sábado, 31 de dezembro de 2011

A Mais Terrível de Todas as Drogas



O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas_ nós mesmos_ que tomamos quando estamos sós. (Walter Benjamin, Magia e Técnica, Arte e Política, p.33)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Arcimboldo


O que aconteceu mesmo foi que o peru não foi sacrificado. De algum modo, nessas duas semanas em que fora colocado no terreiro da casa de frente à minha, ele conseguira, com seu charme consonantal e seu jeito de pensador reservado, reverter o propósito que o distinto senhor negro que o trouxera havia-lhe estipulado para a ceia de natal. E, no amanhecer do dia 26, quando abro a janela do quarto da minha filha para que a chuva fina que cai há tanto tempo refresque o ar interior, que surpresa vê-lo parado do lado de lá do portão, ainda vivo, com seu excesso de cristas subindo e descendo pelo pescoço suntuoso, olhando a rua deserta com a candura estóica de quem mesmo tendo caído nas graças do bom acaso de escapar do holocausto, não se desfaz de seu escudo de reserva em relação ao mundo. Respiro aliviado, reconhecendo que sua presença barulhenta (um barulho monocórdio de dois em dois minutos), e seus passos medidos de mordomo, haviam feito com que eu gostasse dele, o tornara um amigo, e digo baixinho:

_ Ah, danado! Então o senhor tá aí, firme e decidido.

Como por aqui não consta nem nos mais desatinados manuais de etiqueta gastronômica que essas aves dubiamente beneficiadas por sentenças de final de ano possam ser comidas em outras ceias que não a do natal, é certeza que ele sobreviverá por mais um ano inteiro. A primeira vez que nos vimos, ou eu o vi (tamanho o alvoroço que fez ao descer da caçamba da caminhoneta que só deve ter tido tempo de notar o homem de livro na mão sentado na cadeira de fio do outro lado da rua só quando identificou primeiro seu novo ambiente), quando o senhor Osvaldo, o negro sempre muito educado que é meu vizinho de frente, como que me o apresenta, "a patroa gosta de um peruzinho no natal".

E eis que o danado, com seu gluglu que espoca os sons habituais da cidade com uma indecifrável urgência que só a ele é séria, conquistou o senhor Osvaldo e a patroa do senhor Osvaldo, e, como a simpatia nesses casos tende a crescer ao longo do tempo, no natal que vem ele estará inconspícuo em seu lugar consagrado de animal doméstico, e minha filha já terá idade suficiente para também ter sido cativada por ele.

Arcimboldo, penso, é um bom nome.

_ Olhe lá Júlia, o quanto tá grande e bonito o Arcimboldo!

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GLU-GLU-GLU
by Ramiro conceição


Estou muito desconfiado que o tal do Arcimboldo não é bobo,
porém um astuto Assimbardo culto a fazer “GLU-GLU-GLU”.
Ai dos futuros natais nessas plagas daí, do interior de Goiás! 
  
                                    (comentário do poeta Ramiro)
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Fiz esse post ano passado, e o peru ainda continua vivo, na casa do vizinho. Parece incrível. Mas não é. Hoje mesmo vi uma reportagem sobre pessoas que domesticam essa ave, a criando como animal de estimação. E há também a tradição norte-americana de, todo ano no feriado de Ação de Graças, o presidente daquele país liberar um peru do sacrifício. 

E minha filha Júlia, ah! Como ela adora animais de todos os tipos!




sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Jerry Christmas


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Aos amigos frequentadores do blog, um presente singelo do poeta iluminado Walt Whitman: que essa seja a forma de desejar-lhes um feliz natal, e paz e equilibrio no ano que vem. Um abraço a todos.


"E à raça humana eu digo:
_ Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
(Não há palavra capaz de dizer
quanto eu me sinto em paz
perante Deus e a morte.)

Escuto e vejo a Deus em todos os objetos,
embora de Deus mesmo eu não entenda
nem um pouquinho,
assim como também eu não entendo
que possa alguém ser mais maravilhoso
do que eu.
 
Por que haveria eu de querer ver a Deus
melhor que neste dia?
Eu vejo algo de Deus em cada uma
das vinte e quatro horas
e em cada instante de cada uma delas,
nos rostos dos homens e das mulheres
eu vejo a Deus
e no meu próprio rosto em cada espelho,
acho cartas de Deus caídas pela rua
e todas assinadas com o nome de Deus,
e eu as deixo onde estão,
sei muito bem que aonde quer que eu vá
outras me hão de chegar pontualmente
sempre e por todo o sempre.”
(Walt Whitman)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dois Borra-Botas

