segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Situações



Por que estou imune aos recorrentes temas sobre a situação brasileira? Deixei disso, deixei de me interessar. Foi uma desistência tão sincera e inerradicável, que a avalizei ao detectar uma profunda tranquilidade em mim. Sobre o Brasil, tenho a lucidez de saber que talvez nunca vire o milionário em cujos meus planos me permitiria me deportar daqui para outro país. Assim, me abstive por questões estomacais de assistir telejornais e de dar a costumeira passadinha de olhos pelas manchetes cibernéticas. Tenho lá meus furores teatrais, meus complexos de vira-lata, mas não passa da conhecida sensação de cócegas do membro já amputado. Não há jeito; não há como fazer. Percebi que tal preocupação, de tão ingênua, pode causar um dano físico concreto. Vou dar apenas dois exemplos, rápidos e práticos, do por que não me preocupo mais e sigo vivendo minha vida singela sem dramalhões colossais.

Primeiro: na cidade em que moro, considero uma felicidade ter três amigos tão fanáticos por livros quanto eu. Quando eu ainda era abalável o suficiente pelo panorama, eles me salvaram de tédios profundos, aparecendo como por milagre ao final do dia para um daqueles momentos que me davam a certeza de estar "realmente tendo uma conversa fenomenal". Um deles, o Emerson, chega a ler bem mais do que eu. Ele parece mais um reciclador automático de livros do que propriamente um leitor. Basta dizer o título de um livro, que ele aciona sua voracidade efetiva, e lá vai ele engolir o tal livro. Assim se deu com coisas que eu jamais vou ler, como O ser e o nada, os livros do Dan Brown, ou cinco livros tomados emprestados da bibliografia de Freud, que ele os meteu para dentro com uma abnegação pelo sacrifício tão pura que parecia ser mesmo apenas uma questão de movimento pavloviano dos olhos. Pois este amigo é um professor concursado do serviço estadual de ensino na minha cidade. É um tipo folclórico, cabelos grisalhos rebelados circundando uma tonsura, barbas longas no mesmo feitio, olhos azuis minúsculos, e o costume sedimentado de usar somente bermudas e camisetas, estas últimas a maioria produzida por ele com estampas de aforismos literários que ele vai colhendo no meio de seu jardim de leituras estoicas. Ele usa bermudas para trabalhar, e é folclórica também a foto gigante grudada na parede de sua sala em que sua esposa aparece radiante de felicidade em seu vestido cerimonial de noiva, com buquê nas mãos enluvadas, ao lado de um Emerson com paletó e a bermuda corriqueira da qual não abriu mão nem no casamento.

Imagina-se o nível de pensamento crítico que um professor assim provoca em seus alunos, ou na parte minúscula deles desperta na sala de aula. Emerson é um típico professor engajado brasileiro. Uma personagem busterkeatoniano. Um Quixote. Ou, em menor grau pejorativo, um desses professores ranhetas que lotam a cenário nacional com sua estampa clichezística de devoto da esquerda e antigo leitor dos Cadernos do terceiro mundo. Independente de qual dessas facetas o enquadre, o certo é que se trata de um tipo perturbador, o que, casado à sua obsessão pelo trabalho, vem dilapidando a sua saúde ao longo dos anos. Direto vejo ele, em pleno domingo e feriado, preparando aulas, fazendo downloads de documentários didáticos, usando seu estômago forte de leitor multitudinário para digerir intragáveis livros sobre pedagogia moderna. Daí que ele teve dois princípios de enfarte, e teve que se correr às pressas com ele para a capital. Até então, ele fazia por relevar seu quadro depressivo medicado por tarja preta, pois lhe configurava certo charme dissidente. Mas agora, com o coração negando fogo, ele sentiu aquele gosto laminar na boca que parece vir da faca que lhe cortou todo eufemismo de permanência. Assim, finalmente seguiu os conselhos dados por nós seus amigos, e relaxou. Abriu mão da tarefa além da vida de salvar os jovens brasileiros da bestialidade e da alienação. Só faz o necessário.

