quinta-feira, 26 de março de 2015

Patavinas



Às vezes penso que eu conseguiria enfim me aliviar um pouco dessa enorme anestesia do absurdo que esse país me causa se uma certa maturidade bombástica na maneira como nos vemos nos impulsionasse de vez para fora, nos acordasse. Penso que se isso algum dia acontecesse, envolveria todo mundo, sem distinções mesquinhas de mérito, tanto os ditos cidadãos de bem quanto os agentes do atraso mais afundados na lama. Teria que ser uma adstringência largamente consensual. Haveria de vir a luz para todos. Seria algo como a Garça Foper ser convidada para posar em uma revista masculina, e essa edição tivesse um recorde inigualável de vendas. Mas teríamos que achar o nível preciso de concordância da revista oferecer um milhão de reais para a Garça Foper, a Garça Foper aceitar com altiva leveza ser fotografada nua em poses tais como encurvada na cabeceira de um sofá de corda de bananeira com o olhar obsedado por um desses efeitos perfidiosos de uma fase da lua, e nós o público investíssemos uma parte de nossas economias mensais para tornar o número da revista a mais vendida de todos os tempos. Muitos dos mais arraigados traumas nacionais que nos perturba os genes, e muito dessa seriedade capenga cheia de negativas a acusações de ambas as partes_ dos ditos cidadãos de bem e dos sensualistas chafurdadores na lama_ acabaria quase instantaneamente. Algo muito sério e incontestável, que não sei em absoluto explicar, me diz que só com algo assim seríamos alçados ao primeiro mundo.

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Um dia, há muitos anos, um homem deixou de uma só vez e para sempre de ser o gorila alucinado com a cabeça prestes a explodir de ódio detrás de um volante, quando uma menininha de sete anos parou sua bicicleta e em uma decisão de pânico diante da investida proto-assassina desse homem pela rua chamou seu cão para junto dela na calçada. Para completar o imenso clichê, esse homem estacionou o carro na rua seguinte e caiu em um choro convulsivo cuja solidão ele sabia jamais seria quebrada por alguém apiedado que viesse lhe envolver com esses mantos com os quais se envolvem nascituros. Ele sempre levou essa lembrança inconfessa na alma, e nunca teve coragem de dizê-la para ninguém.

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Entre tantas sentenças devastadoras que encontramos no Velho Testamento, que nos cala diante a inerente irracionalidade humana, uma das que se fez mais conhecida mesmo pelos que nunca leram o Velho Testamento talvez o seja por ser a única que nos agracia com alguma piedade. Trata-se do versículo do Eclesiastes que diz que nada há de novo debaixo do sol. Sempre morreram os mais amados cães de estimação e sempre continuarão morrendo, sempre os filhos enterrarão os pais assim como sempre as dores da normalidade inversa parecerão únicas em suas enormidades, para logo serem traídas pela descoberta de que as dores inenarráveis sempre existiram, sempre, sem novidades ou acautelamentos ou direito à exclusividade. Assim podemos nos resguardar do espanto de vermos que o suicídio seguido de assassinato em massa que aconteceu com o avião ontem nos Alpes franceses, provocados pelo co-piloto do avião, já é uma recorrência de certa contumácia na história da aviação. Sempre existiram pilotos e co-pilotos de avião que se suicidaram levando centenas de passageiros juntos, pelo que vejo agora nos telejornais. Essa verdade é um bálsamo para o limite de nosso espanto, um calmante adstringente para nossa capacidade de se estarrecer, uma espécie de código de etiqueta para que não nos tornemos estridentes demais e não percamos a compostura com chiliques diante a indignação mais inominável.

