quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Anamnese



Ele leu no excepcional romance VALIS, assinado por Philip K. Dick, que o universo é irracional, moldado pela selvageria violenta, mas que a partir de determinado ponto na história, uma côncava deterioração na ordem deu espaço a uma gota de racionalidade. Ocorreu uma invasão da racionalidade no universo. Ele leu essas palavras com êxtase, como costuma fazer sempre que se depara com as tantas intrusões de percepção ao absoluto que vê na arte, na ciência, nas conversas cotidianas, na religião informal, ou mesmo_ ou, principalmente_, naquilo que é conveniente chamar de loucura. Philip K. Dick, ao que parece e é imediatamente entendível, estava louco quando escreveu VALIS, ou se curava paulatinamente dos sintomas mais graves de sua loucura. Para todos os efeitos, o romance é uma auto-biografia dos anos em que Dick esteve declaradamente louco, deportado da realidade a um nível paranoico em que sua mente inusitadamente criativa confeccionou uma cosmogonia própria. Ele sempre foi fascinado pela loucura. Não nesse lance de querer ser psiquiatra, mas sempre foi fascinado pela loucura não sistematizada pela ortodoxia acadêmica, os loucos que são mais eremitas refugiados em seus mundos privados internos, não os loucos que são explicados no resumo deploravelmente pobre da escatologia do recalque de seus orifícios biológicos. Sheridan Le Fanu, Robert Walser, William Blake, Daniel Schreber, Arthur Bispo do Rosário, Swedenborg. Ele colocaria nesta lista de grandes notáveis, ainda, Kafka e Beethoven, que, na sua concepção, só não foram declarados loucos porque o poder visionário do primeiro só foi deflagrado postumamente em um mundo com seus eufemismos racionais já devastados, e o segundo porque a música salvaguarda para o bem ou para o mal seus criadores em uma categoria em que a loucura não aparece com tantos deméritos sociais. Nunca ouvira falar sobre a loucura de Mussorgski, por exemplo, naquele quarto invernal em que escreveu seus mais terríveis pesadelos, enquanto Le Fanu é tido como um pobre pinel indefeso escutando atrás de si na vida real os passos das entidades invisíveis sobre as quais escreveu seus contos.

Por isso na noite de natal, quando todos estavam dormindo, ele se trancou na biblioteca, já um pouco alto pelo espumante espanhol que sua irmã trouxera, e uma garrafa de seu fiel Gato Negro, e pôs-se a ler VALIS. Ouvia a casa reverberando no silêncio da madrugada, imaginou a respiração de sua mãe, de sua filha, de sua esposa, e da irmã, naquele estereofônico cósmico sofisticado que é a noite em uma casa fechada, e seguia na leitura do livro. Acontecera uma coisa, como sempre. Muitas coisas. Se estava lendo aquele livro, que sequer pensara em Philip K. Dick há anos e não nutria nenhum interesse especial por esse autor, era porque a imprescindibilidade inesperada de suas leituras não programadas agia mais uma vez. Em um mundo onde o esoterismo desaparece nas frestas do cotidiano, a olhos vistos, ter essa impressão de uma mensagem direcionada de algum lugar para compor sua lista de leituras, era um agarrar terno à sua dose de incorreção à lógica. O que acontecera, pela ordem do mais brutal ao mais terno, era: primeiro, seu vizinho de frente, o advogado milionário dono de dez lotéricas e que desde 4 anos mantêm diariamente o contrato de um grupo de pedreiros na construção de um bunker faraônico, sofreu um grave acidente de carro, na noite do domingo antes do natal. Ele fora buscar no aeroporto da capital sua filha de 17 anos, que cursa medicina em Minas Gerais, e há 50 quilômetros antes de chegar na cidade, deparou-se com dois cavalos soltos na estrada. Estavam no carro mais a outra filha de 7 anos, e uma amiga da família, que junto a ele sofreram escoriações leves. Todo o impacto da batida caiu sobre a sua filha mais velha. Ele ficara sem saber sobre a gravidade da tragédia; sabiam que a casa, o bunker, com seus altos muros indevassáveis, está deserta e sem sinal de qualquer movimento, as luzes de neon do escritório de advocacia de frente apagadas. Sabiam que pelo facebook solicitaram doações de sangue. Só quando foram à livraria da lotérica, que sua esposa perguntou à funcionária notícias sobre a menina. Sua esposa lhe contou e ambos ficaram um longo momento em silêncio. A funcionária disse que a menina passara por duas cirurgias no rosto, iria passar por mais outra no maxilar; quebrara todos os dentes; não fora retirada da sedação; que os médicos disseram que não sabiam se ela iria andar novamente. Ele ficou quieto diante o volante, ao ouvir a esposa contar. Ficou analisando o quanto deveria se sentir mal com isso, o quanto deveria se sentir chocado. Em vez de grande indignação e reconhecimento humano, ele sentiu um vazio sensorial. Vasculhou com toda sinceridade que devia para com a menina, para ver se detectava em si algum indício de alívio, ainda bem que não foi comigo. Lembrou do personagem em Ruído branco que diz ao outro com um enorme câncer de fígado: não vou mentir para você que eu penso que melhor isso ter acontecido com você do que comigo; é perfeitamente humano pensar assim, por isso você não deve me recriminar. Mas não viu esse alívio em nenhum lugar dentro de si, ainda que tais coisas, dentre as armadilhas ilesas à auto-avaliação, sejam as mais impenetráveis.

Ele caiu em uma ciclo de negatividade. Não era supersticioso, mas às vezes se surpreendia de como as coisas passavam a não funcionar ou a quebrar em suas mãos, quando se tornava negativo. O máximo de controle que obtivera nesses anos de combate contra tais períodos foi o de não falar mais sobre eles. Antes saía por aí reclamando que não entendia, deus isso, deus aquilo. Agora, fica em silêncio, segue vivendo com absoluta normalidade, com o humor surpreendentemente mais apurado, mas sente que se um pássaro predispusesse a fazer o clichê clássico de pousar em sua mão, o bichinho iria encolher e sair assustado, trôpego pelo ar, até cair morto em alguma moita, ou quem sabe se a negatividade não teria nenhum pudor mais de se mostrar a todos ao fazer com que a avezinha se estrebuchasse no chão logo em seguida, no centro da praça e para o horror das crianças. O controle da tv a cabo não funciona em suas mãos, mas nas mãos dos outros da casa sim. A azaleia que sua esposa comprou murcha sem motivos, senão os que ele sabe sobre sua radioatividade. Seu notebook deu pau. Levou o note para o conserto, o rapaz ficou três dias com ele, usou um secador feminino (como chama aquele aparelho que as mulheres usam no cabelo?, o rapaz, no intuito de ressaltar seus esforços) para ver se a placa mãe não soldava, mas não teve jeito. A placa fundiu, o rapaz disse. Ele o olhou não tão de todo assustado, porque sabia que o único culpado era ele próprio por não ter sido previdente, e pensou nos tantos esboços e trabalhos literários nos quais trabalhava, gravados naquele computador torrado. Havia feito cópias em hds externos, não de tudo. Talvez a parte perdida não fosse tão importante. O rapaz lhe propôs pagar 150 reais pela carcaça do aparelho, ele respondeu que ia ver, conforme fosse, voltaria. Entrou numa loja e, ao fim de um dia de pesquisa, comprou por um preço aviltante outra máquina. Dólar alto, recessão acentuada em vista. Levou o novo computador para formatação, e o velho para casa. Ligou o velho por curiosidade, para ver que nível de ruído da origem do universo estaria aparecendo em sua tela fantasmal, e lá estavam, os arquivos restaurados, as fotos, os 180 cds do Mozart pela Phillips que levara uma semana toda para baixar e não fizera back-up, a discografia do Elvis Costello, as inúmeras páginas de Panorama 17 em várias variações de preguiça e desespero criativo, as primeiras 50 páginas de teste do romance que estava escrevendo. Tudo lá, funcionando que era uma beleza. E o carnê da prestação do novo notebook no porta-luvas do carro. Ele pensa em duas alternativas: ou o negativismo estava acabando, ou passara para outro avatar mais intrincado, em que o que era pervertido era a confiança das relações pessoais. O que ele estragara era a índole do rapaz do conserto, que queria lhe fazer crer que a placa mãe do aparelho se fundira, para comprá-lo por uma bagatela. Volta ao programador e ele diz que o note novo veio com um defeito na tecla "M", que às vezes se afunda acionando uma infinidade de mmmmmms histéricos na tela. Claro que ele não sistematizara essa teoria da negatividade e não pensava sobre ela a um nível racional durante esses momentos, senão teria se sentado na cadeira de frente ao homem e começado a chorar, solicitando em desespero que lhe trouxessem um pai de santo. Ele pensara nisso bem depois, ao se sentar já com o note novo em mãos e escrever sobre o assunto_ o note que ele levara de volta à loja, sob a proteção um tanto frágil do Código do Consumidor que estabelece a troca imediata do produto com defeito por um novo, e que lhe disseram para ele ir usando o aparelho defeituoso até sexta-feira, quando trariam um novo de outra loja e o reporiam. (Não tendo a resolução para o problema ocorrido nessa linearidade insofrível: o gerente, um cara amável e solícito em todas as outras ocasiões que lidara com ele, fora atingido por sua radiação, se mostrando misógino quanto à legitimidade de que um computador recém retirado da loja estivesse mesmo avariado, ao que ele precisou recorrer à parte simiesca de sua personalidade ao invocar processo, polícia e a perda inexorável que a loja teria de um cliente com um histórico de 15 anos de compras. Isso tudo para, depois, em casa, a letra "M" seguir dali para a frente sem a menor mácula de imperfeição.)

