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domingo, 29 de outubro de 2017

O melhor dos mundos



Com os talões de água e luz em mãos perguntei, estupefato, à minha esposa como o brasileiro consegue viver nesse país. A vida nesse país é um absurdo, um milagre, uma improbabilidade. Mais da metade da população vive de um salário mínimo: como fazem para pagar as contas?, criarem os filhos, terem o que comer, pagarem transporte? Com os dois talões em mãos, fiquei ciente do enorme engano da esquerda e da direita: elas se ocupam com retóricas elevadas, com abstrações fantasiosas, quando o grande problema é que o brasileiro não tem tempo, condições e espaço para se preocupar com política. É por isso que ele não se revolta, porque sobre ele há uma barreira indevassável dentro da qual está labutando para tentar suprir suas necessidades mais básicas. Eu não conseguiria expressar como lamento isso. Essa é a maior violência que podem cometer contra um povo, cortar-lhe a dignidade e a profundidade. Ontem me deparei com essa matéria da foto, na GloboNews. A emissora a reportou sem nenhum traço de escândalo, sem nenhuma estridência, sem absolutamente a mínima crítica. Já estou acostumado com isso (mentira, nunca me acostumo!), a voz fria da apresentadora do jornal, suas tentativas monstruosas de fazer humor pueril, sua tranquilidade pesadelística como se tudo estivesse bem e vivêssemos no melhor dos mundos. Anunciam que o governo vai retaliar os deputados que votaram contra a absolvição de seus crimes, com uma naturalidade sonambúlica, mecânica. Me dá uma vontade de sair pela cidade e esfregar na cara de todo mundo esse absurdo, essa afronta, esse estupro, mas sei que a grande maioria dos que moram na minha cidade iria dar uma resposta convencional, expressando uma resignação plástica, e viraria para o outro lado, de volta ao ciclo imutável de agir da mão para a boca: "e eu com isso?".

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Creio que foram 10 segundos, não mais do que isso, que a âncora do jornal de ontem à noite da Globo News levou para ler as manchetes. 10 segundos dos mais repulsivos e acachapantes da história do pais, pensei. A história do Brasil, para qualquer um que se disponha a ler um dos tantos livros didáticos sobre o assunto, é plena de momentos repulsivos, de modos que, diante o que me parecia o mais repulsivo de todos, percebi estar diante algo realmente insuportável. Eram 4 as manchetes, lidas rapidamente: Aécio Neves retorna a seu cargo de senador; a recusa da denúncia contra Temer; Dória institui ração humana no lanche das crianças; e, para fechar o circo de horrores, Temer legaliza o trabalho escravo. Veio-me a constatação óbvia que viria a qualquer ser humano minimamente esclarecido: a de que, em qualquer outro país do mundo em que um jornal comportasse, em meros 10 segundos, tamanha fila de abominações, o que se seguiria seria a revolta da população, com a invasão do congresso nacional e o assassinato, com requintes de violência extrema, desses que abalizam com suas assinaturas porcas a morte e a vida indigna de milhões de pessoas. Seria legítima defesa genuína feita pelo povo. Mas eu sei que ninguém vai protestar; eu sei do material barato que é feito o estofo do brasileiro padrão. Mudo de canal, para não ver as tantas propagandas de carros (ironicamente dirigidas a um mercado consumidor à beira da ruína), mas retorno para ver um dos nobres comentaristas do jornal_ um nordestino_, falar sobre a decisão do Dória sobre a ração humana. Sim, o fato dele ser nordestino teria me dado alguma expectativa humanista, alguma espera de empatia representada pela parcela do povo neste país que mais sofre com a discriminação e a desigualdade social, mas acontece que eu já conheço a figura, com seu terninho de subalterno agradecido, ombros encolhidos para dentro, sua gravata desarranjada, sua boca que tende a juntar a baba nos cantos. O que ele diz não passa nem distantemente sobre a desumanidade brutal que é dar restos de comida processada para crianças em fase escolar, ele nem tange as nuances espúrias do quanto isso trará lucro para a empresa que diminuirá substancialmente os custos com seu lixo. O que esse ser bestial, comprado, corcúndico, diz, o que essa aberração de alma deformada fala é um pequeno discurso sobre os erros para a imagem política de Dória que são atos assim; sobre os números de reprovação do iminente candidato à presidência que devem ser retrabalhados, para que coisas assim não o atrapalhem politicamente. É isso que ele diz. O Brasil chegou a um patamar rasteiro para o qual já não há esperança. Reafirmo: o brasileiro é o ser mais solitário do mundo; ninguém se importa com nós, nem nós mesmos.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O trivial



Não estaria sendo sincero se eu dissesse que estou triste pelo anúncio de que a Fnac vai fechar. No Brasil de hoje os motivos são tantos para a desmotivação e a descrença, que parece óbvio em retrospecto que a Fnac teria mesmo esse destino. É apenas a repetição de uma realidade que eu venho assistindo desde que me conheço por gente: o melhor e maior espaço de um shopping, dedicado à cultura e aos livros, naturalmente é anacrônico e fadado à extinção, em um país que tem os índices culturais e educacionais como o nosso. Semana retrasada, antes de ser anunciado o fim, eu estava na Fnac, vendo as pessoas sentadas em poltronas confortáveis, sob uma boa música atmosférica e o ar condicionado, cada uma lendo sossegadamente um livro, e me veio à mente: isso aqui não pode existir; é bom demais para que exista em nossa realidade. E eis que vai sumir do mapa e, mais uma vez, verei uma loja de celulares ou eletrodomésticos ocupar seu espaço, de maneira tão veemente que só com um esforço de memória alguém poderá se recordar da antiga loja. Eu comprei muitos livros ótimos e baratos por lá. Fica o desbaratino de eu não saber mais para onde ir quando tiver que passar uns dias na capital, a 32º cidade mais violenta do mundo, sem parques apropriados para o entretenimento, com preços extorsivos que promovem o eremitério compulsório nos tristes apartamentos, com o trânsito suicida e estúpido e depressivo. Estamos em um país assassino e atrasado, em que vivemos como escravos regidos pela alienação, e o fechamento da Fnac é só mais uma trivialidade que não causa espanto.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Quermesse dos psicopatas



Uma das vergonhas maiores da indigente realidade brasileira atual é que alguns dos formadores de opinião com mais seguidores por essas excrescências virtuais são oriundos do meio do rock. Temos Lobão, temos Tico não sei o quê, e, pelo que descobri ontem, temos um guitarrista de uma falida e obscura banda de metal que, assim como seus páreos, adotou o hobby de vaticinar suas iras "políticas" em um canal do youtube. Conhecedor que sou que esse país é um circo desnecessário e anacronicamente sempre fanático pelo atraso, retive minha capacidade de espanto ao ver que tal sujeito tem "500 mil seguidores no Facebook". Respeito o impacto dessas cifras, embora tal coisa me pareça incorrigivelmente insignificante. Pois bem, incorri na curiosidade de tentar assistir a um vídeo desse astro cibernético ontem, em que o futuro presidente dessa pocilga, conhecido por Jair Bolsonaro (o Brasil requerendo garbosamente seu papel de destaque nos livros de história desse século XXI, predito a ser mais violento e bestial que o século passado, avoé!), lhe concede uma entrevista. O guitarrista falido, um tipo branco, barbudo, com os cabelos tratados indo até a cintura (uma das perguntas recorrentes nos comentários: que shampoo você usa?), começa com uma longa parlenga sobre deus, Cristo, afirmando que esses são as presenças mais importantes e capitais em sua vida. E daí ele pergunta o que Deus representa na visão do presidente antecipadamente eleito Jair Bolsonaro. Daí por diante, eu paro de assistir_ assisti 5 dos 75 minutos que tem o programa. Não aguento; além das minhas forças. Antes de desligar vejo o primeiro comentário com um fio de esperança. Um questionamento educado e inusitadamente inteligente de que a política e as questões sociais não deveriam passar pelo crivo da crendice religiosa. Um comentário bem posto e bem escrito de uma moça. O sujeito, depois de falar de Cristo e Deus, o que responde? Umas 6 linhas de fúria descomedida que se encerram chamando a moça de "vagabunda". Eu acredito que Bolsonaro ganhará a presidência daqui a 2 anos. Tirem aí as conclusões.

