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sábado, 27 de junho de 2015

Novos livros



Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, pedi os dois livros da foto aí de cima. Como meu e-mail com a solicitação não foi respondido, e fazia um mês que eu averiguava todos os dias minha caixa postal sem sucesso, comprei Zona de interesse pela Amazon. A Amazon informava que a primeira remessa deste livro estava esgotada, e devido a isso, demoraria um pouco mais para que eles enviassem meu exemplar. Fiquei um pouco decepcionado com a previsão da espera, mas um tanto feliz por um livro de Martin Amis estar esgotado em uma empresa do porte da Amazon. Por uma incrível coincidência, os dois pacotes chegaram no mesmo dia, nesta semana. E foi mais proveitosa a coincidência por ser eu a conferir a caixa postal_ já que, a maior parte das vezes, é a Dani quem o faz, aproveitando da gravidez para exercer o privilégio de enfrentar uma fila bem menor que a usual. Se a Dani tivesse recebido os pacotes, eu estaria com dois exemplares do Amis, porque tanto ela quanto eu não esperávamos mais que os livros pela parceria chegariam (cheguei a cogitar um sorteio no blog, mas as taxas de remessa pelos correios são muito caras, o que passaria do preço pago pelo livro na Amazon). Recusei a entrega da Amazon, e voltei radiante com os livros para casa.

Eu sou um aficionado por Martin Amis. Trata-se de diversão com QI elevado; entretenimento de primeira com alto grau estético. Martin Amis é o mais próximo que as letras conseguiram chegar de um escritor rock-star. Ele é uma mistura de Mick Jagger, Nabokov, William Burroughs e Robert Fripp; sabe dominar com exímia maestria o popular e ser um erudito cerebral convincente. Entre Martin Amis e Ian McEwan, seu páreo rival, eu sou da turma que gosta bem mais de Amis. Seus romances tem toda aquela empáfia do escritor maldito petulante que se acha um gênio_ o que, em boas mãos, é parte indispensável da literatura_, tem frases curtas elétricas cheias de ginga, e mais um tanto. Já disse aqui uma vez que Amis nunca escreveu um grande romance. Eu disse isso em minha resenha a seu último romance lançado no mercado brasileiro, Lionel Asbo, e lembro que percebi a maturidade do escritor ao evidenciar uma auto-crítica descansada de que seu propósito não era mais a de escrever uma obra-prima. Seu propósito passou a ser o de se divertir com seu enorme talento, produzindo uma espécie de corpo único magistral de escrita em que o principal era o virtuosismo da voz de seu autor. Essa inteligência de Amis suplantou de vez Ian McEwan; este último, a cada novo romance, vem se mostrando mais insosso e sem inspiração, em sua ânsia por invadir o cânone da alta literatura pensando que mais vale a grife de seu nome do que o valor real de seus livros chatíssimos. Amis, pelo contrário, abraçou de vez e sem a mínima vergonha sua posição relativa à sombra de Nabokov: em cada livro novo, ele ousa sair de sua zona confortável de autor celebrado (que, à maneira de McEwan, qualquer coisa lançada teria automaticamente uma louvação sintética da mídia) e ir além, sendo contundente, debochado, afiado e astuto, sem dar a mínima se está agradando e sem o mínimo respeito pelo que esperam que ele faça. Um exemplo de seu deboche sofisticado é a escolha de todo um enredo de suspense e crítica social à violência começar, em Lionel Asbo, com o incesto do narrador da trama com sua avó. Por isso, pela sua não-contenção, os últimos livros de Amis continuam sendo ótimos e anarquicamente divertidos, em sua tentativa sincera em impregnar de autenticidade essa nossa época carregada de boçalidades de todos gêneros e tipos, enquanto os últimos lançamentos de McEwan são pastiches triviais de sitcom em que o autor pede respeito à sua posição de senhor acavalado na poltrona de couro de seu escritório.

Tenho um amigo, grande leitor, que tem a para mim incompreensível atitude de ler coisas como Dan Brown e Paulo Coelho (!!!), alegando que é leitura para descansar. Nunca soube o que é isso, pois Hanna Arendt, Saul Bellow e William Faulkner sempre foram extremamente divertidos e adstringentes para mim, enquanto o único livro que consegui ler por inteiro de Coelho foi um tour de force que me custou dois meses de martírio_ e eu nunca consegui ler Dan Brown, apesar de nada ser pior que Coelho, e apesar de eu me dar bem com outros best-sellers. O máximo que suponho chegar próximo do entendimento do que esse amigo quis dizer é com um livro de Martin Amis. Vou terminar A vítima, segundo romance de Bellow, e começar a ler A zona de interesse.

