quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Maus, de Art Spiegelman



O Brasil tem um dos piores índices de leitura do mundo, mas os que leem neste país parecem que leem pra valer. Desconsiderando as listas bestiais de best-sellers da Veja, que só reporta os livros comprados pelos que não gostam de ler, há uma lista informal não publicada de mais vendidos que mostra o que estão lendo os que gostam de ler. Para sairmos logo deste começo inglório de um post trava línguas, constantemente me surpreendo com os livros de alta qualidade consumidos por aqui. É com um tom exultante, por exemplo, que a Boitempo anuncia toda vaidosa na folha final de O homem que amava os cachorros que meu volume do romance corresponde à quinta reimpressão, com tiragem de 15 mil exemplares. Tomando por alto, e dedutivamente, esse fantástico livro do Padura deve ter vendido suas 50 mil cópias fácil no Brasil. Outro exemplo, os livros do Philip K. Dick da editora Aleph, não tem um que não esteja, no mínimo, na terceira edição. Os livros do Dostoiévski pela Editora 34 se esgotam facilmente, e não só os 4 grandes romances, mas também os textos menores do russo. Crime e castigo, em sua primeira edição, teve uma fila de frente à mesa do tradutor na data de lançamento, e acabou rapidamente. Eu tenho a sexta edição, de 2009. Seis anos depois, deve estar já na décima. A biografia de Tolstói, assim que foi lançada, eu tive que esperar por um mês, com o livro já comprado, porque a editora estava reeditando-o. Nos informes digitais que a Companhia das Letras me manda, recorrentemente aparece novas edições de Maus, o livro icônico de Art Spiegelman , ganhador do Pulitzer, e um dos mais tocantes relatos sobre o Holocausto. Eu o tinha lido emprestado de um amigo, e sempre foi um fetiche de consumo adiado. Agora tenho o meu, e na 21ª edição. Dá um orgulho em saber que existe um Brasil inteligente sob o cosmético das cifras.

Imunes ao calor do dia



Uma das coisas que me fascina em minha esposa é sua incrível capacidade de resiliência. Resiliência passou a ser a minha palavra mais linda do idioma português, após conhecê-la no livro Colapso, do Jared Diamond. Significa o talento natural e paciência mística e fé incrustada para a regeneração, dar a volta por cima. Mas não só isso, pois para tais significados já existem palavras funcionais de menor impacto. Resiliência remete sub-liminarmente a uma constituição espiritual inviolável, a um acordo antiquíssimo, a um severo nível de concentração que para tal a consciência e a racionalidade em nada contribuem. Essa resiliência a Dani herdou da família, pois a família dela vive saindo de situações de desgraças imensuráveis das quais eu sempre penso: agora quero ver como eles vão fazer, não tem volta. E sempre tem volta. Não dá para avaliar qual foi o último exemplo, mas o mais bonito foi o da irmã da Dani ter dado à luz a uma menina perfeita semana passada, batizada de Ester. Essa irmã sofre de epilepsia, teve ataques violentos durante a gravidez e seguia tomando remédios cujas dosagens eram milimetricamente calculadas para que não acontecesse como em sua primeira gravidez, em que levou o bebê por oito meses no útero e esse foi retirado morto. Em minha mente resiliência se correlaciona, sem que eu saiba explicar, a algo de japonês e judaico.

Um dos textos mais lidos desse blog trata da morte de meu sogro. Ele estava com câncer metastático fazia seis a sete anos, trabalhando e levando a vida normalmente, quando foi brutalmente atropelado. Tem setores da família da Dani que cultuam uma estética pelo grotesco. Antes isso me irritava, eu saía da sala quando tios e sogra e cunhadas começavam a falar sobre morte, assassinatos e doenças. A segunda fase para a minha aceitação dessa inconveniência foi o humor; eu chamo a mãe da Dani de repórter policial, e digo à Dani que para se saber o que vai ser publicado nos tabloides sanguinários é só perguntar em primeira mão para sua mãe. Depois passei a ver isso como um sintoma de uma inocência inofensiva. Depois, quando vi que podia me surpreender ainda mais, passei a cogitar se tal morbidez não se ligava diretamente à resiliência. Como se esse voodoísmo por narrativas de morte fizesse parte da ancestral dança secreta que a família fazia em seu recolhimento efusivo em superar a morte, em tirar um sarro dela. Vi o vídeo da morte do seu Gercino, meu sogro, que o esposo da irmã da Dani postara do Facebook, e fiquei progressivamente indignado ao ver que teve a aceitação da família. Eles retiraram o vídeo após a Dani ter-lhes dito sobre minha indignação. Quando minha sogra nos visitou alguns dias após, na mesa de almoço anunciou com seu ritmo de imprensa marrom que o atropelamento tinha sido tão violento que o laudo médico dizia que seu marido fora castrado. E falava isso com perfeito distanciamento, sem que fosse um desrespeito, sem que mostrasse qualquer abalo em seu luto. Sentado à mesa, com o garfo parado no ar, cogitei se não havia um caráter mexicano a ser afixado à minha compreensão de resiliência.

E aí a coisa extrapolou para um nível absurdo. Um dia, o pedreiro contratado para soldar as brechas no telhado do sótão da casa da minha sogra, para que as pombas parassem de fazer dali sua latrina, desceu as escadas e perguntou, lívido e de olhos arregalados: "Dona Maria, o seu Gercino costumava ficar muito no sótão?", e diante a resposta afirmativa, concluiu: "É que acabo de vê-lo sentado lá em cima". Mesmo com a veemência risonha da dona Maria de que era uma coisa comum todos da casa verem o espírito do morto, o pedreiro se negou a continuar os reparos. A Dani me falou que seu Gercino continuava a morar naquela casa gigantesca que ele levou dez anos para construir e morreu antes de ter dado o passo final instalando o portão. Um dia após a morte, o espelho do quarto da dona Maria, de madrugada, explode. No inventário, a dona Maria sonha com o morto lhe dizendo onde estava o documento perdido para concluir as formalidades cartoriais, e ela acha a papelada caída atrás do armário, conforme apontado. Assim vai, são vários exemplos. (O cunhado da Dani, sócio do seu Gercino em uma pequena empresa, entra em seu carro para ir para o trabalho de manhã, e retorna aos gritos para casa ao ver o morto sentado diligentemente no banco do passageiro.) Para ver o morto, basta subir até o sótão. De madrugada, todos escutam seus passos e o arrastar de coisas lá em cima.

Fui á fazenda onde mora meu velho amigo Galeb, consultá-lo sobre o caso. Ele é um espírita convicto. Fazia bem uns oito meses que não o via. Aos sessenta e três anos, seus joelhos lhe martirizam pelo reumatismo. Junto a ele, na mesma casa, mora agora o dono da propriedade, Breno, um amigo de infância. Sentamos os três no alpendre, tomando café turco, ouvindo os sons da natureza. Breno vem de uma família espírita, Ele narra que seus graves problemas de convivência com um dos filhos vem do fato de que na encarnação passada eles foram inimigos fatais. Diz que tem sérios problemas de saúde, que muito provavelmente não dura mais que três anos. Tem uma cirurgia cardíaca de alto risco agendada para fevereiro, mas não tem medo algum. Tem que pagar pelos tantos crimes de egoísmo e ganância que vem cometendo nesta vida. Eu me surpreendo que seja o mesmo Breno que fala essas coisas, o mesmo cara que eu evitava porque seus assuntos eram sempre os mesmos, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Separado da terceira esposa, só tem para cuidar de si o Galeb, e o aponta e diz com a mesma língua ferina que um usa com o outro: "um bêbado abandonado há anos pela família e que talvez vá embora antes, e eu vou ter que enterrá-lo". O Galeb conta como foi o seu natal, que pegou o ônibus para a casa do filho mas tinha bebido remédios fortes para as dores nas articulações e acabou dormindo e perdendo o ponto. Voltou os vinte quilômetros ultrapassados de carona, e assim que chegou na casa do filho, com tantas pessoas e o tumulto da celebração compulsória do natal, voltou para a fazenda mal o dia clareou. Na casa do filho, amuou em um canto e dormiu, enquanto todos ceavam. Os dois passam a impressão de que falam a partir de uma outra realidade, de uma outra aquisição de tempo. Minha imaginação condicionada por essas história todas me faz pensar se não fui eu mesmo parar em uma espécie de limbo, em uma zona intermediária. Lembro de uma cena em Absalão, Absalão! em que o coronel e seu capataz, que o assassinou, estão ambos sentados em uma continuidade da existência além da morte, imunes ao calor do dia e de todas as aflições terrestres. O capataz diz ao coronel: eles mataram a gente, mas não pegaram a gente, né coroné? Assim minha imaginação sugere que os dois estão ali à minha frente, falando sobre suas mortes, sobre suas incapacidades extremas de suportarem mais viver nesse mundo. Que o nível moral da humanidade nunca esteve tão deplorável, que o mundo dos próximos 50 anos será textualmente um inferno. Uma parte coerente minha aponta que eles falam de barriga cheia, pois moram em um paraíso, cercados com quinhentos pés de mangas de quinhentas qualidades diferentes. Eu conto sobre as aparições do seu Gercino. Eles riem com descansada ternura, como seu eu falasse de uma criança. Isso é a coisa mais comum que existe, me dizem, e seguem naquele papo todo de que existem mais almas errantes do que seres encarnados. Dizem para eu pedir aos familiares que rezem pelo meu sogro, para que ele se aperceba e aceite de que não faz mais parte desse plano, de que aceite que espíritos guias venham lhe buscar, pois estes só podem intervir se solicitados. Eu me despeço deles, e o Galeb me leva até o quarto para me entregar o livro que na última visita eu lhe emprestara. Nessa hora, vendo a cama desfeita e a bagunça acentuada de uma casa com dois homens solteiros, me lembro imediatamente da conversa fiada que corre na cidade sobre os dois. O Galeb me pergunta o por que do riso, eu eu digo que andam dizendo que ele e o Breno assumiram um namoro homossexual. Diante tanto esoterismo, voltar à maledicência corriqueira parece um alívio, e eu analiso com maldade o lençol desfeito e as botas atiradas pelo chão. Imagino aqueles dois senhores atracados naquela cama à noite, sem atrite e sem problemas coronários que os impeçam de se proteger contra o frio desolador da idade e da atmosfera. Galeb diz alguma coisa que não contra-ataca nem nada, de seu jeito que pouco se fode para a opinião alheia. Fica algo insinuante de que talvez uma forma muito verdadeira de intimidade existe mesmo entre eles. Tem um certo grau de interação estoica entre dois homens, que o cu importa bem pouco, ele me diz.

