sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Hereros

Gostaria de ter estado lá para assistir. Segue abaixo um excerto de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, sobre os hereros.

Uma geração atrás, o número cada vez menor de nascimentos de crianças vivas entre os hereros era um assunto de grande interesse para os médicos de toda a África meridional. Os brancos preocupavam-se, tal como se o gado estivesse atacado de peste bovina. Uma coisa desagradável, ver a população subjugada diminuindo daquele jeito ano pós ano. O que é uma colônia sem seus nativos de pele escura? Que graça tem, se todos eles vão morrer? Apenas uma ampla extensão de deserto, sem criadas, sem trabalhadores rurais, sem operários para a construção civil e as minas_ peraí, um minuto, é ele sim, Karl Marx, aquele velho racista manhoso, escapulindo de fininho, com os dentes trincados, sombrancelhas arqueadas, tentando fazer de conta que é só uma questão de Mão-de-Obra Barata e Mercados Internacionais... Ah, não. Uma colônia é muito mais que isso. A Colônia é a latrina da alma européia, onde o sujeito pode baixar as calças e relaxar, gozando o cheiro de sua própria merda. Onde ele poder agarrar sua presa esguia rugindo com todas as forças sempre que lhe der na veneta, e beber-lhe o sangue com prazer incontido. Não é? Onde ele pode chafurdar, em pleno cio, e entregar-se a uma maciez, uma escuridão receptiva de braços e pernas, cabelos tão encarapinhados quanto os pêlos de sua própria genitália proibida. Onde a papoula, o cânhamo e a coca crescem luxuriantes, verdejantes, e não com as cores e o estilo da morte, como a cravagem e o agárico, as pragas e fungos nativos da Europa. A Europa cristã sempre foi morte, Karl, morte e repressão. Lá fora, nas colônias, pode-se viver a vida, dedicar-se à vida e à sensualidade em todas suas formas, sem  prejudicar em nada a Metrópole, nada que suje aquelas catedrais, estátuas de mármore branco, pensamentos nobres...As notícias nunca chegam lá. Os silêncios aqui são tão amplos que absorvem todos os comportamentos, por mais sujos e animalescos que sejam...

Alguns médicos mais racionais atribuíram a queda na taxa de nascimentos dos herero a uma deficiência de vitamina E em sua dieta _ outros, à dificuldade de ocorrer fertilização entre os herero, dado o formato longo e estreito dos úteros de suas mulheres. Mas por trás de todas essas explicações razoáveis, todas essas especulações científicas, nenhum africânder branco conseguia expressar o modo como se sentia em relação a isso... Havia algo de sinistro solto no veld: ele estava começando a olhar para aqueles rostos, principalmente os das mulheres, alinhados do outro lado das cercas de espinhos,  e sabia, sem precisar de qualquer prova lógica: havia uma mente tribal em ação, e ela optara pelo suicídio... Não dá para entender. Talvez nós não tenhamos sido tão razoáveis assim, quando tomamos deles o gado e as terras... e depois os campos de trabalhos forçados, é claro, o arame farpado, as paliçadas... Talvez eles não tenham mais vontade de viver neste mundo. Mas é típico deles, desistir, ir morrer num canto... por que não tentam negociar? Poderíamos encontrar uma solução, alguma solução...

Para os herero, a escolha era simples, entre dois tipos de morte: a morte tribal ou  a morte cristã. A morte tribal fazia sentido. A morte cristã não fazia sentido algum. Parecia-lhes um exercício de  que eles não tinham necessidade. Mas para os europeus, que caíram no Conto do Menino Jesus, vigarice que eles próprios inventaram, o que estava acontecendo com os herero era um mistério tão indevassável quanto os cemitérios de elefantes, ou os lemingues correndo em direção ao mar.

Embora não o admitam, os Vazios que vivem no exílio da Zona, europeizados no idioma e no pensamento, separados da velha unidade tribal, também acham o porquê da coisa misterioso. Porém apegam-se a ele, tal como uma mulher doente apega-se a um amuleto. Não pensam em termos de ciclos, de retornos, estão apaixonados pelo glamour da idéia de todo um povo cometer suicídio _ a atitude,  o estoicismo, a bravura. Esses Otukungurua são profetas da masturbação, especialistas em aborto e esterilização, paladinos dos atos orais e anais, podais e digitais, sodomíticos e zoofílicos _ sua abordagem e seu jogo é o prazer: eles se esforçam muito para vender seu peixe, com sinceridade e eficiência, e a gente do Erdschweinhöhle lhes dá ouvidos.

Os Vazios garantem que dia chegará em que os últimos herero da Zona morrerão, o zero final de uma história coletiva vivida integralmente. Isso tem um certo atrativo. 

2 comentários:

  1. Ma otro???

    Sai da frente do computador, Charlles!

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  2. Pô, é foda!

    Quando passo semanas sem postar, reclamam.
    Quando posto demasiado, reclamam.
    Assim não dá, assim não tem cabimento.
    É o bullying virtual que vc disse.

    A parte da aparente vagabundagem foi explicada por e-mail.

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