segunda-feira, 30 de maio de 2016

Último ato de impureza




                                                             I've got the spirit, but lose the feeling
                                                                                                           Joy Division

Vocês vão dizer que eu deveria ter usado de maior consideração diante o convite de Lália Mendonça para que eu fizesse parte da reunião para a sua morte. Claro que jamais seria a mesma festa involuntária que a Lália conseguia transformar desde as conversas mais triviais até os encontros mais obscuros de nossa classe de profissionais, quando a sua risada escrachada e sua falta total de boas maneiras colocava tudo a baixo, até o repúdio que eu sentia pelo que sempre achei ser a propensão de Lália  para a pobreza. Mas, alguma vez, olha a ironia da coisa, das vezes em que eu era tocado pelo absurdo de sua falta de respeito aos padrões de fé cotidianos, eu devo ter soltado a frase: “Ah, Lália, tu transformarias até um funeral em uma festa.” Ao que ela, tão encalacrada no presente onde reina o terrível engano da impunidade quanto eu, deve ter emitido outra de suas gargalhadas de matrona colombiana, e concluído com uma de suas frases habituais: “Não estamos aqui somente para viver, Epaminondas?” E agora o cartão branco no formato de uma carta de espadachim em miniatura, com as letras ornadas de dourado, paira em minhas mãos, com aquela rispidez equivocadamente súbita que mal esconde a premeditação do destino em cair do restante de contas para se pagar, propagandas de cosméticos e de canais de TV a cabo, algum ou outro pedido manuscrito ou escrito numa tipografia caseira de mimeógrafo para socorro de um doente, cai na palma da minha mão e não tem como eu não ler com uma espécie de pesar, um pesar seco, vigoroso, que pretenderia, se fôssemos super-homens ou semi-deuses com o domínio do passado, voltar ao tempo até a data em que tudo começou a ruir na vida da Lália, e resgatá-la, resgatá-la de sua pobreza, de sua ingerência aos mais prosaicos artifícios da vida, do câncer que lhe comia e que destinava a última mordida para a sexta-feira de seu convite em que ela tornaria a se apresentar ao mundo, para que então aquele convite não contivesse o absurdo com que uma Lália demente escrevera em palavras cheias da mais vazia alegria.

Por isso digo a vocês que aquilo acabou com o meu dia, o que por si mesmo já era um gesto de consideração ao sofrimento de Lália. Nesses últimos meses _ anos, sejamos precisos_ as coisas não andaram bem para nenhum de nós, intercomunicadores com o Além. Tanto que aquilo que os outros chamam de padrão de vida decente deu uma decaída severa para mim, que tive que me mudar de seis residências ao longo de dois anos, obedecendo a uma linha descídua de quitinetes com vistas para a praça da matriz, um apartamento de dois quartos num bloco em San Diego, e, por final, esse quarto-sala nos fundos de uma pensão familiar remodelada para ser um refúgio provisório para quem não quer dar as caras por algum tempo. O locatário, um homem de uns sessenta anos, com um dos olhos mortos (não me recordo se o direito ou o esquerdo), e uma voz sumida de alguém que teve das suas com drogas pesadas ou foi exposto à violência na infância (os espíritos se negam a voltar aos bons tempos de celebração da fofoca), nem sequer me olhou por mais que o segundo suficiente para saber a quem cobrar se atrasar o aluguel, com sua indiferença alheia que indicava ser um profissional a quem se deveria valorizar aquela espécie própria de resguardo sigiloso. Na desgraça somos todos cordiais, pensei, enquanto arrumava minha mesa redonda do lado mais próximo à janela (para caso os espíritos continuassem renitentes e tivesse que recorrer a uma insinuação teatral com as luzes de fundo), minha penteadeira remodelada, e minhas caixas, de forma a aproveitar da melhor maneira o espaço. Todos iguais, a ponto de não me preocupar mais com os irritantes detalhes das minhas roupas ditas extravagantes. O locatário, nem o rapaz do caminhão de mudanças, fizeram como se importassem com minha calça de sarja com as cores da aurora boreal, e minha camisa de mangas longas sem gola e aberta até quase a meio peito, e nem tão pouco meus cabelos enrolados sem muito empenho numa fita de cetim azul (há quanto tempo não dedico a eles um banho de química revigorante), mas tem sempre aquela eletricidade fagulhar, aquela catalogação rápida de resolver a questão em que lhes aparece pela cabeça “uma bicha”, para encerrar o assunto. Mas o velho locatário em sua perícia de não transparecer que vê nem com o olho bom, não demonstrou qualquer recalque diante meu estranhismo. Talvez seja ingenuidade da minha parte achar que alguém possa ser estranho hoje em dia, e o velho é que tem a verdadeira presença de não se espantar com nada.


No primeiro dia, antes que eu selecionasse pela pequena sacada algum dos rapazes que tivesse a aparência menos conspícua para que saísse distribuindo meu cartão de apresentação, já uma mulher aparece-me batendo à porta. Na verdade o senhor cego que bateu à porta por ela, a título de apresentação, dizendo-me sem lançar a mínima olhada do olho que presta (acho que é o direito) para ver a personificação que eu dera ao ambiente, de que uma tal senhora Genôra ou Gênova, não me atentei bem, pedia para ter uma reunião comigo. Ele disse assim mesmo, com essa pompa deslocada que me dava certa importância de pessoa famosa, a quem precisava de intermediadores para consultar a agenda. Eu ri; olhei-o julgando-o o cara mais simpático do Trópico de Capricórnio para cá e disse, mas claro, senhor, com todo prazer, que a mande entrar. E o locatário abriu a guarda afastando-se para o lado e me apresentando com um sinal a uma velhinha que só poder-se-ia usar esse diminutivo em relação a ela pela caridade natural que alguns bons espíritos têm com as senhoras de mais de setenta anos, porque se tratava de uma mulher que preenchia de fio a pavio o ângulo de luz que vinha da lâmpada do corredor, como não a tinha visto ainda, aparecendo sobre os ombros do locatário, era que eram elas, uma senhora com vestido de chita branca com detalhes funcionalmente floridos destes que as velhas usam há milênios e cuja moda fora reforçada por determinações petencostais, um chalé contra o frio enrodilhando o pescoço, uma mulher, em suma, de bem um metro e oitenta de altura, encurvada para frente de modo a dar apenas um traço vestigial ao pescoço, e os mesmos olhos atônitos que os velhos, principalmente as velhas, possuem, um atonicismo disfarçado, coberto pelo espanto da experiência acumulada com seu homem e os filhos que esses homens lhes engendraram e os netos que indireta mas espoliativamente os filhos de seu homem a fizeram ter. Um horror educado e perfeitamente absorvido pelos atos sociais, a ponto de ser carregado de mérito. Fiz com que ela entrasse, o que ela fez com uma energia e falta de frescura exemplares, sentando-se na cadeira de espaldar à moda vitoriana que tenho para uso dos clientes, e que havia limpado essa tarde por puro costume sanitário e sem qualquer premeditação. Chamava-se Eugânida, e não Gênova ou Geneva, como soara a voz narcoléptica do locatário, e queria por que queria que eu aceitasse uma nota de cinco já de saída, sem explicar por quê. Aceitei-a, não sem alertar que o fazia para agradecer a confiança que ela demonstrava em minha capacidade de ajudá-la. Mas enfim ela pareceu não ter nada dessa confiança, porque precisaria retirá-la dela à força ao longo de outras consultas, o que indicava com mais primor o quanto os ventos da sorte haviam mudado para mim. Li sua mão, disse-lhe que sua áurea estava púrpura com algumas resplandecências rosa em torno, o que indicava estabilidade espiritual e força intelectual. Havia tanto que não me pediam para ler a áurea, área da percepção extra-sensorial que até se encontra obsoleta e sem uso, que estive para recitar a velha cartilha empregada nessas horas e quase disse que o púrpura indicava que ela estava por encontrar um grande amor, uma paixão tórrida e fervorosa. Acho que na verdade cheguei a dizer, tamanha a felicidade que o retorno do dinheiro havia me dado, ao que a senhora soltara um risinho tímido de filme da terceira idade e me olhava como uma garotinha do alto de sua postura de jogadora de basquete enfunada na cadeira. Era uma boa senhora, cordata, educada, mas quase explodindo de vontade de contar alguma coisa, alguma coisa que não era um desabafo, porque seu sorriso faceiro demonstrava isso, mas algo alegre, uma descoberta importante que dava novas cores ao seu dia. Era mais uma fofoca que queria me contar, essa senhora incrivelmente incongruente por ser tão feliz mesmo na solidão sem amigos e parentes que precisa recorrer a um médium profissional para ser ouvida. Deixei-a à vontade para que viesse disposta a jorrar o seu segredo quando quisesse. 