P.S.: sobre A vítima, J. M. Coetzee escreve em um ensaio que é um livro repudiado injustamente por Bellow, talvez, continua Coetzee, por um excesso de modéstia por parte do autor de Herzog. Enquanto para Bellow se tratava apenas de um exercício de aquecimento para saber se um judeu como ele estava apto para conquistar o mundo, para Coetzee é um romance mais coerente e bem engendrado do que Augie March, e um exemplo do quanto Bellow se aproximou da qualidade dos questionamentos morais de Dostoiévski.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A hora de abandonar uma ideia



Eu valorizo muito o humor na literatura, a maior parte de minhas obras preferidas é de livros que tem um grau de hilaridade acentuadamente metafísica, e essa maioria fundamentou minha maneira de ver o mundo e agir comigo mesmo e com as pessoas. Mas descubro ao longo da maturidade que a seriedade vem sendo danosamente menosprezada. Há mesmo um preconceito em torno da seriedade. Quando eu penso em seriedade, essa palavra já demasiadamente feia, me vem à cabeça Jean-Paul Sartre, talvez o escritor mais bem situado no rol daqueles que jamais voltarei a ler, justamente porque sua seriedade excessiva me indispôs completamente com ele. Livros como O ser e o nada, parecem-me uma pedra de certezas que só pode ostentá-la os supremamente ignorantes, e junto a ele vem a trilogia ilógica que o filósofo do existencialismo compôs, de mais de mil páginas, sobre a vida de Flaubert, justo o mais conciso dos escritores. A seriedade sartreana me indispôs com os modelos recorrentes que aparecem para interpretar ora ou outra seja a economia, a política, e existência, a metafísica, a existência ou não de deus, ou seja lá o que for, de maneiras que, em negativo, Sartre sempre foi muito útil para mim, e sua anã branca de sisudez foi um denominador do humor libertário que está em direção oposta à sua escrita (o que dizer do humor de Sartre, que nunca existiu, ou só teve uma leve tentativa no primeiro conto de O muro, do qual não me recordo o nome, mas que causa aquele azedume das piadas sem graça quando vemos que o herói da narrativa é poupado da morte por seus carcereiros quando, mentindo sobre o local aonde estão escondidos seus companheiros do movimento dissidente, acaba por acertar involuntariamente, o que lhe garante a liberdade às custas da vida deles?; ou a história mais triste em torno de Sartre, a de seu tradutor brasileiro, que também não recordo o nome, mas que se preparou toda a vida, desde que confrontado pela sensação de burrice diante o calhamaço original de O ser e o nada, estudou a língua francesa e se profissionalizou nela, durante anos e anos, para poder voltar e traduzir por mais anos e anos o livro chave da filosofia de Sartre, esse mesmo O ser e o nada que se encontra solidamente esquecido no bastião das obras excêntricas pelo que tem de vazio e egolatricamente pomposo).

Mas, à medida que venho abrindo mais minha mente e procurando me destituir dos tantos fardos mentais que se acoplaram às minhas costas ao longo dos anos, a seriedade honesta tem me parecido mais benéfica e produtiva para os contingentes atuais do que o humor iconoclasta. O humor é maravilhoso, e talvez por sua sutileza (o nível mais excelente dele), o humor vem se tornando uma peça de contemplação agraciada por pessoas treinadas pela estética para perceberem o que tem de enorme adstringência. Mas isso acaba sendo apenas um placebo pelas estranhas exigências da mentalidade que vem dominando a esfera da comunicação atual. Recentemente escrevi nos comentários do blog do Milton Ribeiro, em referência a um post sobre sexo e livros, que eu tinha uma namorada que lia enquanto nós dois transávamos, e eu tinha que avisá-la que o exercício físico havia terminado, tamanho o envolvimento dela com a leitura_ e, a subliminaridade que deveria acionar a claque, a minha ineficiência total como amante_, mas eis que alguém comenta em resposta que se eu não conseguia satisfazê-la era porque eu era um péssimo amante. Não que esse meu humor seja exemplo de humor superior, o que definitivamente não é, mas não deixo de me assustar quando vejo essa prontidão à literariedade das pessoas que usam a net. Em outro post do Milton, eu escrevi que minha canastrice em ser contrário às ideias do dono do blog era o que me tornava interessante, ao que uma jovem muito bem afiada nos domínios do português me respondeu que era uma puta pretensão minha me considerar interessante, coisa que para os padrões dela eu não era em absoluto. Esses dois exemplos sobre o universo das interações da net, que logo logo estaremos abrangendo tal termo para o modo geral de interação entre as pessoas (cada vez mais relegadas à vida cibernética assepsiada pela ausência de contato físico recíproco), me revelam duas principais transformações assombrosas: a falta de percepção das nuances da leitura ou das riquezas da linguagem, e o desprezo contumaz para a humanidade de quem está lá do outro lado da tela. Quando eu me decretei interessante, eu ressaltava não uma vantagem genuína que fosse só minha, como a moça entendera, mas uma qualidade inerente a toda e qualquer pessoa, visto que eu acho interessante a velhinha da fila do banco com seu guarda-chuva, o homem de olhar atordoado por um evidente retardamento que vende picolés na praça, a moça de shorts jeans que masca chiclete com ar desoladoramente desafiador debaixo da árvore da escola, e mais não sei quantas outras: é mesmo impossível encontrar alguém que não seja interessante, o que este espécime raro já teria, paradoxalmente, algo de muitíssimo interessante (como Bartleby; ou como o primo de um amigo meu que foi fazer um certame de concurso público no Tocantins e conseguiu a proeza inigualável de não acertar nenhuma das questões da prova, o que eu esbravejei com a mais inconsciente seriedade de que ninguém mais do que ele dera mostras de mérito legítimo de ocupar o cargo, pois tirar a nota máxima era muito mais fácil que isso). 

