segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Fazer de si mesmo uma mitologia literária



Eu supunha, não sei por quais meios de averiguação apreendidos, que o romance que me faltava ler de Javier Marías, Negro dorso do tempo, era de menor valor entre sua bibliografia particularmente louvável, uma espécie de recreio performático e levianidade memorialística solta que o autor se permitisse como descanso de seus livros maiores. Em razão disso, só fui ler esse título meses depois de tê-lo adquirido, já esgotado, através de uma negociação virtual com um sebo, e fi-lo semana passada, no prazo de quatro dias. Como disse, não me lembro se foi no blog de um aficionado em Marías que eu colhi a impressão de ser uma obra voluntariamente derrisória e, por isso, talvez preguiçosa, ou foi através desses sites de leituras em que se coloca as cifras de uma a cinco estrelas para avaliar o quanto o conjunto de leitores de determinado livro aprovou com deleite o que leu (o que, diga-se como sintoma de alguma coisa, jamais procuraria avalização estelar para um autor tão cheio de particularidades e sutilezas às vezes pouco detectadas por esses esquema de apreciação meritocrática), mas o fato é que tive uma grata surpresa ao ver, à medida que me embrenhava pelas páginas desse romance (ou não-romance) que Negro dorso do tempo está entre as criações do espanhol que mais me deslumbraram. Todos os sete ou oito romances que li dele me deixaram uma profunda impressão, me motivaram por muito tempo a releituras esparsas e a debates solitários comigo mesmo sobre as tantas simbologias e tantas maravilhas perigosamente triviais guardadas nessas páginas, ainda que os melhores entre a quase cruel tarefa de hierarquizar esses títulos pelo que tem de maior valor me pareçam ser seu inigualável romance sobre Oxford, a trilogia que mistura thriller de espionagem com romance ensaio, e a delicadeza conradiana de Os enamoramentos. E agora me chega essa obra que é um paradoxo e um produto do humor mais fino que se chama Negro dorso do tempo, que eu li entre os ruídos de chuva e o céu turbado desses últimos dias e que me dispensarou das vulgaridades do andamento cotidiano e me encheu das possibilidades sérias do universo da literatura; porque é disso que trata negro dorso, não apenas da literatura como estrutura conjuntural acadêmica e seguimento apaixonante de leitores fervorosos, que é o de menos, mas de uma cosmogonia particular de generosa riqueza em que Marías divide com nós suas profundezas de escritor e de ser humano e um tanto da criança investigativa crescida que está por detrás de toda aptidão regiamente cumprida pela escrita.

Marías por vezes despreza o que está escrevendo à medida que vai escrevendo Negro dorso; frequentemente diz que não vai se levantar para pesquisar o nome correto de algum personagem real do passado, ou confirmar a precisão de algum fato que ele cita de memória; uma vez alega que não se levantará de sua máquina de escrever porque, simplesmente, não leva esse livro a sério. Nas primeiras páginas, ele começa essa tendência auto-depreciativa de seu discurso (estava para usar aqui uma palavra que aprendi no livro: galimatia) afirmando que nada que vai escrever ali tem importância, e outra vez ele convida o leitor a pular todo um capítulo que repete e anota acréscimos em uma história já narrada em Todas as almas. Quem conhece Marías sabe que ele é devoto de Sterne_ o que remete, inadvertidamente, a Machado de Assis_, e sabe que tais procedimentos são marcas registradas de Sterne e Machado. Mas o propósito de tanta auto-azucrinação em um autor de outro modo muito seguro de si vai além dessas justificativas canônicas: aos poucos o leitor atento intui que o modelo pretendido aqui é o de Borges, o da construção de labirintos e universos paralelos, ou histórias paralelas, de recuperação de passados e personagens arredios e esquecidos. E Marías cumpre de maneira excelente esse fantástico exercício borgeano: ele não só recria uma cadeia de histórias que envolve escritores esquecidos, como estende a corporalidade do objeto livro que lança ao prelo com uma atmosfera imagética que cria uma aura de mitologia cujo centro é o próprio Marías. Aqui, Marías cria um universo mariasiano, perdoem-me a adjetivação incorreta, em que tudo ronda e retorna ao pensador divinatório Javier Marías; aqui Marías é o historiador, o ensaísta, o romancista abortivo, o regenerador tardio de talentos sepultados; shakespereano patológico, Marías pragmatiza o potencial de auto-suficiência infalível da prediga hamletiana de se intuir o universo em uma casca de noz. Marías aqui nos deleita do extremo envolvimento da literatura, de maneira mais assertiva que Vila-Matas com seus rococós insossos e inconclusivos sobre escritores afásicos.