Nesse meio tempo, consultava a carta do arlequim em miniatura sempre que me dava por desocupado. Tomava banhos intensos no banheiro do quarto, que graças aos céus é o benefício do qual ainda estou em condições de não dispensar, evitando as filas dos inquilinos de olhos inchados e gargantas congestionadas nos banheiros do corredor. Esfregava minha pele com a carcaça de uma esponja que trazia na mala, herança de um cliente que me convenceu que o instrumento dado pela natureza era o único realmente capaz de assepciar a pele, querendo com isso como que me exorcizar desses dois anos de penúria e incertezas. Esfregava-me com uma determinação furiosa, falando baixinho que não queria isso mais para mim, que o mundo espiritual e os promotores do lado de lá me deviam uma vida com o mínimo de conforto e estabilidade, tantos trabalhos havia realizado para eles. Deixava a ducha escorrer sem culpa por sobre meu corpo, e ficava olhando num desamparo a sujeira sendo deglutida pelo ralo. E assim, como se ainda que não me retornassem o diálogo mas que não tinham como deixarem de ouvir aquelas minhas súplicas, os espíritos foram me trazendo mais clientes, de todo tipo, num ritmo e quantidade surpreendentes. Ouvia o bater na porta, atravessava do sofá deixando a carta por sobre o console da penteadeira, e abria a sala para alguma moça que queria saber se o homem que amava era o homem certo, ou outra que queria dos espíritos o encantamento para fazer que se apaixonasse por ela o homem já comprometido, ou que lhe voltasse o amor desaparecido, e não eram apenas clientes do sexo feminino ou os viados eventuais que vinham tanto pela precisão dos conselhos do outro mundo quanto só para confirmar o que haviam lhes dito que eu era aquele tipo de viado reservado e estritamente profissional, mas vinham machos com um pouquinho de lapsos educacionais suficientes para considerarem hipóteses menos materialistas, perguntando se iriam ficar ricos, se havia como algum espírito soprar em seus ouvidos (sem que passasse pelos meus) o número que iria dar no sorteio da loteria de sábado.

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Nota: O tema do homossexualismo me fascina. O único conto que enviei para um concurso uma vez tratava sobre isso (este conto, em sua forma completa). Era a semana cultural da faculdade de história na pequena cidade. Fui instigado a entregar uma copia do conto por uma namorada, no departamento da faculdade. No dia da revelação do ganhador, em que se daria os prêmios de dança, teatro, bolo de cenoura mais gostoso (era uma quermesse, não o premio nobel, como se vê), havia apresentações e arquibancadas cheias. Eu estava convicto que eu iria ganhar o prêmio e desde duas semanas me arrependia profundamente de ter cedido à pressão da namorada e daquela vaidadezinha pueril. Tentei reaver o conto na administração, mas a funcionária sorumbática se recusou primeiro por preguiça em procurar preencher papéis de desistência e ver onde a tralha estava, segundo porque percebeu que a coisa parecia importante para mim e queria exercer seu masoquismo de estar em uma posição de dominância. Faltando alguns minutos para a revelação, só esperando que o festival de catira terminasse, eu não aguentava diante a vergonha que estava prestes a passar, e disse à namorada: "Vou dar uma volta por aí e daqui meia hora volto. Desce lá e recebe o prêmio por mim."; "Você não sai daqui nem que a vaca tussa. O mérito é seu; você vai lá, vai receber as palmas, e volta para cá. Simples." Não havia como sair do meio da multidão. Quando o locutor falou "e agora, vamos ao vencedor do prêmio de melhor conto do ano", eu me recolhi entre os ombros e suei frio. Mas a ganhadora foi uma mulher de uns 50 anos, que fazia letras, tinha escrito uma espécie de crônica sobre o quanto a família abençoada por deus prosperava em todos os sentidos, e subiu a paliçada com um cara de sono tétrico, pegou o trofeuzinho sem rir e foi comer uma maçã do amor junto aos filhos. Nunca achei a cópia do conto.

domingo, 22 de maio de 2016

Em busca de Camus



Um livro que fala que a felicidade é o objetivo do homem, que nega a determinação histórica da morte seja de um único individuo para consolidar as revoluções sociais, não merece a sandice irônica de ter seu autor morrido em um acidente de carro. A morte mais vil, depravada e desonrosa é a de um acidente de carro. Há dois meses acompanhei o velório de um conhecido meu, que teve o corpo atirado 50 metros para fora do carro durante um capotamento. Seguindo bem em frente à traseira do carro da funerária que levava o caixão, eu observava o imenso tamanho do corpo, um gigantismo ridículo que só se mostrava agora por algum cinismo daquela imposição das últimas coisas, uma desproporção eloquente que desconcertava todo mundo que estava ali. Assim que eu vi meu conhecido deitado naquele espaço já sem funcionalidade alguma em seu desconforto, me surpreendi que ele tivesse crescido tanto, se espichado, ganho uma carnalidade impossível de não atrair o olhar por longo tempo e de provocar interjeições de espanto. Eu olhava discretamente em torno para ver a reação das pessoas àquilo, e só pude ver o quanto elas se expressavam nesse sentido quando andávamos os 5 quilômetros até o cemitério. Um casal que estava logo atrás de mim pôs-se a desfiar a torpeza do tratamento da família a meu conhecido, quando este estava vivo. Algumas pessoas próximas choravam, ou simulavam candidamente o choro, o que me compungia a aceitar a frágil sacralidade daquela tradição que no mais e absolutamente era bastante ridícula; mas o que me chamava a atenção era o acirrado histórico que o casal se dispunha a dizer, nitidamente para que todos ali o ouvissem, ali logo atrás de mim. O homem era quem tomava o encargo de narrar as desgraças que o finado suportava provocadas pela indiferença de sua família, e a mulher pontuava nas pausas para puxar o fôlego do monólogo ácidas conclusões que reforçavam ainda mais o quanto a família tinha tido um comportamento negligente. O homem tinha um tom sacerdotal, pensei se tratar de um pastor evangélico; a mulher era uma histérica que surtia o efeito de não ver a hora em que iria extrapolar o limite e alguém ter que retirá-la do féretro. E Camus morreu assim, eu pensava, lembrando das tantas referências nas minhas leituras atuais a O homem revoltado, livro que eu não tinha e desejava muito ler. Aos poucos minha mente foi desentorpecendo do sol, da lentidão anestésica da caminhada, do acúmulo de histrionismo involuntário que pulsava por todas as partes, e eu pude ver que aquele incômodo nonsense do casal em fazer-se de locutor do evento era uma resposta ao absurdo de estarmos ali, seguindo um corpo cujo excesso súbito de materialidade era mais uma zombaria. A hipocrisia do pastor me pareceu menos gratuita ao analisar as coisas por esse prisma: a aleatoriedade nos atirava aquela excrescência a qual não poderíamos negar, à qual envolvíamos com toda série preguiçosa de tradições de pesar falsas e decorativas, e o pastor a devolvia na parte menor lhe cabida ao negar com certa sofisticação que tudo fosse aleatoriedade. Ele, assim como eu, sabia que toda morte por carro era ou um assassinato ou um suicídio. O mais certo a se fazer seria dar uma descarga no corpo, e ele sumisse de uma só vez da frente de nossos olhares. Ficar horas e horas domesticando as tantas coisas angustiantes que o corpo nos conta, para depois nos livramos dele em vagarosas parcelas, era algo que a própria verdade de que nossas vidas eram rápidas demais para perdermos tempo com isso atestava no último grau de ruído vindo do corpo.

