domingo, 23 de novembro de 2014

Dias de chuva



A chuva é maravilhosa. Chove ininterruptamente aqui há 4 dias. Uma atmosfera que combina com a soturnidade confortável da casa e o prazer da leitura. Passei estes dias envolvido intimamente com Robert Musil; o vício era tanto que cheguei a cogitar em uma lista alternativa dos meus melhores livros e colocá-lo lá entre os cinco primeiros. 

Entremeando esta leitura, li alguns contos desse volume magnífico da Antologia da literatura fantástica editado pela Cosac Naify, cujas assinaturas de Borges e Bioy Casares o torna menos imprescindível que mítico e cultuado. Esse livro tem uma inteligência fina por detrás, que o situa além da quase previsibilidade de seus títulos. Tem o Pata de macaco, um conto que eu amo durante muito tempo e que ainda não o tinha na minha biblioteca, e que me pareceu ainda mais desamparado agora do que quando o li na juventude_ mas com um toque vulgar que não tinha reparado antes, uma certa insuficiência que, em contrapartida, tornam ainda mais humanos esses leitores inveterados que foram Borges e Casares. Há uma gema preciosa de autoria de Casares, A lula opta por sua tinta, que é pura inteligência e humor finíssimo. Há um conto de Maupassant que não figura entre seus melhores, e nem talvez entre os segundos melhores, mas que corrobora com o intuito de que essa antologia se presta à correspondência idiossincrática da personalidade de seus organizadores, o que o torna mais genuíno do que se em seu lugar houvesse um Maupassant mais puro. Há uma série de excertos curtos, de três linhas, que são absolutamente deliciosos. E há, o que confirmei com renovado espanto há poucas horas, essa diatribe inclassificável que se adéqua a todas as expectativas da sublimidade literária, intitulada Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Esse é o conto mais extraordinário, genialmente bem escrito e maravilhoso que já li. Chega a ser algo próximo à loucura, literalmente. Li esse conto várias e várias vezes, desde que ele provocou aquele assombro majestoso e profundo de quando o li pela primeira vez lá pelos meus 15 anos. A sua primeira página é de uma leveza e ardilosidade que só pode ser definida pelo adjetivo multi-simbólico de borgeano. Borges o escreveu, com absoluta certeza, em um estágio de alteridade de consciência que me faz correlacionar com uma definição de felicidade de Nietzsche: um conto escrito com a leveza de uma borboleta ou de bolhas de sabão. Vou transcrever agora o início da parte 2 desse breve conto, uma das páginas mais engraçadas e arrebatadoras da literatura; notem a traquinagem de como foi escrito, a sua alegria satânica e sua laconicidade paradoxal de onde partem infinitas insinuações deduções multifocais (Martin Amis foi de uma obviedade correta ao confessar seu deslumbramento pelos contos de Borges, nos quais cada página equivalia a romances inteiros). Lá vai:

Alguma lembrança limitada e minguante de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida sofreu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático e sua cansada barba retangular já fora ruiva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia para a Inglaterra: visitar (presumo, por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai tinha estreitado com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo. Costumavam fazer um intercâmbio de livros e revistas; costumavam bater-se no xadrez, taciturnamente... Lembro-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, olhando vez por outra as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde, conversamos sobre o sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve dez). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e ele nunca mencionara sua estada nessa região... Falamos de vida pastoril,  de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos uruguaios ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse_ Deus me perdoe_ sobre funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel) Herbert Ashe faleceu devido ao rompimento de um aneurisma. Dias antes, ele recebera do Brasil um pacote selado e registrado. Era um livro in-oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde_ meses depois_ eu o encontrei. Comecei a folheá-lo e senti uma vertigem assombrada e ligeira que não vou descrever, porque esta não é a história de minhas emoções e sim a de Uqbar e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã chamada a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti nessa tarde.

