segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Os Buddenbrook, de Thomas Mann



Este é um dos dez romances preferidos de Hemingway, um dos que ele anunciava como indispensável leitura para a formação de um escritor, mas o único de Thomas Mann que o romancista americano julgava relevante. Isso, para um leitor conhecedor de Hemingway, já revela muito sobre Os Buddenbrook. Mann praticamente deve seu Nobel a esse livro, visto que sua obra-prima A montanha mágica, na época da premiação, era ainda uma leitura em experimento por parte dos críticos e dos leitores engajados. Tanto que Mann muitas vezes expressou, na época, sua irritação pela obtusidade generalizada em desconsiderarem a grandeza da Montanha em preferência a uma escrita que, apesar de primorosa, não era o que o autor tinha de melhor para herdar ao seleto time da canonização da literatura do século XX. Dentro da história da literatura, as diferenças entre esses dois romances citados de Mann são grandes. Hemingway, contudo, estava absolutamente enganado quando disse que nada que Mann escreveu depois prestava. Os Buddenbroocks é maravilhoso, já servia a deixar o nome de seu autor na imortalidade da escrita em língua alemã, mas é substancialmente diferente do que Mann produziu depois. A começar por sua prosa aerada, direta em sua centralização no tema da disparidade social e espiritual do artista em referência a um mundo cada vez embrenhado em toda sua significância no mercado de capitais. Os Buddenbrook é o grande romance tardio do século XIX que floresceu em quase orfandade na velocidade caótica das novas ideias e escolas do pensamento do século XX. Mas nada tem de ingênuo: é, antes, um produto genial. Tem a clareza estética de um Stendhal; é, em amplos sentidos estéticos, de uma sofisticação atendente às exigências de concisão superior ao que Mann entregaria ao prelo mais tarde. Por isso Hemingway, um fundamentalista de prosa imagética, assepsiada por completo de retórica, o louvava. Claro que para os que amam Mann (eu incluso), Mann tem sua identidade afirmada em seus romances-ensaios futuros, em sua palavrosidade, seus excessos, sua exuberante abundância. Mas em Os Buddenbrooks se vê as notas primevas sobre doença e sublimidade, inadequação como profunda crítica à hipocrisia assassina da sociedade, a arte como único escape efetivo (e pessoal) a um mundo de imposturas rasas. Mann tinha 25 anos de quando o lançamento desse livro. Já era um gênio; um dos maiores gênios do século XX em qualquer área da intelectualidade.

O dia



Há um texto autobiográfico do Camilo José Cela, fantástico escritor lamentavelmente esquecido, que me marcou muito. Conta da vez em que ele se introduziu um supositório sem a ajuda da esposa. Ele pergunta a ela se era natural que ardesse tanto, ao que descobre, encabulado, que não havia retirado o papel alumínio. Li esse texto na casa dos meus 20 anos, e foi inevitável pensar que eu desejava um amor desse para mim. Há 3 anos, com um desagradabilíssimo problema de fístula no esfincter, obtendo a carinhosa ajuda da Dani com um supositório, me veio num átimo (é assim que o dizem, mas o preenchimento automático do celular desconhece a antiga palavra) a lembrança do texto do honorável espanhol. “O Cela amor! O Cela!”, lhe disse exultante, feliz por a situação me revelar que o desejo do grande amor realizado é uma iluminação que desconsidera o pudor de se as calças estão bem amarradas na cintura. Como a Dani está acostumada com minha vida na realidade paralela da literatice, aceitou como mais uma das minhas esquisitices. Enquanto ela me introduzia, eu disse que a amava muito, e ria igual a um doido da insegurança de interpretação da coisa. Mas completei com a recomendação de que ela tirasse o embrulho metálico. É bom demais ter por quem aguentar o dia.

Daqui.

