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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Morre Garcia Marquez



Morre Gabriel Garcia Marquez. O que dizer? Aliás, precisa dizer alguma coisa? Precisa edulcorar mais ainda o que agora mesmo já está se fazendo em todo canto do mundo na mídia? Enfileiram-se os velhos soldados da opinião massificada, cada um de seu lado, cada um dando seu palpite pautado por cores ideológicas e novamente revigoradas visões políticas capengas. Foi um gênio burro, por defender Fidel; foi o mais lúcido romancista do século passado, por seja lá qual matiz de seu pensamento de esquerda. Não há como deixá-lo em paz agora; a sorte é que isso pouco importa, no alto de seu quase nonagenário, no âmbito em que está a certeza de que, cumprida sua última função fisiológica, xingamentos ou bajulações não tem mais os ouvidos destinatários para recebê-los. O que eu sinto vontade de escrever agora é que a morte dele me faz ainda mais velho, ainda mais voltado para a irrevogabilidade de que o tempo é a locomotiva cosmológica mais rápida do universo e que eu estou lá dentro, sentado na minha poltrona, à espera. Morre GGM. Porra, um dia eu vou morrer, não por ser uma obviedade, mas sim pela lembrança que me assola de que, aos 19 anos, eu vendi dois livros dele para ter grana para duas horas de motel com uma namorada. E existe um vínculo entre esses dois eventos no todo absolutamente indiferentes para o correr contínuo dos dias, mas que para mim parecem investidos de uma lógica pessoal inelutável: morre hoje o senhor que, em alguns dos meus mais felizes dias de animal jovem o suficiente para não pensar na morte, me proporcionou dinheiro para transar. Vendi em um sebo os dois volumes de Textos do Caribe, e fui, radiante, elétrico, carregado de poesia sensual iletrada, passar duas horas com uma namorada na imersão despudorada do incrível poder de nossas saúdes. Para um cara de 19 anos, isso era o cume do tesão: pesava-me na alma a traição ao meu maior autor, mas o peso era suplantado pela consciência dos tantos e tantos anos que eu tinha pela frente_ que nós tínhamos pela frente, GGM e eu. Eu entreguei os livros baratos, o preço suficiente para as duas horas no Hotel Chuí do centro da capital, mas me prometi que iria comprá-los assim que minha condição de estudante acabasse e eu me tornasse independente financeiramente. Não só esses livros, mas todos os outros que GGM viria a escrever no rastilho de sua própria juventude de senhor de 60 anos. (O hotel Chuí, com seus quartos sombrios mesmo às três horas da tarde, em frente a um depósito de gelo e do lado de um hospital; com sua recepcionista lésbica, uma gorda que era a cara da irmã da Margie Simpson, e que passava altas cantadas na minha namorada, "que menina linda você tem", e que nós subíamos pelo apreensivo elevador rindo da coisa toda, eu me vendo, em meus restos de culpa, como se vivendo em um livro de GGM). Eu comprei de novo vários livros de GGM. Li muito e muito de GGM. Ele é um dos amores da minha vida. E, no meio da inadvertida tristeza, só consigo por agora pensar nessa tarde em que vendi, esfuziante, seus livros para poder transar. Como fui imensamente feliz naquele dia, em que nada havia de certo e amparável em meu futuro, apenas os seios, os longos cabelos louros, as pernas torneadas que mantinham um quê delicioso de castidade, os odores. Para mim isso tem uma imensa rede de significados.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mais triste dos tristes escritores


                                                 "A melancolia é a felicidade de se ser triste" (Victor Hugo)


Não há como não ver como uma estupidez com indigerido traço etnocêntrico o pouco caso que Coetzee faz a Mia Couto em seu livro de ensaios Mecanismos internos. Por mais que eu goste de dois ou três romances de Coetzee a ponto de usá-los como recorrentes presentes a amigos, a única frase que ele dedica a Mia Couto, de forma ostensiva e prepotente, alegando que o moçambiquense não era representativo da literatura produzida no continente africano, estraga um tanto a imagem desse prêmio Nobel que é indiscutivelmente um dos maiores autores vivos da língua inglesa, mas que esbraveja a sua carteirinha de esnobismo elitista de autor europeu (mesmo adotado), de aristocrata que tem sua importância medida e aceita sem reservas acima do senso comum mais idiota dos excêntricos e periféricos. Tal atitude, que por ser explicitamente gratuita (já que ele cita o nome de Mia Couto sem nenhum propósito além de sentencia-lo como descartável), é semelhante em sua violência segregacionista a de escritores como Kingsley Amis ao apontar José Saramago em uma reunião de escritores e dizer a um amigo alguma festiva frase sobre a mediocridade de tais pessoas como o português em se tornarem escritores. O que há por detrás de pontos de vista inerciais como estes é algo constrangedoramente simplista: o mero preconceito; o preconceito mais baixo que junta no mesmo cesto de identidade fechada de casta a proeminência financeira de uma nação sobre a outra, o valor comercial de um idioma sobre o outro, até as mesquinharias mais provincianas como aspectos de cor e raça.

O leitor que conheça o potencial de escritores que exorbitam o eixo de glamour intelectual das regiões cosmopolitas vinculadas à riqueza financeira, sabe bem que dificilmente Coetzee deva ter lido Couto. Ainda mais que um dos ensaios de Mecanismos internos fala minuciosamente sobre o pior livro de um escritor que teria tudo para ser enquadrado nas esferas de subdesenvolvimento literário que Coetzee parece atribuir a Couto: o Memórias de minhas putas tristes, do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Coetzee faz uma radiografia pedante sobre esse fraquíssimo livro, para no final dizer o que qualquer leitor menos devotado já tem por certo: é um romance descartável entre a bibliografia em três títulos prodigiosa de GGM. Gastando tanto tempo em um livro constrangedoramente menor de um cultuado autor, e relegando toda a obra com momentos imortais como Terra sonâmbula de outro com uma frase absurdamente derrisória, Coetzee mostra, apesar da sofisticação utilizada na maior parte de seus ensaios, uma visão medíocre, cerceada pelo mais atrasado selo de qualidade senhorial, pela sutileza mais gritante que remete a pensarmos o quanto o autor de uma obra como Desonra sucumbe ao clichê da pior espécie, talvez pela velhice ornamentada com seus importantes prêmios (mas não menos velhice), e sua empáfia diante o que ele pressupõe ser o extremo oposto de si mesmo (ele, um autor africano branco, que escreve uma prosa realista seca, que transita por esferas intelectuais assepsiadas de sentimentalismo, e Mia Couto, um autor africano branco, que escreve uma prosa barroca com cores sinestésica e profundamente poética). E se quisermos sair desse diagnóstico como algo precipitado, basta ver o ensaio no mesmo volume sobre Sándor Marái, em que suas palavras, agora prolixas e diretas, são assim mais pesadas em seu descarte em dizer que Sándor é um péssimo romancista (ele dedica várias páginas em destruir o romance, para já no final, como se estivesse cansado daquilo, empregar seu carimbo definitivo por sobre o autor, dessa vez segregado tanto por sua origem étnica como pelo passar do tempo, como se Coetzee estivesse a dizer que estilos assim já estão ultrapassados, que o que conta é sua linguagem dilapidada de adornos desnecessários).

Pois bem. Essa lembrança de Coetzee me veio hoje ao ler uma resenha do Luís Augusto Farinatti sobre Bolaño, que me fez passar boa parte da tarde desse domingo folheando Os detetives selvagens. Assim como eu, Farinatti teve que passar pelo desgaste que o culto a Bolaño cria em quem quer ler Bolaño, a excessiva exposição do autor chileno. Eu li quase tudo de Bolaño, e há tempos não ouço falar dele. Assim, foi com surpresa que li sobre a iniciação feliz de Farinatti, ele que adora literatura latino-americana e produz bons contos, pois me fez retornar ao Bolaño nessa hora que, percebi com certo espanto, parece que passou o fervor em torno da figura do autor de 2666. Ou eu é que, de tanto me esquecer dele, não ando acompanhando os tantos sites dedicados à sua celebração. Para mim, pois, Bolaño agora atingiu sua plenitude, pode-se_ ou posso_ voltar a ele com a virginalidade de quem o descobre por iniciativa própria, sem os ecos de tantas opiniões translativas. Reli o primeiro capítulo de Os detetives selvagens emocionado, devo confessar. Depois reli as últimas dez páginas, que a mim afiguraram como o melhor desse romance, quando o explorei há seis anos. Eu achei bastante ruim Os detetives selvagens, por uma série de razões que já expus a exaustão. Na verdade a palavra correta é que desgostei-me dele, pois aguardava um escritor extático, e encontrei o mais triste dos tristes escritores. A última página desse romance é belíssima, sublime, estranha e ambiguamente eloquente. Passei muito tempo entendendo o que ela diz, e ela diz muitas coisas de várias maneiras. Mas, como ia dizendo, o livro_ tido por uma legião de pessoas sérias como uma grande obra-prima_ me desgostou porque era triste demais, latino-americano de uma forma sem subterfúgios, pura e intranscedente. Talvez porque na época me causava desespero pertencer ao país mais latino-americano dos latino-americanos, e Bolaño pregasse o dedo em minhas feridas com sua lucidez insensata. E o fato de que o celebravam em todo o canto do mundo como o novo Garcia Marquez, isso me doía ainda mais: era a celebração de tudo que eu via em torno de mim como atraso, a celebração de sua visão já sem redenções do latino-americano. GGM criou uma mitologia própria ao latino-americano, e Bolaño, seu substituto legal, vinha acabar com tudo falando da extrema violência e primitividade, dos jovens poetas predestinados à morte precoce, dos detetives selvagens do título que traziam nessa outorga o sarcasmo de serem detetives sem a possibilidade de desvendarem nada, e selvagens porque eram frágeis demais em seus sonhos, revolucionários obsoletos, poetas de uma era em que o vocabulário não tinha mais a mínima importância. Bolaño, me parecia, era a última concessão dada à expressividade de todo nosso continente, e ele assumia saber disso em sua intenção de sepultar de vez as letras.

