segunda-feira, 30 de maio de 2011

Propósito

Há alguns anos, deprimido diante ao que me afigurava ser um constante fracasso emocional, escrevi alguns cartázes de urgência com a frase”Jamais, em qualquer ocasião, magoe as pessoas!”, e afixei em pontos estratégicos pela casa. Quando retornei, ao final da tarde, encontrei-os empilhados sobre a estante, e imaginei que a moça da limpeza deveria ter sentido um constrangimento quase igual ao meu por não saber onde colocar aqueles frutos do meu esquecimento. Uma das histórias dolorosamente inesquecíveis e redentoras do meu avô, que ele a contava sempre à atenção dos constantes pedidos da família, foi quando, em uma de suas idas da fazenda à cidade, parou sua caminhoneta para auxiliar um homem que se encontrava com o carro danificado ao lado, na estrada de chão. Meu avô não se lembra que peça sobressalente de sua caminhoneta ele dispôs para sanar o avario do veículo, ele só se lembra da para sempre incompreensível resposta que deu quando o desconhecido lhe perguntou quanto havia sido a ajuda, e meu avô respondeu:”Uns dez reais e morre o assunto”. Como haveria de ser, um mês depois, meu avô se viu com o pneu do carro retalhado, em uma estrada de terra de pouquíssimo movimento, sozinho e sem macaco sob o sol a pino… e quem aparece? Para-lhe do lado aquele mesmo desconhecido, com um sorriso cordial e uma disposição de erguer o carro com os braços, se fosse preciso. Mas não foi; ele retirou seus acessórios do porta malas, trocou o pneu de aro espesso e trabalhoso, detectou que se perdera um dos parafusos e usou um dos seus. No final, diante o homem suado e sujo de terra, meu avô profere aquela já por ele intuída sentença de condenação:”quanto foi?”, ao que o homem responde:”ô compadre!, coisas assim a gente não cobra não. Somos um pelo outro.” Foi a maior vergonha da vida de meu avô, ele contava. Ele nunca desejou tanto um tapa na cara. Imagino que, numa escala continental, ele se sentiu como a companhia imperial inglesa diante todos aqueles indianos seminus sentados em posição de lotus e não reagentes, que conseguiram a independência nacional através de uma arma inédita na història: o constrangimento do lado que detêm o poder, pela súbita consciência explícita da insensata desproporção do uso do poder.

Minha preocupação constante continua sendo o de não magoar as pessoas com o que digo, por várias razões. Piegas dizer isto?é;mas não sei dizê-lo de uma forma menos convencional, menos lyaluftiniana. Ao mesmo tempo, acho salutar expressar o pensamento, com toda a afronta a enorme tendência ao senso comum que nos domina, com seu poder de atração quase irrefutável. Por isto a surpresa de, após um noite de insônia diante o micro, aterrorizado diante o passeio alucinógino por tantos endereços cheios de pretensões, vaidades, inocuidade de espírito e de intelecto, com “ensaios” literários atravessados em colunas opressivas de propaganda de varejo e últimas novidades tecnológicas (textos que sempre me lembram aqueles coitados sentados em pleno centro urbano, com um colete amarelo no qual se lê”Compra-se Ouro”), retorno ao seu espaço e vejo essa confluência cigana de medos intimamente arraigados sobre fúria, necessidade de calma, e ainda a necessidade da crença desesperada na palavra.

Vou ter um filho daqui a quatro meses, o que me faz temerosamente feliz. E a maior lição que prevejo pela frente, a passar para ele, é o exercício salutar e superestimadamente sofrível de engolir sapos, e ao mesmo tempo incentivá-lo ao contato com mortos ilustres que nunca fizeram outra coisa senão expulsar anuros a grito. Ensina-lo que a gentileza possui uma estética muito sui generis, às vezes não tão catártica quanto acompanhar aos berros “God Save the Queen” dos Sex Pistols, mas mais verdadeira e compensadora na hora de saber o valor de favores desabnegados e aceitar o dedo em riste no trânsito até que se desgaste por total inapetência a vontade onanística de matar. Por que, no primeiríssimo momento que precede à reação, nós somos uns serezinhos cruéis. Mas só nesse enorme e libidinoso momento inicial.


Para terminar, uma lembrança de uma grande palestra do Joseph Bródski ( no livro de ensaios”menos que Um”), que versa sobre a interpretação do dito “ofereça a outra face”. Bródski diz que ignora-se, a maioria das vezes, o que vem depois neste vaticínio, que é: “e se alguém lhe solicita acompanhá-lo por uma jarda,vá com ele mais cem”. E cita o exemplo de um prisioneiro de um gulag, que, oprimido por um guarda à tarefa inócua de remover um monturo de pedras de um lado para outro do pátio da prisão, o faz inúmeras vezes, durante um dia e uma noite inteiras, durante muito mais tempo que o guarda levou para se humanizar e olhar aquilo como o reflexo de seu brutal constrangimento.
(escrito em 09 de abril de 2009)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Hereros

Gostaria de ter estado lá para assistir. Segue abaixo um excerto de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, sobre os hereros.

Uma geração atrás, o número cada vez menor de nascimentos de crianças vivas entre os hereros era um assunto de grande interesse para os médicos de toda a África meridional. Os brancos preocupavam-se, tal como se o gado estivesse atacado de peste bovina. Uma coisa desagradável, ver a população subjugada diminuindo daquele jeito ano pós ano. O que é uma colônia sem seus nativos de pele escura? Que graça tem, se todos eles vão morrer? Apenas uma ampla extensão de deserto, sem criadas, sem trabalhadores rurais, sem operários para a construção civil e as minas_ peraí, um minuto, é ele sim, Karl Marx, aquele velho racista manhoso, escapulindo de fininho, com os dentes trincados, sombrancelhas arqueadas, tentando fazer de conta que é só uma questão de Mão-de-Obra Barata e Mercados Internacionais... Ah, não. Uma colônia é muito mais que isso. A Colônia é a latrina da alma européia, onde o sujeito pode baixar as calças e relaxar, gozando o cheiro de sua própria merda. Onde ele poder agarrar sua presa esguia rugindo com todas as forças sempre que lhe der na veneta, e beber-lhe o sangue com prazer incontido. Não é? Onde ele pode chafurdar, em pleno cio, e entregar-se a uma maciez, uma escuridão receptiva de braços e pernas, cabelos tão encarapinhados quanto os pêlos de sua própria genitália proibida. Onde a papoula, o cânhamo e a coca crescem luxuriantes, verdejantes, e não com as cores e o estilo da morte, como a cravagem e o agárico, as pragas e fungos nativos da Europa. A Europa cristã sempre foi morte, Karl, morte e repressão. Lá fora, nas colônias, pode-se viver a vida, dedicar-se à vida e à sensualidade em todas suas formas, sem  prejudicar em nada a Metrópole, nada que suje aquelas catedrais, estátuas de mármore branco, pensamentos nobres...As notícias nunca chegam lá. Os silêncios aqui são tão amplos que absorvem todos os comportamentos, por mais sujos e animalescos que sejam...

