Gosto sim do mini-conto do dinossauro. Não me lembro a primeira vez que o li, se foi graças a uma entrevista de Garcia Márquez, se em alguma matéria sobre contos brevíssimos, mas o impacto que essas sete palavras imprimiram em mim foi equivalente a uma mensagem, a um ensinamento, a um desses aforismas que transformam a vida de um sujeito pela simples razão de o fazer pensar em coisas icognoscíveis. As palavras escrupulosas de Monterroso foi um tapa na minha cara.
Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.
Isso teve a tragédia anunciada das grandes profecias, o engulo seco dos terríveis diagnósticos, a fugacidade insuportável dos momentos capitais perdidos, as reviravoltas não-apreendidas senão tardiamente_em vão_ da história. Quando meu jovem pai fugiu de sua cirurgia de úlcera pela janela do hospital, o câncer incipiente ainda estava lá. Me recordou as pessoas desesperadas que se masturbavam para esquecer a fome, ou a peste, ou a sentença. Quando gozou, a corda da forca ainda estava lá; o nódulo ainda estava lá. Lembrou-me do último sono de Walter Benjamin, a pouco de chegar na fronteira espanhola: quando levantou a cabeça momentaneamente tranquilizada de sua mochila de fugitivo, o exército nazista ainda estava lá. Me doeu a lucidez fustigante de todo povo derrotado que, ao acordar dos hinos marciais e das cornetas da pátria, o atraso ainda estava lá, a morte crônica e a onipotente corrupção ainda estavam lá. Quando findou o último acorde de McCartney, Marconi ainda estava lá. Como toda sublime mensagem espiritual, o conto de Monterroso traz a possibilidade de redenção na desgraça inescapável que pressagia. É o oximoro além da relatividade, além da teoria das cordas, além da não-existência, além da fé e além da inutilidade de todo martírio. O homem de Monterroso que acorda de seu instante de sonho lenitivo, se esfumaça na neve do primeiro segundo tanto com a camisola do condenado quanto com a armadura do escravo rebelado. É tanto João Batista quanto Espártaco; Gregor Samsa quanto o adolescente solar Augie March; o retardado infinitamente ofendido e sem direito de misericórdia do conto A Enxada de Bernardo Élis, quanto o livre Huckleberry Finn. E o dinossauro... quanta revelação Monterroso nos deu ao vislumbrar essa figura de possível obsolescência, desencontradamente infantil, como fonte de ameaça cósmica. O dinossauro de Monterroso tem essa leveza desamparada em que cabe todos os traumas e todo inferno da poesia: tanto rosebud quanto o grito explosivo que soou em algum beco solitário, ouvido por ninguém, da primeira dor suportada pelo maníaco estuprador quando ele ainda era uma criança.