Eu quase chorei de rir ao reler e reler essa página hoje. Parece Monty Python. Que piedosa orfandade tinha esse sujeito Herbert Ashe, que criança solitária crescida era ele. Visitava um relógio de sol e uns carvalhos na Inglaterra. O pai de Borges estreitava um amizade com ele, verbo para a qual era excessivo. É delicioso isso. Isso é raro, não se vê muito nem entre a mais alta literatura. Uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo_ que anedota sofisticada, e como Borges faz com que nos fiquemos completamente à vontade com sua genialidade, uma vez que reconhecemos a sutileza de seu amplo universo; e o reconhecemos com a morte da sisudez através do riso desbragado. Não me surpreende Vargas Llosa dizendo que um dos piores sofrimentos dos escritores latino-americanos era suplantar a vontade imperiosa de escrever como Borges. E nisso voltamos ao conto de Maupassant escolhido para a coletânea: lá pela página 291 encontramos as seguintes frases "o deserto cujo ar transparente e leve ignora, dia e noite, as obsessões", e "ao descer por uma rua inverossímil". A coletânea orgânica revela que sua consumação segue o roteiro pessoal de mostrar as influências que foram construindo os escritores Casares e, principalmente, Borges, pois essas frases maupassanteanas, repetindo o ensaio Kafka e seus precursores, são frases automaticamente assumidas como borgeanas. Talvez venha da impressão que teve Borges com esse conto parte do seu manejo artesão de adjetivos inusitados e inesperados, cujo inverossímil é bastante recorrente, e cuja quebra do período com seus usos muito particulares de apostos e vocativos é algo bem evidente para seus leitores.

Essa antologia, pois, é uma maravilha. Um belíssimo livro, que dificilmente algumas de suas outras edições pelo mundo superam essa edição primorosa da Cosac. O carinho da edição é tão atenta que, ao pegar meu volume das obras completas de Borges, editado pela Globo, para confirmar coisas sobre esse conto de Borges, minhas vistas doeram instantaneamente com a crueza da página branca da Globo. A impressão suave e a folha que absorve o excesso de luz ambiente da Cosac é só mais um mérito desse livro que parece que foi feito sob medida para mim_ o que cada leitor pensará o correspondente para si mesmo.

sábado, 15 de novembro de 2014

Lendo Musil



Meu leitor autônomo, esse ser que habita em mim e sobre o qual exerço bem pouco domínio, não consegue parar de ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Esse livro tem sido responsável pela fama de marido e pai excessivamente tolerante que a Dani diz que suas amigas passaram a me retribuir, pois é bem fácil e mesmo muito agradável ficar esperando a Dani e as crianças, seja o que for que elas façam e para onde elas vão, dentro do carro ou sentado em um banco de praça, ou escorado em alguma árvore, uma vez que esse romance esteja lá comigo para me entreter. Se a Dani vai para a cabeleireira, lá está o marido modelo dentro do carro, alvo dos olhares assombrados de todas as outras senhoras de família dentro do salão para as quais declaradamente seus maridos não tem nem 1% da disposição de espera; sem saberem, porque do ângulo de visão em que elas estão é impossível ver, que minha cabeça baixa não revela a atitude de um cochilo, mas a leitura de Musil. Semana passada, a Dani foi questionada por uma amiga, estando nós em um parque vigiando as crianças brincando, se eu estava estudando para prestar algum concurso público, já que eu passava pelo martírio de estar sentado ali distante, embrenhado na leitura de um livro, e para quem a Dani respondeu, com inevitável ar de jocosidade, que eu era assim mesmo, gostava de ler sem propósitos práticos imediatos nenhum. A mulher demorou, segundo relatou a Dani, a consertar o queixo de volta para o nível normal na linha do maxilar, já que essa sua peça anatômica teimava em permanecer decaída em estado de perplexidade.