Quando volto para casa, a Dani me diz que a Ester, a filha de sua irmã, havia nascido. Foram duas semanas os médicos dando remédios para que a gestante não desse à luz antes do tempo, para que o bebê não tivesse que ficar na UTI. E agora, a foto da menininha pelo Facebook, toda rosada e gordinha. Não me contenho e digo:

_ Caramba, como seu pai deve estar feliz!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O maior lançamento de 2015


Programado para sair dia 5 de fevereiro, a Cosac Naify mata as possibilidades do mercado editorial já no início do ano de superar esse que é o maior lançamento de 2015, Absalão, Absalão!, de William Faulkner. Pela belíssima capa, que chega a ser mais bonita que a de Luz em agosto, pode-se imaginar que essa edição traz o mesmo primor e o mesmo amor que essa editora dedica a cada um de seus livros. Quem leu Absalão, Absalão! sabe que é o melhor livro de um autor cuja riqueza da bibliografia traz tantas obras-primas que chega a ser perigoso apontar uma como a melhor. Até hoje, só se podia comprar o volume em pré-lançamento pelo site da editora, que traz seus proibitivos preços de frete; eu vinha acessando os sites das principais livrarias e nada, mas consegui comprar pela Livraria Cultura há uns 15 minutos. Já li Absalão umas cinco vezes, em minhas edições escangalhadas da Penguin e da Nova Fronteira, e será um prazer ler mais uma vez agora em um acabamento que faz jus à sua relevância.

Minhas duas edições muito sublinhadas e anotadas

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

À maneira de Nabokov




                                        .....................................................................

Por muito tempo acreditei que a minha família era fincada na obsessiva normalidade do interesse monotemático de seus integrantes pela busca da "grana e poder" para que ela pudesse alegar ter um passado, ter uma dessas histórias que se elipsam em direção infinitamente regressiva rumo a uma mais antiga e centenária árvore genealógica que vemos como característica romântica nos livros. Até o fim da minha adolescência, a convicção de pertencer a um vago agrupamento de pessoas que, por acaso mais protocolar de esporádicos encontros de natal do que propriamente co-sanguíneo, nada tinha de interessante a contar, era uma das poucas coisas insofismáveis da minha vida. Eu tinha tanta certeza de não ser digno das famílias tolstoianas, carregadas de conflitos cósmicos e violências que solidificavam um invejável mutualismo, que nunca pensei nisso, mesmo naqueles anos em que Tolstói e Faulkner eram os pretensos embasamentos da minha assim projetada carreira de escritor. Quando eu me lançava em meus exercícios literários, e ousava inventar algo no estilo de saga de Garcia Marquez, logo percebia a insustentabilidade de toda a frágil simulação de uma memória familiar a ser contada, porque o que eu na verdade tinha de uma ressonante ausência de conhecimento sobre minha família era muito mal substituída por uma imaginação artificial sobre famílias inventadas. 

Passei muitos anos sem escrever nada, me limitando a tecer rápidos rascunhos de romances e contos que eu jamais iria escrever, e que se revelavam como epitáfios de uma intuição maior de algo inapreensível, de um espaço que necessitava urgentemente ser preenchido pelo que cada vez eu sabia que dependia inteiramente de uma cansativa pesquisa interna, e não dos arroubos de fantasias para as quais a criança em mim já estava crescida demais para dar autenticidade. Eu observava a correria cega em que se lançava minha mãe, a provável representante direta com a qual eu tinha mais contato daquela rumorosa suposição de conteúdos secretos a serem revelados, e não sabia mesmo como me aproximar dela, como contê-la com a mão segurando-a delicadamente pelo braço e fazendo-a parar, fazendo-a deixar de realizar aquela dança da "grana e do poder" que haviam incutido nela como uma espécie do mais arraigado muçulmanismo. Eu ria ao imaginar como ela me enxergaria com um espanto abissal se eu tivesse tal coragem, como ela esquivaria-se em um reflexo físico visível diante aquela inconcebível ameaça, o que logo seria substituído, na fração de segundos em que seu instinto de defesa arranjaria a compreensão rápida para dar conta da situação, por um ódio concentrado em ver em mim uma espécie de doença indolente, de feminilidade repugnante, de maluquice confronto à salutar economia emotiva. Por isso eu sempre a deixei em paz, com seus negócios do direito e sua ocupada rotina de me oferecer proteção e entusiasmo combativo pela vida até que eu pudesse me virar por mim mesmo. Uma vez só, por uma espécie de teste de qualificação se aquela severa evasiva poderia ser feita em nosso relacionamento, eu teci um comentário absurdo, que me deixou toldado por uma vergonha profunda logo depois que falei. 

Eu havia encontrado uma série de negativos esquecidos em uma desfarelante caixa de sapatos, ao ser retirado o entulho de um antigo guarda-roupas de um dos quartos da casa, e em um deles me surpreendi com a bela moça de cabelos negros colossais que lhe iam abaixo da cintura que aparecia em um vestido ousadamente curto para a época. Para se ver tais negativos, necessitava-se olhá-los contra a luz por um visor de vidro minúsculo instalado em uma das extremidades de uma caixinha do tamanho de meio polegar, para que os foscos fantasmas brancos se convergissem para as pessoas coloridas que surgiam sempre com sorrisos cuja obsoleta qualidade das cores dava a impressão de se tratar de um mundo programadamente feliz onde tudo se situava sob a iluminação de um estúdio fotográfico. Por mais que tais fotos pudessem ser recentes, o que não era o caso daquelas, as cores tinham essa característica de uma memória materializada sob um sol baço e antiquado, como se desgastada pela viagem que fizeram do subconsciente até a impressão no fotolito. Eu fui enganado pela impressão dispendida por essas cores, de ser algo já acontecido há tanto tempo que estava imune da ironia e da inerente acusação contra o passar do tempo, e falei à minha mãe: "Percebo que uma das coisas que herdei de meu pai foi o gosto pelas guapas paraguaias". O erro foi que ela entendeu de imediato. Na mesma velocidade em que a vergonha me incapacitou instantaneamente na cadeira da cozinha, aquela luz perigosa de ser confrontada por um desvio padrão em seu rígido sistema de homeostase doméstica acendeu nos olhos da minha mãe. Nessas horas raríssimas, que eu conservo talvez, além deste, dois ou três episódios de reação semelhante, eu poderia esperar tanto um tapa, quanto um laconismo de um trovão divinatório que não admitia resposta me mandando para o castigo no quarto, mas aquele mutismo que se seguiu ao que minha alma se congelou ao averiguar se tratar de um ar de mofa, de uma superior resignação quanto à minha incorrigível aptidão para o infatiloidismo, destruiu muitas estruturas que eu havia erigido em meu caráter e que eu até então achava serem inabaláveis. Se me sobrasse o artifício ainda mais pueril do choro, eu teria recorrido a ele naquele momento, o que na certa seria benéfico como resposta de capitulação generalizada diante sua inteligência, mas nem isso eu pude fazer. Ela viu no bolso da minha camisa a caixinha ótica vermelha com o negativo e a lente, e conservou seu silêncio; em suma, a caixa de negativos não representava nada para ela, coisa que eu só fui perceber ter caído em mais um engano das aparências quando a linha temporariamente obstruída de sua vaidade ganhasse uma reconversão muscular anos depois, em que lhe pesava muito perceber o quanto sua vida fora desgastada em artifícios sibilinos demais de tão óbvios para não serem senão tardiamente perceptíveis, e aquela bela moça das fotos passar a ser sua inimiga mortal, sua confrontante melíflua que sempre estava para lhe esnobar daquele mundo eterno a sua sensaboria inglória, sua velhice sem explicação. 

