sábado, 21 de março de 2015

Semanas de Faulkner



Quatro dias lendo O som e a fúria. Na edição cuidadosa da Cosac, com bela capa, com a textura sofisticada e sólida que tem os bons livros_ a sensualidade de sentir a lisura da sobrecapa nas mãos, o prazer centenário do peso físico e do agreste transformado em arte bem acabada da capa dura. E a tradução do Paulo Henriques Britto. Minhas tentativas de leitura desse livro se afundaram nas duas edições brasileiras anteriores, bastante feias, com desenhos de capa terríveis, objetos imediatamente destinados a caírem no esquecimento e serem obsolescências empoeiradas que ninguém deseja ter. Mas nessa semana, assim que trouxe o volume da Cosac para casa, adquirido na Fnac da capital, o li enebriado, assustado diante o quanto é fácil e fluida sua leitura, o quanto aquela primeira parte nada tem da chatice experimental que até então eu julgava que teria. Vou escrever um texto sério e longo sobre O som e a fúria, que sei será um dos post menos lidos do blog. O romance me impressionou, me trouxe de volta o impacto dos grandes livros de Faulkner (aliás, Borges escreveu que todo livro de Faulkner, desde os menores às obras primas, trazem uma modificação profunda no leitor assim que ele o termina), de maneiras que vou reler boa parte de sua bibliografia por estas próximas semanas. Hoje, com o céu deliciosamente tampado pelas tempestades e o silêncio de religiosidade que traz todas as fúrias naturais, vou reler Absalão, Absalão!, que pretendo terminar na terça ou quarta-feira. Depois, mais três ou quatro dias dedicado à releitura de Luz em agosto, para em seguida reler Palmeiras Selvagens, também pela Cosac, que comprei por incríveis 27 reais pela Amazon e que deve me chegar daqui uns três dias. Para finalizar, O povoado e Desça, Moisés. Não é um simples programa de leitura, mas um reencontro necessário que envolve a exigência etária de meus 41 anos; uma tranquila revivificação esplêndida do mais influente escritor da minha vida.

P.S.: há uma grande dúvida quanto à tradução do PHB. Mandei um e-mail para o João sobre isso, mas até agora não obtive resposta. Na última página de O som e a fúria, vem escrito: 

"DISLEY.
 Eles resistiram."

Isso pela tradução do PHB. Já em uma edição antiga que tenho aqui, lançada na década de 80 pelo Círculo do Livro, vem a seguinte tradução para o mesmo trecho:

"DISLEY.
  Eles a toleravam."

Não tenho o original em inglês da obra. Sei que se pode baixá-lo pela internet, mas uma força interior me desmotiva por completo em fazê-lo. Estou propenso a achar que PHB falhou aqui, pois a outra tradução (de Fernando Nuno Rodrigues) faz muito mais sentido. Dúvida atros. Quem souber aí, por favor, esclareça.

24 comentários:

  1. Respostas
    1. Com essa concorrência entre livrarias comprar bons livros fica muito mais acessível. Esses três livros da foto, conforme a atenta pesquisa de variação de preços pela Amazon, saem pelo preço de um. E para quem mora em uma das cidades de Faulkner, como eu, onde nada acontece, não se tem com o que gastar dinheiro pois não há vida cultural ou happy hour, e nem com trasporte público, sobra muito para gastar com livros. Oba!

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  2. Eu tenho o "Sartoris" nessa mesma linha de capa e a versão "portátil" de "O som e a fúria". Os outros, só em edições antigas.

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    1. Pelo que me parece, O som e a fúria em capa dura está esgotado. Tive sorte em achá-lo na Fnac.

      Ainda não tenho o Sartoris. E agora, novas compras de livros só depois de outubro, ou talvez mesmo só no ano que vem.

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  3. Essa edição em capa dura de "o som e a fúria" custa absurdos 150 reais em média na estante virtual.

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    1. Fui ver na estante virtual. Fiquei pasmo! Pedem uma fortuna pela edição em capa dura. Encontrei dois exemplares na Fnac, um deles com um grande risco estragando a capa. Comprei o outro pelo preço de tabela.

