sábado, 31 de março de 2012

Patagônia

                                                                     Vladimir Safatle
Recuperei alguns amigos através da net, amigos da universidade, de bairros onde morei por algum tempo, de cidades onde a aventura do diploma recém ganho me fez ir e que me ficaram na memória como remansos que só existiam enquanto estive lá, com sua vida prosaica e sua população de mil habitantes. A net resgatou todos eles para mim, me mostrando que a distância os transformaram em diversos níveis de profundidade. Um dos meus melhores amigos, José Canavarros, que não o vejo há doze anos, o maluco despojado com quem aprendi muita coisa e formamos uma banda despretenciosa com um nome um pouco menos (God´s Sound), me fez ver o quanto eu mesmo me tornei outra pessoa. José tem dois filhos, assim como eu, e deve sentir a espécie de aturdimento que eu sinto pela roupa do adulto sereno e atarefado ter-lhe caído tão bem no corpo. Quando o vi pelo Facebook me passou uma fagulha de vergonha de reconhecimento por termos traído aquelas ideias seriíssimas de liberdade, e me doeu calmamente a memória de que quando o dia prefixado chegou, nossos pés se desviaram da longa trilha da Patagônia com a qual sonháramos tanto. Eu estudei espanhol, ele, que já o sabia, comprou e aprendeu a tocar um charango.

Também tive o choque de descobrir que um outro amigo dos tempos da veterinária morreu escorado a uma árvore. Poderia-se ter imaginado por detrás de seu olhar que não pousava mais que alguns segundos nos objetos, que as drogas o cosumiriam? Minha primeira namorada se casou, teve dois filhos, o marido a deixou, seu irmão deu-se um tiro fatal no ouvido, e a encontrei com o carro roubado acionando o seguro em  alguma esquina do Google. Ontem, porém, ou antes de ontem, me aconteceu o maior choque dessas redescobertas todas. Assistindo ao Jornal da Cultura, vejo que um dos usuais professores universitários que comentam por lá, não me era de forma nenhuma estranho. Aguardei o anúncio de seu nome e, era ele: Vladimir Safatle. Meu Deus, há quanto tempo não pensava nele! Estudamos juntos no Colégio Objetivo de Goiânia, e tínhamos 16 anos. Desde então, depois que nos afastamos, por uma incrível distração eu o havia apagado da memória. Não, é mentira. Uma ou outra vez,  trazido por alguma correlação de pensamento, punha-me a cogitar o que a vida tinha feito dele. Lembrava-me que um amigo daqueles tempos, que hoje, aliás, o encontrei médico pelos espaços virtuais, dizia que não chegaria aos trinta anos, um suicídio o aguardava cordatamente pela frente. Nunca compartilhei com essa teoria.

O Vladimir hoje, abaixo da calvície que lhe saiu melhor que o receio (entre os ruivos e os negros, a calvície cai bem, azar o meu!), é exatamente igual ao quando tinha 16 anos. Era um cara para lá de excentrico, e dono de um senso de humor que se firmava nas reticências e no olhar de resignação diante sua superioridade intelectual entre nós, os outros moleques. Conseguia despertar o riso alheio por se misturar a um senso de vergonha que compartilhávamos diante ao segredo que levava. Ele chegava à sala de aula sempre com alguma novidade chamativa no corpo, disfarçada como algo naturalíssimo. Ia com alfinetes enfiados na carne das bochechas, com a cara maquiada ou simplesmente com um risco enigmático rosa traçado da orelha  à boca. Dormia com o rosto no tampo da mesa religiosamente durante todas as aulas, insistindo em se levantar como um Lázaro ressuscitado por alguma besteira dita pelo professor para lançar com sua voz rouca (embargada ainda mais pelo sono) a verdade sobre o tema. Os professores não o gostavam muito, compreensível. Chegava quinze minutos antes das provas, com um olhar de desconhecimento simulado, e, com um caderno emprestado em mãos, em sua modéstia ostensiva mostrava o quanto sua concentração era primorosa por apreender o conteúdo de uma vez.

Ele tinha ido ao programa do Jota Silvestre e ganho o prêmio máximo de conhecimentos gerais. Sua figura de garoto esfalfado por uma felicidade estranha desvinculada aos brinquedos comuns dos outros garotos rodara o Brasil inteiro, a criança prodígio do Fantástico. Claro que um garoto cabeludo com a cara cheia de timidez estúpida como eu não poderia interessá-lo, e meu nível de autismo social era muito grande para também ele me interessar. Mas aí me deram um prêmio de literatura e ele se achegou a mim. Passou a me instruir em vernissagens que serviam bebidas alcóolicas, me apresentou ao García Márquez, ao Joy Division, e me emprestou o Crime e Castigo em volume duplo. Fui a uma apresentação de sua banda "Oficina de Testes", e até hoje não compreendo o disparate da música dark que ele compunha aceitar um vocalista rebolante que queria ser o Paulo Ricardo.

Uma vez eu levei a melhor sobre ele. Para fugir ao martírio de assistir ao Beijo da Mulher Aranha, anunciei ao bilheteiro que tínhamos 16 anos. Em represália, quase fomos linchados pelo público impressionado de Alienígenas do Espaço, quando ele passou a comentar alacremente cada cena do filme em voz alta. Sua casa tinha um ambiente pesadamente intelectual. Ele era uma cópia do pai, taciturno, avidamente grudado a suas crenças políticas, se havia carinho por ali era segredo para horas noturnas, escondido do olhar alheio e da consciência de autoimportância. Minha família também tinha o mesmo hermetismo, mas essa semelhança em vez de me alegrar me deixava mais deprimido. Preferia os amigos com radiosa normalidade burguesa.

Nossa amizade chegou ao fim por causa de um aspirador de pó. Havíamos comprado, cada qual, o LP que trazia a melhor canção nunca cantada pela Madonna, "Maria Madalena", de uma tal de Sandra . Estávamos na casa de minha mãe e ele, num de seus arroubos de inconstância, olhou para o aspirador de pó  e, sentenciando-o como objeto fútil da burguesia, lançou-se a destruí-lo com os pés e mãos até reduzir a coisa a fragmentos de plástico. Rolamos no chão na porrada, um enforcando o outro até não sei quem obter a rendição. Ele saíu pela porta, para minutos depois voltar para pegar a Sandra que havia esquecido por sobre a mesa. Nunca mais nos vimos, o que pode ser razão da bolha de supressão que minha memória criou.

O que eu posso dizer agora, do alto da minha maioridade, caso Vladimir tenha um tracking tão bom a ponto de cavucar esse blog obscuro. Cara, eu também odiava aquele aspirador!


Resposta via e-mail do Vladimir ao post:



"Charlles,

Primeiro, creio que estou te devendo um aspirador novo. Nao consigo lembrar porque eu o quebrei, mas temos que nos encontrar para que eu possa pagar esta dívida. Fiquei muito sensibilizado com seu texto. É sempre meio aterrador nos descobrirmos pelos olhos dos amigos antigos. Talvez você também tenha a impressao de que a vida de alguém acaba sendo uma sucessao de personagens que ficam meio pelo caminho. Algo se vai e algo fica.
Bem, entendi que você virou veterinário e mora em algum lugar que nao é Goiânia, certo? Entao, seria legal ter mais notícias tuas. De fato, eu também tenho boas lembrancas desta época.