Ela não requereu a caixa de negativos de mim. Bebeu seu copo de suco de pêssego, após ter diligentemente ingerido seu último pedaço de bife, e se retirou da mesa levando o prato sujo para a pia. O cerne daquele conflito sutil era a vulgaridade do que ela via constantemente em meu pai ressurgindo com uma assertividade anacronicamente sem retoques em seu filho para que pudesse ter um selo de maldição parental. Era uma gratuidade grosseira demais minha tentativa de explorar outras opções de discurso para que alguma emanação de recalques edipianos partisse daquela minha frase infeliz. Eu era apenas vazio, ela concluíra, enquanto jogava os restos do arroz na caixa de lixo ao lado da torneira da pia, e aquilo era o tipo de autenticidade falsa que nenhuma trabalhadora e estudante de direito compulsivo mereceria ter para quebrar o precioso silêncio da companhia tática que tínhamos na hora da janta. Eu recoloquei a caixa de negativos em seu lugar, plantando-a com zelo em seu ninho de caos no guarda-roupas, e jamais tornei a olhar aquelas fotos que hoje me seriam valiosíssimas, que hoje daria um de meus dedos à escolha por elas. Eu havia visto cada uma delas, muitas e muitas vezes, de forma que me lembro do conteúdo de algumas com matemática precisão. Meu pai aparecia sempre muito negro nelas, ele que era um moreno médio que lembrava certas tonalidades mediterrâneas, com seu topete de cantor de rock dos anos 50, seu ar de lascívia etílica que era mais uma outra expressão de sua timidez do que propriamente distinção erótica outorgada pela guitarra que levava onipresente junto a si. Meus tios e tias com seus 20 anos, naquela cidade provinciana em que o destino era mais uma conformação geográfica cujo andamento se individualizava em fios centrífugos a alimentar em todos os aventureiros da diáspora a nostalgia do retorno para o coreto da praça, para o bar do Anfimônio, para o cinema Espártaco, para os carros de latarias tão duras quanto se fazia necessário um padrão de indústria também contaminada por aquela ingenuidade primeva que ainda não tinha descoberto o enorme potencial de riqueza que havia na perecividade. Todos desapiedadamente jovens. Se fosse acreditar em uma entidade do mal controladora, o próprio tempo havia tirado as fotos, para poder colar aquela coleção de entusiásticos de uma saúde e beleza eternas em seu mural onde cada uma se revoluteava em agonia em torno da agulha de aço cravada nos peitos como fazem as borboletas em seus últimos instantes de vida combativa fincadas no mostruário. 

Muitos dias depois vi minha mãe sentada no chão do quarto, com a caixa no colo, se dedicando a olhar cada um dos negativos com seu olho levemente estarrecido em que se permitia o encanto, enquanto o outro olho se fechava com determinação para assim toda a mágica daquelas cores ultra-dimensionais pudesse ser captada. Ela não viu que eu a via. Talvez aquele fosse o momento que minha imprudência havia antecipado equivocadamente para aquele mal fadado jantar, e vendo agora de minha idade madura, de minha posição já calosamente acostumada com tantos medos a ponto de eles terem ficado tão desbotados quanto as cores dos fotogramas, eu deveria ter saído de meu esconderijo e ousado fazer da ocasião o ponto zero para uma nova etapa de comunicação com minha mãe. Imagino-me na impossível atitude de me sentar ao lado dela e pegar os fotogramas sem lhe dizer nada e compartilhar com ela aquela experiência. Por que seria tão difícil?, por que a distância entre a soleira da porta até os poucos metros onde ela estava se prolongaram infinitamente? Um medo idiota, uma vergonha imbecil. De todas as possibilidades que cada um de nós negamos existir quando se pergunta se se tem algo do que se arrepender, não me são mais insuportáveis o beijo não dado quando era o momento irrepetível em que ele deveria ser dado, nem a prova que não foi feita para o emprego dos sonhos, nem a viagem recusada onde o mundo nas fotos parecia nunca mais ser possível de voltar a ter o mesmo maravilhamento, nem as tantas e infindáveis palavras que nasceram para os tantos e infindáveis momentos em que contudo elas foram abortadas; mas o que me causa mais um insuportável arrependimento é justo a aceitação besta da inexorável imutabilidade do instante, da impressão conformada de que o instante está pronto e sem direito algum a sair um milímetro sequer de sua previsibilidade. O que me dói é o peso que suportei por anos de que certas coisas são imutáveis, que não possuem a comburência sensível dos incríveis atos de espontaneidade louca para os quais parecem ser feitas nosso arrependimento de não termos sido loucos à altura. Se eu tivesse ido até ela, mesmo para receber uma resposta ainda mais destruidora, se muito de nossos mundos pessoais não tivessem se tornado outra coisa completamente diferentes do acidente que fora, ao menos aquelas fotos, tenho certeza, teriam se conservado.

                                          ................................................................

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Na sala escura


Sentindo-me como um cãozinho completamente entregue em que lhe afagam a barriga.

Mais uma belíssima obra disponibilizada pelo PQP Bach.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Lendo O homem que amava os cachorros



Em um episódio da antiga série de tv Twilight zone, a moderna legislação penal determina que o criminoso seja punido pela invisibilidade consensual. Vemos um homem condenado andando pela cidade, com um selo de invisibilidade preso à roupa, o que impõe que todo mundo seja absolutamente indiferente à sua existência. Todos o veem mas fazem que não. Em um restaurante, o garçom não o atende. Na igreja, o padre passa por ele simulando não ter ninguém ali. Uma vez um cego chega a lhe responder, mas um alarme estridente soa através de um dispositivo denunciador na rua, ligado ao selo, e o cego sai enfurecido chamando o homem de canalha. O que impressiona nessa história, além do desespero da solidão "por entre as gentes", é a organização conseguida para que todos se comportem com a mesma impiedade e o mesmo controle social. Lembrei desse filme enquanto lia as primeiras cem páginas de O homem que amava os cachorros, excelente romance escrito pelo cubano Leonardo Padura, que narra os últimos anos de Trotski até seu assassinato no México, cometido por Ramón Mercader. Padura descreve o opressivo isolamento de Trotski assim que é banido da União Soviética, um isolamento em que todos os países do mundo lhe barram a entrada, ou por temor de sua ação revolucionária, ou por verem-no justamente como um traidor dessa ação revolucionária. O único que aceita recebê-lo com as honras dúbias de exilado é o presidente da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, que o isola em uma ilha de pescadores imolada pela história e pelo tempo. Padura vai contrapondo capítulos com a narrativa sobre Trotski e Mercader, antes que se dê o fatal encontro, ao mesmo tempo em que intermeia a história pessoal de um narrador alter-ego e sua vida miserável em Cuba. Até aqui o livro é sensacional. Padura tem um estilo talvez insuficientemente desprendido da influência de Garcia Marquez, o que acarreta a vingança colateral de ter escrito com esse livro um romance histórico cuja grandeza ensombrece em muito a tentativa fracassada do mestre no mesmo gênero. E a edição da Boitempo traz essa emblemática junção de impecável qualidade com um certo extasiamento partidário. Os menos avisados leitores talvez achem que há proselitismo maçante nas fotos de Trotski nas capas e contracapas, na foto de Lenin com um gato (e a menção à comemoração dos 90 anos de sua morte), e no estudo histórico da introdução, e talvez tais leitores não estejam tão equivocados.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Leck mich im Arsch



Nos extras da edição em blu-ray dos 30 anos de O sentido da vida, há um vídeo de 1 hora de duração feito no ano passado em que os python fazem uma mesa redonda onde se dedicam a falar livremente sobre vários assuntos. Estão sentados em uma pequena sala em Londres, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto em um monitor de tv colocado ao centro aparece on-line um Eric Idle com os olhos inchados pelo fuso horário de ter que acordar às 3 da manhã em sua casa nos EUA. É uma dessas ocasiões em que se sente a nostalgia antecipada de estar vivendo talvez um último momento histórico promovido por esses artistas inigualáveis e intelectuais do humor para os quais chamá-los de revolucionários é recair em um clichê empobrecido. Ainda que essa tristeza que o expectador sente diante a impossibilidade de resgatar essa uma hora do efêmero parece não ser sentida pelos 5 septuagenários ali presentes, pois estes falam e contam piadas e relembram com um poder mental que não equivale ao prejulgamento de suas idades, e planejam fazer um filme com os sketches não filmados de O sentido da vida. O grupo fala que grande parte do que fizeram seria impossível de ser feito hoje em dia, devido ao politicamente correto. Cleese diz sobre seu espanto da primeira vez que lhe falaram que  o sketche Ministry of Silly Walks seria condenado por ser ofensivo aos deficientes físicos, ou de que a cena do papagaio morto seria uma apologia à violência contra animais. E Gilliam diz que o mundo atual padece de uma indeterminação, de um anuviamento, em que as pessoas, por terem somente noções indeterminadas de pre-conceitos, usam julgamentos exacerbados como escudo de prevenção contra a falta de conteúdos gerais.