Na porta do programador, ele encontra seu amigo Emerson, que acabava de pagar ao lado sua mensalidade da internet a rádio. É uma das raras, senão únicas ocasiões, em que ele tem a oportunidade de falar sobre assuntos elevados. Ao longo das semanas ele tem que se inteirar passivamente sobre a mesma trivialidade boçal sobre regras econômicas provincianas e modelos de carros, e sobre quem está ferrando quem em diversos graus de literariedade. Os assuntos falados nas rodas de seus conhecidos naquela cidade é o suprassumo do tédio e da imbecilidade consistente. Sua sorte é que ele tem essa veia palhaçal, quando percebe que um silêncio exagerado pode passar a imagem inadequada de sisudez, ele recorre ao histrionismo mais baixo. Com seu amigo Emerson, a tecla do diálogo é outra, uma eletricidade de temas possíveis alimentados durante a ausência um do outro faz com que muita coisa se perca da memória, que anteriormente ele tentara fazer exercícios mnemônicos para se lembrar quando o encontrasse. Tanto que, ao Emerson descer de sua velha bicicleta azul, eles ficarem um diante o outro na paradoxal atitude monossilábica dos que não tem nada a dizer. O músculo da interação entre eles vai relaxando e começam a aparecer as notícias culturais. Emerson acabou de ler o primeiro volume dos Karamázov, que ele recomendara; parece entusiasmado, tocado, enternecido. Muitas vezes ele se enraivecia pela aparente falta de emotividade de seu amigo por esses grandes livros. Dava vontade de dar-lhe um tapa imaginário na cara, ainda mais quando, diante um puta filme, ou um puta texto que ele lhe recomendava de determinado autor, e se preparava para desenrolar seu cordel de divagações, Emerson apenas lhe respondia: "Loco demais". O cara era o maior devorador de livros em um raio de dez mil quilômetros, e fazia questão de externar uma falsa idade mental espelhada pelos zumbis do segundo grau para quem dava aulas. Emerson costumava escrever textos de revolta primários contra o sistema, e afixava-os no mural da faculdade de história da cidade. Era uma emulação anacrônica e constrangedora de uma banda de rock nacional que ele gostava, e das tantas vezes em que Emerson lhe passava um desses textos, ele sentia as glândulas salivares encolherem abruptamente. Doía o pescoço. Ao menos ele não gosta de rimas, santo deus!, pensou. Em determinado momento em que a amizade entre os dois foi ficando mais intensa, e que ele viu que por um má interpretação inercial da intimidade por parte do amigo fazia com que tais textos fossem parar cada vez mais em suas mãos, ele escreveu em um dos textos no mural uma frase crítica. Falava sobre o infantiloidismo do texto, para que o autor variasse de assunto. Ele escreveu a frase com uma caneta tinteiro, olhando para os lados temeroso de ser flagrado, não só o teor como as circunstâncias do crime repetiam o descerebralismo plástico do amigo. Ele se arrependeu por ter feito tal coisa, pareceu uma traição. Os textos acabaram, nunca mais houve nenhum no mural. Talvez se ele tivesse tido a coragem de falar cara a cara, externasse o que era irritante na auto-limitação que o amigo se impunha, a crítica teria sido construtiva. Imaginou o amigo lendo, com choque, a frase, ao buscar a esposa na faculdade, coçar sua imensa barba marxiniana, e com puro desconsolo arrancar o texto e jogá-lo fora, julgando se trata de um outro adolescente que lhe respondia.

Emerson está bem mais loquaz já faz um tempo. Se esforça para falar em suas conversas. Chega a traçar longas e interessantes reflexões. Na calçada da avenida onde conversam, com borracharias, carroças, carros de som falando com estridência descomunal sobre a queima de estoque de uma loja de sapatos para o ano novo, seu amigo relembra a reflexão de Ivan Karamázov sobre sua incompreensão irada pela indiferença do Ente Superior quanto ao sofrimento infantil. O garotinho que acerta uma pedra em um dos galgos do amo, e o amo faz com que os cães destrocem o menino ao colocá-lo como presa da caçada. Isso tudo diante os olhos da mãe do menino. Lembra a nota de rodapé dizendo que tal fato ocorrera na verdade, na época de Dostoiévski, gerando uma comoção social de certa relevância violenta. Ele responde ao amigo lembrando de várias passagens em Guerra e paz, Memórias de um caçador e nos Karamázov, que prefiguram a sombra do massacre da revolução. Há uma cena impressionante de caçada em Guerra e paz em que o mujique caçador não se contem diante a imperícia do amo em abater o animal caçado, e inclusive se nega a cumprimentá-lo no final. Essas coisas que formam a figura premonitória maior em um tapete.

Depois passam a falar sobre a menina acidentada. Ele se surpreende um pouco ao ver o sofisticado cérebro do amigo em suas reviravoltas retóricas tentar dizer com sutileza que talvez houvesse certo determinismo por detrás da tragédia. O pai da menina impunha um regime de quase escravidão aos funcionários da lotérica; a usura era um sinal característico da família. O que ele aceitou sem muitas reservas foi o fato comprovado de que o pai dirigia em alta velocidade. Um sujeito atarefado mesmo em uma noite de domingo. Ele meio que concorda com as coisas que o amigo diz, por hábito do diálogo, o que talvez não ia tão de contra o que bem no fundo ele se permitia pensar. Ele fala então de VALIS, sobre a teoria de que o universo é irracional mas que foi invadido por uma luz de racionalidade. Nunca o termo irracional foi-lhe tão revelador. O ser humano cada vez mais brutalizado é a afirmação de que a luz tinha muito caminho pela frente. Isso faz a gente pensar, ele disse, retornando ao assunto da menina, no que fazemos para nós mesmos merecermos uma compensação cósmica.

No capítulo final de True detectives, o detetive Rust diz algo colhido de Dick, de que, enquanto esteve em coma, ele entrou na profundidade plana do universo, no escuro incomensurável, e quando estava lá ele pôde sentir a força do amor de sua filha morta por debaixo disso tudo, e como foi ruim voltar à vida, como ele queria ficar naquele amor acolhedor que o abrangia e o protegia. O universo era escuro e irracional, mas foi invadido pela luz. E a luz, ao contrário do que parecia, estava ganhando.

No primeiro volume de José e seus irmãos, Thomas Mann cria uma cosmogonia. O homem foi moldado no barro de sucessivas metamorfoses, e em determinado ponto, o espírito foi insuflado na carne.

A outra coisa que aconteceu foi que ele obteve um contato inesperado de sua primeira namorada, uma mulher que anos atrás ele cometera o ato incauto de fazer um comentário no blog que ela escrevia. Naquela ocasião, ele digitara o nome completo dela no buscador da internet, e se deparou com um blog em rosa, absolutamente desconcertante no anacronismo dos textos publicados, em que uma mulher beirando os 40 anos rememorava antigos prodígios vaidosos da juventude. E como ele fora seu primeiro namorado por 4 anos, ele acabou encontrando uma menção a ele em uma lembrança que o descrevia com os pudores comedidos de se o marido dela resolvesse algum dia averiguar aquelas leviandades. O rapaz intelectual que não dava bola para nenhuma outra e que ela conquistou com sua beleza e sua bravura feminil, ele reconheceu com constrangimento, ser ele. Ele digitou uma resposta, algo que dizia em poucas linhas que o rapaz tímido agora era um senhor bem casado, e publicou. Na mesma hora em que viu a frase grudada na tarja branca dos comentários para todo mundo ver, ele se arrependeu, embora aparentemente ninguém frequentava o blog. A intenção fora essa?, ele pensou, sentindo-se um tremendo estúpido, que as matronas eventuais que dividiam o gabinete de trabalho dela e que por ventura fossem convidadas a visitar o blog, as antigas amigas daquela garota que se lembravam do frágil magricela com 16 anos, pudessem saber por uma incompreensível vingança a elas dirigidas, que aquele garoto havia sobrevivido bem da adolescência? Ela retirou o comentário, mas todos os dias ele visitava o site e lia os textos precários que ela escrevia. Receitas de beleza, uma dicotomia em que vaticinava que as mulheres deveriam aceitar a necessidade biológica de seus maridos por sexo fora do casamento, e mais um bocado de besteira. Ela atingira seu objetivo: na superfície, não envelhecera, congelando-se na atmosfera das revistas Capricho que assinava nos anos em que namoravam. E pelas fotos, ela ainda continuava com 20 anos, os traços faciais tendo recebido uma espécie de bóson de Higgs nas escoras que as zonas de luz dos músculos recebiam de sombras bem recortadas nas concavidades das bochechas e do pescoço, que realçavam a magreza cultivada contra a tendência evolutiva de acúmulo de gorduras da espécie, e que só poderiam revelar a degradação natural que avançava quando se olhava as fotos maldosamente desconsiderando a estética de olhares fatais e viradas de rosto estudadamente surpresos. Um dia uma leitora apareceu na caixa de comentários. Ele foi ler detectando em si mesmo a emoção do fanzine diante uma reviravolta na vida de seu ídolo. Alguém que não assinava o nome escrevera um texto longo com uma ira afiada, matematicamente calculada para destruir todo o castelo de vento da dona do blog. Vociferava contra sua vaidade vazia, o ridículo de suas afirmações de programa de entrevistas, da estética alienada, e sobretudo de sua total submissão ao direito do macho de se impor em todos os sentidos sobre a mulher. Ele releu várias vezes a resposta isolada na frequência das micro-pulsações imperceptíveis da tela, sentindo algo misto a uma revanche por ver ali expresso todos os seus piores pensamentos sobre o blog, e uma pena por ela, em seu universo imutável em que preservara seu quarto rosa naquela fáscia artificial na internet, ter que ler aquilo, ter que ser confrontada com aquilo. Era uma mensagem de alguém que tinha muito mais proeminência que ela na escrita e que articulava argumentos de refutação que soavam como evidente covardia. Ela havia expresso desde o começo de seus textos que a escrita deles servia a espairecer sua mente do estudo intensivo para prestar um concurso público no fórum de Brasília, onde morava com seu marido empresário e seus dois filhos pré-adolescentes. Ele pensou que se a pessoa que respondera também estivesse estudando, se fosse alguém do convívio dela e estivesse de olho no mesmo concurso, ela não teria chance alguma. Ela apareceu no final da tarde, e manteve o comentário. No dia seguinte ela deu sua resposta, no mesmo estilo vaticinado de menina que é líder de torcida, mas com uma educação que revelava enfim o que a idade lhe trouxera. De incorreção, só levantou a suspeita de que talvez quem escrevera aquilo não fosse uma mulher. Daí em seguida, ela interrompeu o blog. Passados uns cinco meses, ele retornara ao blog e viu uma última notícia, dizendo que ela tinha atingido o propósito de passar em um concurso forense.