Faz bem uns três meses que não vejo meu amigo Gahleb El Assal e quando por fim mato a saudade estamos ambos sentados no alpendre de sua propriedade tomando um café turco e falando com o habitual esnobismo de aristocratas alienígenas sobre o barbarismo do mundo onde, por alguma força de uma punição icognoscível, somos obrigados e viver. Como todos os grandes amigos, nosso assunto é o mesmo, mas desfiamos-o como se recém o tivéssemos descoberto. Ele podara metade do dedão do pé num acidente doméstico, assim como, na mesma época do ano passado, entortata o dedinho da mão esquerda numa queda. "Restam-me, pois, a certeza de que viverei ao menos mais dezoito natais", diz, espalmando as mãos e mostrando os pés. Ele corre até sua estante atulhada de revistas e me traz uma Época, molha as almofadas dos dedos e passa freneticamente as páginas. "Onde está, onde está! É sobre aquele judeu, como chama, Christopher...". Hitchens?, completo. "Isso, isso! Aquele velho ateu que se estrepou!", diz, satisfeito. Procura por mais uma pilha de revistas mas não acha um artigo em que Hitchens quer passar de erudito em interpretação do Alcorão e se dá mal. Segundo Gahleb, Hitchens critica arduamente a má interpretação advinda do emprego equivocado da acentuação de duas palavras árabes. Essas letras deveriam ser entendidas atônicamente no texto do profeta, diz Hitchens, e esse erro determinou uma distorção doutrinária fundamental no islamismo. "Acontece", diz Gahleb extasiado, lançando a revista por cima da mesa, desistindo da procura, "que das 29 letras do alfabeto árabe, 16 são acentuadas, e o não uso do acento nessas letras invalida por completo qualquer sentido da conversa". Ele arranca uma folha de uma agenda encontrada às pressas e desenha em garrancho as 29 letras. "Hitchens, querendo passar por algo que não é, um erudito de uma lingua que não entende, diz uma enorme besteira e todos digerem isso como uma verdade, por vir de Hitchens". "O mundo todo está louco, tirando eu", ele diz, e sua cozinheira o rebata lá de dentro da casa com algum complemento jocoso que não conseguimos ouvir mas rimos em resposta. Ele enrola um fumo odorífero enquanto conta sua última proeza: um pastor evangélico fora lhe visitar e Gahleb lhe passara uma importante informação bíblica. Disse que, segundo o autor Benjamin Astor, que escrevera o profundo estudo A Gastronomia de Salomão, o prato preferido que o rei dos homens sábios oferecia em seus banquetes era carneiro assado com batatas, cenouras e milho. "Uma iguaria sem igual". E dava pormenores da receita ao pastor, que na certa, como era sua intenção, iria passar adiante no púlpito com a seriedade de quem domina a Palavra. "Pelo interesse demonstrado às minúcias da iguaria, ele iria fazer com que todos os seus correligionários fizessem carneiro assado com milho, cenoura e batatas na ceia de natal". E ria à socapa, batendo as mãos nas pernas. Eu complementava, limpando os olhos das lágrimas que me provocava, que ele deveria ter juntado o abacaxi, ao que ele devolvia que deveria ter trazido todos os restantes das frutas, raízes e vegetais que só seriam descobertos pelo mundo ocidental  mais de dois mil anos depois. "Carneiro com mandioca e abacate, na ceia de Salomão, e como acompanhamento um bom cálice de chocolate asteca". "De todo o templo de Salomão mal sobrara um único muro", ele diz,"e o coitado acha que um tal de Benjamin Astor, que não passa do nome de um delegado federal da série de livros de bolso dos anos 70 do sr. Stefane, se embrenhou numa pesquisa árdua sobre o que o bendito comia". Vou embora com a alma lavada, depois de mais de duas horas de conversa da mais pura leveza, onde tudo nos parecia perfeitamente explicável desse nosso lado de cá.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A Breguice de Lars von Trier


Acabo de passar por duas horas sofríveis assistindo Melancholia, do Lars von Trier. É cinema de péssima qualidade. É tão raso  que cai nessas reavaliaçãos retroativas de me deixar com suspeitas se Dogville realmente é bom. Não é questão de ter-se que achar Melancholia relevante no cenário das produções cinematográficas atuais por este padecer da falta de melhores filmes: a mentira de superfaturar um produto para eufemizar uma crise de gosto não serve a propósitos efetivos. Se não existem hoje nenhum Bergman, nenhum Fellini, nenhum Tarkovsky, não vai ser elegendo um cineasta equivocado como Trier como gênio da hora que pressionará a providência a proteinizar a carência. Melancholia é o tipo de filme que não deveria existir, não por seu diretor ter falado as besteiras que falou sobre Hitler (até nas ofensas polemizantes lhe falta talento: quantos outros não quiseram a mesma porta para os holofotes relativizando Hitler?), nem por seus condenáveis maus tratos a animais em cena (que já seria motivo), nem tão pouco por filmes como Anticristo e Melancholia pretensamente mostrarem o Mal sem roupagens. Deveria não existir por ser, simplesmente, uma perda de tempo assistir à breguice de um filão de clichês que vai desde a histeria das heroínas; o uso de música erudita para salientar um simbolismo inalcançável; a incomunicabilidade total dos personagens que tornam simples atos sociais, resolvidos de outra forma com um  mínimo de diplomacia, em tragédias shakespeareanas; o uso do freudianismo como exercício de percepções nunca antes tida pela sétima arte, onde o grotesco e o estupro do gosto e do bom senso querem servir como arrebatamento estético e espiritual. Tudo em Trier é gratuito, raso, de péssimo gosto, amador, forçado, irrelevante, chato, que mostra muito mais debaixo de seu véu de defeitos do que quer a  constatação de que Trier falhou na escolha de sua vocação: revela que Trier não daria certo em nenhum outro setor da arte por ser ele um analfabeto cultural, alguém que digeriu da forma errada o aprendizado estético do apuro das obras que ensinam o sentimento e a plasticidade das paixões humanas.

Aqueles que exultam diante as cenas iniciais de Anticristo e Melancholia, que insistem em afirmar ser de uma beleza estonteante, deixam-se levar pela propaganda sintomática desses mesmos tempos de carência do cinema. Basta um jornalista escrever que as cenas iniciais de Anticristo são estarrecedoramente grandiosas, para um sem número de consumidores apressados acobertarem essa interpretação como verdadeira. E, quando se vê tal cena pela primeira vez, vem a sensação de anticlímax, pois a tal grandiosidade não passa dos mesmos recursos utilizados pelas agências de propaganda nos comerciais de xampoo, bancos e automóveis. A penetração explícita que recheia essa cena grandiosa, o pênis entrando pela vagina, é tão disparadora do acervo de nossa memória de cultura de massa quanto o é a cena que mostra as estradas ensolaradas pelas quais passa o novo automóvel da Nissan. O que é um coito em meio à música erudita e slow-motion para uma platéia saturada de imagens antes proibidas, acostumada a ter todas as cenas via um click? É pura exibição plástica datada e velha, como o são todos os filmes de Trier, pura tentativa de passar a uma platéia em busca do objeto genuíno da cultura superior a impressão de que tal objeto foi enfim alcançado. Como numa propaganda da Nissan, que aguarda-se a obrigatoriedade de um slogan eficiente no final das belas imagens do carro pelos bosques, o final da cena introdutória de Anticristo promove a intenção de catarse com a oferta da tragédia elegante da criança caindo para a morte através da janela do apartamento. Trier passa para uma platéia esnobe e tola, a satisfação de que, suportando suas longas horas de experimento estético elevado, não precisa-se perder tempo nas agruras da leitura. Faz justo o caminho oposto dos grande diretores, daí que cineastas como Trier colaboram muito mais para a decrescência da qualidade da arte do que qualquer outro. Diretores como Bergman, Fellini, Kubrick e Tarkóvsky usam de toda a sutileza da literatura. Triers jamais será capaz de compor uma cena como a das duas mulheres conversando na praia, em Persona, que, valendo-se apenas de um relato de uma delas, sem cortes de cena, sem feedback, constroi a passagem mais erótica da história do cinema. Para isso, Trier usaria da sua costumeira breguice freudiana para assombrar o espectador.