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Esse gosto leviano que o ocidente cultiva pela música desde os primórdios, essa devoção tão intensificada pela necessidade perpétua de suavizarmos todos os mínimos momentos de nossas existências com o acompanhamento de uma trilha-sonora condizente, tem sim seu elevado grau de perigo e desavisada degeneração. Maomé não estava errado ao eleger a música como um dos principais inimigos do homem, assinalando tudo que de mais nefasto e espiritualmente deletério que a música possui. O que concorda com a repulsa previdente do islamismo contra a música e torna severa a recomendação de cuidados é a própria ciência darwinista, que restringe a funcionalidade da música apenas às zonas de intermediação baixas entre a necessidade de procriação com o artifício de chamada ao acasalamento de certas danças sexuais que nós dividimos com os métodos dos outros animais inferiores. Para nós, que podemos olhar retroativamente para a história de nossa evolução a partir do ponto em que chegamos, é fácil perceber que fomos bastante incautos com a música durante todo essa lenta jornada, não soubemos e não demos a mínima importância para pararmos no momento certo e relegarmos a música à sua mera condição de adorno menor na escala de superação de nossos mais obsedantes defeitos. Assim, a música extravasou os limites da invocação tribal de coragem e união contra os inimigos da noite e se transformou no elemento principal de discórdia e dominação a um nível doentio nunca visto com mais primor do que na sociedade atual. Todas as bestialidades de que somos capazes advêm na superfície imagética trafegável da música e é potencializada brutalmente pelo invólucro da música. As cidades se tornaram um ambiente insuportável por cada ser humano em sua tribalização moderna expressar na cara do outro a música que define suas novas fronteiras desapaziguadas e combativas; a juventude é alvo submisso a todo comando de compras e instituição de modas boçais graças à efemeridade da música que as campanhas publicitárias lançam massacrantemente sobre ela, e quanto mais efêmera ela for, mais poderosa. E não são só essas partes tidas como mais identificadoras com a ralé que se tornam fantoches dela, mas ela se incrustou na vagareza de pensamento das filosofias tidas como as mais sofisticadas tão somente devido à ressonância que as palavras justapõem ao sentido cadenciado de suas imagens que na verdade não dizem e não servem para nada, a não ser para ensonar o pensamento de gerações de leitores com utopias lisérgicas claramente inatingíveis, distorções da realidade evidentemente prostrantes, desabafos sinfônicos mais inúteis contra a inevitabilidade do mundo. Não à toa que os índices financeiros, que são os únicos que realmente importam, são geridos por executivos de competitividade predatória, que pouco ligam para a música, enquanto a extensa malta de dominados é a que passa os dias sonhando com hipóteses ególatras de redenções as mais disparatadas fundamentadas pela sua escravidão da ilógica a seus cantos de sereia. Uma história da evolução alternativa em que o homem tivesse prescindido de sua capacidade auscultatória e fonética teria trazido a humanidade a um nível de apascentamento de uma série de tralhas de fardos inúteis que vem atrasando sobremaneira o passo do homem em nossa realidade corrente; uma sociedade milenar de surdos-mudos teria nos aproximado bem mais desse intuído alienígena superior em tudo, efetivamente obcecado pela pragmática, com enormes olhos concentrados de atenção e orelhas vestigiais que são o túmulo de toda ignóbil dissipação sonora, que dizem estar nos observando desde os primórdios, incapaz da coragem de fazer contato pelo terror que sente diante o enorme volume de som e fúria que saem de nossos amplificadores. 

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Digo isso porque quando escuto os concertos para violino de Mozart sinto o implacável definhamento de querer ficar naquelas ruínas e naquela nostalgia indecifrável e debilitante para sempre.

terça-feira, 24 de março de 2015

A vitrine



O nível de indigência espiritual do país anda tão grande que a realidade nem se presta mais a produzir alegoria que se preze. O sujeito tem o mesmo nome do país, é funcionário efetivo da coletoria de impostos estadual, e ferrenho apaixonado pelo político mais conhecido do estado. Só esses elementos mostram o quanto a providência pouco se importa em dar uma grama que seja de sutileza para congratular nossa inteligência; ao invés disso, nos dá a brutalidade da redundância e a pobreza dos arquétipos mais fajutos. É funcionário mas nunca trabalhou nessas suas onerosas décadas de vilipendiação do dinheiro público. O escritório da coletoria está instalado no centro da minha cidade, bem próximo à praça municipal e em uma rua de grande circulação. De modos que o sujeito é figura folclórica, com sua barba grisalha, seus indefectíveis óculos escuros, sua obesidade de bonachão, sua voz de capanga do baixo clero, rouca e rápida, que encerra na hora que quer o monólogo que leva com todo mundo, o mesmo e renitente e cansativo monólogo de atualizar as últimas fantásticas grosserias que fez seu coronel. A única vez que conversamos eu pude ver o quanto nós brasileiros estamos relegados ao barbarismo para não interessarmos aos nuances do discurso, pois ele era exato e matematicamente como descrevia a piada popular na qual o conceituavam: ficou quinze minutos monologando com um ar de absoluta trivialidade sobre a vez em que presenciou um homem que criticou seu coronel da plateia de um comício ser colhido no final e torturado com veemência. O aterrorizante era que eu olhava às outras pessoas que estavam nas mesas do café da manhã ouvindo a coisa, e elas não expressavam o menor espanto, o menor pasmo, enquanto o sujeito que leva o nome do país descrevia com um sorriso simpático como eles sovavam o dissidente, como o próprio coronel lhe socava o rosto até o sangue verter, como o coronel, do alto de sua alta estatura e da proeminência de seu sobrenome na história do terror nas mentalidades do estado o xingava de vagabundo, dizia fala agora o que você disse lá. A voz do capanga era enternecedoramente rouca, aos poucos se fazia bastante simpática, aos poucos o descomedimento da sua narrativa, que pairava bem acima dos códigos de leis e da dita soberania dos povos e da dita liberdade de expressão, lhe dava a graça que tem todo bobo da corte ridículo demais para que não se invista da imunidade divinatória de seu déspota. Pois bem, nessa semana, seu diretor regional parece que se cansou dele. Talvez a reação tenha vindo porque de toda a trupe de cobradores de impostos da região, o capanga tenha sido o único que obteve a promoção máxima do cargo, graças à seus laços vassalais com o coronel, fato que elevou seu salário para mais de 10 mil reais, em acintosa assimetria com os salários dos outros colegas de serviço. O governo do estado criou postos de serviço em que juntam diversos órgãos em um mesmo local, facilitando em muito a desburocratização, e os colegas do capanga optaram por trabalhar em um desses postos já faz alguns meses. Como nesses postos seria impossível ao capanga continuar sentado em seu sofá à espera do horário de fim de expediente, pois ele não poderia mais escorar em seus colegas visto que ficaria atrás de uma mesa pessoal para a qual viria um grande afluxo de pessoas, o capanga disse não ao diretor regional. A força de seu vínculo com o coronel é tão grande, que o diretor regional nada teve o que fazer. O capanga ficou por bons meses na mesma condição a que estava acostumado, das oito da manhã ao meio dia, e das duas da tarde às seis, na sala do que era antes a coletoria, que agora estava vazia, sem computadores e sem os outros três funcionários, apenas ele sentado no sofá que trouxera de sua casa após a dissidência, com um ventilador e as luzes ligadas, lendo jornal. Todos podiam vê-lo ali, mais uma colaboração do pauperismo metafórico pátrio, a vitrine da inépcia salvaguardada e da opulência opressiva que o poder pontualiza na esdrúxula cotidiana para que todos reverenciem a onipresença das velhas estruturas de desmandos e jamais esqueçam a ordem da cadeia predatória, o Igor acorcundado que uma mínima distorção no sarcasmo da história deixaria de ser uma piada a qual o inconsciente de todos acharam o único meio de combatê-lo relegando-o ao ridículo, e passaria a descalavrar suas profundas correntes da corrupção ao se tornar um dos agentes do extermínio, da deduração, da deportação em massa. Depois ele saiu de lá, sabe-se lá se por vontade própria. Mas o certo é que pessoas assim, debaixo do nariz da opacidade coletiva, jamais deixam de se dar bem.

