sábado, 30 de abril de 2011

Ernesto Sábato ( 24 de junho de 1911 - 30 de abril de 2011)

Acabo de voltar da casa de um amigo em que discutimos a fundo sobre Sábato e os intelectuais que ainda sobram. Meu amigo me brindou com a notícia de um novo livro de Tzvetan Teodorov, “A beleza vai salvar o mundo”, ou coisa assim. Disse-me quando entrava no carro, ao que eu lhe respondi que parecia parte de uma conspiração, nos levam todos aqueles familiares, no auge da juventude ou da meia idade, ou já beirando o centuagenário, e os que ainda restam vivos colocam-lhes nomes impronunciáveis, quebra-línguas difíceis de falar ou lembrar. E meu amigo foi citando os nomes, Tzevtan Todorov, Zygmunt, Slavoj Zizek, e tantos outros, exagerando nas consoantes para fazer graça.

Meus grandes amigos estão todos mortos. Isso não descarta uma apreensão religiosa toda particular e acima de qualquer crítica de que exista uma continuidade, de todo modo. Como Saul Bellow_ outro que me fala todos os dias do outro reino_ disse quando Allan Bloom morreu, ele não acreditava que alguém como Bloom fosse perecer assim por uma simples lógica orgânica. Sem exageros_ mas cheio do mais perverso sentimentalismo_ eu também não acredito que seja possível perder alguém como Sábato assim tão facilmente para a morte.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Editando seu Autor Preferido, por André Conti




Para quem gosta de livros, há algumas vantagens inegáveis de se trabalhar numa editora: acesso a manuscritos inéditos, notícias direto do front, a possibilidade de dar pitaco no texto dos outros. Mas, como em qualquer trabalho, isso rapidamente se torna parte do dia a dia, e não estou dizendo que você fica insensível nem nada, apenas cria uma relação diferente com tudo que diz respeito ao livro.


Há uns três anos, quando eu acreditava que essa couraça estava mais que consolidada, a Ana Paula, nossa diretora de direitos estrangeiros, deixou um singelo presente em minha mesa. O tijolo, de mil e tantas páginas, era todo branco, com um detalhe em marrom na capa, e quando vi de longe bateu um temor. Fui até a mesa pensando que não queria editar o Corão, a Bíblia, nada disso, já tenho problemas demais. Todavia, era de fato um presente e tanto, a edição antecipada de Contra o dia, do Thomas Pynchon, que seria lançada no mês seguinte nos Estados Unidos.


O livro tinha sido anunciado pouco tempo antes, num release escrito pelo próprio Pynchon, onde ele prometia um elenco de “anarquistas, balonistas, apostadores, magnatas corporativos, entusiastas das drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiras e assassinos profissionais. Com participações especiais de Nikola Tesla, Bela Lugosi e Groucho Marx”.


Como tudo que diz respeito ao autor, o release veio coberto de mistério — primeiro subiu num site, depois foi tirado do ar, voltou, e só então confirmaram que havia sido escrito pelo próprio Pynchon. Terminava assim: “Enquanto isso, o autor faz o de sempre. Personagens param para cantar canções, em sua maioria estúpidas. Práticas sexuais estranhas acontecem. Idiomas obscuros são falados, nem sempre idiomaticamente. Ocorrências contrárias aos fatos ocorrem. Se não é o mundo, é o que o mundo seria depois de uns ajustes. Segundo algumas pessoas, esse é um dos maiores propósitos da ficção. Que o leitor decida, que o leitor tenha cuidado”. Recebi o release pelo mailing PYNCHON-L e entrei num processo imediato de autocombustão.


Cabe dizer que os fãs do homem são bastante organizados: há o mailing (que existe desde 1993), e também diversas enciclopédias e glossários, com listas de personagens, temas, referências, tudo. E tem o sujeito que fez uma ilustração para cada página do Arco-íris da gravidade (são quase oitocentas). Mais: os sete romances foram anotados à exaustão por uma rede de comentadores, e há índices, listas de discussão, não acaba nunca. Como os livros são coalhados de alusões históricas, fatos obscuros, conhecimentos arcanos, fórmulas matemáticas, princípios físicos e (inúmeras) canções obscenas, é preciso um exército de gente para esmiuçar as citações e referências. E a cada lançamento essa comunidade se mobiliza, troca notícias, mapeia as livrarias que vão abrir as vendas à meia-noite. Harry Potter para assinantes da Barsa.


O último livro dele, Mason & Dixon, tinha sido publicado onze anos antes, em 1997. Mas eu só fui saber da existência do Pynchon no ano seguinte, quando saiu a tradução do Paulo Henriques Britto para o Arco-íris da gravidade, romance de 1973. Li por conta de uma resenha, meio no escuro, e fiquei doente. O livro era tudo que o resenhista dizia: engraçado, enciclopédico, necessariamente longo, intricado (são mais de quatrocentos personagens, e sabe-se deus quantas vozes narrativas), profundamente estranho e incomum.


Mas havia algo a mais ali, para além do mar de referências e da bossa formal. O livro era acima de tudo comovente, e o humor e o absurdo e as conspirações e as músicas tolas serviam, no fim, para falar de Temas Grandes, de coisas comuns a todos nós — morte, vida e o que está no meio—, e de certas mudanças nas pessoas e no mundo que raramente percebemos, e que quase nunca os escritores conseguem registrar em prosa. Era o livro mais ambicioso que eu já tinha lido, no melhor dos sentidos, o mais bonito e, com certeza, o mais engraçado.


De modo que, entre o Mason & Dixon e o Contra o dia, eu já estava convertido. Tinha assinado o mailing, lido as anotações da comunidade e acossado estranhos na fila do quilo, com teorias sobre a procedência do frapê de banana. Ler o Contra o dia um mês antes não significava, portanto, vantagem sobre os outros fãs, apenas diminuía um bom tempo de espera e ajudava com as minhas questões de ansiedade. Que baita presente foi aquele. Resolvi guardar para quando chegasse em casa (era sexta), e dei só uma espiada na epígrafe: “É sempre noite, do contrário a gente não precisaria de luz — Thelonious Monk”. Foi o momento de um telefonema bastante emocionado e, em retrospecto, constrangedor, para a Ana Paula.