Há uma tendência, que deveria ser avaliada com a devida ciência, da inteligência estar tomando um rumo errático pela vereda mais fácil, deixando as idiossincrasias e demoras re-avaliativas em segundo plano. Vejo no grande romance de Proust a seguinte frase: "Porque a minha inteligência deveria ser una, e quem sabe mesmo se não existe uma só inteligência de que todo mundo é co-locatário, uma inteligência para a qual cada um de nós, do fundo de seu corpo particular, dirige os seus olhares, como no teatro, onde cada qual tem o seu lugar e onde existe apenas um único palco". A julgar por essa teoria, estamos sofrendo uma severa contra-ofensiva de forças de dissuasão, vindas das frentes que convenciona-se atribuir a raiz de nossa festejada revolução tecnológica, e tais forças vem diminuindo o calibre do filtro que nos liga à essa inteligência universal signatária. Pois bem, diante essa constatação, não há muito o que se fazer, nada pode refrear o andamento da espécie e aprendemos nos bancos colegiais que toda a evolução é positiva, sempre caminha para a adaptação (e não para a melhora). Baseado nisso é que venho sofrendo uma elucidação em torno da importância da seriedade.

O que mais me chamou atenção em A morte do pai, romance de Karl Ove Knausgard, é como o autor sabe usar bem a seriedade. Knausgard é sério sem ser pedante, austero ou chato, sem a pretensão cósmica de sistematizar uma visão a partir de sua vivência pessoal. Mas ele é sério no sentido de respeitar o grande nível de interesse que tem seus pensamentos, sua personalidade, a velocidade de seu andante no tempo. Ele respeita sem qualquer constrangimento seu pleno direito de ser lento. E ele maneja muito bem seu direito de ser mais que uma entidade feliz e rasa da ausência de personalidade das redes sociais, virtuais ou não: ele se decreta alguém que tem uma voz e sua autenticidade de usá-la, sem que para isso use as armas de justificação e pedidos de desculpas da ironia e do humor suavizante. Knausgard é sério a uma altura desapegada da ortodoxia cansativa que a seriedade alcançou no século XX, com suas escoras na dramaticidade romântica de algum niilismo existencial; ele é sério de uma maneira quase pura ao se mostrar um pai de família lutando contra os amaneiramentos da rotina familiar para conseguir se tornar um escritor, e restituindo na escrita as lembranças perdidas do códice de sua vida. Ele contempla sem vergonha o material mais legítimo e rico que um escritor pode ter, a sua própria vida, com uma percuciência e cuidado instrumental do botânico que estuda minuciosamente os interstícios anelares de uma sequoia centenária. Ele se vê como alguém sagrado debaixo de todas as malhas da insignificância compulsória que a vida cotidiana se esforça massacrantemente para enterrá-lo. E a forma despida de vaidades comezinhas, a forma sincera e aplicada, com que faz isso, mostra para mim que essa atitude da escrita talvez seja a mais adequada para os tempos de hoje, não porque haja a necessidade de se converter os estúpidos, mas porque talvez o humor e a fábula já tenham dado tudo o que tinham para dar e tenha chegado a hora de deixar essas roupagens descansarem. O que Knausgard vem fazendo, e não só ele, mas Javier Marías e alguns outros, pode ser a nova revolução da literatura. Toda revolução é uma demarcação de uma re-valorização do passado, um acirramento, por isso esses escritores recorram aos esquemas de Montaigne e Proust. Numa era de rapidez e apagamento no fulgor das telinhas colorida, o que há de mais resistente e subversivo do que anunciarem-se como seres interessantes, com voz, recolhimento? Knausgard e Marías_ e Sebald e Nooteboom_ vem apontando a linha imortal da literatura, que é a da renitente afirmação do humanismo.

