Em qualquer bom livro de História sobre o século XX obtem-se a informação de que os Estados Unidos são o único país desenvolvido que cultua seus militares e gasta três dígitos de bilhões com armas e forças especializadas para manter seu poderio bélico sobre o mundo. Em nenhum outro país ocidental a persona militar ocupa o centro da mentalidade com um poder de gerar finanças e proporcionar domínio pacificador da forma tão superiormente funcional quanto acontece naquele cantão das Américas que a própria auto-conceituação imperial assume-se como A América. As outras Américas, uma vez já abrigadas sob a asa da rapina norte-americana, tem parte substancial de seus enredos do século XX restringido à busca da independência contra as formas derivadas do militarismo norte-americano. Mesmo hoje só se espanta quem tem uma percepção incorreta dos últimos 30 anos em ver que no Brasil ainda se emulam a veneração e o temor devocional à farda, às caras de saturno dos velhos generais e coronéis que não devem ser incomodados, salvaguardados pela relativização semi-oficial em que o crime e o extermínio silenciam-se sob o tapete da não-revisão histórica e do perdão incondicional. Mas, a nosso favor, conta o fato de não sermos como os norte-americanos, ao menos nessa paixão plena pelo militarismo, nessa sandice de uma alienação que a ortodoxia manipula em fazer-se como patriotismo declarado pela transfiguração do amor ao país pelo amor aos milhares de tanques, caças, bombas ditas inteligentes, dezenas de porta-aviões, milhares de capitães américas soldados e um aparato tecnológico único que organiza tudo. Temos a vantagem de que aqui, apenas uma parte das camadas mais desabrigadas da sociedade se deixa deslumbrar pela ideia de um poder irrestrito da polícia, enquanto a polícia real é vista pela maioria de brasileiros com uma suspeita e controle social admonitório da experiência dos anos de truculência militar.
Somente nos E.U.A, portanto, pode acontecer o joguete dos últimos dias cuja manobra principal é o anúncio da morte de Osama bin Laden. As razões de Osama bin Laden reaparecer no cenário internacional, após quase dez anos de latentes menções a alguém restringido a ser o esteio mental de atos concretos de terrorismo praticados por outros, são tão gritantemente evidentes que chega-se a cogitar se esse caminho de controle de crise de imagem externa e interna dos E.U.A tem um amparo sólido por debaixo ou é apenas uma tentativa mal elaborada e apiedante de dar a volta por cima. Pois o que aparece grotescamente por sob a declaração de que mataram bin Laden é a evidência de um presidente em queda livre nos índices de aprovação nacionais, de um país cujos extratos de radicais experimentos capitalistas indica que perdeu sua estrela e se encaminha para a bancarrota, de uma capacidade de alienação do norte-americano médio que pede para ser ludibriado a qualquer preço para voltar à crença tradicional de serem os donos do mundo. Obama tem se mostrado tão carregado de anti-clímax diante as esperanças que norte-americanos progressistas e de visualizadores mundiais em geral tem colocado sobre ele para o início de uma revitalização moral d`A América, que gera um choque por mostrar o quanto é possível ser tomado pela ingenuidade mais descomedida diante as fortes evidências históricas. O prêmio Nobel lhe dado precocemente revela o quanto o emocional converte doutores em singelos espectadores sentimentais da novela da tarde. O desemprego batendo níveis recordes, o sistema de saúde pública e previdência social ainda não reiterados pelas promessas de campanha, mas estacionados num modelo arcaico que agora promete abater-se para acabar de vez com a força dos sindicatos (como começou fazendo o governador do estado do Wisconsin), as corporações como efetivas donas do poder e mandatárias das regras financeiras e políticas, todo esse quadro gerador de uma iminência reviravolta histórica mostra que o país símbolo do capitalistmo predatório poderia ser, na suposição fantástica mais descabível, onde a nova revolução do século XXI arrebentará.
Numa matéria na Le Monde Diplomatique de abril intitulada "A Luta de Classe no Wisconsin", o articulista Rick Fantasia analisa a súbita reação de trabalhadores norte-americanos de todo o país às disposições do poder em restringir legalmente a atuação dos sindicatos. Um movimento apelidado de "walk like an egyptian" (uma referência a um sucesso musical dos anos 80 que expressa a expansão a que chegaram as revoltas árabes pela democracia) iniciada contra o governador do Wisconsin, Scott Walker, que impôra uma lei severa sobre o sindicalismo público do estado. A ação do governador do Wisconsin, lê-se no artigo, teve efeito reverso: ao tentar solapar os direitos dos trabalhadores, ressaltou sua importância, ao mesmo tempo que decepcionou milhões de eleitores da classe trabalhadora (chamados de "democratas de Reagan") há décadas manipulados para votar contra seus próprios interesses. Não deixa de ser interessante imaginar que algum político norte-americano possa ter um conhecimento da história mundial num nível menos raso que a do também Nobel Henry Kissinger, para se lembrar que a Alemanha Oriental ruiu através dos atos populares. Como relata Tony Judt, as demonstrações programadas de repúdio às segundas-feiras em Leipzig começaram com 30 mil pessoas diante o palácio do governo de Honecker; uma semana depois haviam 90 mil pessoas, e, na fração de um dia, eram 300 mil pessoas sentadas em mortífero silêncio. Para quem são conhecidos como geógrafos criativos de territórios imaginários onde a Amazônia é distrito norte-americano, alguém que possivelmente esteja aconselhando atitudes de apaziguamento popular para Obama só poderia sintomatizar o quanto os escalões políticos e corporativos poderiam estar na premência de uma ação imediata.
