coaptação dos editores e da pauta com a propaganda dos governos da ocasião. Era um jornal comprado, diga-se de uma vez, de tal forma que o patrocínio público permitia que fosse entregue de graça em algumas casas e nos ambientes do funcionarismo estadual, embora essa gratuidade falsa seja dessas que no Brasil se prolifera e acaba por sair muito mais caro que se fosse adquirida pelas compras convencionais. Eu o lia esparsamente, com o indispensável ar de zombaria que me dava a idade, enquanto essa minha namorada, tendo descoberto uma entrevista exclusiva de um velho escritor regional, o fazia com diligente seriedade e em voz alta. Nesses três anos de namoro, ela já sabia o suficiente da minha paixão pelos livros, daí aquele rompante de locução em dar som às palavras decantadas do velho escritor que pretendia ser uma forma de carinho. O namoro estava pendurado por um fio desgastado por irrecuperável exaustão _ ela também levava a culpa da mesma idade leviana_, e não seria daquela maneira que ambos conseguiríamos algum retorno de substância: ela me afligindo os ouvidos e eu encenando uma educação de todo incompreensível por faltar em circunstâncias muito mais importantes de que a escutava com zelo. E essa agrura acabou reforçando indiretamente a força do que o escritor falava, ou, mais precisamente, a força do enorme fardo de sua derrota. O escritor se chamava Bernardo Élis, para quem eu nutriria um eterno respeito por três ou quatro contos monumentais se ele tivesse tido uma trombose aos trinta anos, após escrevê-los, ou sofrido um ferimento fatal em alguma briga de bar em uma eventual vida desregrada, que eu nunca soube se ele a tivera, o que não invalidaria a benesse de reconhecimento póstumo da ação da faca do inimigo determinando seu imortal silêncio ao perfurar-lhe a barriga, ou se tivesse partido para um exílio em algum local secreto e nunca desvendado e jamais tornado a escrever ou dado as caras em público novamente; mas como, em vez dessas venturosas possibilidades, ele deu ouvidos ao destino em morrer em uma idade acentuada, oitenta ou noventa anos, não me recordo, e, o pior, aproveitado esses anos todos sobressalentes para, de quebra, escrever uma literatura tão descartável e insossa que chegava a desmentir o mérito desses contos majestosos, eu não lhe reservava senão o leve aceno de indiferença cordial reservado aos símbolos da bandeira e da pátria. Mas o pobre Élis estava com o rabo da porca torcida e carregado de má intenção nesse dia, pois se pôs a uma lamúria e um choreiro do clichê escritor-genial-nunca-reconhecido-e-que-iria-morrer-na-miséria, o que leva ao distante Saramago acima que antes era o motivo desse texto: Élis disse não ter dinheiro nem para completar a coleção de obras de José Saramago.

Essa afirmação caiu como um bloco de cimento em meu coração em suspenso; devo ter pedido para que a ex-namorada, epíteto do qual não sabíamos ainda mas que toda a intuição rumorejava a querer nos revelar esse fato incontornável para um breve futuro (futuro que me traria três meses de intenso sofrimento de dor de cotovelo), pedido a ela, como dizia, para que relesse as tristes palavras de Élis, para confirmar a realidade inglória de que o altivo autor de três dos maiores contos universais havia, enfim, recaído nos escombros do recalque. Ele não tinha dinheiro para completar sua coleção de obras de José Saramago. Havia nisso uma quantidade inumerável de símbolos e interpretações que me impediu de fazer qualquer coisa naquela tarde a não ser me dedicar a desvendá-los. Não era uma simples reclamação. Élis deveria estar, nessa entrevista para um jornal desacreditado, voltando a seus terrenos metafóricos, a suas searas de sentidos subliminares. Na época eu me dedicava a economias hercúleas para comprar os caros livros de Thomas Mann, e a roubar, quando a antena de detecção de perigo me assegurava total incognoscibilidade, um ou outro volume de bibliotecas_ mas daí a achar que uma vida toda de trabalho e dedicação em qualquer ramo das labutas sociais não me acondicionaria ao menos a comprar todos os livros de meu escritor predileto, vigorava uma grande distância. Élis não tinha mesmo condições de entrar em uma livraria, pegar o Evangelho segundo Jesus Cristo ou Todos os nomes, e se dirigir com ele para a moça da caixa registradora, como poderia fazê-lo qualquer cordato funcionário de cartório ou assistente de oftalmologia, ou gerente de vendas ou um simples estudante que nas horas vagas cumpre os serviços de pro-labore em um colégio municipal, e pagar pelo livro?, ou Élis representava propositalmente nessas cruas palavras a imagem do artista mendigo de um conto de Tchécov, em que uma mãe deposita uma moeda na caneca do homem maltrapilho de capote contra mais um inverno rigoroso e, se distanciando, diz ao filho que tal homem era um poeta. Um ser sagrado cuja eterna funcionalidade póstuma confere a obrigatoriedade de ser relegado em vida por todas as instâncias do poder.