Devo admitir hoje, após o post do Farinatti e minhas releituras descansadas de Os detetives selvagens, que só agora eu perdi certo receio contra Bolaño, eu passo a compreendê-lo melhor. Acho que isso tem a ver com meus esforços mais concentrados em escrever um romance, uma tarefa mais madura e auto-combativa (afastando e destruindo uma série de bobeiras aprendidas também pela inércia). O mais triste de todos os tristes escritores é também de um visceralismo só tido em raros companheiros seus de profissão. Após ler o último romance de Martin Amis, por exemplo, a impressão de artificialidade artística, de bater as teclas da máquina com proficiência mas sem muito coração, é algo que vejo impossível em Bolaño. Amis é um escritor muito bem pago, e sua obrigação é vencer o enfado do conforto de viver no extremo mais rico do mundo, cavar uma experiência que ele não tem, e dar vida a essa simulação com todos seus hercúleos esforços retóricos. O mesmo ocorre com McEwan, que há muito não escreve nada que se pareça com a realidade lá de fora de seu gabinete. E Coetzee, o meu amado e festejado Coetzee, já distante de seu auge da palavra, vem construindo suas zonas mentais aprimoradas, suas fábulas complexas kafkianas, e que cansaço benéfico ao final da tarde deve tomar conta de seus olhos míopes que caem por um tempo gratificante por sobre o aveludado tapete por debaixo de seus pés. Essa percepção de cavar a verdade passou pela cabeça do Philip Roth de Entre nós, quando ele confessa a inveja que tem de escritores como Ivan Klíma, que tem todo o provimento de assuntos capitais oferecidos pelas agruras cotidianas de sua pátria política. Tentar escrever tem me dado uma piedade de visão e uma profundidade muito mais reveladora que a passiva aquisição da escrita pela leitura. Um humanismo que me faz rever conceitos imediatos que se colam com uma facilidade parasita e assustadora em minha mente. Uma nova ciência do olhar muito útil nesses nosso tempos em que se prende menores infratores em postes com trancas de bicicleta, e a primeira sensação demanda uma insensível e brutalizada comemoração. Vendo o vídeo de Mia Couto falando sobre o medo_ a sua integridade, a sua segurança, a sua calma e cordial e cavaleiresca presença, a sua seriedade e auto-confiança_, e repassando Bolaño, e lendo Saramago, e Bernardo Carvalho, e na iminência de ler tantos escritores que ficam do lado de fora dessa batalha ignóbil de etnocentrismos, eu penso, feliz, que a tristeza de Bolaño é, em contrapartida, uma alegria libertária da expressão. Isso reforça de uma maneira indizível minha fé na literatura.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Dickens de Bogotá



Devo confessar que a literatura produzida na juventude dos grandes escritores_aquela escrita fresca, ainda exultantemente desequilibrada e carregada de uma auto-indulgente pretensão_ não me atrai muito. A maior parte dos "primeiros romances" que desova nas livrarias em reedições festivas por algum advento literário em torno de um velho escritor recém premiado com o Nobel, ou o Booker Prize, ou o Pulitzer, não apela a nenhuma curiosidade de leitor em mim. Basta lembrar o quanto são tristes as primeiras investidas de um Faulkner nas letras, e já me ponho bem distante dessa linha de estudo antropológico de desencavar da terra bruta da adolescência os vestígios premonitórios de como o organismo dali derivado se aprumou e conseguiu se manter em sua envergadura adulta. Porém, tenho uma exceção sentimental: os textos do Gabriel Garcia Márquez de quando ele era um efebo de 19 anos, compilados no Brasil pela editora Record no volume 1 das obras jornalísticas do autor, intitulado Textos do Caribe. Leio-os desde que eu mesmo tinha 19 anos_ foi a primeira obra do colombiano que li após Cem Anos de Solidão_ e volta e meia retorno à minha edição antiga, publicada pela mesma editora, em dois volumes. São textos frescos, muitos de uma ingenuidade corajosa em que, inadvertidamente, se revela a falta de escopo interior disfarçada pelo desbravamento algo desesperado do autor pelos seus talentos literários. Alguns, ou muitos, são francamente ruins, mas existem pérolas que podem ser colocadas entre o que GGM escreveu de melhor em toda sua bibliografia, e mais um sem número de crônicas soltas e que não falam absolutamente de nada, mas que se lê com deslumbramento.

Essas crônicas foram apelidadas pelo jovem GGM de "jirafillas", pois eram publicadas em colunas pescoçudas do jornal colombiano "El Herald". O mais curioso e gratificante delas é a energia de Márquez, sua fé inabalável na escrita, o quanto a pressa de entregar um texto por dia oferece ao leitor conhecedor de sua futura grandeza uma generosa visão na oficina de rascunhos do romancista. Há mostras claras de que Márquez já trabalhava em Cem Anos de Solidão desde essa época, o que confirma suas declarações de que a escrita dessa obra lhe custou um ano e meio de exercício físico, mas trinta anos de maturação da ideia. Tais mostras são os vários rascunhos publicados no jornal, em que aparecem os personagens ainda sem nome, ou com reparos de nomes que deixam antever suas encarnações finais, ou com nomes trocados, mas que, por mais que sejam diáfanos na concepção de seu criador, apresentam as condições básicas da solidão e da loucura triste do selo garciamarqueano. Na época, GGM oferecia seus rascunhos como sendo de "uma novela em que estou trabalhando já faz anos" (aos 19 anos!), e que tinha o nome provisório de "A Casa". Afora essas maravilhas, assinadas com o nome verdadeiro do autor, há as tantas fantasias despirocadas em que ele, talvez para marcar o caráter experimental, assinava com o pseudônimo "Septimus".

Esses outros textos tem a frescura dos sketches by Boz do Charles Dickens adolescente. Vemos nas proezas verdes de Garcia Márquez o mesmo ilimitado tiro no escuro da investida no terreno da criação que vemos no inglês, de forma que a incompreensão e o rebuscamento de algumas partes de pura febre literária perdem em clareza mas ganham em ousadia e falta de pudor, em transgressão juvenil às normas. Daí que os retratos de personagens bogotanos são deliciosos, os redatores madrugadores dos jornais; as velhas matronas das casas desoladas de sol; os feiticeiros dos povoados assolados pela chuva eterna, perdidos na floresta tropical; a índia de pano colorido na  cabeça que viaja no trem, altiva e esnobe; os tantos intelectuais shawnianos que transitam temporariamente pela cidade colonial onde nasceram mas cujos destinos é deixarem o jovem cronista esbaldado na mais profunda nostalgia ao emigrarem em definitivo para Nova York ou Paris. Esses textos são cheios de chuva, de uma graça tocante e uma certeza da predestinação  inabalável (todas as promessas feitas pelo jovem GGM são cumpridas), carregados de móveis de madeira em hospedarias transitórias. Uma certa vez, antes da internet, planejei mas não realizei a proeza quixotesca de escrever ao velho Máquez para que ele voltasse a essa imperfeição e liberdade salvadora de sua juventude, e parasse de vez com as fúteis besteiras perfeccionistas e sem gosto que vinha produzindo após Nos Tempos do Cólera

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Notícias de Gabriel Garcia Marquez



Abro meu e-mail agora e vejo um link postado ali pela Caminhante já com um título que me põe de guarda: "Que triste!". Vejo que se trata de um texto sobre o escritor que mais me coloca de sobre-alerta nestes últimos anos, por ser ele um dos criadores do qual mais me sinto perto e íntimo o bastante para amá-lo e odiá-lo na mesma medida, e por seu longo silêncio prenunciar que as coisas não andam bem no alto de seus mais de 80 anos. Gabriel García Márquez faz parte da minha vida da mesma forma que alguns de meus mais insubstituíveis amigos da vida real, e talvez até com mais proeminência espiritual devido à cumplicidade que obtive dele em tantos anos de releituras fervorosas. Nossas idades cronológicas se encontraram mesmo ele sendo quase meio século mais velho do que eu, pois quando eu tinha 19 anos e aspirava aprender a escrever bem unicamente para meu deleite secreto, aprendi com as crônicas maravilhosas de um Garcia Marquez de 20 anos que transvestia as ruas de Bogotá com a áurea mítica das ruas de Londres; quando vivi meu primeiro grande amor, foi Florentino Ariza que me servia de medida para os meus próprios vexames iluminados; quando me infiltrei de paixão pela América Latina que vicejava por debaixo dos arquétipos estúpidos da grande mídia, foi Aureliano Buendía que me revelou verdades até então inconcebíveis sobre a impossível juventude de meus avós; quando eu já partia para outras leituras e outros ídolos literários, nos idos de meus trinta anos, foi um GGM desacreditado e imitação de si mesmo que me acenava a ruptura da amizade e o distanciamento. Até na despedida eu ainda iria me ocupar por dois anos com a escrita de uma monografia na qual expus com mais emoção que devia as causas de meu recente repúdio a um senhor que envelhecia mal e cuja fama máxima lhe servira unicamente a trair seu enorme talento literário. Tanto é que, de profundo enfado, me desfiz de todos os livros que tinha dele, da mesma forma que um amante em processo de regeneração se afasta de todos os símbolos asfixiantes que quase o levaram ao crime passional. Eu havia lido tudo de GGM, cada página, cada entrevista, cada curso de literatura que sua flacidez resolveu ministrar para alunos inúteis para a literatura mas cheios da gaita em uma casa luxuosa em Cuba. Li seu roteiro de cinema, seus exercícios de ficção faulkneriana mal engendrados da adolescência, e, claro, suas magníficas três obras inatingíveis, as únicas que irão permanecer: Cem Anos de Solidão, Ninguém Escreve ao Coronel (que sempre achei a tradução literal do título de uma beleza maior que a arranjada para o português: O Coronel não tem Quem lhe Escreva), e O Amor nos Tempos do Cólera.

