terça-feira, 26 de novembro de 2013

Um súcubo abstêmio



Essa noite eu sonhei mais uma vez com minha antiga paixão da juventude. Eu odeio quando isso acontece, o que não suaviza a ocorrência cada vez mais frequente desses sonhos. Estávamos ela e eu falando sobre como a vida de cada um se resolveu; olhávamos de uma maneira estoica, velha e conformada para o que as tantas aleatoriedades abortadas do acaso fizeram para que estas versões correntes de nós mesmos estivessem cada qual em sua transmutação no sonho adstringindo-se do peso da realidade incorrigível_ como se ela também, a Adriana desse plano de cá dos acontecimentos, tivesse acordado junto a seu marido com a súbita tristeza rememorada ao amanhecer de também ter sonhado comigo. Fôramos e já não somos; somos outros. No sonho ela sorria com sua vertente mais extraordinária de sorriso, aquele um tanto sofrido e sábio, acima do tempo, incólume (a expressão da infalibilidade de sua onisciência, como certa vez escrevi em meu último poema na vida e lhe entreguei, em uma tarde de domingo cuja luz do sol resvalando nas beiradas do edifício onde ela morava era de uma oleosidade hereticamente pueril, demasiadamente terrena), e me dizia algo no estilo "é, como éramos jovens, como aqueles tempos estão fadados a nunca mais retornarem", palavras que eu já não saberia como na verdade seriam para alimentar o script de um sonho, e por isso eu me recordo de suas falas noturnas e secretas como se narradas por uma terceira pessoa. A recorrência desses sonhos reforça a certeza de que sua incapacidade de exercer a vingança sempre determinará que se repitam, por isso me vejo no extremo da velhice recapitulando essa Adriana que nunca envelhecerá, sentada ao meu lado com seus sorrisos puros e seus silêncios entremeando as irrepetíveis frases lapidares como se produzindo o vento de felicidade que me passa pelos cabelos, o cenário nunca é o pátio daquele seu prédio provisório em que tudo era fanaticamente pejorativo diante a sublimidade (hoje vista com toda sua tolice) do amor que eu lhe sentia, mas algum indeterminado quarto ou campina, ou mesmo um isolado e imutável fundo de ônibus onde muitas vezes nos falávamos antes de chegarmos ao destino dela. Um súcubo abstêmio é o que ela é agora para mim, em sua encarnação de sonho. Como nunca poderei vingar de mim mesmo, o súcubo Adriana retorna de dois em dois meses, de três em três meses, ou, quando minha vida está preenchida de pequenas tribulações, de seis em seis meses, mas sempre retorna, para me lembrar desse pacto firmado de que por eu jamais conseguir a resposta_ por eu não tê-la_, ela se sentará sobre meu peito à noite, soprará sobre minhas narinas seus pós de arnica quimérica, e exigirá mais uma vez que eu pague pela minha ignorância. Eu acordei hoje com uma impressão de perda terrível, como se tivesse sido a primeira vez que ela me visitara, e não a centésima ou milionésima; tomei meu café olhando e janela de luz prateada das cinco e meia da manhã molhada pela chuva contínua tentando lembrar o que ela disse, o que seu sereno e infinito sorriso continha de uma lucidez tangente à loucura, por ser fora do tempo, mas não me lembrava. Peguei a estrada rumo ao trabalho ouvindo House of cards, do Radiohead, e era como se o súcubo ainda estivesse ao meu lado, como se o determinante para que desaparecesse fosse minha total dispersão do sono, minha vigília pura (quando isso deve acontecer?, se acontece?), pois a música ressoava o que ela havia dito, o clima de ruína, de uma benemérita falta de forças. Não preciso dizer-lhe que esse produto de setas infinitas de possibilidades que eu sou hoje é alguém dentro de meus padrões céticos de felicidade, que ela não conseguirá muita coisa comigo em termos de desespero a não ser esse desbaratinamento que a mínima palavra ouvida de outra pessoa real, o mínimo cumprimento, vai desfazer. É o tipo com quem não se deve falar, uma entidade deficientemente reflexiva cujo paradoxo é não ter fala e nem ouvidos, ser um murmúrio do qual se retira o que se quer_ e eu não quero retirar nada dali, nenhuma reflexão. Escrevendo isso agora, ao acaso, eu penso ser um passo para que se saiba quem é de nós dois o lado frágil_ ainda que talvez ela mesma já não exista no sentido de ter essa ruminações e esses assaltos morfeicos sobre mim; para ela tudo bem resolvido, tudo bem esquecido, tudo bem amarrado em sua vida em que foi descartada essas chateações da juventude. (Ela sempre odiara a juventude, queria envelhecer o mais rápido possível, por isso um tanto mais valiosos seus sorrisos explosivos de menina absolutamente rendida quando eu lhe pegava nos cabelos e me confessava.)  Quem sabe isso aqui, esse texto escasso e insuficiente, seja o exorcismo final?