Morreu com 27 anos e sua contribuição para a espécie e para a aquisição da piedade divina eram algumas fotos no Facebook de seu rosto com um caro óculos de marca, e camisas coladas nos bíceps sarados, e a admiração efêmera e dispersa de algumas mulheres na caixa de comentários. E Camus? O corpo de Camus teria crescido tanto, em evidente e explícito contraste em mostrar o quanto uma alma tendo existido, teria no momento a pequenez que aspira à total invisibilidade, à total inexistência? Olhando o rosto pétreo de meu conhecido, a fundura maquiada abaixo dos zigomáticos (a senilidade encravada que se desencapsula e sobe à superfície em todo cadáver), seu emborrachamento que transmite ao redor por algum sinal codificado pelos mecanismos evolutivos de sua espécie um prenúncio que transforma toda contestação em eufemização sistematizada, eu não vi o que o herói de Mishima no Pavilhão Dourado vira, aquela certeza de que o espírito existe pelo entendimento paradoxal de que algo tão inerte como o corpo morto sempre seria um desplante à energia anárquica do espírito. Como no conto de Bernhard, Hamsun, os que lavaram o corpo de Camus, que na certa um deles havia lido Camus (um autor bastante popular em sua época), a cabeça do escritor pendente na pia metálica não se sintonizaria com a audácia de que um dia partira dela a prosa cristalina de O homem revoltado. E não que a mensagem tivesse vindo de uma fonte incorpórea_ pensa o leitor hipotético que estivesse retirando os órgãos de Camus, e embalsamando o corpo antes de costurar com rígidos cordões cirúrgicos não mais necessitados de tanta precisão as extremidades fendidas de seu esterno_, mas o que fica nítido de uma maneira mortificante irretocável é que a mensagem veio de um círculo de comunicação vedada inerente à espécie, uma comunicação sempre precária pois nunca consegue sair da batalha contra as eternas conspirações ao entendimento que a própria comunicação cria. Todo o Homem revoltado, assim como toda a criação intelectual humana, não passa dos passos de um primeiro círculo de passos nunca vencido, em sua fanatizada e viciada repetição de luta contra a própria impotência. O quanto o hipotético leitor que passa o pó de arroz nas bochechas do morto, penteia seus cabelos olhando todas as falhas que talvez o acidente provocou ou talvez sempre estiveram abaixo da impostura das fotos que o mostravam tão belo, tão vivo, talvez confunda com amor vê-lo tão frágil, compreender como a nenhum outro leitor fora dado o privilégio daquela suprema compreensão (negada mesmo aos que compraram as edições de luxo ou aos que leram na infância com a lucidez devocional que inspira o escangalhado volume achado no baú de espólios do avô). Compreender a inutilidade do que se convencionou chamar de "produto da genialidade humana", que não passa da dialética pueril do homem consigo mesmo em seu estágio primeiro invencível, cheia de paixões nunca realizadas. Como toda obra humana, O homem revoltado se inflama de altitude dionisíaca de enxergar além mas esgota todo seu poder tendo que seguir a imperiosa maldição de desbastar em suas 400 páginas a luta contra os vícios do entendimento do homem. Tem que colocar tudo em pratos limpos, sanear a tradição, podar as inspirações equivocadas, proteger-se dos erros de interpretação voluntários, desdizer o que de prévia já dizem que a obra diz, a chega ao final com o esgotamento não de todo infeliz do expediente mais uma vez realizado: a de que não comunicou nada, suplantou o conteúdo que nunca estaria ali pelo deleite da batalha continuada da incomunicabilidade humana. Por isso sempre nunca ninguém aprende com o passado, ou com isso que convenciona-se chamar de "produto da genialidade humana", pensa o hipotético leitor que agora costura o terno no corpo de Camus, deixando aberto o grande rasgo das costas que é a praxe morgatória para fazer a roupa caber no emborrachamento do morto, porque ainda estamos na fase evolutiva em que não nos comunicamos, simulamos a comunicação, mesmo em altos graus hierárquicos da pomposidade laureada da comunicação, parece que nos comunicamos e aprendemos e entramos em êxtase com a comunicação e com a impressão de nossos poderes mentais, mas é evidente para nós mesmos o desamparo de nossa total solidão em não comunicarmos. Toda a obra humana é a luta desesperada e impotente contra os vícios e aberrações da nossa incomunicabilidade, o que não produz nada.

Tudo o que eu lia no momento fazia referência a O homem revoltado: Kertész cita a obra em vários de seus livros; Tony Judt dedicou-lhe dois ensaios, sendo um admirador convicto do livro. Não a encontro para comprar em lugar algum, fora do site de sebos em que a edição da Record, que é a melhor tradução para o Brasil, está sendo vendida por 255 reais. Não tenho como pagar esse preço, que no mais é aviltante. Estou por capitular em meu estoicismo, quando lembro que um ex-aluno meu, de quando eu dei aulas de biologia por dois anos no terceiro ano de um colégio particular, o comprara em minha presença, por um sebo virtual, há muito tempo. Telefono para meu amigo Emerson, que é tio desse ex-aluno, e após as solenidades cabíveis pergunto com indisfarçada ânsia se o seu sobrinho estaria disposto a me vender O homem revoltado. Meu amigo Emerson, um sujeito honrado e de grande caráter, faz uma interjeição balançante que parece dizer que "não sei não", supõe que seu sobrinho, um rapaz que almeja a cultura, não estaria propício a se livrar de um Camus dessa envergadura. Compreendo que meu amigo Emerson deva saber do quanto tal livro está sendo cotado nos meios cibernéticos, e concluo que se trata de uma artimanha bastante natural de um colecionador de livros que é despertado pelo interesse de um concorrente. O livro, ele me diz, inclusive está em minha posse, emprestado pelo meu ex-aluno. Despeço-me com a alacridade azeda, também bastante natural entre adversários que se veem sutilmente lançados em combate, e resolvo a agir por mim mesmo. Na sexta-feira pela manhã, vou até o local de trabalho desse meu ex-aluno, o fórum da cidade. Meu ex-aluno, soube então, é o porteiro, ou que nome seja de sua função conquistada por concurso público, em que ele fica de roupas jovialmente formais em uma cabina na entrada do suntuoso prédio do Ministério Público, atendendo diversas exigências judiciais de altas instâncias.