As tais pessoas comuns de Kurt Cobain



A diferença está no tom. John Gray produz uma narrativa que tem tudo para integrar um romance epopeia sobre ingenuidades sinceras e erros bestiais centenários com consequências as mais terríveis ou singelas, e o faz narrando fatos que, em sua maioria, são por demais conhecidos, mas que a desencantada candura da voz empregada em A busca pela imortalidade faz com que o leitor reaja como se os estivesse ouvindo pela primeira vez. Um amigo meu me disse sobre esse livro, com o olhar tomado pelo assombro de orfandade que a leitura de Gray provoca: "Mas por que coisas assim nunca são nos ensinadas na escola?" Não pude deixar de sorrir com certa ternura por um professor de história com um nível cultural bem acima dos índices mais generosos expressar uma indignação que beira a primeira desilusão da juventude com as dores do mundo, mas eu entendi inteiramente o que esse meu amigo sentia. Gray nos informa, por exemplo, que o bolchevismo matou mais pessoas em seus primeiros quatro anos que a dinastia Romanov matou em 300 anos, e uma certa eletricidade fria ronrona em seu silêncio confortável no estômago do leitor. Gray nos revela que a União Soviética não foi somente um regime político, mas um projeto esotérico perpetrado para extirpar todos os homens pueris e incultos e pobres para o benefício recompensador de formar a longo prazo uma sociedade de homens superiores, uma eugenia para a qual a história herdou documentos do próprio punho de Lênin em que este vaticina os benefícios de se matar inocentes para fundamentar o temor reverente na mentalidade dos povos, e o leitor sente o espanto com toda a sua roupagem de ineditismo. Nessas mais de 200 páginas, o tom de voz de Gray se assemelha à clareza estoica das melhores páginas de Camus, um tom muito distante dos artifícios que os eventuais parceiros apontados do autor na escola de atuais divulgadores do ateísmo científico esclarecido usam para autenticarem suas posições de filósofos populares. A solidão de Gray paira com elegância e sem nenhuma estridência acima das propagandas em prol do ateísmo nos ônibus de Londres e das comunidades da internet que celebram a memória de Christopher Hitchens com garrafas de uísque. E a beleza da prosa de Gray após a descrição de tantas estultícies cometidas pelo homem em suas tentativas de vencer a mortalidade nos traz o inusitado consolo de que a morte é a conclusão mais justa para zerar uma matemática que tem provado a mais vazia e inútil presença terrena.