Mas foi só depois de ler e gostar demais do Contra o dia que caiu a ficha: eu ia editar o bicho. Mesmo sabendo que contaria com uma vasta rede de colaboradores (o meu alô ao bom povo da Pynchon Wiki), e com a tradução do Paulo Henriques, confesso que deu medinho. Não que você não vá caprichar nos seus outros livros, longe disso. Mas estávamos falando do meu autor favorito, e eu queria fazer direito. Pior que insisti para editar, numa clara alusão ao quarto provérbio dos paranoicos, do próprio Pynchon: “Paranoicos não são paranoicos porque são paranoicos, mas porque sempre se colocam, os imbecis, deliberadamente em situações paranoicas”.


Adiei a ansiedade durante a tradução. Depois, apareceu o Vício inerente, que acabou sendo lançado antes. Embora seja um livro excelente, não tinha o escopo do Contra o dia, e a edição correu com incidência mínima de lágrimas. Com a tradução do Paulo entregue, ainda foi-se um bom tempo nas mãos do preparador de texto, e mais o meu trabalho em outros livros que vinham antes na programação. Mas o Contra o dia está marcado para o segundo semestre, então precisei começar agora a leitura.


Entre ontem e hoje, passei pelos dois primeiros capítulos e lembrei exatamente por que gosto tanto do Pynchon. As tramas foram voltando e o fio condutor — uma saga familiar que, na falta de uma palavra melhor, é um bocado contundente — já começou a se insinuar. Como é um clássico moderno, ou pelo menos eu acho, não fico com muita vergonha de já roubar assim na segunda coluna. E vou passar um tempo nisso, então é provável que volte ao assunto. Não é sempre que a gente edita o livro favorito do autor predileto. Bivér.

* * * * *

André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog (da Companhia das Letras) com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

(Roubado do site da Companhia das Letras)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

As Corcundas


Franz Kafka
Leio num ensaio de Hannah Arendt esse trecho escrito por Walter Benjamin: um entendimento da produção [de Kafka] envolve, entre outras coisas, o simples reconhecimento de que ele foi um fracassado. Tal declaração, vinda de um dos que melhor entenderam a importância da obra do autor de A Metamorfose para visualizar a derrocada humana promovida pelo século passado, faz coro à insistência do destino pessoal de Benjamin em mantê-lo numa vida regida por um azar tão intenso que era quase uma força espiritual. Azar que Arendt reconhece personificado na figura popular do folclore alemão como “o corcundinha” (símbolo da poesia infantil para o infortúnio). Os que lêem Arendt sabem que seu texto tem a marca vertiginosa de passar do retrato para longas reflexões de filosofia abstrata, revelando os matizes atentos de uma erudição abalizada em autores tão adversos como Kant e Santo Agostinho, de forma que não é uma simples impressão enxergar entre suas sutilezas um toque de sarcasmo em desvendar o infeliz combalido, o palhaço contumaz que sempre leva a pior, por detrás do pensador profundo que foi Walter Benjamin. O curto período de vida de Benjamin, amaldiçoado pela adversidade, comprova isso. Arendt não deixa ao leitor a opção de suavizar o impacto das constantes desgraças pelas quais passou Benjamin num texto mais polido; sua linguagem afiada não poupa o riso espontâneo que vem sem que seja possível contê-lo ao ler essas palavras sobre os últimos dias de Benjamin:


Graças aos esforços do Instituto em Nova York, Benjamin estava entre os primeiros a receber o visto [o visto de emergência para refugiados da Alemanha nazista, que dava direito a entrarem nos Estados Unidos] em Marselha. Também obteve rapidamente um visto de trânsito espanhol, que lhe permitia ir até Lisboa e lá tomar um navio. Contudo, não tinha um visto de saída francês, ainda exigido na época, o qual o governo francês, ansioso para agradar à Gestapo, invariavelmente recusava aos refugiados alemães. Em geral, isso não apresentava grandes dificuldades, pois havia um caminho bem conhecido, que não era vigiado pela polícia francesa de fronteira, relativamente curto e de modo algum muito árduo, que tinha de ser feito a pé pelas montanhas até Port Bou. Contudo, para Benjamin, que aparentemente tinha problemas cardíacos, mesmo o passeio mais curto significava um grande esforço, e deve ter chegado num estado de grave exaustão. O pequeno grupo de refugiados a que ele se juntara alcançou a cidade da fronteira, para ali saber que a Espanha fechara suas fronteiras naquele mesmo dia e que os oficiais não aceitavam vistos expedidos em Marselha. Supostamente os refugiados teriam de voltar à França no dia seguinte, pelo mesmo caminho. Durante a noite, Benjamin se matou, com o que os oficiais da fronteira, impressionados com o suicídio, permitiram que seus companheiros seguissem até Portugal. Poucas semanas depois suspendeu-se novamente o embargo dos vistos. Um dia antes, Benjamin teria passado sem nenhum problema; um dia depois, as pessoas em Marselha saberiam que, de momento, era impossível passar pela Espanha. Apenas naquele dia particular foi possível a catástrofe. (Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt, pp.184-5, grifo meu)


Por sobre todo grande fracassado paira uma áurea de humor que acentua que eles são representantes de maior peso da erraticidade e desabrigo da nossa espécie. É difícil saber qual foi o maior fracassado: Benjamin ou Kafka, dois judeus cujo reconhecimento póstumo só foi possível por uma série de acasos fortuitos que quase se perdeu, o que ao menos Kafka permeia sua obra com o que o humor judaico antevê com lucidez a inerência inescapável de seu próprio fracasso. Kafka e Benjamin, como homens comuns situados fora do âmbito de criadores, podem ser enquadrados na definição do riso pilhérico dada por Elias Canetti, de que se ri de quem leva um tombo em público pelo que tal acidente puxa pela memória primitiva da queda da caça abatida (como não se pode mais literalmente comer quem cai, a dissolução do impulso residual se faz pelo riso).