10 comentários:

  1. A idéia de uma súcubo ascética é genial, meu caro. (Já que as súcubo são demônios femininos que vêm à noite para engravidar de homens incautos). A idéia de escrever uma memorabilia para exorcisar esse seu súcubo do passado: o motivo pelo qual eu volto dia após dia ao seu blog.
    Saúde, meu amigo!!

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  2. Cara, eu vou ser mais enfático do que de costume.
    Por favor, dá só mais uma mão de revisão nesse excelente mini-conto e manda ele para alguma revista.

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    1. Meu proposito aqui é ser uma ilha, Luiz. Rebata qualquer espontânea pretensão que uma afirmação desse porte acarrete, ou suposta modéstia. Bom que tenha gostado.

      Mas eu sou um homem sentimental. Senti uma saudade inenarrável para o pouco nível de meu comprometimento do Marcos Nunes. Que diabos, isso deve fazer algum sentido...

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    2. Vou tentar macaquear um comentário desapegado do Marcos Nunes para esse seu mini-conto. Espera aí.

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    3. Sei que vão me acusar de ter muito tempo livre nas minhas mãos. Não me importo. Me diverti à beça juntando esse quebra-cabeças da vox Marcos Nunesiana.
      Um pastiche de Marcos Nunes nesse blog, in memoriam:

      Charlles,
      Quanto ao seu texto. Só posso dizer que eu gosto mais dos contos de Kafka. Ficou bem ruim, mas não é para cobrar cientificidade de uma bobagem daquela, não é para cobrar realismo, embora pareça realmente um fundamentalismo às avessas, vômitos e destruição temporária de órgão sãos: conversa de bêbado imersa na pretensa genialidade do artista enquanto boca mole; deixou de perceber que toda sua criação tem como único objeto a autodestruição… Acho que cê devia compor esses textos sob um título em série, assim: "Viralatice I", "Viralatice II", "Viralatice III" e assim por diante. Se extirpar as invencionices babacas à Grandes Sertões e suas firulas místicas ficará perfeito. Me lembrou, infelizmente, das 2 horas em que fui obrigado a aturar, no cinema, o musical Os Miseráveis: me senti abduzido para dentro de um disco da Celine Dion. Argh!
      Erros cometeremos de qualquer maneira, então que o cometamos logo para que eles passem a ser História; senão, como já escreveu o poeta alemão, estamos condenados a nos repetir como farsa…
      Mexa-se, Charlles, senão farei uma antologia de Alt+Tab aqui, com todo auxílio lixioso do acervo internáutico.

      :)

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    4. Todas as frases acima são de autoria de Marcos Nunes nesse blog. Não exatamente nessa ordem, claro. Acho contudo que fui fiel ao seu espírito.
      Marcos Nunes, meu velho. Não me leve à mal. Não demora, ok?

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    5. Cara, me deixou muito desconfiado agora. VOCÊ É O MARCOS NUNES! Ficou idêntico...

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    6. João Antonio Guerra28 de novembro de 2013 15:05

      Ficou incrível!

      (Saudades do Marcos e da Raquel. O blog deles é muito bom)

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  3. Ela não vem se energizar sexualmente, mas sentimentalmente de old memories? Por isso que dura mais que 28 dias então? Hum. Acho que estás chamando por ela, não o contrário...

    "A idéia de escrever uma memorabilia para exorcisar esse seu súcubo do passado: o motivo pelo qual eu volto dia após dia ao seu blog. "

    Também.

    "Por favor, dá só mais uma mão de revisão nesse excelente mini-conto e manda ele para alguma revista. "

    Esse e outros. Mas esse sujeito não me deixa ver nem sua monografia bem conceituada... #chateado

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  4. Também sinto falta do Marcos Nunes.

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