Pois bem, e o que fez o Grande Sarcasmo Nacional com ele? Preparou uma retalhação genial, destruidora, desses atos majestosos da tragédia em que nada sobra de pé. Escombros. Esse paisinho sem graça e previsível inventou de lhe retirar as raízes que o sustentavam em seu desesperado ato de sobrevivência. Não bastasse o coitado sofrer do coração às custas do absurdo cotidiano, o paisinho quer-lhe agora o fígado inteiro. Ele me contou, os olhos azuis ainda mais afundados: a partir de janeiro do ano que vem, o colégio onde dá aula será militarizado. Em cada cidade do estado, um colégio será entregue aos militares. Daqui, pois, quatro rápidos meses. Ele terá que fazer a barba, vestir-se de calças compridas e tudo o mais que lhe mandarem fazer. Talvez bater continência, e envergar seu vasto conteúdo intelectual diante algum coronel cujos horizontes costumeiros não vão além dos mesmos muros e mesmos escritórios de ofícios marciais expedidos. Um coronel que ganha, deixa eu fazer aqui as contas, seis vezes e meia mais do que ele. Ou prestar a mesma prostração regimental diante um tenente que ganha três vezes mais, ou diante um soldado que ganha quase duas vezes mais do que ele. Todos esses ganham mais e trabalham bem menos. Todos esses são acobertados por lei para se aposentarem com 25 anos de carreira, enquanto meu amigo Emerson, que purga a mais insalubre das profissões, terá que passar por aquela conta sarcasticamente mirabolante da Rainha de Copas de somar 95 anos para se aposentar. Já insinuaram os segredos que devem ser preservados na caserna-escola, as partes dos livros que devem ser recondicionadas, mutiladas ou reescritas de maneira angularmente reversa. Ele imagina, se é que consegue, os alunos marchando no pátio, a burocracia anacrônica opressiva que irá se instaurar em um meio tão inócuo a ela, e que irá recair em cima de professores que, como ele, que estão a mais de dez anos na profissão, me parece de uma verdadeira violência. Isso será um evento único na história recente de um país ocidental democrático, um dos ineditismos servidos a escusos interesses individuais de alguns escolhidos para o enriquecimento descomunal que acontece nesse paisinho, sempre às custas do interesse público e da mínima lógica funcional. E o povo... o povo faz a sua parte... aplaude, tece loas, se arrebanha com a boca de caninos sedentos nas pre-filas para a matrícula de seus filhos que passarão por uma seleção meticulosa de admissão... o povo se compraz a ser apenas o povo de paisinho falido, fingindo que não sabe quem são os felizardos que aumentarão ainda mais suas riquezas com contratos de sistemas de ensino inventados às pressas para se inserir no esquema todo.

Segundo: um dos humores da minha vida é sempre me prestar a metáforas vivas, iridescentes, espraiadas na generosidade simbólica do meu cotidiano. Querem saber a nova sobre os representantes das mentalidades nacionais? Com vocês, os personagens dessa comédia: o intelectual inexpressivo, os playboys filhos de papai, a força policial mancomunada, e o povo... ahhh, o povinho boçal e sem representatividade...

Comecemos. A casa que faz divisa com o muro detrás da minha casa está desocupada faz anos. Serve, apenas, para festas retumbantes, com som automotivo e gritos dos jovens filhinhos de papai que voltam de suas faculdades na capital para curtirem finais de semana e feriados prolongados. Me informei: são os filhos de comerciantes locais, de dentista (o mesmo que me fez duas restaurações nos molares), de médico e não sei mais quem. Os caras usam a casa como se não houvesse amanhã, ou como se estivessem em uma ilha sem ninguém por perto. Como moro em um paisinho bem típico, sabendo da necessidade de se engolir sapos para poder aumentar o número de dias em sua calculadora etária, o que é salutar de se fazer no país ocidental mais violento do mundo, nas primeiras festas eu relevei. Mesmo impossibilitando sono de minha esposa grávida, e o meu, nós relevamos. Se tivesse acordado minha filha Júlia, lá vai, mas a Júlia não se incomodou nem um pouco com isso. Mas eu chamei a polícia várias vezes, e os boyzinhos, nossa classe intelectual por direito nominal configurado, visto que são todos universitários das faculdades de direito e medicina e odontologia, futuros juízes e senhores de nossos destinos e de nossas vidas, foram informados pela polícia que o reclamante era o vizinho do muro de trás. Daí começou a provocação. Janelas batendo às sete da manhã. Latas de cerveja atiradas na frente de casa. Uma vez uma sacola de lixo aparecendo no meu quintal. Eu filmei tudo. Produzi umas duas horas pormenorizadas de documentário sobre tudo. E fiz uma denúncia na delegacia. 