Um grande abraco,
Vladimir

quarta-feira, 21 de março de 2012

Contra o Dia



Sabe aquela criança à espera pelo presente prometido no natal? Pois desde que vi hoje no site da Cia das Letras que Contra o Dia, de Thomas Pynchon, já está disponível para a venda, retornei à expectativa da infância pelo brinquedo embaixo da cama. Já o encomendei agora pelo site da Livraria Cultura, que sempre coloca os pré-lançamentos com descontos substanciais (Guerra e Paz comprei 50 reais mais barato; e agora, esse Pynchon com 25% a menos). Já conheço a via sacra. Amanhã a LC vai me mandar um e-mail dizendo que a editora ainda não lançou o livro, mas assim que o fizer o envio será imediato; daqui uma semana o site da Cia das Letras o porá como lançamentos da semana, e então, umas duas semanas adiante, as 1088 páginas chegarão às minhas mãos. Cheiros, tatos, e a prosa de Pynchon durante um bom tempo pela frente. Essas exaltações que me comprovam que o bom e velho livro é eterno!

terça-feira, 20 de março de 2012

O poeta e o mundo (A Matéria da Revista Piauí de Maio de 2007 sobre Wislawa Szymborska)

Creio que Wislawa Szymborska está a se tornar uma paixão_ com toda a certeza para mim, para o Fernando (que me deu a dica e me fez achar nos arquivos on-line da Piauí os textos abaixo), para o Farinatti que foi fisgado pela necessidade de comprovar o livro da Cia das Letras. Quem sabe até a Caminhante abre a mão, num rasgo assombroso de perdularismo, e adquira o livrinho. Bem, estou a fantasiar milagres (a Caminhante gastando 39 pilas num livro!!! Loucura). Segue as páginas da Piauí, um tesouro, uma maravilha...
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, no vilarejo polonês de Bninie. Morava em Cracóvia desde os 8 anos. Levou uma vida singela, sem grandes atropelos. Durante a Segunda Guerra, foi funcionária do departamento de estradas de ferro. Mais tarde, trabalhou como secretária, ilustradora e, durante décadas, como editora de uma revista cultural. Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista, que o considerou obscuro demais para as massas. Talvez Szymborska tenha levado a sério a advertência, pois a obra que viria a consagrá-la é de uma desafetação exemplar. A dicção é coloquial, despojada de retórica e efeito poético. São poemas claros como água pura.

Mas é possível espantar-se com a água, e assim é Wislawa Szymborska: ela se surpreende, seja com as miudezas da vida, seja com os horrores da História. É uma poesia do assombro. Há um espanto de natureza quase darwiniana, suscitado pelo fato de estarmos aqui - nós e não outros. Há o que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos. O pior acontece, e será esquecido.

Em 1996, a poeta ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida fora da Polônia. Foi talvez o único sobressalto de sua vida. No Brasil, Ana Cristina Cesar e Nelson Ascher traduziram alguns de seus poemas. Regina Przybycien, professora da Universidade Federal do Paraná, publicou na revista Oroboro uma pequena seleta de traduções. piauí publica nove poemas traduzidos em conjunto por Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczyn´ska da Nóbrega; ele, a partir da tradução inglesa, ela, do original polonês. O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.

***

Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa mui¬to mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.

Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."

O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.

Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.

FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO
Pularam dos andares em chamas-
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles-
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso.



POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.



A ALEGRIA DE ESCREVER
Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio-essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.

A CORTESIA DOS CEGOS
O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar-
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir-embora seja impossível-
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.



BEM CEDO
Ainda durmo,
mas enquanto isso as coisas acontecem.
A janela embranquece,
a escuridão se acinzenta,
o quarto emerge de um espaço indefinido,
listas pálidas e instáveis buscam apoio.
Na fila, sem pressa,
pois isso é uma cerimônia,
amanhecem as superfícies do teto e das paredes,
as formas se destacam
umas das outras,
as da esquerda das da direita.
As distâncias entre os objetos vibram,
as primeiras luzes cintilam
no copo, na maçaneta.
As coisas deixam de ser impressões, já existem,
como o que ontem foi deslocado,
o que caiu no chão
e o que está contido nas molduras.
Apenas os detalhes continuam invisíveis.
Mas atenção, atenção, atenção,
tudo indica que as cores estão retornando
e mesmo a mínima coisa recebe de volta sua matiz,
acompanhada de uma ponta de sombra.
Raramente isso me surpreende, mas deveria.
Normalmente eu acordo, testemunha atrasada,
o milagre finalizado,
o dia definido
e a aurora magistralmente transformada em manhã.



AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
Quando eu falo a palavra Nada,
crio algo que nenhum não-ser comporta.



ENCONTRO INESPERADO
Nós nos tratamos com extrema cortesia,
dizemos: quanto tempo, que bom revê-lo.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões preferem o chão.
Nossos tubarões se afogam no mar.
Nossos lobos bocejam diante da jaula aberta.
Nossas cobras perderam seu lampejo,
nossos macacos, sua graça; nossos pavões, suas plumas.
Faz tempo que os morcegos deixaram nossos cabelos.
Caímos em silêncio no meio da conversa,
e não há sorriso que nos salve.
Nossos humanos
não sabem falar uns com os outros.



O FIM E O INÍCIO
Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensangüentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.



PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA
Nós o chamamos de grão de areia,
mas ele não se considera nem grão nem areia.
Vive perfeitamente bem sem um nome,
seja genérico, particular,
provisório, permanente,
incorreto ou preciso.
Nosso olhar, nosso toque nada significam para ele.
Ele não se sente observado e tocado.
E o fato de que caiu no parapeito
é uma experiência nossa, não dele.
Poderia cair em qualquer outro lugar,
sem saber se parou de cair
ou se continua caindo.
A janela tem uma bela vista do lago,
mas a vista não se vê a si mesma.
Ela existe nesse mundo
sem cor, sem formato,
sem som, sem cheiro e sem dor.
O fundo do lago existe sem chão
e sua margem, sem beira.
Sua água não se sente nem seca nem molhada
e suas ondas nem uma nem muitas.
Elas quebram surdas a seu próprio barulho
em pedras nem grandes nem pequenas.
E tudo isso sob um céu que por natureza não é céu,
onde o sol se põe sem se pôr
e se esconde sem se esconder por trás de uma nuvem indiferente,
agitada por um vento
que sopra apenas por soprar.
Um segundo passa.
Outro.
Um terceiro.
Mas esses três segundos são apenas nossos.
O tempo passou feito um mensageiro com notícias urgentes.
Mas isso é apenas nossa símile.
O personagem é inventado, sua pressa imaginária,
sua notícia desumana.

Wisława Szymborska


Chegou-me ontem o volume de poemas de Wislawa Szymborska. Não dá para colocar ali ao lado como "estou lendo". Já o li em uma sentada, e continuarei lendo a cada dia. E não há como fazer uma resenha desses poemas. Qualquer um se sente muito diminuído diante esse propósito. A não ser que eu faça uma resenha sobre a enorme alegria que eles me dão, a enorme leveza na alma. A necessidade de decorar e saber de memória cada um deles. Cada um é uma maravilha, literalmente. Cada um é um aprendizado e uma bagagem que se leva na qual trabalha o pensamento. Cada um é uma infinita simplicidade recheada de insuspeitas sentenças que parecem imortais. Jamais vi um poeta tão simples e tão profundo. Não dá para escrever o quanto esse livro me fez bem. Reli metade dele em voz alta e todos da casa fomos dormir às duas da manhã. Hoje acordei e peguei o livro da estante, a capa suavemente amassada pela manipulação de minha filha, e fiquei escolhendo algum poema para colocar aqui. Diante tantos que me encheram os olhos de lágrimas, esse que se segue vem como amostra ocasional do poder de deslumbramento contido em cada página:

Sob uma estrela pequenina

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

domingo, 18 de março de 2012

Notas Sobre Duas Leituras - Roth e Bolaño


Como Philip Roth é ostensivamente vaidoso! Não conheço nenhum outro escritor que seja tão auto-referente e mantenha uma sistemática organização em torno de sua figura icônica de literato. Já havia tido um exemplo disso em Operação Shylock e O Avesso da Vida, e de novo encontro esse meta-egocentrismo em Zuckerman Acorrentado. Se tivesse que resumir do que esse último trata, a única resposta coerente seria: de Philip Roth. Especificamente da fama e dos milhões conseguidos depois da publicação de Complexo de Portnoy. Roth/Zuckerman translada em torno do antes e do depois de sua proeminência definitiva no mundo das letras americanas com Portnoy/Carnovsky. E esses sintomas evidentes de egolatria são ainda mais didáticos quando se tem como leitura paralela o mais recente lançamento no mercado nacional de Roberto Bolaño, Chamadas Telefônicas