Quatro Fiéis Boêmios Paranóicos


Eles me acompanham pela vida, esses quatro fiéis boêmios paranóicos que se infiltram em altas horas da noite pelo meu sono. Venho adquirindo-os ao longo dos anos, e cada um, pois, tem sua idade e sua sistematização freudiana própria. São os meus quatro pesadelos clássicos. O mais antigo deles é o de ver-me andando naturalmente pela cidade, numa prosaica segunda-feira à tarde, cumprimentando as outras pessoas que passam por mim, Oi ao sr.Giovanni da padaria, como vai ao Moacir cabeleireiro, bom dia à dona Efigênia que vive sentada à porta de sua casa, e nisso vai, até que eu volto os olhos para mim mesmo e percebo subtamente que EU ESTOU ABSOLUTAMENTE NU DA CABEÇA AOS PÉS. Sou tomado por um pânico inigualável (no universo dos sonhos é impossível a pessoa se adaptar às circunstâncias, por mais que passam continuamente pela mesma situação), e por uma vergonha sem igual, mas: espanto! Ao tornar os olhos para todo mundo, percebo que ninguém nota que eu saí de casa sem ter me inteirado da norma elementar do vestuário básico. As pessoas simplesmente ingoram esse meu deslize imperdoável: minha nudez é invisível. Depois li em algum texto psicanalítico que a questão traumática que afeta o sonhador não é a vergonha social da nudez pública, mas o fato de as pessoas serem incapazes de verem essa nudez.

O segundo amigo fiél é bem mais cheio de excentricidade. É um pesadelo que, de certa forma, não oferece o mesmo terror que seus companheiros; é bem mais ameno e simpático (se posso afirmar tal coisa). Sua razão de ser, penso (pois nunca vi uma explicação bibliográfica para ele), é o da deslocabilidade espacial, da incompatibilidade atmosférica. É o pesadelo dos banheiros: vejo-me preso a um mundo labiríntico composto por uma infinita profusão de banheiros por todos os lados. Uma arquitetura descuidada mas solidamente vinculada a seus detalhes técnicos arquiteturais próprios. Cabines de banheiro cinzentas formando andares em prédios altos; horizontes de cabines de banheiro. O que não é de todo desagradável nesse pesadelo é a fotografia que mistura M. C. Escher com Chirico, e tem uma soturnidade calma de Kafka e Rembrandt. Não há ninguém nesse universo a não ser eu. Alimento a crença que o cerne dos pesadelos está nas lembranças mal processadas da infância, e esse parece formar um contraponto ao primeiro pesadelo: de alguma forma que não sei explicar, prescinde da vaidade em ver-me visto em meus pecados e se instaura em uma autosuficiência das cavernas infantis. Só não entendo o por que dos banheiros!

O terceiro companheiro é o mais sacana de todos. É aquele amigo entre áspas que quer valer-se de alguma teoria deslocada de que a amizade tem de ser um espinho de arrependimentos enfiado na carne. É o sonho com a garota por qual fui apaixonado no período da universidade. Foi um de meus amores platônicos, mas, acredito que, pelo período de dúvidas sobre minha futura independência financeira, é esse que se revestiu do casaco molhado de mar das entidades do sonho. Muitas vezes acordo com uma infinita angústia, sem me lembrar do pesadelo, mas sei que ela estava lá. Esse pesadelo já não vem com frequência depois de meu casamento, mas algumas vezes me pega com a vontade de ir procurar o exorcismo num determinado apartamento de Brasília onde a musa se refestela na obesidade gratificante de duas cesarianas.

O quarto pesadelo, o maldito, essa noite mesmo me pegou em cheio enquanto toda a cidade se esmorecia de lassidão em mais uma das infinitas chuvas do mês. Trata-se do aviso oracular de que eu não obtive meu diploma de médico veterinário _ que justifica minha independência financeira_, pois depois de tantos anos descobriram afinal que eu havia faltado uma prova de Estatística no primeiro ano e que, por isso, meu diploma seria cassado. Deus do céu! Acordo suado olhando em volta e com o coração disparado. E esse amigo fiél é o que, contudo, mais deriva de uma situação real, é o menos lisérgico deles. Eu odeio Estatística! Sempre odiei. E, para piorar as coisas, sou um cara a quem muitas vezes vejo associado o termo de ter uma personalidade fortíssima. Não fui o melhor da classe de veterinária, mas sempre era um estudante competente com direito a méritos isolados (fui o melhor aluno de Reprodução Animal, e Patologia). Mas, por ter uma rejeição tão acentuada, eu realmente faltei todo um semestre de Estatística, não fazendo nenhuma das avaliações da matéria.