sábado, 21 de março de 2015

Jonathan Strange & Mr. Norrell


Semanas de Faulkner



Quatro dias lendo O som e a fúria. Na edição cuidadosa da Cosac, com bela capa, com a textura sofisticada e sólida que tem os bons livros_ a sensualidade de sentir a lisura da sobrecapa nas mãos, o prazer centenário do peso físico e do agreste transformado em arte bem acabada da capa dura. E a tradução do Paulo Henriques Britto. Minhas tentativas de leitura desse livro se afundaram nas duas edições brasileiras anteriores, bastante feias, com desenhos de capa terríveis, objetos imediatamente destinados a caírem no esquecimento e serem obsolescências empoeiradas que ninguém deseja ter. Mas nessa semana, assim que trouxe o volume da Cosac para casa, adquirido na Fnac da capital, o li enebriado, assustado diante o quanto é fácil e fluida sua leitura, o quanto aquela primeira parte nada tem da chatice experimental que até então eu julgava que teria. Vou escrever um texto sério e longo sobre O som e a fúria, que sei será um dos post menos lidos do blog. O romance me impressionou, me trouxe de volta o impacto dos grandes livros de Faulkner (aliás, Borges escreveu que todo livro de Faulkner, desde os menores às obras primas, trazem uma modificação profunda no leitor assim que ele o termina), de maneiras que vou reler boa parte de sua bibliografia por estas próximas semanas. Hoje, com o céu deliciosamente tampado pelas tempestades e o silêncio de religiosidade que traz todas as fúrias naturais, vou reler Absalão, Absalão!, que pretendo terminar na terça ou quarta-feira. Depois, mais três ou quatro dias dedicado à releitura de Luz em agosto, para em seguida reler Palmeiras Selvagens, também pela Cosac, que comprei por incríveis 27 reais pela Amazon e que deve me chegar daqui uns três dias. Para finalizar, O povoado e Desça, Moisés. Não é um simples programa de leitura, mas um reencontro necessário que envolve a exigência etária de meus 41 anos; uma tranquila revivificação esplêndida do mais influente escritor da minha vida.

P.S.: há uma grande dúvida quanto à tradução do PHB. Mandei um e-mail para o João sobre isso, mas até agora não obtive resposta. Na última página de O som e a fúria, vem escrito: 

"DISLEY.
 Eles resistiram."

Isso pela tradução do PHB. Já em uma edição antiga que tenho aqui, lançada na década de 80 pelo Círculo do Livro, vem a seguinte tradução para o mesmo trecho:

"DISLEY.
  Eles a toleravam."

Não tenho o original em inglês da obra. Sei que se pode baixá-lo pela internet, mas uma força interior me desmotiva por completo em fazê-lo. Estou propenso a achar que PHB falhou aqui, pois a outra tradução (de Fernando Nuno Rodrigues) faz muito mais sentido. Dúvida atros. Quem souber aí, por favor, esclareça.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Amor sem fim, de Ian McEwan



Os livros de McEwan exercem uma espécie de fascínio independente (de seu conteúdo e de sua assertividade) que muito se aproxima da sofisticação que basta a si mesma dos filmes de Alfred Hitchcock. Por mais que seja insípido um filme de Hitchcock, sempre estão lá os elementos que fazem seu espectador se recolher de deleite em sua poltrona diante as características inevitáveis do ângulo da câmera, das cores anacronicamente vivas do cinemascope, do mesmo humor visto em vários filmes anteriores que se torna um lugar comum, e, sobretudo, dessa astuciosa técnica mercadológica de identificação que faz o público engrandecido por se sentir pertencente a uma classe alta do bom gosto. Os livros de McEwan bebem dessa mesma vantagem. Já na primeira página de Amor sem fim me veio a culpa de por que eu me permito ficar tanto tempo sem ler McEwan?, sentindo o prazer que é a narrativa inteligente, os insights impagáveis, a peculiaridade patológica dos personagens, a atmosfera reinventada de uma Inglaterra moderna inerentemente literária e requintadamente inteligente, que fazem os romances de McEwan. E aqui também temos a impressão confortável de que somos parte do clube de alta classe do bom gosto, temos a sensação de sermos aceitos nos jogos de xadrez da trama, de sua suspensiva tensão que aponta para a degradação no momento certo da harmonia dos apartamentos confortáveis e dos empregos d amplos espaços de tempo livre dos personagens. 