Alguns médicos mais racionais atribuíram a queda na taxa de nascimentos dos herero a uma deficiência de vitamina E em sua dieta _ outros, à dificuldade de ocorrer fertilização entre os herero, dado o formato longo e estreito dos úteros de suas mulheres. Mas por trás de todas essas explicações razoáveis, todas essas especulações científicas, nenhum africânder branco conseguia expressar o modo como se sentia em relação a isso... Havia algo de sinistro solto no veld: ele estava começando a olhar para aqueles rostos, principalmente os das mulheres, alinhados do outro lado das cercas de espinhos,  e sabia, sem precisar de qualquer prova lógica: havia uma mente tribal em ação, e ela optara pelo suicídio... Não dá para entender. Talvez nós não tenhamos sido tão razoáveis assim, quando tomamos deles o gado e as terras... e depois os campos de trabalhos forçados, é claro, o arame farpado, as paliçadas... Talvez eles não tenham mais vontade de viver neste mundo. Mas é típico deles, desistir, ir morrer num canto... por que não tentam negociar? Poderíamos encontrar uma solução, alguma solução...

Para os herero, a escolha era simples, entre dois tipos de morte: a morte tribal ou  a morte cristã. A morte tribal fazia sentido. A morte cristã não fazia sentido algum. Parecia-lhes um exercício de  que eles não tinham necessidade. Mas para os europeus, que caíram no Conto do Menino Jesus, vigarice que eles próprios inventaram, o que estava acontecendo com os herero era um mistério tão indevassável quanto os cemitérios de elefantes, ou os lemingues correndo em direção ao mar.

Embora não o admitam, os Vazios que vivem no exílio da Zona, europeizados no idioma e no pensamento, separados da velha unidade tribal, também acham o porquê da coisa misterioso. Porém apegam-se a ele, tal como uma mulher doente apega-se a um amuleto. Não pensam em termos de ciclos, de retornos, estão apaixonados pelo glamour da idéia de todo um povo cometer suicídio _ a atitude,  o estoicismo, a bravura. Esses Otukungurua são profetas da masturbação, especialistas em aborto e esterilização, paladinos dos atos orais e anais, podais e digitais, sodomíticos e zoofílicos _ sua abordagem e seu jogo é o prazer: eles se esforçam muito para vender seu peixe, com sinceridade e eficiência, e a gente do Erdschweinhöhle lhes dá ouvidos.

Os Vazios garantem que dia chegará em que os últimos herero da Zona morrerão, o zero final de uma história coletiva vivida integralmente. Isso tem um certo atrativo. 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Epitaph of a Small Winner by Machado de Assis (1880)


I just got this in the mail one day. Some stranger in Brazil sent it and wrote, “You’ll like this”. Because it’s a thin book, I read it. If it had been a thick book, I would have discarded it.

I was shocked by how charming and amusing it was. I couldn’t believe he lived as long ago as he did. You would’ve thought he wrote it yesterday. It’s so modern and so amusing. It’s a very, very original piece of work. It rang a bell in me, in the same way that The Catcher in the Rye did. It was about subject matter that I liked and it was treated with great wit, great originality and no sentimentality.

(Woody Allen, falando ao Guardian, a respeito de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis)

domingo, 22 de maio de 2011

Juan Carlos Onetti


"É uma lembrança, faz dois anos, em Necochea. Mami se levantava muito cedo para ir à praia e eu ficava dormindo até o meio-dia no hotel. Acho que ela madrugava porque já tinha aceitado que estava gorda e velha e àquela hora encontrava pouca gente na praia. Acordei e fiquei olhando pela janela; descobri-a lá embaixo, se movendo. Mas ninguém poderia descrever o modo como se movia. Tinha uns sujeitos pintando as paredes do hotel, e o caminho de areia por onde as pessoas voltavam para almoçar. Você teria de se transformar num bicho e lembrar e compreender como se move uma fêmea para atrair o macho. Mas Mami, naturalmente, precisava de pretextos e ia de um lado para outro, arrancava folhas das árvores, chamava um cão, sorria para as crianças, sondava o céu, se espreguiçava, corria alguns passos e parava como se alguém a tivesse chamado; agachava-se para levantar do chão coisas inexistentes. Tudo isso entre o caminho da praia ao hotel e com os pedreiros no andaime. Pensei, e continuo acreditando nisso, que era a última tentativa, o desespero na caça e na pesca, dê no que dê, desde que dê em alguma coisa. Pobre Mami! Entendi tudo isso e comecei a dizer pobre Mami olhando-a da janela do hotel. Só havia ela lá embaixo; ela e a possibilidade que representavam os pedreiros, um empregado do hotel, um dos que guiavam seus carros vindos da praia. Naquele meio-dia em Necochea tomei um pifão daqueles e na sesta me obriguei a fazer amor com ela até a exaustão. É impossível que ninguém, ninguém no mundo possa conceber a pureza, a humildade com que eu teria oferecido o que quer que fosse aos pintores ou pedreiros para que um deles se aproximasse de Mami e a cantasse com uma frase suja, brutal, como quando a pessoa não consegue mais controlar-se." (A Vida Breve)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Augusto Monterroso


"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá"

Um Post em 20 Linhas _ para Marcos Nunes

Há duas semanas ajudei meu barbeiro (o cara gentil que estudou a posição da cadeira mais favorável à luz para cortar meus parcos cabelos) a se livrar da cadeia. Para suprir o minguado rendimento mensal, o barbeiro se dispôs a trabalhar na segurança de uma boate. Na primeira noite, entrou a separar uma briga entre  playboyzinhos bêbados e levou um tapa na cara. Em honra à sua masculinidade, pegou da mesa mais próxima uma faca e enfiou-a até a metade na barriga de seu ofensor. A faca entrou por um vão sem tocar nenhum orgão vital. Enquanto socorriam o esfaqueado, o barbeiro, provando sua inadmoestável índole de pai de famíla, dirigiu-se calmamente até o pelotão de polícia, acordou o oficial de plantão e se entregou. Ninguém se predispôs a depor em seu favor, só o outro segurança. Prontifiquei-me a tal. Estudei o relatório que ele me enviara pelo advogado, visitei a boate numa tarde para ver pela primeira vez a disposição dos objetos em cena. Não tremi a voz no depoimento ao responder à juíza que aceitava as condições de sair algemado do tribunal caso identificassem que mentia. Reconhecidos a legítima defesa, a proficiência do ofendido em Muay Thai,  a ficha limpa do barbeiro, a acusação de tentativa de assassinato caiu para lesão corporal. O corte de cabelo que ele me fez hoje negou-se terminantemente a cobrar. Brincando, respondi que ele ainda era o único homem que me fazia arrepiar ao passar de leve a navalha pelos monturos de cabelo da minha nuca.