Eu nunca consegui desalojar Saramago de Élis, desde então. Em resposta ao pragmatismo impossível e descortês de Élis, passei a comprar tudo de Saramago que me caía em mãos, para provar ao autor de A enxada que mesmo um sub-empregado como eu era na época, ou um semi-desempregado, poderia, com empenho, ter todos os livros do romancista português. O propósito velado, escondido debaixo da ponta do iceberg de meu temor diante uma realidade profissional que me aguardava após os tempos de idílio da faculdade, era que, na hipótese de que eu me lançasse a ser escritor, se meu abandono a mim mesmo seria tão irresponsável a ponto de nunca me assegurar um outro serviço que me desse o que comer. Foi quando iniciei minha jornada pela escrita de Saramago, nos livros de capas de aço fosco publicados pela Companhia das Letras, algumas delas parecendo placas de ferro medieval, quadros misteriosos de lápis lazuli, que acentuavam ainda mais as idiossincrasias tão próprias de Saramago, a sua independência, o seu barroquismo, a sua completa literariedade. Como me enchiam de admiração aqueles primeiros livros de Saramago da Companhia, antes que o Nobel se aproximasse e com tal aproximação e as vendas exponenciais as capas passassem a ser mais aeradas, mais adequadas ao público jovem. Aquelas capas de ferro medieval, góticas, reservadas, meio que sisudas, inapreensíveis, como estampas de catedrais portuguesas do século XIV, casavam milimetricamente com o prédio de Saramago e com a escrita deliciosamente íntima e insolvível de Saramago. Ler o Evangelho em aço tinha um impacto maior, naquele meu quarto de estudante cujos rescaldos da separação de um namoro começavam a se tornar bem pequenos frente às possibilidades da escrita, nas cenas de José crucificado, de Jesus nomeando os nomes futuros de alguns dos tantos queimados pela Inquisição católica, no barco, com alguns de seus discípulos, no meio de uma terrível tempestade. Saramago não me fugiu ao raciocínio sistematizado por todos esses anos do papel do escritor em ser o oposto de Élis, em sua coragem de abandonar seu emprego de jornalista para partir do zero na literatura, no tudo ou nada, ou ganharia o mundo pela escrita ou sabe-se o quê estava lhe reservado, mas nunca reclamar, como se fosse seu o lema de Camilo José Cela, outro José e outro escritor renitente, que escreveu que sua frase de frontispício caseiro era nunca reclamar, mesmo que todas as reservas pareçam cediças diante a fúria do determinismo que investe do lado de lá das comportas do mundo. Saramago escreveu em sua linguagem, que não é perfeita, que espanta, que afasta os incautos, mas que é belíssima em sua sépia e em seu aço medieval. Mais tarde a ilha de Lanzarote seria mais um acréscimo em sua forma ousada de dominar o mundo, que eu vi hoje, deslumbrado ao assistir o documentário José e Pilar, eu que fujo da tela mas que hoje, felizmente, essas imagens frentearam-me inevitavelmente, as pedras e o ar de tormenta da ilha, os céus carregados, a Pilar com os pés descalços descansados sobre as pernas de Saramago, ambos assistindo à meteorologia da tv anunciando furacões para a noite, e ela estendendo o pescoço para olhar pela janela acima deles, do lado de lá balançando-se uma plantinha ornamental, olhando a solidão enriquecedora do deserto confortável onde moram os dois amantes, para estudar as tempestades, como quem olha se o ruído é do carteiro chegando. E esse é um entre tantos retratos fieis de Saramago, o escritor que vivia em uma ilha de tempestades e pedras, o autor da inesquecível história de Blimunda e do padre das máquinas voadoras, do homem duplicado, dos últimos dias de Ricardo Reis em uma dimensão de intensa poesia e verdade que só se conecta com a nossa por levar uma cidade com o mesmo nome de Lisboa; o autor da frase límpida e devastadora: "o homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever".

Foi em 1999 que li Manual de pintura e caligrafia. Subi quatro longos lances de escadas, com um dos pés engessado, para realizar em um momento tardio o vestibular para o curso de história. Tinha o rosto cortado pelos estilhaços do para-brisas do carro acidentado, e um silêncio que me distanciava um pouco de tudo que me apontava ser o prenúncio de um novo começo, o começo de algo. Era um silêncio desejável e que me deixava bastante satisfeito. Eu não apostava que iria passar na prova, pois há muito não revia as matérias que candidatos bem mais jovens estavam bem mais preparados. Na redação, me veio a ideia reflexa do Manual. Nessa obra, o narrador é um retratista que coloca na tela o que os pais de família e empresários tomados por uma romântica necessidade de se modelarem desejam como realce de suas vaidosas características. Em segredo, o pintor faz um quadro de como ele realmente vê tais pessoas, que contudo, obviamente, ele nunca expõe. Escrevi um texto feérico com o mesmo tema, em que um pai refugiado em Berna, imprime para seu filho pequeno um mapa do país onde eles nasceram, que por acaso era o mesmo onde eu nasci, com fotos de frutos regionais e sorrisos e peles bronzeadas, conforme pedido pela professora da escola; mas, reservadamente, imprime para si um outro mapa que jamais mostrará para seu filho, coberto de fotos de crianças miseráveis, de fanáticos religiosos, de assassinatos, de futebol, carnaval e as loucuras de um país insofismável. Por esse momento, senti toda a plenitude do que é o envolvimento na escrita, que decretara a missão de vida para Saramago. Como me repudia a lamúria do fracasso, não seria demais terminar dizendo que a nota máxima nessa redação me fez adquirir a vaga do curso, ainda que não fiz rascunhos do texto e nunca mais tenha notícias dele. Foi meu momento de comunhão com José Saramago.

P.S.: ainda nesse mês, a Companhia das Letras completa em seu catálogo toda a publicação das obras de José Saramago, com os lançamentos de "Levantado do chão" e "Memorial do convento", títulos pelos quais espero para completar minha coleção (tenho o primeiro pela editora portuguesa Caminho, e o segundo pela Bertrand Brasil).