Para quem escreve esse filósofo solitário que é o único entre seus pares que tem a estampa memorial de Kant andando de mãos cruzadas às costas pelas ruas do tranquilo povoado? Esse espanto de meu amigo diante o que funciona como um soco de descoberta do livro de Gray transcende a simples análise sobre o valor educacional da verdade bem empostada. No mesmo dia em que falei com esse amigo, um outro conhecido meu me mostrou pelo celular uma cena de sexo coletivo que viralizou o ambiente virtual da cidade, que mostra uma menina com cinco rapazes no banheiro para deficientes físicos do colégio onde esse amigo dá aula. Eu não tenho a mínima energia para ver esse tipo de vídeo, e a questão aqui me parece ser realmente energia e não estômago ou paciência, pois qualquer simbolismo entre o mais evidente e o mais recôndito que tais cenas possam provocar só me causa um enorme cansaço. O máximo a que pudesse chegar de eu sentir um furor contestatório diante a bestialidade humana, a selvageria adolescente, a total inocuidade do sistema de educação nacional, era de saborear a velha hipocrisia da moral infestada de testosterona desse conhecido que me mostrou o vídeo, sublinhando ao mostrar a velha cartilha de indignação superficial de aonde vamos parar, Charlles? Talvez eu tenha chegado à idade enfim de um estoicismo imune à coligação perceptiva da literatura, um desencanto que não se adorna mais com galhardia da pose de senhor distinto sentado com um livro aberto nas mãos: uma noção de algo sério e irretocável que sempre esteve aqui mas que só agora eu o vejo sem nenhum filtro de amaneiramento, e que não depende de minha posição em relação a ele. Nada que eu pudesse fazer, nem nada que um conjunto de pessoas supostamente detidas das mesmas intenções de mudança que me toma diante a inocuidade humana pudesse fazer, teria algum efeito. A diferença está no tom. O tom de Gray expressa a única concordância possível de acontecer entre pessoas bem intencionadas em um mundo onde as fantasias de redenção nunca tiveram vez. A única utopia possível é a auto-consciência, uma humildade potente e libertária diante a verdade do ser combalido que somos. Esses dias assisti a um documentário produzido com as fitas de áudio contendo as tantas horas de gravação dos testemunhos e opiniões de Kurt Cobain, chamado Retrato de uma ausência. O filme tem a intenção de causar certo peso dissipativo, certa nostalgia triste de uma ruína que se transformou, mostrando cenas de escombros, hotéis vagabundos de beira de estrada, muros da cidade com fragmentos de cartazes que convida a algum evento popular acontecido há muito tempo, exaustores de ar de indústrias que esperam pela demolição, céus de entardeceres que nada prometem, como se fosse a visão de um adolescente que não vê nenhum espaço possível que o integre à sociedade, um mendigo cujo conhecimento genético da exclusão que relegou seus progenitores em longa linha pregressa depõe contra a reação poética possível, restando apenas o ódio mais concentrado. O adolescente Cobain que sentia o mundo devastado dessas imagens sabe que não lhe resta o lenitivo de ser o herdeiro dos românticos escritores da tuberculose, ou o alcoólatra beatnik de uma era em que o apogeu do desespero podia adotar a figura de uma América primordial subliminar ainda passível de ser alcançada, ou o homossexual culto reacionário cujo limite visível da linha da vida cortado pela AIDS justificava a nobreza de seu despojamento. Cobain tinha o enorme azar de ter nascido famélico em uma época pós-suicídio distintivo, de estar em um interstício cujo esgotamento provocado pelos excessos passados mutilava o período histórico com uma absoluta falta de imaginação. Só restava a Cobain visualizar a morte precoce que era a única realidade que tinha pela frente sem uma roupa apropriada para se encontrar com ela, sem mensagens as mais pueris de adeus cínico para os que deixava para trás, sem direito a um epitáfio histriônico que fosse seu testemunho relativamente ruidoso contra a barbárie do mundo. Em uma das gravações, Cobain fala do emprego que teve em um hotel na beira da praia, um emprego que foi o inferno para ele porque as pessoas comuns que eram seus colegas de trabalho sempre lhe foram intoleráveis, pessoas as quais ele não conseguia se manter indiferente e contra as quais ele tinha que dizer as mais terríveis verdades. Muito provavelmente deveria ser um tanto irritante ficar próximo de Cobain, principalmente para os que expressassem as mais mínimas diferenças de educação e idade. O que seria pessoa comum para Cobain? Dificilmente seria a mais proximal à estirpe do Homem comum da biografia que Anthony Burguess escreveu sobre James Joyce, claro; seriam as tais pessoas desinteressantes que Eric Hobsbawn falou em seu discurso para uma classe de história em uma respeitada universidade, pessoas das quais ele afirmou que seus ouvintes não desejariam conversar com elas e nem que fossem suas alunas, a não ser que as amassem. Ao contrário de Hobsbawn, que cita a importância de que tais pessoas sejam protegidas da patrola da história, Cobain fala abertamente de seu repúdio a elas, de seu ódio, de seu nojo_ ao menos nas fitas de áudio que fazem o fundo às imagens do filme. Quando vi essa parte do filme, pensei, desalocando para a superfície meu eu de homem comum, latino-americano de um país à beira da falência: quem era Kurt Cobain? Um artista do rock que, como disse Pete Townshend, estava se tornando cada vez mais um adolescente descerebrado, oco e fútil. Sua arte, a melhor e mais relevante parte dela, se ampara na catarse pura, uma música virtuosística que perde o propósito assim que os hormônios provocados por ela se dissipam. Ele talvez fosse o mais crasso homem comum que teve o revés da sorte de se encaixar na raquítica exigência fonográfica de uma década de total pobreza musical, o que seu suicídio sem o mínimo sentido heroico de seus antepassados do gênero que morreram com os mesmos 27 anos confirmava. Kurt Cobain, pensei, se limitava a uma parca comédia sem graça de uma época que não tinha capacidade de oferecer nada, e por isso sua história fulgurante teve a auto-implosão e auto-digestão de um buraco negro. Não sei situar Cobain nos extremos da situação do vídeo pornô que meu conhecido me mostrou: se ele estaria no lugar hipócrita do meu conhecido, cuja permanência de um vídeo assim em seu celular não condiz com nenhum posicionamento moral válido; se ele seria um dos integrantes do vídeo; ou se ele, vivo com 48 anos, estaria tão esvaziado de energia para assistir tal vídeo.