O Grande Reacionário

Figura curiosa esse Allan Bloom. Não é por menos que seu livro O Declínio da Cultura Ocidental tenha ainda tantos leitores, que se convertem, com alguma ou outra reserva, a seu posicionamento excentricamente conservador. Sua ousadia em falar sem prestar-se a dar vênias às modas intelectuais, sem ligar a mínima pela carência de amor por detrás de todo debatedor dos problemas correntes, dá aquela sensação reanimada de que enfim, nos deparamos com a coisa genuína, com alguém que detem o cerne da questão. 
Gay, uma das primeiras ou segundas figuras públicas a contrair a AIDS; professor que tinha o talento excecional de converter seus alunos em apaixonados devotos capazes de lhe dedicar a vida; um polemista cujo ar de desentendido que deixa cair a gimba acesa sobre o telhado de palha o ascendeu ao nível de inimigo mais odiado do meio acadêmico norte-americano dos anos 1970, Bloom era um dos raros intelectuais daquela época epicênica dos pensadores estrelas, que apareciam diuturnamente nos programas de auditório para dar o veredicto definitivo sobre a situação política mundial e o grau de exigência espiritual do império, que realmente possuia uma cultura quase infinita, e um entendimento da corrupção dos valores da modernidade que o permitia distinguir com um olhar cheio de graça a ira vazia dos teóricos de ponta. Sua biografia escrita alguns anos após a sua morte pelo grande amigo Saul Bellow mostra o quanto a simplicidade do senso de auto-segurança era algo de extremo valor para ele, como seu amor-próprio era inabalavelmente desprovido das vaidades mundanas que não estivessem diretamente ligadas às suas altas necessidades estéticas. Escandalizava socialites da cultura ao tomar coca-cola pelo bico da garrafa à mesa do jantar. Quando era apenas um professor iniciante, vivendo na expressão conhecida "da mão para a boca", mostrava-se o quanto a pobreza não lhe tocava ao impressionar os amigos que lhe hospedavam com sua invariável atitude de gentleman. E quando seu grande livro vendeu um milhão de exemplares, encomendava os melhores ternos e sapatos, mandava vir de todos os cantos do mundo CD´s de música clássica, ficava no centro de uma aparato tecnológico instalado em seu apartamento de onde enviava suas requeridíssimas impressões sobre as notícias mais quentes da política e literatura. Torrava montes de dinheiro sem correlações do dissolutismo do pessoal da mídia, da mesma forma que passava as noites nos sofás dos amigos sem que isso debilitasse sua condição de intelectual de meia idade sem um puto no bolso. 
E seu livro, seu livro enorme e fundamental, é o reflexo fiel de seu espírito: a mais eloquente, genial, afiada e imbatível cobrança pela restituição dos valores morais e espirituais da humanidade, uma apologia ácida à supremacia do intelecto cujas corporações da burocracia cívica, a indústria cultural e as universidades obnublavam. Em plena era dos megafilósofos que se investiam de revisionistas dos fundamentos da justiça social, como Foucault e Norbert Elias, Bloom se voltava com uma energia viril para os gregos, para Rousseau e Nietzsche, para a defesa da família e do senso do sagrado, por uma religião identificadora no mais alto nível de uma sociedade humana. Qualquer um outro exageradamente preparado teria sucumbido facilmente à ingenuidade dos símbolos arcaicos dos reis filósofos, mas Bloom falava de Mick Jagger, das revoltas estudantis, dos Panteras Negras, do Homem Econômico, com uma sofisticação e molejo de marujo experiente que o aproximava das massas de insatisfeitos desligados e suficientemente desconfiados do clero universitário. Sua extrema assimilidade era mais competente que a filosofia para o povo de Karl Jaspers, e sua crítica ao niilismo industrial faz par à enorme acusação de Adorno como uma espécie de complemento de um nativo do entretenimento cultural do Império.

O Declínio da Cultura Ocidental torna-se ainda mais essencial nos dias atuais em que a mesma revista eletrônica que alude a uma descartabilidade de Ernesto Sabato entroniza Charlie Sheen como o grande contestador da hipocrisia do Império. Homossexual que sempre levou sua vida como quis, nunca se prestou à combatividade de uma causa que sua liberdade já tinha por ganha, e dificilmente aprovaria a imposição da homofilia que quer-se fazer nas escolas brasileiras, provavelmente indo além ao acusar os marionetes do politicamente correto por se submeterem a arranjos que tem muito mais de joguete político do que de preocupação social sincera. Ele nunca professou a música do lamento, sua visão do caos da modernidade era tão altiva que por vezes se faz crer que seu módulo espiritual era a de um Oséias graificado por seu prêmio do esclarecimento divino. Sua intenção satisfeita era, nas palavras de Bellow, "a redescoberta da magia do mundo sob os escombros das ideias modernas."

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Adam Filho de Cão, de Yoram Kaniuk


O post de hoje do Milton Ribeiro me fez recordar de um longuínquo livro que li há cerca de 8 anos. Milton fala sobre o romance Pontos de Vista de um Palhaço, do escritor alemão Heinrich Böll. Não li esse romance de Böll e já o havia procurado sem sucesso em uma livraria. Mas a temática do palhaço e do nazismo me fez ir a uma das estantes de livro daqui de casa e desencalhar Adam Filho de Cão, uma das obras mais perturbadoras e estranhas, escrita por uma autor quase desconhecido chamado Yoram Kaniuk (quase um anagrama de Ohran Pamuk). Lembro-me que cheguei a ela numa tarde de peregrinação à livraria do shopping, que por acaso é a mesma Saraiva (que Deus te dê longa vida!), e estava sedento por encontrar algo novo, alguma leitura inolvidável que escapasse das cansativas placas de identificação dos autores conhecidos. Algo que não fosse badalado e que eu nunca tivesse visto, mas que me chamasse a atenção de forma imediata, ou pela capa, ou pela editoração, ou pelo comentário daquele arroz de festa do elogio a autores desconhecidos que foi Susan Sontag. Claro que estava preparado para a decepção e cogitava sair dali com o último livro do V.S.Naipaul debaixo do braço, o que me levaria a passar a insônia das noites na metrópole transitando por cidades de burocracia capengas da América Central ou sentado em uma avião ao lado de algum negro promissor que ganhara bastante grana com a especulação imobiliária, tão típicos dos livros do Naipaul.

