quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Julio



"Um pouco antes de morrer, Cortázar estava em Barcelona, andando à noite pelo Bairro Gótico. Havia uma garota, americana, bonita, que tocava violão e cantava meio como Joan Baez. Um grupo de jovens estava ao redor, ouvindo. Cortázar parou, meio afastado, nas sombras. Dali a pouco, um jovem de uns vinte anos se aproximou dele com um bolo na mão e disse: “Julio, pegue um pedaço”. Ele pegou, comeu e disse: “Muito obrigado por ter vindo e me dado o bolo”. O rapaz: “Olhe, eu lhe dei tão pouco comparado com o que você me deu”. Cortázar: “Não diga isso, não diga isso”. Então se abraçaram e o rapaz foi embora." (De um texto de Ernani Ssó, tirado daqui.)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Um súcubo abstêmio



Essa noite eu sonhei mais uma vez com minha antiga paixão da juventude. Eu odeio quando isso acontece, o que não suaviza a ocorrência cada vez mais frequente desses sonhos. Estávamos ela e eu falando sobre como a vida de cada um se resolveu; olhávamos de uma maneira estoica, velha e conformada para o que as tantas aleatoriedades abortadas do acaso fizeram para que estas versões correntes de nós mesmos estivessem cada qual em sua transmutação no sonho adstringindo-se do peso da realidade incorrigível_ como se ela também, a Adriana desse plano de cá dos acontecimentos, tivesse acordado junto a seu marido com a súbita tristeza rememorada ao amanhecer de também ter sonhado comigo. Fôramos e já não somos; somos outros. No sonho ela sorria com sua vertente mais extraordinária de sorriso, aquele um tanto sofrido e sábio, acima do tempo, incólume (a expressão da infalibilidade de sua onisciência, como certa vez escrevi em meu último poema na vida e lhe entreguei, em uma tarde de domingo cuja luz do sol resvalando nas beiradas do edifício onde ela morava era de uma oleosidade hereticamente pueril, demasiadamente terrena), e me dizia algo no estilo "é, como éramos jovens, como aqueles tempos estão fadados a nunca mais retornarem", palavras que eu já não saberia como na verdade seriam para alimentar o script de um sonho, e por isso eu me recordo de suas falas noturnas e secretas como se narradas por uma terceira pessoa. A recorrência desses sonhos reforça a certeza de que sua incapacidade de exercer a vingança sempre determinará que se repitam, por isso me vejo no extremo da velhice recapitulando essa Adriana que nunca envelhecerá, sentada ao meu lado com seus sorrisos puros e seus silêncios entremeando as irrepetíveis frases lapidares como se produzindo o vento de felicidade que me passa pelos cabelos, o cenário nunca é o pátio daquele seu prédio provisório em que tudo era fanaticamente pejorativo diante a sublimidade (hoje vista com toda sua tolice) do amor que eu lhe sentia, mas algum indeterminado quarto ou campina, ou mesmo um isolado e imutável fundo de ônibus onde muitas vezes nos falávamos antes de chegarmos ao destino dela. Um súcubo abstêmio é o que ela é agora para mim, em sua encarnação de sonho. Como nunca poderei vingar de mim mesmo, o súcubo Adriana retorna de dois em dois meses, de três em três meses, ou, quando minha vida está preenchida de pequenas tribulações, de seis em seis meses, mas sempre retorna, para me lembrar desse pacto firmado de que por eu jamais conseguir a resposta_ por eu não tê-la_, ela se sentará sobre meu peito à noite, soprará sobre minhas narinas seus pós de arnica quimérica, e exigirá mais uma vez que eu pague pela minha ignorância. Eu acordei hoje com uma impressão de perda terrível, como se tivesse sido a primeira vez que ela me visitara, e não a centésima ou milionésima; tomei meu café olhando e janela de luz prateada das cinco e meia da manhã molhada pela chuva contínua tentando lembrar o que ela disse, o que seu sereno e infinito sorriso continha de uma lucidez tangente à loucura, por ser fora do tempo, mas não me lembrava. Peguei a estrada rumo ao trabalho ouvindo House of cards, do Radiohead, e era como se o súcubo ainda estivesse ao meu lado, como se o determinante para que desaparecesse fosse minha total dispersão do sono, minha vigília pura (quando isso deve acontecer?, se acontece?), pois a música ressoava o que ela havia dito, o clima de ruína, de uma benemérita falta de forças. Não preciso dizer-lhe que esse produto de setas infinitas de possibilidades que eu sou hoje é alguém dentro de meus padrões céticos de felicidade, que ela não conseguirá muita coisa comigo em termos de desespero a não ser esse desbaratinamento que a mínima palavra ouvida de outra pessoa real, o mínimo cumprimento, vai desfazer. É o tipo com quem não se deve falar, uma entidade deficientemente reflexiva cujo paradoxo é não ter fala e nem ouvidos, ser um murmúrio do qual se retira o que se quer_ e eu não quero retirar nada dali, nenhuma reflexão. Escrevendo isso agora, ao acaso, eu penso ser um passo para que se saiba quem é de nós dois o lado frágil_ ainda que talvez ela mesma já não exista no sentido de ter essa ruminações e esses assaltos morfeicos sobre mim; para ela tudo bem resolvido, tudo bem esquecido, tudo bem amarrado em sua vida em que foi descartada essas chateações da juventude. (Ela sempre odiara a juventude, queria envelhecer o mais rápido possível, por isso um tanto mais valiosos seus sorrisos explosivos de menina absolutamente rendida quando eu lhe pegava nos cabelos e me confessava.)  Quem sabe isso aqui, esse texto escasso e insuficiente, seja o exorcismo final?

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Fazer de si mesmo uma mitologia literária



Eu supunha, não sei por quais meios de averiguação apreendidos, que o romance que me faltava ler de Javier Marías, Negro dorso do tempo, era de menor valor entre sua bibliografia particularmente louvável, uma espécie de recreio performático e levianidade memorialística solta que o autor se permitisse como descanso de seus livros maiores. Em razão disso, só fui ler esse título meses depois de tê-lo adquirido, já esgotado, através de uma negociação virtual com um sebo, e fi-lo semana passada, no prazo de quatro dias. Como disse, não me lembro se foi no blog de um aficionado em Marías que eu colhi a impressão de ser uma obra voluntariamente derrisória e, por isso, talvez preguiçosa, ou foi através desses sites de leituras em que se coloca as cifras de uma a cinco estrelas para avaliar o quanto o conjunto de leitores de determinado livro aprovou com deleite o que leu (o que, diga-se como sintoma de alguma coisa, jamais procuraria avalização estelar para um autor tão cheio de particularidades e sutilezas às vezes pouco detectadas por esses esquema de apreciação meritocrática), mas o fato é que tive uma grata surpresa ao ver, à medida que me embrenhava pelas páginas desse romance (ou não-romance) que Negro dorso do tempo está entre as criações do espanhol que mais me deslumbraram. Todos os sete ou oito romances que li dele me deixaram uma profunda impressão, me motivaram por muito tempo a releituras esparsas e a debates solitários comigo mesmo sobre as tantas simbologias e tantas maravilhas perigosamente triviais guardadas nessas páginas, ainda que os melhores entre a quase cruel tarefa de hierarquizar esses títulos pelo que tem de maior valor me pareçam ser seu inigualável romance sobre Oxford, a trilogia que mistura thriller de espionagem com romance ensaio, e a delicadeza conradiana de Os enamoramentos. E agora me chega essa obra que é um paradoxo e um produto do humor mais fino que se chama Negro dorso do tempo, que eu li entre os ruídos de chuva e o céu turbado desses últimos dias e que me dispensarou das vulgaridades do andamento cotidiano e me encheu das possibilidades sérias do universo da literatura; porque é disso que trata negro dorso, não apenas da literatura como estrutura conjuntural acadêmica e seguimento apaixonante de leitores fervorosos, que é o de menos, mas de uma cosmogonia particular de generosa riqueza em que Marías divide com nós suas profundezas de escritor e de ser humano e um tanto da criança investigativa crescida que está por detrás de toda aptidão regiamente cumprida pela escrita.