A condição de fracasso de Benjamin e Kafka torna-se uma realidade condicionada a fatores materiais quando se vê em retrospecto o que o século tinha para torná-los incompatíveis. Nesse aspecto, Kafka foi mais poupado que Benjamin. Sua vida de funcionário pacato, inepto pelo isolamento social não só no campo familiar como no amoroso, obteve a absolvição procurada em sua toca subterrânea onde externava seus pesadelos, mesmo antes dos eventos que determinaram a personalidade do século XX. A tuberculose o poupou de tudo o mais que se avolumava no horizonte da história a fim de transferi-lo da cômoda constituição de fracassado para a de vítima potencial, possivelmente canalizada para um dos tantos desvãos oferecidos em que lhe esperava o extermínio. O século só lhe confrontou na sua realidade provinciana através da figura totêmica do totalitarismo paterno, e na desfragmentação das tradições românticas e humanistas através de seus incuráveis e efêmeros casos amorosos (todos não passando de platonismo asséptico unilateral que beirava a neurose infantil). Já Benjamin, perseguido por seu fiel e inseparável corcundinha, teve uma sorte muito mais grotesca. Foi atropelado pelo terror de sua inclemente condição de refugiado sem pátria e sem lar, dando-se o lenitivo do único caminho que se lhe apresentava lógico como absolvição.


Algumas décadas à frente e os dois teriam sobrevivido, teriam sido desenfardados da obrigação de serem exemplos relativos aos olhos de quem vê sobre as cargas de ironia e os sintomas de radicais mudanças globais. Mas, restringidos à sua época, limitados em seus aguilhões de fracassados irredutíveis, hoje os homens por detrás desses pensadores estão numa esfera tão desatualizada de penúria que mesmo o humor não mais sobrevive. Não só o humor, como os dois portadores de intelectos potentes foram resumidos no triste domínio sem transcendência de suas fotos em preto e branco de homens muito magros, muito assustados, muito dependentes da burocracia mundana para que fossem suavizados da mesmice de mortais condenados à sensaboria e vistos como os “homens bons” de Hemingway (“os bons morrem cedo”). Os dois não foram homens bons, no entendimento de destemidos confrontadores da injustiça; faziam parte de uma fragmentária categoria de novos representantes da espécie que não tinham o pragmatismo ativo de um André Malraux , Bertrand Russel ou Camus. Suas vozes não eram potentes ou aráuticas, mas voltadas para a região mais profunda de si mesmos. São vozes de quem falam baixinho; vozes nos interstícios das quais a história impera maciçamente para calá-las, para mostrar o quanto tem de antiquadas e de falta de sentido. Não escreviam livros para serem lidos em voz alta. Duas décadas a mais e Kafka não morreria vítima de uma afecção anacrônica do século XIX, meia década a mais e Benjamin teria toda a chance de conseguir uma cátedra acadêmica para escrever sobre uma escrivaninha estável como a de Adorno. Mas isso se não tivessem que cumprir suas obrigações culminantes de fracassados. O fracasso como homens, em todos os sentidos, não só decidiu que morreriam cedo, numa zona intermediária em que o antes e o depois se tornaram colossalmente dessemelhantes, como também é a razão formativa de terem se consolidado no Kafka e no Benjamin que hoje sobrevivem em nosso conhecimento. O fracasso que tornou possível que achassem um tom íntimo e insignificante o suficiente para que o ruído exterior não se importasse em imiscuir-se nele para destruí-lo, e com o qual, livres da imolação, conseguiram enfim empunhar suas armas e investirem dessa esperança peculiar e quase desprovida de acepção etimológica para reagirem às sombras. Assim Benjamin pôde compor seu retrato do Anjo da História, suas amplas análises sobre o minúsculo e o quase invisível, e Kafka pôde mostrar o quanto o homem é uma bomba de angústia e sonhos infrênicos mesmo apertado sob o sapato.


Recordo vagamente de uma interpretação do sentido da obra de Beckett em que se diz que Beckett fora o mais pessimista dos escritores, mas que sob esse pessimismo descobria-se uma broca de escavação para uma opção inominável desconhecida, que tornavam suas palavras infinitamente precoces para o atual estágio humano. Essa precocidade talvez seja a chave para o esforço de tentarmos compreender além de nosso tempo o quanto o fracasso de Kafka e Benjamin serve como presciência, pela exposição reversa, de um período porvindouro em que o homem esteja suficientemente curado pela História de todas as suas cargas deletérias, o passado servindo assim como expurgação. 


Quando Benjamin reconhece o fracasso em Kafka (“As circunstâncias do seu fracasso são multifacetadas. Fica-se tentado a dizer: uma vez certo do fracasso final, tudo se resolvia para ele en route como num sonho”. Citado em Homens em Tempos Sombrios, p. 183), reconhece a incorporiedade de sua única relevância em renegar a existência enquanto homem e estar sensivelmente à frente de seu tempo. O que pode acontecer de pior é essa frágil significância se romper diante a prova implacável do determinismo da história.
Walter Benjamin

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Inclassificável Cortázar


Cortázar é uma presença tão peculiar no cenário da literatura latino-americana que faz com que sobre ele recaia uma série de interpretações equivocadas. Assim como os que olham bem apressadamente Borges_ esse conterrâneo tão diametralmente oposto_ tendem a pensar que sua obra se circunscreve aos dois volumes de contos fabulosos, O Aleph e Ficções, a esses parece que Cortázar não escapa a um exame mais sério além das duas coleções de narrativas que o tornaram relevante: As Armas Secretas e Bestiário. Pois quem se preza a conhecer mais do que o canonizadamente convencional, sabe da ensaística indispensável e da capacidade que beira o milagre de Borges em compor resenhas de vinte linhas que vão além da saturação que o próprio livro analisado oferece; e os outros tantos contos encantadores que Cortázar escreveu que estão à margem de sua produção estabelecida, confortavelmente lidos, relidos e amados pelos seus leitores fiéis, assim como essa peça inclassificável de humor filosófico-surrealista que é História de Cronópios e Famas (uma antecipação de dez anos ao humor anárquico de Monty Python), e esse romance que não se repetiu nem pelas mãos de Cortázar nem por quaisquer outras que se seguiram, O Jogo da Amarelinha.