E uns dias atrás, ele reencontra, pela mesma curiosidade de bisbilhoteiro, outro blog dela, que ela acabara de abrir. Agora ela tem mais que 40 anos, e revela uma tristeza que em nada parece superior à ingenuidade que tinha. Ele sente um enternecimento poderoso em relação a ela. Não escrevia mais sobre seu marido, o atleta lutador de karatê que aparecia nas fotos com uma barriga tanquinho e uma sunga de boneco do Falco, com óculos escuros diante uma praia, ou aparecia ao lado dela, ela com vestidos talhados na mesma impressão de seriedade social que lembrava-se de ver na adolescente cujo desejo de ascensão social era taxativo, mas que nunca lhe caía bem, deixando-a como uma boneca quadradona bonita mas encontrada inadvertidamente nos estoque de lembranças de uma tia velha, e ele com sua barba por fazer de empresário aventureiro, ambos dentro de um avião indo para o sul. Agora ela não escreve sobre o quanto era divertido andar na garupa da moto que ele comprou para eles andarem nas imediações do lago, não fala sobre quanto ela é presença importante para o bom desempenho dos negócios do marido. Ele lê e entende pela metade, como é notório o tipo de visão cubista que se tem de antigos conhecidos através das redes sociais cibernéticas. Esses espaços, essa vaguidão, é muito mais expressivo para ele, acostumado com esse conhecimento subliminar; ele é como aqueles labradores que detectam a depressão no amplo campo de incompreensão verbal entre duas espécies simbióticas ao sentir o cheiro da exanguidade que vem dos joelhos da dona. Pode ser tudo impressão, mas os indícios vão se casando em uma premonição reversa, em que o adivinhado vem do passado. Em seu blog anterior ela nem sequer escrevera sobre o suicídio de seu irmão, apenas dissera que sentia muita saudade, e reproduzira a letra de uma canção popular. O irmão se matara porque também era-lhe taxativo desde a infância a ascensão financeira, e no meio do caminho vertical seus gados e seu universo de chapéu de cowboy, caminhonetas e cerveja ruíram. Agora, no blog novo, ela escreve novamente para ninguém_ para ele_, sobre o quanto sofrera, o quanto tudo era uma enorme perda de tempo. Ele não se expressava nessas palavras; era bem outra coisa; falava sobre modelos de vestidos, o correto e o incorreto para se usar; falava de uma apresentadora da tv pública. Mas o labrador identificava a obsolescência e a perda da fé naquele imobiliário não mais irrepreensível. Ele se lembrou de um antigo filme que assistira em sua juventude de madrugada na tv, As sete faces do Dr. Lao. Uma mulher entra na tenda do dr. Lao, este utilizando a sua face de velho cego que prevê o futuro, e essa mulher, desconsoladoramente fútil e burguesa em seu vestido rosa e sua cara de empáfia, pergunta ao velho o que lhe espera o futuro, se muita riqueza e felicidade. O velho, com sua cara devastada pelos furos dos olhos, que tem algo de Rembrandt e demônio, diz à mulher que a única coisa que ela preservará do agora é sua empáfia e sua frieza em relação às outras pessoas, e lhe mostra a paulatina decomposição que a acompanhará em sua longa vida solitária até o envelhecimento e a sepultura. A mulher abandona a tenda aos prantos e correndo. Não que ela, sua antiga namorada, seja como a mulher, mas é como se ela houvesse tido a lucidez da farsa que era seus propósitos e sua vida bem arrumada, com suas concepções nunca refutadas em nenhum momento daqueles 40 anos, concepções implantadas em sua cabeça pela mãe misógina que havia vampirizado o marido, seu pai, até que ele morrera de câncer em um leito de hospital no começo dos anos 90. (Ele se recordava disso, de como ela chorara em seu ombro e ele, querendo consolá-la, disse que seu pai havia sido uma pessoa admirável, ao que ela respondera que ele nunca teve nada de admirável. E ele recordou de única foto que vira do pobre homem, aos vinte e poucos anos, na pose incompreensível para o mundo eternamente impermeável a seu calado direito de também ter ilusões da juventude, levemente encurvado para a frente com um mão como tapa-olho, uma truncada inspiração dos filmes de pirata que fracassava diante seu terninho de incipiente funcionário de banco, de olho no que o futuro lhe reservava, e mesmo nesse único demonstrativo de seu recolhimento havia o referencial em torno da megera com quem se casara, pois a foto fora-lhe apresentada como "olha só como papai era assim que se apaixonara pela mamãe". O futuro fora de uma vida insossa em um banco que lhe explorara até a medula, de uma família que lhe massacrara sem nunca lhe dar direito de voz, da única forma de evasão que conseguia vinda do tabagismo compulsivo, que lhe matara junto a todas essas primeiras coisas.)



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje, assim como qualquer outro dia



Por vários motivos, reedito este texto que escrevi por ocasião de uma data comemorativa para as mulheres que amo.

A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. "Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração." Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada uma da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

De forma geral, só as mulheres da minha família são dignas e seres-humanos comprovados desde a raiz dos cabelos até à sola dos tamancos. Os homens, por outro lado, são os eternos amaldiçoados pela sina obrigatória de repetir incessantemente o vício do patriarca pelo orgulho forçado da fornicação. Meu avô teve 22 filhos oficiais com as sete esposas de seus sete casamentos ou amasiamentos concomitantes. Até anos depois que ele morreu, costumava aparecer todo ano mais um sujeito espigado, de ar desatento e a latente concupiscência do olhar, que comprovava que era mais um de seus filhos bastardos procurando um rumo no mundo. Eram morenos, brancos dos olhos azuis, negros, mas sempre com aquela reprodução genética seriada do porte alto e dos olhos de peão saliente que parecia ser uma janela na alma através da qual a presença do meu avô vigiava, atenta, se seria respeitado o prosseguimento obsessivo do espólio sexual que ele deixara. Todos os homens da minha família são infelizes e se parecem, e, só de uma geração para cá pode-se dizer: as mulheres, cada qual, são felizes à sua maneira. Só a geração das minhas primas, que estudaram e se tornaram independentes financeiramente, tanto que se eximiram da opção do casamento, é feliz; as minhas tias, pelo contrário, afundaram num oceano de péssimas escolhas amorosas que faz-me crer que isso não passa de mais um efeito colateral da idiotia dos homens da família, que as infundiram o mal exemplo.

Até os dez anos morei com cinco das mulheres infelizes que compensavam por bom tempo parte de suas agruras em dispensar amor para a única criança da casa. Morávamos em um enorme apartamento no centro da capital, em frente a uma catedral portentosa, que muito desgostava minha avó pentecostal que me falava do inferno. Minhas duas tias solteironas, minha mãe divorciada, e a Dezi, que trabalhou para a família nas atividades domésticas até se aposentar, não poupavam abraços e mimos comigo. Minha mãe sempre foi uma pessoa dura e defensiva, mas, assim como se pode angariar amor de narrações do inferno que culminavam em maçãs chilenas gigantes, eu retirava de seu amargor de batalhadora solitária para conseguir pagar minha escola e colocar o único bife na mesa de seis lugares em meu prato, nos tempos de recessão, como o seu sentimento incomensurável materno nas sobras de tempo entre o trabalho e a faculdade de Direito. Minhas duas tias tinham a aparência atarantada que a consciência da velocidade incontida do tempo lhes dava. Lembro o quanto eram bonitas, até na maturidade, quando, já morando longe delas, flertei com a tia Marta num ponto de ônibus quando ia para a minha faculdade, e só depois vi, constrangido, que era ela. Mas como ela e minha Tia Tércia, depois que o destino nos retirou do purgatório daquele sombrio apartamento aquecido pelas mais ternas apreensões, cada uma teve uma vida infeliz, maluca; cada uma cedeu à depressão de que jamais dariam conta do que se perdeu para sempre em suas infâncias e elas poderiam, enfim, parar de procurar, porque não iriam achar nunca. Minha tia Tércia dera entrada várias vezes no núcleo do Pronto-Socorro, com hematomas e escoriações múltiplas, até que teve a coragem de dar um basta no marido. E minha tia Marta foi retirada do quarto onde morava por seus outros irmãos, que receberam chamadas dos vizinhos sobre sua franca deterioração mental, suas orações de madrugada sentada na calçada, seu sofrimento pela vergonha de não conseguir parar a rotação das pupilas que o lítio administrado todos os dias causava.

As únicas dessas que suportaram bem seus fardos foram a Dezi, que é uma paraibana de língua dura que nunca deixava nada por menos, que perseguia ladrões que lhe arrancaram a bijuteria do pescoço e os atiravam de cima da bicicleta e lhes deferia chutes nas costelas; a minha avó Mirtes, que me ensinou muito sobre a vida em suas cartas do exílio em Boston; e minha mãe, que, em seu silêncio, em sua aspereza, me deu o que mais tenho de importante, educação e uma noção fundamentada de ser incorruptível. Minha esposa me diz, brincando, que ainda bem que eu fui o único homem que puxou o lado feminino da família, ao que eu cruzo as pernas e lhe tiro as mais deliciosas gargalhadas com minha imitação já clássica de um veado afrontoso: "Eu sou mulher, sua coisinha!" Não sou adepto desses dias espetaculosos em que se comemora a compensação por tanto sofrimento, como se isso fosse arrombar anos de martírio apenas pelas propagandas das lojas de perfumes e bolsas. Mas enquanto escrevo isso, são 16:41 da tarde, e minhas outras duas mulheres da minha vida estão para chegar aqui em casa, após uma ausência de uma semana , e não vou me negar, hoje e sempre, de dizer à minha filha e à minha esposa, o quanto, absurdamente, as amo.

Elas e eu

domingo, 23 de novembro de 2014

Dias de chuva



A chuva é maravilhosa. Chove ininterruptamente aqui há 4 dias. Uma atmosfera que combina com a soturnidade confortável da casa e o prazer da leitura. Passei estes dias envolvido intimamente com Robert Musil; o vício era tanto que cheguei a cogitar em uma lista alternativa dos meus melhores livros e colocá-lo lá entre os cinco primeiros. 

Entremeando esta leitura, li alguns contos desse volume magnífico da Antologia da literatura fantástica editado pela Cosac Naify, cujas assinaturas de Borges e Bioy Casares o torna menos imprescindível que mítico e cultuado. Esse livro tem uma inteligência fina por detrás, que o situa além da quase previsibilidade de seus títulos. Tem o Pata de macaco, um conto que eu amo durante muito tempo e que ainda não o tinha na minha biblioteca, e que me pareceu ainda mais desamparado agora do que quando o li na juventude_ mas com um toque vulgar que não tinha reparado antes, uma certa insuficiência que, em contrapartida, tornam ainda mais humanos esses leitores inveterados que foram Borges e Casares. Há uma gema preciosa de autoria de Casares, A lula opta por sua tinta, que é pura inteligência e humor finíssimo. Há um conto de Maupassant que não figura entre seus melhores, e nem talvez entre os segundos melhores, mas que corrobora com o intuito de que essa antologia se presta à correspondência idiossincrática da personalidade de seus organizadores, o que o torna mais genuíno do que se em seu lugar houvesse um Maupassant mais puro. Há uma série de excertos curtos, de três linhas, que são absolutamente deliciosos. E há, o que confirmei com renovado espanto há poucas horas, essa diatribe inclassificável que se adéqua a todas as expectativas da sublimidade literária, intitulada Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Esse é o conto mais extraordinário, genialmente bem escrito e maravilhoso que já li. Chega a ser algo próximo à loucura, literalmente. Li esse conto várias e várias vezes, desde que ele provocou aquele assombro majestoso e profundo de quando o li pela primeira vez lá pelos meus 15 anos. A sua primeira página é de uma leveza e ardilosidade que só pode ser definida pelo adjetivo multi-simbólico de borgeano. Borges o escreveu, com absoluta certeza, em um estágio de alteridade de consciência que me faz correlacionar com uma definição de felicidade de Nietzsche: um conto escrito com a leveza de uma borboleta ou de bolhas de sabão. Vou transcrever agora o início da parte 2 desse breve conto, uma das páginas mais engraçadas e arrebatadoras da literatura; notem a traquinagem de como foi escrito, a sua alegria satânica e sua laconicidade paradoxal de onde partem infinitas insinuações deduções multifocais (Martin Amis foi de uma obviedade correta ao confessar seu deslumbramento pelos contos de Borges, nos quais cada página equivalia a romances inteiros). Lá vai:

Alguma lembrança limitada e minguante de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida sofreu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático e sua cansada barba retangular já fora ruiva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia para a Inglaterra: visitar (presumo, por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai tinha estreitado com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo. Costumavam fazer um intercâmbio de livros e revistas; costumavam bater-se no xadrez, taciturnamente... Lembro-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, olhando vez por outra as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde, conversamos sobre o sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve dez). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e ele nunca mencionara sua estada nessa região... Falamos de vida pastoril,  de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos uruguaios ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse_ Deus me perdoe_ sobre funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel) Herbert Ashe faleceu devido ao rompimento de um aneurisma. Dias antes, ele recebera do Brasil um pacote selado e registrado. Era um livro in-oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde_ meses depois_ eu o encontrei. Comecei a folheá-lo e senti uma vertigem assombrada e ligeira que não vou descrever, porque esta não é a história de minhas emoções e sim a de Uqbar e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã chamada a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti nessa tarde.