Assim como recentemente vi em uma entrevista com o Mario Vargas Llosa, eles, como o escritor peruano, demonstram uma total indiferença quanto à morte, o que configura a todos uma tardia  e perpétua juventude na qual cabe uma série de planejamentos futuros. Eric Idle diz que espera não haver uma vida após a morte, com a qual se revelaria muito cansado; já Cleese, que parece ser o eterno enfant terrible do grupo, diz não descartar a hipótese, e põe-se a narrar, com uma erudição prodigiosa, sobre experiências científicas de consciência além do corpo, ao mesmo tempo que ridiculariza o ateísmo desesperadamente iconoclasta de gente como Richard Dawkins. Cada um dos python conserva uma inocência, uma predisposição ao assombro, um maravilhamento, de tal forma que parece que tentam controlar isso para que a espontaneidade do momento não sobressaia à astúcia de terem de se mostrar bem situados na maturidade. No final, um deles diz que seria bom tornarem a se encontrar todos juntos novamente, mas dessa vez sem as câmeras, ao que um outro, com uma ironia sempre provocadora, responde: "Mas daí qual seria o sentido?"

                                                       ________________________________

Alguns tem dito sobre a grosseria das charges da Charlie Hebdo. São desenhos mesmo os mais grosseiros e muitas vezes sem a mínima calibragem de humor e bom gosto. Causariam repulsa se, ao mesmo tempo, não houvesse a clara evidência de serem deliberadamente idiotas e infantis. Uma charge* como a que acabo de ver, em que a trindade cristã é representada em uma atitude escatológica que parece ter nascido de uma criança de 7 anos paupérrima em saúde mental, só poderia suscitar discussões sérias a respeito se fosse um produto isolado, uma exceção. Acontece que toda a temática da Charlie Hebdo é essa: a da iconoclastia sem método, sem charme, sem compostura, sem sutileza, propositalmente sem inteligência. A infâmia pela infâmia. E aqui, os críticos que caem na relativização dos atentados ao colocarem a culpa no barbarismo iconoclasta dos chargistas, críticos estes que se julgam muito cultos e conhecedores do que é bom gosto em termos de cultura, revelam uma drástica limitação, pois parecem desconhecer a verdade de que a grosseria, o mau gosto, está na raiz não só da cultura, mas da alta cultura. Se a Charlie apresenta um personagem santo, ou o próprio deus, na situação inconcebível de ter o ânus penetrado seja por um triângulo de luz, seja por qual objeto for, a memória do douto defensor de que os desenhistas de uma tal descompostura fizeram por merecer o destino que tiveram, deveria se lembrar de James Joyce, Rabelais, Shakespeare, Mozart, Dostoiévski, Petrônio, Pynchon, Gunter Grass, e uma série interminável de outros criadores.

James Joyce, não só em suas cartas a Nora Barnacle, que talvez sejam pessoais demais para serem exemplos de "mau gosto", mas em várias passagens de Ulisses. Eu poderia citar vários exemplos de grosseria em Ulisses, mas me limito a uma mesma cena de penetração anal por uma leguminosa no capítulo final da parte 2, capítulo esse recheado de situações com o mínimo do mínimo de etiqueta e bom gosto. Rabelais, em um dos capítulos iniciais de Gargântua, faz seu gigante promover um longo discurso sobre qual a tecitura ideal para um limpador de bunda perfeito. Shakespeare é, conforme Tolstói disse em um saboroso ensaio a respeito, o exemplo talvez máximo das letras do que seja o mau gosto e a ausência de finesse. Mozart tem em seu catálogo, extenso em peças obscenas, um cânone para seis vozes intitulado Leck mich im Arsch (Lamba meu cu). Dostoiévski é povoado de personagens grosseiros, como os que promovem uma cena em O idiota de cuspes mútuos. Quem aguentar ler as primeiras páginas de Satyricon sem embrulhar o estômago merece um prêmio, principalmente as descrições de um banquete em que sobressaem vulvas de todos os gêneros cortadas e coladas por cima de porcos assados e sobremesas exuberantes; e Petrônio foi um dos escritores preferidos de Nietzsche. Pynchon escreveu uma das mais grotescas (e talvez única) cena de coprofagia da história da literatura, entre as tantas desfaçatezes que escreveu em seus livros. Gunter Grass nem se fala. Garcia Márquez nem se fala.

É uma desculpa à apologia ao terrorismo dizer que o mau gosto justifica o massacre. É tão grosseiro ver a gritante desumanidade de um argumentos destes, que a mente esclarecida passa a enxergar o quanto uma revista como a Charlie Hebdo é imprescindível. Gente como o cartunista Latuff, como alguns outros oportunistas que pegam carona para se promoverem com o fato, dizendo que jamais trabalharia na Charlie Hebdo, e expedindo um discurso pseudo-engajado cheio de tons pomposos. Personificam o islã como vítima ao mesmo tempo em que não veem a incoerência de representarem o islã nos terroristas ao relativizar-lhes a culpa. Não tem o bom senso de afirmarem que os que professam com seriedade a religião de Maomé nada tem a ver com esses terroristas, mas confundem ainda mais o discurso de suas cartilhas de correção política ao condenarem os cartunistas massacrados, porque eles mexeram indevidamente com o islã. Se fosse em um tribunal de júri, eles seriam as principais testemunhas de acusação contra o islã, e não seus defensores, como supõem. Em contraposição a essa pelica exagerada, a essa assepsia do toque, a essa intelectualidade de salão que vemos no Brasil, uma revista como a Charlie Hebdo é um soco no estômago desses esnobes oportunistas, esses carniceiros engajados em sobrepujarem a falta de talento com suas vozes de carpideiras solenes. O que sobra disso tudo é que a Charlie Hebdo passa a ser um ícone de genialidade, fundamentada pela prova de que o riso é muito mais perigoso do que a doença dos que não sabem rir e tem uma exagerada noção de suas importâncias; passa a ter a próxima tiragem, de uns poucos mil, para mais de um milhão, e reforça a até então indeterminada função exercida de ser o sub-consciente livre de uma sociedade cada vez mais obstruída pelo enrijecimento mental. É claro que alguém como o Latuff jamais trabalharia lá.

* Ao ver um desses cartuns da revista, me voltou na lembrança a época em que eu tinha verdadeiro horror diante a proibição taxativa na Bíblia de que o único pecado realmente sem perdão era blasfemar contra o espírito santo. Poderia-se fazer tudo, matar, desejar a mulher do próximo, traficar drogas, cometer um genocídio, que bastava pedir perdão à misericórdia divina e estaria tudo resolvido, mas se a mente incauta, ainda mais com o cérebro diabolicamente provocado pela sentença, resolvesse associar o espírito santo a um xingamento, aí seria só esperar o inferno para toda a eternidade. Passei por verdadeiros martírios com isso, pois por mais que vivesse me policiando, uma vozinha em meu interior debulhava um sem número de imagens inenarráveis em que o espírito santo aparecia metido em todo tipo de putaria e viadagens.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Michel Houellebecq e suas tentativas de relevância