Mas achei o que estava procurando, severamente dentro das expectativas, até com a seguinte frase na contra-capa: "Dos escritores que descobri em tradução [...] os três que mais admiro são Gabriel Garcia Márquez, Peter Handke e Yoram Kaniuk". Adivinha de quem? Dela: Susan Sontag. (Na época ainda não tinha como saber que ela diria quase a mesma coisa de Roberto Bolaño.) Um livro muito bonito da Editora Globo, com o nome do autor e a repetição minimalista do título em vinil, e um comunicado interno dizendo que se tratava da segunda_ e aprimorada_ tradução da obra por uma editora brasileira. (Havia um tom de que a primeira era coisa por demais execrável para se levar a sério.) O resumo da contra-capa é um dos que mais faz cair na rede os amigos que me vem pegar livros emprestados, pois apresenta uma história irresistível: o palhaço judeu Adam Stein que consegue sobreviver em um campo de concentração entretendo os prisioneiros (inclusive a mulher e a filha), "antes que estes fossem encaminhados às câmaras de gás." Quem consegue se manter inócuo à comichão da leitura diante uma coisa destas?

Os amigos catalogados para o empréstimo (aqueles que sei que gostam de ler e me devolverão o livro no rigoroso prazo marcado) direto sucumbem sob o impacto desse resumo e leem Adam Filho de Cão. Desses amigos, uns 3 ou 4 gostaram muito, 1 ou 2, os leitores convencionais que estão apenas à busca de um bom enredo, disseram que se tratava de um livro maluco demais para eles. O problema é que, assim que comecei a ler o livro, já percebi que Kaniuk, ai!, é um dos grandes. Isso quer dizer não só que encontrei um produto raro onde a embalagem e o comercial correspondem ao conteúdo, como também que a história de Adam Stein não limita a ser um conto retilíneo, o que submerge na decepção os que queriam ter de imediato as lágrimas e o espetáculo à la Roberto Benigni.

E vejo que, após tantos anos, não me é difícil recordar desse livro. Não que o houvesse esquecido. É estranho mesmo que não tenha retornado a ele durante esse tempo, devido à minha devoção a autores judeus. Minha supeita é que, após procurar e não achar mais outros títulos de Kaniuk, o releguei a um milagre isolado, e lá ele permaneceu debaixo de uma pilha de outros livros, até o texto do Milton dar o ensejo de resgatá-lo. A prosa de Kaniuk é elétrica, de frases curtas, muito rápida às vezes. Revela o leitor global por detrás da formação do escritor cujo conhecimento da literatura o permite decantar o estilo até um coloquialismo em que aparece fontes do cinema e da música moderna, sobretudo o jazz. (Há um capítulo em que Adam transita pelo hospício no deserto em que está  internado, ouvindo pelos autofalantes do corredor uma obra de Rimsky-Korsakov, e eu juro que não pode ser apenas efeito da lembrança truncada que os pensamentos do personagem seguem a cadência de O Príncipe Kalender. Um dos principais amigos de Adam, interno desse hospício, diz ser ninguém menos que Miles Davis.)

Nesse romance, os eventos no campo de concentração surgem aos poucos, intercalados à rotina de Adam no hospício. Os que não gostaram do livro devem ter sido barrados nas cenas quase psicodélicas dos loucos, no programa de conversão paulatina de Adam no messias que julga retornar à Terra para salvar as vítimas da Shoá. Para mim, que agora sei fadado a uma nova leitura, Adam Filho de Cão assume tudo o que a boa tradição dos grandes romances requer em envolvimento e originalidade. Uma sinfonia de ira, uma crítica joyceana que não se limita ao lugar comum de uma narrativa facilmente assimilável, uma condenação de uma humanidade que, nos dizeres de Moacir Amâncio no texto das orelhas do volume, "produz Dante, Wagner, Goethe, Heidegger e a Shoá."

Dia de Finados, de Cees Nooteboom



Toda temática do grande romance do holandês Cees Nooteboom, Dia de Finados, está densamente resumida no longo parágrafo de abertura: as preocupações compulsivamente desatentas do personagem principal, Arthur Daane, com o conceito e utilização moral da História; sua religião pessoal de viver em um ócio quase absoluto,  como o javanês de uma antiga anedota popular, só interrompido pelo exercício esporádico de sua função de documentarista cinematográfico para suprir as necessidades financeiras básicas; sua devoção a um grupo de amigos boêmios altamente intelectualizados com os quais se relaciona em  estadas alternadas entre a Alemanha e a Áustria. Mas tem algo mais a se saber sobre Daane, que Nooteboom nos comunica nesse magistral parágrafo de uma maneira afiadamente direta e sem sentimentalismos, com a falta de importância de descrever um esquecido ato social: a mulher de Daane e seu filho único de 11 anos foram mortos num acidente aéreo. Estavam lá, e depois "eles somem". Todo o livro é um desenvolvimento a partir desses aspectos peculiares de uma homem solitário que tem um nível de percepção intelectual bem apurado para sentir todo o impacto do conhecimento de que a orfandade a que sua família lhe relegou é também uma ampla orfandade histórica. O cruel lapso de sentido em que o destino lhe lançou é um tanto mais pesado no que tem de exigência de suportar uma pena por não lhe escapar que toda a humanidade, desde o fim da segunda grande guerra, vive num limbo de ausência de significados. Nesse tom limpo de existencialismos ou escolas modernas do pesar o romance se desenvolve, cheio de atmosfera invernal e de calor humano arduamente preservado entre os amigos de Daane como a título de se protegerem contra o ulular da barbárie e da inércia do moto perpétuo que existem do lado de fora. Um exemplo da filosofia de indiferença vaidosa contra o externo desse grupo de amigos, é quando uma das amigas de Daane responde que bebe contra a História.  Numa escala de graduação do desencanto, Daane e seu grupo formam a última reserva de civilidade e sofisticação cultural de um mundo em franca desintegração. Arthur Daane e seus amigos compõe o ápice da cultura tradicional européia, com seu excesso de esclarecimento e seu espanto indisfarçável que subjaz à ternura por tudo que esse conhecer traz de desencanto. Podendo-se resumir a frente de batalha na qual se lançam os personagens do livro, diria que é o arranjo bem vigiado dos que vivem no interior contra as evocações e fogos-fátuos de tudo que está no exterior.