Hoje não consigo compreender como fiz isso, mas na época não tive o mínimo de atividade crítica das consequências do ato. Era um professor francês que ministrava a matéria, que consistia em seis meses de Estatística, e seis meses de Genética. Um sujeito cordial, ruivo, média estatura, de óculos e barba, católico convicto e tido como alguém que não deveria, sob nenhuma circunstância, ser provocado. Quando vi que, no meio de ano, já constava que eu estava reprovado por ter extrapolado o limite de faltas, a ficha caiu. O que eu havia feito? Por um desses impulsos que me movia ao mais inadivinhável improviso, fui procurar esse professor em seu escritório. Vi-me contando-lhe uma tocante história de que eu perdera meu pai e por isso havia abandonado o curso, mas que, depois de passados o cerne do sofrimento, retornei afim de tentar reaver as faltas e as provas cabuladas. Afinal, salientei, sempre fora desejo do meu falecido pai que eu me formasse em medicina veterinária. Descrevi a ele a cena trágica de uma tora de árvore caindo em cima de meu pai, e, enquanto ele controlava visivelmente para não deixar que seus olhos morejassem de lágrimas, eu tentava desviar a lembrança original de um conto cômico de Graham Greene em que o pai do herói da narrativa fôra morto vítima de um porco que despencou da sacada de um prédio, afastando qualquer riso involuntário de minha face. O professor disse que poderia dar um jeito nas faltas, que ainda não haviam sido mandadas para o núcleo acadêmico, mas, infelizmente, as provas não poderiam ser dadas novamente. Minha única opção era a do prodígio de tirar 9,5 e 10,0 nas provas de Genética, para ir para a quinta prova precisando alcançar um mesmo patamar de excelência. Aceitei e me matei de estudar, e tirei os 9,5 na primeira prova. Nisso, como era esperado, o gentil professor deve ter cruzado informações e visto que o sofrimento pela morte de meu pai havi-me feito faltar apenas a sua matéria, o que o levou a comentar com uma namorada que eu tinha na época que "o Charlles tinha uma lábia que dobrava até o demônio". Alguns amortizantes aconteceram impedindo que ele me massacrasse, como as vezes em que essa namorada me levara à missa em que tive a sorte de ver o francesinho despatriado bem junto ao púlpito, e, a sorte maior, ele também ter me visto. E de que, afinal, eu conseguira me adequar às exigências, mostrando um esforço que poderia ser o indício da recuperação da minha marginalidade.

Mas o preço que tenho que pagar por isso é a recorrência desse pesadelo que esporadicamente me domina e me deixa bem próximo da sensibilidade esbugalhada de um garotinho prestes a responder diante o pai.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Pequena Retrospectiva

Aos meus eventuais leitores minhas desculpas por não estar postando nesses últimos dias, mas é que, pela primeira vez, serei o anfitrião na ceia de natal e, por mais que isso pareça simples, compromete bastante meu tempo livre. Confesso estar entusiasmado. Será a primeira ceia formal da Júlia, a primeira em que o Eric terá a companhia de amiguinhos, a primeira com árvore de natal e, sobretudo, a que terá um número suficiente de pessoas que compartilham um gosto musical mais aprimorado. Fiz uma seleção de músicas num pen-drive (aliás a renovo ou modifico todos os dias), de maneira que é quase uma pretensa radiografia dos humores esperados na noite. Começa com o maravilhoso Christmas Album do Jethro Tull, numa edição dupla especial com o outro cd ao vivo em St Bride´s Church, passa para uma seção de bandas recém descobertas como o Verônica Falls, o Black Keys, o Cidadão Instigado; depois faz uma visita a um jazz mais eclético, para não provocar rejeições, como Airto Moreira, Dave Brubeck, Aquarela Carioca, Weather Report, faixas escolhidas de Miles e Mingus, de Coltrane com Ellington, de Coltrane com Monk (o milagre quase inacreditável do áudio descoberto de Carnegie Hall); depois a pauleira clássica do Led, Yes, Black Sabbath (esse, talvez as pessoas não percebam a provocação), The Who, Beatles, Stones...

No mais, faço aqui uma pequena retrospectiva do melhor e o pior do ano de 2011. A começar pela melhor leitura que fiz, impossível de escolher apenas um livro, no que fico com a inigualável experiência de ler os três volumes da biografia de Elias Canetti (A Lingua Absolvida, Uma Luz em Meu Ouvido e O Jogo dos Olhos). Claudio Magris eu coloco como a melhor descoberta, com Danúbio, um graal que levarei com felicidade pela vida inteira. Mas na seara dos melhores lançamentos do ano, fico com Herzog (o melhor, mas quase que não vale pois já o leio há tempos), Nêmesis, do Philip Roth, Dublinesca, do Vila-Matas, e Jakob von Gunten, do Robert Walser. Os melhores livros de não-ficção que li: Mecanismos Internos, do J.M. Coetzee, Em Defesa das Causas Perdidas, do Slavoj Zizék, Escuta Só, do Alex Ross, e, embora ainda esteja lendo, mas já de cara o coloco aqui, Como Mudar o Mundo, do Eric Hobsbawn. Há outros, como Sobre Revolução, da Arendt, A Beleza Salvará o Mundo, de Todorov, que também são ótimos, mas, por critério de espaço...

Creio que os piores livros, desafortunadamente, foram os de ficcionistas nacionais, que li emprestados da biblioteca local: A Página Assombrada por Fantasmas, de Antônio Xerxenesky, e Diário da Queda, de Michel Laub. Na semana passada, contudo, tive uma alegria inesperada: a leitura envolvente (me custou dois dias de puro enlevo) de Habitante Irreal, de Paulo Scott_ alguém que ficarei de olho. Gostei também de um ensaio de Bernardo Carvalho publicado na revista Piauí (de Outubro, acho), em que ele fala com a mesma elegância e proficiência de Baudrillard e Bauman, dos temas capitais de Baudrillard e Bauman. Vale ler, e está no site da revista_ um ótimo ensaísta!

Como não sou inteirado no jazz contemporâneo, digo que meu amigo Luiz Ribeiro, que ora ou outra comenta por aqui, me apresentou a Brad Mehldal, que foi a melhor descoberta que fiz esse ano desse estilo de música, com esse álbum duplo:

Também através de um comentário do Fernando, conheci o Cidadão Instigado, que resultou em puro hipnotismo. Mas no melhor lançamento de álbum nacional, fico com o terceiro cd do Teatro Mágico, que está anos à frente da maioria das bandas tupiniquins em questão de instrumentalização e qualidade musical_ e letras, e performance ao vivo (assisti a um show incomparável deles em Goiânia)... De piores do ano, o último disco insosso e suicídio de carreira da Marisa Monte, e a morte definitiva da banda Vanguart em seu recente lançamento, que foi uma promessa efêmera de bom folk music nacional. De lançamentos internacionais de rock, o melhor, disparado, foi o zeppeliano El Camino, da dupla Black Keys.