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  4. Falando em livros a cosac está fazendo um "bota fora" devido a mudança de endereço do depósito; então eles estão vendendo livros de 5 a 40 reais, mas só na loja física.https://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=17638

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  5. Quem leu Luz em agosto e O som e a fúria pode perceber algo inusitado: as capas referentes a esses dois romances da Cosac estão trocadas. A capa com a casa em chamas remete a uma cena de Luz em agosto, mas é a capa de O som e a fúria; e a imagem da menina em uma atmosfera ameaçadora e sugestiva que encobra a capa de Luz em agosto, acontece em O som e a fúria.

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  6. João Antonio Guerra22 de março de 2015 09:58

    Opa, acabei de responder o email lá! Aqui pro resto dos leitores:

    A frase final original é They endured. Eu não sei bem se o verbo resistir é a melhor solução, porque tem ideia de embate, oposição bem delineada. Não é exatamente o que acontece com Dilsey e os outros negros de Yoknapatawpha: eles enfrentam os acontecimentos, sim, mais são todos ínfimos demais para causar qualquer estrago. A exceção, eu diria, fez a estória de Joe Christmas.

    Talvez os verbos aguentar/suportar/tolerar ou algo por aí fosses soluções melhores, não sei. Agora, sem a preposiçao "a": Eles aguentaram/Eles suportaram/Eles resistiram.

    Quanto às capas: eu nunca tinha me tocado que estavam trocadas! E é tão óbvio! Se bem que a que ficou no Luz em Agosto até que cabe ali: eu imagino que seja Lena Grove.

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    1. João, obrigado pela resposta e pelo e-mail atencioso. Agora ficou perfeitamente claro, e a meu ver, o PHB está certo. A outra tradução dá uma interpretação totalmente equivocada, mencionando o olhar dos outros por sobre Dilsey e "they", os negros. Enquanto que no original, o enigma genial criado pelo Faulkner causa uma impessoalidade, mas se refere explicitamente aos negros_ eles resistiram aos Compsons: afinal, a Dilsey, uma das maiores personagens de minha carreira de leitor, vive falando isso para seu filho, que ele se parece a um Compson (mas com aquele sarcasmo amoroso e auto-mentiroso de uma mãe que sabe das qualidades do filho). Britto é realmente um tradutor impagável. Essa simples frase de Faulkner esconde um mundo.

      Dilsey é a verdadeira estoica do livro. Aquela cena monumental dela na igreja, na parte final, é uma coisa de tirar o fôlego. Há um conto do Bernardo Elis que tenta repetir o mesmo jogo de revelações intuídas, descrevendo uma cerimônia religiosa, mas que se limita a um naturalismo datado que unidimensiona os personagens. Já em Faulkner, que vida tem aqueles personagens, que espirituosidade, que corporariedade.! Parecem reais. Eu sublinhei várias passagens, usando um lápis indelével para não marcar um livro tão bonito, me embevecendo de deslumbramento diante cada passagem. O filho da Dilsey, que cuida de Ben, que várias vezes diz "pergunte ao Ben se não é verdade". Delicioso.

      Estou fascinado pelo livro.

      Agora, sobre as outras traduções, tenho que analisar melhor. Pelo que eu vi no site da Cosac, a tradução de Palmeiras Selvagens é a mesma que eu tenho, publicada pela Nova Fronteira, com o acréscimo misterioso de um outro tradutor (!?)(não tenho como pegar o livro agora para ser mais claro). E, talvez porque eu estou muito acostumado à tradução de Absalão pela Nova Fronteira, ainda estranho a tradução deste romance pela Cosac. Me parece que o tradutor da NF soube melhor imprimir o tom bíblico de Faulkner. Mas vamos ver. Vou comparar com mais tempo ao original.

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    2. Outra coisa: no Absalão da Nova Fronteira vem uma cronologia dos personagens e um mapa, ambos feitos pelo Faulkner. No da Cosac não vem.