Há muito que meus pensamentos se dirigem a ele, na dúvida do por quê de tão longo silêncio. Minha volta à sua amizade se deu na publicação de sua auto-biografia, há dez anos, que, contudo, não traz nada de novo ao antigo aficionado, a não ser a comprovação de tudo que foi dito antes nas outras obras; mas que, como um último esforço de recuperação da juventude e do ímpeto pela escrita, ele retorna à sua musicalidade original, ainda que, por vezes, não se esconde de todo o cansaço. Depois veio o Putas Tristes, fraco e dispensável, evidenciando ser tarde para o arrependimento por ter desperdiçado duas décadas (ou três décadas, considerando que a de 1970 foi também de um retumbante silêncio) com bajulações a coronéis e arcebispos (como afirmou a respeito Bolaño). Suas tentativas tristes de recuperar a grande voz lhe outorgada sempre me lembrou o vaticínio que Hemingway fez ao mutismo definhante de F. Scott Fitzgerald, comparando o talento finíssimo do autor de O Grande Gatsby com o pó das asas de uma borboleta, que se esvai ao menor movimento. Pois GGM morreu em vida por uma ridícula acomodação a um luxo tão cruel diante a sua vaidosa cegueira de laureado, que não o permitiu perceber que sua postura pessoal passou a ser milimetricamente contrária a tudo que ele havia escrito em seus livros. Os sofás italianos de couro em sua masmorra solar em Cuba e suas roupas brancas de guru supersticioso, à maneira dos bijoteirismos caros de Roberto Carlos e Madonna, lhe transformaram numa lastimável estrela antinomínica que nada tinha de intelectual e muito de produto em franca obsolescência da mais perversa indústria midiática. Ele trilhou o caminho contrário da trabalhosa expurgação do latino americano burro e hedonista de seu livros, se transformando no oposto de José Arcádio e Aureliano Buendía: nada se via nele da bravata anti-acadêmica  e da inteligência combativa aos americanos das companhias bananeiras que se vê em seus personagens. Ele criou tipos soberbos que valorizavam o latino-americano pelo que nós somos, sem necessidade de eufemizações, mas em sua Távola Redonda ele se satisfez apenas com o que reluzia vagamente das portas para fora, confinando o amor, a guerra, os pelotões de fuzilamentos, os heróis que mandam tudo para a puta que pariu e tem a inconcebível coragem de voltarem para casa, as virgens que ascendem ao céu e as prostitutas com sonoras gargalhadas e com os sovacos com cheiro de cinzas, tudo no interior, se comprazendo a ser o velho gordo e bonachão das verdades instituídas e do mundo como nos veem as tradições preconceituosas do exterior. Em um texto sobre Neruda que ele escreveu, creio que em Doze Contos Peregrinos, o poeta chileno aparece como um inofensivo excêntrico glutão, que fica no limite do mal comportamento à mesa, que escreve poemas superficiais em guardanapos de papel que não são nem a sombra dos cantos gerais e dos vinte poemas de amor e da canção desesperada. Não uma profecia sobre o futuro iminente do próprio autor, mas um novo arremedo da antiga glória num conto insubstancial que é fácil diagnosticar o modelo bambeante e a prosa sem inspiração.

Por isso a certa tristeza ao ler o link apresentado pela Caminhante. Então, pelo que parece, GGM mal reconhece os amigos mais íntimos, mal se lembra dos detalhes mais fulgurantes de sua longa vida de glórias e feitos nem um pouco desprezíveis. Meu grande herói não passa, trocando em legítimos miúdos, de um senhor para quem só se pode dirigir a mais pavorosa sensação de pena, por sua prostração e sua evidente condição humana. Qualquer pensamento mais acurado do que este, qualquer crítica mais acentuada, e nos cai em cima a culpa do dever de respeito aos que deixaram há muito de ser uma entidade fulgurante e se tornaram convalescentes da única e paciente resolução natural. Mas isso não me afasta a lembrança desagradável de Herman Hesse, em Lobo da Estepe, acusando Goethe de ter morrido com a perigosa idade de 83 anos, ou Thomas Bernhard fazendo seu narrador dizer, em O Náufrago, que é uma abominação viver  mais que 50 anos. Ou da viúva de Maiakóvski pondo fim em sua vida já quase aos noventa anos, enfadada de tanta vida. Ontem mesmo estava lendo no banheiro o primeiro volume de Textos do Caribe, do GGM de 19 anos, um livro que eu vendi e recomprei incontáveis vezes, que eu amava nos tempos do colégio, me tornara indiferente em meus tempos de estudante de jornalismo, que foi exemplo de escrita criativa e logo se transformou em peça de literatura de terceira qualidade, mas que há alguns anos se estabeleceu definitivamente como uma coleção dos melhores e mais magníficos textos escritos pelo colombiano, por serem cheios de vida e extravagantemente saudáveis de tanta fé na escrita, de serem inexauríveis e ilimitados em suas falhas e grandiosas insuficiências. Coloquei esses dois volumes de crônicas do jovem GGM entre as minhas consideradas grandes obras do autor. Muitas vezes em minhas confabulações com meu velho amigo GGM, eu o exortava a parar com aquelas empolações cheias de equilíbrio perigoso que o Nobel o fez mutilar a sua escrita, e retornar ao fôlego destemido e sem preocupações de errar dos Textos do Caribe. Um exemplo: depois de um de seus melhores textos, que trata de um dissidente de uma família de sapateiros que opta por ser trombonista, publicado em El Herald, o jornal provinciano para o qual ele escrevia sem falta todos os dias por cinco anos, GGM escreve no dia seguinte pedindo desculpas pela falta de sentido e desconexão de ideias do texto anterior. Tudo num humor leve, na certeza da própria autosuficiência da juventude. Deixe essas palavras medidas em excesso dessas porcarias de grife que você escreve desde o Amor nos Tempos do Cólera, e volte a escrever como em seus vinte anos, no tempo em que você não se preocupava em ser inimigo dos advérbios. Você anunciou que dali para frente, depois do Nobel, nunca mais usaria advérbios, mas lembre-se que há no mínimo um deles em cada página da saga dos Buendía.

Para escritores como Hansum, Saramago, Céline, Philip Roth, Bellow, Tosltói, Llosa, a escrita é uma febre que nunca se cura. Para GGM, nós que o amamos e de certa forma sempre nos sentimos órfão dele, a adaptação convida e reavaliar o que para sempre se confinou nos porões do mais remoto passado.

sábado, 26 de novembro de 2011

Uma Página Memorável de Garcia Márquez

Crônica de Uma Morte Anunciada não é um dos meus romances preferidos de Garcia Márquez. Mas essa única página, que trata das cartas que a esposa desonrada devolvida à família enviava durante meia vida ao esposo o qual a abandonara, sempre me emociona. Uma das mais belas passagens da literatura do nosso continente. (Tradução de Remy Gorga Filho.)



Bastava fechar os olhos para vê-lo, ouvía-o respirar no mar, acordava-a a meio da noite o calor do seu corpo na cama. Em fins dessa semana, sem ter conseguido ter um minuto de sossego, escreveu-lhe a primeira carta. Foi uma missiva convencional, onde lhe contava que o vira sair do hotel, e que teria gostado que ele a visse. Esperou em vão uma resposta. Ao fim de dois meses, cansada de esperar,mandou-lhe outra carta no mesmo estilo enviesado da anterior, cuja única intenção parecia ser a de censurar-lhe a falta de cortesia. Seis meses depois tinha escrito seis cartas sem resposta, mas conformou-se com a prova de que ele estava a recebê-las.

Dona pela primeira vez do seu destino, Angela Vicario descobriu então que o ódio e o amor são paixões recíprocas. Quantas mais cartas mandava, mais atiçava as brasas da sua febre, mas também mais aquecia o rancor feliz que sentia contra a mãe. "Revolviam-se-me as tripas só de a ver", disse-me, "mas não a podia ver sem me lembrar dele." A sua vida de casada devolvida continuava a ser tão simples como a de solteira, sempre a bordar à máquina com as amigas, como antes fazia tulipas de pano e pássaros de papel, mas quando a mãe ia deitar-se, ela ficava no quarto a escrever cartas sem futuro até quase de manhã. Tornou-se lúcida, imperiosa, senhora da sua vontade, e voltou a ser virgem só para ele, e não reconheceu outra autoridade senão a sua, nem mais servidão que a da sua obsessão.

Escreveu uma carta todas as semanas durante meia vida. "Às vezes não me lembrava que dizer", disse-me morta de riso, "mas bastava-me saber que ele as recebia." A princípio foram cartões de cerimônia, depois foram pequenos papéis de amante furtiva, bilhetes perfumados de noiva fugaz, memoriais de negócios, documentos de amor, e por último foram as cartas indignas de uma esposa abandonada que inventava doenças cruéis para obrigá-lo a voltar. Uma noite de bom humor entornou-se-lhe o tinteiro por cima da carta acabada de escrever, e em vez de rasgá-la acrescentou um post-scriptum: "Como prova do meu amor mando-te as minhas lágrimas." De quando em vez, cansada de chorar, zombava da sua própria loucura. Seis vezes foi substituída a funcionária dos correios, e seis vezes ganhou a sua cumplicidade. Só não lhe passou pela cabeça uma coisa: renunciar. E, no entanto, ele parecia insensível ao seu delírio: era como se escrevesse para ninguém.

Uma madrugada de ventos, pelo ano décimo, acordou-a do sono a certeza de que ele estava nu na sua cama. Escreveu-lhe então uma carta febril de vinte folhas, na qual soltou sem pudor as verdades amargas que trazia apodrecidas no coração desde a noite funesta. Falou-lhe das cicatrizes eternas que ele deixara no seu corpo, do sal da sua língua, do rastilho de fogo da sua verga africana. Entregou-a à funcionária dos correios, que ia à sexta-feira à tarde bordar com ela para levar-lhe as cartas, e convenceu-se de que aquele desabafo final seria o derradeiro da sua agonia. A partir de então já não tinha consciência do que escrevia, nem sabia de ciência certa quem escrevia, mas continuou a escrever sem tréguas durante dezessete anos.

Num meio-dia de Agosto, estava ela a bordar com as amigas, sentiu que alguém chegava à porta. Não precisou de olhar para saber quem era. "Estava gordo e começava a cair-lhe o cabelo, e já usava óculos para ver ao perto", disse-me. "Mas era ele, gaita, era ele!" Assustou-se, porque sabia que a via tão decaída como ela o via, e não acreditava que tivesse dentro de si tanto amor como ela tinha para suportar isso. Vestia uma camisa empapada em suor, como quando o vira pela primeira vez, e trazia a mesma correia e os mesmos alforjes de couro cru com enfeites de prata. Bayardo San Román deu um passo em frente, sem ligar às outras bordadeiras atônitas, e pousou os alforjes sobre a máquina de costura.

- Ora bem - disse -, aqui estou eu.

Trazia a mala da roupa para ficar, e outra mala igual com quase duas mil cartas que ela lhe escrevera. Estavam arrumadas por datas, em maços atados com fitas às cores, e todas por abrir.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Gabriel Garcia Márquez _ O Velho Rei Cagando na Latrina


(Texto sem revisão)
Quem passou a ler Garcia Marquez nos anos 80 e era um adolescente, como eu, sabe do enorme assombro que tal descoberta envolvia. Me lembro bem que a leitura que nos chegava aqui nesse canto de mundo, a leitura requintada e importante que tínhamos que ter para nos tornarmos cultos, era a que estava construída dentro dos moldes tradicionais dos escritores europeus e norte-americanos. Nos anos 80 eram poucos os livros de autores contemporâneos que o restrito mercado editorial nacional oferecia_ afora os best-sellers fúteis que reafirmavam o quanto eram quentes as aventuras sexuais e de vinganças que transitavam no mundo financeiro lá de fora_ , e nosso atraso quanto às novas produções intelectuais era suavizado pela impressão de que a leitura da tradução da tradução de Dostoiévski era um instrumento efetivo para alargarmos nossos horizontes de compreensão. Jovens colegiais, como eu era na época, se embeveciam com Kafka, embora para nossas mentes incipientes A Metamorfose era apenas uma história de suspense tresloucada sem nenhuma sub-liminariedade. Um conto que fez furor entre a rapaziada de 17 anos, Erostrato, de Sartre, por exemplo, nos cativava pela figura cinematográfica do assassino serial que quase escapole da polícia. Assim, ler Cem Anos de Solidão era algo comparável a um desvirginamento, uma experiência real mais forte e substancial que as experiências de certa forma mastigadas que outras pessoas já mortas e que viveram a quilômetros haviam nos passado. Ler Cem Anos de Solidão foi, para minha geração, o primeiro contato sério e inescapável com o que poderíamos definir como nossa política, nossa história, nosso povo.