Mas também teve o primeiro álbum do Veronica Falls, que faz um retorno ao memorial do rock underground dos anos 80 com uma simplicidade e pureza que não reluto a defini-lo como genial.


Como pior álbum do ano, a aberração Mylo Xyloto, do Coldplay, que vai além: é um dos piores discos que já ouvi. E eu até gostava dos caras, apesar da música deles ser meio brochante na maioria das vezes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pulsão de Morte





Estou aqui a rir do inconsciente caráter religioso desse vídeo e da escolha dessa foto como epitáfio a Hitchens. No vídeo, as dezenas de pessoas agradecem, mandam recomendações e bons votos, com uma música sentimental ao fundo. Fazem isso a quem? Ao falecido Hitchens, crentes de que ele, afinal, num paradoxo significativo que nega toda a sua pregação, está escutando do além. Mostram garrafas de whiskey e outros símbolos que sugerem como a gratuidade da existência pode ser usufluida através de uma lúdica devassidão, assim como o já há muito superado Sartre fez com que jovens ateus deixassem de tomar banho e enchessem as caras nos botecos parisienses; e homenageiam Hitchens afirmando com gestos da mais piedosa saudade que ele é quem está no centro dessas oferendas (creio até que, depois das câmeras desligadas, cada um despejou uma dose no chão, dizendo: "essa é para você, hitch.") E a foto pressupõe um Hitchens angelical, olhos claros, cabelos revoltos, muito antes da flacidez e do cinza nada sacramentável da velhice devastada pelo cigarro.

É como o velho e bom Zizék analisa o xamanismo incontornável no gene humano, em A Visão em Paralaxe: os ditos ateus tem suas mentalidades necessitadas de transcendência amparada confortavelmente na determinação daqueles que acreditam. O ateísmo, pois, se não for uma forma de covardia, é uma coragem invertida.
       
O restante da discussão está lá, no blog do Milton Ribeiro:

  http://miltonribeiro.opsblog.org/2011/12/16/muito-obrigado-hitch/#comments                            

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Duas Versões de um Conto de Raymond Carver


                                                                        

É impressionante confrontar as muitas diferenças entre duas versões de um mesmo conto do americano Raymond Carver. Trata-se dos contos O Banho e Uma Coisinha Boa, ambos publicados no volume de contos lançado pela Companhia das Letras, 68 Contos de Raymond Carver. A história desses contos, a título de explicitar melhor suas dessemelhanças, é a seguinte: uma mãe encomenda com um padeiro um bolo de chocolate para a festa de aniversário de seu filho; quase na mesma hora, seu filho é atropelado por um carro. O acidente parece coisa de somenos importância, pois o menino volta para casa andando, mas ao relatar o fato para a mãe, ele tomba sobre o sofá e se lança num coma profundo. O enredo é, basicamente, este, de uma extrema simplicidade. Sabe-se que os contos de Raymond Carver sofreram uma severa interferência por parte de seu editor, Gordon Lish, que chegava a cortar mais da metade do que o autor escrevia, trocava os títulos e, o que pode-se deduzir dessas duas versões, inseria frases de emendas de seu próprio punho, criando um dos casos mais emblemáticos de dupla autoria da literatura. O conto O Banho, é a versão de Lish, reduzida a apenas lacônicas oito páginas. Uma Coisinha Boa é a versão recuperada sem cortes de Carver, com vinte páginas.

É uma verdadeira aula de estética e interpretação textual a leitura dessas duas obras que, apesar de partirem do mesmo pressuposto temático, se revelam absolutamente desiguais. Chegam a ser duas peças independentes que, à força da omissão deliberada num sentido, e do emprego da torrente de informações e sentimentos que lhe fora negado, num outro, entram cada um num território sensorial e artístico diferente. O estudo delas também revela algo sobre as necessidades de subserviência de Carver ao mercado editorial, e de como Lish adequava-se à incumbência de tornar a obra de Carver inserida numa determinada modística literária para ganhar relevância, o minimalismo. Carver se submeteu a essa exigência, sem nenhuma relutância, mandando cartas a seu editor em que deixava claro que Lish poderia meter sua mão onde achasse melhor nos contos, coisa que Lish fazia com um compromisso ditatorial em cortar todas os matizes, tudo que lhe parecia excesso. Para comparar, o volume de contos What we talk about, when we talk about love  tem 103 páginas, enquanto a edição póstuma feita pela esposa de Carver do mesmo livro, sem as interferências de Lish, possui 300 páginas (na tradução lançada pela Companhia das Letras, Iniciantes).

Vamos ao que interessa, a análise desses dois contos. Em O Banho, o conto se encerra com um terrível tom premonitório, fica tudo vago, a sequência esperada pelo leitor do que aconteceria com o menino no hospital é lhe retirada bruscamente, e o que é oferecido é o impacto de uma incerteza descomunal de que os personagens estão à mercê de um universo indiferente e implacável. As oito páginas refazem o tom de desilusão dos contos de Hemingway (com os quais se assemelha muito), podando qualquer aprofundamento com os personagens. Não há descrições de cena além do estritamente funcional, não há qualquer caráter humano ou simpático. É uma peça impecável, dura, afiada, um laboratório em que os personagens são meros veículos ao propósito de um retrato impiedoso de uma condição humana que nega o trivial potecializando-o ao máximo, mas lhe negando qualquer mitificação.