Roth tem um adendo fundamental que não o faz se perder na mera chatice, que é seu enorme talento e sua capacidade inigualável de dar coerência a seu universo particular. Ele desempenha essas duas qualidades num nível tão alto que é evidente que se faria um grande escritor em qualquer ambiente e sob quaisquer imposições conceituais de geografia e política. Coube-lhe nascer no país onde o Mercado mais poderoso do mundo tanto oferece pleno surtimento às artes quanto lhe impõe alguns sacrifícios matizados. Não é pouco o peso que a América sobrecarrega nas costas de seus escritores da última metade do século passado para cá. Não é à toa que esse fardo faz com que seus escritores procurem a prova de seus conteúdos reais em explorações de níveis mais espiritualmente relevantes de experiências humanas. É um capítulo à parte da literatura norte-americana a busca de seus romancistas pela legitimidade orientalista. Daí Roth ter sido, por um bom tempo, editor de autores do leste europeu, e ter escrito Shylock; daí o Bellow de Dean´s December; o Franzen da parte lituana de As Correções; o Updike de seus romances "brasileiro" e "africano". Mas dessas aventuras, mesmo Bellow perde para Roth no quesito de poder imaginativo. E mesmo Bellow fica um nível abaixo diante da profunda percuciência textual dessas cenas produzidas por Roth. Algumas das páginas mais bem escritas de Roth podem bem ser identificadas nas da descrição do julgamento de Demjanjuk, o acusado de ser Ivan, o Terrível, o carrasco das câmaras de gás de Treblinka, em Operação Shylock. E no primeiro romance do volume Zuckerman Acorrentado, intitulado O Escritor Fantasma, há um capítulo magistral sobre uma hipotética sobrevivência de Anne Frank que se enche de uma experiência nos campos de concentração que só tem um detalhe desabonador: é tudo fruto da imaginação e da escrita de Roth.

Como se lhe faltassem assuntos, Roth brinca em Zuckerman Acorrentado em inventar significâncias. Esbanja com a maior má fé um talento grandioso para a escrita, driblando a escassez de experiência relevante com imposturas acompanhadas claramente da confissão de seu isolamento em uma vida sem profundidades. Em determinada altura de Zuckerman Libertado (um dos 3 romances e 1 epílogo que compõem o volume editado pela Cia das Letras), escreve que o cotidiano insosso de Zuckerman poria qualquer leitor para dormir, com as descrições de seu alter-ego em experimentar ternos de 3 mil dólares e suas mornas aflições sentimentais_ e isso depois de ter brindado em seu texto justamente longas páginas onde a única coisa que acontece são experimentações de ternos de 3 mil dólares e mornas aflições sentimentais. Roth aqui apenas mostra seu lado departamental de escritor profissional bem organizado que escreve seis páginas diárias, haja o que houver. E seu egocentrismo_ mesmo posteriormente suavizado com a descoberta de que Zuckerman distancia do verdadeiro Roth, como o fato do pai do autor real ter sido mais longevo que o do autor fictício_ chega a ser incômodo para o leitor que não conheça os grandes livros da trilogia americana e O Teatro de Sabbath; muitas vezes se vê ali o mesmo encanto pela fama e pela fortuna que nas entrevistas com astros do rock, e nem sempre a dosagem de substância oferecida serve para maneirar a exposição exageradamente vaidosa do quanto O Complexo de Portnoy/Carnovsky fez bem para às contas bancárias de Roth. Não é um livro recomendado para iniciantes a Roth, com riscos de que jamais se abra os livros importantes que vieram depois, que nada tem desses jogos dúbios. Roth é um autor tardio, por mais que tenha se iniciado cedo nas letras. Só seus romances da maturidade tem escopo para durar. O resto_ as pequenas diatribes e diversões_ ainda que sirvam para regalar seus admiradores com sua escrita afiada e sua inteligência incansável, não sobreviveria por si mesmo.

Chamadas Telefônicas serve de completa antítese política e social ao livro de Roth. Roth mostra um mundo quase absurdo em que escritores e pensadores vivem como estrelas de cinema, perseguidos por fãs ardorosos capazes de obsessões paranóicas; escritores cuja vida social tumultuada de uma Nova York babilônica sedenta pelos seus grandes gênios espirituais, lhes oferece as mais belas mulheres (artistas de cinema que vão para a cama tanto com Fidel Castro quanto com magnatas do entretenimento), carros de luxo, viagens pelo mundo para jantares com Yves Saint Laurent e diplomatas da Birmânia. Já os heróis desse volume de contos de Bolaño, como não deveriam deixar de ser, são eternos desafortunados homens das letras, resignados com o fracasso, com o descaso, com a ausência de público, em exílio de seus países latino-americanos de origem, em defasagem até mesmo com o direito de serem bons escritores. Os escritores que aparecem nesses contos são conformados com suas faltas de talento, de forma que o único atributo que eles tem é a disposição física imorredoura para a movimentação manual da escrita. Escrevem para preencher o tempo sem sentido de suas existências efêmeras, como é o caso de um dos poucos realmente bons contos dessa coletânea, Sensini, em que o escritor homônimo é um especialista em participar de concursos literários provincianos e obscuros da Espanha, cuja vitória simultânea em vários deles lhe garante não mais que o pagamento de um mês e meio de aluguel. Temos aqui a marca d´água identificadora de Bolaño: a tristeza inerente, a falta de redenção, a derrota, a falta de sentido. Há mesmo uma terna elegia ao papel social do escritor menor, em um dos contos.

Em Chamadas Telefônicas vemos a mesma disciplina para escrever e a obsessão de workaholic de Roth, também com os mesmos resultados medianos. Há contos francamente ruins, como A Neve, mas o que parece contar a favor aqui é o esforço da escrita como propulsor à procura da imaginação, à transcendência pela disciplina rígida do exercício literário. Não se deve exercer sobre a escrita as mesmas regras do que seja entretenimento atribuídas a outras áreas da mídia. Bem acima do que sugere o frescor da grife que ronda esses dois nomes, Roth e Bolaño ainda são Roth e Bolaño.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Wisława Szymborska



Dois macacos de Bruegel

É assim meu grande sonho sobre os exames finais:
sentados no parapeito dois macacos acorrentados,
atrás da janela flutua o céu
e se banha o mar.

a prova é de história da humanidade.
Gaguejo e tropeço.

Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,
o outro parece cochilar —
mas quando à pergunta se segue o silêncio,
me sopra
com um suave tilintar de correntes.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Hoje, Assim como Qualquer Outro Dia


A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. "Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração." Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada um da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

De forma geral, só as mulheres da minha família são dignas e seres-humanos comprovados desde a raiz dos cabelos à sola dos tamancos. Os homens, por outro lado, são os eternos amaldiçoados pela sina obrigatória de repetir incessantemente o vício do patriarca pelo orgulho forçado da fornicação. Meu avô teve 22 filhos oficiais com as sete esposas de seus sete casamentos ou amasiamentos concomitantes. Até anos depois que ele morreu, costumava aparecer todo ano mais um sujeito espigado, de ar desatento e a latente concupiscência do olhar, que comprovava que era mais um de seus filhos bastardos procurando um rumo no mundo. Eram morenos, brancos dos olhos azuis, negros, mas sempre com aquela reprodução genética seriada do porte alto e dos olhos de peão saliente que parecia ser uma janela na alma através da qual a presença do meu avô vigiava, atenta, se seria respeitado o prosseguimento obsessivo do espólio sexual que ele deixara. Todos os homens da minha família são infelizes e se parecem, e, só de uma geração para cá pode-se dizer: as mulheres, cada qual, são felizes à sua maneira. Só a geração das minhas primas, que estudaram e se tornaram independentes financeiramente, tanto que se eximiram da opção do casamento, é feliz; as minhas tias, pelo contrário, afundaram num oceano de péssimas escolhas amorosas que faz-me crer que isso não passa de mais um efeito colateral da idiotia dos homens da família, que as infundiram o mal exemplo.