domingo, 6 de março de 2016

Moral em pareidolia



O texto que se segue não contém uma linha sequer de ironia. Na sexta-feira me emocionei com o discurso do Lula, transmitido ao vivo pela internet e pela Globo News. Ficou incontestável para mim que o Lula é um gênio. Que birra é os que dizem que ele é analfabeto, etc, etc. Sua retórica é inigualável, seu nível de cultura é evidente através da força_e da beleza_ de suas palavras. Não detectei nenhuma palavra errada, nenhuma sintaxe incoesa em seu pronunciamento de ontem. Embora sua versatilidade no uso da palavra tenha essa tranquilidade dos extremamente habilidosos que dispensa o melindre e a vaidade. FHC e tantas e tantas outras companhias são crianças balbuciadoras perto dele; e o que dizer dos comentaristas facebookianos que faltam babar de tanta insolvência intelectual? Ninguém é páreo para ele. Gravei o vídeo e o re-assisti duas vezes. Como Lula é cativante; não há ninguém no Brasil hoje que sequer chegue perto do fascínio despertado por suas palavras. A magia era tanta que, assim que a Globo parou de transmitir, as duas repórteres que apresentavam o programa purgaram um silêncio impactual de um longo segundo, como ocorre quando algo incrível se encerra com seu efeito suspensivo da realidade e o tempo volta com sua tristeza gravitacional. As duas mulheres tiveram que se haver com a indevida grossura de suas vozes e a total sensaboria de seus assuntos. O discurso do Lula foi tão belo que me lembrou daqueles velhos generais de Garcia Marquez que, de uma hora para outra, são redespertados pela fúria do Espírito Santo e voltam rejuvenescidos para a batalha, como se seus setenta anos fossem a marcação etária mediana de uma existência de longevidade bíblica. Aliás é isso: Lula é bíblico, faulkneriano. Vou dizer a verdade, pode ser síndrome de meus 40 anos, pode ser a nostalgia infernal da leitura dos tempos elétricos de fé da biografia de 3500 páginas que estou atravessando de Dostoiévski, pode ser a reavaliação de tudo que eu sempre faço em que tudo que acredito passa a bambolear seriamente sob o peso da consciência do quanto pouco eu sei, mas,... eu me vi dando um voto de confiança para o Lula. Liguei, assim que o pronunciamento dele a acabou, para um amigo, e lhe perguntei, em voz baixa e com a euforia do que tinha visto: "Será que o cara é inocente?". Meu amigo, um professor em Tocantins de férias por aqui, que me brindou com uma conversa magnânima de duas horas sobre Thomas Piketty, respirou aliviado, vendo que enfim surgia uma brecha para que também ele parasse de fingir e pusesse a falar a verdade, me respondeu tudo o que minha esperança queria ouvir. E o que ele falou foi muito pessoal e relativo, e não repetirei aqui. O que sei é: eu sou pobre. Sempre fui pobre. Aliás, esses dias fui levado a pensar, vendo o quanto as pessoas que me cercam, colegas e conhecidos, vivem obcecados por dinheiro e preocupados até à exaustão em se enriquecerem: eu nunca me preocupei com dinheiro.  Nunca perdi um minuto de meu sono pensando em dívidas ou do que planejava comprar para mim. Nem depois de ter a primeira filha, nem depois de ter um segundo filho. Minhas roupas são as mais funcionais possíveis: tênis, jeans e camiseta, sempre e invariavelmente (algumas vezes uma camisa social, o que me deixa aflito). Vivi anos sem carro, e não tenho a mínima ideia de como se dirige uma moto. Minha esposa me conheceu assim: íamos à pé para tudo quanto é canto, andávamos abraçados de madrugada voltando para casa, quando namorados. O dia em que comprei um carro, a esperei na rodoviária onde ela desceria do ônibus para passar o fim de semana aqui em casa, e quis surpreendê-la mostrando o veículo, a Dani expressou uma total decepção. Disse-me na bucha que não estava feliz. Semana passada ela se lembrou das vezes em que andávamos por toda a cidade em sua bicicleta, ela na garupa e eu pilotando, e me disse aquela frase chavão de "o quanto éramos felizes naquela época", ao que eu consertei: "ainda somos imensamente felizes hoje", ao que ela concordou. Pois bem, sou pobre, sempre ganhei dinheiro por conta própria, sem bajular ninguém, sem passar a perna em ninguém, e com boa dose de participação de minha atividade mental. Nunca passei necessidades, comemos do bom e do melhor, como dizem, e temos todo o conforto possível, além do indispensável: todos os livros que queremos, toda a música que queremos. Isso posto,

devo dizer, sem refinamentos e empolação, que gostaria muito que o Lula estivesse certo, pois jamais votaria em alguém da oposição a seu governo. Jamais votaria em Aécios e o escambau, que são muito, muito, muito piores que o Lula. Sou demasiadamente inteligente para não ver o caráter idílico dessas minhas esperanças, mas não sou um otário útil, não sou um pertencente ao rebanho do Facebook. Como pobre, tenho que defender meus interesses. Como disse alguém, devemos ter cuidado com essa coisa de condução coercitiva de um líder político de alta envergadura, pois em 500 anos de história, nunca tivemos 20 anos seguido de liberdade democrática. Por mais que pareçam lindas as indignações pelas redes sociais, somos uma nação de semi-escravos e de mão-de-obra barata. Antes do Lula no poder, não havia nem 5% dessa capacidade de pleno consumo que o brasileiro padrão tem hoje, mesmo nesses anos de recessão econômica. Há uma frase no Facebook que vou citar sem oferecer a fonte, pois não me lembro do autor, mas que é genial: "O Brasil tem cinco presidentes vivos. Quatro deles são investigados pela polícia federal. O outro é o Sarney". É uma radiografia perfeita da nossa situação. Tirei isso do Facebook do Idelber Avelar, mas a frase não é dele. Há uma verdade profunda, disforme e nada dada a formalizações moralizantes nessa aceitação de que todos os políticos roubam no Brasil, todos os políticos são uns corruptos, e por isso devemos ser o povo mais pragmático em vermos o que é de nosso interesse. Não há bandidos maiores e mais nefastos do que os do partido cuja sigla se pronuncia PSDB. Se o PT fracassou com extrema desfaçatez na condução moral na política, o PSDB é o suprassumo da maldade e da indiferença quanto a pessoas pobres como eu. Lembro de que na minha juventude, havia 4 marcas de carros, duas marcas de chiclete (Ploc e Ping-Pong), uma marca de palha de aço para lavar panelas, três ou quatro marcas de televisores..., havia uma profusão de tubaínas de fundo de quintal..., havia, em minha juventude (que não faz tanto tempo assim, mas apenas 20 anos), um clima soviético; supermercados desabastecidos, uma economia que não foi feita, deliberadamente, para comportar consumidores, mas de uma massa de assalariados dirigidos compulsoriamente a prestarem reverência a algumas poucas indústrias internacionais. Lembro o quanto eram caros coisas como chocolates suíços; eram tão caros, que era um sarcasmo os supermercados os mostrarem em suas estantes especializadas em importados; os azeites espanhóis, os vinhos portugueses, coisas que eram inadmissíveis para uma sociedade planificada como era o Brasil de fins dos anos 1980 e começo e meados dos anos 1990. O Brasil era a união soviética. Minha mãe, advogada, funcionária pública, só conseguiu comprar um carro há dez anos. Carro era algo que se via nos filmes americanos e parecia coisa de ficção científica. Não, não o foi o FHC; isso é o mais rasteiro clichê. A economia melhorou exponencialmente com ele, mas para nós, os pobres, ainda permanecia solenemente fechada, com um salário mínimo que não chegava a 100 dólares. (Alguém aí sabe o que é um salário mínimo não chegar a cem dólares, e os economistas, os catedráticos altamente graduados da direita, sempre aparecerem na tv, pomposos e com papadas que eram o início exposto ao vivo de seus excelentes e calmos sistemas digestivos, sentenciarem que era o sonho do governante, mas uma impossibilidade quântica que faria explodir a sociedade, se os salários fossem para cem dólares? Alguém concebe tal realidade?) O grande FHC, o cara que é um dos 4 investigados pela PF, que recentemente falou em um programa de televisão fechada que tem essa vitalidade e essa saúde mental por causa da genética (gente assim não consegue esconder a eugenia e a seletividade classista nos meandros de seus mais triviais discursos), melhorou a economia, mas nos deixou de fora. Carros ainda seriam, por um bom tempo, belezas esmaltadas usados em rachas mortais dos filmes baseados na obra de Stephen King que servia a nós vermos o quanto eram felizes os jovens norte-americanos revoltados. Lembro bem a tristeza resignada que me despertava o filme De volta ao futuro, com aqueles bairros populares arborizados com esses carros esmaltados estacionados na garagem, a tv imensa, os aparelhos de som, até as luminárias dos tetos diferentes, que mostravam o quanto eram coisas alienígenas para nossa economia planificada, o nosso grande gueto de classe segregada da minoria que tinha crédito bancário, salários altos, e supermercados inteiros diferenciados que vendiam de tudo que havia de maravilhoso para consumir no mundo lá fora, até chicletes de banana com figurinhas do Capitão Gancho.

Foi o Lula que fez isso, não foi o FHC. Em 500 anos de história, só nos foi dado o papel básico de uma sociedade democrática, o direito óbvio, de sermos consumidores, no governo Lula. Não me venham contestando isso. Só um louco ou um cara muito depravado iria contestar isso. A direita no Brasil é a pior direita do mundo. A mais radical, nefasta, com um organismo acostumado com o funcionamento pleno que basta lances imediatos e espontâneos para se organizar com incrível coesão e efetividade. É uma direita extremamente perigosa, com a qual não se pode brincar nem se distrair. Tenho um casal de sobrinhos, irmãos, que se formaram recentemente em medicina, graças a benefícios do governo e ao suor de seu pai (simples eletricista de aparelhos domésticos que mora em uma cidade de 10 mil habitantes), que, em seus Facebooks não param de arremedar a cantilena depreciativa de Fora Dilma, de que Lula isso, Lula aquilo, de que PT isso e aquilo. Dois otários que não sabem nada de história, descerebrados ávidos por se tornarem milionários e se inserirem no processo confortável de macaquearem clichês.