No conto sem edição, vindo direto das intenções de Carver, Uma Coisinha Boa, nada se aproxima do conto de Lish. Sob todos os aspectos, a versão original de Carver é muito superior. Por mais que O Banho seja exemplar do que pode ser uma narrativa sucintamente grandiosa, a impregnação de toda a força e ternura de Carver torna Uma Coisinha Boa  algo acima do talentosamente terrestre, elevando-a a um nível onde apenas a sublime genialidade alcança. Joseph Brodski, analisando O Pavilhão dos Cancerosos, romance de Solzenistkin, diz que o autor vez ou outra demonstra que está para transpor a normalidade eficiente da narrativa para ascender-se a um plano que o aproximaria dos grandes autores russos pré-revolução, mas que nunca consegue dar o passo que falta. Carver, nesse conto, não só caminha com desenvoltura com suas próprias pernas, como rebaixa Lish a um censor que mais cedo ou mais tarde terá que ser reavaliado como uma curiosidade de mercado, e ultrapassa o limite imposto pelos grandes criadores do conto. Enquanto Hemingway é o modelo perseguido por Lish, Carver dialoga com o "coração generoso" que Tchécov dizia ser uma qualidade imprescindível para uma narrativa.

Em Uma Coisinha Boa, Carver nos dá o calor dos personagens, nos afunda em seus medos, em suas ambiguidades, em suas humanidades. Não o interessa o efeito bombástico, a técnica do assombro que Lish empreende em O Banho. Lish só podia ir até ali, no terror puro, na falta de esperança. Carver atravessa a linha e nos dá algo excessivamente genuíno: o impacto do que está além da incompreensão das relações humanas. Quando o casal, após a morte do menino (narrada com uma grandeza tolstoiana, o que por si já revela o pecado dos cortes de Lish), se encontra com o ameaçador padeiro, que lhes telefonava repetidas vezes para que estes viessem-lhe buscar o bolo encomendado, acontece algo só possível na grande arte. De madrugada, os pais do menino, frente a frente com o grosseiro e lacônico padeiro, levam o leitor a atingir aquele estágio de envolvimento com a palavra que é capaz de mudanças definitivas: as lágrimas, o desfiguramento que a derradeira compreensão causa, aquela leveza que ao virar a página nos dá a certeza rara de ter sido tocado por uma percepção alienígena.

Ler as versões dilapidadas dos contos de Carver por Lish, é como se contentar em ver um retrato focal do cavalo ferido em detrimento a todos os detalhes suntuosos e fundamentais da Guernica por inteiro.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os Invisíveis

Leio sobre a "mãe dos trabalhadores americanos", Mother Jones, num caderno especial da Le Monde Diplomatique. Mother Jones está, para todos os efeitos da posteridade, praticamente esquecida. Sua história é um desses milagres que revelam que a obviedade do animal pensante que somos ficou perdida em algum lugar entre o saceio do estômago e a flacidez dos glúteos, e comportamos hoje A exceção da grande maioria dos que apenas passam pela vida. Sua biografia mostra que ela foi uma das raras pessoas a que se pode veicular o conceito de humano, no que teve de engajamento por uma vida melhor dos trabalhadores massacrados dos EUA do início do século XX, missão que levou a sério e aos extremos da abnegação pessoal pelos 93 anos que teve em sua longa vida. Desde muito jovem ela já se indignava com o sofrimento dos servos modernos assalariados da indústria americana, suas parcas condições de moradia, alimentação, a ausência total de profilaxias e tratamentos de saúde, a baixa estimativa de vida, a redução brutal da existência apenas e tão somente para ser um instrumento para a riqueza exorbitante de uma minoria de industriais. Mas foi depois que perdeu os quatro filhos e o marido numa epidemia de febre amarela, causa que atribuiu às condições de miséria do povo, que largou definitivamente o lar e qualquer posse material para viajar pelo país, promovendo greves, protestos, agitações populares, através de sua poderosa capacidade discursiva e sua prontidão em se fazer de escudo, que a fazia identificada automaticamente pelos trabalhadores. Durante 25 anos, essa senhora não teve residência fixa; uma vez, diante do Congresso, explicou: “Da mesma forma que meus sapatos, meu endereço me segue por onde eu for”, diz o ensaio da Le Monde.

Mas o que mais me chamou a atenção nesse texto foi o espanto do autor ao narrar as agrúrias da rotina de trabalho dos funcionários de indústria dos Estados Unidos da época. Trabalhavam 12 horas por dia, seis dias por semana. Mas é o quanto ainda trabalha a maior parte dos servos modernos assalariados do Brasil atual.  Uma grande parte dos 5.565 municípios do país possui um quadro de exploração patronal mortificante, anacrônico, brutal, que se disfarça sob uma série de subterfúgios amenizantes como a da "saudável" maleabilidade das leis trabalhistas que tornam o mercado de trabalho mais dinâmico e produtivo, que faz crescer a economia do Brasil para continuar mantêndo-nos como a nona economia do mundo. Hoje em dia, uma brasilcolonização retrógrada e acabrestante submete os trabalhadores braçais sem especialização a uma diária de serviço aviltante, desumana, desmoralizante sobre todos os aspectos, mas isso jamais é falado na imprensa, jamais é mencionado nas conversas sofisticadas das elites culturais que se vangloriam de serem de esquerda, jamais passa pela cabeça do consumidor padrão que vai ao supermercado todas as semanas que ele mesmo interaje com esses neo-escravos constantemente. Esses trabalhadores são os legítimos invisíveis da sociedade.

Há um episódio da antiga série Além da Imaginação em que os criminosos de uma sociedade futura são sentenciados a viverem pela cidade vestidos com um uniforme que os distinguem como aqueles com os quais ninguém pode conversar, cumprimentar, ou sequer demonstrar que os vêem. Eles sofrem de uma imolação extrema que os levam à loucura, pois a completa indiferença programada dos outros cidadãos lhes dão a certeza de que, enfim, eles foram executados, eles não mais existem, deles nada mais pode partir de danoso ou benigno. Esses neoescravos são exatamente assim, no que tange ao contexto comunitário de não serem vistos em sua natureza humana, senão apenas notados em sua funcionalidade prática instantânea. Tirando os trabalhadores das grandes cidades, que são acobertados pelos direitos trabalhistas através de uma suficiente prontidão dos ministérios público e do trabalho em fazê-los atendidos, afirmo sem medo de ser leviano que, nas demais cidades com média de 20.000 habitantes, esses trabalhadores ainda se encontram no obscurantismo jurídico do Brasil Colônia: são escravos que cumprem a obrigação patronal de serem meros instrumentos de arrecadar dinheiro para os donos absolutos de suas forças de trabalho. Aqui na cidade onde moro vejo isso constantemente e em todos os lugares, e a cidade onde moro é uma representante fidedigna do microcosmos econômico, político e social dos milhares de municípios interioranos brasileiros.