Coloquei a minha vizinha da direita, que reclamou vorazmente da balbúrdia para mim, e outro vizinho, como testemunhas. O que aconteceu? Quando chamados pela delegada, afirmaram que não ouviam nada porque, 1, tomavam corticoides que os apagavam, 2, que ouviam assim assim certo ruído, mas que isso não lhes incomodavam em nada. Não incomodavam, sendo que as vidraças da janela chegam a tremer. A delegada é a mesma da qual paguei três colchões de multa para a Santa Casa por tê-la "desacatado" por certa vez exercer meu papel de crítico em dizer que ela era negligente com seu trabalho. Não tem ela, pois, razão para gostar de mim. Mas as evidentes tentativas para descaracterizar o crime, partindo dela, não tinha só a ver com sua antipatia retaliativa por mim, mas porque o dono da tal casa foi funcionário comissionado da delegacia por dois anos, e este levava a delegada mais seus dois cãezinhos para consultas em clínicas veterinárias na capital, utilizando a viatura nas viagens. Os policiais só falaram a verdade nos depoimentos, porque eu fiz questão de ser taxativo em dizer que os havia filmado duas vezes em que foram acionados comparecendo à frente da casa e pedindo com excessiva polidez para que os filhos dos ditos poderosos "abaixassem um pouco o volume". É de gelar o sangue diante a potência metafórica sobre a fervilhante corrupção pátria ver todos esses elementos reunidos.

Me faz lembrar um conto de Chécov, em que um senhor chama a empregada de sua casa e passa a violentá-la com palavras, a insultando, a acusando de crimes imaginários, até fazê-la chorar descontroladamente, para então sorrir e confessar que tudo não passava de brincadeira de sua parte. A serviçal sai aliviada e feliz do quarto do amo, e esse conclui: "Meu Deus, é por isso que esse país está atolado na lama, com um povo assim."

E depois querem que eu leve a sério o que aconteceu neste dia 16 de agosto?

26 comentários:

  1. Que relato!
    A propósito:
    1 - Também estou evitando falar sobre o tema política. Só opino sobre coisas que entendo um pouco.
    2 - Sou um professor que usa bermudas, mas abriria mão delas para ter alunos disciplinados na minha sala.
    3 - Meu vizinho deu uma pausa de alguns meses, deixou a casa por um tempo. Lembra-se dos meu relatos?
    4 - Obrigado por voltar a escrever.

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    1. Obrigado pela atenção, Cassionei.

      Eu defendia o colégio militar, mas vi que foi um equívoco da minha parte. Há só uma vantagem realmente importante, a disciplina, mas para essa vantagem há dez desvantagens graves. O colégio militar não tem qualidade melhor que o colégio público convencional; se houvesse chance dos professores instaurarem por outros meios a disciplina, o rendimento seria o mesmo ou maior. Tenho uma sobrinha que estuda em colégio militar, e pelos seus relatos, a coisa me pareceu pavorosamente primitiva, típico do que convencionava-se acreditar sobre o imaginário da América latina na década de 1970. Há outros meios melhores e muito mais avançados para adquirir a disciplina, e o militar é o mais tosco e mal intencionados deles. Por exemplo: colocar a PM em seu devido lugar na escola, em policiamento ostensivo, e não no comando. Por exemplo: dar autonomia ao professor para REPROVAR e EXPULSAR alunos, e não esse atendimento maníaco às estatísticas fajutas de aprovação. Aumentar a média exigida para os alunos. E, pagar condignamente o salário que o professor merece. O caminho da militarização é claro, objetiva a privatização e a destituição definitiva do professor estadual de sua importância e relevância. Junto à militarização, o governador aqui como que já decretou que não haverá mais concursos para professores.

      E o fundamental: a educação não funciona sem a crítica. A crítica é indispensável pelo progresso. Militarização e inteligência são contradições extremas.

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  2. Charlles, isso me faz pensar o seguinte, para que melhorar esse país, para esse pessoal tacanho, mesquinho e fútil viva melhor? Não acho que compense lutar para esse tipo gente ter uma vida decente, eu sei que no seu caso é um tanto mais complicado devido a sua filha e rebento que se aproxima, mas mesmo assim não vejo valia para melhorar esse país para essa gente ter uma vida melhor.
    Sobre as manifestações que houveram, eu sempre falo o seguinte: Com essa nossa oposição, qualquer mensaleiro é melhor que qualquer um desses que estão vociferando contra a corrupção e o "golpe comunista" que assola o país.