O temor da perda que nos passa McEwan é absolutamente material: investe-nos da boa vida de seus heróis para depois nos ameaçar de que, junto a eles, talvez sejamos atirados na sarjeta. A fragilidade é que, para um leitor treinado desse autor, também nas primeiras páginas, quando passa um pouco do reconhecimento dos artifícios que prendem a atenção, as falhas de McEwan se tornam da mesma forma evidentes. Em todos os livros que li dele (formando uma quase exceção o seu quase grande romance Reparação), antes que se chegue a um quarto do livro, algo irritante acontece: McEwan perde o fôlego, tropeça, não consegue manter a estrutura carregada de ganchos e promessas da narrativa. Ele, não tão simplesmente, esmorece. Uma figura cabal para se entender isso está nesse que é seu melhor romance, Amsterdã: um dos personagens principais, um compositor de música clássica, recebe uma inspiração para aquela que deverá ser sua mais relevante obra. Ele intui a frase que será a base temática de sua sinfonia, uma frase ao mesmo tempo simples e complexa, algo genuinamente genial. E o que esse personagem faz com a inspiração é o reflexo do que o próprio McEwan faz com suas ideias literárias: ele imprime o peso da sublimidade que detêm na obra, para sucumbir à cópia ou ao esquematismo. 

A última metade de Amor sem fim cai na mais deslavada roteirização de série de televisão. O que começou com excelente timing, com um encarrilhamento de situações que vai sufocando o leitor com tanta espectativa, com uma amostra de mestre de diálogos afiados e de panoramas mentais ricos, se transforma lamentavelmente apenas em um competente esforço de finalização para que todas as pontas se juntem no final. A história desse livro é sobre a paixão insana que um homem sente por outro, uma paixão surgida do nada e temperada por uma lunática missão religiosa de conversão. McEwan usa de uma excepcional cena de um acidente com um balão para fazer com que esses dois homens se encontrem, e vai montando a partir daí uma não menos excepcional sequência de enganosa trivialidade de confrontos entre os dois personagens, até que descambe tudo na tragédia. Há humor de primeira, frases que se enquadram no que de melhor é produzido na literatura inglesa atual, e aquela maldade presente nos mais peculiares detalhes da trama que dá distinção à assinatura do romancista. Mas o batido uso de diagnose clínica e de um excesso de determinismo na contraposição entre racionalidade científica com fanatismo religioso torna o livro um mero entretenimento. O pecado de McEwan é turbinar a imaginação do leitor com suas bem urdidas insinuações do que está para acontecer e que poderia colocar tudo de pernas para o ar, e deixar com que a imaginação das possibilidades infundadas acabe sendo melhor que o próprio livro. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Um imortal nas linhas de produção chinesas da Apple



Às vezes fico sem a mínima disposição para escrever no blog, como vem sendo desde minha última postagem. Isso não é nenhum indício de que eu queira parar, mas uma simples afasia. Tem suas vantagens, pois se eu me distancio do blog, toda a internet perde o interesse para mim. Fico dias sem acessar. Minha esposa me olha surpresa ao ver meu total descaso quanto a smartphone e a notebook. Eu fico livre. Na verdade, jamais gostei de internet, o que me atrai para isso é o enorme contato com literatura e com pessoas que amam livros. Vou escrever levianamente sobre o que vem acontecendo em minha vida nesses últimos dias, sem preocupação de ser coerente, sistemático, organizado, literário. Talvez assim quebre o bloqueio quanto ao blog e a coisa volte a me entusiasmar. Vou tentar falar de besteiras, das últimas agressões ao cartão de crédito na compra de novos livros, vida pessoal e leituras inusitadas. De alguma forma, todos esses itens se relacionam.

Primeiro: realizei um sonho antigo. Comprei de uma só vez os 5 volumes da biografia de Dostoiévski, o clássico escrito por Joseph Frank. Sempre namorei esses livros e sempre adiei comprá-los porque são absurdamente caros. Parcelei em dez vezes pela Livraria Cultura, e isso, por incrível que pareça, não foi motivado pela perdulariedade, mas um prêmio da poupança. Minha esposa é quem controla nossas finanças. Os cartões dos bancos ficam na posse dela, todo o dinheiro ela que saca e deposita e paga as contas. Eu passo meses sem tocar em dinheiro. Isso é maravilhoso. A Dani é extremamente econômica, mão-de-vaca mesmo. Costumo brincar com as visitas falando que a Dani é tão segura que ainda temos o potinho com o resto da primeira papinha da Júlia na geladeira. É um exagero, claro, mas reflete a realidade, pois constantemente me enfezo com ela por encontra sobras do jantar de três dias estocado na geladeira. "Dani, isso vai me matar ainda, quando eu chegar com fome e enfiar imprevidentemente uma garfada de talharim estragado na boca", digo, ao que ela me devolve perguntando por que eu não jogava o restos fora. Talvez porque fui contaminado por sua seguridade. Dessa forma, entretanto, viemos economizando e reduzindo substancialmente gastos desnecessários, de maneiras que sobra dinheiro para colocarmos na poupança. E como prêmio, ela deixou que eu comprasse esses livros. Há uma caixa constante para a compra de livros, que sabemos ser primeira necessidade aqui, mas Joseph Frank era um tabu, era quase uma joia. Mas vi que era a hora de lê-los depois que li um texto em que fala que David Foster Wallace se encantou sobremaneira com eles. Pois os livros chegaram e eu os manejei ainda não acreditando. A vida cheia de Dostoiévski; quero me entupir de Dostoiévski; Dostoiévski overdose; Dostoiévski nunca é demais.