Fico muito constrangido de ir fazer compras no supermercado. Sei por ter amigos que trabalham nesses estabelecimentos que todos ali purgam uma carga de serviço de 12 horas por dia, 6 dias por semana. A mesma labuta violenta contra a qual se indignou o autor do artigo acima mencionado sobre Mother Jones. E a maioria ganha um salário mínimo, sem adicionais de hora extra ou qualquer outro. Um moça do caixa chegou a me confessar que odiava o horário de verão porque tinham que, literalmente, trabalhar uma hora a mais, pois a vontade do patrão os levava a fechar as portas quando não houvesse mais luz do dia. Não por acaso as caras que vemos nesses mercados mudam de três em três meses, pois ninguém suporta muito tempo uma escala de opressão tão gritante. Um amigo de serviço me disse que, antes de ser técnico de abate, havia participado de uma entrevista de emprego com um dono de supermercado: este lhe colocara a panos limpos que ele, para trabalhar ali, não poderia estudar à noite, não poderia chegar atrasado um minuto sequer, e, todo trabalho faltado seria descontado do já por si minguado salário. E o mais grotesco é que em todos os supermercados vejo frases bíblicas pintadas pelas paredes, se Deus é por mim, quem será contra mim; mil de teus inimigos tombarão à esquerda, e mais mil à direita, mas contigo, nada acontecerá. Não à toa o neo pentecostalismo mantêm um grau de submissão retroalimentar nas várias igrejas que se tem por aqui, onde os pastores fazem subir ao púlpito os empresários colaboradores das cestinhas de final de mês, e num nível abaixo ficam prostrados em condicionada admiração os milhares de pobres coitados dos fiéis a quem nunca chegarão o direito da educação esclarecedora e do tempo livre para festejarem com a família. Nesse natal, quando eu for comprar um panetone ou um litro de leite, eles estarão lá, os invisíveis, cumprindo à risca a tarefa de serem braços para carregar, olhos para procurar pelas prateleiras, pernas para irem aos depósitos, mãos para digitarem valores. E só! Não me admira que suas caras sejam o matiz entre a estupidez de não estarem ali em espírito, ou um ódio muito bem disfarçado. E sobre eles, a doutrina rígida de escravos imposta pelo cristianismo prostituído da perene humildade, pregada pelos pastores que estacionam suas Hilux nas garagens dos grandes templos. E sobre eles a estatística milagrosa e cafajestemente falsa de sermos a nona economia do mundo; sobre suas costas, o fardo de carregarem números impossíveis, que servem para apimentar os investimentos, enriquecer as indústrias, expandir as empresas, crescer as boas novas de felicidade radiante dos templos, e, assim, manter em contínua produção a realidade imaculada de continuarem a serem invisíveis e com a importância básica irrestrita da enxada. E isso, enquanto cito apenas os supermercados. As lojas daqui mantêm vendedores no mesmo ritmo de servidão, e lhes pagam, apenas e tão somente, 3% de comissão em cima do valor dos produtos por eles vendidos.

E onde estão os sindicatos?, os fiscais das leis trabalhistas?, a motivação de um desses escravos em processarem seus patrões? Respostas: os sindicatos não existem, ou estão comprados já há décadas pelo Conselho Dirigente de Lojistas, o que os fazem inutilizações que apenas comemoram o feriado do Dia do Trabalho com sorteio de uma moto (ironia não falta a esse pessoal!). Já houve casos de processos por parte de funcionários, mas estes tiveram que se mudarem de cidade, pois a lista negra na qual passaram a figurar seus nomes lhes impossibilitaram para sempre arranjarem outro serviço.

O MP é composto de funcionários públicos (juízes e promotores), que possuem a idiossincrática certeza de que não fazem parte da sociedade, estão numa bolha de proteção da qual observam não muito detidamente os demais mortais que encenam o grotesco da vida da qual prontamente se excluíram em suas fortalezas de poder e altos salários. A universidade local, que nunca passou de um colejão em que penduram-se os cabides de emprego, é cega e molejamente corrupta _ a ponto de, em um livro lançado por um dos doutores em sociologia, estar citado alguns pareceres capengas da chefe do sindicato de trabalhadores rurais como se fossem ápices da inteligência humana (uma mulher que há anos vem mantendo o cargo através de revesamento com o filho e com laranjas).

Assim... saúdo daqui desse meu canto representativo do grande Brasil, a Nona Economia do mundo (foguetes e mulheres seminuas, paisagens rascantes da magnífica agropecuária nacional, cidades turísticas com trabalhadores com lindos sorrisos marfínicos), a Mother Jones. E repito as palavras de um dos radialistas que notificou o momento de seu sepultamento:

Hoje, nas planícies de Illinois, nas colinas e vales da Pensilvânia e da Virgínia, na Califórnia, Colorado e Colúmbia Britânica, homens fortes e mulheres esgotadas pelo trabalho derramam lágrimas amargas. A razão é a mesma: Mother Jones está morta”.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Lucidez Excessiva