Eu quase chorei de rir ao reler e reler essa página hoje. Parece Monty Python. Que piedosa orfandade tinha esse sujeito Herbert Ashe, que criança solitária crescida era ele. Visitava um relógio de sol e uns carvalhos na Inglaterra. O pai de Borges estreitava um amizade com ele, verbo para a qual era excessivo. É delicioso isso. Isso é raro, não se vê muito nem entre a mais alta literatura. Uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo_ que anedota sofisticada, e como Borges faz com que nos fiquemos completamente à vontade com sua genialidade, uma vez que reconhecemos a sutileza de seu amplo universo; e o reconhecemos com a morte da sisudez através do riso desbragado. Não me surpreende Vargas Llosa dizendo que um dos piores sofrimentos dos escritores latino-americanos era suplantar a vontade imperiosa de escrever como Borges. E nisso voltamos ao conto de Maupassant escolhido para a coletânea: lá pela página 291 encontramos as seguintes frases "o deserto cujo ar transparente e leve ignora, dia e noite, as obsessões", e "ao descer por uma rua inverossímil". A coletânea orgânica revela que sua consumação segue o roteiro pessoal de mostrar as influências que foram construindo os escritores Casares e, principalmente, Borges, pois essas frases maupassanteanas, repetindo o ensaio Kafka e seus precursores, são frases automaticamente assumidas como borgeanas. Talvez venha da impressão que teve Borges com esse conto parte do seu manejo artesão de adjetivos inusitados e inesperados, cujo inverossímil é bastante recorrente, e cuja quebra do período com seus usos muito particulares de apostos e vocativos é algo bem evidente para seus leitores.

Essa antologia, pois, é uma maravilha. Um belíssimo livro, que dificilmente algumas de suas outras edições pelo mundo superam essa edição primorosa da Cosac. O carinho da edição é tão atenta que, ao pegar meu volume das obras completas de Borges, editado pela Globo, para confirmar coisas sobre esse conto de Borges, minhas vistas doeram instantaneamente com a crueza da página branca da Globo. A impressão suave e a folha que absorve o excesso de luz ambiente da Cosac é só mais um mérito desse livro que parece que foi feito sob medida para mim_ o que cada leitor pensará o correspondente para si mesmo.

sábado, 15 de novembro de 2014

Lendo Musil



Meu leitor autônomo, esse ser que habita em mim e sobre o qual exerço bem pouco domínio, não consegue parar de ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Esse livro tem sido responsável pela fama de marido e pai excessivamente tolerante que a Dani diz que suas amigas passaram a me retribuir, pois é bem fácil e mesmo muito agradável ficar esperando a Dani e as crianças, seja o que for que elas façam e para onde elas vão, dentro do carro ou sentado em um banco de praça, ou escorado em alguma árvore, uma vez que esse romance esteja lá comigo para me entreter. Se a Dani vai para a cabeleireira, lá está o marido modelo dentro do carro, alvo dos olhares assombrados de todas as outras senhoras de família dentro do salão para as quais declaradamente seus maridos não tem nem 1% da disposição de espera; sem saberem, porque do ângulo de visão em que elas estão é impossível ver, que minha cabeça baixa não revela a atitude de um cochilo, mas a leitura de Musil. Semana passada, a Dani foi questionada por uma amiga, estando nós em um parque vigiando as crianças brincando, se eu estava estudando para prestar algum concurso público, já que eu passava pelo martírio de estar sentado ali distante, embrenhado na leitura de um livro, e para quem a Dani respondeu, com inevitável ar de jocosidade, que eu era assim mesmo, gostava de ler sem propósitos práticos imediatos nenhum. A mulher demorou, segundo relatou a Dani, a consertar o queixo de volta para o nível normal na linha do maxilar, já que essa sua peça anatômica teimava em permanecer decaída em estado de perplexidade.

Quando eu volto da academia de musculação, pela manhã, paro o carro na praça principal, e me sento em um dos bancos, com o Musil de três quilos na mão. A leitura desse livro é compulsiva, exige bem menos atenção do que eu previa (embora, claro, eu dê toda a atenção possível), e está sendo motivo de intenso deleite. Me dá uma baita vontade de voltar para a situação acadêmica de ter que escrever uma monografia, pois tenho o tema perfeito: as raízes de Rayuela em O homem sem qualidades. Assim como Faulkner está para Garcia Márquez, e o Sartre e Camus estão para o primeiro Vargas Llosa, Musil está para Cortázar. Isso é evidente e incontestável assim que se passa a ter intimidade com O homem sem qualidades. Dele Cortázar retirou as intensas cogitações filosóficas, enleivadas de iconoclastia e distorção das lógicas da ótica; retirou o espanto bem humorado de virar de ponta cabeça os conceitos arraigados pelos costumes, a sociologia e a história; retirou o excepcional domínio de enxergar a magia explosiva e oculta por detrás da mesmerização dos rituais cotidianos. O mesmo exílio voluntário de não-coaptação de Ulrich, o herói de Musil, se encontra nos heróis de Rayuela, e a Maga reflete os apelidos criados pelo herói de Musil para encobrir a mundanidade das grandes mulheres do livro, investindo-as de romantismo. E a voz de sofisticação que tanto me impressionou em Cortázar, vem toda de Musil, o que Cortázar destilou com o movimento surrealista e o non-sense latino-americano criado por ele. E é incrível ver a limitação dos estudiosos de Cortázar em nunca ter visto isso, pela culpa evidente de que Musil tem a má-fama de ser incompreensível ou germânico demais, ou simplesmente porque Musil é pouco conhecido em nosso continente. Mas Cortázar dá uma dica importante dessa influência, já que dedica um capítulo de seu grande romance em reproduzir um excerto de O homem sem qualidades.

Esse Musil tem 1273 páginas, na edição comemorativa dos 40 anos da Nova Fronteira. Estou para acabar a primeira parte do livro, que se encerra na página 704, e que é, propriamente, o romance lançado em 1930 e que teve enorme sucesso. As outras 500 páginas equivalem à continuação virtual inacabada sobre a qual Musil trabalhou até o final de sua vida, e que varia o número de páginas e a quantidade de capítulos aceitos ou não do espólio de rascunhos conforme as edições que o livro tem pelo mundo. No Brasil, dispomos dessa tradução, assinada pela Lya Luft (excelente tradutora) e Carlos Abbenseth, o que é um trabalho memorável. O que dá um pouco nos nervos é que essa edição tem mais erros de revisão do que seria desejável para uma obra dessa importância, mas..., relevemos. É um livro realmente magnífico, fundador (fácil ver também influências reconhecidas ou não em muitos outros escritores importantes), que exige um lápis sublinhador para acompanhar a leitura, e que provoca profundas e incontáveis perturbações. Musil tinha plena ciência do gigantismo que estava escrevendo, e sua extrema segurança o coloca entre os maiores escritores de todos os tempos. Como deveria de se esperar em se tratando de um livro pouco conhecido no país, esse livro custa muito caro; deixei de comprá-lo por várias vezes por causa disso, até que, há algumas semanas, o achei por 74 reais (frete grátis) na Amazon, o que equivale a praticamente metade do preço. Assim que terminar a primeira parte, retorno com uma análise sobre a obra, para os raros que se interessarem por algo desse tipo.

P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A frigidez emocional reinante



Tolstói no ensaio Uma confissão, e Dostoiévski nos discursos do padre Zossima, dizem a mesma coisa: integrar-se no mistério da existência é deixar-se atravessar pela alegria de viver. Tolstói fala de suas enormes depressões durante suas certezas de que Deus não existia, e de como intentava acabar com sua vida para escapar do peso da gratuidade, até resolver o problema do absurdo ao descobrir que, instintivamente, a natureza é destinada a acreditar em Deus. E acreditar em Deus era compartilhar da alegria da criação, independente de especulações filosóficas, intuições metafísicas ou códices religiosos. Só se mantêm vivo aquele que é alegre. Bashevis Singer, em seu comovente conto Alegria, faz o rabino que perdeu a fé depois que toda sua família sucumbira à peste, ouça em seu leito de morte suas desaparecidas esposa e filhas lhe dizerem: "Devemos estar sempre alegres." O padre Zossima diz que devemos respeitar as crianças e os animais, e deixá-los imolados, porque eles são a expressão mais pura da alegria de Deus.

Isso me dá o que pensar. Não se preocupar com nada. Seguir adiante, com menos bagagens possíveis. Assim que eu fui conquistado pelo gato vira-latas que está morando aqui em casa. É um bichinho tão delicado, tão equilibrista da sobrevivência, tão simples e descomplicado. Descobri que eu sempre tive um medo supersticioso de gatos, um medo tolo. Achava-os frios e distantes, megalomaníacos e tiranos. E não tem nada a ver. Esse gatinho pula no meu colo, me crava de leve os dentes (até minar sangue) de tanta volúpia, e me segue para o quintal e procura a ameaça desconhecida por sobre o muro como um autêntico companheiro. Come o que lhe dou: hoje mesmo devorou um prato de macarrão; ontem, comeu o resto de carnes que eu lhe atirei no chão. Ele ainda não tem nome, e não tem vasilha para comida. Ainda está em quarentena de não se aceitar de vez que ele é nosso novo bichinho de estimação. Ele veio do nada, e resolveu se instalar no sofá da garagem. E forçou a amizade de maneira mais despudorada possível, como se fosse um amigo distante de vínculos amorosos inabaláveis. Ele invade o quarto de brinquedos da casa e persegue as bolas de plástico com uma entrega faceira; ontem o vi instalado no canto da bicama da biblioteca, com uma solenidade de gentleman que não quer ser incomodado após horas de leitura. E eu o pego no colo, ele se estende com uma maciez lânguida que revela indignação, e dou-lhe uma bronca suave, e o coloco de volta no sofá de fora. Há uma série de temores ainda: toxoplasmose, hidrofobia, e, em última escala, o temor de que passemos a amá-lo e seu instinto libertino faça com que nos abandone. Brigas lá fora por fêmeas no cio, crianças maldosas com espingardas de chumbo, tocaias de cães de grande porte. Antes que o envolvamos, a velha prevenção dialética do amor nos aponta os contras para que sopesemos com razão. Eu que nunca gostei de gatos. Chego em casa e ele pula do sofá e vem me contar as novas fofocas. É um sujeito pra lá de desinibido.

Penso em algum nome jazzístico para lhe dar. Mingus? Milt? A Júlia tema na aposta mais prosaica: Fofinho. Mas eu tento desconversar. Ela bate os pés e reafirma: Fofinho.