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    1. Isso de ontem é manipulação de abestalhados. Milhares de abestalhados, milhões pelo país inteiro. É o pragmatismo cruel de sermos a rabeira da educação mundial. É a efetivação cotidiana do que apontam as pesquisas sobre nossa avassaladora deficiência de entender textos e mensagens, nossa mutilação em saber usar minimamente a expressão do próprio idioma. É a realidade transposta no cotidiano de nossa glamourização e pseudo-esclarecimento de nossos avatares no Facebook. Vi hoje as senhoras com caras pintadas elogiando o Moro, os rapazes de barba cool estilo balada de sexta-feira à noite com cartazes contra corrupção e o Lula. Meço o tamanho de meu terapêutico auto-controle em não dar asas para as frases mentais de repúdio que me vem quando vejo essas marionetes úteis do joguete político, minha grande aversão. Carne de canhão era o termo, agora carne de manifestação. As vítimas sorridentes insufladas de orgulho; uma calibração distraída da máquina, e temos situações distorcidas de proto-fascismo e linchamentos. Você está certo nessa vanidade em dar merecimento dos benefícios de uma nação séria para tais tipos de manipulados. A educação é tudo, a cultura e o respeito são tudo.

      Uma moça das que frequenta a casa dos fundos daqui foi aluna minha de um colégio particular, em idos de 13 anos atrás. Foi uma sala do terceiro ano que me fez prometer a mim mesmo que jamais eu iria retornar como professor. Fiz essa promessa andando pelo corredor, vendo aquela rapaziada supérflua sem salvação alguma. Entreguei os diários assim que cumprido o ano, e o diretor fez a oferta de dobrar meu salário se eu continuasse, mas não. Essa moça, você não vai acreditar_ eu não acreditaria se não visse_, teve a média de um bimestre de 0,4. Na soma das suas duas provas em biologia, que era a matéria que eu ministrava, ela não conseguiu alcançar meio ponto. Nas outras matérias era uma tragédia de igual envergadura. Hoje ela é mãe solteira, é chamada de doutora pelo seu diploma em direito de alguma dessas faculdades particulares, e das vezes em que a polícia ia na casa ela que tomava frente falando com a seriedade ridícula de quem se acha. Dificilmente ela tem clientes em seu escritório, se é que conseguiu a proeza de passar na OAB, e se não fosse a manutenção da pensão alimentícia da filha e a ajuda de seu pai contador, o desemprego seria um martírio para ela. Os outros da festa celebram a capitulação de mais um ano para que se tornem adultos independentes. Se acham elites porque os pais os criaram como monarcas de segunda classe, que arrotam ostentação, humilham garçons e funcionários de supermercado, e são treinados em gritar na cara dos outros quem é o pai deles.

      Minha mãe está sofrendo de pressão intracraniana idiopática. Foi em um desses médicos filhinhos de papai na capital, pagando consulta particular caríssima. O tal receitou para ela carbolitium. Eu pesquisei durante um dia inteiro em fóruns sobre a doença e em comunidades de pacientes e neurologistas, e o carbolitium não só nada tem a ver com a medicação adotada para o mal, como agrava os sintomas enormemente por não poder ser associado à furosemida. Após tomar o carbolitium, minha mãe teve dores lancinantes de cabela, horríveis, com repuxamento de nervos, alucinações e começo de cegueira. Voltou ao boyzinho, pagando mais 300 reais, e o boyzinho resolveu aumentar a dose de 300 para 600 do carbolitium. Foi quando eu pesquisei e liguei imediatamente para ela para que ela suspendesse o remédio. Ela escreveu e-mails para o médico dizendo que vai processá-lo, ao que a secretária dele liga constantemente para minha mãe sem que ela a atenda.

      Essa é a nossa chamada elite nacional.