No momento em que chego, está acontecendo um juri. Lembro que tal coisa fora noticiado nas redes sociais, minha esposa havia comentado comigo na mesa do almoço. Há todo o corpo jurídico instalado em um tablado no salão principal, com togas pretas, e um considerável número de parentes das contrapartes e curiosos sentados na plateia. Sento-me ao fundo, atento para quando aparecer esse meu ex-aluno (pergunto, antes, por ele na entrada, e me avisam que "está por aí"). Assim que me sento, pesa-me o grande poder sonífero daquelas ocasiões. No meio da narcolepsia, remoo certo remorso de não ter aproveitado minhas andanças juvenis pela capital, que muito me davam gosto, em visitar essas casas de julgamento durante esses organizados teatros do juri, o que teria me proporcionado momentos de incrível deleite metafísico. Não me escapa o de primeira impressão absurdo diagnóstico de que uma das raízes mais fortes de minhas aptidões intelectuais está nessa atmosfera de tribunais e ambientes fechados vistoriados por potestades investidas de atordoantes funções deístas. Meu amor por Kafka deriva dessa libidinosidade no mais apenas recolhidamente compreendida em momentos de insights de concentração por mim. Uma das profissões que abomino é a de advogado e de qualquer coisa relacionado a essas casas da lei, e talvez essa abominação tenha no fundo uma atração depravada por ter-me escapado do destino delas mas por, como qualquer outro ser sob seu domínio onisciente, a qualquer hora poder me ver recolhido no espeto lepidóptero de suas amostras estéticas da condição humana. 

Quase durmo, ou chego a dormir durante as admirações recíprocas que se fazem o advogado de defesa, a promotora e o juiz, no início da apresentação. Sou despertado pela visão do meu ex-aluno, o dono de Camus, que sai de uma das portas do fundo do tablado e tem seu caminho interrompido por uma série de funcionários que vem lhe confidenciar coisas aparentemente sérias da ortodoxia no ouvido. Ele balança a cabeça e segue adiante, para mais uma vez ser chamado à parte por outro confidenciador, ao que ele pára e equilibra na outra mão o monte de pastas que traz consigo. Soa-me algo imperdoável, e na certa possível de me fazer ser punido por aquela força repreensiva generosa, que eu o interpole também ao ouvido com a proposta destoante: "Tu tens O homem revoltado, de Albert Camus; por ventura gostarias de me vendê-lo por 50 reais?"

Quando imagino isso, a relojoaria centenária que eles executam no tablado entra em uma repentina combustão, com gritarias vindas da jovem promotora e do homenzinho rotundo da defesa. O homenzinho, com óculos negros e papinha balançante, olhinhos que lembram um deputado das caricaturas políticas da década de 1930, com seu terninho que por mais caro que seja tem a incontornável característica de parecer estar sobrando nos ombros e curto nas pernas, de sapatos marcados no couro por esbarrões da vida caseira que denunciam o provincianismo de uma personalidade de Trollope, havia acabado de dizer à promotora que ela agia com torpeza ao trazer fatos do passado do réu, que nada tinham a ver com o caso ora julgado, para assim comprometer a visão das pessoas do juri. A promotora responde imediatamente, com uma fúria que torna incondizente as tentativas de sua vozinha de garotinha com a delicadeza de seu corpo de boneca, grita que o "senhor advogado de defesa" a está desrespeitando profundamente, imputando-lhe mesmo um crime ao chamá-la de torpe. O juiz eleva sua poderosa voz de radialista um tom acima para cobrar ordem aos doutores. Mas eles continuam; parece que a coisa vai degringolar em violência física, ou, o mais provável, que a promotora mande os refestelados policiais militares postados de pernas espichadas no fundo da sala executarem a prisão do advogado de defesa. A plateia dá um pulo de excitação diante aquele desvio inesperado na mesmice do show, e eu me aprumo na cadeira. Aos poucos a exaltação se aplaina, algum ajustador primordial que supervisiona invisível os desnivelamentos da superfície da tradição passa um roldão para voltar a tornar tudo harmonizado. A nova etapa de distração fica por cargo do advogado trollopeano, que ao pintar a vítima da tentativa de assassinato de seu cliente como alguém de péssima conduta social que merecia o que lhe aconteceu, aponta para a mãe da vítima sentada na plateia e diz que a vítima, que nunca trabalhou, apenas ajuda a mãe, que é puta, em seu puteiro. A mulher, uma gorda com uma cara de incrível expressão cênica de mulher demoníaca, de cigana cuja maldade é uma força natural cravada nas rugas que enaltecem a antiguidade carregada de história horripilantes de seu nariz em forma de ancinho, advindo de seus avatares anteriores médio-europeus, não deixa por menos e passa a xingar o advogado com uma voz que corresponde milímetro por milímetro à sua figura. O juiz se ergue num pulo de espanto diante a heresia de interromperem daquela forma ao culto, e manda com veemência de imperador soviético que os policiais defenestrem aquela figura diabólica porta afora o mais rápido possível. Os policiais arremetem contra a mulher, cuja inteligência luciferina sabe que não fora presa mais por questões higiênicas de onde colocar tamanha presença de cabelos tingidos de vermelho e com 130 quilos naquele prédio, e se deixa levar em silêncio, se limitando a olhar com um ódio milenar para o homenzinho de papinha trollopeana. Como há gastos e injustiças de perdas tremendas quando uma mulher com tamanha expressividade não tem seu aproveitamento devido na arte, eu penso.