O Brasil sempre foi um país privado para o uso de uma minoria. Cuidado com isso. A moral professada nesse país sempre foi, citando as palavras do Lula, pirotécnica, como não deveria de ser para um povo ególatra e alienado, burro ao extremo, conduzido. Uma moral em pareidolia, como o efeito das nuvens que parecem dinossauros e amazonas montadas; como a figura de um fantasma que se vê na névoa de madrugada, ou a cara de Cristo na mostarda passada na bolacha. A moral que se vê no ataque ao Lula, o cara que subiu o salário mínimo a patamares nunca imaginados pelos sisudos economistas da direita, o cara que deu ao brasileiro padrão o direito a conta no banco e o crédito fácil (enriqueceu sobremaneira mais ainda os banqueiros, como deve ser no xadrez da vida real), é uma confluência de jogatinas da mídia, do judiciário, da policia e de diversos outros setores do país, tendo no centro, o peão do idiota útil das redes sociais. Uma confluência que não significa uma moral unitária e calculadamente programada, nunca significou, mas que forma na névoa das ganâncias pelo poder e por retornar a imobilidade de classes como era há 20 anos uma aparência de moral.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Situações



Por que estou imune aos recorrentes temas sobre a situação brasileira? Deixei disso, deixei de me interessar. Foi uma desistência tão sincera e inerradicável, que a avalizei ao detectar uma profunda tranquilidade em mim. Sobre o Brasil, tenho a lucidez de saber que talvez nunca vire o milionário em cujos meus planos me permitiria me deportar daqui para outro país. Assim, me abstive por questões estomacais de assistir telejornais e de dar a costumeira passadinha de olhos pelas manchetes cibernéticas. Tenho lá meus furores teatrais, meus complexos de vira-lata, mas não passa da conhecida sensação de cócegas do membro já amputado. Não há jeito; não há como fazer. Percebi que tal preocupação, de tão ingênua, pode causar um dano físico concreto. Vou dar apenas dois exemplos, rápidos e práticos, do por que não me preocupo mais e sigo vivendo minha vida singela sem dramalhões colossais.

Primeiro: na cidade em que moro, considero uma felicidade ter três amigos tão fanáticos por livros quanto eu. Quando eu ainda era abalável o suficiente pelo panorama, eles me salvaram de tédios profundos, aparecendo como por milagre ao final do dia para um daqueles momentos que me davam a certeza de estar "realmente tendo uma conversa fenomenal". Um deles, o Emerson, chega a ler bem mais do que eu. Ele parece mais um reciclador automático de livros do que propriamente um leitor. Basta dizer o título de um livro, que ele aciona sua voracidade efetiva, e lá vai ele engolir o tal livro. Assim se deu com coisas que eu jamais vou ler, como O ser e o nada, os livros do Dan Brown, ou cinco livros tomados emprestados da bibliografia de Freud, que ele os meteu para dentro com uma abnegação pelo sacrifício tão pura que parecia ser mesmo apenas uma questão de movimento pavloviano dos olhos. Pois este amigo é um professor concursado do serviço estadual de ensino na minha cidade. É um tipo folclórico, cabelos grisalhos rebelados circundando uma tonsura, barbas longas no mesmo feitio, olhos azuis minúsculos, e o costume sedimentado de usar somente bermudas e camisetas, estas últimas a maioria produzida por ele com estampas de aforismos literários que ele vai colhendo no meio de seu jardim de leituras estoicas. Ele usa bermudas para trabalhar, e é folclórica também a foto gigante grudada na parede de sua sala em que sua esposa aparece radiante de felicidade em seu vestido cerimonial de noiva, com buquê nas mãos enluvadas, ao lado de um Emerson com paletó e a bermuda corriqueira da qual não abriu mão nem no casamento.

Imagina-se o nível de pensamento crítico que um professor assim provoca em seus alunos, ou na parte minúscula deles desperta na sala de aula. Emerson é um típico professor engajado brasileiro. Uma personagem busterkeatoniano. Um Quixote. Ou, em menor grau pejorativo, um desses professores ranhetas que lotam a cenário nacional com sua estampa clichezística de devoto da esquerda e antigo leitor dos Cadernos do terceiro mundo. Independente de qual dessas facetas o enquadre, o certo é que se trata de um tipo perturbador, o que, casado à sua obsessão pelo trabalho, vem dilapidando a sua saúde ao longo dos anos. Direto vejo ele, em pleno domingo e feriado, preparando aulas, fazendo downloads de documentários didáticos, usando seu estômago forte de leitor multitudinário para digerir intragáveis livros sobre pedagogia moderna. Daí que ele teve dois princípios de enfarte, e teve que se correr às pressas com ele para a capital. Até então, ele fazia por relevar seu quadro depressivo medicado por tarja preta, pois lhe configurava certo charme dissidente. Mas agora, com o coração negando fogo, ele sentiu aquele gosto laminar na boca que parece vir da faca que lhe cortou todo eufemismo de permanência. Assim, finalmente seguiu os conselhos dados por nós seus amigos, e relaxou. Abriu mão da tarefa além da vida de salvar os jovens brasileiros da bestialidade e da alienação. Só faz o necessário.

Pois bem, e o que fez o Grande Sarcasmo Nacional com ele? Preparou uma retalhação genial, destruidora, desses atos majestosos da tragédia em que nada sobra de pé. Escombros. Esse paisinho sem graça e previsível inventou de lhe retirar as raízes que o sustentavam em seu desesperado ato de sobrevivência. Não bastasse o coitado sofrer do coração às custas do absurdo cotidiano, o paisinho quer-lhe agora o fígado inteiro. Ele me contou, os olhos azuis ainda mais afundados: a partir de janeiro do ano que vem, o colégio onde dá aula será militarizado. Em cada cidade do estado, um colégio será entregue aos militares. Daqui, pois, quatro rápidos meses. Ele terá que fazer a barba, vestir-se de calças compridas e tudo o mais que lhe mandarem fazer. Talvez bater continência, e envergar seu vasto conteúdo intelectual diante algum coronel cujos horizontes costumeiros não vão além dos mesmos muros e mesmos escritórios de ofícios marciais expedidos. Um coronel que ganha, deixa eu fazer aqui as contas, seis vezes e meia mais do que ele. Ou prestar a mesma prostração regimental diante um tenente que ganha três vezes mais, ou diante um soldado que ganha quase duas vezes mais do que ele. Todos esses ganham mais e trabalham bem menos. Todos esses são acobertados por lei para se aposentarem com 25 anos de carreira, enquanto meu amigo Emerson, que purga a mais insalubre das profissões, terá que passar por aquela conta sarcasticamente mirabolante da Rainha de Copas de somar 95 anos para se aposentar. Já insinuaram os segredos que devem ser preservados na caserna-escola, as partes dos livros que devem ser recondicionadas, mutiladas ou reescritas de maneira angularmente reversa. Ele imagina, se é que consegue, os alunos marchando no pátio, a burocracia anacrônica opressiva que irá se instaurar em um meio tão inócuo a ela, e que irá recair em cima de professores que, como ele, que estão a mais de dez anos na profissão, me parece de uma verdadeira violência. Isso será um evento único na história recente de um país ocidental democrático, um dos ineditismos servidos a escusos interesses individuais de alguns escolhidos para o enriquecimento descomunal que acontece nesse paisinho, sempre às custas do interesse público e da mínima lógica funcional. E o povo... o povo faz a sua parte... aplaude, tece loas, se arrebanha com a boca de caninos sedentos nas pre-filas para a matrícula de seus filhos que passarão por uma seleção meticulosa de admissão... o povo se compraz a ser apenas o povo de paisinho falido, fingindo que não sabe quem são os felizardos que aumentarão ainda mais suas riquezas com contratos de sistemas de ensino inventados às pressas para se inserir no esquema todo.

Segundo: um dos humores da minha vida é sempre me prestar a metáforas vivas, iridescentes, espraiadas na generosidade simbólica do meu cotidiano. Querem saber a nova sobre os representantes das mentalidades nacionais? Com vocês, os personagens dessa comédia: o intelectual inexpressivo, os playboys filhos de papai, a força policial mancomunada, e o povo... ahhh, o povinho boçal e sem representatividade...

Comecemos. A casa que faz divisa com o muro detrás da minha casa está desocupada faz anos. Serve, apenas, para festas retumbantes, com som automotivo e gritos dos jovens filhinhos de papai que voltam de suas faculdades na capital para curtirem finais de semana e feriados prolongados. Me informei: são os filhos de comerciantes locais, de dentista (o mesmo que me fez duas restaurações nos molares), de médico e não sei mais quem. Os caras usam a casa como se não houvesse amanhã, ou como se estivessem em uma ilha sem ninguém por perto. Como moro em um paisinho bem típico, sabendo da necessidade de se engolir sapos para poder aumentar o número de dias em sua calculadora etária, o que é salutar de se fazer no país ocidental mais violento do mundo, nas primeiras festas eu relevei. Mesmo impossibilitando sono de minha esposa grávida, e o meu, nós relevamos. Se tivesse acordado minha filha Júlia, lá vai, mas a Júlia não se incomodou nem um pouco com isso. Mas eu chamei a polícia várias vezes, e os boyzinhos, nossa classe intelectual por direito nominal configurado, visto que são todos universitários das faculdades de direito e medicina e odontologia, futuros juízes e senhores de nossos destinos e de nossas vidas, foram informados pela polícia que o reclamante era o vizinho do muro de trás. Daí começou a provocação. Janelas batendo às sete da manhã. Latas de cerveja atiradas na frente de casa. Uma vez uma sacola de lixo aparecendo no meu quintal. Eu filmei tudo. Produzi umas duas horas pormenorizadas de documentário sobre tudo. E fiz uma denúncia na delegacia. 