Até os dez anos morei com cinco das mulheres infelizes que compensavam por bom tempo parte de suas agruras em dispensar amor para a única criança da casa. Morávamos em um enorme apartamento no centro da capital, em frente a uma catedral portentosa, que muito desgostava minha avó pentecostal que me falava do inferno. Minhas duas tias solteironas, minha mãe divorciada, e a Dezi, que trabalhou para a família nas atividades domésticas até se aposentar, não poupavam abraços e mimos comigo. Minha mãe sempre foi uma pessoa dura e defensiva, mas, assim como se pode angariar amor de narrações do inferno que culminavam em maçãs chilenas gigantes, eu retirava de seu amargor de batalhadora solitária para conseguir pagar minha escola e colocar o único bife na mesa de seis lugares em meu prato, nos tempos de recessão, como o seu sentimento incomensurável materno nas sobras de tempo entre o trabalho e a faculdade de Direito. Minhas duas tias tinham a aparência atarantada que a consciência da velocidade incontida do tempo lhes dava. Lembro o quanto eram bonitas, até na maturidade, quando, já morando longe delas, flertei com a tia Marta num ponto de ônibus quando ia para a minha faculdade, e só depois vi, constrangido, que era ela. Mas como ela e minha Tia Tércia, depois que o destino nos retirou do purgatório daquele sombrio apartamento aquecido pelas mais ternas apreensões, cada uma teve uma vida infeliz, maluca; cada uma cedeu à depressão de que jamais dariam conta do que se perdeu para sempre em suas infâncias e elas poderiam, enfim, parar de procurar, porque não iriam achar nunca. Minha tia Tércia dera entrada várias vezes no núcleo do Pronto-Socorro, com hematomas e escoriações múltiplas, até que teve a coragem de dar um basta no marido. E minha tia Marta foi retirada do quarto onde morava por seus outros irmãos, que receberam chamadas dos vizinhos sobre sua franca deterioração mental, suas orações de madrugada sentada na calçada, seu sofrimento pela vergonha de não conseguir parar a rotação das pupilas que o lítio administrado todos os dias causava.

As únicas dessas que suportaram bem seus fardos foram a Dezi, que é uma paraibana de língua dura que nunca deixava nada por menos, que perseguia ladrões que lhe arrancaram a bijuteria do pescoço e os atirava de cima da bicicleta e lhes deferia chutes nas costelas; a minha avó Mirtes, que me ensinou muito sobre a vida em suas cartas do exílio em Boston; e minha mãe, que, em seu silêncio, em sua aspereza, me deu o que mais tenho de importante, educação e uma noção fundamentada de ser incorruptível. Minha esposa me diz, brincando, que ainda bem que eu fui o único homem que puxou o lado feminino da família, ao que eu cruzo as pernas e lhe tiro as mais deliciosas gargalhadas com minha imitação já clássica de um veado afrontoso: "Eu sou mulher, sua coisinha!" Não sou adepto desses dias espetaculosos em que se comemora a compensação por tanto sofrimento, como se isso fosse arrombar anos de martírio apenas pelas propagandas das lojas de perfumes e bolsas. Mas enquanto escrevo isso, são 16:41 da tarde, e minhas outras duas mulheres da minha vida estão para chegar aqui em casa, após uma ausência de uma semana , e não vou me negar, hoje e sempre, de dizer à minha filha e à minha esposa, o quanto, absurdamente, as amo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Capando Gatos


Estou numa velocidade lentíssima para concluir Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas. Agora não se trata de provocação: esse livro vai entrar para minha lista de piores livros de todos os tempos. Eu me julgo um excelente leitor, desprovido de preconceitos e adepto de não me deixar levar pelas opiniões institucionalizadas sobre escritores e livros, mas minha própria preguiça em demorar para chegar até o final de cada página de Bartleby é um sinal unívoco da minha opinião já formalizada sobre essa obra. Receio que o Doutor Pasavento  ficará longo tempo me esperando na estante.

Não sei, acho que o que me inquieta mais em Bartleby é Vila-Matas levar até consequências arriscadas sua teoria mistificadora sobre o papel do escritor. O escritor para Vila-Matas é um ser predestinado, não um simples ser humano qualquer, o que, de certa forma ligada à vontade de procura por distinção espiritual, eu concordaria; mas Vila-Matas não pega essa estrela na testa com a mesma ótica do sofrimento da busca de sentido de um Dostoiévski ou de um Camus; ele a deriva para uma imagética puramente instrumental. O escritor, para Vila-Matas, é um ser que tem a relevância dos animais perturbados, pela simples inconveniência de que põe-se  a executar os movimentos da escrita ou abstêm-se de fazê-lo, e nessas hipóteses o que realmente interessa é somente a própria perturbação. A prova de que o fetiche do escritor se resume ao ato físico insofismável da escrita se revela por sua admiração se centrar justo naqueles que se negaram a executar tal gesto. O que impressiona Vila-Matas é a quietura da mão, não a sugestão do que essa mão inflamada pela Chama poderia criar. E Vila-Matas fica tão estacionado nesse espanto carregado do mobiliário de sua ortodoxia, que não vê que está a escrever um romance policial, já que, como a gênese desses romances se sustem no jogo de regras programadas para descobrir-se um mistério oculto,seus livros também exigem que os motivos patológicos da afasia de seus personagens sejam revelados no final de um extenso atirar e recolher de dados. O grande pecado de Vila-Matas é, se percebe isso, não desenvolver os passos seguintes da confecção do policialesco, e se recusar a fazê-lo não sei por quais melindres de uma auto-consciência que se julga acima do que não seja a exposição erudita de segredos mais elevados, não simplesmente mundanos.

Essa obsessão pelo ato mecânico da escrita, que se espalha generosamente em Bartleby, pode levar seus seguidores a cometer o equívoco de acreditar que escrever é somente escrever. Mera datilografia, como Truman Capote definiu para o descarte definitivo da escrita de Jack Kerouac. Escrever e escrever até que a mágica aconteça, ou a escrita se instale de vez numa categoria empregatícia formalizada de carteira assinada e a quantidade de laudas estipulada por dia para contar na aposentadoria e no direito das férias anuais remuneradas. Preencher maniacamente todas as superfícies brancas até que uma floresta inteira justifique a atividade motora mais infundadamente nobre da espécie humana. Isso me fez lembrar de quando eu era aluno do último ano de veterinária e eu e um amigo participamos de uma campanha para erradicar a gestação em gatas de rua. Era-nos entregue sacos e sacos de gatas vivas e em questão de minutos, as anestesiávamos, abríamos, retirávamos seus ovários, costurávamos, e as atirávamos delicadamente para uma sala de recuperação. Fazíamos isso de modo tão mecânico, que contávamos piadas e ríamos durante toda a noite. Uma certa gata deu-nos trabalho: procuramos onde estava seus ovários, revirávamos ela de alto a baixo e nada. Profundamente espantados, olhamos mais uma vez e descobrimos a causa do mistério: era um gato.

O Suicida na Lotérica


No ano de 2000 eu estava completamente arruinado. Uma série de atos desmiolados da juventude e uma onda de má sorte sem precedentes haviam feito com que minha primeira mulher me deixasse, eu brigasse com um chefe imediato a ponto de perder o emprego, e ainda coroasse a grande coleção de fracassos do que parecia ser o radiante momento do fim de alguma coisa na vida de Charlles Campos, com uma batida de carro que retalhara diversos pontos da minha cara. Minha mulher havia tido o que só sei explicar, em meus conhecimentos livrescos circunstancialmente limitados a essa realidade, de um surto de esquizofrenia, mas o que ocorrera mesmo foi algo que só a obsessão espiritual explica. Nos quatro meses de  sua gravidez interrompida, adquirira uma repulsa tão intensa contra a simples menção do meu nome, que suas feições delicadas se deformavam de desconfiança e irascividade sempre que sentia a minha presença dobrando a terceira esquina mais distante.