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    1. Charlles,

      Cumprimento-o por voltar a escrever aqui, neste seu blog. Ilustro meu desinteresse pela política canhestra de nosso país, citando Valéry: "Os acontecimentos me aborrecem". Não perco mais meu tempo com coisas que conheço pouco (e gosto menos ainda), coisas das quais intuo que ainda que tivesse uma compreensão maior, não resultaria em nada mais efetivo que um sentimento de angústia e impotência ainda maior diante da insignificância e mediocridade do debate, mormente nesses dias. Cada povo tem não apenas o governo mas também a "oposição" que merece, acho.
      A respeito de vizinhos é triste saber que infelizmente enfrenta também aí problemas similares: falta de respeito, educação (De quem em tese tem mais acesso a ela) e cidadania, além saquele desinteresse (quando não conivência) e desídias habituais de quem deveria tomar providências a respeito.
      Nessas horas, meu consolo é ler Cícero para aplacar a ira e aceitar com resignação a balbúrdia, a mixórdia toda para não me aborrecermos ainda mais, imaginando melhoras que nunca vem.
      De fato, como contou em seu texto com entusiasmo, é uma felicidade incomparável ter por perto três amigos que gostam de livros tanto quanto você. É uma dádiva (inclusive estatisticamente), num país iletrado como o nosso.

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    2. Um desses amigos passou para historiador da secretaria de recursos hídricos do Tocantins, e está muito feliz com o cargo. Pena que com isso, meu número de amigos cultos se restringiu para dois que moram aqui. Esse amigo vem da zona rural, muito simples e tem aquela cordialidade e cavalheirismo tocante que chegam as pessoas distintas dessa região. Fizemos o curso de história juntos, e nos tornamos grandes amigos. O cara me deixou emocionado da vez em que pegou a moto e atravessou 300 quilômetros para participar de meu casamento. É um baita amigo. Já falei sobre ele aqui. Todos seus irmãos são da mesma forma altamente cerebrais e interessados em instrução, um matemático e outro professor, todos concursados. O que certifica que o melhor deste país nada tem a ver com o vértice apontado pelos lugares comuns da mídia em direção às "distintas elites". Ontem mesmo passamos longo tempo pelo celular nos esbaldando de rir. Esse amigo leu o livro da doutora sob a qual é subordinada em seu ofício, e foi me apontando os absurdos: ela afirma que Dom João VI veio para o Brasil em 1808, e fala coisa surrealistas como a "pavimentação asfáltica dos trilhos da ferrovia tocantinense". A propósito, essa sua chefe é comissionada.

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    3. Aliás, todos os primos desse meu amigo são intelectuais que venceram as limitações do meio rural e adquiriram espaços no serviço público e na universidade. Só recentemente descobri, embasbacado, que o esposo de uma antiga amiga, da qual escrevi aqui

      http://charllescampos.blogspot.com.br/2011/07/o-passo-que-se-apressa.html

      e aqui

      http://charllescampos.blogspot.com.br/2013/11/um-sucubo-abstemio.html

      e que foi colega meu no curso de veterinária, é um dos primos dele. Uma incrível coincidência, dessas que não se vê nem em novelas da Globo.

      Obrigado, Marcos.

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  4. Charlles tu já viste isto https://www.youtube.com/watch?v=7aGfPpa7XlU?
    Não sei se você vai concordar com tudo ou até mesmo com algo que ele fala nesse vídeo, mas pelo menos vai dá para dar algumas risadas.

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  5. Pelo que entendi, estás fudido, No Brasil, e ainda mais numa cidade pequena do interior, a única maneira de ter a lei respeitada para consigo é sendo a lei e tendo como exerce-la através da forca e o medo. Sim, sendo um Horácio de Matos, um coronel, ou um doutor da Lei como a conhecida dotora delegada espírita. Entao, como foste burro e te formaste no curso errado (somos todos parceiros na burrice aqui, penso), e como não tens coragem de meter bala na playbozada Hilux por medo de represálias (o que é justo e certo, mas também cobardola) por ter vizinhos bananas (ou menos burros que tu), terás de aguentar calado, para que daqui alguns anos os baderneiros já adultos e formados nos cursos certos te desrespeitem e te fodam de novo - afinal eles jamais esquecerão que ousaste desafia-los, e aguentaras tudo calado, no máximo, talvez, um post no equivalente futuro do blog.
    Ou formas uma família/gangue/partido e conquista poder através do medo e da forca (e de favores, vassalagem e suserania, etc.), ou ficas calado. É isso. História do Brasil.