Por conta dessas intrusões indesejadas do interesse em seu ritual apático, o juiz determina uma pausa. Nesse momento, enquanto tomo um café diante a cantina, em um dos corredores atrás do salão, finalmente encontro meu ex-aluno. Ele me cumprimenta e eu, com um destrambelho que meu lado comercial desperta o alarme de que é coisa ruim para o negócio do livro, sem compostura lhe pergunto sobre O homem revoltado e minha intenção de comprá-lo dele. Ele dá uma resposta tão pronta que parece que havia há muito cogitado da venda, afirmando que sim, me vende, nem fala o preço. Se eu lhe tivesse oferecido dez reais, teria-me vendido. Eu retiro a nota de 50 que vinha trazendo por premeditação no bolso da calça e lhe estendo. Ele a pega e diz se eu não poderia passar na casa de seu tio para completar o negócio com a aquisição do livro, eu respondo feliz que sim, não haveria nenhum problema. No final eu passo pelo salão só para ver que, minutos depois, o réu é condenado a 15 anos de prisão. O jovem abaixa a cabeça, que aliás vinha mantendo abaixada durante todo o julgamento, e ao ouvir o destino imposto pelo sacramentado juiz, é visível o peso que lhe cai em cima. O juiz agradece a audiência, aos doutores, aos estudantes de direito presentes, aos policiais, e passa a proclamar um discurso sobre as injustiças desse país, as desigualdades sociais; diz que estava mês passado em uma conferência de juízes nos Estados Unidos e, perguntando a um juiz americano quantos processos ele tinha em sua mesa para julgar, recebeu a resposta espantosa de que tinha 150 processos; e sabe quanto ele, o juiz ali presente, tinha de processos em sua mesa? 10 mil processos. Um aaahhh! um tanto forçado corre pela plateia, em especial vindo dos estudantes de direito. O juiz continua, com sua belíssima voz de radialista, voz que me faz imaginar que ele já tivesse nascido um senhor, pois era inconcebível que um subordinado de qualquer vertente possuísse tal voz, diz que os males maiores do país vinham da deficiência da educação, o salário dos professores, o fato lamentável de se ter professores e policiais digladiando-se nas ruas. Já passou a minha época em que eu podia, nem que fosse contendo o perigoso frisson fronteiriço da imaginação, interpor ao discurso do juiz as perguntas cabíveis sobre a posição efetiva dele no caminho para a melhoria social. Em vez disso, eu dou as costas, posso sair naquele momento durante a fala do homem, coisa que os estudantes e várias das demais pessoas ali presentes não podem, e saio, indo buscar meu livro do Camus.


Júlia e o Chico



A Júlia adora música. É uma personalidade extremamente musical. Vive executando passos de danças pela casa. Prefere Black Sabbath a Led Zeppelin, o que destoa de mim. Adora música minimalista: declara com franqueza tocante a beleza despertada nela pelas músicas de Steve Reich e Philip Glass. Até bem pouco tempo, assistíamos Powaqqatsi no mínimo duas vezes por semana, logo após 2001_ hoje restringimos para uma vez por mês. Ela adora as sinfonias de Beethoven, os concertos para violino de Mozart assinados pela Anne-Sophie Mutter, as sonatas para flauta de Bach. Quando coloco para tocar alguma música que me toca profundamente, sei que ela surgirá do quarto, escorará o queixo em meu ombro e dirá: que música linda, papai! Ela puxou de mim, como dizem, essa felicidade para a música, essa introspecção acolhedora que torna a solidão a melhor amiga. Por vezes fica sentada diante o quintal de casa, comendo uma fatia de pão, enquanto escuta a música vindo da sala (pois constantemente e quase sem interrupção, estamos a ouvir música), enlevada, e eu lhe pergunto o que essa música lhe traz à cabeça. Suas respostas sempre são surpreendentes e de elevado grau poético. A derradeira vez que me respondeu, ouvindo To the unknow man, do Vangelis, disse lhe vir a cena de crianças brincando em um parque. Antes de ontem, no ciclo de músicas brasileiras que estamos a escutar, ouvimos juntos pela primeira vez Meus caros amigos e Construção, do Chico Buarque. Foi só uma vez. Passeamos à tarde de carro, e ela de ora em ora cantava "O que será, que será", indo bem à frente na letra antes de se perder na emulação não-verbal do ritmo. O banho da noite fazemos sempre juntos, eu a ensaboo e ela me ensaboa de volta e passa shampoo em meus cabelos. Depois ela pede para que eu faça a roda, em que se senta no espaço das minhas pernas fechadas em círculo no chão. Então, para minha surpresa, do nada, ela passa a me perguntar coisas sobre a música Construção, recitando estrofes inteiras com uma correção espantosa. Remete a outra música do álbum ao perguntar como é possível existir beijo de café e beijo de feijão. E o que era aquilo de morrer na contramão atrapalhando o tráfego, e atrapalhando o sábado, que isso não se faz não é papai?, que como era possível que a música criticasse a ação do homem quando o que o homem havia feito era morrer, o que é muito mais sério do que apenas atrapalhar o tráfego. Eu me desmancho de admiração e dou grandes gargalhadas, o que a aflige porque eu demoro a lhe explicar. Minha filha de 5 anos debatendo sobre uma música de um dos maiores compositores do mundo. Então é assim, Chico, eu penso, que eu vou paulatinamente aprendendo a gostar de você?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Lendo Vozes de Tchernóbil

O livro em companhia de "nossa" gatinha vira-lata Bel, que com suas astúcias carinhosas já mora aqui em casa há mais de um ano.


Estou apaixonado por essa autora. Estou lendo avidamente o Vozes de Tchernóbil (mania esse revisionismo de acentos nas palavras russas: antes era Chernobíl, Checóv, Karenina, Karamazóv, agora são outras sonoridades completamente diferentes). Que livro, senhores! Não esperem história acadêmica ali, nem erudição filosófica cartorizada. A profundidade inigualável desse livro está no sentimento humano, na pureza do olhar, o olhar que extravasa a tragédia, a omissão, a política assassina. Neste livro se diz coisas tão espantosas que assustamos por enxergá-las inseridas na trivialidade, como essa: os radioisótopos espalhados pelo acidente permanecerão pelo planeta 200 mil anos, são imortais comparados a nós. Esse livro, para mim, é o alívio gratificante de encontrar uma resposta ao documentário da BBC sobre Tchernóbil que eu assisti há 2 anos, que mostra os generais soviéticos computando todas as vidas perdidas na indiferença acintosa dos monumentos aos heróis: Svetlana restitui a riqueza humana desses assassinados e desses suicidas, nega-lhes a frieza das estatísticas. Um livro que todo mundo deveria ler, imediatamente. O sarcófago, a estrutura de aço construída em torno do reator 4 de Tchernóbil, expiou seu prazo de validade nesse ano, 30 anos depois. Se as chamas tivessem alcançado os outros três reatores, teria sido, literalmente, o fim da humanidade, a nossa extinção. 4 dias depois do acidente, nuvens de Césio-137 e Urânio-235 expelidas em Tchernóbil já estavam na China, na África, e pelos céus de vários países europeus. As narrativas desse livro_ impressiona saber serem colhidas em entrevistas, devido suas altas qualidades literárias_, mostram o quanto devemos nossas vidas ao sofrimento e morte dessas pessoas. É simplesmente um livro sublime e vasto. A Companhia das Letras prometeu publicar toda a bibliografia da autora.