O pior dos gatos é isso. Meu amigo Emerson tinha dois gatos, que apareceram em sua casa repentinamente, e ele saiu desconsolado seis meses depois à procura deles, que não voltaram mais de uma aventura noturna. Ficou muito triste; sua depressão controlada por remédios pesados elevou para picos perigosos. Sua visão decadentista ficou ainda mais negra por algum tempo.

Taí porque escritores gostam tanto de gatos. Cortázar na bela foto do gatinho em pé lhe olhando por uma janela. Hemingway nas belas passagens de As ilhas da corrente. São animais cordiais, não incomodam, mas estão tão presentes e atenciosos como os cães. É como se essa economia toda se revertesse para uma companhia destilada, concentrada, cortando os papos furados. Uma amizade em supra-sumo.

Por conta do um pedido de socorro deixado por um trabalhador chinês na encomenda de um produto via internet feito por uma brasileira, em que vinha escrito "I slave. Help me", eu reli o ensaio Matar um mandarim chinês, de Carlo Ginzburg. A premissa do ensaio parte da lenda urbana de que, se lhe oferecessem um milhão de dólares, às custas de que uma pessoa de toda desconhecida por você fosse morta do outro lado do mundo, na China, e que a morte de tal pessoa não lhe interferisse em nada em sua vida e que você nem mesmo saberia de sua existência, você aceitaria? É uma questão moral de extrema relevância e atualidade. Li na revista Piauí um ensaio sobre duas cidades industriais chinesas em que os índices de poluição no ar estão catastróficos. Pessoas morrendo de câncer pulmonar e de várias doenças decorrentes do excesso de monóxido de carbono. E nada é feito; não só as autoridades são absolutamente indiferentes ao pesadelo dos milhões de pessoas que moram por lá, como a própria matemática da exportação mundial dos produtos feitos nesses polos industriais é conivente com as mortes. Mata-se milhares de mandarins chineses para que um ocidental padrão tenha seu tênis Nike, ou qualquer badulaque ubíquo que entra em nossas casas. Eu me emocionei com o bilhete desse desconhecido funcionário que pedia ajuda. Uma moça, não sei de qual estado do Brasil, encomendou um produto da China, via internet, e o pacote feio, todo envolto de celofane negro, lhe foi entregue com um atraso de meses. E dentro, o bilhete, escrito à mão e num inglês funcional de triste desesperança: I slave. Help me. A moça sentou-se de imediato à mesa da cozinha de sua casa, e caiu em um choro convulsivo. Imaginou o que é possível imaginar: as mãos desumanizadas que colocaram aquele regalo inútil da blusa comprada por ela, confeccionada às custas de muita agrura e abuso salarial, por mãos pagas em situação de miséria que fazem os movimentos repetitivos por 12 a 15 horas por dia. Mãos que ganham um proporcional ridículo de um subemprego martirizante que equivale à escravidão. E essas mesmas mãos estavam tão desesperadas, que resolveram fazer a atitude inútil de escrever às pressas um pedido de ajuda, sem assinatura (assinatura para quê, se pertencem a um invisível?), e mandá-lo clandestinamente junto com a compra. Claro que a pessoa foi a primeira a ter plena consciência de que não seria salva por aquilo. Claro que ela sabe que, se tiver algum resultado aquilo, será ao longo de anos de pedidos de socorro paulatinos, e ela mesma já terá desaparecida, gasto sua mísera existência em ser uma máquina invisível e brutalmente vilipendiada. Entre a moça que recebe o bilhete e a pessoa que o escreveu, paira o mais surdo enigma humano nunca resolvido, a de para se perpetrar o assassinato de alguém, não é preciso sequer que o assassino saiba que está matando. O que é uma blusa, um tênis, o penico de brinquedo de uma boneca (eu segurando com um morno terror o penico da Monster High da minha filha, lendo gravado abaixo a frase Made in Chine), diante uma vida humana? Mas, contudo, ainda se continua comprando isso tudo, no círculo de pesadelo que é a frigidez emocional reinante. (Roberto Bolaño foi genial ao tacar na cara do leitor esse anestesiamento em que matamos um mandarim chinês a cada dia, nas 345 páginas massacrantes da Parte dos crimes em 2666. Nestas páginas, ele se limita a narrar, exaustivamente, os assassinatos sem solução nas maquiladoras mexicanas, assassinatos brutais de mulheres funcionárias nessas fábricas de exploração do trabalho barato. O estilo é de jornalismo marrom, sem sentimentos, um tanto sadomasoquista em sua propulsão inercial. É uma versão do pedido de socorro do chinês desconhecido: inútil, afogado em seu trivialismo sem imersão na correria moderna, feito para ser desconsiderado. Não à toa que muitas pessoas pulam essas páginas, e pedem para que sejam removidas nas próximas edições.)

Há dois livros sintomáticos dessa situação, escritos em diferentes épocas por Coetzee. Em Idade do ferro, Coetzee aproxima uma mulher com câncer de um mendigo. O mendigo passa a pernoitar na varanda da casa da mulher, e a mulher descobre que é a única companhia que tem em seus meses finais de vida. Ela aos poucos vai o trazendo para dentro de sua casa, aquele ser ressabiado que está em um estágio de deserção que quase lhe faz esquecer seu idioma. São dois seres deportados do tempo, dois seres que já não vivem mais no mundo real. Daí o assombro e condenação dos vizinhos e da filha da mulher, que passa a voltar sua atenção para a mãe doente por causa dessa sensação insana de sua amizade com o mendigo. É um livro duro, daqueles insubmissos que Coetzee costumava escrever antes que algo nele também se calcificasse e se rendesse. O outro livro é um meio termo entre sua visão terna de outrora com sua nova concepção de um cristianismo pagão vingativo: Desonra, talvez seu romance mais impactante. Em Desonra eu vejo contatos entre a vida do personagem principal com traços da minha vida. O herói do livro trabalha em uma clínica de eutanásia animal; ele se condói com um cãozinho aleijado, no qual lhe faz carinho e lhe alimenta na gaiola do que equivale ao corredor da morta da clínica. No momento final, entretanto, quando sua parceira de trabalho lhe pergunta se ele vai ficar com o cãozinho, o poupando do sacrifício, ele diz que abrirá mão dessa obrigação, e mata o animal. Eu trabalho na fiscalização de abate de centenas de animais por dia, em minha profissão de fiscal veterinário, e amo um gato de rua. Nossa maior ambição, a ambição mais infrutífera e banal, é esperarmos por uma explicação, a menor possível; poderia ser ao menos uma pista.

O efêmero privilégio de morrer por último



O local que ficou conhecido como Ilha de Páscoa, em sua história antiga sem registros voluntários além das apavorantes descobertas fósseis feitas no século passado, teve 12 tribos. Dois aspectos cruciais são os detalhes comuns entre elas: o fato de que alimentavam uma rivalidade entre si que foi se acentuando progressivamente, e a obsessão que cada uma possuía de construir menires de pedra cada vez mais gigantescos. A estatura desses inúteis blocos de pedra definia a supremacia que uma tribo tinha por sobre as outras. Quem conseguia construir os menires mais fabulosos, ganhava o instantâneo direito de ser visto como o ápice em poderio econômico, político e espiritual, até que outra tribo retirava o ganhador de seu patamar e se assentava com todo seu orgulho no topo social, tendo por sua vez confeccionado o novo menir mais alto. E assim se consumou toda a centenária história que a Ilha de Páscoa tem para contar, em seus restos mortais de ossos e pedras. Uma pequena ilha, que no começo de sua civilização era um paraíso verde, com rios, árvores, pesca e caça abundantes, teve seus recursos naturais destruídos na loucura estúpida de seus líderes e seu povo em erigir tristes figuras hoje incompreensíveis ao deus próprio de sua ambição. Cortaram uma a uma suas árvores, para que com elas rolassem por cima as vigas de pedra; mataram um a um de exaustão seus animais de pastoreios, que tinham de puxar as pedras; retiraram do chão todo o minério necessário para contribuir com a desertificação da paisagem; dizimaram-se como povos na repaginação em menor escala do escravismo e da usura de suas classes dominadoras. As páginas mais terríveis do relato de suas fugazes passagens pelo tempo, inseridas no fundamental livro Colapso, de Jared Diamond, são as que falam do momento final de seu povo. Terminadas todas as fontes de sobrevivência, dilapidadas toda a riqueza natural da ilha, as doze tribos começam a se devorar literalmente umas às outras, em um canibalismo desesperado que tenta dar um lenitivo à miséria. Os achados arqueológicos da Ilha de Páscoa calam em nós a premonição que não queremos ver, em uma sociedade atual em que, da China, vem um pedido de socorro em um pacote comprado pela internet, em que sua compradora brasileira, reportada em alguns jornais, revela o choro que a tomou ao ler o bilhete inserido na encomenda pelo indeterminado funcionário: "I slave. Help me". Da realidade de agora, a estultície de construir blocos de pedra se revela com o mesmo grau de cegueira com a obsessão que temos por celulares, carros, horas vazias de tarefas diárias preenchidas para abater o pensamento, e uma série de regras de consumo feroz da qual não conseguimos sequer racionalizar, quanto mais escaparmos dela. Nossos menires são pagos com tudo que em um passado assombrosamente recente tínhamos ainda em relativa abundância, mas que agora desaparece com uma rapidez punitiva: a água, as outras espécies animais, a frágil segurança dos estoques de alimentos. Estamos em franco e letárgico suicídio, e a inteligência nos abandonou de vez. Perdemo-nos em discussões sem foco. Os homens, mulheres e crianças das 12 tribos da Ilha de Páscoa se comeram uns aos outros, num espetáculo que os privou do mínimo resquício de humanidade, em cenas que as tantas ossadas descobertas fazem-se brutais demais para que nossos pudores suportem imaginar.

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Mensagem postada por minha esposa Dani, em uma rede social:

"A natureza sabe ser sarcástica: manda a chuva por um dia, encobrindo os céus de nuvens, e ficamos deliciados com o frescor e a alegria do tempo, mas depois nos devolve o sol em toda sua fúria. Como se a dizer que os tempos de chuva contínua já ficaram no passado, não retornarão. Não podemos lamentar que a chuva tenha ido embora, pois ela nem chegou realmente a vir. (O que fica é o barulho da moto-serra do vizinho da rua abaixo da capela da igreja católica, que funcionou a tarde inteira ontem, cortando uma árvore.)