Coloquei a minha vizinha da direita, que reclamou vorazmente da balbúrdia para mim, e outro vizinho, como testemunhas. O que aconteceu? Quando chamados pela delegada, afirmaram que não ouviam nada porque, 1, tomavam corticoides que os apagavam, 2, que ouviam assim assim certo ruído, mas que isso não lhes incomodavam em nada. Não incomodavam, sendo que as vidraças da janela chegam a tremer. A delegada é a mesma da qual paguei três colchões de multa para a Santa Casa por tê-la "desacatado" por certa vez exercer meu papel de crítico em dizer que ela era negligente com seu trabalho. Não tem ela, pois, razão para gostar de mim. Mas as evidentes tentativas para descaracterizar o crime, partindo dela, não tinha só a ver com sua antipatia retaliativa por mim, mas porque o dono da tal casa foi funcionário comissionado da delegacia por dois anos, e este levava a delegada mais seus dois cãezinhos para consultas em clínicas veterinárias na capital, utilizando a viatura nas viagens. Os policiais só falaram a verdade nos depoimentos, porque eu fiz questão de ser taxativo em dizer que os havia filmado duas vezes em que foram acionados comparecendo à frente da casa e pedindo com excessiva polidez para que os filhos dos ditos poderosos "abaixassem um pouco o volume". É de gelar o sangue diante a potência metafórica sobre a fervilhante corrupção pátria ver todos esses elementos reunidos.

Me faz lembrar um conto de Chécov, em que um senhor chama a empregada de sua casa e passa a violentá-la com palavras, a insultando, a acusando de crimes imaginários, até fazê-la chorar descontroladamente, para então sorrir e confessar que tudo não passava de brincadeira de sua parte. A serviçal sai aliviada e feliz do quarto do amo, e esse conclui: "Meu Deus, é por isso que esse país está atolado na lama, com um povo assim."

E depois querem que eu leve a sério o que aconteceu neste dia 16 de agosto?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A corrupção é nosso patrimônio cultural



Mês passado participei de um simpósio profissional. Desde quando fui comunicado fiquei puto da vida, porque tais coisas não servem para nada a não ser atender a determinadas exigências burocráticas sem pé nem cabeça por parte de instituições de controle. Mas no final, valeu a pena. Fiquei conhecendo ainda mais o quanto somos um povo subdesenvolvido no caráter e na moral. Somos um povo tosco espiritualmente. Foi um ensinamento de reafirmação de todas essas tristes verdades cotidianas. Lá estava só gente graúda. Juízes de direito, promotores do MP, e, especialmente, entidades importantes da minha profissão. Como vou falar sobre coisas que me comprometeriam, vou escrever com lapsos de nomes e empregando o mínimo de referenciais possíveis. Beneficio-me sempre do fato deste ser um blog obscuro, praticamente desconhecido, que nenhum de meus colegas de profissão imagina que exista. Então, lá vai. (Juro que tudo neste texto é verdade, e sem nenhum exagero.)

Costumo ser rigoroso em questão de horários. Cheguei uma hora e meia mais cedo (foi exagero, eu sei, mas queria me ver livre logo da tralha), de modos que pude estacionar de frente ao prédio, na sombra. Estava munido de meus fones de ouvido, que pretendia usar na surdina, sentado no local menos visível possível. No dia anterior havia comprado O livro do desassossego, por inacreditáveis dois reais na Fnac, mas fiquei pouco prazo o lendo, pois o espetáculo que estava para se produzir à minha frente me tomaria totalmente a atenção. O prédio fica em uma grande avenida na capital, tendo na esquina uma rotatória. Os carros foram chegando. As vagas à minha frente e atrás foram preenchidas, e logo se via carros barateando à procura de estacionamento. O primeiro ato de nossa contumaz grosseria nacional, de nossa alienação quanto ao respeito ao outro, de nossos arranjos e jeitinhos brasileiros, eu vi de um motorista que estacionou de frente à garagem da casa que fica em frente ao prédio. Não bastasse que ele interrompesse sem o mínimo sinal de comiseração a garagem de alguém, o indivíduo aproximou seu carro do que estava à frente, para-choque com para-choque. Saiu do carro com a cara mais limpa possível, e entrou no prédio, cujas portas já estavam abertas. Olhei para os lados para ver se alguém presenciara tamanho descalabro, mas aí que comecei a ver as tantas outras façanhas que estavam em andamento. Na casa ao lado do prédio, que me pareceu um misto de residência e loja de eletrônicos, já estavam três carros estacionados NA CALÇADA, em frente aos três portões nos quais haviam ostensivas placas com letras em vermelho avisando GARAGEM NÃO ESTACIONE SE ESTACIONAR O GUINCHO SERÁ IMEDIATAMENTE ACIONADO. Em frente a uma mini-garagem com três vagas preenchidas pertencente ao prédio, já havia uma trupe de caminhonetas Hilux estacionadas. Toda a avenida ficou tomada de carros. Quatro horas depois, quando saí para o almoço, eu vi o absurdo do absurdo: em uma das ilhas da rotatória havia um Golf estacionado EM CIMA. Durante os cursos da manhã, uma funcionária constantemente interrompia o palestrante para pedir que determinados donos de determinados carros retirassem seus veículos dos locais proibidos em que os deixara, e determinados sujeitos encasacados com ares suntuosos de bons pais e diletos trabalhadores de altos salários se levantavam e andavam calmamente até a porta.

Há muito minha profissão perdeu qualquer vínculo médico, o que é bastante natural, visto que a própria medicina humana pouco tem de medicina. Agronegócio é a palavra sacramental da vez desde que eu fazia o primeiro ano na faculdade. De modos que eu não deveria ter ficado assustado com o que foi dito nas palestras. Nenhuma referência a bem estar animal, a não ser em termos estritamente de consumo: a manutenção de níveis de stress condizentes com um bom ph da carne. O que mais se via ali era a relativização absoluta de todos os códigos de conduta de fiscalização, em prol dos lucros dos empresários e latifundiários. Praticamente, nenhum animal poderia ser descartável, que doença fosse que o estivesse acometendo. Só se a coisa fosse realmente brava. Animais com aspectos repulsivos (e aqui foram apresentadas várias fotos que revoluteavam o estômago, desde mutações com a quinta pata saindo das costas, até tristes animais em puro couro e osso e com cancros purulentos de diversas nomenclaturas patológicas), todos eles tinham seu aproveitamento. Se uma bola de pus fosse descoberto no fígado, era só cortá-la de forma circundante e o restante poderia em sã consciência ser fatiado e vendido nos balcões dos açougues. Um detalhe capital foi estabelecido para o devido esclarecimento didático da plateia: a diferença entre um animal caquético e um animal excessivamente magro. Era fácil se ater apenas ao aspecto fundamental: os dois poderiam ser consumidos, com condicionantes. O empresário não poderia ficar no prejuízo. Faça-se embutidos, patês, charque, farofas. 

A cereja do bolo foram os vídeos que um dos ministradores apresentou sobre seus serviços. Suas mãos aparecem, céleres, cortando todas as partes da carcaça, com rapidez, tudo feito para que ele parecesse tão virtuoso como um pianista de fama mundial. O Horowitz da faca. Enquanto mostrava os vídeos, ele ressaltava a importância de que o serviço fosse bem feito porque a carne brasileira é exportada para a Europa e para a Rússia. E nos vídeos, não apenas ele, mas nenhum de seus funcionários menores de equipe apareciam usando luvas. NENHUM. Suas mãos pegando em cisticercos, em carbúnculos, em edemas e líquidos orgânicos de todos os tipos, sem proteção alguma, e a mesma mazela submetida a todos seus auxiliares. Na hora das perguntas, ninguém foi capaz de soltar esse questionamento no ar, em uma sala tão repleta de patrícios automobilísticos infiltradores de espaços urbanos indiscriminados. Eu fiquei embasbacado, mas não poderia ser eu a fazer a pergunta, de maneiras que instiguei um desses falastrõezinhos de palestras que ficam em estado de volatilidade estalante a fazer, e ele pronunciou exemplarmente as palavras com o peito estufado. O palestrante titubeou, pigarreou, admitiu que o uso das luvas era obrigatório, e, fechando rapidamente o assunto, disse que alguns profissionais não a usavam de vez em quando porque retirava um pouco a sensibilidade para a descoberta de incorreções nas carnes. Tive que me controlar porque meu palhaço incorrigível e histriônico possesso interno quase saltou: camisinha então, nem se fala!