Marías por vezes despreza o que está escrevendo à medida que vai escrevendo Negro dorso; frequentemente diz que não vai se levantar para pesquisar o nome correto de algum personagem real do passado, ou confirmar a precisão de algum fato que ele cita de memória; uma vez alega que não se levantará de sua máquina de escrever porque, simplesmente, não leva esse livro a sério. Nas primeiras páginas, ele começa essa tendência auto-depreciativa de seu discurso (estava para usar aqui uma palavra que aprendi no livro: galimatia) afirmando que nada que vai escrever ali tem importância, e outra vez ele convida o leitor a pular todo um capítulo que repete e anota acréscimos em uma história já narrada em Todas as almas. Quem conhece Marías sabe que ele é devoto de Sterne_ o que remete, inadvertidamente, a Machado de Assis_, e sabe que tais procedimentos são marcas registradas de Sterne e Machado. Mas o propósito de tanta auto-azucrinação em um autor de outro modo muito seguro de si vai além dessas justificativas canônicas: aos poucos o leitor atento intui que o modelo pretendido aqui é o de Borges, o da construção de labirintos e universos paralelos, ou histórias paralelas, de recuperação de passados e personagens arredios e esquecidos. E Marías cumpre de maneira excelente esse fantástico exercício borgeano: ele não só recria uma cadeia de histórias que envolve escritores esquecidos, como estende a corporalidade do objeto livro que lança ao prelo com uma atmosfera imagética que cria uma aura de mitologia cujo centro é o próprio Marías. Aqui, Marías cria um universo mariasiano, perdoem-me a adjetivação incorreta, em que tudo ronda e retorna ao pensador divinatório Javier Marías; aqui Marías é o historiador, o ensaísta, o romancista abortivo, o regenerador tardio de talentos sepultados; shakespereano patológico, Marías pragmatiza o potencial de auto-suficiência infalível da prediga hamletiana de se intuir o universo em uma casca de noz. Marías aqui nos deleita do extremo envolvimento da literatura, de maneira mais assertiva que Vila-Matas com seus rococós insossos e inconclusivos sobre escritores afásicos.

Nessa simulação de que não leva a sério e que tudo é brincadeira, Marías escreve capítulos que podem muito bem afigurar independentemente entre seus melhores contos. E tudo tendo como escopo uma trivialidade onde parece não oferecer pano para nenhuma sublimidade, como é o caso da narrativa em que trata do casal de livreiros de Oxford que, voltando à sua livraria de livros raros anos depois de tê-los retratado em Todas as almas, Marías teme comicamente que eles o recriminem por algumas características que interpôs ao casal ficcional, como os dentes meio estragados da mulher ou a subserviência à esposa por parte do marido. Em cima dessa expectativa, Marías encena uma riqueza de percepções inesperada, que culmina com um final imprevisível em que a parte supostamente mais fraca se mostra efetiva em aplicar uma singela mas marcante revanche. Essa leveza insustentável da obra lembra os melhores momentos de Henry James, como nos contos sobre o mundo literário de A morte do leão. (Também me fez recordar os melhores momentos de Hemingway, embora destoem por completo o estilo deste com o de Marías; principalmente um dos relatos de Paris é uma festa em que uma absolutamente comezinha descrição de um desentendimento entre um garçom e um dos amigos do escritor se resolve com um final onde se vê a ternura tchecoviana e um insuflar discreto das canções sobre as verdadeiras amizades.)

Marías é tão ardiloso nesta sua composição mais pessoal que o leitor só depois de se deixar levar pela análise inevitável do que está lendo percebe que caiu em uma armadilha. O ensejo da escrita desse romance foi a descrição de todos os percalços de antes, durante e depois da escrita de Todas as almas, seu memorável livro sobre os dois anos que passou em Oxford. Com Negro dorso ele pretende deslindar as polêmicas suscitadas com as possíveis personalidades reais que se identificaram entre os personagens de Todas as almas, pretendendo resolver o assunto em declarar que quase tudo ali era invenção. E Marías nos leva peça por peça, isca por isca, na anatomização daquele seu romance sobre Oxford, promovendo uma confiança em que nos entregamos a ele, por assim dizer, e damos a ele nosso voto irrestrito de que ele está dizendo a verdade. Mas daí vemos o esquema melífluo de que, a título de desencantar a mítica em torno de um livro, ele está a criar uma nova mítica neste novo livro em que ele anuncia matreiramente a depuração das fantasias daquele. Marías não só vai confirmando a existência dos escritores e professores investidos em outros nomes no passado real, que surgem em Todos os nomes, como vai aumento o leque de significados e as biografias desses personagens em Negro dorso, e quem leu além deste livro, descobre que a mitologia mariasiana se amplia infinitamente com as mil e trezentas páginas de Seu rosto amanhã, em que essas mesmas pessoas tornam a reaparecer e novas outras são trazidas para a superfície. A melhor ótica para se contar um romance, disse Marías em uma de suas entrevistas, é a de um fantasma. E, sabendo da paixão dele por literatura de horror, vemos que em todos seus livros aparece essa atmosfera acolhedora dos contos de terror, assim como em todos seus livros sua linguagem oferece um mobiliário de recolhimento total que pouco se encontra entre os romancistas atuais. Uma escrivaninha que apareça em sua história é, na mente do leitor, uma verdadeira escrivaninha, pode-se abri-la e ver, enlevado, os tantos objetos ali dentro que refazem a permanência, por um instante, de antigas pessoas afundadas no olvido da história.

(Marías faz de si mesmo uma mitologia literária. Só vi essa mesma proeza, com a mesma competência, atualmente em Philip Roth, cujos melhores romances são aqueles em que a matéria de suas explorações é pura e simplesmente Philip Roth: por exemplo, não há obra mais interessante de se ler do que as novelas umbiguistas sobre sua fama literária e seu bloqueio de escritor do que as de Zuckerman acorrentado.)

(Em Vivendo no fim dos tempos, livro de Zizék, esse autor fala, lá pelo final, sobre a dessemantização de alguns grupos de artistas e partidários políticos afim de terem voz em um mundo dominado pelo violento senso comum e pela opinião formalizada pela corporação midiática universal. Um exemplo que ele dá é da forma como a esquerda austríaca da Caríntia, província ao sul da Áustria, achou por rebater o lema de unificação de nacionalistas alemães dessa região: "A Caríntia continuará alemã!". Como o debate discursivo era algo já suficientemente gasto e sem eficiência, os opositores pagaram espaços publicitários em vários jornais em que usavam variações sem sentido e deturpadas do lema, tais como: "A Caríntia altinuará conemã!", "A Caríntia lontinuará caemã!", "A Carpintia aconuará tilemã!". Claro que esse é um exemplo de um exercício de dessemantização radical, joyceano, fundado em um humor libertário no melhor estilo de Monty Python [que inclusive tem um sketch famoso em que um ministro britânico responde a uma inquisição sobre como as verbas de moradia estão sendo _ mal_ aplicadas usando uma voz feminina estridente, enquanto o entrevistador do programa vai narrando peça a peça do vestido feminino aberrante que esse ministro está usando], mas essa mesma dessemantização é feita por escritores como Marías, Vila-Matas, Nooteboom, Sebald, que, como arma contra a bestialização e o clichê grosseiro das mega-empresas de entretenimento e opinião formalizadas globais, falam em uma língua pessoal, recolhida e intensa, sobre si mesmos, nada mais que isso: a sinceridade incutida e desvinculada que os tornam indivíduos interessantes.)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um feriado com overdose de Breaking Bad