A Júlia no final de semana passada apresentou um quadro de febre intermitente, sem nenhum outro sintoma acompanhante. Ela continuava com sua ultra-energia, pulando pela casa, dançando e cantando e dizendo "olha o que eu sei fazer, papai", mas com febre de 37,5 graus. Corremos com ela para a capital com temor que fosse dengue. Voltei ontem, e elas ficaram porque vão aproveitar para irem a um aniversário de um ano de uma prima da Júlia, no sábado. Fizemos uma bateria de exames e o pediatra, uma figura pynchoniana que chega ao consultório montado em uma moto hippie customizada, e trata com brutalidade emudecedora os pais mas com uma doçura fora do comum as crianças (e tem o consultório lotado), apontou para a Júlia que ensaiava passos de balé em sua sala e perguntou: "essa menina aí que vocês acham que está com dengue?" Constatou-se que era uma virose passageira, e eu quase suspeito que foi um golpe planejado da Júlia e da Dani para irem ao aniversário. Não há aflição maior do que a que eu sinto quando alguma coisa acontece com a Júlia, as peculiaridades da infância. Estou lendo Amor sem fim, do Ian McEwan, e lá se diz que o amor familiar costuma ser tão intenso que a evolução impõe fases de esquecimento quanto às pessoas queridas para que se possa seguir em frente e batalhar pela sobrevivência. É verdadeira aquela frase clichê de que quem nos faz sofrer são as pessoas que amamos.

A Dani está grávida. Acho que já posso contar. O certo seria depois de três meses, e ela está com dois meses. Mas acho que já posso contar. Ela engravidou há alguns meses, foi uma plenitude quando pegamos o exame e o lemos em uma praça, mas logo após veio um aborto espontâneo. Mas agora, a taxa hormonal está ótima, e os primeiros exames permitem tranquilidade. Foram dois meses de namoro intenso e com atmosfera proibitiva nonsense. Parecia que nós estávamos burlando leis domésticas rígidas e tínhamos voltado aos primeiros tempos do namoro. Tudo porque a Júlia poderia acordar e interromper a coisa. O plano era eu acordar primeiro, tomar banho, acordar a Dani e, enquanto ela tomava banho, eu colocava um colchão na biblioteca. Tudo na ponta dos pés. Eu anunciava solenemente esses eventos na mesa de jantar, dizendo com total trivialidade: "que tal se amanhã acordássemos às seis para darmos um tapa na boneca?" "Não sei Dani, mas suponho que devemos marcar a peia para esse começo de semana." Eu fazia minha versão de sotaque pomposo de lord inglês, imitando o Terry Jones. A Dani se fartava de rir. Lembrei a ela de quando ela estava grávida da Júlia e nós passamos um mês no apartamento da minha mãe. Minha mãe nos martiriza com sua compulsão por nos oferecer coisas de comer o dia inteiro. Tenho certeza que ela faz isso por puro prazer da tortura. Se eu já almocei diante ela, ela viu que eu almocei bem, ela ainda assim depois que eu deposito o prato na pia me diz: "mas só? Não comeu nada. Coma mais." Daí que uma noite em que estávamos na cama, provando a teoria de que as mulheres grávidas ficam com uma libido acentuada, eu imaginei em voz alta minha mãe abrindo a porta imprevistamente durante o teste da teoria, às duas da madrugada, para dizer: "Dani, por que você não come um Danette? Quer que eu traga um iogurte grego da cozinha para você?" E a Dani sofregamente respondendo: "Agora não, Telma. Já estou cheia, obrigada." E minha mãe, parada na soleira da porta, continuando: "Se eu fosse você eu tomava um Danone agora. Parece que você não jantou quase nada." Ao que a Dani respondia: "Não, Telma, obrigada. Talvez quando terminar aqui eu beba um copo de água."