Será que ainda existem ingênuos que acreditam que a corrupção é uma deficiência das instâncias menos abastadas do povo? Os altos escalões são muitíssimos mais corruptos e aptos ao crime do que o pequeno comerciante e o aventureiro peripatético que vende produtos do mercado negro nas praças. O Brasil está em rápido processo de implosão, e o que ficará de epitáfio pode muito bem ser a frase do Marcola, o traficante que diz saber de cor o Divina Comédia, quando esteve diante os juízes e promotores: Vocês por acaso tem moral para me julgarem? Vocês são muito piores do que eu.

terça-feira, 24 de março de 2015

A vitrine



O nível de indigência espiritual do país anda tão grande que a realidade nem se presta mais a produzir alegoria que se preze. O sujeito tem o mesmo nome do país, é funcionário efetivo da coletoria de impostos estadual, e ferrenho apaixonado pelo político mais conhecido do estado. Só esses elementos mostram o quanto a providência pouco se importa em dar uma grama que seja de sutileza para congratular nossa inteligência; ao invés disso, nos dá a brutalidade da redundância e a pobreza dos arquétipos mais fajutos. É funcionário mas nunca trabalhou nessas suas onerosas décadas de vilipendiação do dinheiro público. O escritório da coletoria está instalado no centro da minha cidade, bem próximo à praça municipal e em uma rua de grande circulação. De modos que o sujeito é figura folclórica, com sua barba grisalha, seus indefectíveis óculos escuros, sua obesidade de bonachão, sua voz de capanga do baixo clero, rouca e rápida, que encerra na hora que quer o monólogo que leva com todo mundo, o mesmo e renitente e cansativo monólogo de atualizar as últimas fantásticas grosserias que fez seu coronel. A única vez que conversamos eu pude ver o quanto nós brasileiros estamos relegados ao barbarismo para não interessarmos aos nuances do discurso, pois ele era exato e matematicamente como descrevia a piada popular na qual o conceituavam: ficou quinze minutos monologando com um ar de absoluta trivialidade sobre a vez em que presenciou um homem que criticou seu coronel da plateia de um comício ser colhido no final e torturado com veemência. O aterrorizante era que eu olhava às outras pessoas que estavam nas mesas do café da manhã ouvindo a coisa, e elas não expressavam o menor espanto, o menor pasmo, enquanto o sujeito que leva o nome do país descrevia com um sorriso simpático como eles sovavam o dissidente, como o próprio coronel lhe socava o rosto até o sangue verter, como o coronel, do alto de sua alta estatura e da proeminência de seu sobrenome na história do terror nas mentalidades do estado o xingava de vagabundo, dizia fala agora o que você disse lá. A voz do capanga era enternecedoramente rouca, aos poucos se fazia bastante simpática, aos poucos o descomedimento da sua narrativa, que pairava bem acima dos códigos de leis e da dita soberania dos povos e da dita liberdade de expressão, lhe dava a graça que tem todo bobo da corte ridículo demais para que não se invista da imunidade divinatória de seu déspota. Pois bem, nessa semana, seu diretor regional parece que se cansou dele. Talvez a reação tenha vindo porque de toda a trupe de cobradores de impostos da região, o capanga tenha sido o único que obteve a promoção máxima do cargo, graças à seus laços vassalais com o coronel, fato que elevou seu salário para mais de 10 mil reais, em acintosa assimetria com os salários dos outros colegas de serviço. O governo do estado criou postos de serviço em que juntam diversos órgãos em um mesmo local, facilitando em muito a desburocratização, e os colegas do capanga optaram por trabalhar em um desses postos já faz alguns meses. Como nesses postos seria impossível ao capanga continuar sentado em seu sofá à espera do horário de fim de expediente, pois ele não poderia mais escorar em seus colegas visto que ficaria atrás de uma mesa pessoal para a qual viria um grande afluxo de pessoas, o capanga disse não ao diretor regional. A força de seu vínculo com o coronel é tão grande, que o diretor regional nada teve o que fazer. O capanga ficou por bons meses na mesma condição a que estava acostumado, das oito da manhã ao meio dia, e das duas da tarde às seis, na sala do que era antes a coletoria, que agora estava vazia, sem computadores e sem os outros três funcionários, apenas ele sentado no sofá que trouxera de sua casa após a dissidência, com um ventilador e as luzes ligadas, lendo jornal. Todos podiam vê-lo ali, mais uma colaboração do pauperismo metafórico pátrio, a vitrine da inépcia salvaguardada e da opulência opressiva que o poder pontualiza na esdrúxula cotidiana para que todos reverenciem a onipresença das velhas estruturas de desmandos e jamais esqueçam a ordem da cadeia predatória, o Igor acorcundado que uma mínima distorção no sarcasmo da história deixaria de ser uma piada a qual o inconsciente de todos acharam o único meio de combatê-lo relegando-o ao ridículo, e passaria a descalavrar suas profundas correntes da corrupção ao se tornar um dos agentes do extermínio, da deduração, da deportação em massa. Depois ele saiu de lá, sabe-se lá se por vontade própria. Mas o certo é que pessoas assim, debaixo do nariz da opacidade coletiva, jamais deixam de se dar bem.

sábado, 26 de abril de 2014

Um Aleph aleijado



Esses dias me deparei com um dos programas do Chacrinha na tv paga, e, sério, foi uma experiência psicológica aterrorizante. Só não gritei porque o conforto da distância temporal me assegurava que não se deve fazer isso quando uma lembrança demasiadamente ruim volta para nos assombrar. E ver o Chacrinha, um velho vestido de palhaço espacial, com ceroulas e bermuda prateada, falando e falando e ninguém escutando_ ninguém ouvindo sua caquética voz anciã_, enquanto alguém da plateia erguia um cartaz pago escrito “Deixem o Sarney trabalhar. Ele é amigo do Brasil”, me fez ter uma pane psíquica. Senti um enorme desejo de deitar no colo da minha esposa, ou voltar para a casa da minha mãe para que fizesse isso com ela, e ser consolado. “Calma, Charlles! Foi só um sonho ruim. Passou”. Revi as salas escuras da minha infância, senti subindo de novo pela espinha a burrice centenária sacralizada pelos esquemas da pátria, a estupidez ufanista que me mantinha sempre de cabeça baixa e sem horizontes, sempre à espera da latente ordem de fracasso que me abateria em minha vida adulta. Como fugir desse regramento? Como escapar do mais latino-americano dos países latino-americanos? Como colocar a cabeça por sobre a superfície e… RESPIRAR? Ver os Titãs no Chacrinha, o Leo Jaime magrinho sem camisa, cantando sua parcela paga de alienação e todo mundo aceitando gratificado como se ele fosse os Beatles. Um mundo sem concorrência, sem diversidade, um mundo falso em que o pior do pior em matéria de entretenimento era jogado sem piedade em cima de nós, a ponto de colocarem um velho_ um velho! (parece revolucionário em seu nonsense, mas em se tratando do Brasil de 1980, era apenas a mais intrancedente das gambiarras), para nos distrair nas tardes de domingo, nas sagradas tardes de tédio cósmico dos domingos. Só um brasileiro médio da minha idade, no universo todo, sabe plenamente o quanto um domingo pode ser metafisicamente triste. O quanto a televisão é um Aleph aleijado que foca unica e exclusivamente um mesmo ponto em toda a infinitude, e declara, como o arauto de Joseph K., que aquele ponto está aberto para mim e mesmo assim, essa pobreza toda, está destinada a me expulsar um dia.

Olhando o Chacrinha, eu confirmei o que acontece. O que mudou em nossa vida psíquica de brasileiro? Para boa parte de nós estarmos, mesmo que retoricamente (porque jamais os militares retornarão ao poder, para grande alívio), brincando com uma nostalgia da ditadura? Para mim, ouso diagnosticar, é porque ainda estamos em uma espécie de infância nacional. Olha só o que fizemos quando fomos 120 mil na Rio Branco: nada! Tivemos toda a estrutura flamejante da mudança em mãos (com a rede Globo pedindo desculpas ao vivo no JN, e os políticos cogitando criar um parágrafo na lei em que a corrupção seria crime hediondo!), e a deixamos perder. Como um cão que corre atrás de um carro, e que quando o carro para olha constrangido para o vazio com uma imensa vergonha de não saber qual o gigantesco passo adiante que deveria dar. Tenho pena dos que falam a sério sobre uma ditadura como salvação para o Brasil. O Brasil não tem salvação. Simplesmente isso. Vamos afundar, e afundar, e afundar cada vez mais, até que algo além de nós aconteça, algo que não depende da benevolência ou maldição de nenhum deus, mas de uma configuração matemática. Quando o estado brasileiro sucumbir de vez diante tanta hipocrisia e prostituição moral de toda as mais distorcidas formas, a equação atingirá seu zero de retorno ao início. Pode ser que esse dia seja um dia glorioso de sol, ou mais um desses domingos cinzas de irretocável tristeza. O bom é que eu já não estarei mais aqui. O guardião da porta já terá me expulsado há muito tempo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Valesca Popozuda