Escondera-me,  para remoer meus infortúneos, numa casa afastada em uma cidade do interior, onde os carteiros reclamavam que não podiam deixar as contas de luz atrasadas no alpendre por causa de um cão negro que passeava pelo quintal, que eu nunca vi, mas cuja sensibilidade às exalações que me envolviam me fazia crer que não era uma desculpa coletiva para não pedalarem tão longe, mas a aparição de uma das minhas entidades obsessoras. Uma vez ou outra encontrava a personalidade singela de uma vaca, pastando o enorme capim do desmazelo que tampava a vista da casa. Sobrevivia devido a uma poupança milagrosamente previdente que havia feito durante quatro anos, dedicando-me a encher a cara à noite e olhar para as manchas das infiltrações da parede à cata de uma nova ciência interpretativa do destino. Uma noite, quando voltava à pé de uma das minhas andanças sem rumo, fui atacado por uma tempestade de raios que me fez pensar: ao menos issoSenhor, uma morte excentricamente gloriosa! Refugiando-me numa construção abandonada, esperando a chuva passar, me veio a certeza: não havia, em bom iídiche, um chazerai maior do que eu, um lixo tão sem importância.

Mas me enganava. Uma semana depois encontrei Gahleb El Assal. Ou fui encontrado por ele, como gosto de dizer para provocá-lo, pois sinas assim é que nos encontram, não o contrário. Gahleb é o fracassado profissional, o suicida impossível. Sua vida é uma espécie de estelionato de deus, um cheque sem fundo sem retorno das potentades celestes. Esse libanês da tribo dos curdos planejou minuciosamente sua morte para uma sexta-feira de abril de 1980. Alugou um quarto em um hotel vagabundo no centro de São Paulo, limpou o revólver .22 que lhe restara das andanças de vendas de tecidos com seu irmão, foi de uma gentileza inusitada na despedida com todas as pessoas das quais cultivara um desprezo atroz, passou a ferro quente a roupa que mais lhe parecia condizente com a última estética do morto no caixão, e viveu em felicidade esplêndida a espera pelo dia marcado em que daria fim às suas andanças enfastiadas de quatro décadas por esse mundo.  Devolveria o cheque a deus.

A maldição, doutor, ele me disse, na quinquagéssima vez em que me contava essa história, com a memória intocável dos mentirosos profissionais ou dos mártires honestos que levam o fardo da revelação transfiguradora na alma, foi ter exagerado no sarcasmo. Pois resolveu, na quinta-feira da véspera, entrar na loja de tecidos de frente ao hotelzinho para se despedir do almofadinha que era o proprietário ou gerente, um homem que tresandava integridade e a vasilina fina nos cabelos de bom pai. Nem conhecia o homem, mas o odiava. Se desmorecesse da intenção de me matar, só de ver seu olhar julgativo me olhando do lado das portas corrediças, retornaria com todo ímpeto à empreitada. Então, após deslizar na guela cinco doses da cangibrina mais odorífera para homenagear as narinas do pentecosta, foi-lhe se apresentar e se despedir tudo de uma só vez, com a mesma alegria libertária com que enchia seus pulmões da esperança da morte. Foi recebido com uma educação tão atenta pelo homem, que o levou a se sentar numa cadeirinha de estofo macio num escritório nos fundos da loja, que para não cair na armadilha de gostar dele, lhe mandou de uma vez na cara: vim aqui me despedir do senhor. Ao que o homem, com o olhar inadmoestável dos pacientes, lhe perguntou: o senhor vai para longe? Muito longe, Gahleb respondeu, lançando seu sorriso característico de imoralmente superior, completando ainda: e não pretendo voltar. Assim que voltou para o hotel, passado uma hora, uma das funcionárias da loja lhe bate à porta e lhe entrega um livro, a mando do lojista.

Era uma obra improvável escrita a quatro mãos, me contou, cujo espírito que a ditara impusera o nome de "Memórias de um Suicida". Uma obra espírita, doutor, que em qualquer outra ocasião me pareceria tola e farsesca, mas que naquela noite em que atravessei com um terror hipnótico suas quatrocentas páginas, ficou claro que era o raio-x do universo. Foi a única descoberta da minha vida: é impossivel morrer!Qualquer coisa que se faça para fugir dessa terra é cabalmente inútil. Engano pensar que um tiro na cabeça resolve tudo. O espírito não morre nunca.

Com essa convicção da desgraça de sua imortalidade, passara a viver perigosamente, como o voyer fantasista que tem apenas a imagem da amada inexistente para adorar. Quando, após três meses de internação monitorada numa clínica de desintoxicação para alcóolatras, toda a sua família lhe esperava na rodoviária, com os votos de recuperação estampados no rosto, o encontraram nos fundos do ônibus desmaiado, abraçado a duas garrafas vazias da vodka mais barata. Fuma religiosamente duas carteiras de cigarro por dia, e num de seus lances pessoais com a providência, eu mesmo me juntara a uma turma de vizinhos para arrombar a porta do boteco em que investira suas últimas economias, para retirá-lo de três dias de coma alcoólatra. Foi quando o vi pela primeira vez, entregue no leito do hospital, convertido no grandalhão imponente com uma cabeça de caracóis brancos ovelinos que sempre me fazia imaginar o quanto ficaria condizente à sua imagem de monarca destituído decepada sobre uma bandeija. A primeira coisa que falei àquele louco em franco processo de mitificação popular decidiu o tom sarcático de nossa amizade: a próxima vez que pretender realmente se matar, ao menos coloque uma porta mais resistente. Mas ao sair do hospital, um conhecido me revelou o rumo da questão: não se engane com ele, pois é o homem mais inteligente da cidade.

Realmente, não só o mais inteligente da cidade, como o mais inteligente que eu já conheci. Sabe cifras impressionantes de cada região do mundo, e conhece a história com detalhes assombrosos que faz duvidar que tenha apenas o que no Líbano de sua infância, antes do exílio para o Brasil, corresponde à quarta série. É um espetáculo inigualável vê-lo reduzir a cinzas os crentes de plantão ou os padres eruditos. Uma de suas maiores vitórias, segundo conta, foi ter, no espaço de duas horas em que se sentara num viagem de ônibus ao lado de um seminarista, feito o futuro apóstolo desistir da batina ao fazê-lo pensar com seriedade se seria possível  Sansão matar sozinho um exército inimigo com uma simples queixada de jumento. Ser alvo de sua lingua passara a ter um carater elogioso equivalente a ser retratado com dois narizes num quadro de Picasso.

É a verdadeira contradição, o oxímoro ambulante: o suicida que faz uma fé semanal na lotérica, o alcoolatra abstêmico que vive na moralidade de sua chácara de guariroba afastada da cidade, o religioso que acredita num deus indiferente e imisericordioso, o devasso que propaga o fim do homem pela expiação dos pecados. Se eu ganhasse o prêmio de dois milhões na loteria, ele diz, Deus poderia parar de tentar  me ajudar, eu seria uma dor de cabeça a menos para ele. E mais, doutor, me diz ele de propósito, sabendo  quanto me desgosta esse epíteto torto, Deus poderia até trabalhar contra.

Para não deixar por menos o doutor, eu lhe pergunto como vai a charmuta daquela sua zelosa mãe turca que atravessara todo o oceano em um cargueiro fedorento para vir disseminar o benefício da melhora genética de nossa espécie nativa.

Do alto de nossa amizade de dez anos, esse outro chazerai convicto não deixa por menos:

_ Vai tudo como vão as demais coisas desse mundo, filhinho, na santa paz do capeta!