Cortázar tem essa característica de não se render a classificações. Não se limitou a ser um simples escritor, mas todos os seus experimentos em outras áreas de expressão convergiam inadvertidamente para a escrita.  A fotografia (como em Prosa do Observatório), a narrativa oral (como nas tantas horas de gravações  a que submeteu vários excertos e textos inéditos ao som de sua própria voz), a colagem de citações (como nos capítulos fragmentários de Jogo da Amarelinha), a editoração gráfica (como em O Livro de Manuel), e essa espontânea prefiguração de uma escrita virtual que nos diz que ele teria se dado bem com as mídias da internet, antecipando o blog em Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round. Ele foi um desses autores para os quais o talento era tão fluído, sinérgico e ilimitado, a ponto que o caminho lógico era o de ir-se contra a literatura até destruir qualquer traço dela através de uma saturação implosiva. Mas, ao contrário de Joyce (ou, num campo menor, mas usado aqui para maior elucidamento, Salinger), Cortázar não optou pela aporia do sarcoma verbal ou pelo silêncio, mas pelo que ele descreveu em sua fase tardia como escrever cada vez pior. Sua prosa ficou cada vez mais intimista e desnorteada, de forma que, enquanto seus parceiros intelectuais passavam pela radiografia distintiva de remeterem-se às influências dos antepassados imediatos ou distantes, Cortázar já não assegurava nenhum porto seguro para que a crítica identificasse se ele deslindava o labirinto da escrita pelos fios de Faulkner ou Sartre, de Joyce ou Borges, de Dos Passos ou Camus. Em vez de oferecer esses marcos de estudo facilitadores e reconhecíveis no ambiente comum das letras, havia a exigência de uma cultura mais ampla e multitudinária para apreender quais as novas órbitas pelas quais Cortázar passava. Só assim, com a mente disposta a aceitar o confronto em zonas desconhecidas, muitas das quais não acatadas como ambientes psíquicos de refinamento aceitável, se podia ver que Cortázar escrevia tendo em mente (ou, como) Louis Armstrong, Charlie Parker, ou algum afluente disparatado de alguma escola minúscula e desconhecida de fotógrafos franceses, ou como Kandinsky, Miró ou M.C. Escher. Nesse sentido, nenhum outro escritor latino-americano se aproxima de Cortázar no que ele teve de inovador, desbravador e ampliadar das fronteiras para a escrita desse continente. Através de Cortázar, a literatura latino-americana se alçou ao nível de grandeza especular da literatura produzida nos Estados Unidos no século passado, tendo a ressaltar que Cortázar escreveu O Jogo da Amarelinha  antes  que o Pynchon de O Arco-Íris da Gravidade surgisse, antes de Don Delillo e Foster Wallace. Assim como os grandes escritores ajuntados no rótulo da contra-cultura norte-americana, Cortázar seria o autor contracultural por excelência da América Latina, no que teve de repúdio à cultura estabelecida,  de negação ao apego à eufonia da linha reta das academias, das limitações impostas pela natureza a que o criador seja escravo de sua estética pessoal (como é o caso de Borges nunca ter conseguido ir além ao borgismo, e García Márquez ter sucumbido em vida à mumificação da eterna repetição de si mesmo).

Como Mário Vargas Llosa diz num ensaio sobre Cortázar, ele foi o escritor mais culto e com o legitimo conhecimento enciclopédico apontado em alguns raros autores europeus. Sua cultura era mais vasta que a de seu patrono Borges, pois enquanto o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius tinha como fé inamovível desprezar grande parte da literatura moderna, Cortázar se empenhava em cercar as inovações do pensamento em todas suas vertentes. Em seu grande romance O Jogo da Amarelinha, ele destina parte da composição em  emular a técnica de colagens de Walter Benjamin empregada em Passagens. E esse romance é o que temos de mais próximo ao romance ensaio, gênero para poucos autores, como Thomas Mann, Musil e, recentemente, Cees Nooteboom. Além da sutileza jungiana em contos que extrapolam os limites da percepção extra sensorial (como em Cartas de Mamãe), e dos contos que tratam o tempo como elemento coligativo endossado pelo relativismo da História e do mero cotidiano (como no magistral Todos os Fogos o Fogo). Essa erudição põe à prova o conhecimento de uma série de doutores de literatura que, vítimas das próprias insuficiências, enxergam no primorismo de Cortázar apenas o que demanda o limite de suas interpretações restritas, por isso não é de se estranhar que alguns apontem Cortázar como "escritor para adolescentes", da mesma forma que alguns acham intratável escritores como Pynchon, pelo que colhem na superfície de pornografia grotesca e escrita sobre o efeito narcoléptico. Cortázar não fez outra coisa, mesmo em seus anos de piora deliberada, do que produzir literatura genuína, de altíssima qualidade, que, aceite-se, às vezes acontece da própria peça sucumbir à voz do autor; às vezes saber que se está lendo Cortázar sobressai à unicidade do texto, e o mais importante passa a ser as impressões digitais do criador, seu humor, sua inteligência, sua muitas vezes tocante sensibilidade (quem não chorou lendo Final de Jogo ou  A Saúde dos Doentes), e nisso parece que a fama está agindo e não o conteúdo.