Ah, antes que eu me esqueça: o seu Gercino, meu sogro falecido há um ano, apareceu na pupila da minha sobrinha de cinco meses. A Dani veio me dizer isso quando eu estava no escritório escrevendo. Não tive paciência em um primeiro momento, mas depois cedi à curiosidade dela por minha opinião e vi a foto que a irmã lhe mandara. Que todo mundo dizia ver o fantasma do seu Gercino pela casa era algo corriqueiro, mas agora essa manifestação física captada pela eletrônica já era demais. Eu vi a foto. Foi tirada pelo pai da Ester, que focou o olho da filha para ver que cor era, e pimba, lá estava o pimpolho do seu Gercino fazendo seu truquezinho aprendido com esmero no outro lado. "Pareidolia", minha voz doutoral de homem sério que não tinha tempo para tais besteiras disse. "Quer ver, vou tirar fotos de seu olho e vai aparecer alguma forma imaginária também." Com o celular, tirei umas dez fotos do olho verde da Dani, e quando fomos ver não apareceu ninguém, só um insofismável olho verde. Tirei mais cinco fotos com a Dani de frente à janela, para que a incidência de mais luz promovesse o fenômeno, mas de novo, só o olho. Voltei a olhar a foto com mais seriedade, e disse: "Mas aqui o seu Gercino aparece de chapéu, e ele nunca usou chapéu. E por que diabos alguém vai adquirir novos hábitos depois de morto?" Ao que a Dani disse: "Sei lá, isso é um chapéu? Não tinha reparado, parece ser mesmo um chapéu. Vai ver a a luz ambiente lá é mais forte e incomoda." Meu cunhado mandou outra foto, uma ampliação por um programa de computador com boa definição da mesma foto. Dava para ver agora o rosto de mais perto. Via-se o bigode preto e a barba branca, tais quais tinha seu Gercino. A ampliação retirara o chapéu e seu ar de gângster, e mostrava um amoroso sorriso diante a neta que quando ele estava vivo não conhecera. Eu olhei para a Dani e disse: "Isso aqui está parecendo o conto 'Cartas de mamãe', do Cortázar, só falta você dizer 'Você não achou que ele está muito mais magro?'"

Indo direto ao assunto: sendo verdade ou não, isso me fez comprar 4 livros sobre vida após a morte e lê-los um a um. Não que isso chegara a me preocupar ou balançar meu agnosticismo bem resolvido, ou aumentara ou diminuíra meu medo da morte. Não tenho medo da morte e raras as vezes penso nela. O que acho que me levou a ler tal literatura foi minha propensão a achar ridícula a pretensão de nossa infância do pensamento. Minha concepção secreta da existência é que existe uma continuidade após a morte, o que como funciona ou o que acontece são mistérios insolúveis para mim. O mais próximo que minha imaginação chega é que tudo é uma transformação termodinâmica para que se mantenha o fluxo de energia. Talvez a consciência não exista propriamente como a temos nessa vida, e o que resta dela se densifica em outra matéria. Talvez não precise de deus para isso, apenas uma versão básica inevitável da condensação. Tenho sido possuído por uma convicção descansada esses últimos anos de que somos parte do universo, assim como tudo aquilo que nos assusta: temos o mesmo direito de pertencimento no universo que as tempestades e os buracos negros, e somos tão seguramente arregimentados pela força quanto qualquer fenômeno extraordinário que nos pareça distante ou fantástico demais. Isso faz com que o romantismo bombástico das sinfonias chorosas da filosofia perca consistência. Se somos parte da ciência, e não vítimas de sua oposição niilista, qual propósito tem caras como Sartre e todos aqueles que confeccionaram teorias pesadíssimas sobre a grande noite profunda de nossa solidão cósmica? Seja o que for em que nos transformamos após a morte, se um fogo-fátuo do qual se descarrega todas as lembranças, a única certeza é que não estamos sozinhos, e estamos impossibilitados por uma mera questão de reaproveitamento contínuo de um espaço definido em sermos atirados ao nada. O nada não existe.

Agora tais livros falam de algo mais, de algo realmente incrível. Falam de uma ordem matemática com departamentos e burocracia própria. Tá bom, tá bom. Não são livros quaisquer, ou ao menos um deles não é qualquer livro. O mais importante deles se chama 20 casos sugestivos de reencarnação, de autoria de Ian Stevenson. É um autor extremante conceituado e respeitado. O próprio Carl Sagan disse que esse livro deveria ser lido. Pesquisem sobre ele. É um clássico e uma excelente leitura. O cara escreve muito bem. O mais baixo dos livros é um do tal Brian Weiss, uma espécie de Paulo Coelho da reencarnação. Um livrinho de cento e poucas páginas que comprei novo por nove reais, Muitas vidas, muitos mestres. Merece cada um dos atributos de suspeição que inspira. É escrito com leveza programada e no final se sai com a impressão de que se trata de uma enorme besteira. O autor mostra uma tendência à egolatria, e, ao contrário de Stevenson, não apresenta os mínimos dados ou a comprovação de seus dados científicos. Mas, de novo entra o Foster Wallace, que gostava e lavava a sério a literatura de auto-ajuda. Foi o primeiro livro que transita por essa seara que li. É tão irrisório que, dessas encruzilhadas da vida, gostei do livro. Pesquisei sobre Weiss, vi entrevistas e palestras dele pela net, vi que tem um culto às avessas para desmascará-lo. Um outro livro merece atenção pelos tantos enigmas que evoca: O experimeno Scole_ evidências científicas de vida após a morte. Não vou dizer nada sobre ele. É algo que deveria ser noticiado, nem que fosse por essa linha de programas do Globo Reporter ou Fantástico da minha infância que falava sobre fenômenos paranormais e me assustavam. O mínimo que pode suscitar, parafraseando Borges, é uma boa literatura fantástica. O outro é um livro que tem seu valor e sua seriedade: Evidências da vida após a morte, de Jeffrey Long e Paul Perry. O engraçado é que mesmo o clássico do Stevenson é publicado por uma editora cujo símbolo é um unicórnio, o que não serve para angariar o aspecto requerido de campo novo da ciência que o autor pretende.