Quando eu volto da academia de musculação, pela manhã, paro o carro na praça principal, e me sento em um dos bancos, com o Musil de três quilos na mão. A leitura desse livro é compulsiva, exige bem menos atenção do que eu previa (embora, claro, eu dê toda a atenção possível), e está sendo motivo de intenso deleite. Me dá uma baita vontade de voltar para a situação acadêmica de ter que escrever uma monografia, pois tenho o tema perfeito: as raízes de Rayuela em O homem sem qualidades. Assim como Faulkner está para Garcia Márquez, e o Sartre e Camus estão para o primeiro Vargas Llosa, Musil está para Cortázar. Isso é evidente e incontestável assim que se passa a ter intimidade com O homem sem qualidades. Dele Cortázar retirou as intensas cogitações filosóficas, enleivadas de iconoclastia e distorção das lógicas da ótica; retirou o espanto bem humorado de virar de ponta cabeça os conceitos arraigados pelos costumes, a sociologia e a história; retirou o excepcional domínio de enxergar a magia explosiva e oculta por detrás da mesmerização dos rituais cotidianos. O mesmo exílio voluntário de não-coaptação de Ulrich, o herói de Musil, se encontra nos heróis de Rayuela, e a Maga reflete os apelidos criados pelo herói de Musil para encobrir a mundanidade das grandes mulheres do livro, investindo-as de romantismo. E a voz de sofisticação que tanto me impressionou em Cortázar, vem toda de Musil, o que Cortázar destilou com o movimento surrealista e o non-sense latino-americano criado por ele. E é incrível ver a limitação dos estudiosos de Cortázar em nunca ter visto isso, pela culpa evidente de que Musil tem a má-fama de ser incompreensível ou germânico demais, ou simplesmente porque Musil é pouco conhecido em nosso continente. Mas Cortázar dá uma dica importante dessa influência, já que dedica um capítulo de seu grande romance em reproduzir um excerto de O homem sem qualidades.

Esse Musil tem 1273 páginas, na edição comemorativa dos 40 anos da Nova Fronteira. Estou para acabar a primeira parte do livro, que se encerra na página 704, e que é, propriamente, o romance lançado em 1930 e que teve enorme sucesso. As outras 500 páginas equivalem à continuação virtual inacabada sobre a qual Musil trabalhou até o final de sua vida, e que varia o número de páginas e a quantidade de capítulos aceitos ou não do espólio de rascunhos conforme as edições que o livro tem pelo mundo. No Brasil, dispomos dessa tradução, assinada pela Lya Luft (excelente tradutora) e Carlos Abbenseth, o que é um trabalho memorável. O que dá um pouco nos nervos é que essa edição tem mais erros de revisão do que seria desejável para uma obra dessa importância, mas..., relevemos. É um livro realmente magnífico, fundador (fácil ver também influências reconhecidas ou não em muitos outros escritores importantes), que exige um lápis sublinhador para acompanhar a leitura, e que provoca profundas e incontáveis perturbações. Musil tinha plena ciência do gigantismo que estava escrevendo, e sua extrema segurança o coloca entre os maiores escritores de todos os tempos. Como deveria de se esperar em se tratando de um livro pouco conhecido no país, esse livro custa muito caro; deixei de comprá-lo por várias vezes por causa disso, até que, há algumas semanas, o achei por 74 reais (frete grátis) na Amazon, o que equivale a praticamente metade do preço. Assim que terminar a primeira parte, retorno com uma análise sobre a obra, para os raros que se interessarem por algo desse tipo.

P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A frigidez emocional reinante



Tolstói no ensaio Uma confissão, e Dostoiévski nos discursos do padre Zossima, dizem a mesma coisa: integrar-se no mistério da existência é deixar-se atravessar pela alegria de viver. Tolstói fala de suas enormes depressões durante suas certezas de que Deus não existia, e de como intentava acabar com sua vida para escapar do peso da gratuidade, até resolver o problema do absurdo ao descobrir que, instintivamente, a natureza é destinada a acreditar em Deus. E acreditar em Deus era compartilhar da alegria da criação, independente de especulações filosóficas, intuições metafísicas ou códices religiosos. Só se mantêm vivo aquele que é alegre. Bashevis Singer, em seu comovente conto Alegria, faz o rabino que perdeu a fé depois que toda sua família sucumbira à peste, ouça em seu leito de morte suas desaparecidas esposa e filhas lhe dizerem: "Devemos estar sempre alegres." O padre Zossima diz que devemos respeitar as crianças e os animais, e deixá-los imolados, porque eles são a expressão mais pura da alegria de Deus.