E outra coisa dever ser dita: Cortázar nunca se rendeu a sua própria erudição e perdeu o coração terno. Poucos escritores mostraram-se tão humanos e delicados, e nisso também está a sua força.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pós-Guerra, de Tony Judt


A questão que se nos coloca desde a leitura da capa é: por que não uma história da Europa no século XX, e não apenas de 1945 em diante? Ainda mais que o contraponto imediato criado em torno de Judt é o de  ser um antagonista cordial ao historiador marxista Eric Hobsbawn, as quase mil páginas de sua obra capital não serviriam melhor à dialética com o autor de Era dos Extremos se também se ocupassem do mais violento e  desestruturador século da história como um todo? Em Reflexões Sobre um Século Esquecido, compilação de ensaios publicada no esteio das vendas exponenciais de Pós-Guerra, Judt lança a sua pá de provocação contra Hobsbawn ajuntando-lhe ao nome o termo "o romance do comunismo". Apesar de ser o maior historiador contemporâneo, senão o maior dos últimos cem anos, Judt diz de Hobsbawn, apesar de deter um talento narrativo único entre os colegas de profissão, o grande historiador pecava em muito pelo imperdoável lapso em sua bibliografia por não ter uma avaliação honesta e desapegada de ideologia quanto aos crimes e a perniciosa obsolescência da experiência dos regimes comunistas do século. Esse ensaio, e as declarações que Judt fez em várias entrevistas, fundamentou a atmosfera disjuntiva tradicional que os meios acadêmicos adoram alimentar entre dois intelectuais, o que por si não descarta a vocação inevitável de que qualquer livro que fale do século XX não pode evitar de dialogar firmemente com  Era dos Extremos, seja para confrontá-lo, ampliá-lo ou para corrigir suas naturais arestas omissivas (como o de um ensaio de Said, em Reflexões sobre o Exílio, em que o pensador anglo-palestino aponta as falhas de informações e os juízos superficiais dessa obra quanto ao Oriente Médio).

Hobsbawn: um opositor cordial
A resposta que surge da leitura de Pós-Guerra à questão acima serve para entendermos em quais aspectos Judt foi além a Hobsbawn. Todo o livro de Judt, com sua catalogação acirrada de centenas de fontes de pesquisa, sua estrutura de vontade descomunal, sua inteligência assimilativa de perfeccionismo em não deixar passar nada em branco na composição de sacrifício de uma vida de estudos, todo esse livro, ia dizendo, traz um prognóstico filosófico para o futuro da humanidade que o próprio período histórico escolhido emana significados. E nisso, a dureza da linguagem de Judt, seu sarcasmo (mais que ironia) depurado que ele prefere reservar às concisas notas de rodapé, serve no rico contexto de afirmar que ele não é Hobsbawn, que ele não tem a sutileza elizabetana e a finesse que identificam o estilo inigualável do historiador nascido em Alexandria, que ele não se propõe à invejável leveza dançarina de Hobsbawn em transcorrer elegantemente por contínuuns temporais que abrange num só extenso parágrafo tanto música, literatura, máfia e sucessão presidencial. No que se poderia dizer que Judt possa ter tomado como fio condutor para sua própria ampla sinfonia da obra de Hobsbawn, seria o último capítulo de Era dos Extremos, as sombras que assomam no horizonte da História e que, a contar por um caráter cíclico inevitável de comportamento do homem, cairão sobre nós a passos lentos que nos distrairão de sua verdadeira natureza fulminante. No campo da literatura, Hobsbawn estaria para a eufonia de Saul Bellow, enquanto Judt estaria para uma verbosidade calculadamente desmanzelada de Günter Grass.


Uma criança caminha ao lado de cadáveres de Bergen-Belsen
Essas "sombras" vaticinadas por Hobsbawn, e que são sentidas por todos em maior ou menor grau de premonição, é o mote do volume de Judt. Judt não perde tempo voltando o olhar para os eventos pregressos a 1945. A primeira e segunda guerras, o extermínio judáico, as etapas da descolonização, o fascismo, o nazismo, a Revolução Bolchevique, o implemento keynesiano do Estado Previdenciário, todos esses traços genéticos que determinaram o século passado são tidos como uma metade formativa inerente que fez ascender a curva no gráfico dos últimos experimentos sociais, humanos e políticos, antes que essa mesma curva começasse a mostrar sua queda deliberada de falta de perspectivas e vontade humana. Por isso os títulos dos primeiros capítulos de Pós-Guerra já sejam um cartão de visita à desilusão: O Legado da Guerra, Punição, A Reabilitação da Europa, O Acordo Impossível, O Fim da Velha Europa. A partir de então, Judt nos conduz pelos dolorosos processos de reconstrução nacionais dos países europeus destroçados ou seriamente combalidos pela guerra, mostrando as diásporas, os retornos, a hiperinflação, a adaptação traumática à ruína material e os despojos espirituais. O Era dos Extremos se inicia com uma memória de Hobsbawn a um gesto de sutileza inapreendido de François Mitterrand numa visita em 1992 a Sarajevo, no 28 de junho do assassinato do arqueduque Ferdinando, para, em contexto a esse ponto inaugural das guerras mundiais, o autor rememorar o quanto na passagem para o século XX o mundo ocidental estava exultante no progresso e na ciência aplicada ao humanismo. Já em Pós-Guerra, a frase inicial às 848 páginas da edição nacional traz o humor sem eufemismos que dominava uma humanidade despida de esperanças quanto a si própria: "Na sequência da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva da Europa era de miséria e desolação total." Todo esse parágrafo é uma radioscopia exemplar do que vem a seguir:

"Fotografias e documentários da época mostram fluxos patéticos de civis impotentes atravessando paisagens arrasadas, com cidades destruídas e campos áridos. Crianças órfãs perambulando melancólicas, passando por grupos de mulheres exaustas que reviram montes de entulho. Deportados e prisioneiros de campos de concentração, com as cabeças raspadas e vestindo pijamas listrados, fitam a câmera, com indiferença, famintos  doentes. Até os bondes parecem traumatizados_ impulsionados por corrente elétrica intermitente, aos trancos, ao longo de trilhos danificados. Tudo e todos_ exceto as bem nutridas forças aliadas de ocupação_ parecem surrados, desprovidos de recursos, exauridos."(p.27)
 
Judt pega os últimos 55 anos do século XX e mostra como esse período foi um negativo que se assemelha a sua primeira metade apenas no que tem de resistir às suas consequências. Vemos que em relação diametralmente oposta aos experimentos políticos das direitas fascistas ou das esquerdas centralizadas à União Soviética, a história do pós-guerra é um cenário onde os valores políticos, sociais e econômicos se transformam numa representação cercada de farsa e teatro. Esses anos, no dito de Kierkegaard adaptado por Marx, decanta o que havia de seriedade no processo histórico extenuado, e se transforma numa versão histriônica de si mesmo. Essa luneta é usada com enorme potencial esclarecedor quando Judt analisa as vistas grossas dos países vencedores da Segunda Guerra quanto à culpa da Alemanha pelas fábricas de extermínio de judeus e demais povos inferiores. Sem nenhuma cautela (à moda de Judt) por falar sobre o que ainda hoje se ressabia por detrás dos tabus das auto-afirmações alemãs, Judt nos mostra o quanto a questão da Shoá foi mantida em "distraído" esquecimento em prol de interesses de equilibrar as relações econômicas numa Europa em que ninguém estava capacitado à santidade acusadora dos pecados alheios. E um dos pontos fortes de Judt é sua sobriedade quanto às armadilhas do maniqueísmo da História, pois ele compreende bem que essa comédia era mais a única forma minimamente coerente de se corresponder às exigências do meio e do período do que propriamente um surto de hipocrisia.

A farsa da  "juventude esclarecida e combatente" de 1968

Outras partes impagáveis de Pós-Guerra formam o que se poderia chamar de "revisionismo sem surpresas de eventos históricos de compreensão consolidada", como o magnífico capítulo em que Judt desbaratina as "revoluções juvenis" de 1968, revelando de vez que todo o tumulto representado nas mídias populares como um movimento sistemático de universitários ideólogos por liberdade de expressão, sexual, de livre consumo de drogas, e direito feminino, surgiu não nas universidades, sobrecarregadas de jovens que mal possuiam uma perspectiva histórica suficiente para saberem sobre as agrúrias que seus pais passaram durante as guerras, mas por greves de estalajadeiros franceses e, em justiça à parte universitária, por acadêmicos que protestaram não pela paz mundial, mas por melhores condições nos albergues estudantis. Assim também, Judt relata um raríssimo caso de atúcia das massas, no advento dos Acordos de Helsinque, em que um pequeno grupo de refugiados ucranianos inicia um atropelo em série às ditaduras soviéticas graças às próprias armas criadas por Brejnev e companheiros que, achando estarem criando um simples joguete de apaziguamento a dissidentes do regime através de um acordo que deveria figurar como uma encenação patriarcalista, acaba por ser uma corda de pescoço e fonte da legitimidade internacional para a pressão popular.


Thatcher: "olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe"
Outro capítulo fundamental é o que trata do "Novo Realismo", os governos neoliberias de Margareth Thatcher e François Mitterrand. Uma das facetas principais de Judt é o de ser crítico da esquerda, sem ser de direita, e o de verificar os benefícios do neoliberalismo lamentando avidamente a defasagem do poder do estado. Seu estudo sobre Thatcher é revelador. Ele não consegue esconder sua admiração por essa mulher que, no dizer de Mitterrand, "tem olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe", mas o painel que ele deslinda em torno da grande figura mítica dessa mulher retorna ao seu tema recorrente do desencanto ideológico moderno. Thatcher foi uma figura de dominante solitária e imbativelmente decidida, que destruiu o Partido Conservador e "esmagou seus oponentes trabalhistas", em que o governo era ela mesma e mais ninguém, que desprezava a opinião popular com uma lucidez de perceber que não havia conteúdo no povo da inglaterra do final da década de 1970, e que trocava a seu bel dispor seu secretariado com uma frequência de monarca indistituível. Ela dilapidou o patrimônio estatal inglês, o que, enfocando a realidade não apenas virtual mas pragmática das estatísticas de crescimento econômico, tirou a Inglaterra do atraso de décadas e a impulsionou em dez anos de governo a um dos primeiros lugares entre os países desenvolvidos. Tirando o sistema de transportes, a saúde e o ensino público (intocáveis para os ingleses), Thatcher vendeu tudo, o que fez fechar milhares de postos de trabalhos vinculados ao Estado ineficiente e não competitivo, levando a uma taxa de desemprego altíssimo. As decisões a médio e curto prazos de alavancar a Inglaterra nos índices de produção econômica, sem se preocupar com os índices reais de desenvolvimento humano, fez da Inglaterra um país rico com uma grande massa de pobres dependente das beneses do governo, num paradoxo de menos estado previdenciário para mais pessoas destituídas de condições mínimas de sobrevivência retiradas pelo próprio fenecimento compulsório do estado.


Por final, Judt avalia os regimes de esquerda da Europa Central e suas derrocadas ao longo do período enfocado, o que também são capítulos de alto teor informativo e escrita afiada. Pode-se ler Pós-Guerra como uma história subliminar do marasmo humano após o esgotamento das ilusões e transformação das utopias comunistas em distopias assassinas. A única frente de fé que aponta pelo horizonte e faz milhões de asseclas é a ideia da globalização, e sobre isso, tanto no capítulo final de Pós-Guerra quanto em "A Questão Social Revisitada", em Reflexões Sobre um Seculo Esquecido, Judt faz uma condenação à grande estupidez desse tempo em dar as costas para a Questão Social, apostando as fichas no bezerro de ouro de uma era desregulamentada em que as empresas e as instituições estatais restringidas à manutenção da indevassabilidade do poder dessas empresas tomarão conta da vontade humana, transformando o homem na velha repetição de animal de carga desespiritualizado.