P.S.: esse domingo foi Dia de Finados. Não me lembro de nenhuma desta data que não tenha chovido. Pela primeira vez, não choveu."





sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os grandes temas



Não é que o romance esteja acabando, mas os romancistas é que definham. Discussão eficiente é aquela em que nosso opositor se revela com um desconcertante argumento que reverte a verdade para o lado dele. Assim, ao negar para Ernani Ssó que o que ele dizia sobre nenhum romance há 20 anos ter mais a capacidade de o entusiasmar, o que ele proclamou aos poucos se provava como um diagnóstico das minhas próprias leituras. Parei para pensar e tive que dar o braço a torcer: faz tempo que nenhuma obra de ficção me impacta. Respondi ao Ssó que de dois em dois meses eu me deixava arrebatar por um novo romance; e não que não seja verdade, mas em uma análise mais sucinta, os livros que eu leio não chegam a ser integrados ao montante de produções contemporâneas. Puxei pela memória, em um ato sistemático sincero, e dei por mim que o último romance atual que realmente me impressionou foi Os enamoramentos, publicado por volta de 2 anos atrás. Nesse quadro, entra, claro, as últimas produções de Philip Roth e Thomas Pynchon. Mas tudo o mais tem conseguido apelar apenas para minha esperança de encontrar uma nova luz frutificante nas letras, uma nova motivação e energia. Mas não é o que acontece: Franzen e Egan e Tartt, por exemplo, Gonçalo Tavares e, de modo geral, a nova ficção portuguesa, tem, trocando em miúdos, me enchido de tédio. O livro da Tartt me consumou três semanas para que eu conseguisse terminá-lo, e se eu o fiz, foi por um ato de obrigação. Para não me limitar à produção norte-americana, o citado Gonçalo Tavares nunca me pareceu realmente literatura; vejo, com todo respeito ao autor e a seus leitores, que os tantos elogios que se fazem a ele é uma transcodificação ibérica das frases puxa-saquistas que atulham as contra-capas dos romances estadunidenses, e considero o cúmulo da subserviência intelectual que Tavares aceite que o anunciem como "o Kafka português". Tavares me parece um mestre do exercício provinciano da literatura, que tem sua relevância graças ao tempo das vacas magras em que o espírito criativo passa.

Uma coisa só eu tomei de proveito da leitura de Vila-Matas: em seu romance O mal de Montano, não sei se um companheiro de escritório do corcunda narrador, ou outro personagem desse facilmente esquecível livro, diz que o último grande escritor foi Robert Musil. Isso me ficou reverberando na cabeça. Eu não conhecia Musil; eu nutria mesmo uma aversão à sub-grandiosidade de Musil, via sua estatura de grande escritor do século como uma propagação vinda do mercado negro das valorizações literárias. Respeito muito Elias Canetti, e na auto-biografia de Canetti, as tantas deliciosas páginas sobre a amizade do autor com Musil me encheram de dúvidas sobre Musil. Me parecia que Canetti confirmava meu preconceito de que o homem Musil era um reacionário intragável, e que sua obra-prima era para seletos leitores que ainda tinham no espírito a heráldica de decadentes orgulhos aristocráticos. Musil era um tratado enjoativo sobre maçonarias sociais emboscadas e mortas pela história, e só era apreciado por saudosistas anciães. Ou seja, o que eu jamais me interessaria por ler. Mas, a frase do Montano me fez comprar O homem sem qualidades. Três dias depois do calhamaço de 3 quilos me chegar, eu tive que reportar o fato ao Ssó, para completar o círculo psicológico de improváveis ideias cadenciadas: narrei o quanto Musil havia me pego de cheio, na armadilha de ler o livro no banheiro e não conseguir mais que a leitura atendesse apenas às instantaneidades distrativas da escatologias. O livro é ligeiro e muito engraçado, apesar de suas 1400 páginas, é facílimo de se ler, eu escrevi a Ssó. E Ssó me respondeu com algo que me surpreendeu, pois vi nisso que a corrente de causalidade de nossas conversas também agiam nele: ele disse que seria uma boa pedida, mas que ele havia reservado o verão para a leitura de Os demônios e Os irmãos Karamázov, esse último antes do primeiro. Eu que havia o martirizado sobre o quanto Dostoiévski era uma revitalização do deleite da leitura. E eis que ele estava a se programar para voltar ao Karamázov.

Pois bem, chego onde queria. Eu reli mês passado os Karamázov, enquanto lia concomitantemente Musil. Como é bom ler Dostoiévski! Foi um limpa em meu enfado de leitor, e uma bela nostalgia rediviva. Ler Franzen e Tartt era um sofrimento com certo deleite, que se acentuava mais a compensação da leitura por poder sair falando mal deles depois, por poder reforçar a consciência daquilo que Nietzsche dizia de que o excesso de conforto da sociedade de consumo atrofiaria os poderes do espírito no homem. Leio com alegria, na tradução fiel de Paulo Bezerra, a seguinte frase em os Karamázov: "tremendo toda trêmula" (p. 761). O tipo de frase que deixaria Ssó louco, se não fosse de Dostoiévski. O livro é recheado de defeitos assim do estilo de Dostoiévski (Bezerra e os demais tradutores do autor da editora 34 escreveram fartamente sobre o cuidado que tiveram de traduzir a linguagem de Dostoiévski com toda sua oralidade, vulgaridade e incorreção). A literatura franzeana ou tarttaniana moderna vai pelo outro caminho, do apuro estético, da excessiva eufonia ora e outra disfarçada de urbanidade lasciva, de arranjado rebolado de jovialidade iletrada. Escritores como Tartt e McEwan direto parecem que tentam suavizar o que se tornaria por demais erudito em sua escrita mascando um chiclete e comendo um x-burguer para o açúcar sofisticado da deleteriedade se incorpore em suas obras. McEwan, desde dez anos atrás, não produz nada que não seja um mascar de chicletes e um apanhar com as mãos aptas a aparecerem em propagandas de fast-food um x-burguer gordurento. Sábado, Solar, e não sei mais quantos romances que ele lançou de lá para cá estão tão incapacitados de dizerem alguma coisa genuína que a mídia cultural cumpre bem a sua inércia em apimentar o gosto dessas sensaborias com a grife do nome do autor. Se é McEwan, é bom. Em Liberdade, do Franzen, 500 páginas são gastas para costurar uma catarse do reencontro amoroso dos dois amantes que, durante todo o livro, se traem, se odeiam, se envelhecem, e talvez seja a única cena que realmente tem alguma fagulha de vida, com os dois, homem e mulher, debaixo da chuva, com fome, no frio, sentados em choro conjunto nas escadas do chalé abandonado no meio da floresta. Lembro que eu vi como Franzen escreveu essa página: com suor no rosto, quebrando a ponta do lápis e seguindo em frente em febre tirando o máximo que podia do cotoco de carbono; em êxtase. E o x da questão é que, Dostoiévski parece que sempre escreveu dessa maneira, sem concessões nem mesmo à noção européia muito em voga do beletrismo. Dostoiévski, que escreve com redundâncias excessivas, com desconexos aberradores (que tanto, é claro, devem soar maiores ainda em seu próprio idioma), rasgava seu espírito nas páginas. Não à toa que Nietzsche anunciava, apaixonado, em suas cartas, que o russo era o escritor que escrevia com o sangue.  

Voltar a ler Dostoiévski para mim é voltar a me deixar possuir por um anacrônico sentimento de adstringência em respeito à humanidade. A mesma impressão que me possuiu ao assistir, ontem, um documentário pela rede Escola, sobre agro-floresta, em que um europeu que me pareceu ser a cara do Abraham Lincoln, que mora na Amazônia, pregava com uma sapiente simplicidade o contato com a natureza e a vida em respeito à natureza. Um homem de seus 50 anos, muito bonito em seu excesso de rugas, com um menininho de 3 anos, loiro, deitado em seu peito, enquanto ele fala com carregado sotaque sobre plantas e ventos, sobre o teor da terra a sobre a mata. Um leitor, um cara culto. E, em contrapartida geográfica, um caboclo de enorme inteligência, na caatinga, preenche a dicotomia do programa falando sobre sua luta para proteger o que resta de natureza na seca nordestina. Isso, essa relevância inexorável e imperiosa dos grandes temas, é que me enternece e me infla de fé com a leitura de Dostoiévski. Os escritores atuais, em suas deprimentes tentativas de realizarem o melhor, procuram os grandes temas, mas seus espíritos obnubilados não conseguem alcançar. Por isso essa nova escola de enxurrada de romancistas metalinguísticos: porque, de comum acordo, acharam falar sobre a morte do romance como a última tragédia de gabinete que simula com certo charme falar sobre os temas capitais humanos. Há um capítulo inteiro de os Karamázov, intitulado Os meninos, que por si mesmo já seria um amplo aprendizado para esses escritores voltarem a procurar o caminho certo para encontrarem o Enredo. Esse capítulo, absolutamente errático no livro, vem após o inquérito investigativo que uma comissão de procurador, promotor e comissário, faz sobre o parricídio supostamente praticado por Dmitri Karamázov. Estão o acusado e a comitiva e uma série de testemunhas, dentro de um hotel, em uma dessas províncias invisíveis anunciadas apenas por sua letra inicial, típicas nos livros do russo; há neve lá fora, a temperatura ambiente é de 20 graus negativos. Dmitri olha pela janela e vê a lama de uma estrada, e as miseráveis isbás do povoado. O capítulo do inquérito é arrastado, sufocante. Daí Dostoiévski, em sua mestria, colocar logo em seguida um capítulo carregado de graça, de diálogos do populacho, de certa leveza. E mesmo nesse capítulo_ o qual é fácil presumir que foi escrito com velocidade_ há os tantos grandes temas humanos, os quais Faulkner falou em seu discurso de recebimento do Nobel: há a proximidade da morte, o perdão, o ódio, o orgulho da fragilidade não reconhecida, a amizade. 

Não é para menos pensar que o escritor atual deixou de ser um aventureiro do espírito, um filósofo social (com tudo de profundos significados que isso tem), para ser um burguês vaidoso à procura de palmas, ou o que hoje em dia se arranja para encobrir a incorreção estúpida de não se poder mais utilizar palavras desgastadas como burguês e capitalismo. Ver uma escritora como Tartt gastar todo seu nítido talento em cabrioladas ridículas para agradar o suposto adolescente de 16 anos que é o alvo pretendido de seu livro, é mais que um sinal de deterioramento das antigas vitórias intelectuais e espirituais humanas. A arte se boçaliza. Estes livros, que são odiados de ante-mão pela visão estarrecedora de suas tantas páginas, são meus best-sellers, meus passatempos preferidos, meus filmes de ação e a mais poderosa de todas as drogas. Musil está repleto de grandes temas, e de uma sublime estética inigualável. Cada um de seus arejados mini-capítulos é um ensinamento e uma descoberta sem igual. Ele tem a capacidade de amplidão através de uma enganosa pequena-coisa que só tem páreo em Borges. Musil e Dostoiévski, cada qual a seu modo, utilizam como comburente de suas obras os mesmos e triviais assuntos que Faulkner disse ser o que compõe toda a grande literatura: eles falam das únicas coisas que tem mérito para que a cada dia se tenha o interesse de se levantar da cama e seguir adiante: o amor, a honra, a humildade, a defesa dos oprimidos, a justiça, a comunhão entre os homens, a luta contra o ódio. Em um entendimento que poucos tem a liberdade aos conceitos eventuais para compreender, toda a grande literatura é socialista.