Essas reflexões sem cola e nexo, díspares, me vieram porque chegou a hora de abandonar uma ideia que eu vinha trabalhando ao longo desses últimos dois anos. Talvez tenha chegado a hora de ser mais desavergonhado, mais destemidamente sério. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A morte do pai, de Karl Ove Knausgard



Algumas coisas me deixam entusiasmado no capítulo publicado para degustação do livro do escritor norueguês Knausgard, na edição desse mês da revista Piauí. É uma peça literária de força, bela, dura, sincera, delicada. O que mais me entusiasma é a contramão vitoriosa de Knausgard estabelecido desde essa primeira de cinco partes volumosas de sua obra. É um desses eventos que deixam todo decadentista do papel do romance nos tempos atuais com uma trave na língua. Knausgard faz sucesso, é muito lido, detêm prêmios importantes, não por fazer parte da corrente de escritores nórdicos de literatura policial que se afileira nas listas de best-sellers, mas por, incrivelmente, trilhar os passos da memorialística idiossincrática e recolhida de Proust. Isso, num vislumbre superficial, é um milagre, num vislumbre médio, é motivo de orgulho diante um inesperado indício de um público exorbitado da boçalidade da cada vez mais imperiosa indústria do entretenimento fácil. Numa análise mais detida, a possibilidade da existência de um escritor como Knausgârd é, em oposição ao sentido da afirmação anterior, uma notação lógica de mercado. Poucos sabem que Proust é um dos escritores mais vendidos do século XX.

Após terminar a leitura desse capítulo disponibilizado pela Piauí, hoje de manhã, corri para a internet para ver a quantas andam a possibilidade de já adquirir o A Morte do Pai, a primeira parte do ciclo de romance memorialístico inevitavelmente proustiano de Knausgard intitulado Minha Luta. Ainda não foi publicado pela Cia das Letras, apesar de já estar no site da editora e como pré-venda na Livraria Cultura. Tem mais de 500 páginas, esse primeiro livro. O capítulo lido fala de maneira tocante sobre a fisiologia inescapável da morte e se ampara por completo nas trivialidades da vida caseira do autor, que está casado pela segunda vez e tem três filhos pequenos. Pode ser que eu esteja enganado, mas a escrita do norueguês me acionou a percepção imediata de que se trata de um escritor notável. Ele junta uma descrição sobre um quadro da velhice de Rembrandt com quase o mesmo grau de sublimidade esotérica que Benjamin imprime em seu texto sobre o desenho do anjo da história_ um pouco mais na leitura da obra por inteiro e o encontraria com a linha na precisão certa de seu barômetro de concentração interior. Para nós daqui é difícil não estranhar os desmazelos da boa vida social da Noruega, que torna possível que um escritor viva de seus cheques esporádicos de direitos autorais e reviva a crença na literatura com a mesma convicção dos tempos de um jovem Bellow, mas a prosa filosófica de Knausgard transcende e identifica a mesma procura, o mesmo sequiosismo de significado, o mesmo vazio retumbante e irracionalmente intuitivo que acomete alguém com o direcionamento espiritual ensombrecido de qualquer lugar do globo. Na descrição da felicidade que seus filhos lhe causam, mesmo com os gritos e a selvageria da infância, ele diz que seria perfeito se o que procurasse fosse a felicidade: e revela que a contemplação do quadro de Rembrandt lhe provoca mais satisfações no que instiga do que a presença dos filhos. E nisso, ele conclui, ele já tem 40 anos, logo 50, logo 60 e 70, e depois acabou. Enquanto lia seu relato sobre as crises de ânsia de sua filha de dois anos, de como ele precisa pegá-la nos braços e a sacudir com força para conseguir chegar até o mais profundo dela, a tirar do quadro de similaridades com uma possessão e reativar o controle paterno sobre ela, não pude deixar de pensar as consequências futuras de sua história familiar, como sua filha vai ler depois da morte do pai.

Espero que não me engane. Literatura de primeira e com um salutar e revelador anacronismo.