A leitura desse fenômeno de vendas, chamado Michel Houellebecq, suscita muitas cogitações sobre o que vem a ser carisma na literatura contemporânea. Houellebecq é retorcido com certa insistência pelos seus leitores bem intencionados para caber no molde de um Jonathan Swift e de um Albert Camus, e mesmo em suas primeiras obras ele tendo demonstrado não ter nenhum propósito de se equivaler a esses modelos, já em seus romances mais recentes vem reagindo passivamente à essa necessidade de entendimento talvez de forma inconsciente. Em seu romance Plataforma, quando a temática das novas investiduras da dominação global através do turismo sexual dos antigos dominadores nas ex-colônias se junta à repercussão de um polêmica criada e exagerada pelos jornais, o carisma com muitas lacunas do autor sofre uma espécie de eufemização na tentativa de ver sarcasmo sofisticado no que aparentemente é apenas um niilismo grosseiro e uma astuta adequação ao que o público ávido por comprar livros requer. Tudo não passa de uma estratégia mercantil: o mercado encontra um escritor que polemiza dentro do gosto do freguês, e a mídia se apressa a potencializar o escândalo de uma elegante má reputação também ela com olhos raposinos nos lucros. É o par com sintonia perfeita para alimentar a fama e a glória para ambos os lados_ quantos jornalistas e formadores de opinião não passaram a se beneficiar largamente com documentários, reportagens e livros sobre Houellebecq?_: Houellebecq escreve Plataforma, um romance que só com muita credulidade poderia matizar delicadezas pontuais da política moderna como o turismo sexual e o islamismo, e a mídia ecoa com uma sensibilidade simuladamente ultrajada que realmente o autor brutaliza tanto o turismo sexual quanto o islamismo. Talvez o que satisfaz em primeiro plano o leitor nem seja a controversa, mas os mobiliários de cena os quais Houellebecq é pródigo em oferecer_ como paisagens, o tédio dos aeroportos e os apartamentos aquecidos de Paris_, mas a premissa sustentada pela propaganda feita para as sublimidades de sua escrita passa a dar a impressão ao leitor de que ele está ganhando algo mais profundo do que um simples hedonismo de viagem: há ali uma sarcasmo político, um humanismo às avessas, uma fina experiência filosófica. Quando Houellebecq escreve todo um romance sobre turismo sexual, que qualquer um levemente bem informado sabe ser uma característica de todos os países, algo notório e incapaz de provocar surpresas, o imaginário criado como áurea à sua mensagem secreta é que quando ele aparenta defender a exploração de meninas em países subdesenvolvidos ele está, na verdade, emulando Swift quando este satiriza que a solução para conter a desigualdade social da Irlanda é comer os filhos dos irlandeses pobres. E no seguimento dessa colaboração entre escritor e mídia publicitária, Houellebecq encerra Plataforma com um massacre provocado por islamitas, o que dá à obra uma segunda vertente de incorreção. Se o leitor tiver ânimo para uma segunda leitura de Plataforma, verá que sua primeira impressão é a certa, de que tal romance tem 400 páginas dedicadas a descrições sexuais de uma insensibilização fisiológica (com uma repetição da frase, que é uma assinatura do autor em todos os seus livros: "ejaculei violentamente"), e uma longa e morosa catalogação sobre a burocracia de como funciona uma agencia de turismo internacional. Não que Houellebecq seja mal escritor, mas a questão é que ele parece ter perdido a mão, parece que seu excepcional talento demonstrado nesta que é sua única grande obra, Partículas elementares, se limita agora apenas a um bom cenógrafo. 

Uma recente pesquisa apontou que as crianças mais bem educadas do mundo são as francesas. Elas não fazem bagunça em aviões, elas não gritam, elas não pulam, elas não atravessam os assuntos dos adultos, elas não dão birra: uma criança francesa, pelo que enalteceu as revistas que ensinam as etiquetas do bom comportamento para famílias abastadas, para todos os efeitos do bem público, simplesmente não existe. Elas estão lá como composição do ambiente, mas são esvaziadas desde muito pequenas de qualquer potencial de perturbação. O segredo para se obter uma criança destas, reproduz por nossa terras virtuais o site da revista Veja, é porque os franceses não as tratam como crianças, os franceses deixam bem claro que as vidas dos pais estão desvinculadas das vidas de seus filhos, no tocante a tudo que esteja externo à manutenção financeira de seus estudos, alimentação e saúde. O carinho é algo protocolar, biológico, como deve ser entre bons conviventes de idades diametralmente opostas e que só por um acaso envolve detalhes escatológicos triviais como a gravidez e amamentação. Eu sempre achei que a excepcional assepsia da educação parental dos franceses determinou toda a literatura francesa. Determinou que seja algo impossível para a literatura francesa gerar um escritor como Kafka, por exemplo; e determinou que a atmosfera de abandono cósmico pretendido por Beckett para seus romances tenha levado Beckett a optar escrevê-los em francês. Nenhum escritor francês jamais teria a capacidade idiossincrática de centrar a figura do pai em sua obra, como fez Kafka, nem nas complexas identificações deístas do pai como em O processo e O castelo, nem mesmo no mais pungente debate com a tirania caseira do pai em Carta ao pai. Para um escritor francês, a figura do pai é meramente um assombro muito bem estancado em eras passadas a ponto de se tornar um reminiscente sem nenhum apelo filosófico em seus genes; o pai na literatura francesa tem um peso bovino, de animal associado a ilesas características reprodutoras, de uma figura que aparece nas fotos com uma seca intranscendência que é visto pelo seu filho com a falta de qualquer necessidade de esgotamento racional; o pai poupou o filho de especulações esotéricas, de nostalgias emocionalmente pouco econômicas e desgastantes; o pai oferece ao filho o dever de devolver no final da vida do pai a mesma polidez de ausência de toques desnecessários que este outorgou ao filho, na infância. Mesmo Camus, o menos francês dos escritores em francês, fracassou diante o abismo de tentar escrever uma elegia mais ocidental a seu pai, em O primeiro homem, quando todas as suas pretendidas observações sobre o túmulo do pai se transformam no mesmo ruído proximal e sem fôlego, expirado com pressa. E por isso o mais próximo do afeto paternal que se encontra na expressão francesa seja o da eutanásia do pai: seja no filme As invasões bárbaras, ou no romance de Houellebecq, O mapa e o território. Mas algo tão reativo para a arte como a figura do pai não é extirpado sem sérias consequências estéticas e significantes: a literatura francesa moderna é incapaz de se beneficiar da riqueza do tema da paternidade (temos aqui a mais gritante das exceções à regra na figura de Proust, principalmente na tocante e belíssima relação de paternidade entre o sr. Vinteuil e sua filha, que se acentua e perde todos os atenuantes regidos na educação da filha somente após a morte do pai, e na relação peculiar e terna do narrador com sua mãe).

Isso é amplamente visto nos romances de Houellebecq. Para nós, leitores sul-americanos, a assepsia da importância do pai é ainda mais implacável, nós que sempre fomos muito mau criados em nossos mimos de compensações supersticiosas e nossas balanças de afeto católicas, o que para o leitor francês de Houellebcq não passa de pedantismo circunstancial. Essa ausência de esoterismo afeta muito a qualidade da mais ambiciosa obra de Houellebecq, O mapa e o território. Esse romance é a prova de força do que sobra do carisma do autor quando ele tenta dar-se autonomia de escritor relevante negando-se a manter um contrato tão evidente de recíprocas garantias com a mídia polemista. Neste romance Houllebecq abre mão do sexo (há poucas cenas, e a usual frase "ejaculou violentamente"), não o colocando como um dos pés da obra; e aqui ele não recorre ao escândalo ou à maledicência. Sua tentativa de autonomia é respeitável, mas o que ele pretende ser a aproximação ao patamar sério de um Camus, acaba mostrando vários defeitos na obra. O defeito recorrente é o unidimensionalismo dos personagens: o herói da trama é bonzinho demais, racional demais, se permitindo um arroubo de violência moderada no final para ganhar legitimidade. As mulheres ainda são as sacerdotisas agradecidas dos desejos dos machos, que muito tem colaborado para as feministas verem no autor a encarnação do demônio, mas com menos disposição ao sacerdócio do que aparecem nos outros romances: elas arvoram uma inédita independência, sendo que a namorada do herói o deixa pela carreira profissional_ aqui, pela primeira vez, Houllebecq permite que uma de suas mulheres tenha humor, na figura da promotora de exposições do herói. O segundo e mais grave erro foi a técnica mal sucedida do próprio autor se pôr como um personagem no livo: na verdade é o que o livro tem de melhor, um Houellebecq pouco higiênico e com abstrusões de humor, mas o sentido da coisa fica incompreensível e a brutalidade da resolução dada ao artifício dá a impressão de uma mera comicidade gratuita.