Nessa simulação de que não leva a sério e que tudo é brincadeira, Marías escreve capítulos que podem muito bem afigurar independentemente entre seus melhores contos. E tudo tendo como escopo uma trivialidade onde parece não oferecer pano para nenhuma sublimidade, como é o caso da narrativa em que trata do casal de livreiros de Oxford que, voltando à sua livraria de livros raros anos depois de tê-los retratado em Todas as almas, Marías teme comicamente que eles o recriminem por algumas características que interpôs ao casal ficcional, como os dentes meio estragados da mulher ou a subserviência à esposa por parte do marido. Em cima dessa expectativa, Marías encena uma riqueza de percepções inesperada, que culmina com um final imprevisível em que a parte supostamente mais fraca se mostra efetiva em aplicar uma singela mas marcante revanche. Essa leveza insustentável da obra lembra os melhores momentos de Henry James, como nos contos sobre o mundo literário de A morte do leão. (Também me fez recordar os melhores momentos de Hemingway, embora destoem por completo o estilo deste com o de Marías; principalmente um dos relatos de Paris é uma festa em que uma absolutamente comezinha descrição de um desentendimento entre um garçom e um dos amigos do escritor se resolve com um final onde se vê a ternura tchecoviana e um insuflar discreto das canções sobre as verdadeiras amizades.)

Marías é tão ardiloso nesta sua composição mais pessoal que o leitor só depois de se deixar levar pela análise inevitável do que está lendo percebe que caiu em uma armadilha. O ensejo da escrita desse romance foi a descrição de todos os percalços de antes, durante e depois da escrita de Todas as almas, seu memorável livro sobre os dois anos que passou em Oxford. Com Negro dorso ele pretende deslindar as polêmicas suscitadas com as possíveis personalidades reais que se identificaram entre os personagens de Todas as almas, pretendendo resolver o assunto em declarar que quase tudo ali era invenção. E Marías nos leva peça por peça, isca por isca, na anatomização daquele seu romance sobre Oxford, promovendo uma confiança em que nos entregamos a ele, por assim dizer, e damos a ele nosso voto irrestrito de que ele está dizendo a verdade. Mas daí vemos o esquema melífluo de que, a título de desencantar a mítica em torno de um livro, ele está a criar uma nova mítica neste novo livro em que ele anuncia matreiramente a depuração das fantasias daquele. Marías não só vai confirmando a existência dos escritores e professores investidos em outros nomes no passado real, que surgem em Todos os nomes, como vai aumento o leque de significados e as biografias desses personagens em Negro dorso, e quem leu além deste livro, descobre que a mitologia mariasiana se amplia infinitamente com as mil e trezentas páginas de Seu rosto amanhã, em que essas mesmas pessoas tornam a reaparecer e novas outras são trazidas para a superfície. A melhor ótica para se contar um romance, disse Marías em uma de suas entrevistas, é a de um fantasma. E, sabendo da paixão dele por literatura de horror, vemos que em todos seus livros aparece essa atmosfera acolhedora dos contos de terror, assim como em todos seus livros sua linguagem oferece um mobiliário de recolhimento total que pouco se encontra entre os romancistas atuais. Uma escrivaninha que apareça em sua história é, na mente do leitor, uma verdadeira escrivaninha, pode-se abri-la e ver, enlevado, os tantos objetos ali dentro que refazem a permanência, por um instante, de antigas pessoas afundadas no olvido da história.

(Marías faz de si mesmo uma mitologia literária. Só vi essa mesma proeza, com a mesma competência, atualmente em Philip Roth, cujos melhores romances são aqueles em que a matéria de suas explorações é pura e simplesmente Philip Roth: por exemplo, não há obra mais interessante de se ler do que as novelas umbiguistas sobre sua fama literária e seu bloqueio de escritor do que as de Zuckerman acorrentado.)