Isso me dá o que pensar. Não se preocupar com nada. Seguir adiante, com menos bagagens possíveis. Assim que eu fui conquistado pelo gato vira-latas que está morando aqui em casa. É um bichinho tão delicado, tão equilibrista da sobrevivência, tão simples e descomplicado. Descobri que eu sempre tive um medo supersticioso de gatos, um medo tolo. Achava-os frios e distantes, megalomaníacos e tiranos. E não tem nada a ver. Esse gatinho pula no meu colo, me crava de leve os dentes (até minar sangue) de tanta volúpia, e me segue para o quintal e procura a ameaça desconhecida por sobre o muro como um autêntico companheiro. Come o que lhe dou: hoje mesmo devorou um prato de macarrão; ontem, comeu o resto de carnes que eu lhe atirei no chão. Ele ainda não tem nome, e não tem vasilha para comida. Ainda está em quarentena de não se aceitar de vez que ele é nosso novo bichinho de estimação. Ele veio do nada, e resolveu se instalar no sofá da garagem. E forçou a amizade de maneira mais despudorada possível, como se fosse um amigo distante de vínculos amorosos inabaláveis. Ele invade o quarto de brinquedos da casa e persegue as bolas de plástico com uma entrega faceira; ontem o vi instalado no canto da bicama da biblioteca, com uma solenidade de gentleman que não quer ser incomodado após horas de leitura. E eu o pego no colo, ele se estende com uma maciez lânguida que revela indignação, e dou-lhe uma bronca suave, e o coloco de volta no sofá de fora. Há uma série de temores ainda: toxoplasmose, hidrofobia, e, em última escala, o temor de que passemos a amá-lo e seu instinto libertino faça com que nos abandone. Brigas lá fora por fêmeas no cio, crianças maldosas com espingardas de chumbo, tocaias de cães de grande porte. Antes que o envolvamos, a velha prevenção dialética do amor nos aponta os contras para que sopesemos com razão. Eu que nunca gostei de gatos. Chego em casa e ele pula do sofá e vem me contar as novas fofocas. É um sujeito pra lá de desinibido.

Penso em algum nome jazzístico para lhe dar. Mingus? Milt? A Júlia tema na aposta mais prosaica: Fofinho. Mas eu tento desconversar. Ela bate os pés e reafirma: Fofinho.

O pior dos gatos é isso. Meu amigo Emerson tinha dois gatos, que apareceram em sua casa repentinamente, e ele saiu desconsolado seis meses depois à procura deles, que não voltaram mais de uma aventura noturna. Ficou muito triste; sua depressão controlada por remédios pesados elevou para picos perigosos. Sua visão decadentista ficou ainda mais negra por algum tempo.

Taí porque escritores gostam tanto de gatos. Cortázar na bela foto do gatinho em pé lhe olhando por uma janela. Hemingway nas belas passagens de As ilhas da corrente. São animais cordiais, não incomodam, mas estão tão presentes e atenciosos como os cães. É como se essa economia toda se revertesse para uma companhia destilada, concentrada, cortando os papos furados. Uma amizade em supra-sumo.