A parte genuína da obra, a que parece capaz de alçar Houellebecq para um novo patamar, é a relação entre o pintor e herói da narrativa, Jed Martin, com seu pai. Martin é um recente milionário das artes, e seu pai é um profissional do ramo da arquitetura que está prestes a enfrentar o vazio de uma aposentadoria sem os vícios urbanos do excesso benemérito de trabalho. A convivência entre os dois, como não haveria de deixar de ser, é fria, distanciada, monologal, mecânica. Todo o peso da excepcional educação pragmática é visto na vida de Martin: seu determinismo ao sucesso, seu apartamento de alto luxo sem mobília em que ele dorme em um colchonete suportando o ronco do aquecedor sempre estragado, seus meses em que fica trancado em casa pintando, sem falar com ninguém, ao ponto de um simples pedido em uma padaria ser um esforço de desatrofiamento das cordas vocais. Martin vive a angústia de sua mãe ter suicidado antes que sua memória infantil pudesse perpetuar uma imagem dela. Martin é muito francês em seu polimento e suas reservas, em seu humanismo embutido aquém da racionalização. É o mais humano dos personagens de Houllebecq, em uma bibliografia recheada de personagens que estão situados além do bem e do mal, o mais próximo a um desentronamento de seu casulo para ser aquecido por uma impressão de alteridade. Uma vez, sem motivo algum, ele desce de seu apartamento e vai até o escritório do pai, apenas para estar diante dele, sabendo que a mesma inexorável falta de assunto vai abater sobre eles. O pai o recebe esbaforido, em pleno meio de um dia hipertensivo, e o repreende por assustá-lo e pelo nonsense da visita. Tempos depois, o próprio pai o visita, e eles bebem junto, num clima de intimidade desconcertante de uma primeira vez, e com o laconismo de sempre o pai lhe diz que vai recorrer à eutanásia em uma clínica suíça, porque se nega suportar o tratamento de um câncer de reto. É a última vez que se veem. Martin, em um novo arroubo, parte para procurar a clínica suíça para saber sobre os últimos momentos do pai, e encontra um prédio branco límpido e com a pureza sem exaltação dos muito ricos e muito civilizados. Lá, ele é atendido por uma mulher insípida e crua, avessa sem a mínima paciência a atender à vontade de Martin de saber o que seu pai viu e falou em seus momentos finais. Ele a soca e a espanca violentamente, a deixando atirada em evidente coma no chão, e sai diligentemente até o aeroporto, contando ser preso a qualquer hora. Neste momento, se fosse um filme, a plateia do cinema com certeza teria se regozijado em gritos e batido palmas. Martin vê que uma clínica destinada a multi-milionários jamais iria procurar os noticiários com algo uma denúncia de espancamento, e ele chega de volta à Paris. Quando ele estava procurando a clínica, um erro de interpretação idiomática faz com que o taxista o leve a um bordel de luxo. Houellebcq faz um novo esforço em adstringir o peso da vida com comparações do quanto seria melhor se o pai de Martin tivesse recorrido ao hedonismo do braço daquelas moças, no final da vida, em vez da solução da clínica. Inconscientemente ele acabou transformando todo o bem engendrado mobiliário de cena apto para reflexões mais profundas no mesmo clichê dessa vez sexualmente ponderado de seus outros livros. O único alcance obtido foi esse: a figura do pai fracassa em produzir algo substancial e vira uma decantada comédia. O que é revelado como mais diagnóstico desse fracasso é que o pai de Martin, na juventude, sonhou ser também um artista.

O vazio da paternidade é o tema de O mapa e o território. O personagem mais interessante, um chefe de polícia que é lamentavelmente aposentado da narrativa sem qualquer explicação próximo ao término do romance, é um pai fracassado por causa de sua oligoespermia, a quase nula produção de esperma. Isso que ele considera a maior dor da sua vida é contornada com o lenitivo da criação de um cachorrinho e de uma vida atenções sanitárias recíprocas com a sua esposa. O próprio Houellebecq que aparece no livro é um órfão sedimentado, um órfão insofismável. O órfão padrão francês, com selo de qualidade. E tudo passa. A vida deles todos passa e é descrita até o fim a decomposição rumo à velhice e à morte de Martin. E o romance termina com a tristeza cada vez mais plástica e vazia de Houellebecq, que o conclui com o carisma típico de um escritor famoso que se sustenta pelo comedimento chique e pela competência de mobiliar bem a narrativa. Há uma tentativa de criticar a sociedade de consumo num novo coisismo em que Houllebecq faz de seu livro uma repetição da obra consumida, descrevendo manuais de funcionamento de carros e outros utensílios do desejo do homem moderno comum.

É impossível não se questionar por que Houellebecq é um dos escritores que mais se vendem no panorama atual das letras. Seus leitores são como ele? Ele fala o que pensa? Ele é uma forma ultra-moderna de sátiro? O que eu acho é que Houellebecq expressa muito mais sobre o que realmente é em seus livros, e o fato de ser brutalmente assassinado em O mapa e o território revela uma catarse auto-crítica que talvez aponta para uma nova exploração pessoal nas próximas obras. Ele se fez morrer talvez como forma de mea culpa. O que eu acho é que sua intranscendência é um espelho da mesma característica do homem consumidor de cultura do alto desse século XXI, bem localizado em sua falta de necessidade do autêntico e refestelado com o que a bijuteria fina da aparência do autêntico lhe dá de garantias de sofisticação e conteúdo. Uma leitura rarefeita e dentro de certos parâmetros válida, com a precisão de oferecer a matéria hercúlea de 400 páginas com a fluidez de leituras de revista. Uma leitura, no final das contas, inofensiva em toda sua comburência de coisa perigosa, fechada em seu círculo de validade ao ter como polo receptor um consumidor exatamente igual a ela.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Companhias para o mês



Férias nesse mês. Atocaiado na biblioteca de casa, sem direito a atender a campainha. De bermudas e chinelos. De frente ao computador em horas regradas, para os projetos literários pessoais e para as traquinagens esporádicas do blog. Os companheiros serão David Copperfield, na bela edição da Cosac, e mais os Philip K. Dick que espero chegar na caixa postal. E O homem que amava cachorros, uma leitura noturna. Muita gente dizendo que 2014 foi um ano ruim e aquelas piadas todas sobre o ano velho, como se a Copa tivesse alguma coisa a ver comigo. 2014 foi-me um ano bom como todos os outros, no campo literário o ano em que conheci Musil. E Dick. E mais um monte de outras coisas (o álbum Rewind the film, por exemplo, que me imagino ouvindo-o pelo fone de ouvido debaixo de um arbusto gnômico de uma praça de infância, enquanto chove. Vai entender.) Não caio nessas limitações da arraia miúda descerebrada que transforma suas vidas em quintal da baixa política. Um mês pela frente de hedonismo e recolhimento. Ele está só começando. Ôba! 

Anamnese _ fim



Na parte correspondente ao estudo da paranoia de Daniel Schreber em Massa e poder, Canetti mostra que Schreber sabia que estava louco para todos os parâmetros sociais, mesmo na fase sem retorno em que ele passou a viver inteiramente em seu delírio. A cosmogonia criada pela mente de Schreber é um dos mais assustadores e opressivos casos clínicos clássicos, uma espécie de marco fundador da psiquiatria, e o estudo de Canetti é tanto mais interessante do que o estudo famoso escrito por Freud, pois Canetti, como é sabido, era totalmente independente da ortodoxia da psicanálise, o que faz com que sua abordagem tenha uma certa liberdade esotérica. Schreber é um desses paranoicos que fazem com que aquele que tem contato com sua história sinta o temor de ser contagiado. A diferença entre a paranoia de Schreber com a paranoia de Philip K. Dick, além do defeito congênito de que foi uma causa possível no caso de Schreber, e o abuso das drogas lisérgicas associado a uma natural imaginação hiper-atrofiada no caso de Dick, é que o Dick escritor sabe se situar fora de sua personalidade delirante, enquanto o escritor Schreber é apenas um jornalista que narra suas muitas visões, simulando apenas uma fraca imparcialidade. Schreber conta sobre os raios que Deus envia por todo o universo e vem todos se convergirem nele, com uma minuciosidade inquietante que extravasa a sua excelente educação jurista e sua exímia erudição. Não tem como o leitor se sentir confortável em um discurso que aos poucos perde sua preocupação pela forma dialética de apresentar pontos de vista antagônicos, e se torna um labirinto onde no centro se posta a figura monádica da prepotência pelo poder de seu autor. Em determinado momento, na fase irreversível de sua loucura, Schreber se considera a "noiva de Deus", e evangeliza que o sentido de todos os bilhões de anos do universo tem como propósito o cortejamento de Deus pelo espírito do ente encarnado chamado Daniel Schreber. Esse namoro, essa dança de acasalamento trabalhosa do Ser Divino pela noiva Schreber, confeccionou uma realidade simulada, contra a qual Schreber se coloca em defesa, em que as pessoas, os prédios da cidadezinha alemã onde ele vive, e tudo que sempre o cercou em seus anos de vida, são disfarces e marionetes de Deus, artifícios sem vida e mecânicos cujo intuito é tomar Schreder nos braços de seu noivo plenipotenciário. Uma imagem que fica na mente do leitor é do Schreber absolutamente consumido, já fora do resgate do mundo, trancado em um quarto-cela de uma cara instituição psiquiátrica, agachado na cama, a única peça de um ambiente controlado para não o ferir, os olhos arregalados vendo infinitos fios de luz se conectando parasitariamente em seu corpo.