Bruxismos


Não precisou do período de trabalho que passei no sistema prisional para que alguma iluminação fulgurante me garantisse que a espécie humana tem um gene homicida em potencial. Havia por lá presos que assassinaram toda a família, com requintes de horror, ou os mais assustadores, que o fizeram por assépticas e silenciosas razões pessoais, consumidores de drogas pesadas que findaram uma vida apenas para a aquisição de uma pedra de crack, estupradores que mataram suas vítimas ao final como se essas fossem animais de consumo, sem a mínima culpa. Trabalhei cerca de um ano e meio, antes de partir para outro emprego; assisti a um motim no maior presídio do estado, numa madrugada em que o rádio portátil anunciou na guarita onde eu estava que era para todos os agentes subirem em rápida debandada para a guarda externa porque a ala C estava quebrando tudo que encontrasse pela frente, mil e quinhentos detentos enfurecidos retirando as grades das celas dos encaixes e atirando-as do alto para o centro dos corredores, e furando o grosso paredão intermediador para alcançar os inimigos da ala vizinha. Fui supervisor regional para abrir sindicâncias contra funcionários que se compactuavam em vários graus com os crimes internos das cadeias, mas nada de forma alguma me incutiu o ineditismo surpreendente que somasse à minha já fundamentada crença que em toda pessoa repousa em latente espera por ativação a capacidade do assassinato. 

Penso em um livro de Zola que li quando era adolescente, A Besta Humana. Todos nesse livro, pelo que me lembro, são assassinos, ou transladam em desejo de colocar para fora a mesma sanha de destruição alheia que obceca o assassino psicopata herói da história. Li-o com o enrijecimento frio típico das grandes revelações, acometido por uma tristeza de perceber que já chegava enfim a hora de sair da eufemização da infância. Esse livro antecipou em alguns anos minha leitura de Sartre, em especial a melhor literatura produzida por um escritor que definitivamente nunca foi um dos melhores e tinha sérios problemas com a escrita ficcional, O Muro, uma série de contos que me encantou uma só vez, como uma espécie de pirita que nos confunde apenas uma vez com sua falsa aparência de ouro, pois tentei reler esse volume há pouco tempo e tudo me pareceu miseravelmente ruim. Mas há um conto ali que fez sucesso entre os alunos do ginásio do meu tempo, Erostrato. Liamos e relíamos em voz alta, um para o outro, e sonhávamos com a possibilidade daquela imensa libertação proposta pelo assassino do conto. Se eu fosse professor hoje em dia, estaria acometido da curiosidade de saber se ainda há grupos de adolescentes que se tomam de febre pela literatura como acontecia com meus cinco ou seis amigos, que aliás nada tínhamos de intelectuais além dessa contingência de às vezes sermos pegos em admiração por Sartre, por Kafka, Dostoiévski e Allan Poe. Eramos inconformados com a sociedade, com nossas famílias, com as garotas, com nossas caras de idiotas contumazes, com as notas ruins, com nosso futuro sem nenhuma garantia que, à semelhança da geração de jovens ingleses que pressentiam o desemprego e a miséria na era Tatcher, também sabíamos que nosso país não nos deixaria em paz com as sucessivas substituições de iguais mazelas que os coronéis estavam preparando para sobrepor ao militarismo.

Então Erostrato era o convite sofisticado ao desaparecimento, à não importância, na medida do quanto era sedutor acompanharmos os passos de um assassino pelas ruas de Paris que era nosso emblema filosófico de repudiarmos o absurdo. Sartre era o punk do qual precisávamos naquela instância da vida em que sentíamos o lento e inexorável desabamento de nosso período de sursis. Mas o livro de Zola antecipa todos os temas sociais do existencialismo de Sartre. Lembro o quanto fiquei impressionado com os trilhos de trem, as noites onde não havia qualquer esperança, a compulsão nua entre desejo sexual desenfreado e assassinato, a pobreza que acomodava os danados zolianos num subsolo onde não entrava qualquer direito civil ou justiça social, o rebanho de exilados, de inassistidos. Sempre adio para mais tarde as chaves de alguns comportamentos meus que se encaixam nessa concepção desgraciosa da espécie. A vinda de meus filhos, que me transformou como dizem que transforma a vinda dos filhos no espírito e na visão de mundo de uma pessoa, me deixou com a consciência aliviada de aceitar que não há problema nenhum no egoísmo; fecho as portas de casa e meu mundo é aqui dentro; ainda não consigo olhar nem a velha senhora que mora na casa vizinha com  seu filho solteirão, que faz graça para minha filha cada vez que nos encontra, como não sendo alguém que, no melhor dos elogios, luta com as tendências de sua atração para o deplorável onde se ajuntam o misoginismo da idade e uma atenção de abutre pela vida alheia; e não consigo deixar de perceber o olhar dissimulado de seu filho de quarenta anos como o do avaliador solitário que se masturba diante videos pornôs da internet todas as noites. E quando me perguntam se eu não tenho algum temor de que meu rottweiler faça algum mal para meus filhos, eu digo que confio imensamente nele, que já deu mostras de que nos protege às custas da própria vida, do que confio minimante em entregar algum de meus filhos por alguns instantes a qualquer parente que não seja a mãe deles. A Dani diz que eu sou um pai paranóico, que eu vejo maldade em tudo, que eu tenho uma visão naturalista das pessoas, como se estivéssemos num experimento cósmico selvagem em que ninguém se importa verdadeiramente com ninguém. E não estamos?

 Ligo a tv por cinco minutos nos noticiários, e vemos a luxuriosa fauna humana se revirando sob a pedra deslocada onde o sol nos pega em contorcionismos de dor diante a incidência de luz, diante o flagrante, um menino de 14 anos mata uma menina de 3 anos loira lindíssima com toda sua vida infinita e cheia de possibilidades que tinha pela frente, e o que fazem os pais do garoto, senão retirá-lo às pressas da praia onde promoveu o acidente fatal dirigindo ilegalmente um jetski e deixando a menina por 40 minutos à espera de socorro. Simples assim, retiremos nossas crianças do local, foi tudo uma fatalidade, quem não está submetido a essas infelizes e súbitas fatalidades? Vemos um parque de diversões onde até o advogado dos funcionários admite que a poltrona do brinquedo que cai de uma altura gigantesca a uma velocidade abismante deveria estar com uma enorme faixa anunciando seu defeito, para que ninguém a usasse, pois o risco de acidente fatal ali seria bastante real, mas os administradores do parque ignoram o fato porque isso faz bem para seus rendimentos, e uma moça de 14 anos se destroça ao cair do banco estragado e morre. Uma mãe que lança acetona e álcool sobre o cãozinho da filha, por vingança, e ata fogo ao animal indefeso. Pais que estupram filhas há anos, filmam os atos e lançam em comunidades pedófilas na internet. Um vídeo que um amigo me mostra no youtube em que uma caminhoneta dessas que custam mais que toda a renda do período inteiro de vida de um brasileiro padrão, capota várias vezes num racha, o motorista é jogado para fora da cabine e cai morto no chão, e a multidão faz um círculo em torno do cadáver, cerveja nas mãos, mulheres de biquine, risos, danças, pessoas saqueando os pertences que estavam no carro, e tudo sob o olhar da câmera que é o portal de deleite da grande festa canibal, o pragmatismo mais fiel da teoria de Canetti sobre o sobrevivente e da alienação das massas quanto a qualquer noção de moral individual.