Por conta do um pedido de socorro deixado por um trabalhador chinês na encomenda de um produto via internet feito por uma brasileira, em que vinha escrito "I slave. Help me", eu reli o ensaio Matar um mandarim chinês, de Carlo Ginzburg. A premissa do ensaio parte da lenda urbana de que, se lhe oferecessem um milhão de dólares, às custas de que uma pessoa de toda desconhecida por você fosse morta do outro lado do mundo, na China, e que a morte de tal pessoa não lhe interferisse em nada em sua vida e que você nem mesmo saberia de sua existência, você aceitaria? É uma questão moral de extrema relevância e atualidade. Li na revista Piauí um ensaio sobre duas cidades industriais chinesas em que os índices de poluição no ar estão catastróficos. Pessoas morrendo de câncer pulmonar e de várias doenças decorrentes do excesso de monóxido de carbono. E nada é feito; não só as autoridades são absolutamente indiferentes ao pesadelo dos milhões de pessoas que moram por lá, como a própria matemática da exportação mundial dos produtos feitos nesses polos industriais é conivente com as mortes. Mata-se milhares de mandarins chineses para que um ocidental padrão tenha seu tênis Nike, ou qualquer badulaque ubíquo que entra em nossas casas. Eu me emocionei com o bilhete desse desconhecido funcionário que pedia ajuda. Uma moça, não sei de qual estado do Brasil, encomendou um produto da China, via internet, e o pacote feio, todo envolto de celofane negro, lhe foi entregue com um atraso de meses. E dentro, o bilhete, escrito à mão e num inglês funcional de triste desesperança: I slave. Help me. A moça sentou-se de imediato à mesa da cozinha de sua casa, e caiu em um choro convulsivo. Imaginou o que é possível imaginar: as mãos desumanizadas que colocaram aquele regalo inútil da blusa comprada por ela, confeccionada às custas de muita agrura e abuso salarial, por mãos pagas em situação de miséria que fazem os movimentos repetitivos por 12 a 15 horas por dia. Mãos que ganham um proporcional ridículo de um subemprego martirizante que equivale à escravidão. E essas mesmas mãos estavam tão desesperadas, que resolveram fazer a atitude inútil de escrever às pressas um pedido de ajuda, sem assinatura (assinatura para quê, se pertencem a um invisível?), e mandá-lo clandestinamente junto com a compra. Claro que a pessoa foi a primeira a ter plena consciência de que não seria salva por aquilo. Claro que ela sabe que, se tiver algum resultado aquilo, será ao longo de anos de pedidos de socorro paulatinos, e ela mesma já terá desaparecida, gasto sua mísera existência em ser uma máquina invisível e brutalmente vilipendiada. Entre a moça que recebe o bilhete e a pessoa que o escreveu, paira o mais surdo enigma humano nunca resolvido, a de para se perpetrar o assassinato de alguém, não é preciso sequer que o assassino saiba que está matando. O que é uma blusa, um tênis, o penico de brinquedo de uma boneca (eu segurando com um morno terror o penico da Monster High da minha filha, lendo gravado abaixo a frase Made in Chine), diante uma vida humana? Mas, contudo, ainda se continua comprando isso tudo, no círculo de pesadelo que é a frigidez emocional reinante. (Roberto Bolaño foi genial ao tacar na cara do leitor esse anestesiamento em que matamos um mandarim chinês a cada dia, nas 345 páginas massacrantes da Parte dos crimes em 2666. Nestas páginas, ele se limita a narrar, exaustivamente, os assassinatos sem solução nas maquiladoras mexicanas, assassinatos brutais de mulheres funcionárias nessas fábricas de exploração do trabalho barato. O estilo é de jornalismo marrom, sem sentimentos, um tanto sadomasoquista em sua propulsão inercial. É uma versão do pedido de socorro do chinês desconhecido: inútil, afogado em seu trivialismo sem imersão na correria moderna, feito para ser desconsiderado. Não à toa que muitas pessoas pulam essas páginas, e pedem para que sejam removidas nas próximas edições.)

Há dois livros sintomáticos dessa situação, escritos em diferentes épocas por Coetzee. Em Idade do ferro, Coetzee aproxima uma mulher com câncer de um mendigo. O mendigo passa a pernoitar na varanda da casa da mulher, e a mulher descobre que é a única companhia que tem em seus meses finais de vida. Ela aos poucos vai o trazendo para dentro de sua casa, aquele ser ressabiado que está em um estágio de deserção que quase lhe faz esquecer seu idioma. São dois seres deportados do tempo, dois seres que já não vivem mais no mundo real. Daí o assombro e condenação dos vizinhos e da filha da mulher, que passa a voltar sua atenção para a mãe doente por causa dessa sensação insana de sua amizade com o mendigo. É um livro duro, daqueles insubmissos que Coetzee costumava escrever antes que algo nele também se calcificasse e se rendesse. O outro livro é um meio termo entre sua visão terna de outrora com sua nova concepção de um cristianismo pagão vingativo: Desonra, talvez seu romance mais impactante. Em Desonra eu vejo contatos entre a vida do personagem principal com traços da minha vida. O herói do livro trabalha em uma clínica de eutanásia animal; ele se condói com um cãozinho aleijado, no qual lhe faz carinho e lhe alimenta na gaiola do que equivale ao corredor da morta da clínica. No momento final, entretanto, quando sua parceira de trabalho lhe pergunta se ele vai ficar com o cãozinho, o poupando do sacrifício, ele diz que abrirá mão dessa obrigação, e mata o animal. Eu trabalho na fiscalização de abate de centenas de animais por dia, em minha profissão de fiscal veterinário, e amo um gato de rua. Nossa maior ambição, a ambição mais infrutífera e banal, é esperarmos por uma explicação, a menor possível; poderia ser ao menos uma pista.