A partir dessa tragédia da perda, Arthur Daane se sente como liberado a não mais participar da vida corrente, a ser um out-sider, um fantasma encarnado, alguém a quem não se deve cobrar mais nada nessa altura da vida e da história da humanidade em que os projetos levantados, a aposta na singeleza das alegrias domésticas, as grandes ideias e os grandes primores, mostraram-se inconsistentes demais para se manterem em pé diante as leis de um acaso incontrolável e de uma biologia meramente constituída pela violência e a animalidade. A única ação relativamente positiva que move os dias de Arthur é a dele se postar com a câmera em diversos pontos da Alemanha filmando um mosaico de imagens sem significados diretos, marcas de passos na neve, o vapor da respiração numa estação de metro após as pessoas embarcarem. Filmes que ele não sabe se um dia tornarão por sua vontade um produto acabado, mas que ele vai fazendo numa compulsão desiludida e angustiada não só na atmosfera ebuliente de emanações históricas da Alemanha, como pelos outros países que visita em seu trabalho de documentarista. Nesse sentido, o romance é tanto um romance ensaio como um muito bem engendrado diálogo da visão pessoal de um humanista desencantado com as teorias da história, mantendo uma indagação corajosa que lança através da liberdade de expressão desatrelada de especifismos da arte, a necessidade de se saber para que serve a história, qual seu propósito último; a história não nos imporia a obrigação de um aprendizado genuíno além do academicismo e dos jogos políticos? Não à toa que Nooteboom compõe aqui personagens hiper-cerebrais mas com uma profunda reserva espiritual, personagens extenuados pelo conhecimento, para os quais já estão estrapolados o valor das palavras e da erudição e por debaixo da vaidade do saber estão os escombros e os tantos mortos que a ciclicidade da incoerência da passagem sem domínio do homem pelo mundo repete em infinita sucessão. Para Daane e seus amigos o rótulo heráldico da história não resiste mais ao fato de que ele serve apenas a uma vaidade efêmera de estar colado sobre o catálogo da brutalidade, afim de exercer controle organizacional sobre uma hermenêutica do puro terror e do pragmatismo da fúria.

Mediante isso, pode-se interpretar as longas cenas filmadas por Daane como uma investigação espontânea sobre a passagereidade, uma imersão na interferência do esquecimento sobre os toques e as impressões de pegadas desvanecentes na neve, em busca do humano naquilo que nos grandes espaços significativos mostrou-se não existir, e por isso o humano talvez esteja no inapreensível, na comunicação destinada a ninguém feita na neve e no piso das  gáreas das estações de metrô pelo anônimo padrão  fadado a figurar nos livros de história entre as cifras da quantidade daqueles que foram exterminados, destituídos ou exilados. No frio de um pátio de construção à noite, quando as máquinas estão paradas e o cenário deserto, Daane atrás de sua câmera ligada dirigida ao nada, simula ser o receptor desses gestos invisíveis. Afinal, a última lembrança que tem da esposa e do filho antes de entrarem no avião é a dos gestos de adeus, o sorriso, o símbolo do beijo que, dentro da normalidade plausivelmente requerida, promete o retorno. Aqueles sinais de ausência que tanto seu olhar sofrido acostumou a perceber no oferecimento do mundo quanto na leitura da história. E é justo nessa sua exposição a essa fonte de conhecimento da verdade_ de que o que distinguiria o homem como potência específica longe da bestialidade e da des-razão não está no rigorismo vazio da impessoalidade da história_ que Doane descobre o quanto é leviano para um fantasma encarnado sair de seu espaço de refúgio. Uma gangue de neonazistas o ataca, o espancando quase até a morte.

Dia de Finados é também um romance de amor entre Arthur Daane e uma estudante de história chamada Elik Orange. Os dois se conhecem na seção de periódicos de uma biblioteca alemã, e o relacionamento dos dois é deficitário de todas as normas da convivência entre um homem e uma mulher. Um capítulo do livro, narrado por observadores metafísicos, revela através de uma série de intuições cronológicas o passado traumático de Elik, dando as linhas de explicação de seu intuito de se refugiar no estudo de uma obscura rainha ibérica. É um romance surpreendentemente terno em detrimento da pesada carga de reflexão contestatória sobre a inocuidade de um estudo a-moral da história. A linguagem de Nooteboom é arrebatadoramente poética sem ser pedante; os diálogos entre os amigos de Daane _ o escultor holandês Victor Leven, o filósofo alemão Arno Tieck e a física russa Zenobia_ são intensamente concentrados mas desapegados da frieza asséptica do distanciamento da filosofia; e Elik, a estudante molestada pelos seus esquecidos fundamentos do resguardo da infância (fazendo lembrar a bela cena analisada por Hannah Arendt, em Homens em Tempos Sombrios, de quando Isak Dinesen percebe que os braços do pai que a levava carregada pelo jardim já não poderiam protegê-la do mundo lá de fora) é mais uma usina de forças represadas do que diz a impressão despertada por seu indevassável isolamento. A força de Dia de Finados está na cordialidade de uma novo posicionamento do pensamento frente a desproteção do humano. Para consolar Arthur Daane na cama de convalescência do hospital, seu amigo Victor demonstra a vitória temporária que se pode ter o poder da amizade por sobre a prisão das palavras: sem proferir uma só palavra, avesso ao ridículo ou aos padrões normatizados de comportamento, Victor demonstra a superação que resta à fragilidade humana de seus erros e pesadelos, através da dança. Na solidão da pequenez daqueles que se refugiaram da história, intimamente à espera de novas alternativas, Victor não refaz a dança de Davi a deus, mas a dança de um homem para outro, com todos seus caracteres de desvalidez. Todo o livro desmente numa visão particular a poesia de Yeats de que por detrás de cada olho há oceanos de gelo incorporados ao coração.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Flanêur

O único livro de Sabato que encontrei por toda Goiânia foi em um sebo do centro, O Escritor e Seus Fantasmas. Lançado em 1963, e aqui 40 anos após pela Cia. das Letras, tem várias partes dedicadas à tão mencionada "falência do romance". Todo mundo sabe o quanto de grandes romances se produziram depois disso, abalizando a defesa de Sabato. Estou sentado aqui na casa da mamãe folheando esse voluminho, como o Onetti que finalmente adquiri ontem e pela primeira vez (imperdoável) vou ler. Já li muita literatura latino americana, uma das minhas preferidas, mas nunca, não sei por que, li Onetti. A leitura tem uma contraposição interessante, pois há autores que se ganha conhecendo-os cedo, como Dostoiévski e Tolstoi, e outros cujo benefício é conhecê-los mais tarde, como Bernhard e Benedetti. Na juventude Bernhard se perderia para mim pelo risco de achá-lo arrogante, e Benedetti por julgá-lo escritorial em excesso. Numa página de Sabato acho essa frase extraordinária:

O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa. (Hölderlin)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Solidão e a Dança


pintura rupestre de 14.000 anos, de homens dançando


Acordei hoje com a cama vazia, a luz do corredor acesa. Sempre deixo a luz acesa quando estou só na casa, para caso acorde à noite no meio de algum pesadelo esporádico de que estou num labirinto de banheiros, possa me situar na meia sombra como o cara regatado da antiga solidão por uma alma piedosa. Um amigo meu me visitou um dia, sentou-se ao sofá e, depois de cinco minutos de silêncio, suspirou aliviado. Estava a tanto tempo só em sua casa, que temeu desmaiar. Precisava apenas disso, do contato com o mesmo ar respirável de um amigo. Isso já aconteceu comigo diversas vezes. Fui ao serviço, voltei às dez horas e telefonei para a Dani. Tentei trabalhar nos projetos pessoais, depois tentei ler, fui ver a quantas andam aquela suruba canina lá nos fundos da casa (os vizinhos gostam tanto do Miles que não se importam com os ruídos; me dizem que se sentem seguros contra assaltantes só de saberem do porte majestoso de onça que o Miles tem, e isso me faz lembrar uma ode ao gato, escrito pelo Neruda, insignia de um desaparecido veludo). Assim que me vê, como se me devesse gratidão por ter-lhe trago a namorada, o Miles levanta-se de seu canto, cheio de preguiça, e começa a bulinar a moça, essa com uma cara de enfado de quarta-feira de manhã. Tento escrever os textos sobre A Montanha Mágica e Dia de Finados, vejo a quantas andam o download dos concertos para violino de Mozart que cato do PQPBach, que de 14 minutos de previsão sobem inesperadamente para 1 hora e 13 minutos, como a pedir que eu não adie a formatação do computador. Daí decido! Vou parar tudo, arrumar as malas e, de manhazinha nessa quinta-feira, parto para Goiânia, para a casa de minha mãe, onde estão todos. E só volto no domingo. Aproveito e compro alguns dos livros da lista, A Viúva Grávida e A Resistência.

Segue um excerto de um dos meus dez melhores livros de todos os tempos, que planejo resenhar para a próxima semana. Sempre que leio esse trecho, me vem lágrimas nos olhos. Há uma infinidade de partes sublinhadas que tem maior força dramática, mas esse afago que Victor acha para despertar seu amigo Arthur, que está convalescente numa cama de hospital se recuperando de sérios ferimentos provocados por um ataque de neo-nazistas, e renová-lo à vida, é por demais tocante.

Arthur sentiu como teve de lutar contra as lágrimas, mas o que veio em seguida foi ainda mais difícil de aguentar. Victor, que se pusera um pouco à parte dos demais, foi até um canto do quarto onde Arthur não o podia ver direito, ajeitou o seu lenço de seda pontilhado, endireitou a jaqueta, curvou-se, pareceu contar e aí começou a sapatear, enquanto olhava fixamente para Arthur. O clique do metal no assoalho de pedra, os pés invisíveis, os contidos movimentos de braço, o silêncio em que tudo isso aconteceu, não durou talvez nem sequer um minuto até que a enfermeira entrasse chispando pelo quarto e pusesse fim à cena, mas Arthur sabia que nunca mais iria se esquecer, fora uma dança cerimonial, um exorcismo, o clique-te-claque-te significara algo como uma exortação, que ele se levantasse, desse passos, seus pés deviam levá-lo para longe dali, o que passou, passou, essa mensagem tácita fora mais clara do que teriam podido ser quaisquer outras palavras, alguém, Victor, redespertara-o dançando para a vida, e ele compreendera, ainda demoraria muito, mas já se encontrava a caminho. Aprenderia de novo a andar, sua cabeça seria enfaixada com curativos sempre novos. Outra vez a enfermeira teve de lhe enxugar a lágrimas. Clique-te-claque-te, os sapatos de verniz de Victor. Não sabia que Victor era capaz daquilo. (Dia de Finados, Cees Nooteboom, tradução de José Marcos Macedo, Companhia das Letras)



terça-feira, 3 de maio de 2011

Como de Praxe



Como de praxe, estou sozinho em casa porque a família vai passar essa semana na casa da avó em Goiânia, para exames médicos de rotina. Bem, estamos o Miles e eu. Como de praxe nessa época de solidão mensal, alguém trouxe uma rottweiler para cruzar com o Miles e os dois estão no quintal de terra dos fundos, trancados em núpcias nem sempre silenciosas (por isso, estou privado também da companhia do Miles). A pia da cozinha já está se amontoando de pratos e panelas, que jurei à Dani que não vão estar lá quando buscá-los de volta no sábado (desta vez vou cumprir). Vou abrir uma garrafa de vinho quando o relógio bater religiosamente as 20 horas, e já coloquei no pen drive álbuns do Neil Young (Rust Never Stop, meu preferido), Allman Brothers (Eat a Peach, com a maravilhosa Blue Sky), muita coisa do Zeppelin, do Tull, e Grateful Dead (American Beauty). Tentei terminar de ler Hannah Arendt nesta tarde, Homens em Tempos Sombrios, que faltam apenas 30 páginas, mas nem ela serviu para concentrar minha atenção, e me peguei acordando no colchão da sala, agora. Não sei se minha guitarra imaginária vai estar afinada ao tom do vinho argentino. Há muito aquela que foi uma grande felicidade, o estar só para pular e voltar a ser adolescente sem culpa e sem remorso, vem definhando, perdendo o brilho de leviandade santificada, e tudo acaba em uma ducha prolongada no chuveiro não ao som adrenégico de Whole Lotta Love, mas sob a trilha de um som de pôr de sol, Phillip Glass e Ravi Shankar, Let My Children Hear the Music, ou The Best of Afrodite`s Child (Rain and Tears). Não sei se é um ciclo que se completou, e todas as paixões de modo geral se declinam, agora que beiro os 40. Só sei que pego a foto dela, e fica parecendo que o drama do velhinho se explica por um mês de distância.
Júlia, sete meses de idade em primeiro de maio

Queimar a Casa Para Assar o Porco


Em qualquer bom livro de História sobre o século XX obtem-se a informação de que os Estados Unidos são o único país desenvolvido que cultua seus militares e gasta três dígitos de bilhões com armas e forças especializadas para manter seu poderio bélico sobre o mundo. Em nenhum outro país ocidental a persona militar ocupa o centro da mentalidade com um poder de gerar finanças e proporcionar domínio pacificador da forma tão superiormente funcional quanto acontece naquele cantão das Américas que a própria auto-conceituação imperial assume-se como A América. As outras Américas, uma vez já abrigadas sob a asa da rapina norte-americana,  tem parte substancial de seus enredos do século XX restringido à busca da independência contra as formas derivadas do militarismo norte-americano. Mesmo hoje só se espanta quem tem uma percepção incorreta dos últimos 30 anos em ver que no Brasil ainda se emulam a veneração e o temor devocional à farda, às caras de saturno  dos velhos generais e coronéis que não devem ser incomodados, salvaguardados pela relativização semi-oficial em que o crime e o extermínio silenciam-se sob o tapete da  não-revisão histórica e do perdão incondicional. Mas, a nosso favor, conta o fato de não sermos como os norte-americanos, ao menos nessa paixão plena pelo militarismo, nessa sandice de uma alienação que a ortodoxia manipula em fazer-se como patriotismo declarado pela transfiguração do amor ao país pelo amor aos milhares de tanques, caças, bombas ditas inteligentes, dezenas de porta-aviões, milhares de capitães américas soldados e um aparato tecnológico único que organiza tudo. Temos a vantagem de que aqui, apenas uma parte das camadas mais desabrigadas da sociedade se deixa deslumbrar pela ideia de um poder irrestrito da polícia, enquanto a polícia real é vista pela maioria de brasileiros com uma suspeita e controle social admonitório da experiência dos anos de truculência militar.