Parece que um dos mais complexos dilemas intelectuais do Brasil de hoje é saber o que quis dizer um professor de ensino médio quando resolveu colocar em sua prova de filosofia uma questão em que diz ser Valesca Popozuda uma grande pensadora. Eu não sabia quem era Valesca Popozuda até o advento dessa bombástica revelação, mas, pela amplitude que alcançou o ato enigmático do professor, está na cara que a dita tem mesmo o nível de Grande Pensadora Brasileira, ao menos pela forma em que molda o esteticismo de grande parte da população. Que há anos a ausência de argumentação nos debates intelectuais brasileiros é uma realidade entediante, isso é sabido por todos, mas o erro de interpretação_ ou, melhor dizendo, a má-fé_ desse gesto um tanto simbólico do tal professor revela um automatismo por parte dos ditos formadores de opinião que fica claro pouco lhes interessar os benefícios para as massas que a Valesca Popozuda possa oferecer. Eu flano pelos sítios cibernéticos dos pensadores progressistas (visivelmente menos grandiosos e menos profundos que a Valesca), e vejo que agora eles se cumprimentam usando o refrão da música da Grande Pensadora: "beijinho no ombro". Aonde se vai, os catedráticos e os arremedos de alunos clubistas deles dizem um para o outro: "beijinho no ombro", e completam inventando um certo "recalque" que eles parecem ver na horda de seus inimigos, inimigos esses que estão solidamente calcados no esteriótipo de "burgueses", "classe média", "direita", "Globistas", "Vejaistas", etc, etc. Ou seja, todos que não sejam de algum nível apadrinhados por um universo imagético firmado nas mesmas apreensões do que era conhecida uma esquerda pré-século XXI nesse país (uma esquerda que descartou a sua história e o presente confeccionado por dez anos de traições, corrupção, assassinatos, conveniências de sociedades partidárias prostituídas até a medula, e finge absurdamente que nada aconteceu), são postos como recalcados, centrando em um arranjo improvisado sem a mínima consistência todo o preconceito dessa classe em um repúdio destes contra Valesca Popozuda. Como se alguém, fora de um restrito nicho midiático ocupado com divulgação de música popular, algum dia tenha se preocupado com Valesca Popozuda. Na falta de situações intelectualmente interessantes, que há anos repete o mesmo tédio discursivo nacional, esses intelectuais investem Valesca Popozuda com a aura de mártir dos excluídos; inventam para ela uma atmosfera de perseguição e expurgo; por pouco o automatismo deles não vai além em dizer sobre uma Valesca Popozuda presa e torturada, seviciada pelas armas dos ditadores abastados e retornada em glória para vingar de seus inimigos e levar a boa nova para o povo. E nesse Forte Apache e G.I. Joe em que brincam os progressistas, fica perdido de qualquer tentativa de análise contundente o que quis realmente dizer tal professor de filosofia, que desespero ou estoicismo humorado existe por detrás de sua questão, o que isso desanuvia sobre o crime que se comete todo dia contra a educação de milhões de jovens já antecipadamente abortados para os prazeres reais da cultura e do pensamento.

Eu já fui professor por dez anos em escola pública, e sei o que quis dizer tal professor. Não foi um deboche, não foi uma ironia, não foi um desrespeito à Valesca Popozuda, não foi um ataque contra seus alunos, não foi tão pouco um desejo de fama. Embora o próprio professor, mantendo uma diplomacia exemplar que demonstra um leitor profissional de filosofia, tenha usado de uma ambiguidade em suas entrevistas aos jornais, lançando uma insinuação cordial e não afeita a mais polêmicas idiotas de que "por que Valesca Popozuda não pode ser uma grande pensadora?". Assim, ele volta tranquilo para seus exercícios de professor, e não desperta o foco dos progressistas contra ele_ ele que deve saber muito bem que nesse país nunca houve debate, mas só louvações ou condenações, e conheça bem a astúcia que se deve ter para a sobrevivência. E de quebra, ensina a seus colegas de profissão que o mundo midiático de hoje, com uma câmera de celular e com as redes sociais, transforma uma desmaiada bobeira em uma bandeira de guerra. O que ele quis dizer, retorno, é o que a maior parte dos professores dizem todos os dias ao estado filistino criminosamente omissivo e ao aluno zumbi que se senta diante ele nas aulas. Foi um gesto regrado de desistência, sem drama, sem reivindicações: apenas um gesto marcial de desistência que diz mais da preservação psicológica do professor que qualquer forma de ironia: é como essas escoras para se descansar as pernas, alongando-as por debaixo da mesa, que os funcionários de bancos tem afim de evitar o L.E.R.; essa questão da prova feita pelo professor é uma terapia inocente para evitar em si mesmo um L.E.R. mental a que os professores estão sujeitos diariamente. Eu mesmo como professor colocava várias dessas questões nonsense nas provas que eu dava para os alunos, e uma vez, chamado a ajudar um outro professor em uma aula de religião, transformei a aula em um culto evangélico em que, enquanto meu colega lia passagens na Bíblia, eu ia impondo a mão por sobre a testa dos alunos enfileirados e os próprios protótipos do capeta se lançavam ao chão encenando um exorcismo, estrebuchando e espumando pelas bocas. Daí os alunos se levantavam, gritavam um "Aleluia, Pastor!", e voltavam para suas carteiras com as malandras cabelas baixas redimidas de todo mal, purificadas de todo pecado. E daí meu colega anunciava que eu iria passar de carteira em carteira coletando o dízimo, ajuntando uma advertência de que quanto mais generosos fossem em encherem a sacolinha, mais a graça de Deus se voltaria para realizar seus objetivos santos de terem uma Hilux, uma tv de plasma, um celular de último modelo...,  e eu passava com uma sacola aberta de supermercado encontrada no lixo e eles depositavam, com caras compungidas, tiras de papel rasgadas dos cadernos no interior. A barulheira que fizemos contaminou toda a escola, e mais tarde ficamos sabendo que as coordenadoras e os outros professores não foram ver o que era porque, simplesmente, ficaram com medo. Essa frase, ficaram com medo, nunca me saiu da cabeça; com medo de quê? Considerei esse temor deles como um diagnóstico do imaginário de terror subjacente que domina tais profissionais; eles teriam pensado: enfim um professor não aguentou e está sucumbindo ao L.E.R; enfim o estoicismo que preserva por um triz nossa sanidade mental diante tanta coisa contra nós cedeu, e ele agora deve estar pegando as cabeças dos alunos e as arremessando contra as paredes, e seu colega deve estar arrastando pelos cabelos o pessoalzinho miúdo do fundão e dando-lhes chutes nos traseiros, e não seria nem um pouco conveniente que algum de nós vá lá interromper um momento sagrado de catarse, seja lá as consequências que isso vá ter.

O que eu percebi é que foi uma catarse para nós, professores, e para os alunos, submetidos ao positivismo idiota de regras religiosas implantadas nas escolas sem debates, com um cristianismo em ponto morto e cheio de uma rançosa piedade sem conteúdo. Nada contra o ensino religioso nas escolas_ pelo contrário, sou a favor_, mas da forma como é feito não foge em nada ao ensino de fachada, ao contar as horas e assinar pontos, ao preencher as estatísticas forjadas para benefícios políticos do governo. Esse contexto rico e carregado de uma urgente clemência pelo debate, os progressistas fingem não ver, por ser algo espinhoso demais, sem charme, incômodo demais. O que interessa a eles é a superfície glamorosa, a latência pelas palmas que tem o olhar maniqueísta puro, o eleger inimigos e combatê-los com hinos de guerra. Nós contra eles. Que a educação se foda diante esse arranjo simplório de usos pessoais. Que as vítimas continuem ouvindo Valesca Popozuda e ela as continue condicionando às suas vidas sem oportunidades, à hermética imobilidade social ditada pela rasura do aprendizado a como acessar o conhecimento. Que continuem a ser a antropológica massa de manobras pelas elites pensantes ególatras que só existem nesse país.