Chegaram-me novos livros da Companhia das Letras



Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, solicitei um dos melhores títulos de Simenon, A neve estava suja, em nova tradução e corrigindo o fato de que um livro dessa importância estivesse tantos anos fora de catálogo por aqui; e o livro de ensaios políticos de Pierre Bourdieu, Sobre o estado, um dos mais importantes intelectuais do século XX. Eles me chegaram em bom tempo, nesta sexta-feira chuvosa.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Nordestinos"


Pessoas que se expressam precariamente em seu próprio idioma, agindo com uma discriminação cruel contra nordestinos, com um preconceito estúpido reforçado pelos resultados das urnas do último domingo. Parece que mal sabem esses ingênuos e nanicos morais que São Paulo, tido por eles como modelo de lucidez política e sofisticação intelectual, tem o seu Paulo Maluf e sua irresponsabilidade administrativa que faz com que uma grande realidade de seca apareça pela frente. E falta a esses racistas uma auto-crítica para saberem que nós goianos também somos os "nordestinos" para outros estados, basta visitar esses estados, ou dar uma simples olhada em foros pela internet para ver o quanto gente dos estados do sul e da querida São Paulo deles nos considera um povo culturalmente atrasado e motivo de chacota, com os nossos Sarneys e ACMs. Se a essas pessoas se pudesse dar algum conselho, o que se trata de algo um tanto difícil visto a cega vaidade vazia delas em se julgarem formadoras de opinião via Facebook, eu diria para enxergarem a diferença do outro com mais coração e humanidade, tentando pensar por si mesmas e não pelos tantos clichês que lhes são oferecidos e que elas engolem agradecidas garganta abaixo. Um mínimo de intuição possível revela que os próximos anos para o Brasil não serão nada fáceis. A volta da hiper-inflação, mais corrupção, mais centralismo de dominação da mídia, mais boçalidade no comando das grandes massas sociais, mais violência e alienação. E isso_ queira Deus que essas coisas não nos prejudique tanto_ não virá porque Dilma ou porque Aécio, que nenhum dos dois não chegam a ser sequer gerenciadores competentes quiçá salvadores da pátria, mas virá porque nós somos o povo dividido e sem foco de sempre, o povo que nunca participou de sua própria história, mas foi sempre massa de manobra, ocupados com as distrações do baixo entretenimento que sempre usam para nos manter mortificados. E só mais uma coisita: carro financiado e tv LED de 50 polegadas não nos tornam ricos; ainda somos um país de pobres e miseráveis, nesse lado de cá da África onde vivemos.

Transmigração



Ele o viu descendo pelo tronco do pé de manga logo que abriu a janela do quarto, em uma espécie de telecinese inter-espécie, a sombra dele com uma facilidade vetorial atravessando os extremos da altura da árvore com uma imaterialidade que quase era sinistra naquela hora da manhã. Acordara praticamente pensando nele, e fora dormir na noite anterior analisando as incômodas reformulações no seu cotidiano que já tinha que fazer desde que ele começara a ocupar sua casa, com seus miados cuja palavra cinismo condizia bem e tinha um sentido todo adequado ao mundo dos gatos. Pensava nele e, tcharã, lá estava, se aproximando pelo quintal com uma prontificação ególatra que com certeza já tinha o senhor parado do outro lado da janela em seu campo visual. E nem podia dizer que esse senhor, ele, era de agora para frente seu novo dono. Gatos não tem donos, Dani, ele disse à sua mulher, em uma das várias discussões erraticamente com erudita seriedade que passaram a ter sobre o novo inquilino; gatos são seres indiferentes e dominadores, ela dissera em resposta, com a caneca de café pendurada imóvel na mão diante de si, e um monte de clichês que saíam em profusão do fundo da mente dos dois como se suas infâncias combinadas em que ouviram falar sobre gatos os tivessem preparados para aquele momento em que, finalmente, conviviam com um gato na prática. Mas ele é macho, ele dissera à esposa, pensando nas enormes bolas do bicho, ele que nem sabia que as bolas de um gato poderiam ser vistas assim com tamanha evidência. Ele sabia, através de outra das redes de conexões com seus pre-conceitos infantis incutidos, que os animas dessa espécie que tinham três cores eram fêmeas, e os com duas cores, machos. Mas e os gatos angorás brancos?, a esposa perguntou, com um risinho sardônico, e ele esperou, chegou a contar três segundos, até que a previsível frase viesse: Você é veterinário, deveria saber dessas coisas. Dessas coisas o quê, Dani, que gatos machos tem testículos que de tão grandes devem estar por detrás da capacidade deles de se equilibrarem com tanto sucesso? E aí ele rebate: me cite o nome do escritor que fundou a literatura etrusca, você deveria saber já que é formada em letras.

As bolas do gato eram realmente espantosas de grandes, o que ficava em maior realce diante a magreza do modelo geral em que elas vinham acopladas. Não sabia por quê, mas ele pensou imediatamente no Mick Jagger, quando se deparou com o felino magérrimo se distanciando pelo alpendre assim que o flagrou saindo por detrás do sofá de fora. Não sabia se Jagger tinha testículos tão imponentes, era bem provável que não os tinha assim, mas na concisão das verossimilhanças automáticas sua mente de imediato outorgou uma respeitosa capacidade sexual ao gato. Ao deitar o livro que estava lendo, sentado na cadeira de fio, para ver aquele prodígio anatômico, ele não conteve uma exclamação: "Nossa!". Seja o que havia impregnado de amistoso na voz, o gato parou a fuga e se voltou para ele, e deu uma de suas miadas sedutoras, a telecinesia passando a ser um contrato de ligação instantânea entre os dois d`agora pra frente. O gato parecia mesmo saber quem era Jagger, ou ter compreendido o código de valores por detrás da ideia, pois mudou a sua forma de andar, de simuladamente tímida para um gingado de ricos poderios malandros, um demorar entre o espaço das passadas dos membros dianteiros e anteriores que tinha algo de beco, de perigoso, com um "e aí malandragem, o que tá pegando" em eco ao fundo. Houve uma entrega completa e sem reservas, algo bem maquiavélico, pois o gato instituíra a obrigação de que ele, o gato, seria o dono da casa. Um gato magro, amarelo de duas cores e dois sacos enormes libidinosos que levantava a questão de se teria que tirar as crianças de perto para evitar aquelas perguntas cabulosas. Um vira-lata inglês oriundo da classe industrial de altas chaminés das fábricas de tinta de tecidos, conhecedor profícuo daquelas ruelas de muros de cores carbonizadas e chuvas frias constantes, antes que o destino o fizesse cair nas graças do mercado fonográfico incipiente. Ele veio para debaixo de suas pernas e com uma desavergonhada quebra de sutilezas diplomáticas alisou-se nelas, ronronou com uma consciência telecinética simultânea entre os dois de que além da constituição de posse estabelecida, se assinava um acordo em que também contava um cortejamento com alvo feminil que, é claro, os grandes testículos heráldicos deixavam claro quem era o macho ali. Ele passou a alimentá-lo; deixava restos da janta no canto da garagem, restos de pizza, de pães de queijo. Fazia isso de modo clandestino, pois ainda não sabia o que a Dani iria pensar disso, e também porque não sabia o que ele mesmo deveria pensar, ele que era um devoto criador de cães, o que deveria ter alguma regra de comportamento quanto ao inimigo natural dos cães. (Os gatos antes eram todos mortos assim que ousavam pular pelo muro de sua casa, pelo rottweiler que eles criavam e que se atirava sobre os bichanos com uma crueldade silenciosa cultivada por séculos de ciência destrinchadora, e que eles ouviam, na madrugada, os gritos de desespero sem escape das vítimas, a maneira como o cão as atirava contra as paredes e mesmo de contra o carro, e as jogava atleticamente para o alto, e como os gatos, ao voltarem para o chão, emitiam sons ainda mais apiedantes diante a imposição natural do resto de martírio que tinham que passar até que a matemática sanguínea cheia de resquícios selvagens do cão se cumpria e eles podiam morrer em paz, depois de tanto sadismo_ e o cão, em sua absoluta e perfeita mudez, denotando ao fim de tanto prazer, o tédio que vinha depois da queda abrupta dos níveis de serotonina, o que o obrigava a empurrar a evolução para esse novo infinito caminho de nuances filosóficas ainda primitivas mas prometedoras.)

Mas ele não deu um nome ao gato, isso seria levar o imperialismo histriônico do bichano à sério. E se o gato apostava que naqueles metros quadrados onde vinha dormir, receberia a obviedade do nome de Jagger, teria que tirar o cavalinho da chuva. Não iria enriquecer ainda mais indevidamente aquele ritual de conquista com um batismo. Mas, como acontece com todas as piadas temerosas, a ocasião acabou dando-lhe um nome. E foi graças a outra banda de rock, pois ouviam muito um disco do Grateful Dead, e sua filha Júlia, de 4 anos, cantava o refrão "I had to move, really had to move", de Bertha, como "O gato bluu, uuu", e ela quem deu o nome ao inquilino de Gato Bluu, assim mesmo como ele literalizou as duas palavras, com dois us. E o Gato Bluu, uma vez com um nome, achou por direito que era a hora e o momento de dar sua nova quebra de diplomacia, pois foi descoberto uma vez que não estava limitado a deitar no sofá velho de fora, mas brincando com uma alegria genuína na piscina de bolinhas da Júlia dentro do quarto de bonecas. A Dani foi ficando mais enfurecida. O Gato Bluu voou por debaixo das pernas de uma Júlia possuída por gargalhadas de euforia, e atravessou pela porta da cozinha como um mirrage com duas turbinas cabeludas de distinto tamanho abaixo da cauda. O Gato Bluu passou a querer por que queria entrar na casa. E a Dani vinha com panelas de água e jogava-lhe em cima, e ele só balançava a cabeça aspergindo a água pelos lados e parecia mesmo dar um sorriso de quem agradecia o refresco mas agora não, obrigado, tenho assuntos mais específicos, prosseguindo a entrar calmamente pela janela. Tinha uma determinação tão inviolável que os conceitos infantis sobre a permissividade melíflua dos felinos voltaram a sair do subconsciente do casal na hora do café da manhã, em que a Dani tornava a abrir todas as janelas da casa lacradas no começo da noite para que o Gato Bluu não entrasse. Ela deixava só a janela do quarto aberta, e ele, levantando a cabeça de madrugada do travesseiro, o viu postado no parapeito, os olhos iluminados como uma anunciação vinda de um dos avatares do pesadelo, sem entrar, talvez com medo, pela primeira vez, das luzes azuis e do barulho do climatizador ligado ao lado da cama.

Como ele já passara a gostar do gato, embora ainda não o admitisse, deixava que a esposa tomasse as providências que achasse certa tomar. Ela também parecia não querer fazer nada; seria tão fácil se ele sumisse de repente, alguma aventura noturna o levasse embora, que agisse a via sacra dos gatos vira-latas carregada de atribulações e fantasias. Mas, ao mesmo tempo, será que a supressão do tormento iria fazer falta? não ver mais aquela "insígnia de um desaparecido veludo", como escrevera o poeta que eles menos gostavam mas que se salvava pela beleza desse verso, deitado no sofá, sonhando sonhos de gato emitindo ronronares pelas metades que acentuavam a sua desproteção, o que tinha o efeito de os fazer parar de cogitar sobre sua diabolice. Se ele continuar a entrar aqui dentro, teremos que o expulsar em definitivo, a Dani disse, e ambos pensavam no sofá caríssimo que haviam comprado, e que o retorno da inflação dos últimos meses o tornara ainda mais caro, e o que despertaria neles de sentimentos difíceis de abrutalhamento se vissem bosta de gato no tecido do sofá. É estranho, Dani, ele começou a dizer, o quanto ele fica à vontade com a gente,o quanto ele não nos teme nem minimamente. Ele sabia o que iria dizer, era algo delicado e de uma besteira infinita, mas programara dizê-lo como argumento contra um possível decreto da esposa de que teriam realmente que se livrarem do animal. Você já pensou, assim de mente bem aberta, se o Gato Bluu não é... bem... segundo os hinduístas,... você já pensou se o Gato Bluu não é uma reencarnação do seu pai?