Que Breaking Bad é um entretenimento que tem um poder magnético quase perigoso é um fato que comprovei neste feriado, em que só descansei plenamente (com uma noite de sábado no meio do evento da qual pude tirar apenas 5 horas de sono) só depois que assisti as cinco temporadas completas da série. Mas que ela se impõe como obra-prima da televisão e melhor programa da história do tubo é algo que, já avisado de antemão, eu vim conservando sérias dúvidas enquanto ia acompanhando a história nada exemplar de Walter White e seu cupincha Jesse Pinkman pelo mundo do crime. Lembro que anotei mentalmente que no episódio da mosca no laboratório de metanfetamina a coisa quase resvala com certo grau de perigo para o picaresco gratuito, com simbolismo moral truncado na última cena; lembro também que há um episódio em que Walter e sua esposa se embrenham em um diálogo longuíssimo e claramente prestado à função de embromar o enredo dos roteiristas; e há, claro, os furos de que "isto jamais aconteceria na realidade", o que se vê com mais exagerado primor nas cenas que servem a transformar paulatinamente Walter de um singelo e frustrado professor de química no mais genial e infalível assassino manipulador. Mas esses furos são perdoáveis e compreensivos quando o telespectador se rende sem muita pressão à lógica de que a realidade em uma obra de ficção não é um produto que tenha que se prestar a uma fidelidade de pedantismo científico no campo das probabilidades com o que ocorre em nosso mundo verdadeiro: o mundo da ficção é uma invenção, de forma que tem absurdos arbitrados pelas suas regras internas assim como o nosso também tem os seus. Com isso em mente, e sabendo que Breaking Bad, apesar de tudo, não tem um segundo significativo que não seja interessante, e, finalmente, tendo esperado até o último capítulo para escrever esse texto (não me rendendo aos momentos de dubiedade antes do término), compactuo com a opinião quase unânime de que Breaking Bad é genial de uma forma que pouco se vê na televisão.

A começar que essa série transverte o padrão sobre o qual é produzida grande parte das séries americanas. Como é sabido, as séries americanas devem render o máximo possível, isso querendo dizer que, se estiverem tendo audiência, devem se estender por várias temporadas sem prazo fixo para seu encerramento. O que determina o fim  de uma série é o potencial que ela possui para ser um produto rentável, lógica que vem conduzindo o cenário das séries para uma balança em que o peso da qualidade inicial não se equipara à dificuldade dos roteiristas em costurarem as tantas pontas soltas que vão surgindo como efeito colateral à metástase da história. Um caso clássico disso é Lost, que só assisti até a terceira temporada e que ainda hoje não tenho o menor interesse em saber como terminou, o que eles arranjaram para explicar as fumaças, o urso polar e a insurgência oligofrênica de tantos personagens novos que não tinham a menor utilidade_ sei que a explicação é mirabolante demais mesmo para seus desbaratinados oráculos. Breaking Bad começa com elevado grau de chatice; há cenas panorâmicas que lembram o cinema europeu; se não me engano, um evento sanguinário que poderia ter se resolvido em um capítulo, se estende por três ou mais episódios; os personagens são peripatéticos demais, ou são enraizados em um cotidiano sem sublimação para serem realmente interessantes. Tanto que essas características exóticas para o público norte-americano quase fez com que a série parasse por aí, já que a audiência dessa temporada foi pífia. Breaking Bad só pode ser analisada em retrospecto_ é impossível ver o quanto ela é extraordinária se não se assisti-la até o fim_, e em retrospecto eu percebo que minha ideia de que há muitos momentos perdidos nessa temporada, quando a assistia, não se coaduna com a opinião agora firmada de que o que vale nessa introdução é justamente seu ritmo lento, seu experimentalismo espontâneo para se escolher as direções que a trama oferecia, e mesmo detalhes peculiares que se tornariam, com a fama e o culto, as marcas registradas da obra: a estética da direção de fotografia, que é superior até mesmo para séries que usam a fotografia como recurso temporal (como Mad Men); e o mobiliário de cena, como o trailer, a cozinha e a garagem descoberta da casa de Walter, a sala da casa de Pinkman, o deserto, a piscina. Se falta  a mesma intensidade que se tem no resto da obra na primeira temporada, ela é inigualável no que tem de força retórica para firmar no expectador os adereços e as idiossincrasia dos personagens, torná-los amados. (Seriamente amados: assistir ao último episódio me deixou uma ausência no coração.)

Parecia-me que faltava também um elemento esotérico melhor construído. Tenta-se fazer uma narrativa subliminar esotérica, mas os símbolos surgidos pareceram-me pouco aproveitados. Por exemplo: a ideia zen-budista de que todos os elementos do universo estão interligados, de que "o bater de asas de uma borboleta pode causar um maremoto do outro lado do mundo". Um ato_ ou, precisamente, a ausência de ato_, por parte de Walter, resulta em escala indireta em uma acidente aéreo com centenas de vítimas. A cena que encerra a temporada, com a explosão das naves no céu, é realmente soberba, o que promete intuições dramáticas proféticas em seguida; só que pára por aí: na segunda temporada, ao que parece, os redatores mudam o rumo de algo anteriormente planejado, e o acidente desaparece, deixa de ser um evento com múltiplos canais simbólicos, para ser uma mera piada aproveitada para dar carisma ao personagem do advogado Saul Goodman. Outra redução temática é que a obra não aproveita do enorme potencial de ambiguidade sobre o que é aceito, na atualidade, como drogas lícitas e drogas ilícitas. Há um diálogo entre Walter e Hank, seu cunhado agente da narcóticos (uma espécie de inspetor Javert obcecado pela prisão do alter-ego de Walter, Heisenberg), em que Walter fala sobre o limite tênue que separa o álcool da metanfetamina, e Hank aparece quase sempre, em seus momentos caseiros, com uma garrafa de cerveja ou um copo de whisky na mão. Mas a série não metaforiza essa hipocrisia temporal que adota o álcool como droga consumida e canonizada pela sociedade moderna, e demoniza a metanfetamina e demais drogas cocainófilas; ou pelo menos fica muito aquém de como uma série como Mad Men trabalha brilhantemente com o anacronismo de uma sociedade que, algumas décadas atrás, tinha o cigarro como elemento consolidado de sofisticação social. Falta esse elemento esotérico mais profundo em Breaking Bad, essa visão alternativa que propicie múltiplas leituras. Muitas vezes a série é rigorosamente limitada à pureza narrativa, à linearidade do acompanhamento da derrocada dos personagens. E falta, também, um aproveitamento no mesmo sentido com o câncer de Walter (por um momento, eu achei que eles fariam o mesmo que os irmãos Coen em Um Homem Sério, usando o câncer como ameça de sentido cósmico, como punição masoquista que parece doar a cura mas que retorna com força total, uma praga bíblica). É fácil ver que essa falha passou pela cabeça dos roteiristas, quando eles tentam consertar as coisas com o episódio moral da mosca que invade o laboratório. Mas é nisso, na percepção inteligente de que se poderia fazer uma grande coisa sem se preocupar com as camadas de interpretações interpoladas, que os roteiristas salvam a série e a tornam grandiosa. Aceitando de bom grado que trabalhar em uma só zona de superfície não invalida o efeito formidável da história, eles nos dão episódios maravilhosamente chocantes, como a da família de drogados, pai, mãe e filho pequeno, que Jesse tem de ameaçar para reaver seu dinheiro roubado; e, com maior asserção, em todos os superiores episódios da última temporada, em que a intensidade atinge níveis de uma força aflitiva que pouco fica a dever a Dostoiévski (SPOILER: a cena em que Walter sequestra a filha de menos de um ano de idade é algo que pouco se vê na televisão: esse veículo parece inapropriado para um grau de apuro tão genuíno sobre a degradação humana).

Os principais acertos da série são a quantidade restrita de personagens, o não uso do filão "um novo arqui-inimigo por temporada", e a fidelidade dos personagens às suas personalidades primordiais, e, claro, ter tido apenas 5 suficientes temporadas. Isso permitiu que se pudesse ir fundo nas subjetividades e ambiguidades dos heróis da trama, sem que passasse a impressão de que os mesmos indivíduos vistos no começo se tornaram indistinguíveis demais no final. Mas o mais genial da obra é o diálogo que faz os dois personagens principais, Walter e Jesse, um com o outro, e com suas consciências. Enquanto Walter cumpre o que informa o título e se envilece cada vez mais, tornando-se mal, Jesse é o modelo do verdadeiro personagem dostoiévskiano, que atinge o fundo do poço para ganhar a redenção de se tornar humano, e começa a se tornar bom. Jesse que tem os dilemas morais mais cortantes, que sofre colossalmente com sua consciência, enquanto Walter perfaz as características de um outro grande personagem de Dostoiévski, Piotr Stiepánovitch, o líder maquiavélico de inteligência manipuladora acentuada de Os demônios, que mata em nome de uma causa e é desprovido da mais ínfima fagulha de moral_ até perceber que a única causa autêntica que seguia era o próprio egoísmo. Aliás, enquanto assistia tive a certeza de que os autores leram a fundo Os demônios. Breaking Bad é o mais próximo da exuberância diabólica de Os demônios que se conseguirá chegar a televisão, e para os leitores desse romance fundamental do russo dizer isso é o maior dos elogios.