Hoje fui tirar um xerox de um boleto de pagamento na faculdade, e a funcionária recebe um telefonema enquanto a máquina gira as roldanas e a luz verde pisca lá onde o duplicamento acontece. A moça se senta num banco de madeira e arreganha os olhos, enquanto diz para a voz do outro lado: "Meu Deus, eu não acredito! Isso não pode ser verdade! Você confirmou?". Ao desligar, ela me conta, embasbacada, que a professora do curso de biologia, que acabara de sair dali após entregar material de xerox para seus alunos, foi morta em uma acidente de moto. Pergunto-lhe o nome, e ela diz: Miriam. Tinha 23 anos, sua formatura seria dia 16 próximo, e ela já era uma professora convidada do curso. Sinto um peso na alma pois eu havia, em sua época colegial, lhe dado aula de genética no terceiro ano. Encontro um amigo de frente ao hospital municipal onde está uma multidão de curiosos, e tenho dele a informação de que a moça é parente distante dele, e ele me conta que ela havia parado a moto que estava dirigindo afim de fazer a volta na pista, parou de seu lado, à espera, e vem um jovem numa outra moto e se choca contra ela em alta velocidade. Como estou de férias prolongadas, ele me atualiza das demais desgraças que acontecem nesse dia bruxesco pela cidade: um outro acidente de moto matou atropelada uma senhora ainda há poucas horas, e nessa mesma manhã um estuprador foragido da cadeia de uma cidade vizinha estuprou e matou uma senhora que fazia cooper pela rodovia, arrancara-lhe um mamilo com os dentes e fizera toda sorte de hemorragias internas na mulher. Fora preso, e há suspeitas que sua fuga anterior fora facilitada por funcionários do presídio. Entro no carro e ligo para minha esposa que está na casa de minha mãe na capital, ouço as crianças ao fundo gritando e fazendo suas manhas corriqueiras sempre por pequenas coisas, por coisas insignificantes, retirar as roupas de uma gaveta, despentear os cabelos, querer descer para andarem pelo pátio de recreação do prédio, para que lhes deem a única bolacha que gostam, de maisena, o que nos enche de um estranho orgulho por serem tão naturalmente humildes, bolacha de maisena, o que tem de especial em uma bolacha tão seca, tão insossa e sem graça, mas que eles adoram, enchem as boquinhas com elas e ficam sorrindo mostrando aquele entulho próximo às gargantas e as movem com as línguas, e as esfarelam nos colos e vão deixando pedaços diminutos e amassados por todos os cômodos que vão. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Sonata do Sr. Vinteuil ( II )


O longo capítulo de No Caminho de Swann, intitulado Um Amor de Swann, seria um estudo psicológico e anamnésico integral das relações entre um homem e uma mulher? Quero entender que esse texto seja o que há de melhor sobre as mais profundas complexidades da paulatina construção do amor e da paixão de um homem por uma mulher, desde seu caráter irracional e deletério, até suas mais indeléveis intersecções sociais e seus variados acenos metafísicos. Mas como Proust exige uma guarda ilimitada de suspeita por parte do leitor quanto  às suas astúcias conceituais (em que determinado entendimento sofre uma reviravolta completa, não de forma a se dizer súbita, mas perfazendo um lento grau de descongestionamento das certezas a tal ponto que se põe o livro de lado por um momento e se cogita se terá que começá-lo de novo, afim de identificar onde, em qual página, pôs-se a nascer o engano), fica-se com a impressão que só depois de transcorridas as mais de 3000 páginas da obra completa que se poderá dar um diagnóstico seguro, dizer na verdade quais eram as subliminares e sublimes intenções de Proust. Uma das chaves para Proust, ao menos para mim (sendo o que me conduziu de vez e numa atração inexorável), está no entendimento de Walter Benjamin de que Proust, em sua luta contra a morte, que na verdade se organiza em torno de uma enorme indiferença a ela e num desmedido esforço de tagarelar e falar mais uma vez, essa luta repousada, "determinou também o convívio de Proust com os contemporâneos: uma alternância tão dura e cortante entre o sarcasmo e a ternura, que seu objeto, exausto, corre o risco de ser aniquilado."

Essa extraordinária percepção de Benjamin resume como nenhuma outra a visão em alternância do grande romance de Proust. Essa alternância permeia o capítulo Um Amor de Swann de forma acachapante; trata-se de um capítulo em jorro de sensações sumárias atordoantes, que mexe em regiões neuro-físicas do leitor, que promove um sentimento de lucidez entorpecida através da intencional tagarelice do autor em nos iludir sobre o objeto a ser alcançado, sua intensidade quase ofensiva (na medida em que uma tamanha intensidade não se acopla mais nos moldes sensoriais de leitura hoje em dia) nos inquieta sobre nossa real capacidade de adultos treinados e gabaritados pelas impressões da experiência em avizinharmos do quanto de força emana dessas páginas, do quanto seremos capazes de suportar o que ele tem a nos dizer, o que subjaz de genuíno e autêntico por debaixo das torrentes de sonoridade e suposto acomodamento espiritual nas oferendas do trivial e das superfícies burlescas. E esse capítulo segue ao capítulo idílico das lembranças infantis do narrador, numa maquinação ardilosa e nefasta: pega-nos numa surpresa progressiva após relaxar nossas almas devotadas nas noites em que o narrador espera o imprescindível beijo da mãe, na incrível visão de um aleph no gesto de uma tia em molhar uma madalena na xícara de chá, na hilaridade das reuniões de família para os almoços aos sábados, nas fofocas da velha tia encamada e sua convivência com a empregada companheira de longa data, nas audições de um Swann já amortecido dos dramas de sua juventude pela idade e pelo acoplamento sem muitas arestas na aceitação social. E daqui Proust nos insere no perigoso capítulo Um Amor de Swann, para que desse campo de suaves plenitudes domésticas retornemos ao passado, antes da existência do narrador, para que vejamos às custas do quê as nuances da sociedade são confeccionadas, como a flacidez do que antes era determinado pelo retumbante escândalo destila as condenações até a consciência da equidade de erros comuns de uma sucessão inevitável de velhos à espera do desaparecimento. O narrador mostra porque a famosa esposa de Swann, a mulher que ocupa o núcleo de sofrimentos que atormenta Swann, ainda não era devidamente digerida pela sociedade, de forma que, mesmo na distância temporal de todos os eventos, Swann não a levava nos jantares na casa dos pais do narrador. O segundo grandioso capítulo (uma sequência de umas das maiores páginas da extensa obra), mostra a estruturação do amor obsessivo de Swann por Odette, a quem ele cultivava um leve desprezo por não achá-la um mulher bonita, mas que, sendo pego por suas divagações fetichistas, começa um devotado culto a  ela ao associá-la a uma das figuras de Botticcelli. 

Swann, um desgarrado das etiquetas sociais de sua classe de solteirão rico, que se nega a deixar sua casa de subúrbio parisiense para se mudar para algum bairro nobre, transverte sua bonomia e sua paixão pelas aventuras sexuais com empregadas de hotel, após se apaixonar por Odette. Swann passa a ser um escravo submisso às exigências dos Verdurin para que possa fazer parte do esnobe e restrito círculo deles, no qual Odette é um dos alicerces. Acompanhamos o inferno que se torna a vida de Swann, pois Odette é uma mulher independente em todos os aspectos, revelando-se ainda mais no âmbito sexual, o que lança Swann numa rede quase psicótica de ciúmes. Não fica claro o que Odette faz para viver, ou se ela se embrenha mesmo em variados casos sexuais tanto com homens quanto com mulheres, mas o que temos é a ótica de uma infinita e sufocante insinuação por parte do narrador, que parece deter um conhecimento supraciente sobre todos os crimes, mas que não os revela sob sua voz ainda investida pelo maravilhamento do tom infantil e de um subliminar sarcasmo refinado. 