Anunciar a morte de Osama bin Laden se afigura como a utilidade mais ingênua e contra-produtiva para falar de novo ao norte-americano patriota, bélico, ufanista, obesiado pela indústria de alimentação e distração mais poderosa do planeta. Se a reação interna se limitar a ser essa que aparece nos noticiários (o povo dançando as danças tribais modernas do hip-hop revanchista), então demontra o que todo mundo imagina, que o norte-americano padrão é o sujeito mais alienado e conduzível do mundo ocidental. Obama, que tem demonstrado ser um continuador disfarçado sob a pele de reformador, não faz mais do que o plausível em retirar os E.U.A. da estratosfera de exigência moral que seu nome, sua cor, sua biografia e seu ar kennedyano de bom pai de família fizeram os de bom coração cogitar. O corpo despejado ao mar do hipotético bin Laden é o sinal de que os E.U.A. retornam à era Bush, e informam ao norte-americano apelando por sua consciência emocional mais profunda, sua memória mais hollywoodiana de que o grande filme, os grandes efeitos especiais continuarão, eternos e imperecíveis como toda fantasia imortal.
Numa matéria na Le Monde Diplomatique de abril intitulada "A Luta de Classe no Wisconsin", o articulista Rick Fantasia analisa a súbita reação de trabalhadores norte-americanos de todo o país às disposições do poder em restringir legalmente a atuação dos sindicatos. Um movimento apelidado de "walk like an egyptian" (uma referência a um sucesso musical dos anos 80 que expressa a expansão a que chegaram as revoltas árabes pela democracia) iniciada contra o governador do Wisconsin, Scott Walker, que impôra uma lei severa sobre o sindicalismo público do estado. A ação do governador do Wisconsin, lê-se no artigo, teve efeito reverso: ao tentar solapar os direitos dos trabalhadores, ressaltou sua importância, ao mesmo tempo que decepcionou milhões de eleitores da classe trabalhadora (chamados de "democratas de Reagan") há décadas manipulados para votar contra seus próprios interesses. Não deixa de ser interessante imaginar que algum político norte-americano possa ter um conhecimento da história mundial num nível menos raso que a do também Nobel Henry Kissinger, para se lembrar que a Alemanha Oriental ruiu através dos atos populares. Como relata Tony Judt, as demonstrações programadas de repúdio às segundas-feiras em Leipzig começaram com 30 mil pessoas diante o palácio do governo de Honecker; uma semana depois haviam 90 mil pessoas, e, na fração de um dia, eram 300 mil pessoas sentadas em mortífero silêncio. Para quem são conhecidos como geógrafos criativos de territórios imaginários onde a Amazônia é distrito norte-americano, alguém que possivelmente esteja aconselhando atitudes de apaziguamento popular para Obama só poderia sintomatizar o quanto os escalões políticos e corporativos poderiam estar na premência de uma ação imediata.
Anunciar a morte de Osama bin Laden se afigura como a utilidade mais ingênua e contra-produtiva para falar de novo ao norte-americano patriota, bélico, ufanista, obesiado pela indústria de alimentação e distração mais poderosa do planeta. Se a reação interna se limitar a ser essa que aparece nos noticiários (o povo dançando as danças tribais modernas do hip-hop revanchista), então demontra o que todo mundo imagina, que o norte-americano padrão é o sujeito mais alienado e conduzível do mundo ocidental. Obama, que tem demonstrado ser um continuador disfarçado sob a pele de reformador, não faz mais do que o plausível em retirar os E.U.A. da estratosfera de exigência moral que seu nome, sua cor, sua biografia e seu ar kennedyano de bom pai de família fizeram os de bom coração cogitar. O corpo despejado ao mar do hipotético bin Laden é o sinal de que os E.U.A. retornam à era Bush, e informam ao norte-americano apelando por sua consciência emocional mais profunda, sua memória mais hollywoodiana de que o grande filme, os grandes efeitos especiais continuarão, eternos e imperecíveis como toda fantasia imortal.