Breaking Bad é excepcional, inteligente, um produto cultural de excelente bom gosto e impossível de ser esquecido.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O cristão niilista



Rosamund Bartlett diz lá para o final da magnífica biografia que escreveu sobre Liev Tolstói que Tolstói jamais acreditou na vida após a morte, pelo menos no modo como a maior parte dos cristãos acredita na vida após a morte. Isso é uma observação desconcertante para alguém que escreveu um tratado no mínimo original sobre a percepção da existência divina através do espelho reflexo do niilismo depressivo, como Uma confissão. Nesta obra, inédita no Brasil a não ser por um bombástico primeiro capítulo na compilação lançada pela Companhia das Letras em Os últimos dias, o russo mostra bem uma de suas características mais idiossincráticas de escritor: a nudez contrastante a que o grande esteta e um dos mais sofisticados narradores da história chegava quando falava de si mesmo. Neste capítulo, Tolstói se entrega a uma meditação solitária, que se poderia dizer "escrita apenas para si mesmo", num testemunho corajoso de todas as suas fraquezas, de forma que é uma peça de sinceridade que vai além dos auto-vasculhamentos escatológicos de Montaigne. Aqui o artista que colocava todos os outros do mundo no bolso por sua erudição e seu alcance de visão, usa um linguajar que os salões requintados de intelectuais de seu tempo não relutariam em taxar de atrasado e pobre. Por isso é uma confissão, a ante-sala em que se senta o velho Tolstói antes de que assuma, como num novo Eclesiastes, que tudo que escreveu e toda a arte é meramente uma vaidade vazia. Esse capítulo me atingiu em cheio. Eu conhecia parte pequena da extensa obra doutrinária do autor de Guerra e paz, como seus contos da Cartilha, que tem a estatura que tem justamente por serem de uma singeleza desarmante; conhecia sua magnum opus filosófica O reino de deus está em nós, que é muito, mas muito mais do que se convencionou dizer o estado soviético e o padrão cultural do século passado (ambas essas coisas destrinchadas sobejamente por Bartlett na parte final de seu livro), e nada me soou mais verdadeiro de ler e mais revelador sobre a crença de Tosltói que esse primeiro capítulo.

Foi com Uma confissão que Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa. Esse capítulo me pareceu o que Camus sempre procurou escrever em A peste e nos diários de viagens em que documentava sobre a profunda depressão que sentia na fatuidade de suas conferências internacionais. Ler esse Tolstói me remeteu imediatamente a Camus. Quando li o diário da vinda de Camus para o Brasil em 1949, pensei: "esse homem vive em um desejo irrefreável de se matar, e não fazê-lo constitui o pior dos infernos para ele". Em uma parte notavelmente marcante, uma morena brasileira se esfrega nele durante um baile, e ele emprega todas as suas forças para não vomitar (há uma cena semelhante em Os mímicos, em que um personagem de Naipaul sente um asco homicida ao ver a pele de sua amante que lhe parece repugnantemente com um pudim). Pois Tolstói relata que pensou várias vezes em acabar com sua vida, tendo lido Schopenhauer na pré-adolescência e após, em seus 14 anos, ter ouvido, fascinado, um amigo expor para ele e para seu irmão Ivan uma explicação pormenorizada e brilhante de que Deus não existia. Depois disso, Tolstói luta para se manter vivo em um universo que não tem sentido e não oferece o menor lenitivo para que se continue a acordar dia a dia e participar da imensa mentira que faz deste mundo uma prisão de injustiças e assassinatos. Tudo parece para o homem de menos de 40 anos que acaba de escrever Guerra e paz um inferno ainda mais profundo e opressivo que qualquer inferno cristão, pois este se apoia em uma norma comunitária e milenar de fingir impregnar sentido através de sistemas mentais e ritos tradicionais. Tais arquétipos amortizantes do suicídio comunal são, ainda por cima, bastante fáceis de serem denunciados, pois todos eles são contraditórios e escondem uma gritante hierarquia de interesses em manter a maioria da população na ignorância para solidificar um esquema de classes dominantes. Em Guerra e paz já se pode ver essa conversão a um cristianismo pragmático que pretende estancar o absurdo por todos os lados; mas é depois de sua fase grandiloquente (que lhe permite produzir ainda um calhamaço como Anna Kariênina, vencendo sua declarada enorme afasia em labutar em cima de algo que lhe parecia sem propósito) como ficcionista que Tolstói se transforma em filósofo.

Ele lê de tudo. Aprende por conta própria umas cinco línguas diferentes (entre elas o hebraico, o grego e o alemão); em um final de semana aprende o esperanto, crente no intuito de seu inventor de que tal idioma converterá em uma comunidade global todos os povos. A lista de estudos que Rosamund Bartlett enumera do que forma o escopo da fase madura e tardia de Tolstói é um assombro: não só entra em contato com todas as ideias que estão a ser escritas pelo mundo, encomendando onerosas edições importadas, como sua crescente rede de fieis e seguidores lhe manda uma profusão de livros de todas as partes. Lê toda a filosofia germânica e grega; se apaixona ferrenhamente por Rousseau, que é um de seus mestres para toda a vida. Sedimenta suas ambições homéricas, lendo A Ilíada e Odisséia no original. Conhece cada seita sectária da Rússia, visitando seus mosteiros ou seus tolos de Deus indo por onde eles peregrinam. A universalização do conhecimento que traz para si é tão cerceada que nada escapa de seus olhos. Está preparado para, como no conto de Tchécov, A aposta, em que um dos apostadores fica décadas trancado em um quarto sem contato com o mundo, alimentando-se com toda a cultura humana, renegar toda a produção intelectual do homem como simples vaidade. E neste estado de espírito Tolstói atinge a sua primeira de uma série de severas crises transformadoras. Quer deixar tudo, lar, família, propriedade; quer renegar sua obra, abrindo mão dos milionários direitos autorais (era então, o autor mais vendido do mundo); quer arrepender-se ativamente de todos seus pecados como senhor de terras que possuía (e exercia essa posse) as vidas dos seus servos e o corpo de suas servas.

Daí que Uma confissão é o ápice de sua produção intelectual. Hiperbólico em tudo que fazia, cada um de seus livros filosóficos era uma via láctea de milhares de páginas condensadas em tomos editados e vendidos sempre à revelia das proibições taxativas do censor do tsar_ O reino de Deus está em nós, diz Bartlett, tem um manuscrito original de três mil e quinhentas páginas. Mas vamos a o que diz Uma confissão, que pode ser o cerne para entender a doutrina de fé sem recompensas místicas professada por Tolstói. O capítulo único que dispomos revela um Tolstói existencialista, no âmago de seu desespero. Ele diz que pensar na não-existência de Deus o levava às portas do suicídio, pois não poderia viver sem que houvesse um objetivo justo para compensar todas as mazelas da vida. Daí sentia, subitamente, uma reconfortante proximidade de Deus, sem previsão, sem que seu racionalismo incidisse de imediato_ nesse limbo em que a possibilidade se tornava evidente, a vida se renovava para ele, e tudo era plenitude e luz. Mas tais momentos não duravam muito, e sua mente racional cogitativa o lançava de volta às sombras da certeza de que nenhum maravilhamento divino era possível coexistir com um mundo animalesco, regido por leis econômicas selvagens e impulsos nervosos mediados por simples correntes enzimáticas. A solução nestas horas para tanto eco que lhe provocava o opressivo vazio era acabar com sua vida. E aqui vem a parte fundamental de sua escrita: através da razão, ele chegou à certeza incontestável da existência de Deus: se a vida só era possível quando ele era assolado pela lógica divina, era porque Deus é a própria existência. Deus simplesmente não é uma presença extemporânea, que coabita em estado suspensivo por sobre o universo; Deus apenas é. Ele é indissociável do universo. Vivemos Nele, e Ele está em nós. Através dessa leitura magnífica, dessa descoberta suprema, obtida não por meios místicos ou metafísicos, Tolstói calou em si definitivamente qualquer traço de incerteza. Seu esoterismo é tão pragmático, heroico e romântico (em última escala), quanto os crentes sem Deus de Camus, o médico e o repórter que se isolam na Oram condenada pela peste para darem sentido às suas vidas morrendo na tentativa de salvar ou emancipar um pouco do terror das pessoas sentenciadas pela doença. Tolstói chegara a essa descoberta depois de sanitizar os evangelhos, traduzindo-os do grego seccionando os milagres e a magia interpolada, segundo ele, pelas instituições que prostituíram e manipularam sua mensagem ao longo da história, e dando a seus leitores um Jesus humano, um profeta brilhante que contudo padecia, para nossa felicidade, das nossas mesmas fragilidades e insuficiências.