Postei esse comentário em um blog progressista, em um texto padrão sobre a Grande Pensadora:

Rapaz! Que texto! Exemplar de capenguice de tom e de clichês pomposos. A começar com essa forma epistolar querendo palmas e com a série de perguntas. Por isso que a esquerda brasileira está completamente desacreditada. Defendendo idiotices midiáticas como se fossem salvações espirituais para os “excluídos”, como se Valesca Popozuda fosse a única coisa em um universo de opções culturais que a “periferia” e os “desprivilegiados” tem para possuir. Como se em cada casa hoje não houvesse um computador ligado à internet, com uma reserva sem fim de música e arte em geral de primeira qualidade, a ser pego de graça. A esquerda deveria promover o fim dessa alienação em massa de novelas da Globo e funk apologético de prostituição e tráfico de drogas, e levar algo realmente construtivo para as massas. Mas vocês foram os primeiros a aplaudirem o tal beijo gay na tv, como se fosse uma revolução sem tamanho na expansão do intelecto brasileiro; uma cena unicamente mercadológica de uma empresa que por 40 anos tratou os gays como esteriótipos bizarros, como macacos de realejo. Mas… acontece que vocês estão longe de querer promover um debate verdadeiramente progressista, né. Todo mundo sabe disso. Os interesses da esquerda-oligarca brasileira estão vinculados a ganhos pessoais e a sonhos partidários de grandeza e poder. O ruim para vocês, é que não consiste mais em nenhum segredo. Não há um infeliz que não tenha pleno conhecimento disso.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Felicidade Feérica de Cada Semana


Talvez seja uma impressão fundada apenas numa certa exaustão sensorial de quem não gosta de futebol e vive num país onde o futebol é uma marca genética poderosa; e não uma apreensão baseada em fatos. Mas me parece que espocam demais fogos de artifício todas as semanas nos últimos meses, para se comemorar no país inteiro um time estadual que alça à categoria de campeão seja lá de que nome pomposo. Dentro dessa poluição elegíaca à virilidade de um clube de futebol, entremeada a felicidades bélicas do mais primitivo patriotismo bairrista, me parece que a cada semana uma conglomeração de torcedores rivais tem motivos de gastar uma quantidade substantiva de dinheiro em fogos, e uma quantidade ainda maior de ferocidade feérica pela superioridade angariada com a sobreposição anual de sua camisa à camisa de seu inimigo_ ainda que essa superioridade seja marcada pela mais inconsciente ironia, já que dura um ano e no ano que vem uma outra estará cantando as graças olímpicas de seu lugar. Pela televisão vê-se o rosto em prantos de um rapaz agradecendo seu pai por ter-lhe feito amar o Corinthians; vê-se que dois ou três jovens_ os números diante a flâmula incontinente das massas se torna um expoente trivial_ foram mortos nas comemorações da vitória do Fluminense contra não sei quem; um motorista que se viu submetido a uma tentativa de linchamento ao entrar numa avenida urbana tomada pelo campo adversário, teve que sair atropelando meio mundo de pessoas enfiando seu carro e proporcionando cenas que lembram a caça ao mamute de filmes da década de 1920. E não é para menos que os intelectuais_ ou aqueles que mais se adequam ao pragmatismo dessa categoria_ da mídia nacional sejam, em sua retumbante maioria, jornalistas esportivos ou entusiastas fervorosos do futebol, a ponto de cumprirem os itinerários da via sacra de perseguidos e assassinados que em outros países menos direcionadamente passionais vemos ser o sina natural de dissidentes políticos. Não há em nenhum outro país um escritor que tenha parte de sua obra autenticada por um esporte como vemos aqui nas crônicas canônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol. Os que me veem à memória são a tauromaquia de Hemingway, que era usada como artifício filosófico da violência reacionário do homem que fez sua "paz em separado" da sociedade, e as caçadas siberianas de russos como Tolstói e Turgueniev, cada um deles como propósitos cênicos secundários.

Mas em nenhum país um escritor teceu frases tão carregadas de uma filosofia inédita a uma hermenêutica do futebol quanto Nelson Rodrigues, com seus aforismos poderosos de "pátria de chuteiras", etc. E em nenhum pais simples radialistas esportivos se tornam porta-vozes políticos involuntários ao recambiar suas críticas para o terreno da administração do estado, denunciando governadores, sofrendo em consequências perseguições que devastam sua vida pessoas, familiar, e lhe deterioram o espírito. O caso mais claro é o do Jorge Kajurú, que foi defenestrado para fora do estado e se converteu no primeiro exilado político interno que a história do país tem conhecimento. E na semana passada, outro jornalista esportivo foi executado ao sair da emissora de televisão onde trabalhava, em Goiás, por possível desafeto de opiniões esportivas. Se o futebol é tão poderosamente determinante da vida e da morte no Brasil, não seria para menos conjecturar em cima do fato óbvio que esses jornalistas tem uma premência única sobre a formação de opinião popular. O que eles falam é motivo para tremer o sossego de congressistas e políticos tradicionais; e motivar o homem comum que lhes assistem a pensar sobre determinados assuntos. Por isso o meu pasmo ao ver ontem, no jornal da tv cultura do estado, o pai desse jornalista assassinado, o senhor Mané de Oliveira_ ele também notório jornalista esportivo_ dizer numa entrevista, com o rosto encolerizado de indignação e dor: "A pessoa que mandou matar meu filho é muito perigosa; os que o executaram não são perigosos, esses não, pois eles são profissionais e receberam dinheiro por isso. Mas o mandante, esse sim é um criminoso perigoso." Diante isso, e do constante e infinito espocar de fogos de campeonatos, fica o questionamento: a senilidade dos dirigentes espirituais do povo vem de seu isolamento na intelectualidade brasileira, visto sua imensa solidão na batalha contra os poderes instituídos, ou vem de uma espécie de senilidade retroalimentar que emana desse próprio povo?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Kafka, Benjamin, Tolstói, João do Rio

Acabo de ler um dos melhores ensaios sobre Kafka, o Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte, escrito por Walter Benjamin. Nele, uma peça magnífica cujo único similar que conheço é uma análise das cartas de Kafka a Felice produzida por Elias Canetti, Benjamin estuda as duas interpretações mais correntes sobre a obra do autor de O Castelo: a familiar e a teológica. Alcançando o melhor que há nessas duas vertentes, Benjamin conclui que o principal personagem em Kafka é o esquecimento. Através de muitos excertos de contos e dos três romances, Benjamin esclarece que Kafka bebia do Talmude, das primitivas fábulas judáicas, dos contos chineses sobre Confúcio, de tal modo que era um caso inédito de filósofo que descartava a filosofia em favor das fábulas, e era um fabulista que descartava a imagética dos animais falantes infantis para ser, involuntariamente, o sucessor direto de Kierkegaard e Pascal. Numa conversa com seu amigo Max Brod, Kafka aventa a possibilidade de existirem várias outras realidades dimensionais acima da nossa, onde os seres ali viventes são passiveis de maior esclarecimento e, por isso, mais felizes, numa antecipação prodigiosa da Teoria das Cordas. Brod, fascinado com essa visão, pergunta ao amigo: "Existiria então esperança, fora desse mundo de aparências que conhecemos?" Ao que Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita _  mas não para nós."

Nesse diálogo, na visão lúcida de Benjamin, se esconde toda a tese de Kafka sobre o esquecimento, sua concepção religiosa da deposição dos fardos dessa vida, de que tudo é inútil, toda preocupação e toda luta é vã. E, contrariando a superficialidade das primeiras impressões, isso constitui-se no mais puro otimismo kafkiano. Na mesma linha vai o texto que a professora Rachel Nunes postou em seu blog hoje, uma crônica de João do Rio em que um mendigo professa a teoria kafkiana da eterna inutilidade. E com isso, Benjamin corrobora com as teses de Tolstói de que só existe arte quando nela existe o elemento moral, mesmo que intrinsecamente subjacente. Há moral mais fina que nos microcontos de Kafka, em que Bucéfalo abandona seu dono, Napoleão, e senta-se numa paisagem tranquila, à sombra de uma árvore, a ler antigos livros sobre batalhas? Ou o conto aforístico do índio, em que Kafka diz que gostaria de ser um índio rumando velozmente sobre um cavalo em direção ao horizonte, e que, progressivamente, lhe sumiam debaixo as celas, os arreios e, por fim, o cavalo? E não é uma curiosa intersecção desses dois autores ambos verem que na origem da escrita descança a necessidade sagrada do resgate de um deus? Mas entre o moralismo de Kafka e o de Tolstói interrompe-se uma encruzilhada. Tolstói, mesmo absolutamente descrédulo, ainda se esforçava por apostar na mudança deste mundo. Quem tem razão?



Hoje, no jornal da Globo da manhã, noticiou-se que 3.426 servidores do Judiciário e magistrados movimentaram, de forma suspeita, cerca de 855 milhões de reais de 2000 a 2010. Com tais informações, vamos dar uma olhadinha no tópicos mais comentados da revista de maior difusão do país:

Comportamento: beber cerveja todo dia faz bem à saúde.
Reality Show: conheça, um a um, todos os participantes do BBB12
Televisão: BBB12 começa com histeria, incitação ao sexo, e campanha contra evangélica
Automóvel: o Fusca, agora em versão elétrica
Afeganistão: soldados que urinaram em corpos deverão se explicar
Gente: corre bem o transplante de Reynaldo Gianecchini
Crime: Bruno treina para voltar ao Flamengo, diz advogado
Cultura: similar a sigla de droga, título de novo disco de Madonna rende marketing muito antes do lançamento
Neurociência: internet pode afetar o cérebro assim como álcool e cocaína
Televisão: BBB12: ex-namorado de Renata se diverte com assédio a estudante.



Há salvação?