O básico de minhas reflexões sobre tais livros (e em especial o de Stevenson) é o seguinte: se for verdade, se somos imortais, se a ciência conseguisse provar isso, o que aconteceria? Passei dias cogitando situações. O mundo melhoraria, ou, emulando o pensamento excessivamente darwinista do narrador do livro de MacEwan, a ausência de certezas transcendentes é uma necessidade para nossa sobrevivência biológica e como espécie? Alguém em uma vida infeliz, um neo-escravo por exemplo, diante a constatação certa de que possui uma alma impossível de morrer, se contentaria com as imposições dessa sua situação passageira na Terra? Um imortal se submeteria às linhas de produção massacrantes das fábricas chinesas da Apple? Não prendo mesmo ser o Conan Doyle dos escritores brasileiros caso eu lance um livro meu no prelo, e não digo que acredito nessas coisas. Mas também, estejam certos, eu jamais digo que não acredito. Como costumo repetir aqui a frase de um personagem que foi a vida toda ateu, em um romance de Saul Bellow, em um momento de insight de abalo às suas certezas de ateu: "Nada é absurdo o suficiente para existir, então, talvez, Deus exista." Essa é uma das frases mais revolucionárias da minha vida e um resumo da obra de Bellow, que acreditava na sobrevivência do espírito. Analisando friamente, a possibilidade das coisas levantadas pelo livro de Stevenson é mais absurda do que, vamos dizer, o bóson de Higgs, ou a teoria das cordas, ou os buracos de minhoca pelo universo, ou a preocupação de parte da imprensa científica de que os enormes aceleradores de partículas que por si mesmos já são o fantástico em um cotidiano mesmerizado de carros engarrafados nas grandes cidades possam destruir a galáxia com a produção de um buraco negro? Por que falarmos de uma sistemática da sobrevivência da consciência fora da matéria é coisa de ridículos e doidivanas, mas termos a certeza empírica de que no interior de um átomo exista energia suficiente para destruir o mundo é algo sério e indubitável. Apenas porque a segunda hipótese, antes absurda, já foi comprovada e a primeira não? Por isso, por esse preconceito e essa falta de ginga em abordar esse assunto de frente, muitas pessoas circunvagueiam o tema para conservarem seus respeitos sociais. No final de O homem sem qualidades, Musil começa a falar de Swedenborg, místico que Borges tinha uma verdadeira fixação também disfarçada de interesse pelo exótico. Bellow é cheio de percepções desse mesmo calibre, e seus personagens preferem os textos religiosos e esotéricos. Nooteboom fala em seu magnífico Dia de finados sobre uma experiência de quase morte, uma cena belíssima que se conclui com o personagem pensando mas deixa para lá, não é seguro falar sobre essas coisas no mundo de hoje. E assim vai, não vou amolar com mais exemplos.

O que quero dizer é que, analisando bem, não encontrei religiões que tratem com seriedade a possibilidade da vida após a morte. No meu entendimento, estranhamente, tirando o hinduísmo, o budismo e o judaísmo antigo, todas as outras religiões são essencialmente niilistas, e mesmo essas usam a sobrevivência do espírito com o referencial de devoção a uma causa política ou a um organograma social. O cristianismo talvez seja a mais niilista das religiões, pois nenhuma de suas vertentes oferece outra coisa que o sono profundo depois da morte, o sono em que Jesus voltará no dia do advento para retirar os escolhidos. Ou seja, isso não passa da mais pérfida e plástica versão do niilismo da morte eterna. O que me faz entender ainda melhor quando Nietzsche falava sobre a religião de rebanhos, a religião de escravos, cuja piedade é um cabresto amarrado no fiel em função de que ele cumpra seu papel na ordem estabelecida e nunca se revolte. Não existe, até hoje, uma religião profunda, libertária, verdadeira, mística, transformadora, carregada de amor sincero. Todas as religiões são consequências históricas, são aparatos para a preservação da estrutura banal do mundo o qual elas simulam mentirosamente repudiarem em seus cernes. Todas as religiões são ardilosidades criadas pelos inimigos do conhecimento e das revelações que uma religião utópica impossível promete vir oferecer. Por isso essa insolvência entre ciência e religião, pois a ciência, em um momento fundador pretérito, se firmou como opositor à instituição criminosa e assassina das religiões, com seus papismos e luteranismos de múltiplos atrasos. De forma que os homens livres que outrora faziam o frescor da ciência promulgaram o repúdio a toda forma de religião, o que impossibilitou ainda mais que a verdadeira religião pudesse algum dia vir à Terra.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Roth libertado, de Claudia Roth Pierpont



Lendo esse livro fiz uma reavaliação de meu relacionamento de leitor com Philip Roth. Demorei para ler Roth. Adiei o máximo possível. Não sentia o mínimo interesse por ele. Umbiguista demais, americano demais no pior sentido que eu via naquele tempo. Só cheguei até ele porque então foi inevitável, quando da necessidade de seguir a trilha lançada pelos autores modernos, Saul Bellow, Martin Amis, etc. O primeiro que li foi Pastoral americana. Eu me lancei neste livro com todo preconceito possível, e o achei passável. Percebi que toda a justificativa do autor estava unicamente na potência de sua prosa, e posso me vangloriar que eu me encontrava em um grau de astúcia de leitor suficiente para já intuir os pecados do escritor. Já intuí a grande vontade de Roth de ter um tema legítimo e nunca realmente conseguir. Intuí as emulações sofisticadas mas falsas que ele fazia dos grandes romancistas da Europa Oriental nas tantas cenas estridentes de Pastoral americana. Percebi a importância pretensiosa que ele se dá, montando um livro propositalmente volumoso para angariar com isso mais distinção, afinal os grandes romances russos são caudalosos. Para juntar página a página e ampliar a equação, ele escreve nesse romance uma série de passagens maçantes e desnecessárias, chega a implodir a paciência do leitor ao descrever as etapas de produção de uma indústria de luvas de couro. Saí com a impressão de que tratava-se de um livro distinto, sério, com uma superfície geral de honestidade, mas que eu jamais iria reler. O li em uma época em que eu ainda não tinha salário suficiente para atender minha compulsão pela leitura, e Pastoral foi um dos que entraram em minha lista de livros que podiam ser trocados por outro em sebos. Me desfiz dele rapidamente.