Como bem sabiam os grandes reformadores do século XIX, a Questão Social, diz Judt, se for deixada de lado, não desaparece gradualmente. Em vez disso, ela sai em busca de respostas mais radicais. É para nos elucidarmos dos ciclos pela frente que a História nos espera, com tais respostas radicais, que se torna imprescindível a leitura de Pós-Guerra, como antídoto à bestialidade e às sombras do nosso tempo

Tony Judt




Daqui a Instantes, Uma Nova Resenha

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meu Museu Pessoal de Escritores Esquecidos




Todo ano eu me mudava de casa e arregimentava os mesmos cinco carregadores que ficam sentados num banco de frente a uma tabacaria de paredes de adobe na parte alta da cidade, de modos que quando lhes disse que era a última mudança, que eu havia comprado uma casa própria, eles suspiraram tanto de decepção quanto de alívio: afora essa vez, não iriam mais ter que carregar o baú de  200 quilos cheio de livros que eles viam me acompanhar por todo esse tempo. Eu levava sistematicamente os meus livros principais em várias viagens de carro de uma casa a outra, o que custava um dia inteiro de trabalho solitário, mas o baú continha livros tão antigos e pouco visitados que não era de se desprezar o risco da poeira inerente tomar conta de tudo se fossem retirados sem preparo do seu sarcófago. Depois que retiramos os móveis principais e os colocamos nos lugares devidos da casa, olhamos com uma cara de desamparo  o grande quadrângulo de madeira que parecia emborcar para baixo a carroceria do caminhão, e respiramos fundo. Colocamo-lo num casebre que fica nos fundos da casa, o que resumir o esforço sobre-humano em uma frase tão retilínea desconsidera impunemente as veias do pescoço a ponto de explodirem, os nodos dos dedos das mãos à beira da gangrena, o risco de se adquirir uma hérnia de disco, e a minha necessidade pessoal de manter a mente aberta para compreender como estímulos de força os filho da puta e desgraçado que com certeza passavam pelas cabeças daqueles trabalhadores para resistirem à demasiada pressão sem que lhes comprometesse a integridade dos esfíncteres. No final, depois do lanche que minha esposa preparara e dos vinte reales para cada um, eles se permitiram a repetição tradicional da mesma pergunta: se no maldito baú só existem livros que não te interessam mais, por que você não queima toda essa merda de uma vez? E eu respondo a mesma coisa: e me poupar de fazer valer cada centavo que eu lhes pago?

A verdade é que só descobri a razão ocasional desses livros me serem tão importantes depois que já instalado meu local de refúgio nos fundos da casa. Junto ao som e à mesa do notebook, e ao carpete que sobreviveu às diversas marcas dos cigarros de solteiro onde me deito para sentir os respingos minúsculos da chuva que atravessa o telhado sem forro, esses livros dão a impressão de ausência de tempo, de a-contemporaneidade. São tão velhos que o motivo de estarem enterrados sem consulta deixou os critérios práticos e se tornou um vínculo compulsório: mais que o cobertor esfarrapado que só parece contrariar os que estão alheios ao poder de conforto no sono que ele tem, esses livros culminaram para mim no sentido mais limítrofe da literatura: serem a prova de que seus autores um dia existiram. Pois todos esses 300 livros do baú, depois que diligentemente os limpei e os coloquei em duas estantes no escritório, revelaram essa identidade comum: são livros completamente relegados ao esquecimento. Fui comprando-os ao longo dos anos em sebos por diversas cidades, todos por ninharias retiradas do fundo dos bolsos, alguns juntados em grupos de cinco ou dez que os livreiros organizavam apressadamente pelas semelhanças das cores das capas ou pelo avançado estado de desencadernação, sem saberem ou o sabendo, não pelo critério de qualidade mas pelo triste índice de baixo interesse por parte dos compradores, que se tratavam de livros esquecidos, escritos por mãos desaparecidas há décadas e que mesmo sua linguagem arcaica soava abrutalhada para os ouvidos modernos. Recordo-me que aos 17 anos comprei de uma leva uns 20 livros da coleção dos ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura, todos com capa dura branca com um desenho de musas gregas dançando roda rascunhado pelo Picasso, e cada um pelo preço equivalente a dois reais do valor monetário de hoje.

Aos 17 anos eu ainda não tinha lido nada, mas sabia que não poderia começar perdendo tempo com Selma Lagerlöf ou Henrik Pontoppidan. Por isso fui colocando-os em lugar seguro, enquanto me atirava nas maravilhas dos russos pré-revolução e nos autores de língua alemã que todo mundo deveria ler. Mas quando me cansava de Gregor Samsa, retirava um desses volumes brancos e ficava horas o folheando. Lia a biografia do autor, muitas delas escritas na época da edição, ou seja, por acadêmicos que já viviam o descompasso do brilho da outorga da medalha com a voracidade do tempo, de forma que o biógrafo de Jacinto Benavente, por exemplo, se permitia um sarcasmo fanfarrão de sapatear por cima da laje do morto, esculachando seu estilo com histriônicos pontos de exclamação, e o de John Galsworthy repetia a fórmula já usada em Lolita de diagnosticar friamente que já ninguém mais o lê. Mas vez ou outra, tragado por aquelas páginas suaves onde se finaram as vaidades e as competições, eu me pegava já a meio do livro, devorando-o como numa viagem ao tempo em que as proezas cerebrais do autor jamais deixariam prever que sua capacidade de escandalizar, embevecer e ser uma orbe de imitação para jovens autores, iria se contrapor à certeza de eternidade.