domingo, 15 de maio de 2016

Mikhail Bulgákov, 125 anos de nascimento



Hoje, 15 de maio de 2016, faz 125 anos do nascimento de um dos 5 ou 6 maiores escritores da literatura russa: Mikhail Bulgákov. Quem tem o supremo privilégio de conhecer seja uma pequena parte apenas da literatura russa sabe o que significa estar entre seus maiores criadores. O Mestre e Margarida, a obra icônica de Bulgákov, é uma das maravilhas do gênio humano. Recentemente, em meus sádicos passeios pelo Facebook (cada vez mais escassos, felizmente), vi uma doutora em sei lá o que dizer que nunca teve sua vida mudada por um livro, listando com uma dose de humor que serve a toda intranscendência das genuflexões sociais as exceções de um livro de receitas de bolo e um de Sigmund Freud. Pois a minha vida tem a graça de ser revolucionariamente mudada por uma série de livros desde que comecei a ler, e O Mestre e Margarida faz parte de uma dessas revoluções. A mudança é tão real e profunda que, em uma identificação rápida, me sobra agora somente dizer que fiquei uma pessoa bem mais feliz após a leitura. Sempre que vejo a lombada do meu volume na estante me vem uma brisa de lembranças dos poucos dias irradiados de deleite em que eu passei em sua companhia. Bulgákov é um desses caras para o qual minha casa sempre tem uma cadeira e uma xícara de café quentinho para saudá-lo, e minha reverência muda e agradecida. Em minha casa interior eu o sinto aparecer às vezes; sua música, sua inteligência, sua sabedoria profunda e antiga (seu Cristo tem algumas das constituições humanas e espirituais do Cristo em que acredito, e é uma das mais belas projeções do Cristo na literatura), ora e outra lançam um facho de lucidez em algumas questões capitais da existência. Se eu não estou apto a aproveitar, a culpa é somente minha.

sábado, 14 de maio de 2016

Rotinização do carisma



A paternidade traz essas quebras do costume na minha vida. Minha filha Júlia faz com que seu pai seja mais sociável. Festas infantis, reuniões de escola, e uma até então inusitada situação de parar na rua, de bermuda, com uma sacola de compras na mão para conversar com um "pai de amiguinho". Confesso que no começo eu assustava com minha hipocrisia. Sorria, contava piadas, encorporava a farsesca figura do quarentão gordo de vida arrumada fazendo piadas medianamente cretinas sobre a calvície alheia. Aliás eu tenho essa doença de caráter (que me veio justo agora o alerta de que eu devo parar de adiar avaliá-la), algo semelhante à vontade do cara que tem pânico de altura em querer se lançar da janela do décimo andar: minha misantropia e minha resistência severa por sair de meu refúgio solitário faz com que, quando acontece o inevitável, eu assuma uma personalidade terrivelmente teatral. (Certa vez, no último ano do curso de História, quando eu era solteiro, participei a contra gosto de uma reunião da turma em uma pizzaria, e um espírito sobrenatural de histrionismo histérico fez com que eu dominasse a atenção da mesa por longas horas, de forma que minha sempre atenta auto-vigilância me levava a temer um AVC ou que eu fosse convidado pelo gerente a deixar o estabelecimento, quem sabe naquele momento em que eu disse para a gostosona da turma que ela para mim era como uma irmã, de tal forma que ela poderia se sentar em meu colo sem muitos prejuízos.) No momento de silêncio que segue após essas coisas eu fico observando a Dani pelo canto do olho, à espera de que ela diga algo do tipo "você exagerou dessa vez, não precisava de tanto", mas ela nunca diz nada, ou por gentileza ou porque talvez essa síndrome lhe pareça um constitutivo surpreendentemente novo do meu comportamento. (Certa vez, em uma reunião de pais, eu liderei sem ver um protesto contra a retirada da professora auxiliar das salas, de maneiras que olhei para os lados e vi os cordatos senhores pais, funcionários públicos dizimistas, e as solenes mães, recatadas e do lar, em possessivos estágios de apitos valvulares arteriais movidos pela súbita indignação, e dois dias depois fui chamado, eu e a Dani, até a sala do diretor_ o que me provocou um temor kafkiano de que, em uma conclusão absurda, nós fôssemos expulsos da escola_, e lá, segundo a Dani, eu fui tão diplomático e atento às normas gramaticais que, o diretor e os coordenadores impressionados, deveriam ter se perguntado se se tratava da mesma pessoa que causou a comoção pública de dois dias atrás.)

De maneiras que fizemos um casal de amigos. Ele, o Sérgio; ela, a Luanda. Simpaticíssimos. Deu medo no começo, confesso, pois seus sorrisos me faziam lembrar de O suspeito da Rua Arlington. Uma vez, de novo confesso (com um pouco de vergonha), me escondi no quarto e pedi que a Dani avisasse ao casal à porta que eu não estava. Mas eles são dessas pessoas tão profundamente cordiais que eu sempre suspeito terem uma precognição sobre essas pequenas malvadezas, e que sempre estão divinamente compreensivos dispostos a perdoarem esses pecadilhos triviais. Depois disso, em um domingo, eles aparecem na hora do almoço, trazendo (pasmo!) uma panela cheia de galinhada. Nós o recebemos, consternados diante uma técnica tão surpreendentemente indefensável de forçar a amizade, e o convidamos para o churrasco familiar que estávamos fazendo. Eles se sentam com caras seguras, como embaixadores de uma país culturalmente mais avançado investidos da missão de se representarem bem para um povo obscurecido pela devoção ao próprio umbigo. Olho para a Dani e ela sabe sobre minha deficiência em dialogar sobre vários assuntos (por isso minha fuga para a comédia pastelão e para a canastrice pura), e o meu olhar é o código 3, de que ela vai tomar frente na conversa e eu vou ficar apenas com o lacônico mas infalível "pois é, hahaha. Pois é." O Sérgio é de Pernambuco; a Luanda de Alagoas. Surge o salvador tema das maiores praias do nordeste, e nisso ficamos, com paixão, por todo o almoço. Os sotaques deles são deliciosos, eu poderia ficar ouvindo aquilo de olhos fechados como o som da água, mas não iria pegar bem. Um jeito infantil, como se estivessem sendo dublados. Penso se nosso sotaque goiano, brutal, não estaria caindo mal para eles, mas aí me recordo da benção de que a gagueira me desproveu de todo timbre vocal (certa vez, em uma piscina, fui perguntado por uma moça linda se eu era irlandês, porque "você fala diferente"). Não deu outra: por mais que eu fugisse ou torcesse a cara, tornamo-nos amigos. Ao menos todas as quintas-feiras e sextas-feiras, no parque das feiras onde o filho deles e a Júlia brincam, nossos encontros são fieis. Na festa de aniversário de 5 anos de seu filho, que eu não pude ir (por razões sinceras, dessa vez), mas que a Dani, a Júlia, o Eric, minha mãe e minha irmã foram, a Luanda depois veio me dizer, com aquela malícia incorrigivelmente machista, que "tinha que mostrar algumas fotos do Gabriel (o filho deles) e a Júlia". Meu sangue ferve, a Dani sabe que eu odeio esse tipo de brincadeira e me olha apreensiva, para que eu me controle, etc, e eu não sorrio. O Sérgio percebe, eles estão em minha casa, ele deixa passar 5 minutos e inventa uma visível desculpa para irem embora. Sempre cordial, sempre com uma delicadeza de quem sofreu muito na vida e tem um conhecimento preciso sobre a perigosa natureza humana. Eu dessa vez não peço para que fiquem; nem vou até a porta para acompanhá-los. Depois que meu sangue esfria, eu pergunto à Dani se minha reação ficara tão evidente; ela diz que já tinha alertado a Luanda contra esse tipo de brincadeira. No fundo, eu me sinto um idiota, principalmente por incorrer na quebra de um de meus fundamentos básicos, o de "não levar tão a sério os livros". Eu realmente odeio qualquer tipo de sexismos, e hipocritamente, pois eu mesmo pratico vários (como ter chamado, acima, uma colega minha de gostosa), mas como me acho acima do bem e do mal e mais próximo da verdade do que os reles mortais, me encho de pretensões patriarcais (que, por si mesmo, já é uma atitude desbragadamente sexista).