Depois li o Complexo de Portnoy, morrendo de rir em uma viagem de ônibus. Me identifiquei com Roth, e esse livro cortou grande parte de minha indisposição com ele. Ainda não era um grande livro, ainda era artificial e manipulado e não honesto o bastante, frívolo, mas o seu humor era arrebatador. Com certeza Roth não seria lembrado se tivesse parado nele. Depois li as sequências de Pastoral americana. As primeiras páginas de Casei com um comunista estão entre o que há de melhor na literatura norte-americana, chega a ser tão boas quanto as primeiras páginas de O legado de Humboldt. Mas a velha estridência esquisita continuava lá, as mesmas provas circunstanciais do desespero de Roth em trazer para si o Evento que os escritores da Europa Oriental tinham de sobra e ele era desprovido por completo em seu embotamento de cidadão do mais hedonista país do planeta. Há uma cena nesse romance que copia quase que descaradamente O idiota. Só fui encontrar um livro de Roth que merecia a mesma disposição de releitura que eu via em todos os livros de Saul Bellow com A marca humana. Esse eu li duas vezes, e é o primeiro grande romance autêntico que eu li de Roth. Tem uma beleza, uma intensidade, um caráter esotérico, que até então não havia encontrado em seus outros títulos. E como é magistralmente escrito! Depois li O avesso da vida, e percebi que nesse caminho oposto de ter encontrado um Roth mais maduro e menos umbiguista tornava qualquer investida em seu passado anacrônico uma chatice. O avesso da vida talvez seja a pior coisa que li dele. Vaidoso, vazio, tolo, o que comprovava que não bastava para um escritor saber escrever como ninguém, o mais importante é ele ter uma alma intensa, uma visão superiormente desapegada, um idealismo profundo. Roth era o oposto de Dostoiévski, o que aumentava ainda mais minha admiração pelo pior estilista do mundo ter conseguido escrever quatro romances que botavam as bobagens do grande esteta no chinelo.

Aí então, finalmente, eu pude ler O teatro de Sabbath. Esse sim ampara com glória a perseverança de Roth. É um dos maiores romances do século XX, e uma obra que permanecerá inalcançável por umas boas décadas. A aproximação mais eficiente de Roth aos amados escritores da europeus. Esse eu li três vezes, e uma quarta vez em seu idioma original. Magnífico!

Depois eu tive a felicidade de ler todos os livros de sua fase tardia, todos também magníficos, notavelmente Nêmesis, sua última obra. Ah! Eu li Operação Shylock, que é brilhante, pynchoniano. Li o descartável Conspiração contra a América. E uma série de outros.

Esse prazeroso livro, que mistura biografia com intimidades sobre a escrita do autor, mostra, em sua primeira metade, o quanto Philip Roth se beneficiou com o mainstream do ambiente literário dos EUA. O que a autora nos conta é o que qualquer leitor de Roth sabe desde que espichou o pescoço para o início de sua carreira: por bem pouco Roth não desapareceu como escritor. Afora um primeiro livro de contos peculiar, cuja qualidade não seria suficiente para compor a relevância de seu autor, e um romance psicológico-masturbatório bombástico, todos os esforços de Roth até além de seus quarenta anos e próximo dos cinquenta geraram fracassos de público e crítica à semelhança de Richard Tull, o personagem do romance A informação, de Martin Amis, que escrevia calhamaços que o quanto tinham de pretensiosos tinham de bocejantes. A diferença entre Roth e Tull parece ter sido a sorte do primeiro ter nascido no mercado editorial mais mercurial do planeta, e numa época em que o fetiche das liberdades sexuais e políticas estava à toda_ e, também, o fato de Roth ter sido sempre um batalhador incansável e compulsivo da escrita.

Claudia Roth Pierpont (que já no começo anuncia não ter qualquer grau de parentesco com o escritor) escreveu um livro que é um prato cheio para todos os leitores de Roth, para todos que gostam de segredos de alcova e de escrivaninha de escritores, e para todos que gostam do ambiente literário dos Estados Unidos. Ela foi muito bem sucedida em contrabalançar a biografia ligeira, sem compromissos cronológicos exaustivos, com o ensaio crítico. A maior parte das informações que coloca no livro vem da série de conversas particulares que teve com Philip Roth, sempre descrito por ela como simpático, engraçadíssimo e compreensivo. Pierpont diz que o livro não foi lido antes por Roth (o livro foi lançado nos EUA ano passado). Ela se diz uma apaixonada pela escrita de Roth, mas isso não impede que seja ácida e verdadeira nas análises que faz sobre cada um dos livros do romancista.