(Em Vivendo no fim dos tempos, livro de Zizék, esse autor fala, lá pelo final, sobre a dessemantização de alguns grupos de artistas e partidários políticos afim de terem voz em um mundo dominado pelo violento senso comum e pela opinião formalizada pela corporação midiática universal. Um exemplo que ele dá é da forma como a esquerda austríaca da Caríntia, província ao sul da Áustria, achou por rebater o lema de unificação de nacionalistas alemães dessa região: "A Caríntia continuará alemã!". Como o debate discursivo era algo já suficientemente gasto e sem eficiência, os opositores pagaram espaços publicitários em vários jornais em que usavam variações sem sentido e deturpadas do lema, tais como: "A Caríntia altinuará conemã!", "A Caríntia lontinuará caemã!", "A Carpintia aconuará tilemã!". Claro que esse é um exemplo de um exercício de dessemantização radical, joyceano, fundado em um humor libertário no melhor estilo de Monty Python [que inclusive tem um sketch famoso em que um ministro britânico responde a uma inquisição sobre como as verbas de moradia estão sendo _ mal_ aplicadas usando uma voz feminina estridente, enquanto o entrevistador do programa vai narrando peça a peça do vestido feminino aberrante que esse ministro está usando], mas essa mesma dessemantização é feita por escritores como Marías, Vila-Matas, Nooteboom, Sebald, que, como arma contra a bestialização e o clichê grosseiro das mega-empresas de entretenimento e opinião formalizadas globais, falam em uma língua pessoal, recolhida e intensa, sobre si mesmos, nada mais que isso: a sinceridade incutida e desvinculada que os tornam indivíduos interessantes.)

15 comentários:

  1. Por mais que não seja biográfico, esse está entre os mais umbiguistas dos seus textos.

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  2. Bom. Não li nada do Marías. Portanto tomo a sua resenha do Negro Dorso aqui como ponto de partida.
    Pareceu-me que você aplicou aqueles mesmos procedimentos umbiguistas de Negro Dorso aqui.
    Mas quando falo em umbiguismo, mind you, você tem que esquecer a idolatria moderna do privado ou o exibicionismo dos tablóides.
    É certo que se pode argumentar que sob um determinado prisma, todo blog é um exercício de si para si mesmo.
    O texto sobre esse Marías me pareceu um desses textos do arquivo pessoal de um autor que só vê a luz do dia postumamente.

    Mundando de assunto. Passamos ontem praticamente o dia inteiro numa consulta com uma neurologista. Três horas de espera mais três de consulta. Um martírio se não fora o prazer de ter conhecido uma das mentes mais instigantes que conheci.
    Dr. Vanek, uma croata de educação clássica européia (palavras dela), radicada primeiro na Inglaterra, depois aqui no Canadá. Citou-me o Fausto em alemão de cor, seguido por Pushkin em russo, depois que confidenciei o meu amor por literatura.

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    1. Faz muito sentido.

      Imagino aqui que prazer é se deparar com uma dessas figuras, Luiz. Peraí, é uma mulher, agora que estou revendo acima. Dra. Vanek? Que maravilha.

      E espero aqui que os resultados dos exames sejam tão bons quanto as circunstâncias dele.

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    2. Mas eu fico pensando frequentemente que o futuro da literatura está aí, Luiz, no culto sistematizado de si mesmo, fazer-se de si mesmo tema da escrita. Em uma entrevista, Marías diz que Dostoiévski e outros escritores canônicos não lhe diz nada (despreza o Ulisses, mas admira os contos de Joyce), e diz que seus maiores autores são Proust e Faulkner. Logo os dois mais intimistas e sistemáticos da história da literatura. Como naquele célebre conto de Borges, em que um pintor pinta uma extensa tela para descobrir depois que acaba de desenhar a figura de seu próprio rosto, os romances de Marías perfaz a biografia completa de Marías. E a grandeza disso é que conhecer o autor é tão carregado de suspense, apreensões, repúdios e ternura quanto ler um romanção de Dumas pai. No mundo de hoje, em que as personalidades são amesquinhadas em prol da individualização numérica, a literatura se revela assim como libertária. A literatura está longe de acabar.