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    3. Olhando agora em retrospecto, noto que desde que adquiri Luz em agosto, assim que lançado, essa capa me incomodou. É muito bonita, talvez a mais bonita da bibliografia de Faulkner no Brasil. Mas eu fiquei tentando entendê-la. A harmonia conseguida_ um tanto forçada_, foi associar a garotinha à Lena Grove. Mas Lena Grove não tem nada de frágil no livro. Aliás, o contraste da história toda se firma nisso: ela aparenta fragilidade, mas é a única realmente forte e que vai permanecer. Os livros de Faulkner estão cheios desses frágeis superiores, resistentes e incorruptíveis, que permanecem em detrimento de toda a malta de ordinários e corruptos que sucumbem à morte ou ao tédio despótico. Lena Grove, que atravesse tantas milhas, grávida, atrás do pai de seu filho, que ela acredita ser um cavalheiro e que pouco a pouco vai conhecendo a verdade, mas que não esmorece nunca, não cede. Por isso, acho que as contra-capas estão trocadas. A sombra pode ser a sombra de Benjamin, que adorava a irmã, ou a sombra de Quentin se aproximando do celeiro para se encontrar com Caddy.

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    4. Ou a sombra de Jason, que em sua imaginação ensaia o momento que ele nunca poderá ter de reencontrar a sobrinha que lhe roubou os sete mil dólares.

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    5. Na minha opinião a capa da casa pegando fogo é uma alusão óbvia ao processo de destruição da família!
      Mas a cena é do "Luz em Agosto" mesmo.

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  7. Eu li o O Som e a Fúria nessa edição da Cosac, mas sem essa dust cover (como é o nome disso em português, alguém sabe?). Meu irmão me emprestou o livro, e me passou ele já "desencapado". Curiosa a troca das imagens! Não li Luz em Agosto; ele envolve os mesmos personagens e cidade?

    Eu gosto de "eles resistiram". Quando li, creio ter interpretado exatamente como "they endured", no sentido de "eles aguentaram", ou "eles perseveraram". Já "eles a toleravam" para mim é bastante estranho, e muda totalmente o original. Talvez esse primeiro tradutor tenha pensado em "eles resistiram pois foram tolerados", e daí reduziu para "eles a toleravam"... Mas prefiro a tradução do Britto, me parece mais fiel e coerente.

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    1. Fabricio, os personagens do Luz em agosto são outros. Como eu disse acima, também concordo, a tradução do Britto acertou.

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    2. É sobrecapa ou luva como algumas pessoas chamam, mas geralmente eu sempre vejo falarem como sendo sobrecapa.

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  8. Visitando o site da Cosac agora, uma grata constatação: a edição recém lançada de Absalão, Absalão! se esgotou.

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    1. João Antonio Guerra23 de março de 2015 09:39

      Por essas e outras que, apesar de todos os blefes acadêmicos que tenho que testemunhar diariamente, e apesar também das tantas empulhações que brotam o tempo todo no nosso mundinho literário, eu ainda tenho (um pouquinho de) fé no leitor brasileiro.

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  9. Falando em capa. Só a minha edição é que ela veio solta ou é em todas?! Anna Karienina veio colada. Flannery O'Connor também. Achei estranho isso agora...

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  10. Só agora que li os comentários sobre a sobrecapa ou luva. Pode apagar, Charlles.

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  11. Olá, teria como postar um scanner da contra capa de O Som e A Furia? Por favor, ou me mandar para meu email, pois comprei uma edição sem, e queria mandar fazer na grafica...

    matheus.nsw@HOTMAIL.COM

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  12. Olá, Charlles! Há tempos que tento adquirir alguma edição das obras de Faulkner pela Cosac e finalmente consegui "Absalão! Absalão!" e "Luz em Agosto" na Amazon. No entanto, encontrar "Palmeiras Selvagens" ou "O Som e a Fúria" (capa dura) tem sido um verdadeiro desafio. São exorbitantes os valores que os sebos têm cobrado por estes exemplares. Se você souber de alguém que queira vender um desses livros por um preço mais em conta, me avisa.
    A propósito, gostei da ideia que o amigo Happy Meal deu acima sobre a capa escaneada. Você teria como enviá-la pro meu e-mail também? Grato.

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    1. Consegui meu "O Som e a Fúria" da Cosac(usado) na metade do ano.
      E comprei o da Companhia. Esse livro molda-me cada vez que o leio. Consegui o meu por menos de 200 reais, fiquei por meses esperando a quantidade monetária necessária para comprar essa obra de arte.

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