    E é o que estamos vendo por aí hoje. Uns indo a rua querendo retirar do poder a maior gangue da história do país (pois mais astuta e perversa, parece benigna e redentora), para que outra, outras e até as mesmas ( imortais...) possam (re)tomá-lo. Só tem filho da puta. Então, não é preciso clamar por Salvadores da Pátria, nem defender bandidos e muito menos ficar de chorume no twitter (ta, Luiz? ahsuahsua escreva mais sobre Bellow)

    Militarizem, ok. Disciplina será imposta, ok, pois a zorra reina nas escolas, certo. Mas e a vontade? Alunos te olhando com cara de peixe morto, sem interesse sobre o que se passa. E com razão! Metade daquilo que se ensina é inútil (ligação covalente???). Melhor ensinar ofício. Mas militarizem, sim.

    E usem calças, por favor. Tá bom que somos índios e tendemos à nudez balançante e despudorada, mas se é pra usar pano, que tape tudo, po!

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    1. Mas pera aí, pera aí: foste burro por duas vezes. E na segunda ainda escolheste HISTORIA.Jesus! Nao, nao. Nao pode. Sem perdao: Playboyzada, pode aumentar o volume e cagar no quintal do Charlles! O máximo que poderá acontecer é serem citados com nomes fictícios num romance que Charlles provavelmente nunca lançará por motivos de: cobardola.


      (No dia que o livro existir, o meu será enviado com veneno nas pontas das páginas.)

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    2. O Marcos me acusou de soberbia e não sei mais o que pelo twitter. Melhor ele decretar logo meu bipolarismo crônico, visto que constantemente ele ressaltou meu complexo de vira-latas. Não dá para ser soberbo e vira-lata ao mesmo tempo.

      Se eu puder escolher, opto pela soberbia e pela esterilidade. Os auto-segregados só podem sofrer de uma incurável soberbia e esterilidade para sobreviverem.

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    3. P.S.: Me refiro ao Marcos Nunes.

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    4. Reconheço, porém, um ponto em favor das assertivas do Nunes: eu muitas vezes sucumbo à síndrome do fastio do blogueiro. Vi recentemente mais um caso destes no blog do Arlindo Beirão (acho que é esse o nome), em que ele simplesmente parece querer suicidar sua reputação com um texto bastante raso e preguiçoso sobre a nova temporada de True Detective. É um mal que acomete todos os blogueiros. É uma espécie de bomba implosiva neuronal, em que as ideias sofrem uma esclerose progressiva. Minha maior luta quando vou escrever aqui é contra isso. E tais textos como os deste post são feitos sob esse enfastio profundo. Escrevi o texto com extrema rapidez, sem revisões, e como um desabafo. Está carregado de ódio, o que não é bom. Eu queria colaborar com algum diálogo, recuperar alguma febre patriótica possível, aprender um caminho. Mas o mal do enfastio é uma epidemia, e talvez este meu texto seja o menos sintomático e afetado deles, ainda que esteja de alto a baixo contaminado. Há aqui uma retalhação a estupidezes excessivas, aos excessos de superposição de coisas como as matérias da Veja e Carta Capital, e diversos sites contaminados pelo desespero e desfastio niilista da falta de tutano para ideias concretas e debates sérios. Vi o mundo, Nassif, Diário do Centro do mundo, etc. Este texto é preguiçoso e falso até a medula. Reconheço que dei muitíssimo de mim e não me envergonho em vários textos aqui, a grande maioria destes com poucas visualizações e vários com nenhum comentário. Sei que escrever textos com nomes como Grass, Musil, Bellow, Melville e Tolstói, é afugentar leitores. Esse é o feedback que aciona a doença.

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  6. Sou algo como um frequente otimista, mas, a respeito da política brasileira, diagnostico (se fosse doutor...) o mesmo ZEITGEIST q tu, e cada vez mais vou fazer qq outra coisa - em vez de entrar na discussão. Pq tivemos 2013, e agora esses protestos, e a despeito das variações (por exemplo, estive numa das inaugurações de 2013, em porto alegre; estive longe de participar ontem), devo reconhecer q há um mínimo comum, algo como uma apatia desesperada.
    O jogo discursivo parece jogo jogado, não tem mais ponta aproveitável, todo contraponto parece repetido ou estéril. Falta muita educação. Dentro de uma crise maior, q não é só brasileira, falta civilidade.
    Tbm aderi ao exercício de certas filosofias orientais, tento me refugiar em alguma serenidade pra buscar algo meu, tenho q me manter pensante e não me submeter. Algo q ajude no longo prazo.
    um abraço, charlles, tenho q ir.