E o interessante é que, apesar de minha iniciação política ter vindo de García Márquez, eu já defendi acirradamente diante uma banca de acadêmicos a ideia de que o colombiano é o menos político dos autores hispano-americanos. Mas isso é uma outra história e não importa aqui. O que quero reafirmar agora é o quanto minha juventude foi assolada pelas possibilidades inéditas que fluiam do grande romance de GGM. Uma vez, conversando com um amigo também devorador de livros, invoquei o assunto de como cada um de nós chegara ao universo da leitura. Esse meu amigo lembrou que passou a consumir dois livros por semana graças às leituras iniciadas nos volumes sobre questão social e de movimentos de esquerda que editoras como a Expressão e Cultura publicavam. Da história dos movimentos campesinos, ele passara de Che para Jared Diamond, Bauman, Todorov, Saramago, etc. Eu, pelo meu lado, confessei que minha entrada foi feita por caminhos nada políticos. Como eu sempre fui apaixonado pelo frio, ou pela ambientação geográfica de povos tradicionais como os judeus poloneses, eu comecei a ler sobre o fog londrino, as tramas pitorescas que ocorriam entre prosaicos casais de vilas siberianas perdidas, ou sobre fantasmas que resolvem aparecer em pleno inverno. Iniciei-me lendo Conan Doyle, Checov, Stephen King, Sheridan Le Fanu, etc.

Eu procurava romances habitáveis, com mobiliários que permitissem um aconchego de frente à lareira. Digo tudo isso apenas para chegar ao ponto capital: GGM tornou consumível para meu gosto atmosférico as ruas empoeiradas batidas por um sol inclemente, e as casas modorrentas em que lá dentro os habitantes descansavam as sestas da tarde, com os corpos cobertos de suor. As vilas esquecidas do interior da Colômbia, que ele traduzia em seu universo pessoal centrado na mítica Macondo, passaram a ser tão convidativas quanto as vielas londrinas, e as paisagens de neve pelas quais passavam trenós carregados de nobres festivos das histórias de Tolstoi. Pode parecer pouca coisa, mas eu, assim como a maioria quase absoluta de jovens da minha idade, éramos infestados da cultura televisiva, por mais que ela nos soasse desde já deletéria, propagada pelos filmes hollywoodianos dos pacotes de atração anuais da Globo. Vivíamos nos resquicios disfuncionais de uma ditadura que, culturalmente, tornava o Brasil tão fechado para o mundo externo quanto eram quaisquer outros países latino-americanos. Assim, as primeiras palavras de Cem Anos foram como aprender a ler de novo; os Buendias e os Arcadios e tudo que infestava suas vidas de indios subdesenvolvidos formaram uma aquisição de lucidez violenta que atirava janela afora, sem delicadezas, todo o substrato de uma visão de mundo pequena, mesquinha e agrilhoada aos padrões de consumo ditadas pelas mídias corporativas de um Brasil muito feudal e estacionado no tempo. Cem Anos veio com a adstringência salvadora de mostrar que o olhar voltado para nós mesmos não precisava ter o pedantismo auto-condescendente e já imbuído de pedido de desculpas que havia em novelas televisivas como O Bem-Amado, e nos filmes em que o catolicismo aparecia flagrantemente nas frestas de um suposto reacionarismo político, como O Pagador de Promessas.

GGM foi o primeiro dos escritores latino-americanos que nos mostrou como realmente somos, sem a mínima maquiagem, sem o mínimo eufemismo. E sua revolução conceitual foi a de dizer que não precisávamos de maquiagem e nem eufemismos, que assim como éramos estávamos no mesmo patamar distintivo de qualquer europeu ou norte-americano, e nossos bêbados de esquina e nossos barbudos apedrejadores de prefeituras eram tão carregados de um misticismo nobre quanto o Rei Arthur e Thomas Pain. Por detrás dos escatologismos aparentemente idiotizados de seus personagens; por detrás das caras estupidificadas dos donos de botequins e das meretrizes de axilas rescendendo a cebolas, havia a entidade legitimamente representativa de nossa latinoamericanidade em que estuporavam a inteligência e a graça, algo que não podíamos nos envergonhar e que não abaixava a cabeça diante a velhice postural dos outros continentes. Na melhor novela curta de GGM, Ninguém Escreve ao Coronel, por exemplo, o velho coronel de guerra que passeia com seu galo pelas rinhas do povoado enquanto espera por um cheque de aposentadoria que nunca vem, inicia a história acocorado sobre um pinico, esforçando-se por botar seus excrementos para fora. E a força inigualável da escrita de GGM se encaixava nessas exposições isenta de regionalismos ou traços da escrita provinciana que até então serviam para atolar as literaturas nos limites das efemérides dos intelectuais de prefeituras. Como diz Hobsbawn sobre GGM e Cem Anos, em A Era dos Extremos, o maior acontecimento literário do período final do século passado não aconteceu nos centros acadêmicos de Paris ou veio de alguma região urbana dos EUA, mas nasceu de um pequeno país latino-americano cujas notícias são sempre relacionadas ao narcotráfico, e promovido por alguém que tentava, como GGM disse várias vezes, apenas reproduzir o tom que sua avó Tranquilina empregava nas histórias que lhe contava em criança.

Cem Anos de Solidão ainda perdurará por bons anos como a maior realização do romance latino-americano. Na certa temos escritores melhores que GGM, que conseguiram estender sua qualidade por mais que os três livros realmente imortais do colombiano, mas nenhum deles conseguiu realizar um romance cujas proezas são tão imediatamente identificáveis como a saga dos Buendía. Cem Anos de Solidão oferece um universo tão completo da história, das características étnicas e das mentalidades latino-americanas_ com todos os seus humores e tragédias_, que esse livro exemplar extrapola a terrenicidade do seu autor. Sou um dos que julgam que GGM morreu após escrever O Amor nos Tempos do Cólera, e também me soam fúteis e totalmente dispensáveis a obra de não ficção em que ele ensaia seus posicionamentos políticos_ de uma forma em que o comentário de Bolaño de que GGM se encanta demasiadamente com generais e papas transforma em interpretação diagnóstica seu obliterado retrato de um ditador, O Outono do Patriarca. Mas Cem Anos de Solidão superou seu autor e adquiriu uma vida própria que o isola como um expoente estético e ideológico que pouco tem a ver com a figura dissipada que o escreveu.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Inclassificável Cortázar


Cortázar é uma presença tão peculiar no cenário da literatura latino-americana que faz com que sobre ele recaia uma série de interpretações equivocadas. Assim como os que olham bem apressadamente Borges_ esse conterrâneo tão diametralmente oposto_ tendem a pensar que sua obra se circunscreve aos dois volumes de contos fabulosos, O Aleph e Ficções, a esses parece que Cortázar não escapa a um exame mais sério além das duas coleções de narrativas que o tornaram relevante: As Armas Secretas e Bestiário. Pois quem se preza a conhecer mais do que o canonizadamente convencional, sabe da ensaística indispensável e da capacidade que beira o milagre de Borges em compor resenhas de vinte linhas que vão além da saturação que o próprio livro analisado oferece; e os outros tantos contos encantadores que Cortázar escreveu que estão à margem de sua produção estabelecida, confortavelmente lidos, relidos e amados pelos seus leitores fiéis, assim como essa peça inclassificável de humor filosófico-surrealista que é História de Cronópios e Famas (uma antecipação de dez anos ao humor anárquico de Monty Python), e esse romance que não se repetiu nem pelas mãos de Cortázar nem por quaisquer outras que se seguiram, O Jogo da Amarelinha.

Cortázar tem essa característica de não se render a classificações. Não se limitou a ser um simples escritor, mas todos os seus experimentos em outras áreas de expressão convergiam inadvertidamente para a escrita.  A fotografia (como em Prosa do Observatório), a narrativa oral (como nas tantas horas de gravações  a que submeteu vários excertos e textos inéditos ao som de sua própria voz), a colagem de citações (como nos capítulos fragmentários de Jogo da Amarelinha), a editoração gráfica (como em O Livro de Manuel), e essa espontânea prefiguração de uma escrita virtual que nos diz que ele teria se dado bem com as mídias da internet, antecipando o blog em Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round. Ele foi um desses autores para os quais o talento era tão fluído, sinérgico e ilimitado, a ponto que o caminho lógico era o de ir-se contra a literatura até destruir qualquer traço dela através de uma saturação implosiva. Mas, ao contrário de Joyce (ou, num campo menor, mas usado aqui para maior elucidamento, Salinger), Cortázar não optou pela aporia do sarcoma verbal ou pelo silêncio, mas pelo que ele descreveu em sua fase tardia como escrever cada vez pior. Sua prosa ficou cada vez mais intimista e desnorteada, de forma que, enquanto seus parceiros intelectuais passavam pela radiografia distintiva de remeterem-se às influências dos antepassados imediatos ou distantes, Cortázar já não assegurava nenhum porto seguro para que a crítica identificasse se ele deslindava o labirinto da escrita pelos fios de Faulkner ou Sartre, de Joyce ou Borges, de Dos Passos ou Camus. Em vez de oferecer esses marcos de estudo facilitadores e reconhecíveis no ambiente comum das letras, havia a exigência de uma cultura mais ampla e multitudinária para apreender quais as novas órbitas pelas quais Cortázar passava. Só assim, com a mente disposta a aceitar o confronto em zonas desconhecidas, muitas das quais não acatadas como ambientes psíquicos de refinamento aceitável, se podia ver que Cortázar escrevia tendo em mente (ou, como) Louis Armstrong, Charlie Parker, ou algum afluente disparatado de alguma escola minúscula e desconhecida de fotógrafos franceses, ou como Kandinsky, Miró ou M.C. Escher. Nesse sentido, nenhum outro escritor latino-americano se aproxima de Cortázar no que ele teve de inovador, desbravador e ampliadar das fronteiras para a escrita desse continente. Através de Cortázar, a literatura latino-americana se alçou ao nível de grandeza especular da literatura produzida nos Estados Unidos no século passado, tendo a ressaltar que Cortázar escreveu O Jogo da Amarelinha  antes  que o Pynchon de O Arco-Íris da Gravidade surgisse, antes de Don Delillo e Foster Wallace. Assim como os grandes escritores ajuntados no rótulo da contra-cultura norte-americana, Cortázar seria o autor contracultural por excelência da América Latina, no que teve de repúdio à cultura estabelecida,  de negação ao apego à eufonia da linha reta das academias, das limitações impostas pela natureza a que o criador seja escravo de sua estética pessoal (como é o caso de Borges nunca ter conseguido ir além ao borgismo, e García Márquez ter sucumbido em vida à mumificação da eterna repetição de si mesmo).