Mas tudo se resolve. Saímos mais um bocado de vezes. Fizemos piqueniques. A companhia deles, suas simplicidades, suas adstringentes visões do pragmatismo da vida, suas absolutas descomplicações, me cativam. Muitas vezes me fazem sentir saudades deles. Uma vez, a Dani ficou pasma, eu telefonei para o Sérgio, e ficamos 15 minutos rindo pelo telefone. Nesta última quinta, a Dani e eu buscando a Júlia na escola, os encontramos buscando o Gabriel. Eu digo ao Sérgio: "O senhor está muito desocupado hoje; nunca te vi nessa hora na escola". Ele sorri de uma maneira diferente; meia hora depois estamos sentados no banco do parque, vendo as crianças no pula-pula, ele em um inédito silêncio. Pergunto, para quebrar o silêncio constrangedor, como vai a indústria onde trabalha. Ele começa a contar que a situação vai mal, que despediram uma pancada de funcionários. Passa um minuto e ele diz, compungido: "Inclusive me demitiram também". Eu o olho sem acreditar; deve ser brincadeira; ele é um dos escalões mais altos da empresa, gerente de almoxarifado, ninguém jamais iria prescindir dele. Mas é verdade. Chamaram-no na quinta-feira passada, ele avança pelo corredor sem nunca ter suspeitado até então da possibilidade, mas mal entra na sala já tem completa certeza. Fico tão triste e sem ter o que dizer, que apenas me entrego à sua fluida eloquência. Analiso as consequências da coisa, olho para o filho deles pulando com imolada felicidade junto à minha filha no pula-pula. Lembro do período de um ano em que estive desempregado. Sou tomado pela angústia de que ali, do meu lado, o meu inesperado amigo, peça suprema do molde da gentileza e do cavalheirismo espiritual, sofre a pior violência que um ser-humano pode sofrer. Falo algumas abobrinhas aborrecidas, consolo que só deve piorar as coisas, que me deixa irritado comigo mesmo por não poder ajudá-lo. Há meses os salários estavam atrasados, pagaram apenas metade de seu decimo terceiro. Ainda acho aquilo inconcebível: um pai de família; chegaram há um ano e meio na cidade. Sua vida é de uma perene peregrinação: o nordeste, São Paulo, Minas Gerais. A indecência desse país e dessa merda de povo que não se deixa em paz. Cada dois anos em um emprego e em uma peleja diferente. Ele me diz que tem uma chance de permanecer na cidade, pois há uma loja de construção, uma das maiores do vale, que lhe concedeu uma entrevista e para a qual entregou seu rico currículo, e que precisam de um gerente de almoxarifado para o depósito que estão construindo.

Por um fortuito acaso, depois de nossa conversa, ao lado do escorregador inflável em forma de onda com golfinhos em que a Júlia e o Gabriel brincam, o encarregado de contratações da loja de materiais de construção com o qual o Sérgio se entrevistou surge com sua esposa. Eles conversam a certa distância, fico olhando com apreensão. O Sérgio retorna com seus minúsculos olhos um tanto mais esperançosos, sua cara de criança na devida medida possibilitada por seu conhecimento da natureza da existência irradiada com uma luz quase indelével. Ele me diz que a conversa o deixou um tanto aliviado, pois o encarregado falou com o patrão e o indicativo é forte para que o contratem. Sem que ambos percebêssemos, nos demos um abraço. A coisa á tão natural e tão o que sobrava verdadeiramente para ser feito naquela hora, que não houve a minimo desvio de percepção sobre a efetividade daquela chave final da conversa. Eu olho para o escorregador e vejo a Júlia, para quem nada escapa, para a lucidez da qual tudo é repassado diligentemente pelo seu filtro apreensor, me olhando. Uma das vezes em que o Gabriel foi até em casa, ela o abraçava constantemente, assim como costuma abraçar suas amiguinhas, assim como nós, a família, vivemos direto um nos braços do outro, e eu a chamei num canto e expliquei que meninos e meninas não se abraçam. Ela me sorriu lá de cima do brinquedo e disse, olha só papai, e pulou deslizando, feliz da vida, até embaixo.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O quarto