"Sancho Pança, que aliás nunca se vangloriou disso, conseguiu no decorrer dos anos afastar de si o seu demônio, que ele mais tarde chamou de Dom Quixote, fornecendo-lhe, para ler de noite e de madrugada, inúmeros romances de cavalaria e de aventura. Em consequência, esse demônio foi levado a praticar as proezas mais delirantes, mas que não faziam mal a ninguém, por falta do seu objeto predeterminado, que deveria ter sido o próprio Sancho Pança. Sancho Pança, um homem livre, seguia Dom Quixote em suas cruzadas com paciência, talvez por um certo sentimento de responsabilidade, daí derivando até o fim de sua vida um grande e útil entretenimento." (Franz Kafka)


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os Invisíveis

Leio sobre a "mãe dos trabalhadores americanos", Mother Jones, num caderno especial da Le Monde Diplomatique. Mother Jones está, para todos os efeitos da posteridade, praticamente esquecida. Sua história é um desses milagres que revelam que a obviedade do animal pensante que somos ficou perdida em algum lugar entre o saceio do estômago e a flacidez dos glúteos, e comportamos hoje A exceção da grande maioria dos que apenas passam pela vida. Sua biografia mostra que ela foi uma das raras pessoas a que se pode veicular o conceito de humano, no que teve de engajamento por uma vida melhor dos trabalhadores massacrados dos EUA do início do século XX, missão que levou a sério e aos extremos da abnegação pessoal pelos 93 anos que teve em sua longa vida. Desde muito jovem ela já se indignava com o sofrimento dos servos modernos assalariados da indústria americana, suas parcas condições de moradia, alimentação, a ausência total de profilaxias e tratamentos de saúde, a baixa estimativa de vida, a redução brutal da existência apenas e tão somente para ser um instrumento para a riqueza exorbitante de uma minoria de industriais. Mas foi depois que perdeu os quatro filhos e o marido numa epidemia de febre amarela, causa que atribuiu às condições de miséria do povo, que largou definitivamente o lar e qualquer posse material para viajar pelo país, promovendo greves, protestos, agitações populares, através de sua poderosa capacidade discursiva e sua prontidão em se fazer de escudo, que a fazia identificada automaticamente pelos trabalhadores. Durante 25 anos, essa senhora não teve residência fixa; uma vez, diante do Congresso, explicou: “Da mesma forma que meus sapatos, meu endereço me segue por onde eu for”, diz o ensaio da Le Monde.

Mas o que mais me chamou a atenção nesse texto foi o espanto do autor ao narrar as agrúrias da rotina de trabalho dos funcionários de indústria dos Estados Unidos da época. Trabalhavam 12 horas por dia, seis dias por semana. Mas é o quanto ainda trabalha a maior parte dos servos modernos assalariados do Brasil atual.  Uma grande parte dos 5.565 municípios do país possui um quadro de exploração patronal mortificante, anacrônico, brutal, que se disfarça sob uma série de subterfúgios amenizantes como a da "saudável" maleabilidade das leis trabalhistas que tornam o mercado de trabalho mais dinâmico e produtivo, que faz crescer a economia do Brasil para continuar mantêndo-nos como a nona economia do mundo. Hoje em dia, uma brasilcolonização retrógrada e acabrestante submete os trabalhadores braçais sem especialização a uma diária de serviço aviltante, desumana, desmoralizante sobre todos os aspectos, mas isso jamais é falado na imprensa, jamais é mencionado nas conversas sofisticadas das elites culturais que se vangloriam de serem de esquerda, jamais passa pela cabeça do consumidor padrão que vai ao supermercado todas as semanas que ele mesmo interaje com esses neo-escravos constantemente. Esses trabalhadores são os legítimos invisíveis da sociedade.

Há um episódio da antiga série Além da Imaginação em que os criminosos de uma sociedade futura são sentenciados a viverem pela cidade vestidos com um uniforme que os distinguem como aqueles com os quais ninguém pode conversar, cumprimentar, ou sequer demonstrar que os vêem. Eles sofrem de uma imolação extrema que os levam à loucura, pois a completa indiferença programada dos outros cidadãos lhes dão a certeza de que, enfim, eles foram executados, eles não mais existem, deles nada mais pode partir de danoso ou benigno. Esses neoescravos são exatamente assim, no que tange ao contexto comunitário de não serem vistos em sua natureza humana, senão apenas notados em sua funcionalidade prática instantânea. Tirando os trabalhadores das grandes cidades, que são acobertados pelos direitos trabalhistas através de uma suficiente prontidão dos ministérios público e do trabalho em fazê-los atendidos, afirmo sem medo de ser leviano que, nas demais cidades com média de 20.000 habitantes, esses trabalhadores ainda se encontram no obscurantismo jurídico do Brasil Colônia: são escravos que cumprem a obrigação patronal de serem meros instrumentos de arrecadar dinheiro para os donos absolutos de suas forças de trabalho. Aqui na cidade onde moro vejo isso constantemente e em todos os lugares, e a cidade onde moro é uma representante fidedigna do microcosmos econômico, político e social dos milhares de municípios interioranos brasileiros.

Fico muito constrangido de ir fazer compras no supermercado. Sei por ter amigos que trabalham nesses estabelecimentos que todos ali purgam uma carga de serviço de 12 horas por dia, 6 dias por semana. A mesma labuta violenta contra a qual se indignou o autor do artigo acima mencionado sobre Mother Jones. E a maioria ganha um salário mínimo, sem adicionais de hora extra ou qualquer outro. Um moça do caixa chegou a me confessar que odiava o horário de verão porque tinham que, literalmente, trabalhar uma hora a mais, pois a vontade do patrão os levava a fechar as portas quando não houvesse mais luz do dia. Não por acaso as caras que vemos nesses mercados mudam de três em três meses, pois ninguém suporta muito tempo uma escala de opressão tão gritante. Um amigo de serviço me disse que, antes de ser técnico de abate, havia participado de uma entrevista de emprego com um dono de supermercado: este lhe colocara a panos limpos que ele, para trabalhar ali, não poderia estudar à noite, não poderia chegar atrasado um minuto sequer, e, todo trabalho faltado seria descontado do já por si minguado salário. E o mais grotesco é que em todos os supermercados vejo frases bíblicas pintadas pelas paredes, se Deus é por mim, quem será contra mim; mil de teus inimigos tombarão à esquerda, e mais mil à direita, mas contigo, nada acontecerá. Não à toa o neo pentecostalismo mantêm um grau de submissão retroalimentar nas várias igrejas que se tem por aqui, onde os pastores fazem subir ao púlpito os empresários colaboradores das cestinhas de final de mês, e num nível abaixo ficam prostrados em condicionada admiração os milhares de pobres coitados dos fiéis a quem nunca chegarão o direito da educação esclarecedora e do tempo livre para festejarem com a família. Nesse natal, quando eu for comprar um panetone ou um litro de leite, eles estarão lá, os invisíveis, cumprindo à risca a tarefa de serem braços para carregar, olhos para procurar pelas prateleiras, pernas para irem aos depósitos, mãos para digitarem valores. E só! Não me admira que suas caras sejam o matiz entre a estupidez de não estarem ali em espírito, ou um ódio muito bem disfarçado. E sobre eles, a doutrina rígida de escravos imposta pelo cristianismo prostituído da perene humildade, pregada pelos pastores que estacionam suas Hilux nas garagens dos grandes templos. E sobre eles a estatística milagrosa e cafajestemente falsa de sermos a nona economia do mundo; sobre suas costas, o fardo de carregarem números impossíveis, que servem para apimentar os investimentos, enriquecer as indústrias, expandir as empresas, crescer as boas novas de felicidade radiante dos templos, e, assim, manter em contínua produção a realidade imaculada de continuarem a serem invisíveis e com a importância básica irrestrita da enxada. E isso, enquanto cito apenas os supermercados. As lojas daqui mantêm vendedores no mesmo ritmo de servidão, e lhes pagam, apenas e tão somente, 3% de comissão em cima do valor dos produtos por eles vendidos.

E onde estão os sindicatos?, os fiscais das leis trabalhistas?, a motivação de um desses escravos em processarem seus patrões? Respostas: os sindicatos não existem, ou estão comprados já há décadas pelo Conselho Dirigente de Lojistas, o que os fazem inutilizações que apenas comemoram o feriado do Dia do Trabalho com sorteio de uma moto (ironia não falta a esse pessoal!). Já houve casos de processos por parte de funcionários, mas estes tiveram que se mudarem de cidade, pois a lista negra na qual passaram a figurar seus nomes lhes impossibilitaram para sempre arranjarem outro serviço.

O MP é composto de funcionários públicos (juízes e promotores), que possuem a idiossincrática certeza de que não fazem parte da sociedade, estão numa bolha de proteção da qual observam não muito detidamente os demais mortais que encenam o grotesco da vida da qual prontamente se excluíram em suas fortalezas de poder e altos salários. A universidade local, que nunca passou de um colejão em que penduram-se os cabides de emprego, é cega e molejamente corrupta _ a ponto de, em um livro lançado por um dos doutores em sociologia, estar citado alguns pareceres capengas da chefe do sindicato de trabalhadores rurais como se fossem ápices da inteligência humana (uma mulher que há anos vem mantendo o cargo através de revesamento com o filho e com laranjas).

Assim... saúdo daqui desse meu canto representativo do grande Brasil, a Nona Economia do mundo (foguetes e mulheres seminuas, paisagens rascantes da magnífica agropecuária nacional, cidades turísticas com trabalhadores com lindos sorrisos marfínicos), a Mother Jones. E repito as palavras de um dos radialistas que notificou o momento de seu sepultamento:

Hoje, nas planícies de Illinois, nas colinas e vales da Pensilvânia e da Virgínia, na Califórnia, Colorado e Colúmbia Britânica, homens fortes e mulheres esgotadas pelo trabalho derramam lágrimas amargas. A razão é a mesma: Mother Jones está morta”.