Por mais que o humor na casa fosse totalmente iconoclasta, ele sentiu um pouco de medo de que aquilo a ofendesse, já que o pai dela havia morrido há apenas oito meses. O gato é velho, Charlles, deve ter uns sete anos, é provável que possa ser o seu pai, já que ele faleceu há precisos sete anos, ela rebate. Há um conto de Cortázar, ele pensa, em que o casal brinca que esperam cartas escritas por uma pessoa que ambos sabem já morta há muito tempo. No final do conto, o homem abre uma carta que enfim aparece na caixa de correios, e a mulher pergunta, com inquieta sinceridade, "é dela?", ao que o homem responde, com uma certeza que tem muito do protocolo abissal de um manicômio, "Sim". Ele passa a olhar para o Gato Bluu como se ele fosse Seu Gercino, o sogro. Quando o Gato Bluu pega um dos brinquedos da Júlia e sai o revoando em uma felicidade sem limites entre as patas, ele pensa no padre Zossima dizendo que os animais e as crianças são as alegrias da criação divina, e começa a pensar que não seria muito difícil para sua pré-senilidade dos 40, que já asfalta o caminho para que misture todas as filosofias em um nível de profunda pessoalidade, fingir com realismo acreditar nisso.

Graça Infinita


O mais novo exercício do Galindo tem data prevista de lançamento para 27 de novembro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A terceira sinfonia de Fiódor Dostoiévski



Novamente estou sendo direcionado em um novo caminho na minha vida através da literatura. Minha vida, literal e totalmente, gira em torno da literatura, respira literatura, observa o mundo através da literatura. Meu filtro de contato com toda forma de experiência vem da literatura. Por isso, nada mais natural que a cabala que tece códigos pessoais que me chegam apontando direções através de enigmas tenha como chave giratória o universo da escrita. Essas fagulhas lineares que eu frequentemente encontro atrás dos meus passos mostrando o retorno pelo chão do labirinto, topam com meu destino cotidiano de uma maneira tão presente que já não me causam qualquer espanto. Sempre há um livro que rima com meus dramas pessoais. E cabe agora que esse livro seja, em primeiro plano, Os irmãos Karamazóv. Seria exagero para o olhar alheio eu dizer que parte da angústia atual e recorrente que me cai em cima em relação à existência (e tudo em geral, o que é uma redundância de humor involuntário), foi resolvida pelas 50 páginas que precedem e contemplam O grande inquisidor, e os discursos do padre Zóssima no final do primeiro volume. Essas páginas me trouxeram um imenso alívio e uma terna e insubordinada compreensão. Digo insubordinada porque essas poucas páginas provocaram um misto de certeza e independência (apesar do que nada há de mais distante no propósito de Dostoiévski do que incutir certezas) em mim que me vejo imune a qualquer tratado filosófico ou opinião muito conceituada que pretenda rebatar a verdade destas páginas. Ler Karamazóv aos 17 anos me ajudou apenas a preparar o terreno do interesse quase acidental de relê-lo com a real capacidade de aproveitamento aos 41. Se me limitasse à leitura de quase 25 anos atrás, ainda o acharia o mais chato livro da literatura russa e o que traz os mais irritantes cacoetes de Dostoiévski. (Onde estava com a cabeça e que distração de péssimo leitor me fez ter essa opinião?). 

Pois lendo-o agora, vejo que se trata de um desses livros raros que transcendem os limites fisiológicos do autor, dessas obras de tão arrebatadora independência que antagonizam o mero ser humano que a compôs com a entidade incognoscível que lhe está por detrás. E digo isso não apontando um objeto perfeito: Karamazóv é desconcertantemente imperfeito e frágil como são os outros grandes romances de Dostoiévski. Está um tanto abaixo da eufonia estética de Guerra e paz; carrega um frenetismo que beira o caos onde convivem em tumulto hipóteses de absoluto impacto original sobre a psicologia humana (ou, mais assertivamente, a psicose); filosofias em estágio de delírio sobre a existência e a não existência de Deus; subliminarismos sobre a piedade que revelam uma inquietante personalidade masoquista de quem escreve. E há_ o que me parece revolucionário ainda hoje_, algo que eu não sei definir, uma espécie de pieguismo dostoiveskiano, um descaramento astucioso (diria maquiavélico) em usar e abusar conscientemente dessa fragilidade; uma afirmação constante (e quase exultante) da pobreza do modelo criador em cima do qual o autor escreve. Um livro em que seu criador não demonstra o menor pudor em se revelar por inteiro, em se desfragmentar e se oferecer a um nível de total desinibição em que cada parte de si é um personagem e um cenário. Faz isso de um modo tão obsceno, que é nítido que o caramanchão onde se encontram, no jardim dos fundos abandonado e coberto de hera, Dmitri e Alioscha, é uma projeção do mais recôndito setor do espírito de Dostoiévski. O livro inteiro, com essa extravagante vida diabólica, chega então a se tornar carne nas mãos do leitor. Essa fraqueza, essa pequenez assumida, essa falta de vergonha, esse martírio auto-consentido, tem o poder de certa forma aterrorizante de tornar Dostoiévski fisicamente vivo para o leitor. Como se ele acabasse de escrever o livro; como se sua ressurreição vencesse permanentemente o tempo, e estivesse como um corpo respirante envolto em uma mortalha sentado ao lado da poltrona do leitor. Há algo de espectro lazariano e versão mais pessoalmente urbana de um Virgílio drogomano em Dostoiévski. Como se, por uma lei nova do magnetismo, os fragmentos crus e desavergonhados do autor se colassem aos fragmentos do leitor, e com isso jogasse tudo à visão denunciatória por cima da mesa da feira, aos olhos de todos (aos terríveis e cruéis olhos de toda a plebe). Dostoiévski parece sempre um escritor insuficiente, alguém sem talento para a escrita, alguém insuficientemente armado para a arte, mas que, em desespero de morte, transforma sua puerilidade em um arrebatamento do estágio final de tudo que sente e pensa, sem concessões à gratuidade. Como se tudo fosse compensado pela sua ultra-acelerada sinestesia de ser espremido por um compressor cósmico em que consegue como nenhum outro ser destilado na página em sua mais distante e inacessível última palavra. Não seria para menos que, numa hipótese de resiliência da sociedade pela palavra, Dostoiévski seja visto no futuro ao lado de gente como Jeremias, Oséas um sincero e muito mais perturbado fundador de religião.

Ivan Karamazóv, nestas cerca de 50 páginas citadas acima, começa com um conceito inédito sobre Deus: Ivan diz (para um Aliocha cada vez mais estarrecido) que, como homem, com um cérebro treinado pela lógica euclidiana, era incapaz de conceber a existência de Deus. Por conseguir pensar limitadamente apenas usando três dimensões, era algo impossível para o cérebro humano no estágio atual da evolução, pensar sobre Deus. Sendo assim, é uma ocupação vã pensar sobre Deus. Como homem que aceita suas apertadas fronteiras biológicas, ele aceita que Deus exista. E é aqui, a partir daqui, que começa a nona sinfonia de Dostoiévski. Ou, talvez, de forma não menos grandiosa, a terceira sinfonia de Dostoiévski (em referência ao modelo beethoveano em que uma frase musical quase ridícula em sua infantilidade e pobreza proposital, descamba para um desenvolvimento orquestral de imprevisível riqueza e profundidade). Mas apenas um adendo: só essa frase sobre os limites euclidianos da mente já fundou toda uma área da literatura do século XX (junto ao espectro amortalhado, aparece ao lado do leitor uma gama dos maiores escritores como Huxley, Camus e Bellow, bebendo avidamente das palavras do russo). Pois bem, daí Ivan segue dizendo que ele pode acreditar em Deus, mas não pode aceitar. Ele nunca, jamais, vai aceitar. Ele diz que ele pode aceitar Cristo na cruz a o universo afunilado que avança por séculos de bons e maus ladrões lutando pela sobrevivência, beneficiados pelo sacramento revolucionário de a partir de então não mais ser julgados pelos seus pecados, mas ele não pode aceitar uma coisa: que as crianças, que os pequeninos do Criador, sofram. Ele narra uma série de episódios reportados na recente imprensa russa sobre abominações acontecidas contra esses pequeninos, pais que enxotam sua filha para o porão da casa, a colocam ajoelhada no barril no frio intenso, só porque ela derrubou a sopa no forro da mesa, e fecham os olhos e dorme a noite toda em boa consciência. Ele não pode aceitar os vários massacres cotidianos em que esses frágeis e puros seres de Deus são esquartejados em caçadas pelos senhores de terras, que morrem de fome, que são assassinados imaturos aos 7 anos, todos sob os olhos de Deus e sob a conivência irretocável das inexoráveis leis cósmicas que não podem ser suspendidas nem por um milésimo de segundo. Aqui o leitor já se encontra abduzido: é uma lucidez tão pura oferecida que eu mesmo depositei o livro no colo por um momento para armazenar a carga de tudo isso de forma que não se perdesse em meu cérebro, que fosse segurada por muito tempo na memória. Não era só o fato de eu ser pai: era mais do que isso. Dostoiévski estava tocando na mais profunda razão da barbárie humana, de maneira que, se ele fosse alguém dotado de uma colossal capacidade estética, toda a pureza do que estava dizendo se perderia. É algo meio estúpido e inconsequente afirmar isso, mas Tolstói não conseguiria dizer isso com esse poder solar, com esse grito retumbante e primitivo. Seria outra a música, uma música senhoril, perfeita, vinda de um gigante; uma música que calaria a alma. Já a música de Dostoiévski vem de baixo, e por isso atinge com uma proeminência muscular única. Tolstói nos faz espectador, Dostoiévski nos faz cúmplices. Tolstói tem uma grandiosidade de alma que nos contempla com esperança de cura, Dostoiévski nos mostra a nossa brutal falta de eufemismo ao nos conduzir além do discurso. Eu amo mais meus filhos _ como se isso fosse possível, e por um momento supremamente incômodo de auto-avaliação Dostoiévski torna isso possível_, após ler essas palavras. Depois disso, a modulação da minha voz com eles ficou ainda mais tangivelmente terna.

E o padre Zóssima, no final do primeiro volume, diz uma frase que é o que de mais verdadeiro serve como epitáfio da humanidade: "É imensamente difícil para o homem fazer o óbvio". A frase não é literalmente esta, mas quer dizer isso (não estou agora com o livro em mãos). Essa frase tem me feito pensar muito, tem frutificado muita coisa dentro de mim. Quase impossível para o homem fazer o que deveria ser feito, realizar o óbvio. ("Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.")