Como Mário Vargas Llosa diz num ensaio sobre Cortázar, ele foi o escritor mais culto e com o legitimo conhecimento enciclopédico apontado em alguns raros autores europeus. Sua cultura era mais vasta que a de seu patrono Borges, pois enquanto o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius tinha como fé inamovível desprezar grande parte da literatura moderna, Cortázar se empenhava em cercar as inovações do pensamento em todas suas vertentes. Em seu grande romance O Jogo da Amarelinha, ele destina parte da composição em  emular a técnica de colagens de Walter Benjamin empregada em Passagens. E esse romance é o que temos de mais próximo ao romance ensaio, gênero para poucos autores, como Thomas Mann, Musil e, recentemente, Cees Nooteboom. Além da sutileza jungiana em contos que extrapolam os limites da percepção extra sensorial (como em Cartas de Mamãe), e dos contos que tratam o tempo como elemento coligativo endossado pelo relativismo da História e do mero cotidiano (como no magistral Todos os Fogos o Fogo). Essa erudição põe à prova o conhecimento de uma série de doutores de literatura que, vítimas das próprias insuficiências, enxergam no primorismo de Cortázar apenas o que demanda o limite de suas interpretações restritas, por isso não é de se estranhar que alguns apontem Cortázar como "escritor para adolescentes", da mesma forma que alguns acham intratável escritores como Pynchon, pelo que colhem na superfície de pornografia grotesca e escrita sobre o efeito narcoléptico. Cortázar não fez outra coisa, mesmo em seus anos de piora deliberada, do que produzir literatura genuína, de altíssima qualidade, que, aceite-se, às vezes acontece da própria peça sucumbir à voz do autor; às vezes saber que se está lendo Cortázar sobressai à unicidade do texto, e o mais importante passa a ser as impressões digitais do criador, seu humor, sua inteligência, sua muitas vezes tocante sensibilidade (quem não chorou lendo Final de Jogo ou  A Saúde dos Doentes), e nisso parece que a fama está agindo e não o conteúdo.

E outra coisa dever ser dita: Cortázar nunca se rendeu a sua própria erudição e perdeu o coração terno. Poucos escritores mostraram-se tão humanos e delicados, e nisso também está a sua força.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sabres e Utopias, de Mario Vargas Llosa


Certo fetiche pela contradição entre as ações e opiniões do homem que está por detrás do escritor, e a obra escrita do escritor, parece fazer parte das zonas de interesse que o leitor médio nutre em relação à literatura. O leitor médio, que abrange desde o ocasional seduzido pelas listas dos mais vendidos das revistas semanais, até o professor de universidade altamente titularizado, percebe com uma passionalidade cristalina o fino limite  existente entre literatura e as colunas de fofoca. E esse último tipo de leitor médio, que ingressa nas universidades e vai obtendo todo mérito mensurável que os diplomas de  letras douradas conseguem legitimar, é o que mais serve a abranger o fetiche pelo lado das fotos em que tal escritor, às vezes barbado, às vezes de terno social sóbrio ou casaco descolado por sobre camisa de gola aberta, aparece, ao lado de ministros de estado, ditadores, papas, presidentes, altos dignatários do partido, sempre com sorriso do mais concentrado alheiamento quanto ao que os holofotes e os grandes jantares requintados podem trazer de disparidade à raiva, à revolta, e à condenação intelectual a essas situações que  fizeram artisticamente interessantes seus romances, ensaios e contos. É como se o homem por detrás do escritor detivesse, com a prática social obtida pela fama, uma percepção mais realista e adulta do que a verdade política tem a oferecer, que o escritor, afundado em sua solidão onírica e juvenil, não consegue visualizar. E é esse escritor que costuma obter o aval da perpetuidade junto à cátedra universitária estabelecida, pois o leitor médio que se elevou às alturas do doutorado se delicia na mesma medida com a propensão  que tem o homem das letras ao glamor emprestado dos jogadores de futebol e dos cantores de música pop.

Tudo o que foi dito no parágrafo acima adquire uma qualidade sui generis quando se trata da América Latina e, especificamente, do Brasil. Por aqui, o leitor médio universitário, que passaremos a chamar de agora em diante como especialista acadêmico, tem a imensa incapacidade de separar a literatura da política. De forma que mesmo a literatura política, para o especialista acadêmico, tem necessariamente que vir carimbada com o selo de garantia da ortodoxia de esquerda. E, como a esquerda latino-americana é mais uma região temporal estática do que um conjunto de posicionamentos ideológicos quanto à política e ao Capital, o escritor de valor para o especialista acadêmico é aquele que defende acirradamente a canção ouvida com o coração enfebrecido no conteiner do passado em que, facilmente, se distinguia os bons dos maus, os opressores dos oprimidos. Quando se fala romancista de esquerda latino-americano, o especialista acadêmico, que viveu naqueles anos dourados, ou é filho ou neto do portador da experiência, já vê o ícone da sagração à sua frente, uma espécie de velho soldado que retornou glorioso de uma batalha de resgate da alma patriótica e merece a aposentadoria digna da genialidade incontestável. Por isso é compreensível que nada haja de pior e mais desprezível para o especialista acadêmico do que um desses escritores resolver trair o eclesiastismo do passado, a causa e os jargões do discurso de esquerda intensamente solidificados. O escritor ou intelectual ou artista ou ativista político que, por uma ou outra razão, se diz emancipado dos baluaques da tradição esquerdista, é taxado sem piedade e sem nenhum nuance como adepto da ultra-direita, neoliberal reaganiano, cachorro do imperialismo norte-americano, inimigo dos pobres, promotor de todas as mazelas multitudinárias do subdesenvolvimento latino-americano, das crianças famélicas das favelas, às prostitutas das periferias.

O exemplo do escritor esquerdista respeitado é Gabriel Garcia Márquez, que Roberto Bolaño bem definiu a um entrevistador o que o colombiano lhe representava: alguém que gosta muito de ser visto ao lado de ditadores e padres. O exemplo do escritor que deve ser desprezado e relegado mais cedo ao esquecimento, é Mario Vargas Llosa, que, já que citamos Bolaño, era seu escritor hispano-americano preferido. Mas esqueçamos Bolaño. García Márquez há 28 anos que não escreve nada de interessante, porém, sempre que é citado pelas revistas e intelectuais de esquerda, sublinha-se as qualidades geniais da última obra em questão que esse senhor hoje octogenário manda ao prelo. Assim, quando a tradução de sua novela de menor calibre, Memórias de Minhas Putas Tristes, foi lançada por aqui, a Carta Capital, sob a pena de Miguel Sanches Neto, disse com todas as letras que esse livro, que não se sustenta nem mesmo entre a produção mediana do escritor, era "obra prima da literatura universal". Já Llosa, ao ganhar o Nobel do ano passado, recebeu uma série tão pesada de críticas depreciativas, não por uma publicação recente ou algum volume específico, mas por toda a sua obra e, acrescenta-se, por sua figura humana. Aliás, em alguns blogs, a própria humanidade do peruano foi colocada em dúvida. Os mais cordiais comentários sobre o autor de Conversa na Catedral lamentam que alguém que escreve tão bem seja um "monstro moral", que seja o "Céline das letras latino-americanas". Ernani Ssó, num texto re-publicado neste blog, relata o quanto foi penalizado pelos amigos ao ser flagrado relendo Llosa, "o que você está fazendo lendo esse lixo!", uma repreensão tão carregada de carimbo de mácula como se lhe pegassem com um álbum de fotos de pedofilia.

E isso porque Llosa, já no final da década de 1960, renegou a versão marxista-leninista-maoista praticada em diversos países da América Latina. Isso porque Llosa encabeçou uma famosa Carta a Fidel Castro, co-assinada por dezenas de intelectuais (entre eles Juan Rulfo, Jean-Paul Sartre [!!], Alberto Moravia, Jorge Semprum e Italo Calvino), que repudiava as confissões de culpa forjadas por Fidel, e assinadas sob o cano da baioneta por dissidentes do regime cubano, carta que foi o estopim para que Llosa deixasse peremptoriamente os sonhos da esquerda congelada nos cantos de glória temporal, e se tornasse um crítico incansável do quanto esses regimes ditos democráticos e derrubadores de tiranos repaginam as situações de extermínio, censura ideológica, estagnação social e atraso econômico cruentos, que eles pregam terem derrubado dos governos de direita do passado. Esse Llosa que resolveu, durante um longo período de crise ideológica, olhar a fundo e sem eufemismos a classe insurgente de patriarcas populistas dos regimes de esquerda conquistados pelas arma, nos vários países da América Central e do Sul, e ampliar essa visão no embasamento teórico de críticos do marxismo como Jean-François Revel, Isaiah Berlin e Raymond Aron. Esse é, enfim, o escritor maldito da esquerda latino-americana, o pensador taxado com a marca denigritória na testa, o anti-herói da mentalidade formada pelas camisetas do Che e pelos bonés de estrela vermelha, o boneco malhado nas salas de aula dos cursos de letras, onde os líderes do gosto e da assimilação da verdade impõem do alto da cátedra que deva ser diminuído, desprezado, combatido como uma piada de péssimo gosto e fraqueza moral.