Proust traça a narrativa em um tríptico onde os dois ângulos da base são o sarcasmo e a ternura, e o ângulo de cima, suspenso sobre os demais e só percebido em surdina, é o ângulo do sublime, das inserções inesperadas de beleza que ao mesmo tempo cala e dá vazão aos outros dois. O ângulo do sublime se condensa no fator decisivo do amor de Swann por Odette: a frase musical que Swann escuta de uma sonata composta pelo sr. Vinteuil, ouvida em um dos jantares na casa dos Verdurin. Swan é imediatamente arrebatado pela estupenda beleza da música, e pergunta ao pianista quem era o compositor. O pianista responde ser um tal de Vinteuil, e todos na sala se debandam em leves cogitações de quem seria essa personalidade, ao que Swann diz conhecer um Vinteuil, mas que não poderia ser o autor daquelas notas maravilhosas_ o Vinteuil que julga conhecer, ele reflete, tem uma aparência ignóbil e derrotada para ser aquela antena portentosa de uma verdade dimensional além da nossa transpassada para esse lado de cá através da música. Há uma dulcíssima armadilha de Proust aqui quando o oculto sr. Vinteuil se liga de forma indissociável ao amor de Swann por Odette. Em páginas de beleza extrema, já pelo final do capítulo, o narrador descreve a sonata de Vinteuil, mais precisamente a frase que abduziu Swann da realidade e o transportou para chaves da revelação de uma Verdade intocável, e essa descrição se adjunta na definição acima de Benjamin, a extraterrenidade, o arrebatamento oferecido por Proust que aniquila o romance de cenários sociais e nos dá algo maior, algo que vai além de nossa imediata capacidade de assimilação, algo que resvala nas fronteiras do que Kafka mencionou como as possíveis infinitas dimensões acima da nossa seladas de nossa intrusão pela exigência de um entendimento superior, algo que nossa faixa evolutiva ainda não autoriza. E isso se conjuga na armadilha proustiana de o sr. Vinteuil ser uma simetria de Odette, pois contornamos com as mãos a forma do Inominável e só podemos entendê-lo na concepção de Odette, a pecadora Odette, como sendo uma especie de entidade cuja distintiva riqueza intrínseca, insolúvel aos julgamentos da sociedade, só poderia ser alcançada através das reviravoltas do amor de Swann; só Swann_ e o narrador, nas páginas finais do capítulo_ poderiam vê-la em toda sua tranquila superioridade, como a única mulher entre as outras excêntricas figuras da fauna social feminina, como a mais elegante, a mais naturalmente soberba, a mais despegada e dona de si mesmo. Assim também o sr. Vinteuil, o velho condenado pelo tribunal imaginário da sociedade, que Swann deixa um grupo de pessoas distintas para ir apertar-lhe reverenciadamente a mão e oferecer suas terras para quando lhe aprouver passear por elas. Uma das grandezas e astúcias de Proust em forçar o que nos limita nesse grau de percepção para além.


sábado, 3 de março de 2012

A Filha do Sr. Vinteuil, em Casa ( I )


Há um momento em No Caminho de Swann em que Swann, seguindo num passeio junto à família do narrador do romance, debanda-se do grupo para ir apertar a mão do velho sr. Vinteuil, um homem caído em desgraça na sociedade local. É uma das lembranças que fazem parte da infância do narrador; a típica ingenuidade em lenta aproximação de Proust, o seu maravilhoso senso de estranhamento que guarda as verdadeiras revelações para núcleos insuspeitos da narração futura, vê essa inusitada atitude de Swann através de uma cópula de concepções temporais que se bifurcam na admiração infantil pela esporádica presença elegante de Swann nos jantares promovidos por seus pais, e no quase onisciente conhecimento que irá demonstrar ter de um Swann mais complexamente real antes do narrador nascer, período o qual centra toda a longa segunda parte do romance. E o narrador, que de imediato não conhece quem era aquele outro senhor assustado e erradio, que parecia pedir desculpas miseráveis a Swann por ter sido flagrado transitando por suas terras, fica sabendo que esse sr. Vinteuil era uma espécie deplorável de homem tratado com um cautelosa indiferença pela cidadezinha de Combray, mácula que o narrador percebe na impavidez estampada no rosto de seus pais por Swann tê-los deixado ali afim de tratar com tal sujeito.

O sr. Vinteuil era um fracassado, alguém sob o qual pesava uma peremptória condenação de pária já há tanto tempo que a sociedade se fechara de modo decisivo a qualquer chance de reavaliação moral, a ponto de esquecê-lo, e a atitude de Swann_ cuja admiração tornando-se progressivamente consciente e crítica do narrador permitia saber que era um gentleman milionário que sempre transgrediu a etiqueta de postura imposta pela classe social de seus iguais_ despertava as desagradáveis sensações de que esse fantasma resgatado do reino dos mortos, naquele efêmero momento, estava destinado a desaparecer de vez e não incomodá-los mais só quando morresse definitivamente de corpo inteiro. E é isso que ocorre mais tarde no livro: o sr. Vinteuil livra-se de sua sina de deserdado, desnuda-se de sua imensa cara de derrotado, e livra a sociedade de ter-se que às vezes deparar-se com ele, morrendo. Até então nada nos é revelado sobre o sr. Vinteuil, além da cena incógnita em que um reverencioso Swann comete a falta de delicadeza de interromper pessoas respeitadas para ir apertar-lhe a mão e provavelmente aliviar seu constrangimento afirmando que suas terras estariam sempre à disposição para que ele passeasse por elas. No anoitecer em que o sr. Vinteuil é enterrado, o narrador, em sua fase criança, por um jogo aleatório, encontra-se deitado atrás de uma árvore, ao lado da janela da casa do sr. Vinteuil, e vê quando a filha única do finado retorna para casa do cemitério. E aí começamos a saber uma das causas da marca humana do sr. Vinteuil: uma outra moça entra na casa, e segue um diálogo deslumbrante, um desses procedimentos que tornam Proust indispensável_ que se espalham pela prosa transbordante de Proust como inserções do sublime. Tal moça é a amante da filha do sr. Vinteuil; ela pega a foto do finado que está por sobre o console da lareira, cospe nela, e faz a outra_ a filha_ repetir o gesto, que se encerra com as duas se beijando pelo chão. Estavam livres, a amante diz; livres! Não haveria mais o julgamento do sr. Vinteuil sobre a homossexualidade da filha, seu amor excessivo, sua dedicação obsessiva pela filha. Enquanto a amante fala, e a filha teatralmente simula estar acima da tristeza pela perda do pai, o narrador _ já com a onisciência vinda do foco de luz que quase esmagava Proust em seu quarto inviolável em que sondava esse arsenal fictício-memorialista nos anos tardios de sua breve vida_ suprime o senso comum do leitor avisando para que não se repudiasse tão apressadamente a ingratidão da filha; era só dessa forma que ela poderia expressar seu amor pelo pai, a sua verdadeira dor. Era só através da máscara que ela poderia confeccionar o pai genuíno com o qual repartira todos os momentos de felicidade e desapontamento, de excesso de vigilância amorosa e solidão insondável, as brincadeiras dadas ao jeito idiossincrático do pai quando ela era criança, as forças de readaptação à contingência da maturidade que seu assustado pai se submetia enquanto ela necessariamente ia se desapegando de seu quarto de bonecas e se tornava uma adulta. A atitude de cuspir na foto, de transgredir a memória do pai com o coito tão condenado por ele, de irreverência diante sua morte, é a mesma que subjaz ativamente não só pela obra de Proust, mas por toda a sua vida. Não sendo espiritualmente um dândi, Proust era assíduo nos salões da alta sociedade, mas sua atitude do esnobe, nas palavras de Benjamin, "não é outra coisa que a contemplação da vida, coerente, organizada e militante, do ponto de vista, quimicamente puro, do consumidor".

A heresia a qual o narrador alerta o leitor para que não caia acriticamente em seu dedo apontado à filha, é o gesto sacramentado mais profundo em que a filha se imuniza do mundo das aparências para poder salvaguardar o seu amor pelo pai_ é sua postura assumida de "consumidora", de partícipe superficial, de reação ativa diante a coreografia que se espera que ela faça com os movimentos simetrizados das danças do esteriótipo social. Nessa  conivência externa, na verdade, se expressa a mais pura indiferença às banalidades do cotidiano, pois nela se firma a sua falta de fé na revolta contra a "vida que se exibe", sendo que tudo que realmente importa e tem valor torna a ser a existência das memórias paternas. A exuberância exaustiva do exterior, na qual ela tem que se manter atenta, se esvai em sua rendição à riqueza que se conserva de sua vida com o pai. É como se nesse momento ela ganhasse o direito de envelhecer, que é o que de mais elevado resta a se cumprir com dignidade no destino de pessoas aprisionadas ao ciclo vazio das emulações da rotina. E aqui encontramos a interpretação de Walter Benjamin sobre o procedimento de Proust, de que este não se ampara na reflexão,"e sim na consciência. Proust está convencido da verdade de que não temos tempo de viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. É isso que nos faz envelhecer, e nada mais. As rugas e dobras do rosto são as inscrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pelas intuições que nos falaram, sem que nada percebêssemos, porque nós, os proprietários, não estávamos em casa."