Somente nos E.U.A, portanto, pode acontecer o joguete dos últimos dias cuja manobra principal é o anúncio da morte de Osama bin Laden. As razões de Osama bin Laden reaparecer no cenário internacional, após quase dez anos de latentes menções a alguém restringido a ser o esteio mental de atos concretos de terrorismo praticados por outros, são tão gritantemente evidentes que chega-se a cogitar se esse caminho  de controle de crise de imagem externa e interna dos E.U.A tem um amparo sólido por debaixo  ou é apenas  uma tentativa mal elaborada e apiedante de dar a volta por cima. Pois o que aparece grotescamente por sob a declaração de que mataram bin Laden é a evidência de um presidente em queda livre nos índices de aprovação nacionais, de um país cujos extratos de radicais experimentos capitalistas indica que perdeu sua estrela e se encaminha para a bancarrota, de uma capacidade de alienação do norte-americano médio que pede para ser ludibriado a qualquer preço para voltar à crença tradicional de serem os donos do mundo. Obama tem se mostrado tão carregado de anti-clímax diante as esperanças que norte-americanos progressistas e de visualizadores mundiais em geral tem colocado sobre ele para o início de uma revitalização moral d`A América, que gera um choque por mostrar o quanto é possível ser tomado pela ingenuidade mais descomedida diante as fortes evidências históricas. O prêmio Nobel lhe dado precocemente revela o quanto o emocional converte doutores em singelos espectadores sentimentais da novela da tarde. O desemprego batendo níveis recordes, o sistema de saúde pública e previdência social ainda não reiterados pelas promessas de campanha, mas estacionados num modelo arcaico que agora promete abater-se para acabar de vez com a força dos sindicatos (como começou fazendo o governador do estado do Wisconsin), as corporações como efetivas donas do poder e mandatárias das regras financeiras e políticas, todo esse quadro gerador de uma  iminência reviravolta histórica mostra que o país símbolo do capitalistmo predatório poderia ser, na suposição fantástica  mais descabível, onde a nova revolução do século XXI arrebentará.

Numa matéria na Le Monde Diplomatique de abril intitulada "A Luta de Classe no Wisconsin", o articulista  Rick Fantasia analisa a súbita reação de trabalhadores norte-americanos de todo o país às disposições  do poder em restringir legalmente a atuação dos sindicatos. Um movimento apelidado de "walk like an egyptian" (uma referência a um sucesso musical dos anos 80 que expressa a expansão  a que chegaram as revoltas árabes pela democracia) iniciada contra o governador do Wisconsin, Scott Walker, que impôra uma lei severa sobre o sindicalismo público do estado. A ação do governador do Wisconsin, lê-se no artigo, teve efeito reverso: ao tentar solapar os direitos dos trabalhadores, ressaltou sua importância, ao mesmo tempo que decepcionou milhões de eleitores da classe trabalhadora (chamados de "democratas de Reagan") há décadas manipulados para votar contra seus próprios interesses. Não deixa de ser interessante imaginar que algum político norte-americano possa ter um conhecimento da história mundial num nível menos raso que a do também Nobel Henry Kissinger, para se lembrar que a Alemanha Oriental ruiu através dos atos populares. Como relata Tony Judt, as demonstrações programadas de repúdio às segundas-feiras em Leipzig começaram com 30 mil pessoas diante o palácio do governo de Honecker; uma semana depois haviam 90 mil pessoas, e, na fração de um dia, eram 300 mil pessoas sentadas em mortífero silêncio. Para quem são conhecidos como geógrafos criativos de territórios imaginários onde a Amazônia é distrito norte-americano, alguém que possivelmente esteja aconselhando atitudes de apaziguamento popular para Obama só poderia sintomatizar o quanto os escalões políticos e corporativos poderiam estar na premência de uma ação imediata.

Anunciar a morte de Osama bin Laden se afigura como a utilidade mais ingênua e contra-produtiva para falar de novo ao norte-americano patriota, bélico, ufanista, obesiado pela indústria de alimentação e distração mais poderosa do planeta. Se a reação interna se limitar a ser essa que aparece nos noticiários (o povo dançando as danças tribais modernas do hip-hop revanchista), então demontra o que todo mundo imagina, que o norte-americano padrão é o sujeito mais alienado e conduzível do mundo ocidental. Obama, que tem demonstrado ser um continuador disfarçado sob a pele de reformador, não faz mais do que o plausível em retirar os E.U.A. da estratosfera de exigência moral  que seu nome, sua cor, sua biografia e seu ar kennedyano de bom pai de família fizeram os de bom coração cogitar. O corpo despejado ao mar do hipotético bin Laden é o sinal de que os E.U.A. retornam à era Bush, e informam ao norte-americano apelando por sua consciência emocional mais profunda, sua memória mais hollywoodiana de que o grande filme, os grandes efeitos especiais continuarão, eternos e imperecíveis como toda fantasia imortal.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Anti-Rousseau e o Bullying em Dois Romances Ingleses


William Golding
Recusei-me a brincar de sociólogo de plantão e de analista das causas do mal quando do trágico evento do assassino da escola do Realengo. Contruiu-se da noite para o dia, na internet ,tantos textos cuja pretensão de alçarem-se a um nível oxfordiano de inédita visão emancipatória da violência só atendiam mesmo à disposição simplória de revelarem o quanto havia de polemismo torpe por detrás da atitude de seus autores. Retiravam tudo do balaio comum de que o assassino era um monstro, no exame puramente clínico de alguém que executa crianças indefesas de "cima para baixo", e, na falta de horizontes mais expansivos, colocavam tudo no outro balaio de dizer que o monstro não era nada senão a vítima mais merecitória de piedade. E, contudo, depois que a polícia e o instituto médico legal liberaram o corpo do assassino para ser enterrado numa vala de indigentes, esses visionários da extrema solidão que leva uma criança rejeitada a buscar a catarse do martírio conjunto não apareceram para acompanhar o sepultamento, como quis o morto que uma alma generosa rezasse por ele. Os corajosos escritores virtuais, uma pequena parte só informada o suficiente para repetir Gore Vidal afirmando que o assassino de Oklahoma era um jovem superior, na hora de mostrarem as caras além das fotos de frontispício de seus textos em que aparecem com uma seriedade nietzschiana, limitaram-se à confortável acepção de que tudo é muito passageiro na internet para que marcassem seus pontos de vista de forma tão inadequadamente peremptória, e partiram para a nova polêmica da semana. A net nos agracia com essa perecividade em escala regressiva em que a primeira nota retumbante vai degradando-se até as três notas de encerramento de música de feira, em que a cortina se fecha e todas as máscaras de expressões veementes são guardadas no camarim. Em um site ao qual eu costumava visitar, postou-se um longo texto em "homenagem àquele que ninguém nunca passou a mão na cabeça", referindo-se ao assassino de Realengo; outro fez suas vezes de Bernard Shaw revirador de conceitos afirmando que no Brasil "há excesso de punição", sem que houvesse qualquer energia posteriora para discorrer de uma partida de argumentação tão olímpica; e muitos e muitos outros, nos mais diferentes graus de erudição, propondo a relativização tresloucada e a indignação desidratada cheirando a academicismos e mostrando que seus autores usavam ternos ao escrever, no valor uniforme de colocar o assassino como vítima e desconsiderar como simples padrões numéricos  os 12 mortos e tantos feridos que tal assassino produzira. Como acontece se olhamos com muita atenção um enigma visual, as vistas se embaralham e a armação intimamente farsesca da figura se revela, e o quanto a internet tem de caráter de informação democrática se mostra na mesma medida em seu descompromisso com as mínimas parcelas humanas dos fatos; na ânsia de originalidade e de serem paladinos de uma justiça real e abrangente, acima dos clichês, não há mais que a frieza de serem confrontados pela possibilidade não tão fortuita de um dos sobreviventes ou um dos pais das crianças mortas ler suas apologias de quem as matou e as feriu, de quem quer transformar a dor incomensurável numa estatística. Só essa possibilidade de aumentarem a dor de quem viveu o fato, já torna esses escritores parte do bullying que começa nas escolas e vai além, no abraço que engolfa os mortos que não se conseguiu evitar e as teorias vazias e estúpidas que aniquilam o desabafo restante de se lamentar por eles.