E ninguém dessa esquerda se dispõe a ler o compêndio da reviravolta ideológica de Llosa, publicado no Brasil pela editora Objetiva, intitulado Sabres e Utopias, para colocar à prova a real perniciosidade do morto. O volume, uma compilação de ensaios políticos e literários do peruano, selecionados por Carlos Granés, traz, em didática ordem cronológica, o posicionamento de Llosa, desde de um otimismo cauteloso _ nunca exultante_ quando da célebre noite em que Fidel Castro o recebe em seu palacete em Havana,  pouco depois da revolução cubana, junto a uma turma de jornalistas e escritores, para anunciar que nenhum jornal seria fechado ou censurado em Cuba, até a sua virada para o liberalismo em que se alavanca a acusador das ditaduras repressivas de Cuba, Haiti, Peru e Venezuela. Ler Sabres e Utopias é se submeter ao risco de ter que abrir mão do rótulo que anula o problema, e se prestar a entender a história da América Latina por um ângulo em que não se antepõe o filtro ótico da utopia política da esquerda, se vulnerabilizando a descobrir que o Llosa demonizado é, talvez, o pensador mais equilibrado e lúcido da América Latina, o único que se ombreia às formas de reflexão desatreladas dos moldes ideológicos impostos pela correção acadêmica e  vínculo partidário, com outros intelectuais que "dizem a verdade" ao poder (na frase cunhada por Edward Said), em qualquer extremo do prisma político, como Coetzee, Naipaul, Ohram Pamuk (que lhe escreveu um belo ensaio em Outras Cores), Chomsky. Como bem diz Carlos Granés, no prefácio do livro, a sucessão de declarações de Llosa revela o quanto seu interesse é "a luta instintiva pela liberdade", e nenhuma palavra cabe tão bem aqui que "instintiva", pois Llosa mostra nessas 400 páginas o quanto foi guiado por uma observação decantada de veneração dos homens que estavam ou estão à frente das nações latino-americanas.


Cada um desses ensaios tem uma riqueza própria, uma pedra de toque que reafirma o talento de prosador e analista humano de Llosa. No ensaio que abre o volume, O País das Mil Faces, publicado em 1983, Llosa traça um panorama sentimental do Peru, desde Arequipa, sua cidade natal _ confrontando os alicerces mentais do litoral com o centro/periferia_ até Cuzco, dizendo o quanto essa capital do império inca lhe parecia horrivel, e o quanto "já tenha odiado o Peru, esse ódio, como no verso de César Vallejo, foi sempre impregnado de ternura". Llosa utiliza sua memorialística subjetiva da infância para tornar esse ódio terno uma oposição sensível à mazelas morais e políticas do país, indo contra a tradição do subdesenvolvimento de as investir de um caráter sagrado e patriótico. Nega-se a adotar o vínculo espiritual à terra, e assim se anular intelectualmente, e a condena em tudo aquilo que o eco do enquadramento da dominação ideológica afirma ser o dever do amor à bandeira e à co-sanguinidade nacional. Consegue um nível de acidez quase tão apurada nesse ódio quanto Thomas Bernhard em relação à Àustria, e Roberto Bolaño em relação à toda América Latina.


Em um ensaio sobre Omar Torrijos, reconhece o empenho sério desse general carismático em converter o prêmio do canal em benefício da diminuição da desigualdade social do Panamá,  nessa que é a última entrevista dada por Torrijos antes que a sua determinada oposição à dominação norte-americana o levasse à morte. Não era seu tipo de político, Llosa diz, mas o apartidarismo de Torrijos, sua facilidade despreconceituosa de fazer amigos, o permitia angariar o melhor a seu projeto tanto de "Fidel Castro, o Xá, Carlos Andrés Pérez, Jimmy Carter, os sandinistas e Nelson Rockfeller (que o presenteou com dois helicópteros no dia em que o conheceu)".


 Mas a parte mais esclarecedora de Sabres e Utopias, se compõe dos nove ensaios do capítulo 4, intitulado Em Defesa da Democracia e do Liberalismo. Só o ensaio Confissões de um Liberal, já serviria a propôr um diálogo construtivo com quem se opõe às ideias de Llosa. Só esse ensaio já vale o preço do livro _ e olha que a carga de atenção política na verdade esconde os textos deliciosos sobre literatura que o organizador reserva para o capítulo final_, mostrando o quanto a maior parte dos especialistas acadêmicos está despreparada para um eventual debate sério com o autor. Aqui, Llosa expõe com todas as palavras que liberal é um conceito impossível de ser entendido independentemente das tensões geográficas e históricas de cada ponto do conflito político.

"Aqui, nos Estados Unidos", ele escreve, "e em geral no mundo anglo-saxão, a palavra liberal tem conotações de esquerda e se identifica, às vezes, com socialista e radical. Em compensação, na América Latina e na Espanha, onde a palavra liberal nasceu, no século XIX, para designar os rebeldes que lutavam contra as tropas de ocupação napoleônicas, chamam-me de liberal _ ou, o que é mais grave, de neoliberal_ para me demonizar ou para me desqualificar, pois a perversão política de nossa semântica transformou o significado original do vocábulo _ amante da liberdade, pessoa que se levanta contra a opressão_, substituindo-o por conservador e reacionário, ou seja, algo que, na boca de um progressista, significa cúmplice de toda a exploração e das injustiças de que são vítimas os pobres do mundo."


Nas próximas páginas desse ensaio, Llosa desconstrói os aguilhões conceituais que matam a discussão sobre o liberalismo, mostrando-o não só como a opção mais válida para os problemas da democracia de faxada da América Latina, em que restringe a possibilidade da demência dos governos ditatorias, como mostrando também que os países por aqui que estão tendo um verdadeiro progresso político e econômico são os que se desvincularam da praxe dos dogmas da esquerda e abraçaram uma posição francamente reformista e alinhada à política mundial (o que se entende imediatamente como globalização). E o duro é que, mesmo tendo-se várias reservas a se antepôr a Llosa, o que seria a promoção do debate, há pouquíssimos caminhos de argumentação contrária. "Embora a palavra liberal seja um termo negativo que todo latino-americano politicamente correto tem a obrigação de abominar, o fato é que, de algum tempo para cá, ideias e atitudes basicamente liberais começaram também a contaminar tanto à direita quanto à esquerda nesse continente das ilusões perdidas", ele escreve. Mais à frente, lemos:  "Mas esses dois casos (Chaves e Castro) são exceções em um continente no qual, vale a pena destacar, nunca no passado houve tantos governos civis, surgidos de eleições mais ou menos livres, como agora. E há casos interessantes e alentadores, como o de Lula, no Brasil, que, antes de ser eleito presidente, apregoava uma doutrina populista, o nacionalismo econômico e a tradicional hostilidade da esquerda em relação ao mercado, e agora é um aplicador da disciplina fiscal, promotor de investimentos externos, da empresa privada e da globalização". Alguma dessas palavras não se encaixa no retrato da verdade?


Pode-se não concordar com diversas partes do discurso de Llosa, como o autor deste post não concorda _ salientando que nenhum escritor almeja a concordância absoluta_, mas é uma ignorância extrema subjugá-lo por ordens que vem das sumidades ditas sofisticadamente cerebrais da opinião acadêmica especialista. É uma perda que só se volta contra a classe pensante não ouvir o que o Mario Vargas Llosa escreve, e não o que dizem que ele escreve, pois Llosa, apesar de não definir bem a importância da revolta social, envolvendo-a de certa ambiguidade desqualificadora, apesar de não mostrar os possíveis freios de uma democracia futuramente equilibrada na liberdade do liberalismo, ao avanço do império global (seja dos EUA ou de que país da hora fôr), é o intelectual desse continente mais coerente, sagaz, independente e corajoso, o mais abnegado politicamente, sem vínculos partidários ou de outros corpos de ofício. Ao contrário de Garcia Márquez, que se tornou peça de adorno de Fidel Castro (o mesmo Garcia Márquez que escreveu uma das radiografias mais certeiras da ditadura latino-americana, em O Outono do Patriarca), Llosa mantêm a solidão requerida para que o escritor crie, longe dos holofotes que tanto agrada aos especialistas acadêmicos. E foi uma das únicas vozes que antecipou o terror que seu oponente vitorioso, Alberto Fujimori, iria causar ao fechar o congresso e destruir o legislativo, impondo no Peru mais um passo repaginado do caminho lógico que adoça a boca da esquerda diante ditadores sacramentados. Na tradição de conivência e omissão que as letras desse continente possui, só isso já é muito mais que fez Pablo Neruda ao afirmar que não poderia criticar os assassinatos cometidos na União Soviética revelada, por ter amigos no sistema, e Garcia Márquez, ao fazer que não viu o paredón de execução de Fidel Castro aos poetas e escritores que o criticavam.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Semana Grandes Escritores: Segunda-Feira de William Faulkner



Os romances de Faulkner acontecem em quatro fases, cujas mudanças espontâneas e quase indistintas surgidas ao longo da narrativa são uma das excepcionais e superioras características do estranhismo de Faulkner.

A primeira fase é a da apresentação dos personagens e dos cenários, as primeiras tintas , respectivamente, de suas maldições históricas e da natureza indomesticável  avessa à presença do homem;

A segunda a inter-relação dos personagens entre si e destes com a natureza espacial mítica criada pelo autor;

A terceira, que tem a enganosa aparência de ser mais importante que as outras (tudo em Faulkner se complementa com o mesmo grau de relevância), é quando tudo se reviravolta e ganha rumos inesperados, quando as certezas estabelecidas com as quais o leitor tem a sensação de firmar o olhar seguro são desfeitas e o enredo passa a transitar por passagens surpreendentes, onde a complexidade geral surge por sob a suposta linearidade dos eventos;

A quarta e última fase é quando reinicia a repetição do ciclo, e o estranhismo _ traço essencial a um grande escritor _ se assenta, com seus ares de que está prestes a solucionar os enigmas propostos ,  mas que na verdade impõe o que uma arte que se iguala ou ultrapassa a casuística da vida tem a determinação de expressar: a de que não somos destinados a existir em um universo seguro, com regras pré-estabelecidas, e não nos será revelada a solução dos mistérios. 

Qualquer um com aptidão física para repetir essas prestigitações da escrita pode simular fazer a mesma coisa, mas Faulkner, como poucos criadores _ e estando em um patamar acima dos bem sucedidos entre eles _ , consegue jogar por sobre suas páginas o jorro luminoso da uma poderosa autenticidade; seus personagens são tão reais no que tem de erráteis, e sensíveis ao soco propulsor de seus primeiros contatos traumáticos com o mundo,   tão defensivos em repetir cegamente a violência que sofreram em cantos escuros da infância e propícios a serem vetores da infindabilidade do medo e do abandono, que suplantam os esquematismos técnicos da ficção genialmente urdida para ganharem ossos, carne e espírito.