VALIS pouco tem a ver com Memórias de um doente dos nervos. Philip K. Dick tem uma prancha de salvamento que raramente se vê em outros paranoicos: um senso de humor paradoxalmente iconoclasta para alguém que julgava ser uma das poucas pessoas com quem Deus conversava. Há muitas passagens em VALIS de pura dissuasão simpática, nas cenas de conversas dos amigos malucos, que lembram os descontraídos diálogos de V, o romance de Pynchon. Aliás, a aproximação entre Dick e Pynchon é uma constante em VALIS (e no restante da bibliografia de Dick, pelo que ele vem constatando em leitura compulsiva). O que o leitor astuto percebe é que talvez, na poesia altiva e no anedotário típico dos romances de estrada americanos, VALIS tenha uma demência legítima escondida pelo amplo domínio da graça da narrativa de seu autor. Talvez Dick seja tão genial que ele consiga fazer a ponte entre o que tem que fazer, ou seja, um romance apesar de tudo bem digerível e cumprindo sua função de entretenimento, e ao mesmo tempo um testamento sério em que emite uma mensagem transcendente; o que faz com que o leitor pense qual desses perfis da obra ele tem que considerar realmente. É como se Dick estivesse dizendo: a graça externa da narrativa é para provocar riso e divertir, mas sua profundidade é para fazer o leitor refletir na cama, à noite. Pois é isso que se tem: VALIS fica muito tempo na cabeça do leitor. VALIS propõe questões que se fazem imprescindíveis, que saem do subconsciente aturdido pela rotina do conhecimento aceito e emplastado do leitor e se colocam no primeiro plano. Aqui Dick perpetra a mais ousada ambição do escritor: transformar o imaginário em algo tão convincente quanto a realidade, convencendo o suficiente para que passe a não ter importância onde um termina e a outra começa. De modos que aceitar que tudo seja imaginação de Dick, ou que tudo seja real, passa a não ter a menor relevância.

Ao contrário de Schreber, a preocupação por tomar a percepção por todos os ângulos possíveis é um dever para Dick. Tanto que ele se exonera de ser o personagem principal e cria um alter-ego chamado Horselover Fat, no começo do livro fazendo um interessante jogo de desfocamento entre Dick e Fat para avalizar sua honestidade quanto ao que ele mesmo investiga sobre as características de um e outro. Dick também é um personagem, o personagem narrador, que olha a Fat com misto de ternura, preocupação, descrença. É um belo recurso, um recurso muito humano e tocante: Dick em nenhum momento age com prepotência; sua paranoia, considerando bem por baixo esse diagnóstico limitante, em nada se aproxima das necessidades de poder de Schreber, o que em fundamento clínico já põe por terra que seja paranoia. Sua visão sobre si mesmo (tanto sobre Fat quanto sobre o personagem Dick) é revestida de humildade, ele não se julga Deus, nem mesmo dá por completo que tenha recebido algo legítimo de Deus_ no diálogo inesquecível que Fat mantêm na incrível cena final do livro, alguém lhe diz que ele pode acreditar no que escuta pois a mensagem foi enviada exclusivamente para ele, ao que Fat responde: se foi só para mim, então não é verdadeira. Dick aqui é o mais preparado para receber uma mensagem do sublime no campo da literatura desde Tolstói, e ele tem o ceticismo de Tolstói. Ambos, Tolstói e Dick, são os místicos do existencialismo, os que, por mais que são seduzidos para a propensão da Verdade revelada (principalmente no caso de Dick), professam a máxima de Pascal de que sua religião é a da dúvida sincera. Um dos generosos assombros de VALIS é que, depois de todo road movie místico, no final há uma forte inclinação de Dick para a conclusão de que talvez tudo tenha sido um estelionato tecnológico, uma pura ação humana (mais uma estratégia de um grande narrador após o leitor se sentir convencido?).

Dick é tão sagaz que ele se comunica com o cliniquês clichezístico da psiquiatria ao revigorar a palavra anamnese. Um termo sem graça e banal que equivale a um questionário de sintomas do doente, ele purifica ao trazer de volta sua etimologia, e a conceitua como "supressão do esquecimento". O que ele vê que ocorreu com Fat foi uma supressão de sua capacidade de esquecer. Ele repete as portas da percepção de Blake ("quando o homem conseguir abrir as portas da percepção, verá as coisas como realmente são: infinitas"), e o escritor de ficção científica que é funde a origem das religiões, com seus usos primitivos de psicotrópicos, com a ciência que diz que o cérebro é o mais potente catalizador não usado do universo.

Em um dos filmes de Jornada nas Estrelas, os astronautas da Entreprise chegam à borda do universo e encontram uma entidade que diz ser Deus. Aos poucos a voz de Deus vai demonstrando uma melifluidade que fica um tanto mais terrível por a tripulação da Entreprise se ver na dúvida de se a manifestação de Deus não teria mesmo aquela superior indiferença, aquela plenipotência absoluta que revela em contraste quanto o ser humano é minúsculo. O paradoxo do crente que perde a fé ao se confrontar com a prova de que tudo em que ele acredita é verdade (frase de VALIS). Em VALIS o leitor é levado ao que ele espera mas duvidava que o autor fosse capaz de oferecer com tamanha mestria: uma cena com a mesma intensidade e estupefação de Star Treck. Dick cumpre seu papel: o que é verdade afinal de contas? Quem é o louco? 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Anamnese _ meio



Como é a lógica desses relacionamentos pautados pela descoberta sexual e a insegurança da adolescência, o namoro dos dois acabou na branda forma trágica da vaidade ferida. A vaidade dele, que depois de 4 anos da acomodação em tê-la de prontidão para aceitar todas as suas grandiloquências de macho jovem à procura de sustentação heroica no mundo, ela teve aquele amadurecimento puramente feminil em sua tecnicidade de passar a enxergar esse mundo sem mais os amparos de algo que não fosse o mais lúcido pragmatismo. Algo que fora fomentado lentamente às custas dos desmandos sofridos na relação por esses 4 anos inglórios de aprendizado sobre a natureza frágil revertida para o desespero raivoso do adolescente masculino, e que só conservava a aparência de que houvesse brotado nela do dia para a noite. A lembrança nele, já passado agora dos 40 anos, ainda era latente, da tarde em que ela o escorraçou de sua casa e que ele viu nela a primeira versão daquilo que veria em uma série de mulheres que ele teria pela frente, a terrível perda do eufemismo quanto ao valor dele, a inexorável visão radioscópica de toda sua miséria tiranizadora. Soube no instante em que a coisa apareceu no rosto dela que ele estava extirpado em estado definitivo de sua vida. Ela não só não mais nutria o mínimo amor por ele, como tinha uma perene certeza de que o que houve entre eles estava longe de ser amor, mesmo o amor passível do aprimoramento social que ela acalentava em seus propósitos agora mais deterministas; aliás, ele viu nela a verdade de que se ele morresse assim que dobrasse a esquina, para ela pouco importaria. Saiu da casa com uma roupagem espiritual de um mendigo que perde sua deixa para passar a noite no último albergue da cidade, e dobrando a esquina não chegou a morrer para provar a consonância daquela lógica terrível sobre o coração das mulheres, algo que encolhido em seus ombros pouco protetores jamais achava merecedor de descobrir naquela altura da sua juventude, mas o que lhe aconteceu equivaleu em humilhação à morte, pois torceu o pé em um desnível da calçada. A torção foi tão forte que o pé inchou de imediato, e foi mancando sentindo dores lancinantes até sua casa, Sua mãe teve que chamar um tio para levá-lo ao hospital, pois seu tornozelo parecia uma batata-doce ultra-turbinada com os mais descarados agrotóxicos geneticamente modificadores. Ele passou o primeiro dos três meses de descontaminação da rotina de ter ela à seu bel prazer ao alcance de um telefonema, com o pé engessado e de cama, pois apesar da indiferença total de sua mãe quanto à sua previsão de morte ele tinha a certeza de que vivia seus últimos dias. Algo iria acontecer, algo indefinível a não ser pela áurea factível de que seria catalizado pela imagem de frieza dela que não lhe daria a importância de entrar pela porta de seu quarto e executar o homicídio, mas cambiaria o mal por zonas aéreas mais sutis. Ele descobriu ao final daqueles três meses, em que a lembrança dela desapareceu até um nível inofensivo de enquadro estatístico pessoal, que a maldição do homem é levar um tempo infinitamente superior ao da mulher para descobrir sobre a efemeridade dessa ridicularia inventada como amor, que elas descobrem isso no ponto ideal em que a cumplicidade no relacionamento extrapola o limite do inercialmente aceitável, e descobrem isso com a certeza concisa de uma visão mais fundamentada no mercado financeiro de um casamento futuro do que do baixo revanche contra o tempo perdido com aquele cônjuge obsoleto e incompleto, onde enxergam o conforto doméstico e a real proteção de um homem maduro para exercerem seus destinos de mães plenas. Por isso ela o esqueceu limpidamente naquela tarde, sem tempo para ódios e rancores. Enquanto os homens trafegam pela lâmina imaginária da eterna adaga romântica dos livros de aventura que moldaram seu espírito pueril eternamente preso a ilusões, e sofrem por três meses as agruras do pior inferno da abstinência, quando não se matam ou cometem as maiores barbaridades. Três meses, ele computava com surpresa; só esperar três meses e temos uma reativação da harmonia judiciária social, e foi-se sua vontade de invadir a casa dela e fazê-la de refém, e em consequência ter coragem de se matar diante o certo olhar dela da estatura de sua descomunal inconveniência.