Nada me assustou mais no campo literário dos últimos anos que o suicídio de David Foster Wallace. Sobreveio-me o mix de emoções e concepções incertas que faz parte dos sentimentos despertados pelo suicídio e que são cansativos clichês: o susto, o vazio, a busca pelos sinais pregressos que justificassem o ato, e... a certeza de que se é impossível entender. Todo suicida está além das forças da eufemização. Daí que mesmo os mais torpes e infames suicídios_ e a história está cheia deles_ deixa o suicida no equilíbrio inalcançável daquele sobre o qual não se pode cair a condenação; está além do bem e do mal. Li há pouco num romance de Sebald, a história de como Assia Wevill_  a belíssima judia morena, que foi a segunda mulher de Ted Hughes_ repetiu milimétricamente os passos da morte de Silvia Plath, acendendo o gás, fechando as portas e as janelas da casa, deitando-se na cama, até que deixasse a marca severa no espírito de Hughes de que a sina de uma esposa suicida era um dos círculos que o cosmos iria repetir infinitamente para aprisioná-lo em seu inferno particular. A extrema maldade de Assia Wevill, seu toque de originalidade calculado para diferenciá-la de Silvia, foi que fez com que permanecesse junto a ela a filhinha de 4 anos que teve com o poeta. Conceber esses gestos de egolatrismo assassino é algo insuficientemente possível quando as causas pendem para a paixão extrema. Mas um caso como o de Foster Wallace oferece o paradoxo da falta de simetria entre o martírio auto-imposto e a sua profunda personalidade artística, mostrada em livros que não oferecem um indicativo de sua derradeira ação, e o de sua estampa consumível de garotão ultra-culto de cabelos compridos que era uma das promessas das letras estadunidenses.

Li apenas um volume de contos e insights humorados publicado pela Cia das Letras, de Wallace. Fiquei entusiasmado diante a visão de um filósofo com amplos domínios da escrita ficcional, sentado no centro de sua lucidez controladamente demencial, e que prometia que estava para sair da auto-indulgência para mostrar sua efetiva força criadora. Todos os prognósticos apontavam para um novo Pynchon. As lentes ultra-realistas, que beiravam o lisérgico, jamais poderiam diagnosticar uma desistência futura_ afinal, Cortázar mostrou-se assim, e mais uma cambada de outros escritores. Porém, o que mais me impressionou foi um ensaio, que me chegou às mãos após a morte de Wallace, em que ele fala de uma maneira positiva, solar, radiante mesmo, sobre as efluências da alma. Tal ensaio falava sobre a televisão, internet, a fragilidade de se observar o ser-humano em supermercados (e detectar que, por debaixo da flâmula de ódio impessoal que havia por detrás dos rostos, podia-se amá-lo). Era uma palestra para estudantes de não sei qual curso, e Wallace estava alí em toda sua portentosa juventude, exsudando carisma. Parecia Bernard Shaw falando aos segundoanistas irlandeses, mas havia também algo de Churchill convocando para a batalha, e algo de uma versão metropolitana de Whitman. Como me acontece com as grandes páginas que leio pela internet, perdi-a em definitivo, esqueci de sua fonte e de suas circunstâncias principais_ apeguei-me apenas ao que interessa nessa forma filtrante de mídia: a sua energia, a sua música arcangélica, o seu eco. Afinal, o texto, em seu âmbito mais profundo, que só poderia ser entendido depois que o suicídio de Wallace lhe limpava de todas as demais interpretações equivocadas, maldizia a distração perpétua da televisão e da internet.

Se tivesse lido tal ensaio enquanto Wallace estivesse vivo, tal iluminismo de contramão não teria me indicado nem distantemente a morte do autor; mas sua leitura póstuma só confirmava a certeza inexorável de que ele não aguentava mais. No momento em que depositava o último ponto final no texto, Wallace já sabia o que tinha que fazer. Na certa ele tinha tudo muito terapeuticamente controlado, a depressão, a fé de que, afinal, o caminho geral para a destruição por qual anda a espécie não é uma certeza; acima de seu subconsciente que havia decretado em segredo a sentença incontornável, boiava todos os singelos brinquedinhos da resistência que simulavam ter vencido.

Wallace não foi um artista qualquer. Seu romance de mil páginas está programado para ser lançado no Brasil ano que vem. Não há histórico de drogas, como o que levou ao suicídio um outro ícone norte-americano como Kurt Cobain. Não há a possibilidade de um erro de dosagens de antidepressivos, como o que levou à morte o magnífico Nick Drake. Sofria de depressão desde muito cedo, e, ao que tudo indica, tal depressão foi levado a graus exacerbados pelo seu primor cerebral. Lacan dizia que devemos evitar o excesso de informações. Penso aqui com meus botões que foi o excesso de informações que levou alguém brilhante como Wallace ao suicídio. Se eu sofresse de depressão, jamais procuraria auxílio nos livros. Também não procuraria refúgio no dinheiro_ um irmão de uma antiga namorada se matou quando sumiu de suas contas o último centavo. Viveria sob o conforto de um amor envelhecido, que dispusesse a ver meus desabafos sobre dores articulares como homilias religiosas, e me cobrisse gentilmente os pés quando fosse se deitar na cama ao meu lado. Nada mais instrutivo contra o suicídio que os filmes dos irmãos Coen. Excesso de lucidez não significa profecia. Maiacovski se matou por excesso de lucidez; Benjamin idem; e, ironia das ironias, a História iminente provou que ambos estavam constrangedoramente errados. Se tivessem persistidos um dia (Benjamin), ou anos (Maiacóvski), veriam que a aleatoriedade dos acontecimentos serve muito mais para manter a homeostase da existência do que para destruí-la, e que o horror é uma enganosa e ingênua miopia quanto às demais prerrogativas. Do alto da erudição e conhecimento, o melhor para a sobrevivência é deixar de lado as Grandes Verdades e dar ouvidos à vox populi mais banal: nada melhor que um dia após o outro. 

Penso que Wallace sucumbiu às distorções alucinadas da exuberante vida americana, como precaviu Bellow, e não foi forte o suficiente para perceber que tudo não passava de alucinações. Posso estar sendo injusto, mas essa é a forma de otimismo mais acentuado a que eu posso chegar. Isso pode estar sendo provocado pela leitura de Tolstoi, pela indignação que vejo crescendo pelo mundo... Talvez haja um derivado da hipótese de Gaia para a antropologia e estejamos destinados à salvação através daquilo em que menos apostávamos que ela veria: o acaso indiferente.