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    3. Não sei se esse prognóstico me conforta, Charlles. Se a literatura intimista que você espera é aquela de Proust, tanto melhor. Embora não uma descoberta, teríamos aí um arremedo salutar. O que eu vejo, sem nenhuma ambição de Cassandra, é uma literatura que abusa da meta-linguagem.
      Sou um leigo, mas o Wittgenstein não disse certa feita que a meta-linguagem do discurso filosófico tornava a filosofia numa doença da linguagem? Vejo o mesmo risco nesse ensimesmamento de uma certa literatura que nem é tão nova assim. Já se via isso nos cinquenta em Blanchot e Bataille.

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    4. Depois de terminar o seu L'Érotisme, chego a conclusão que não gosto muito do Bataille. Mas ainda quero muito ler o seu Estória do Olho.

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    5. Sei que não é novo, nada existe de novo sob o sol, como disse o bardo. Mas esse tom retrô conserva um charme e um poder de eloquência que me parece bem genuíno e renovador. E esses autores sabem que o que fazem, essa metalinguagem equilibrada (às vezes Vila-Matas erra a dose) e essa memorialística, é uma forma de reação. Não há mais grandes sagas em um mundo onde a tendência é a supressão aparente dos conflitos essenciais (essa já era a preocupação de Philip Roth ao invejar os temas que um Ivan Klima tinha em um país onde não havia a impressão de plenitude democrática da América) e a padronização do conforto_ uma coisa que Pynchon fala no Arco-Íris da Gravidade, a "rotinização do carisma". Por isso acho que esse é o grande filão da literatura. Arremedo você: te imploro que leia Todas as almas, do Marías, e vai saber o que estou dizendo. São umas 150 páginas que vai fazer a diferença, acredite em mim (e vc me deve essa revelação, pelo Mishima_ nem falo pelo Onetti).

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  3. Young adult readers 'prefer printed to ebooks'
    Survey finds that 62% of 16 to 24-year-olds prefer traditional books over their digital equivalents
    http://www.theguardian.com/books/2013/nov/25/young-adult-readers-prefer-printed-ebooks?CMP=fb_gu

    Li a história do olho quando adolescente. Na época achei demais; hoje, blé.

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  4. Se quiser te mando por e-mail.

    Tem muitos momentos que acredito não serem muito diferentes dos 'melhores' contos eróticos encontrados pela internet. E é muito pau, buceta e jorro de virilidade que, sei lá... chego a gargalhar, quando imagino que a reação deveria ser outra.

    Me cansa.

    "O orgasmo do touro não é mais violento do que aquele que nos rasgou mutuamente, quebrando nossos lombos, sem que o meu membro recuasse na vulva arrombada e afogada em porra".

    ...

    Última aula do semestre, ganhei três livros do professor Charles: Antologia Pessoal, Valsa para Bruno Stein e O Escorpião da Sexta-feira. Já leram algum?

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    1. Li Valsa para Bruno Stein, para o vestibular de medicina veterinária, leitura requerida. Gostei muito.

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    2. Posso estar enganado, mas isso foi no final dos anos 80_ ou início dos 90. Não gostei do meu xará reclamando da vida de escritor em um conhecido texto dele.

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  5. A mim sempre me parece que os palavrões em português soam mais chulos. O chatinho adolescente do Sallinger na única tradução em português que eu conheço soa como um pivete desbocado, por exemplo.
    Em francês a coisa toda deve ficar mais esteticamente satisfatória.
    Pede para o Charlles te passar o meu e-mail.

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  6. Sobre os palavrões em português eu concordo, tanto que são melhores falados que escritos.

    Que difícil clicar no meu nome e mandar um sinal para o email indicado...

    A mesma parte na versão inglesa:

    A bull's orgasm is not more powerful than the one that wrenched through our loins to tear us to shreds, though without shaking my thick penis out oh that stuffed vulva, which was gorged with come.

    Espanhol:

    El orgasmo del toro no es superior al que, quebrándonos los
    riñones, nos desgarró: mi grueso miembro no retrocedió ni un palmo
    fuera de esa vulva, llena hasta el fondo, saturada de semen.

    Te mandarei as três (não tenho a francesa, sorry).

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