Dois anos do rompimento se passaram e ela voltou a procurá-lo. Na mesma cama de casal da mãe dele, em um final de semana em que ele assegurou que estaria sozinho em casa, ela se despiu, sem aceitar um beijo e numa nova impressionante demonstração de funcionalismo sem palavras irrelevantes. e montou nele como o diplomamento definitivo de que era a sua forma agora piedosa de cumprir o assassinato que ele esperara com fervor naqueles três meses. Piedosa porque tendo se passado tanto tempo, isso não iria prejudicar mais ninguém, nem seu noivo que ele descobriria anos depois que ela tinha na ocasião e que por suas contas regressivas soube que se casaria alguns meses depois, pois se tratava de um expurgo de algum resquício trivial mas que precisava daquele sacrifício para não ganhar tamanhos inesperados no futuro. Quando terminou, ele perguntou se fariam mais dali para frente, perguntou por coqueteria pois sabia que não precisariam mais daquilo, e ela respondeu que só tornariam a fazer quando ela quisesse. E agora, ele intuiu essa mensagem, quase vinte anos depois, lendo o blog dela, de que aquela seria a hora de fazerem aquilo de novo, bastava que ele lhe mandasse um e-mail. Ele tinha certeza de que ela lhe mandara uma mensagem no mesmo grau aéreo de ninfa racionalizada desprovida de vaguidão sobre eles que ela passou a ser quando o extinguira, agora pelo ambiente cibernético que eles jamais imaginariam que existiria e poderia algum dia facilitar aquela sutileza de uma nova experiência sobre o desejo. Ele ficou dias imaginando o reencontro. Na ordem impecável dela, claro que ela não iria querer que ele fosse à Brasília. Seria na capital, no antigo hotel decadente do centro em que frequentavam no acirrado atendimento à libido exagerada daqueles anos que não respeitava nem o calor massacrante das segundas-feiras, um hotel que vai ver ainda era comandado pela mulher lésbica que toda vez fazia um elogio mais que cerimonial da beleza dela. Cada um em seu carro, ou talvez ela quisesse repetir as circunstâncias de ser ela a sempre buscá-lo no carro do pai, em algum lugar. Subiriam pelo elevador hollywoodiano de portas sanfonadas, que sempre o fazia lembrar de que era um ambiente ideal para um assassinato noir, e iriam para o mesmo quarto que a lésbica lhes reservava, o que o fazia imaginar que ali houvesse alguma câmera escondida e a gorda mulher gravasse as cenas da nudez dela e dos intensos entremeios corporais dos dois para assistir reservadamente mais tarde. Esse era apenas o mobiliário da cena, o que menos importava. O que ele mais tentava ver era como estariam um para o outro, a que exponencial chegaria o espanto de se verem no interstício súbito de ter se passado duas décadas sem que algum dos dois tivesse se visto nem erraticamente. Pelas fotos ela estava ainda bonita, mas ele não desconsiderava o uso ostensivo de óculos escuros e acúmulos estudados de adornos dela ao aparecer nessas fotos como um amaneiramento da realidade sob uma luz não previamente controlada. Em uma das fotos ele detectou um cansaço da pele, um detalhe praticamente escondido que talvez tivesse sido percebido por ela, mas que ela tenha aceito como uma introdução digna para que os olhares mais atentos já antecipassem sobre o que a técnica não podia acobertar sem artificialismo. E como ela o veria? Não sentia a mínima preocupação sobre isso_ mesmo se tudo fosse além do simplesmente teórico, coisa que enfim jamais aconteceria_, mas sabia que se alguma coisa pudesse ofender a sua já estoica vaidade, seria se ele recaísse, por instinto ou pelas armadilhas da falta de apreço real pelas situações que era algo costumeiro nele, naquela fragilidade em busca de refúgio de seus vinte anos. Se a mulher-concha, o símbolo valquiriano que ele inadvertidamente esperava que surgisse para cantar a sua predisponência à glória naquela época, retornasse como sabia que retornam em drogados curados já há muitos anos os sintomas de suas mais vigorosas viagens lisérgicas. E ele percebesse através disso que ainda não conhecia nada sobre si mesmo; que imenso desamparo seria naquele quarto de hotel vagabundo, após o coito_ que não teria, talvez, essa sinonímia tão cartorial com fins de corrigir qualquer ato indesejável de fuga para denominações que quisesse fazer uma ponte de conexão para aqueles paroxismos perigosos do sexo que eles tinham na época do amor_ ele descobrir capaz de emular o vício postural de se encolher sobre as axilas dela, ou passar a falar algumas daquelas tolices que antes eram toleradas por terem um funil de tempo a ser contado onde as possibilidades mais absurdas poderiam ainda evadir-se da gravidade de fundo. Ele não saberia o que fazer depois que saísse dali e reativasse sua vida normal, caso sucumbisse nesse deslize. Um ritual que se prestaria a quê? Nada disso seria pelo sexo, pelo culto aos anos em que tiveram o sexo de forma mais visceral que ele entenderia ser possível na vida, e somente para alguns privilegiados, e que depois, ele sabia, por mais que se obtivessem a aproximação cada um por si em seus outros relacionamentos, jamais seria o mesmo. Não seria por isso. Seria pelo quê? Haveria, afinal, uma última descoberta a ser feita através do sexo? Seria esse o ponto ao qual os levariam um aprimoramento tardio de uma revelação que eles se deixavam ter pela presciência de que seria algo arrebatador acima do que eles tiveram naqueles anos de juventude? Algo não fluvial, não enzimático, não febril, mas um conhecimento apto para suas idades, perfeitamente encaixável na circunstância complexamente vetorial de tudo que aprenderam em suas vidas de zelosos pais e cidadãos dessensibilizados da antiga leviana loucura. Serviria para confirmar que estavam certos, um ato sexual para terminar com um sorriso de sabedoria e uma despedida terna dessa vez para sempre, conscientes definitivos de que haviam sim encontrado o verdadeiro amor racional nos braços de outros, que cada um comprovava que o outro havia sido um canal onde o lodaçal do imaginário da traição nada tinha a ver com a plenitude tranquila obtida.

Ele havia tido um sonho com ela, há tempos, há muito e muito tempo. Se havia algo que ele tinha certeza sobre seus relacionamentos é que não a amava, nunca a amara, e não guardava nenhum rancor ou vergonha dela. Daí o estranhismo desse sonho. Se ele fosse atender às tantas especulações levantadas por Dick, não se tratara de um sonho, mas de uma percepção de uma realidade paralela em que havia um outro Charlles e uma outra Lorena. Às vezes ele chegava a simular acreditar nisso, principalmente porque ele não conseguia definir quando havia sido acometido pelo sonho, e nem quanto tempo ele durara. Simplesmente um dia acordou com a lembrança pormenorizada em vários detalhes de que ele e ela voltaram a namorar quando ambos já tinham mais de trinta anos, quase beirando os quarenta. Depois que o pai dela morrera, depois que ele se separara de uma outra mulher, depois que ela se separara do marido, subitamente, eles voltaram a se encontrar e, num mundo alternativo outonal, em que as árvores da rua da casa dela pareciam mais fractais em seu dourado enferrujado de velhas bijuterias circadianas, e os troncos respiravam com pulmões centenários cansados, ele ia buscá-la. Era tudo muito triste e calado, mas eles ficaram juntos. Ele sucumbira ao desejo dela de ter uma vida de casada com um homem distinto, aceitando conquistar a distinção às custas de tudo, e ela aceitara em troca a necessidade dele que não fora totalmente desfeita nos três meses e pelo inchaço do tornozelo. Ele procurava se lembrar bem, situar graficamente, o momento naquela realidade paralela, em que morreu em um leito de hospital, entubado e asfixiado pela própria incapacidade de respirar um minuto a mais nesse mundo em que ele fora conquistando o direito de pertencer, tendo atendido a todas a genuflexões exigidas que isso lhe custara.