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Não é uma simples coincidência que dois grandes romances sobre o bullying tenham vindo daquele país de tradicionais escolas com severa hierarquia interna e alta seletividade de alunos como a Inglaterra. William Golding escreveu duas das maiores análises sobre a violência inerente ao comportamento de grupo em O Senhor das Moscas e Visível Escuridão. Explorou o tema do caos pré-social, do estado natural hobbesiano, em outros títulos, como Os Herdeiros, mas foi nesses outros que estabeleceu seu tema central: a concepção anti-rousseana de que o mal é próprio da natureza humana, que a barbárie é uma estação elementar de partida de onde o homem dá seus primeiros passos. O Senhor das Moscas, publicado em 1954, contraria o gosto britânico pelas histórias juvenis de formação, mexendo no solo sagrado da visão infantil colocando um grupo de crianças náufragas em uma ilha deserta,  e usando-o para compor um ensaio narrativo chocante, tortuoso, em que as teorias da etologia desenvolvidas por Konrad Lorenz são levadas à última consequência na esfera humana. Como ficou comprovado no estudo de várias comunidades de símios, o mais forte exerce uma supremacia quase tirânica sobre os demais do grupo. O macaco alfa possui todas as fêmeas (mesmo que seja comum os deslizes de distração debaixo das quais as fêmeas cedem para os mais fracos), e reforça a aceitação do seu poder supremo simulando a cópula oprimindo os outros machos do grupo debaixo de seu corpo. O que acontece nessa ilha deserta onde não existe nenhum adulto, é uma emulação minimalista da história, onde as crianças se defrontam com a exigência de buscarem espontaneamente os arquétipos sociais que permitem a coerência primitiva que os unem contra o caos da seleção natural, do isolamento geográfico, e de, abruptamente, perderem o vínculo com a civilização e se verem na base da cadeia alimentar. Aos poucos, a sinergia do estado natural, os cheiros, sons, gosto e adrenalina viciantes da selvageria (a caça ao javali, o banho nu na praia, a liberdade paradisíaca de dispensarem as etiquetas metropolitanas, as insinuações latentes de entendimento sexual), vão limpando da memória o fragmento de que pertenciam a uma enorme comunidade firmada pelo apuro evolutivo sobre regras e diretrizes rígidas, e essa descoberta de que tudo pode ter um novo começo dispensa que continuem esperando por um resgate. A evolução, em sua onipotência mais generosa de não descartar um grupo de crianças deserdadas pela sorte em uma ilha há milhas da costa povoada mais próxima, lhes dá a ferramenta necessária do esquecimento para poder construir uma ordem sui generis em que se adapte ao meio. E essa ordem se firma progressivamente como a mais violenta, desenfreada e tirânica possível, desintegrando junto a visão de que todos ali são crianças. Como numa sociedade de macacos, agravada pelas infinitas sutilezas da imaginação violenta de um cérebro mais biologicamente refinado, o grotesco dos regimes autoritários que estavam no auge na época do romance (com clara convergência na intenção representativa de Golding), a aptidão assassina, o vazio espiritual diante a falência dos sistemas de pertença cultural, tudo se evidencia numa sociedade tribal onde o infantilismo na mais baixa acepção etmológica reduz o grupo a seres autômatos maléficos e auto-destrutivos.

Já em Visível Escuridão, essa solidão intranscendente se incorpora numa só criança, o menino de rosto seriamente deformado por uma das bombas que caíram sobre Londres. Desprezado por todos, órfão, sendo-lhe negado as mínimas interações de grupo, a maudade maior é a inércia de permitirem-lhe o esboço de uma vida juvenil normal sem que ela seja lhe dada efetivamente. Os colégios, a residência, a religião, tudo que lhe é falsamente oferecido, o mesmo caráter adaptativo roubado da biologia que permitira ao grupo de crianças náufragas ter uma sobre-vida na ilha, faz com que ele assimile essas molduras e configure por si mesmo, com sua imaginação infantil infinitamente solitária, seu próprio colégio, sua própria religião, e sua própria residência_ em suma, sua própria ilha. Romance mais impactante ainda que seu predecessor, o menino cria para si uma religião pagã original, um conceito de deidade desprovida de paixão e coração afetivo que sempre e cada vez mais exige dele penitência, pecador inveterado cujo pecado maior é seu rosto corrompido.

Num ensaio de Salman Rushdie sobre Desonra, o romancista anglo-indiano diz que J.M. Coetzee compôs um belo romance, falho em suas intenções, não conseguindo dar a proposição segura sobre o grande problema da miscigenação racial na África do Sul. (Aliás, Rushdie não só teve essa leitura, mas alega que seu autor desviou-se de uma solução útil pela interposição perigosa da desistência de David Lurie à realidade.) Assumindo que um romance possa ser um utensílio equivalente a um tratado social, esses dois romances de Golding falam mais das teorias Hobbesianas do que viram os críticos que ressaltaram o desencanto do autor pela perda espiritual do século XX. Os dois protótipos experimentais de Golding conseguem fins diferentes do previsível. O menino mutilado não opta pela ação violenta. É absorvido de maneira efetiva por seu universo pessoal, o que não deixa de ser considerado como sucesso. As crianças náufragas, quando estavam por atravessar a linha mais centrífuga da bestialidade, são resgatadas pelos aviões de busca.