Os piores entre os piores homens de Faulkner sempre tem um passado em cuja  indequabilidade a um mundo corrompido ativam seus recônditos potenciais de adaptação, eximindo-os de compreender, e os tornam proficientes a falar o mesmo idioma da rejeição sofrida. Em algum momento deixam de ser ternos, assustadiços e silenciosos, principalmente quando uma etapa da sucessiva violência a que são vítimas demonstra-se brutal demais para que possam prosseguir com a mesma integridade, e se tornam mesquinhos, inumanos e silenciosos. A maior parte dos homens-demônios de Faulkner tem essa constituição: ser quase por completo silenciosa. O silêncio torna-se um escudo físico que mesmo para Faulkner ( que era o primeiro a se assustar com suas aparições de erradiações sinistras, antes de moldá-los no discurso) era uma barreira indevassável que não conseguia tornar efetivamente translúcida, daí que, nessa fase de construção degradativa dos personagens, Faulkner passa a descrevê-los utilizando elementos instrumentais de um materialismo duro, férreo, industrial. Os olhos de Popeye, em Santuário,  parecem-se com maçanetas de porta, a mulher de Palmeiras Selvagens possui o rosto vítreo de insondáveis móveis domésticos, Joe Christmas, de Luz em Agosto, parece a encarnação pétrea da geografia do sul dos Estados Unidos, tanto no que ela tem de carvonesca, quanto do maquinário explorador do trabalho dos sub-assalariados exaustos e  da inamistosidade sem vida das indústrias e das oficinas paupérrimas dos povoados de beira de estrada.

São propostas às criaturas de Faulkner as duas únicas alternativas de um mundo imisericordioso: o suicídio, ou a participação ativa na promiscuidade reinante. Os que rejeitam a primeira opção tem o benefício excruciante de progredir até o máximo que a torpeza e a inumanidade lhes permitem, e se tornam senhores  escravocratas, donos do condado, beneficiários dos galardões de uma sociedade covarde e amesquinhada diante suas opressivas estaturas de poder, de forma que são os homens que se venderam para ter seus nomes nos jornais, contas nos bancos, e juízes marcados nos bolsos do paletó.

São inteligentes e carnais demais para desaparecerem da existência por suas próprias mãos. Do ponto de vista das engrenagens sociais, não há muito a se condenar neles: são os promotores do que confere graça à vida, os que conseguem iludir que acabrestaram a furia caótica da natureza  pondo sobre ela o sinal do falso domínio do homem, os que simulam preencher o Nada etéreo e desesperdor com o pesadelo reconfortante da forja de tradições e mitologias para as quais se oferecem como alimento para o povo que os investem dos temores devocionais das divindades.

Os indefesos, os puros, indomáveis e incorruptíveis (como Boon Hogganbeck e o velho urso Old Ben, de Desça, Moisés, Quentin Sutpen de Absalão, Absalão!, e o retardado de O Som e a Fúria ), optam pelo suicídio, ou, na melhor das hipóteses (o que não configura uma terceira opção, mas uma abrangência da primeira), suicidam-se ao tomarem para si o silêncio das mortalhas em vida que os isolam do mundo. Daí tantas tias solteironas trancadas para sempre em casarões desabitados, diante as janelas das quais os vizinhos depositam diariamente um prato de comida, ou como o odor de putrafação de santidade que se desprende do pastor caído Hightower, ou como o retardado que narra a primeira parte de O Som e a Fúria para quem o instante perpétuo é a única sobrevida que ilusoriamente tem antes que o mundo o trage e destrua. O povo constrói os seus deuses, como também seus santos.

Por detrás do mundo de cores ásperas de Faulkner, de suas chuvas desoladoras, de suas florestas altissonantes, herméticas e pré-históricas, de suas vilas onde o tédio de antigos vícios sedimentados alimenta o veneno de velhos ressentimentos, de todo condado de Yokanapatawpha que reflete o provincianismo e a conjunção irredutível a um conservadorismo ultra-violento dos primórdios do coronelismo e dos amores patrióticos à terra; por detrás desse mundo onde tudo ressende a desumanidade, paira o que distingue Faulkner de todos os outros grandes escritores antes e depois dele, e o que determina a sua herança: a força de sua linguagem apoteótica, única, devastadora,  de sua beleza poética e de seu alcance esotérico, seu estranhismo, para o qual não se achou outro termo melhor  que "moderno", mas que não se enquadra aos meros exercícios de originalidade dos novos desbravadores da lingua e não se coapta a academicismos e teorias facilitadoras; sua imponência bíblica, sua carga de maldição profética, sua solidão intocada de ter nascido no país que talvez não fosse o certo para comportar seu orientalismo moral e sua inconformidade messiânica se não tivesse em sua linha genealógica pregressa antepassados como William Blake, Melville e Emerson, e cujo único filho futuro merecedor de ombrea-lo numa nova versão urbana e dessacralizada sendo o também não catalogável Saul Bellow.

 Quem tenta conhecê-lo através do inapropriado romance que a crítica oficial elegeu como o seu melhor livro, O Som e a Fúria, tem enorme chance de odiá-lo. Mas quem tem a felicidade de se desatrelar das ideias pre-estabelecidas, e parte para o universo faulkneriano através do cartão de apresentação mais fácil de Santuário, Os Invictos, O Povoado, ou o soberbo Luz em Agosto (que fez com que Sartre dissesse que "Faulkner é Deus"), é muito passível de acontecer o que Borges decretou em um de seus prefácios: não se sai ileso de um livro de Faulkner. Eu mesmo fui mudado em definitivo após ler Absalão, Absalão!, seguramente um dos três maiores livros que já me passaram pelas mãos. Absalão, Absalão!, assim como Desça, Moisés, são os títulos que oferecem com plenitude o tão famoso estilo faulkneriano, num primeiro momento obscuro, difícil, intrincado, mas que, à custa de uma atenção absoluta e de uma persistência recompensadora, torna-se fluido, mágico, com sua abrangência que oferece um nível de informação e interação que dá inéditas capacidades à literatura ( muito copiada tanto por ficcionistas quanto por filósofos modernos, historiadores e cineastas).

É difícil identificar quais foram as influências de Faulkner. Parece que ele inventou um estilo do nada, sem dever nada a antepassados. Os únicos sinais perceptíveis são o da retórica do Velho Testamento. Sabe-se que Faulkner relia religiosamente a cada ano Dom Quixote, o que serve para atiçar mais a questão e não resolvê-la. Mas há muito de Shakespeare, algo de Henry James, Joseph Conrad, Dostoiévski e, de forma a complementar e não de tomar para si, muito de James Joyce. E não só esse estilo atlântico e sinfônico serviu a reconstruir toda uma potente literatura latino-americana surgida na última metade do século XX, caindo-lhe na necessidade de seus propósitos, como a temática social dos romances de Faulkner instruiu a voz denunciadora de escritores que aprenderam muito com ele, como Garcia Máquez, Vargas Llosa, Sábato, Ricardo Piglia, entre outros.

Para finalizar, confesso que nada foi mais impactante nesses meus longos anos de leitor profissional do que a súbita visão, no meio de uma narrativa caudalosa que não dá tréguas e retira o fôlego de tanta intensidade, da causa do por que o Coronel Henry Sutpen eximiu-se do que identifica um homem para um outro homem, e optou não tão livremente ao dedicado massacre de sua alma e da alma de seus semelhantes. Naquela clareira repentina  oferecida em uma das páginas do meio de Absalão, Absalão! , um jovem  Henry Sutpen, que progressivamente não tinha muitos motivos a apostar na bondade humana, decide, tenaz e disciplinadamente, a devolver em quádruplo dali para frente, a humilhação, a afronta e a dor inexorável que sofreu, quando ainda era tão imaculado e incorruptível.

O belo excerto abaixo eu o sei de cór desde quando o li pela primeira vez, há vinte anos. Trata de um hipotético encontro espiritual das almas cansadas do Coronel Henry Sutpen, após sua morte, com o seu assassino vingador, o velho e servil criado Wash, morto em seguida. Confesso que ainda me são tão belas essas palavras, que me vem lágrimas nos olhos. Está na página 170 e 171, da tradução de Sônia Régis para a Editora Nova Fronteira:


"Ele seguira o demônio doze horas depois, naquele mesmo domingo (e talvez tenham ido para o mesmo lugar; talvez lá onde estão agora ainda possam tomar um vinho de muscadínea, sem mais compulsão pelo sustento, ambição, fornicação ou vingança, e talvez até nem tenham de beber, apenas sintam falta do vinho de vez em quando, sem saber do que sentem falta, mas isso não é sempre; serenos, agradáveis, não-marcados pelo tempo ou pela temperatura do dia; apenas de vez em quando alguma coisa, um vento ou uma sombra, faça o demônio parar de falar  e Jones parar de gargalhar e eles se olhem, procurando às cegas, sérios, concentrados, enquanto o demônio diz: "O que foi que aconteceu, Wash? Alguma coisa aconteceu. O que foi?"; e o Jones, olhando para o demônio, atento também, também sóbrio, diz: "Eu num sei, Coroné. Que foi?"; e olha para ele. Depois, a sombra se apaga, o vento se extingue e Jones diz, sereno, sem nenhum triunfo: "Eles devem de ter matado nós, mas eles 'inda num pegaram nós, num é?)"


Amanhã: Thomas Bernhard

sábado, 27 de novembro de 2010

Estrela Distante, de Roberto Bolãno

Por Charlles Campos


 O que poderia haver de errado, nesse começo de século pouco promissor para a literatura — no qual Norman Mailer lamentou que tudo pelo qual sua geração de intelectuais lutara tenha fracassado, e onde as mesmas formas eternamente combatidas de dominação tenham obtido uma vitória incontestável sobre qualquer resistência contrária — , com o fato de Roberto Bolaño ter sido escolhido como objeto de acirrada adoração pela mídia cultural mundial? Nessa época desencantada dos ilimitados milagres da eletrônica, onde Philip Roth vaticinou que a próxima geração a surgir trará incutida no gene o fim do interesse pela leitura, não é espantoso que o romance de mil páginas “2666” já tenha vendido mais de 23.000 exemplares em Portugal? E que “Detetives Selvagens” tenha movimentado o competidíssimo mercado editorial norte-americano; e que os outros livros de Bolaño já sejam por lá tidos como potenciais clássicos de um escritor genial? E o que poderia ser mais esperançoso do que vermos Bolaño ocupando o centro de vários debates culturais pelo mundo, seus livros aparecendo mesmo em locais exórdinos como na mala de viagem do apresentador da Globo Zéca Camargo ( que levou “A Pista de Gelo” para o acompanhar nas filmagens pela Tailândia, demonstrando os critérios práticos da simplificação de sua escolha)?