Mas Tolstói se insinua mais do que isso. Como é sabido, ele fazia questão de, em seus grandes romances, perverter as normas da escrita que uma Europa refinada instituía como modelo de excelência. Nas novas traduções do russo, lançadas pelo país nas últimas décadas, vemos que ele assumia uma redundância programada para manter sua independência (influenciando enormemente a escrita de Thomas Bernhard), e não tendo pudores em emendar pregações e reflexões pessoais no meio da narrativa. Impossível, para mim, que o cristianismo de Tolstói tivesse mesmo esse positivismo pragmático ancorado em uma didática pacifista que só ia até onde estivesse um controle social igualitário. Um niilista como fora Tolstói, só poderia suplantar a hipótese do suicídio se conseguisse calar sua limitação em ver além o ponto infinito para onde sua crença se convergia. Sua concepção de Deus é a mesma de Don Dellilo e Saul Bellow, que diziam que Deus era inacessível e sempre será inacessível à nossa terrenidade inexorável, à nossa falta compulsória de credenciais para o absurdo_ à nossa sensaboria extrema. O estado soviético condenou por cem anos as obras filosóficas de Tolstói ao silêncio, pelo alto teor de contestação que elas contêm, e esse olvido alimentado pela difamação de que tais escritos eram de um evangelismo rançoso de velho foi assumido por um Ocidente que se deslumbrava com todos os níveis de escolas do pensamento surgidos em reflexo à decadência moral do homem no século XX. Mas a volta, se é que há, destes textos de Tolstói para o mundo pode estar vindo atrasado demais. Em uma hora em que as sutilezas do pensamento e a fé em uma comunidade humana progressista moralmente desenvolvida é algo inconcebível na grosseria do hedonismo atual. (Rosamund Bartlett escreve, no capítulo final, um panorama valiosamente revelador sobre o que o stalinismo fez com a família e o pensamento de Tolstói; quando viram que a popularidade de Tolstói era algo grande demais para ser excisado sem consequências, eles fizeram que Tosltói se juntasse a eles: além de ser um pai espiritual para o bolchevismo, foi transformado no artista perfeito enormemente equivocado em seu sistema doutrinário, mas modelo de correção e herói nacional.) Há muito no silêncio de Tolstói.

Do porque estamos bem com a Carol Bensimon como romancista: estaríamos pior se ela fosse socióloga



 É verdade que o norte e o nordeste têm temas mais “brasileiros” (ou talvez o que se entenda por “temas brasileiros”). Eles parecem mais fechados em sua cultura, enquanto, no sul, há realmente uma tendência à internacionalização (do Nirvana de Michel Laub às minhas personagens que viveram em Paris e Montreal). Parte disso se explicaria por uma questão econômica: talvez os escritores do sul tenham tido mais oportunidades de sair do país, experiências essas que acabam entrando, de uma maneira ou outra, em sua literatura. A influência da cultura pop internacional, por sua vez, seria explicada por uma falta de marcas regionais? (Carol Bensimon, daqui)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Duetos




Nesta semana estive deveras muito ocupado. Muito trabalho e ainda as maravilhosas terapias domésticas de arrumar e lavar a casa, e cuidar das crianças e lavar as vasilhas. Minha esposa, a Dani, como alguns sabem, está convalescida de uma cirurgia, e se tornou uma matriarca imperial tendente à impiedade do alto de sua cama em que se encontra refestelada. Nas valiosas horas vagas, eu termino a já muito atrasada leitura da biografia de Tolstói, um livro excelente que eu recomendo a todos. Quero muito voltar à rotina de textos mais densos e melhor planejados para o blog, e estou até com boas ideias guardadas, mas isso demorará talvez para daqui a meio mês, não sei. Falar sobre livros e as cosmicômicas pessoais. Mas sobra tempo para dar pitacos rápidos e raivosos em blogs. Fiz isso em dois blogs nessa semana, o do Ernani Ssó, que com certeza me odeia e deve pensar por que um filho da puta como eu o inferniza tanto assim; e o outro blog é o da Companhia das Letras, que escrevi dois comentários em um texto ótimo do Joca Terron. O post do Ssó tratava, entre outras coisas, de uma hipotética chatice dos clássicos, justificando, com isso, a opção de se pular trechos da leitura para fazer a coisa ficar menos pesada. Isso para mim é um crime imperdoável, pular partes de um livro. Eu sou um leitor fundamentalista e reverencioso, e não acho de forma alguma que os clássicos sejam chatos_ pelo contrário. Clássicos a que me refiro são OS CLÁSSICOS. Acho que ficou claro. O post do Joca trata das misérias eternas do Brasil. Vou reproduzir abaixo os comentários. Primeiro os postados no blog do Ssó, depois os postados no blog do Terron. Quem lê esse blog identificará imediatamente uma redundância de ideias já muito exploradas por aqui. Escrevi às pressas e entre um trabalho e outro, se isso serve como desculpa.

Texto do Ssó:

"Futricando nas páginas do El País, encontrei uma velha conversa (de 20 de abril de 2002, capitaneada pela jornalista Rosa Mora) entre o professor e ensaísta Martín de Riquer, que tem alguns livros muito bons sobre o Dom Quixote, e o romancista Manuel Vásquez Montalbán. Abaixo, tradução caseira de um trechinho. Confesso que ajeitei aqui e ali, porque se nota demais que a transcrição da entrevista foi, digamos com bonomia, hesitante.
Rosa: Então, professor Riquer, tudo bem se a gente pula um trecho de um clássico se encontra algum tropeço?
Riquer: Esse tropeço pode acontecer por vários motivos. Por exemplo, que você não entenda o que se diz e então precisa procurar num dicionário, ou que você se chateie. Se se chateia, deixe de lado. Uma das coisas fundamentais da literatura é que tem que ser divertida.
Montalbán: Mas um professor deve se chatear muito.
Riquer: Então o professor pode avisar: isso é chato.
Montalbán: Nunca se escreveu uma história professoral contra o tédio. Um professor que, em vez de dar uma de Bloom com os cânones, diga que a partir da página tal do livro tal de tal escritor não continue lendo porque é um porre.
Riquer: Bom, na minha Historia de la literatura catalana há um artigo onde digo que depois de ter lido a primeira parte do Memorial del pecador (de Felip de Malla), não tive ânimo pra ler a segunda. Insisto, é muito importante a literatura divertir.
Montalbán: Às vezes é obrigatório ler um livro de que dificilmente você pode gostar e então você faz um exercício de abstração cultural.
Riquer: É que chamamos tudo de literatura. (…)
Rosa: A gente pode ler Crime e castigo como um romance policial?
Riquer: É o que é, e também Guerra e paz. São apaixonantes"
Comentário meu:
Quanto à chatice dos clássicos: eu só não entendo por que tem pessoas que insistem no exercício da leitura. Nunca entendi isso. Por que não vão ocupar seus preciosos tempos com outra coisa? Coisas mais produtivas; futebol, mercado financeiro, danças orientais? Futebol é de um tédio massacrante para mim, e eu sempre mudo de canal ou desligo a televisão, e pronto: não me ofende em nada, nada me obriga a sequer recorrer ao compacto dos melhores momentos da partida para futuros usos socais em conversas de fim de tarde. Será que mais da metade dos cursos universitários de letras é de pessoas que estão ali por alguma imposição inescapável?, algum escravismo profissional que, para a grande desgraça deles, é a única e abrutalhada forma de ganhar a vida? Ou será que é por alguma vestigial, antiquada e provinciana ideia de que ler dá algum tipo de status, é cool, alimenta o fetiche de ser reconhecido como inteligente?
(Já li textos de pessoas destrinchando livros célebres, testados por gerações e gerações de leitores apaixonados, livros como Moby Dick, Os demônios, etc, tratando eles como se fosse uma curiosa culinária matemática, apontando onde a coisa era mais doce e aprazível e onde era desagradável e rude. Sendo seria muito mais produtivo para todos fechar o livro e jamais voltar a abri-lo!)