Além dos nobéis há uma quantidade outra de autores que perderam suas coroas sem que pudessem dividir o demérito com a ineficiência do prêmio em sacramentar a imortalidade. Tenho aqui ao meu lado o Minhas Universidades, de Górki, que se não foi esquecido ao todo parece não ter o escopo de resistir a mais uma década. Uns cinco ou seis Herman Hesse (outro Nobel), que devorei na juventude com a convicção de que o futuro do romance estava na filosofia esotérica e que hoje me soam tão inofensivos os loucos para os quais parte da história do Lobo da Estepe é dedicada. Carlos Castañeda, que também me impossibilitou o sossego devido ao vírus da necessidade incontornável de abandonar tudo e achar meu Don Juan no México, e que, hoje, nem sei por onde anda. E há um livrinho aqui que não merecia jamais o esquecimento, o inacreditavelmente ótimo Longe, e Há Muito Tempo, de W. H. Hudson, mistura de pensamento whitmaniano com os mais incríveis retratos conradianos das reminiscências do autor de uma Argentina de estancieiros e gaúchos indômitos.

São livros cuja única proteção lhes dada é a da persistência na curiosidade de colecionadores como eu, mas que passam um ar majestoso de terem chegado logo ao destino de toda a literatura e deles não poder ser cobrado mais nada. Estão ali como os velhinhos longevos daqueles povoados da Itália que ultrapassam os cem anos de vida, de quem nem os bisnetos perdem tempo em lembrarem-se deles fora de eventuais datas comemorativas, mas cuja presença física é demonstrável com um grau de direito que faz com que todo o cenário se estacione numa região adenda à vagareza e à tecnologia de bater as solas dos sapatos e das ruas de paralelepípedos de seus tempos de juventude. Assim são esses livros. Meus filhos, que sobreviverão longos anos a mim, e que caminham para se tornarem grandes leitores, saberão, quando chegar a hora, quais os Philip Roth, os Saul Bellow, os Bolaños, Garcia Márquez, Ian McEwan... eles retirarão das estantes  da sala e colocarão nas estantes  do escritório dos fundos.

sábado, 2 de abril de 2011

Pequeno Comentário sobre Ulisses, de James Joyce

O comentário do Luiz, na caixa de comentários de ontem, me fez resgatar esse meu pequeno texto, publicado no blog do Milton no Bloomsday do ano passado.


Esse é um dos livros em que o enredo é o de menos. Importa a incrível vivacidade e energia verbal de Joyce. É o anti-limite de sua superioridade como escritor acima de todos os outros_ de Mann, de Faulkner, Proust, Kafka_ que iria subir à estratosfera e se perder com o livro seguinte, o ilegível Finnegans Wake. Trata-se de uma brincadeira bem urdida, uma ciranda calculada na espontaneidade de um severo trabalho de anos, não uma tentativa, mas uma culminação do resumo do ser humano e de sua história, e um enorme deboche à febril ciência da psicanálise (se tudo que passa pela cabeça de um homem comum é simploriamente banal, é ridículo sistematizar seu comportamento contraditório numa cabala do subconsciente). Ama-se Bloom e sua esposa, ama-se Dedalus e o excessivamente extrovertido Buck Mulligan, com todos os seus pecados, suas desimportâncias, suas carências.


É o romance da falta de sutilezas, da falta de coqueteria, o romance essencialmente não-burguês (não ANTI-burguês, pois revela o enorme descaso do autor para contrapor uma reação à uma sociedade medíocre), não-científico, e, por mais que possa ser surpreendente, não-literário. Dedica-se todo à celebração da literatura, mas é anti-empolação e anti-oitocentismo. Tanto que depois de Ulisses, aboliu-se a possibilidade de escrever como Victor Hugo, Sully Prudhomme, Romain Rolland, e outros. Ulisses aboliu a literatura em diversos países, obrigando os novos escritores à adaptação. É a suprema manifestação do humor, do humanismo, da redenção velada. Uma mistura de Nona Sinfonia com a fuga da Sinfonia Júpiter, com cabrioladas de um jazz que abriu as portas para as correntes de ritmos de Coltrane e dos minimalistas. O maior mérito de Joyce foi ter controlado sua extraterrestridade para dar à obra um caráter perfeitamente legível, pois seria natural que depois de ter rompido todos os limites, seu último passo seria Finnegans Wake, assim como o passo seguinte_ o estilo tardio_ de Beethoven fosse os ùltimos quartetos e a Missa Solemnis.


Aldous Huxley lamentou que Joyce tivesse optado pela abdução. Poderia ter escrito importantes livros da estatura dos de Stendhal. Mas é compreensível. Deportou-se do mundo dos viventes. Não lhe diria nada a estranheza e prazer de incompreensão libidinosa que o mundo adotaria ao analisar as cartas singelas que escrevia para Nora Barnacle, seu amor de toda a vida. Onde revelava a leveza de seu espírito, a ralé via apenas a sujeira sexual de um intelectual reprimido. Por isso é desconcertante que achemos de uma beleza sem igual as passagens de Bloom se masturbando, de Molly cedendo-se mais uma vez com seus repetitivos sim, sim,sim, da última página, de Mulligan se atirando seminu ao mar, ao lado dos pescadores. Uma impossível beleza nesses gestos prosaicos, e uma lucidez que desmascara toda a hipocrisia, toda pompa. Uma declaração de amor à humanidade, antes de mais nada, mas uma humanidade ainda de um distante porvir, livre das tralhas da ciência e das hierarquias, e centrada no cultivo das idiossincrasias soltas e intimistas de si mesma.


Por isso que é tão espantoso a Buck Mulligan quando Stephen Dedalus revela que, no leito de morte de sua mãe, se recusou a se ajoelhar; mas não pelo constrangimento à mãe, mas pelo constrangimento contra si mesmo. A liberdade do homem que tomou suas próprias rédeas e manda as convenções e a opinião alheia às favas…