Mas essa iconização, por outro lado, é o reflexo de outros aspectos não tão festivos do atual momento cultural por que passa a América Latina. À exceção de Bolaño, de qual outro escritor latinoamericano se ouve falar com a mesma persistência? O cenário mostra-se desconcertantemente desértico, ainda mais em comparação à profusão de nomes de valor que existiam há cinquenta ou quarenta anos. A acreditarmos na tendência — o emprego de tal palavra talvez seja o mais maneirista dos eufemismos — do definhamento da escrita, essa espera pelo desaparecimento dos últimos grandes escritores sem que se veja o natural surgimento de uma geração que os substitua, é uma realidade não só das Américas, mas universal. Não que os escritores apareçam obedecendo a u ma determinada sistemática providencial, ou são produzidos em série para, no momento devido, virem com a resolução para os conflitos da pobre humanidade desgovernada. Mas o que ocorre é que o prognóstico lançado por Mailer, Roth, Vargas Llosa e uma dezena de outros escritores, sobre o futuro inglório que eles não verão , parece se encaixar com perfeição nos estágios velozes da técnica que já nos pegam pela frente, onde a escrita se torna irrelevante e descartada, e, com isso, o pensamento crítico, as nuances lingüísticas, a contestação às doutrinas dominantes, o reconhecimento de uma dimensão mental independente, a lentidão necessária para inteirar-se da constituição espiritual morta por fora pela extenuante falta de tempo da escravidão dedicada às empresas, ao Estado e ao modus operandi de consumidores infinitos.

Se a efervescência intelectual é expressão produzida pela intolerância alcançada aos conflitos históricos, como vemos os poderosos escritores surgidos na Rússia czarista, nos memorialistas do extermínio da Segunda Guerra mundial, nos inconformados contrários ao bezerro de ouro do capitalismo norte-americano, nos refugiados hispano-americanos que acusam as ditaduras assassinas em seus países, não há momento mais legítimo para a imposição da voz do que o que vivemos hoje. Se a desgraça crônica explode no desenvolvimento de pessoas comuns em contestadores que escrevem grandes livros, o estágio atual de desgraças seria mais que justificável para a descavernização desses anônimos, a fim de instigarem aos demais míopes silenciados as possibilid ades de um mundo lá fora.

E é aqui que a carga relegada a Bolaño demonstra-se demasiado pesada. Bolaño, em decorrência da degradação de sua saúde e da conseqüente falta de tempo para amadurecer sua escrita, aceitou resignadamente o trabalho que tinha e, como o albatroz com as asas quebradas, desmoronou-se em desistência para o interior de sua imensa depressão. E ficou com toda a soberba constituição de pássaro majestoso, mas incapaz de disfarçar para si mesmo o pouco tempo que lhe restava, e o quanto isto lhe destruiu a capacidade de ver com abrangência. Não venham me dizer que a proximidade da morte cause essas coisas; quase pela mesma época, Edward Said compunha sua biografia e um volume de ensaios onde se negava a afastar uma revificação solar de todas as idéias humanistas de seus outros livros, ele que também via o fim irrevogável se aproximando.


Bolaño não estava apto a continuar a resistência contra os antigos poderes de dominação vigentes e mais poderosos do que nunca na América Latina: a política patriarcal, a mídia a serviço desses poderosos, a grande alienação e o expansivo silêncio. (Não se mostrou apto a incorporar o intelectual que fala a verdade ao poder, na definição ativista de Said.) Resistência que se fazia com uma militância romântica (hoje tão anacrônica em suas singelas tentativas, que de imediato é taxada de ingênua e demagoga) pelos escritores do assim chamado boom da literatura hispano-americana: Miguel Àngel Astúrias, Juan Rulfo, Mário Vargas Llosa, Rômulo Galegos, Júlio Cortázar, Manuel Scorza, o jovem García Márquez.

Com seu nome valorizado nos mais altos índices de graduação pela crítica estrangeira como representante da atual intelectualidade latino americana, o seu quietismo raivoso, a sua falta de fé, o seu queixume derrotado, alinha-se ao pesado silêncio que mais uma vez assola nosso continente. E Bolaño é tanto mais decepcionante por sua desistência por não se poder dizer que os escritores atuantes em outras regiões do planeta perfaçam a mesma entrega de pontos e pacificação resignada; é só ver Ismail Kadaré, Amós Óz, Ohran Pamuk, Mia Couto, entre outros. J. M. Coetzee, por exemplo, continua insurgindo com uma revisão desafiadora contra o instituído ponto comum e politicamente correto em que coube calar a questão da guetização do negro e da miséria ainda reinante sob a edulcorada versão oficial de uma África redimida e liberta pós Nelson Mandela (como no magnífico romance-palestra “Margareth Costello”).

A crítica que cabe a Bolaño é a mesma que em outra época e sob óticas diferentes, D. H. Lawrence fez a Joseph Conrad, não perdoando por este ser um escritor tão inexoravelmente triste. Com todo esse potencial para o fantástico, e cedendo na primeira investida às formas aterrorizantes da falta de perspectivas do mundo real, era o que estava dizendo Lawrence, lamentando que a música bombástica da prosa exuberante de Conrad o engolisse antes que o arrebatasse para fora da cadeira. O que pode alimentar a interpretação de que os trópicos seja um cinturão global cujos atributos coincidentes são o desespero, a apequenização e o silêncio.


Bolaño, com seu estilo que parece ser independente de qualquer influência, sua profusão de histórias, seu talento em revirar a trama inúmeras vezes, seu humor surpreendente, suas frases que aparecem aqui e ali no relevo do coloquialismo como sentenças borgeanas, o que vemos é seu receio em mitificar, em ir além. Suas narrativas são todas sobre exilados que, mesmo professando a mais difícil e anti-moderna das artes — a poesia — , ainda assim são imediatamente descartados como poetas medíocres, mais uns versejadores outsiders que vão se silenciando e rendendo ao suicídio, à doença ou aos aspectos comezinhos da vida cotidiana. Em determinado momento de “Estrela Distante”, o narrador declara que o Chile ainda não está pronto para a poesia.

Os intelectuais que erram pelas páginas de seus livros não estão motivados a transformarem céu e terra, a bradarem seu canto selvagem sobre os telhados do mundo — mesmo que sempre quebrando a cara no final — , como os personagens de Saul Bellow; também não visam o sublime, como os desesperados que se apartam da mesquinharia mundana para seus territórios artísticos pessoais, como o dos livros de Thomas Bernhard. Seus personagens não tem o firme estoicismo intelectual dos de Philip Roth; ou o prosaísmo quixotesco dos de García Márquez; ou o provincianismo que conlui o submundo bairrista da infância com a experiência do militarismo regimentar dos livros de Vargas Llosa. Os seres de Bolaño não se encaixam nem ao mais niilista dos existencialismos; vivem apenas uma pobre e levianamente documentada aventura de passantes. Não existem dois personagens mais anêmicos e inexpressivos que Arturo Belano e Ulisses Lima.

Eu não perdoo que Bolaño seja tão triste. Quem lê “Putas Assassinas”, sai com a certeza de uns três ou quatro contos realmente muito bons, mas com uma sombra na alma que leva dias para desaparecer. Poderão me dizer que mexer com um material tão emocionalmente radioativo como a literatura é tarefa para quem tenha estoicismo suficiente para suportar doses cavalares de desencanto. Mas eu saio revitalizado depois de ler Bernhard, Beckett e Céline (para citar três escritores do desencanto). Ler “Extinção”, “Origem” e “Viagem ao Fim da Noite”, é percorrer uma indignação festiva, uma repugnância que recorda sempre a força de contestação juvenil, a desconstrução de toda certeza e gratidão imposta pela farsa da sociedade equânime; é literatura adrenérgica e viril, que, dependendo da época, deve ser naturalmente reprimida pelo sistema que estiver vigorando.


Já o Chile, Pinochet, as andanças sem rumo pelo México e pela Europa — até as cenas espetaculares numa guerrilha africana que aparece em “Detetives Selvagens” — , são incapazes de romper o isolamento de Bolaño; essa violência mundana não consegue suscitar nele nada mais que o aproveitamento, sob a devida distância, de matéria para sua prosa documental. Um conto de três páginas de Cortazar, “Grafite”, faz mais pela indignação, a denúncia e reação, do que “Amuleto” e aquelas últimas páginas de “Detetives Selvagens”. “Estrela Distante” vai mostrar mais uma vez isso, com um número inédito de aberrações e corpos mutilados, de que Bolaño renunciara à política, à filosofia e à poesia, e o resultado é um livro competentemente limpo de qualquer transcendência em qualquer sentido. O único símbolo sutil perceptivo é deixado à deriva, como se Bolaño, com seu cigarrinho entre os dedos, mandasse às favas o trabalho que daria dar escopo ao inteligente esquema do personagem central ser um serial killer. Como em Detetives, em que ele não consegue mitificar a procura por 600 páginas pela Cesária Tinajero, ele também não passa ao leitor aquela indagação após fechar o livro de “o que diabos ele quis dizer com aquilo?” O poeta fascista assassino Carlos Wieder representa o que? Bolaño não constrói vínculos inteligíveis em que se possa dizer: “Ah! É a desumanização que a rendição à ditadura causa!”, ou “Ah! Cesária Tinajero é o símbolo da liberdade perdida!” A prosa de Bolaño é indevidamente rarefeita numa época em que a literatura precisa de mais para prosseguir.

Mas vale lê-lo? Vale! Cada centavo empregado! Não sei se Bolaño é um grande escritor. Estou propenso a pensar o contrário, o que seria uma contribuição à mesma mitificação que favorece ao setor das compras antes do deleite da leitura. Um dos melhores livros que li foi escrito por um autor menor, “Pergunte ao Pó”, do John Fante, e pouca coisa há de mais singela que Arturo Bandini (que coincidência!) atirando seu livro publicado em direção às areias do deserto da Califórnia. Não estou dizendo que Bolaño seja medíocre. Mas contra a comercialização desarroada de sua imagem (que só imponho reação quanto às possibilidades críticas, e não contra o quanto se consiga vender de seus livros — é um aspecto de raríssimo otimismo ver Bolaño ocupar algumas listas de mais vendidos), eu creio que o Bolaño verdadeiro é aquele da foto e m que aparece sentado atrás de uma mesa atulhada de papéis, com o olhar perdido para dentro de si mesmo, frágil, solitário, equilibrado com seu cigarrinho eterno na fina linha de sua vida, com a cabeça cheia da música mais angustiante.

(Publicado originalmente no blog do Milton Ribeiro. Seleção de imagens: Milton Ribeiro)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.