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segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Liberdade", de Jonathan Franzen _ As Primeiras 300 Páginas

Essa não é uma resenha séria, mas anotações para uma. Liberdade tem me deixado com um sorrisinho constrangido enquanto vou avançando para as páginas finais. Antônio Xerxenesky, em seu blog, disse algo perigoso para se dizer sobre um escritor, de que Franzen mais ou menos assim é alguém tão desprovido de uma aparência ameaçadora, tão terninho-de-professor-universitário e cara de bom moço, que isso acaba contando em desfavor na qualidade da sua prosa. E... desconsiderando as evidências em contrário oferecidas por inúmeros outros escritores de ótima qualidade com a inconspícua aparência de vizinho nerd, Xerxenesky acertou em cheio.

Ouso afirmar e provo, que cada página do tão aclamado Liberdade está contaminada de alto a baixo com o bom mocismo de Franzen. Não há uma cena, nessas 300 páginas iniciais, que seja convincente; aliás, não há uma cena nessas 300 páginas que seja relevante. A história da decadência (???? Onde????) da família  Berglund é tão isenta de drama, tão limpa de sombras de tragédias, que os diálogos entre os personagens não são mais que isso: diálogos. Por exemplo, quando o garoto Joey vai passar um feriado na casa do pai judeu multimilionário de um colega de universidade, Franzen aborta um sem número de situações que poderiam engendrar grandes cenas de conflitos clássicos entre o extremamente rico e o jovem planejador incipiente, entre o filho castrado pelo fardo do exemplo de sucesso do pai e o macho caçador cheio de certezas sobre a plenipotência do dinheiro; todas essas situações _ que o leitor muda de posição na poltrona esperando que enfim chegou-se ao ponto em que a coisa vai esquentar_ parecem ter sido cirurgicamente removidas pelo bisturi de bom mocismo de Franzen. Há uma cena em que o milionário desce ao porão onde estão os garotos, e inicia-se um jogo de mesa entre os três, em que o velho empresário vai testando o judaísmo recém descoberto de Joey, mas tudo sem gosto, num monocordismo que remete à impressão de que para o autor bastava a prosa supostamente elegante que, justamente aclamada em As Correções, em Liberdade já foi contaminada pela insuficiência de ambições dramáticas de Franzen.

Franzen evita qualquer sinal de trauma em seu novo romance. E, isso feito, torna transparente as outras limitações que ficariam escondidas se um pouco de hormônio fosse instilado na vida restringida à celulose dos personagens. As cenas de sexo, por exemplo, são tão ingênuas, que não seria de se espantar que o alter-ego assumido do autor fosse o diligente e cordial Walter, pai de Joey. Quando a esposa de Walter o trai com seu melhor amigo, o roqueiro Richard Katz, no chalé do casal, o sexo se restringe a parágrafos curtos e quebras bruscas que atenuariam a falta de traquejo de Franzen, coisa que o leitor bem disposto aceitaria, mas o desenlace é colocado no final de um diálogo entre os amantes que repete a forma sem perigo dos diálogos de Franzen. E Franzen erra ao insistir na modística literária do sexo (afinal é herdeiro de Philip Roth e Norman Mailer) nas aborrecidíssimas descrições das masturbações de Joey, coisa que ocupa umas 50 páginas em que a história cai num ralo circular de descrever os "dramas" e "sofrimentos" nada mais que peculiares da adolescência de Joey. E as descrições de sexo entre Joey e Conny são de dar bocejos.

Pode ser que a última metade do livro confirme a impropriedade da crítica antes de terminada a leitura. Mas por enquanto, Liberdade está me servindo a dar mais valor retrospectivo a 2666, e a ver o quanto a imprensa literária dos EUA regrediu a uma bajulação que inventa atributos de grandeza baseados num parco conhecimento do que é boa literatura.