O efêmero privilégio de morrer por último



O local que ficou conhecido como Ilha de Páscoa, em sua história antiga sem registros voluntários além das apavorantes descobertas fósseis feitas no século passado, teve 12 tribos. Dois aspectos cruciais são os detalhes comuns entre elas: o fato de que alimentavam uma rivalidade entre si que foi se acentuando progressivamente, e a obsessão que cada uma possuía de construir menires de pedra cada vez mais gigantescos. A estatura desses inúteis blocos de pedra definia a supremacia que uma tribo tinha por sobre as outras. Quem conseguia construir os menires mais fabulosos, ganhava o instantâneo direito de ser visto como o ápice em poderio econômico, político e espiritual, até que outra tribo retirava o ganhador de seu patamar e se assentava com todo seu orgulho no topo social, tendo por sua vez confeccionado o novo menir mais alto. E assim se consumou toda a centenária história que a Ilha de Páscoa tem para contar, em seus restos mortais de ossos e pedras. Uma pequena ilha, que no começo de sua civilização era um paraíso verde, com rios, árvores, pesca e caça abundantes, teve seus recursos naturais destruídos na loucura estúpida de seus líderes e seu povo em erigir tristes figuras hoje incompreensíveis ao deus próprio de sua ambição. Cortaram uma a uma suas árvores, para que com elas rolassem por cima as vigas de pedra; mataram um a um de exaustão seus animais de pastoreios, que tinham de puxar as pedras; retiraram do chão todo o minério necessário para contribuir com a desertificação da paisagem; dizimaram-se como povos na repaginação em menor escala do escravismo e da usura de suas classes dominadoras. As páginas mais terríveis do relato de suas fugazes passagens pelo tempo, inseridas no fundamental livro Colapso, de Jared Diamond, são as que falam do momento final de seu povo. Terminadas todas as fontes de sobrevivência, dilapidadas toda a riqueza natural da ilha, as doze tribos começam a se devorar literalmente umas às outras, em um canibalismo desesperado que tenta dar um lenitivo à miséria. Os achados arqueológicos da Ilha de Páscoa calam em nós a premonição que não queremos ver, em uma sociedade atual em que, da China, vem um pedido de socorro em um pacote comprado pela internet, em que sua compradora brasileira, reportada em alguns jornais, revela o choro que a tomou ao ler o bilhete inserido na encomenda pelo indeterminado funcionário: "I slave. Help me". Da realidade de agora, a estultície de construir blocos de pedra se revela com o mesmo grau de cegueira com a obsessão que temos por celulares, carros, horas vazias de tarefas diárias preenchidas para abater o pensamento, e uma série de regras de consumo feroz da qual não conseguimos sequer racionalizar, quanto mais escaparmos dela. Nossos menires são pagos com tudo que em um passado assombrosamente recente tínhamos ainda em relativa abundância, mas que agora desaparece com uma rapidez punitiva: a água, as outras espécies animais, a frágil segurança dos estoques de alimentos. Estamos em franco e letárgico suicídio, e a inteligência nos abandonou de vez. Perdemo-nos em discussões sem foco. Os homens, mulheres e crianças das 12 tribos da Ilha de Páscoa se comeram uns aos outros, num espetáculo que os privou do mínimo resquício de humanidade, em cenas que as tantas ossadas descobertas fazem-se brutais demais para que nossos pudores suportem imaginar.

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Mensagem postada por minha esposa Dani, em uma rede social:

"A natureza sabe ser sarcástica: manda a chuva por um dia, encobrindo os céus de nuvens, e ficamos deliciados com o frescor e a alegria do tempo, mas depois nos devolve o sol em toda sua fúria. Como se a dizer que os tempos de chuva contínua já ficaram no passado, não retornarão. Não podemos lamentar que a chuva tenha ido embora, pois ela nem chegou realmente a vir. (O que fica é o barulho da moto-serra do vizinho da rua abaixo da capela da igreja católica, que funcionou a tarde inteira ontem, cortando uma árvore.)

P.S.: esse domingo foi Dia de Finados. Não me lembro de nenhuma desta data que não tenha chovido. Pela primeira vez, não choveu."