Ter a impressão, um tanto singela mas não menos verdadeira e incômoda, que se gastou tempo demais amando os escritores errados; que a identidade procurada se revelou a farsa já há muito prevista de que não surgiria abruptamente, como uma iluminação, como uma compensação mística irretocável por tantos anos dedicados com afinco em querer possuí-la. A identidade, real e substanciosa, que se começa a ter, vem, antes, da destruição dessas superstições: jamais seria um escritor como os que amou pela vida toda. Jamais poderia, como sempre desejou fanaticamente, prescindir de seu contexto geográfico. Aliás, a geografia é o que lhe cobra mais rearranjos inteligentes: a opção de que se a transverta em símbolos concretos de um paralelismo imaginário, com a contradição tornada lógica de ainda assim manter o firme pé na realidade. Sente a sarcástica posição de que agora é que está lendo os autores certos. Lembra de seus incansáveis exercícios para ter a fluência veloz e elegante de Saul Bellow; recorda uma tarde, há 15 anos, sentado nas escadas de um prédio de escritórios, em que escreveu uma página inteira no caderno que era como uma psicografia, e que a releu mil vezes e mil vezes pensou que aquilo era seu amuleto. Então é assim (de certa forma é um ponto para ele ter tido sempre a presciência de que só poderia se tornar um escritor quando essa verdade libertária desmoronasse sobre ele). Uma vez escreveu para um amigo a tola declaração de que se algum dia se tornasse um escritor, seria um escritor médio-europeu. Quando escreveu isso percebeu imediatamente a tolice, mas aí é que estava a legitimidade da coisa. Alguém que tivesse algo para dizer não sobre si mesmo, não sobre suas tristes e desinteressantes vaidades mobiliárias do fetiche do ato da escrita. Lê Kertész, já famoso, especular se "perdera a profundidade". Nada lhe parece mais ridículo, ridículo a um ponto de lhe provocar náuseas, quando vê a pessoa se arvorar com o termo "escritor". Há inúmeros provocadores de náuseas no Facebook. Função: escritor. Escreveu o quê, e, mais importante: para quem? Um dia acessou o link disponível do romance de um desses escritores, leu a pequena obra toda num espanto de estoicismo, e ficou sentindo o velho terror de se ele próprio estaria tão patologicamente incapacitado para enxergar a si mesmo quanto aquela figura. Havia diálogos sobre religião tão simplórios, havia um auto-deslumbramento masturbatório na pretensa "surpresa" do final, que ele pensou: nenhum conselho é mais valioso do que aquele do Hemingway de que se você não conseguir se tornar um escritor, o que lhe resta é dar um tiro na cabeça. Um tiro metafórico na cabeça retiraria da visão aquele tom de importância arrogante do sujeito que não se enxerga. Ele jamais incorreria nessa falha de caráter; não aos 40 anos e o que lhe tem de vida pela frente. Acompanha com aquela falta de compromisso e total ausência de espiritualidade a alguns textos pelo Facebook. Mil compartilhamentos, mil comentários de "como tu és um gênio", para textos que só se tivesse uma lesão cerebral iria interessá-lo. Um dia vê o tema de doutorado de uma dessas sumidades_ uma mulher_, e é sobre não sei o que da sociologia relacionado à série de televisão The Wire. No mundo inteiro, achar alguém que ainda não perdeu a profundidade. Uma vez, há muitos anos, pediu a deus que se tornasse um escritor. Desde seus 14 ou 15 anos aprendeu por si mesmo, pela taxa de sofrimentos recolhidos que lhe cabia em sua então acentuada lucidez, a não pedir nada a deus para si mesmo. Mas nesse dia, talvez andando pela cidade, talvez sob a chuva, talvez suportando a dor então superalimentada de algum rompimento amoroso, pediu unicamente isso a deus. Comportou-se como se deus houvesse lhe respondido positivamente. Um dia chegaria. Abdicou das opções naturais de sua família para a acensão social. O que ele sempre soube é que a literalidade desse seu pedido era: Senhor, me faça possível ser um escritor médio-europeu. Sabia o que pedira. Não pedira a iconografia do escritor: a silhueta romântica da janela acesa na madrugada mergulhada em trabalho. Não pedira sequer reconhecimento. Não era modéstia, falsos pudores cuja capa invertida revela a situação do gênio não compreendido. Pedira na verdade a concentração, a seriedade, a chama. Era isso: pedira a Chama. Pedira a independência do artesão potente de ser deixado em paz pelo mundo, pela Alameda da Mentira. Pedira, como diz um personagem de A peste, "o possível para recusar a ficar do lado da praga". Pedira, em um entendimento profundamente pessoal, o sofrimento eufórico de ver tudo sob o prisma da perenidade sublocada resistente à mesmice, ao pensamento feito, ao rolo compressor das importâncias e certezas dos atos do cotidiano. Pedira um pouco de deus a deus. Pai, me faça partícipe, um associado para o qual não se lhe dê clemência, para o qual se lhe dê a visão suficientemente ponderada não mais que o limite para que sua mente insuficiente possa se abrir um pouquinho mais no sentido do terror e da alegria divina. Para ele não haveria prêmio maior. Volta a pensar nos escritores errados que leu a vida toda, os grandes, os canônicos. Claro que os julga errados agora por ter, de cada um, retirado o máximo que pôde. Agora se lhe cai nas mãos os escritores esquecidos, feitos para serem esquecidos, os grandes desbravadores de mais um dos infinitos campos de percepção da existência. Pai, me dê a sinceridade e me invista da ebuliência sanguínea necessária. Escrever apenas pela impostura e pela pose nunca lhe passou pela cabeça. Tem uma completa indiferença a isso. Poderia ter já publicado ao menos 3 livrinhos talvez substanciosos para certos nichos de visibilidade, mas o que seria isso? Historinhas de certo charme. Lembra certa vez, na infância, em que um escritor visitou sua sala de aula. Um escritor legítimo, do qual acabara de ler seu livro. Ficou muito empolgado, ouviu ao senhor ali em frente com um silêncio religioso. Hoje não se recorda do nome do homem, mas o título do romance era Duas lutas. Falava sobre rinhas de galo e o fato que lhe deleitou além da própria qualidade da obra foi ela ter dois finais. O leitor que escolhesse o que melhor lhe convinha. Sabe que esse tipo de livro não é para ele, que ele não conseguiria escrever uma história tão idônea, retilínea, honesta, vigorosa. Talvez depois, se algum dia se tornar um escritor, no crepúsculo da carreira. Não se julga melhor que esses escritores_ aliás, só ele sabe que não se julga melhor que ninguém. Apenas sabe que o que teria para dizer vem de outra fonte. A motivação do que tem para dizer vem de uma zona mais intimista de exploração. Sempre esperou pela grande ideia, a grande inspiração. Todos os escritores afirmam que ela não existe, mas nunca acreditou neles. De maneiras que, agora que acredita neles, em um contraste desconcertante, ela parece estar à sua frente, e é o mesmo livro que vem escrevendo desde adolescente. Só que o x da questão é que, agora, parece saber como abordá-la, de forma que ela mudou radicalmente, tornou-se uma ideia furiosamente nova. Kertész começa seu melhor romance, O fiasco, descrevendo maniacamente o quarto do escritor herói do livro. Aquela estante é assim e assim, aquela cadeira assim, a cama é dessa maneira, o tapete é de tal forma. Durante as estupendas 130 páginas do primeiro capítulo, a descrição do quarto volta recorrentemente entre as tantas reflexões e ações de cena: o armário e estante são assim e assim, a madeira é dessa qualidade. O escritor para poder pensar e escrever, se isola do insuportável barulho em torno colocando massas moldáveis importadas na posição profunda dos canais auditivos. É preciso essa repetição para firmar a constatação de que o escritor tem apenas aquele apartamento minúsculo para trabalhar. Todo o mundo lhe é inóspito e violento, e por isso cada detalhe inapreensível de seu reduto remete indelevelmente aos redutos de sua alma. O quarto é sua casca de tartaruga. O escritor de Kertész, que é o próprio Kertész, encontra-se sem ideias, desempregado às custas do emprego de sua esposa como atendente de lanchonete. O mercado editorial da Hungria despótica em que vive rejeita seu primeiro livro por o julgar pouco comercial; estariam dispostos a publicá-lo se ele aceitasse concessões, mas ele, como diz, não consome e não é consumível. Parado no corredor do prédio, ele tem uma iluminação (cuja cena é descrita em vários outros momentos da bibliografia de Kertész): a de que ele só tem essa vida, e de que essa vida é única e exclusivamente dele, e de que ele pode fazer o que quiser com ela. Que o que tem de escrever é sobre o que ele vem guardando intimamente de toda sua interação com a existência, e não pode ser outra coisa. Ser lido, ser publicado, passa a ser o menor de seus interesses. E por isso sua escrita é tão bombástica e sobrenatural, tão profunda e sinfônica. Quanto mais o escritor de Kertész se fazia esquecido e escondido, quanto mais ele se tornava invisível, no universo de seu quarto, não precisando de nada mais do que a folha e a caneta, mais ele cumpria o que lhe tornava humildemente acessível à inapreensível visão de deus.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O inferno



Borges em seu ensaio sobre Swedenborg: "O inferno é um pantanal onde se pode encontrar cidades que parecem destruídas pelo fogo, porém os condenados se sentem à vontade ali. São felizes a sua maneira, ou seja, estão cheios de ódio, e esse império não tem soberano, seus habitantes estão continuamente conspirando uns contra os outros. Esse é o mundo dos complôs, da política sórdida. Isso é o inferno."

domingo, 1 de maio de 2016

A relutância



"É possível que o desígnio terreno do homem seja exterminar a Terra, a vida. Nesse caso, entretanto, comportou-se como Sísifo: durante algum tempo escapou do desígnio, da tarefa, fugiu das garras da morte, e maravilhou-se daquilo que tinha de exterminar: a vida. Desse ponto de vista, toda produção e pensamento superiores criados pelo homem existem graças a essa relutância; a arte, a filosofia, as religiões resultam da hesitação, da imobilidade diante da tarefa real, o extermínio; essa hesitação explica a tristeza incurável, nostálgica, dos verdadeiramente grandes." (Imre Kertész, A língua exilada, Companhia das Letras, p. 35)