 Ssó:

Você acha futebol chato e troca de canal, Charlles, exatamente como o leitor que acha determinado escritor chato, ou certo trecho de livro, evita este escritor, ou este trecho. Não há mistério nem drama, me parece. Acho complicado legislar sobre o gosto ou o prazer. Se a literatura fosse só uma questão de conteúdo, não estaríamos aqui discutindo, não?

Eu:


Não se trata de respeitar o gosto alheio, Ssó. O sujeito que pula partes do Quixote não deveria jamais perder tempo lendo Cervantes: esse não tem gosto pela leitura de livros, mas por adaptações cinematográficas, ou resumos ilustrados infantis. (Pense em propor reduzir de 45 minutos para 15, cada tempo de uma partida de futebol, para ver se os caras não grilam.) Há uma ótima definição sobre a diferença entre um leitor genuíno e um leitor medíocre, na autobiografia de Amós Oz, em que Oz aponta a falta de recolhimento e vagar que o segundo sofre, sempre propenso a análises superficiais e distorções paupérrimas sobre o que lê (o tipo que acha que Lolita é pornografia pedófila, que Proust e só madeleines molhadas no chá, e, em contrapartida, acha Paulo Coelho leitura de primeira). A literatura vendida em pequenas porções para solteiros e executivos sem tempo?, áudio-literatura, que se ouve dormindo? Mas vamos retornar aqui àquelas trezentas páginas que você cortaria fora de 2666, e não estou disposto a isso.
Acho que você às vezes esquece que a paixão pela leitura tem a mesma intransigência saudável dos adeptos do futebol e da tabacaria. Se não é do meio, cai fora.
Ssó:
Pelo teu raciocínio, Charlles, temos de ler toda linha de um livro, mesmo que seja idiota, ou desistir do autor. Não concordo. Se fosse assim, eu jamais teria insistido com Machado de Assis, jamais teria chegado ao Machado d’A missa do galo, por exemplo, porque comecei com um livreco bobo, Helena. Me parece que você está confundindo o leitor medíocre, incapaz de se sentir à vontade a não ser com os Paulos Coelhos, com o leitor crítico o suficiente pra reconhecer as fraquezas dos grandes autores e ter a tranquilidade ou bom senso de deixá-las pra lá. Eu gosto muito do Cervantes, não é por nada que apostei dois anos da minha vida na tradução do livro dele, mas nem por isso vou deixar de reconhecer que ele tem seus tropeços, como todo mundo, aliás. Eu sou incapaz de assistir meia partida de futebol, simplesmente não tenho saco, mas nem por isso deixo de ter prazer ao ver um bela jogada. Tem mais: conheço muito fanático por futebol que acha várias partidas um tédio. Quer dizer, eles continuam amando futebol, mas deixam de lado certas partidas. Enfim, duvido que a leitura seja essa paixão intransigente de que você fala. Se fosse, a gente leria tudo, até o Paulo Coelho e daria pulinhos de prazer, simplesmente porque estaríamos lendo. No meu caso a leitura se trata de vício. E como todo viciado, se a droga não me satisfaz, eu procuro uma melhor, mais forte, o que for que eu esteja precisando no momento.
Eu:
Não desistir do autor, mas do livro. Um de meus autores preferidos é William Faulkner, de quem li tudo, menos O som e a fúria, que tentei várias vezes e não consegui. Mas jamais eu iria pular aquela chatíssima primeira parte, narrado por um deficiente mental. Outro autor que eu amo é Saul Bellow, de quem também nunca consegui chegar além do terceiro capítulo de Henderson, o rei da chuva. Pular partes do livro é não respeitar as características pessoais mais profundas do autor, impregnadas na obra. Ninguém falou aqui de perfeição. Não existe perfeição em uma obra literária, talvez a única forma de arte que não comporta isso. Alguns autores são grandes justamente pelas suas imperfeições. Por isso acho de um despropósito completo gente igual a você, que é um escritor e vive e respira literatura, sempre martelar nessa tecla. Se Quixote fosse enxuto, muito provavelmente seria completamente desconhecido hoje. A liberdade de ver um gênio das letras escrever é algo impagável, por isso cada parte aparentemente descalibrada ou excessiva de um livro é valiosa. Vejo isso no Ulisses, cuja força motriz e a beleza e toda a justificativa da obra está em sua absoluta gratuidade. Imagine um Ulisses editado!
Não, a leitura para mim não é um vício. É sim uma paixão intransigente. Vício é algo compulsivo, muitas vezes associada à mecânica. Eu leio pelo esclarecimento. Se fosse um vício para mim, eu teria exaurido o Som e a fúria antes de passar para outra droga. Já que o livro não quis me dizer nada, apesar de sua grandeza, eu passei a Absalão, Absalão! e Desça, Moisés, que me ensinaram muito.
Talvez a idade esteja te dando a tentação inexorável pelo minimalismo, ou talvez seja tudo temas para piadas algumas coisas que escreve aqui (o que acredito). Uns posts passado você requisitava a assepsia de concisão rigorosa na escrita, abolindo mesmo as expressões idiomáticas que são, elas também, componentes naturais da escrita (aquela de agarrar com as duas mãos foi uma forçação de barra sua), e agora vem com essa de clássicos são chatos. Um puta de um lugar comum, um clichê. Sugiro que leia algumas das cartas da Susan Sontag, em que ela define o que é prazer na leitura, e nada tem a ver os esquemas fáceis da rapidez televisiva.
E antes que vc fale que prazer cada um entende de sua maneira, não é assim. O prazer da leitura se adquire, e às vezes é muito difícil se adquirir, e muitas vezes nunca se adquire, mesmo ralando para conseguir. Não é a mesma coisa ouvir o Led Zeppelin, que é maravilhoso, ou assistir a um filme de Kubrick ou um do Tarantino, que também são maravilhosos, e ler, vamos dizer, Anna Kariênina. O Tolstói exige recolhimento, atenção absoluta. Trata-se de prazer nada passivo. Então, não tem a ver de que cada um tem o seu e cada um cuide de sua maneira.
Gostaria de nunca ter que falar isso para um cara igual a você, mas sim, temos de ler toda linha de um livro, uma por uma até chegar no final. Dá um suor só de pensar!