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    1. Agora mesmo volto da distribuidora de bebidas que me fornece um dos ingredientes de minha "terapia oriental", e encontro na fila do caixa um rapaz daqui que ficou famoso por fazer vídeos de denúncia dos desmandos e corrupções dos administradores municipais. Ele elogiou a excelência do vinho que eu estava na mão, um Porto Ferreira, que lhe lembrava os anos em que vivera na Europa e o consumia. Brinquei, dizendo que o próximo vídeo ele tinha que fazer após se municiar de alguns cálices dele, e ele me confessou que estava bastante, enooooormemente desmotivado, usando suas palavras. O prefeito da minha cidade é uma das figuras lisérgicas de nossa realidade de Sucupira; é um dos mais corruptos que passou por aqui, fato um tanto meritório por ele se esforçar em conseguir. Fez coisas como cercar de arame toda a praça principal da cidade, para afugentar os cidadãos; retirou os corrimões do centro cultural, deixando as estacas de metal do suporte enfincados nas escadas, à espera de uma fatalidade; tem como procedência retirar postes de luz de alguns setores e instalar em outros; uma avenida no meio do mato foi embargada, após disputas acirradas (e graças a um vídeo de denúncia feito por esse camarada), por ele a fazer com o único propósito de beneficiar suas terras particulares. O cara é incrivelmente surreal. E esse produtor de videos me conta que pensa seriamente em parar com essas denúncias, que eles as faz com talento e as lança em um canal na net. Pois, me diz, basta o cara fazer uma festinha aqui e acolá, e ganha de novo, e que fica mal na história é ele por ter ido contra um legítimo homem do povo, pentecosta ainda por cima.

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  7. José Murilo de Carvalho:

    http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/vao-arrumar-uma-saida-para-esta-crise-mas-outras-vao-aparecer/

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  8. Quando parei de me preocupar com canalhas:

    http://telatela.cartacapital.com.br/e-muito-dificil-entender-o-que-esta-acontecendo-na-politica-diz-nachtergaele/

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    1. não que eu concorde inteiramente com o que se sugere por ali... mas me pareceu bem interessante...

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  9. Nesses dias tenho lido Hans Magnus Enzenberger...

    Para o livro de Literatura de segundo grau

    Não leias odes, meu filho, lê os horários
    (dos trens, dos ônibus, dos aviões):
    são mais exatos. Abre os mapas náuticos
    antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
    Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
    no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
    não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
    a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
    ENTENDE DA PEQUENA TRAIÇÃO,
    DA SALVAÇÃO SUJA DE TODOS OS DIAS. Úteis
    são as encíclicas para se fazer fogo,
    e os manifestos: para a manteiga e sal
    dos indefesos. É preciso raiva e paciência
    para se soprar nos pulmões do poder
    o fino pó mortal, moído
    por aqueles, que aprenderam muito,
    que são exatos, por ti.

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    1. Maravilhoso isso aí, Ricardo! De qual livro?

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    2. Excepcional mesmo! Quase o negativo do poema "Elogio do aprendizado", do Brecht.

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    3. Esse poema foi retirado do livro "Eu falo dos que não falam".

      Tem esse aqui também:

      Defesa do lobo contra os cordeiros

      Querem que o abutre coma miosótis?
      o que exigem do chacal?
      do lobo, que mude de pele? Querem
      que ele mesmo extraia seus dentes?
      O que é que não apreciam
      nos comissários políticos e nos papas,
      porque olham, feito burros,
      o vídeo mentiroso?

      Olhem-se no espelho: covardes,
      temendo a fadiga da verdade
      sem vontade de aprender, entregando
      o pensar aos lobos
      um anel no nariz como adorno preferido,
      nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
      barato o suficiente, cada chantagem
      ainda é clemente demais para vocês.

      Ó cordeiros, irmãs
      são as gralhas comparadas a vocês:
      vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
      Fraternidade reina
      entre lobos:
      andam em alcateias.

      Louvados sejam os salteadores: vocês
      convidam para o estupro
      deitando-se no leito preguiçoso
      da obediência. Mesmo gemendo
      vocês mentem. Querem
      ser devorados. Vocês
      não mudam o mundo.

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  10. Mas o meu predileto dele é um livro de ensaios: Mediocridade e loucura e outros ensaios.

    Veja os títulos dos ensaios:

    "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia".

    "Literatura como instituição ou O efeito aspirina".

    "Elogio ao analfabetismo".

    "Mediocridade e loucura: uma proposta conciliatória".



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