Ssó:

Certamente teu amor pelos livros me impressiona, Charles. Mas eu sou do meio, sei como os livros são feitos, sei como os autores chutam pra chuchu. Posso não ser grande coisa, mas conheço meu eleitorado.
Agora, teu amor pelos livros te leva a afirmações que dificilmente a gente compreende.
“Alguns autores são grandes justamente pelas suas imperfeições.” Acho difícil que os defeitos e não as qualidades façam uma obra-prima. É meio como dizer que a pouca altura do Nelson Ned é o que torna um homem de um metro e oitenta.
“Pular partes do livro é não respeitar as características pessoais mais profundas do autor, impregnadas na obra.” Quem te garante que essas partes são da parte mais profunda do autor? Podem der da sua parte mais vaidosa, mais burra. Esse papo me parece pura superstição, Charlles. Falo sério, não tou aqui pegando o no teu pé.
“Se fosse um vício para mim, eu teria exaurido o Som e a fúria antes de passar para outra droga. Já que o livro não quis me dizer nada, apesar de sua grandeza.” Se fosse vício você não teria lido O som e a fúria justamente porque ele não te deu barato. Se o livro não te diz nada, se você não o leu, como sabe de sua “grandeza”? Isso é fé. Você acredita no que os críticos dizem, você se intimida apenas com o nome do Faulkner, como o matuto com o nome do Deus. Eu li O som e a fúria, não pulei uma linha, e daí? Eu poderia muito bem não ter lido. Não me deu nada. Santuário, sim. Agora, há autores que eu leito tudo, mesmo não gostando, mas não é por respeito à leitura. É porque tenho interesse pela pessoa que escreveu, quero saber mais dela. É outra coisa, como se vê.
“agora vem com essa de clássicos são chatos. Um puta de um lugar comum, um clichê.” Eu não disse que os clássicos são chatos, tanto que leio e releio vários deles. Transcrevi as palavras do Riquer, que também não disse que os clássicos são chatos, apenas recomenda que pule os trechos que te chateiam. Me parece que há uma grande diferença. Agora, cá pra nós, tem muito clássico chato.
“Gostaria de nunca ter que falar isso para um cara igual a você, mas sim, temos de ler toda linha de um livro, uma por uma até chegar no final. ” Você já tentou escrever um romance, Charlles? Você não imagina a quantidade de linhas ou páginas inteiras que a gente fica pensando se corta, se deixa, ou que deixou e depois se arrependeu. Nos meus livros – espero, torço -, você pode ler todas as linhas, porque tento não ser preguiçoso a ponto de deixar qualquer merda que o pobre leitor pensa que faz parte das minhas características profundas.
Não sei se você notou, mas você ou bota o cara lá em cima ou simplesmente o varre do mapa. Dá de barato que a literatura brasileira é um lixo, tirando o G. Rosa. Pra dizer isso, você teria de ter lido toda a literatura brasileira, linha por linha, como você diz que tem de ser. Eu, por exemplo, não acho Clarice Lispector um lixo. Aliás, acho uma das grandes escritoras do século 20. Seu Paixão segundo G. H. está na lista dos cem melhores livros do século 20. Deve ser justo, ou bateu na trave, mas eu prefiro os contos dela, e duvido que os que fizeram essa lista tenham lido toda a literatura do século 20. E duvido que seja possível ser objetivo, cem por cento objetivo, numa avaliação.

Eu:

“Alguns autores são grandes justamente pelas suas imperfeições.” Exemplo máximo disso é Dostoiévski. O russo escrevia mal, era estridente, caótico, seus personagens eram todos neuróticos, e, contudo, está entre os 10 ou 5 maiores escritores de todos os tempos. Cito também Céline, que com seu romance bastante idiossincrático e carregado de defeitos, “De castelo em castelo”, me deu um dos mais duros relatos sobre a condição humana.
Sobre pular partes de um livro: eu nunca fiz isso. Na minha leitura de Ulisses, fiquei tentado a fazer isso no longo capítulo em que é narrado uma divagação lisérgica de Bloom em forma de peça teatral. Felizmente, suportei bem essas tantas páginas e fui recompensado com uma das mais belas estocadas da literatura na página final desta parte, em que o filho morto de Bloom aparece para justificar a leitura. Se eu tivesse lido apenas a página em que o filho surge, jamais teria adquirido essa experiência de extrema singeleza.
Sei que Som e a fúria é um grande livro através de muitos ensaios de gente boa que escreveu sobre ele, de Borges a Coetzee. Como duvidar desses caras?
Eu entendi a primeira parte deste seu post como uma ironia, e meu primeiro comentário foi concordante a você. Mas você o retrucou, daí isso. Não cara, cê vai me desculpar, pois, sem querer bater e assoprar, mas eu estimo muito o tradutor e escritor Ernani Ssó, e para mim é algo incompreensível que um tradutor do Quixote sequer insinue que há partes do Quixote que deveriam ser cortadas ou puladas na leitura. No mínimo é infantil afirmar isso. Há um cânone, não só feito pela empolação acadêmica, mas pelo amor testado de gerações e gerações de bons leitores. Será que Cervantes não usou deste seu mesmo método de não escrever nada que cansasse a que vc se refere? E, outra coisa, tais páginas lhe são chatas sobre quais prismas, sobre quais referências, sobre quais critérios?
O seu último parágrafo eu respondo mostrando a minha coerência argumentativa irretocável: a literatura brasileira me causa um tédio descomunal, daí eu não a leio_ afora o magnífico Rosa. E nisso parece que concordamos: seu comentário no blog da Cia acusa nosso triste determinismo geográfico.
P.S.: talvez eu tenha dito em um desses nossos papos de boteco que a literatura brasileira é um lixo. Mas isso é mentira. Não li a Lispector, mas acredito em você. Mas li o Lavoura Arcaica, que achei muito bom; 5 contos de um escritor goiano, Bernardo Élis, estão entre os melhores contos do mundo; Millõr e Veríssimo filho são humoristas que não perdem para ninguém; gosto muito, claro, de Machado de Assis, alguma ou outra coisa de Jorge Amado, e Graciliano Ramos. Creio que a Piñon mereça o Nobel. E temos o Gullar e o Thiago de Melo. Acho que Paulo Lins não é valorizado na medida certa. Tento puxar mais alguma coisa pela memória mas não me vem nada. Creio que a literatura brasileira não existe, ou existe em frequências com intermitências muito espaçadas.

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Comentários meus sobre o post de Joca Terron:

Joca, vai se fazendo “da natureza” da internet que as opiniões se dividam entre o xingamento raivoso e puro, e o elogio descomedido e efêmero; mas acredite quando eu digo que este seu texto é um dos melhores que já li no site da Cia. Confesso que me passou uma sensação de alívio ao pensar “é sobre ISSO que deve ser a escrita no Brasil”. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, e os novos escritores (ou escritores da nova geração ou seja qual outro rótulo comercial empregado)deixam passar esse tema. Preferem falar sobre coisas inócuas bastante pessoais, às vezes tiradas de seus caderninhos de idiossincrasias juvenis mais ternas: viagens, dores de cotovelo enormemente dissonantes, sei lá o quê. Assustei com seu texto, pois você parece que tangenciou o limite de uma polidez que eu intuo existir aqui, uma polidez que incomoda ainda mais se tratando de livros. Livros, como é óbvio, é o meio em que se oferecem as ideias, as indignações, os medos, a verdade das dores latentes, aquilo que incomoda, que sugere, que faz pensar, que perturba, que causa asco. E os textos por aqui me parecem muito mais formalizados por um ética de boutique, como se o que se vendesse aqui fosse um desses cosméticos cuja propaganda dispensa qualquer tom sombrio para privilegiar o eufemismo feliz. Mas tá…
Como Bolaño diz em um de seus contos, o cotidiano da América Latina é tentar sofregamente se esquivar o máximo possível da violência e do assassinato. Não sei qual o segredo que explique que alguma providência tenha feito a literatura argentina (e a uruguaia, e a chilena) superior à nossa; talvez porque gente como Cortázar e Borges e Sábato e Onetti tenham se antenado a escrever milimetricamente sobre a atmosfera temática de um imaginário literário nacional, corroborando ao mesmo tempo, pelo exercício contínuo, em criá-lo, enquanto nós, por aqui, tenhamos ouvidos insuficientes (ou narizes incapazes o suficiente) para fazermos o mesmo. Bolaño teve que se exilar para poder sentir essa atmosfera distintiva_ e como seria adequado se Bolaño tivesse desviado um pequeno grau na latitude e nascido no Brasil. A escrita no Brasil necessita de ser política, é inevitável. Não é possível a um escritor moçambicano ou a um escritor albanês escrever sobre amores juvenis, tristes pôres-do-sol sem o bem-amado, ou essas firulas todas, com tantas mazelas, tanta corrupção, tantos crimes enrodando seus países em uma multitude de obrigações que tornam a vida de um escritor um fardo. Onde estão nossos Mias Coutos e nossos Kadarés? Chega de poesia tola ou romances engraçadinhos por aqui. Não nos foi oferecido o meio termo. Talvez por isso, a literatura pátria dos últimos 50 anos seja tão inexpressiva: é uma forma de se pagar ao destino a impunidade de tanto silêncio. (Não te parece que depois daquele dia glorioso em que 150 mil tomaram a Rio Branco, as coisas no Brasil ficaram ainda pior?)
Desculpe a verborragia, mas foi o que seu ótimo post (ainda que você deveria ter escrito mais e mais) me despertou.
Abraços.
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“Falar mal do Brasil” como hobbie? Não vejo muita coisa boa para se falar bem do Brasil. Não me venham com essa morte do discurso em falar que se trata de “complexo de vira-lata”. Samba, futebol, mulata, telenovela? Será que é a esse clichê incorrigível que devemos prestar vênias para se falar bem do país? E a comentarista logo abaixo, que disse que nunca viu escritores alemães, norte-americanos ou de que procedência for falando mal de seus países, é porque não deve conhecer muito de literatura e tours literários. Günter Grass, um dos maiores escritores alemães do pós-guerra, fundamentou toda sua obra em condenar os crimes da Alemanha e dos alemães, inclusive fazendo uma mea-culpa em sua autobiografia assumindo sua juventude nas fileiras do partido nazista; e Thomas Bernhard, o inigualável autor austríaco, é quem mais esculacha com o fenótipo vazio de uma Áustria culta e civilizada_ passou sua curta vida respondendo a processos por difamação promovido pelas altas autoridades de seu país, e o ódio de boa parte de seus conterrâneos; e os grandes romancistas norte-americanos não fazem outra coisa que condenar a falácia do sonho americano e apontar os crimes do império (não há crítica mais devastadora ao suicídio coletivo no qual os EUA se lançaram, levando de roldão boa parte do mundo, como a de livros como Cosmópolis, Submundo, a trilogia da vida americana de Philip Roth, etc.); Garcia Márquez colocara como título a seu segundo romance, “Esse povinho de merda”, para mostrar o quanto lhe agradava a alienação e o atraso espiritual dos povoados coronelistas da Colômbia, título trocado pela editora, naturalmente (passou a se chamar, mais inocentemente, “O veneno da madrugada”); Vargas Llosa escreveu que passar meio ano na Europa e retornar ao seu triste e insofismável Peru natal é como levar uma descompressão espiritual traumática; V. S. Naipaul diz, aonde vai, que a liberdade colonial foi o que de pior poderia ter acontecido com os povos da América Latina, pois se relegaram à própria barbárie e à ultra-corrupção interna.
Os autores e intelectuais relevantes, pois, estão longe de exercerem algum tipo de patriotismo e ufanismo na hora de falarem a verdade, e é isso que precisamos fazer por aqui cada vez mais. Falar mal do Brasil não é atestado de falta de amor por ele, mas justo o contrário. Cada vez mais em que desmistificarmos a miséria moral em que vivemos_ e a mentira estúpida de que somos a sexta ou a nona ou a oitava economia do mundo (como se índices de isenção de impostos para empresas estrangeiras virem para cá para explorarem os sub-empregados fossem atestados de melhorias sociais genuínas)_ mais estaremos aptos para forçarmos os reais avanços os quais o país precisa.

Resposta do comentarista Jean:

Charlles Campos, aparentemente você distorceu o entendimento. Desatou a falar das obras, não trouxe exemplos de turnês difamatórias, em nenhum momento vi o último parágrafo da Cecilia Salgado ser desmentido.
Conheço bem essa virulência apatriótica, já tive meus rompantes. O que se cobra, no entanto, é a sabedoria de não fazê-lo fora de lugar ou de propósito, ou de proporção.
Já que falas das obras, o que não estava em causa até agora, anotei ao menos uma desinformação no seu texto, no sentido de forçar uma interpretação na direção conveniente, o que compromete a honestidade do resto, pois depreendo que você não leu o que está a mencionar. Conheço bem a obra do García Márquez, o livro que você menciona se chamou “La mala hora”, “veneno da madrugada” foi uma licença da editora que publicou primeiro no Brasil (editora Sabiá). O “este pueblo de mierda” faz referência a uma fala do coronel que tenta manter o povoado nas rédeas, não uma alusão do autor ao povo. E o livro não é sobre a alienação e o atraso espiritual da Colômbia, o que ele expõe é o caudilhismo e os desvios do poder, e até nota-se certa afinidade com a insurreição silenciosa decorrente.

Eu:

Jean, eu sei perfeitamente o que eu digo. Li tudo de Garcia Márquez, a maior parte de seus livros tanto em espanhol quanto em português, e mais de duas vezes; fiz um trabalho acadêmico sobre ele que ganhou a nota máxima (mesquinharia da minha parte, reconheço). Essa informação de que o livro La mala hora (todo mundo sabe do título original, meu caro, vem entre parênteses em todas as edições lançadas no Brasil), de que se chamaria esse povo de merda, é o próprio GGM quem diz em sua autobiografia, Viver para contar. Não vou procurar a página, mas está lá claramente. O manuscrito do referido romance estava há anos estocado e quase perdido em uma gaveta do autor, até que, devido a dificuldades financeiras, GGM o enviou para um prêmio internacional de romances inéditos da América espanhola, promovido, se não me engano, pela Shell, e obteve o primeiro prêmio. Quem o desmotivou a trocar o nome foi um padre amigo dele. É uma obra com claras influências de Albert Camus, (o primeiro romance dele, La Hojarasca, já que é importante para vc mencionar o orginal espanhol_embora também venha impresso na capa_, era uma emulação do romance Enquanto agonizo, do Faulkner) e é sim uma grande crítica contra a brutalidade dos povoados coronelistas e da alienação popular, na metáfora das mensagens difamatórias pregadas na porta das residências por um desconhecido, de madrugada. Uma crítica de Alfonso Fuenmayor, que era uma espécie de mestre dos novos escritores colombianos da juventude de Márquez, salientava que a carga de contestação impressa na obra tornaria GGM pessoa non grata entre os poderosos da região, profecia que só não se cumpriu porque o livro não despertou muitos leitores.
Se não fui claro quanto aos exemplos de patriotismo dos referidos autores, bom, fica para outro momento.


Só um complemento: em Cem Anos de Solidão há também uma série de críticas soberbas sobre a alienação popular. Em uma das passagens antológicas, um dos José Arcádio Buendía, que presencia o massacre que o exército de coalizão faz ao disparar tiros de metralhadora por sobre o povo rebelado na praça, e se finge de morto no meio de centenas de corpos conduzidos em trens de ferro para uma região de valas abertas, passa todo o romance questionando às pessoas se elas tinham lembranças do ocorrido. Todo mundo afirmava que nunca tinha ouvido falar do massacre. Arcádio morre desiludido pela gritante estupidez do silêncio que o contornava. Esse povo de merda caía bem como título ao Veneno da Madrugada.

Sério que vc não tem nenhum conhecimento sobre as opiniões ácidas desses autores por mim citados sobre as mazelas de seus países?

“Não tínhamos tido tempo nem mesmo para pensar no assunto, quando recebi uma carta do padre Félix Restrepo, presidente da Academia Colombiana da Língua_ que corresponde às academias de letras_ e homem de bem, que havia presidido o júri do prêmio mas não sabia qual era o título do romance. Só então percebi que na pressa da última hora tinha esquecido de escrevê-la na página inicial: Este pueblo de mierda.

Ao saber disso, o padre Restrepo ficou escandalizado, e através de German Vargas me pediu da maneira mais amável possível que eu o trocasse por outro menos brutal, e mais em harmonia com o clima do livro. Após trocar muitas idéias com ele, me decidi por um título que talvez não dissesse muito do drama, mas que lhe servira de bandeira para navegar pelos mares da carolice: La mala hora” (Garcia Marquez, Viver para contar, pp.225, 226.)


Jean, leia “Meu prêmios”, do Bernhard, publicado pela Cia das letras, e verá pelo menos uma comprovação do que eu disse. Nos eventos públicos em que o austríaco falava, faltavam linchá-lo, em especial pelo seu desacato radical mesmo aos prêmios que recebia.