Kurt Cobain tem relação com o livro de John Gray porque um dos resumos possíveis deste livro é a eterna tentativa eugenista de classes em diversas esferas da dominância em ganhar distinção com base no extermínio das classes que estão embaixo. O livro de Gray mostra o quanto a teoria da evolução de Darwin destruiu a imagem condescendente festiva que o homem tinha de si mesmo e de seu lugar de destaque no universo. E o livro é devastador em mostrar de maneira progressiva como o homem em desespero diante a verdade inexorável de sua insignificância procurou uma série de caminhos alternativos. A primeira parte narra sobre os movimentos do psiquismo acontecidos na Inglaterra, de como foram as tentativas de firmar o propósito da existência em um projeto reencarnacionista que parecia fadado ao sucesso pois além de obter provas em malabarismos entusiásticos da parapsicologia, atendia também a uma versão do evolucionismo para o progresso do espírito. Não era uma religião, mas uma nova outorga de uma Providência divina com propósitos meritocráticos para um ramo da alta sociedade que necessitava de uma legitimidade esotérica de seus privilégios de bom nascimento. E tinha o aval de se arvorar como sendo uma ciência ainda não reconhecida. Quando tudo isso fracassou, ou porque as atitudes circenses das sessões espíritas tinham a graça com prazo de validade, ou porque aumentou os níveis de ceticismo nas gerações sucessoras, vem o projeto de conferir nova distinção à existência do homem da segunda parte do livro. Projetos firmados agora em uma ultra-realidade que se imunizara da necessidade de um deus. E Gray se ocupa largamente do maior e mais terrível projeto religioso dos últimos séculos da história: a efetivação do bolchevismo em boa parte do mundo. Ele inicia com a sintomática e mais que simbólica visita de H. G. Wells a Lênin, em 1920, com a intenção do escritor em trazer Lênin para seu plano de emancipação humana conferindo os postos de poder das sociedades a intelectuais humanistas. Claro que o leitor pode sentir o impacto do presságio da estrutura oca da ingenuidade do sonho de Wells, e de como Wells vai se entregando à lucidez do morticínio quando todas as suas matemáticas sociais sucumbem a um mero caso amoroso com uma das personagens mais enigmáticas e fascinantes apresentadas por Gray, Moura Budberg (uma aristocrata da época dos Romanov que, para sobreviver, tinha que se incluir à única condição de prostituta de luxo que sobrava para as moças de seu meio).

Gray passa o foco para a vida do escritor soviético Máximo Górki, e de como ele tomou frente em um departamento do regime para promover o extermínio de pessoas comuns (as tais pessoas comuns de Cobain) com intuito de, a longo prazo, produzir a sociedade igualitária perfeita povoada de seres humanos superiores. "O recurso ao terror era acima de tudo um meio de recriar a humanidade", escreve Gray. Górki cultivava a crença de que deus ainda não existia, que o propósito da humanidade era criar deus, que a ordem acreditada estava invertida e o homem que teria de criar deus à sua semelhança e imagem. A supremacia do homem, o Super Homem, fomentado às custas da dizimação total de todas os incultos e pobres de espírito, faria que deus existisse. A esse projeto soviético deu-se o nome A Comissão de Imortalização (The Immortalization Commission, que dá o título do livro no original em inglês). A pragmatização da comissão se deu com amplo sucesso. As descrições de extermínio nas páginas do livro são generosas, como a da construção da Ponte do Mar Branco, na qual milhares ou talvez milhões de presos em escravidão sucumbiram no trabalho, no frio e na fome. O livro trata antes da grande insuficiência da razão humana, que sempre descamba para a selvageria sem limites, o que atesta no final o alívio diante a vacina da morte para um engenho tão fracassado. Mostra o quanto a fronteira entre o intelecto e a psicopatia homicida é tênue, prefigurado por assassinos investidos de propósitos redencionistas como Górki.

E por que tais coisas não são contadas para nós na escola? Como ensinar sutileza de pensamento para um mundo dominado cada vez mais pelo branco-e-preto monolítico? Como fazer com que o cérebro pense ao explicar que o livro preferido de Stalin era Os demônios, sendo que este livro que inspirou a sua matança de 60 milhões de conterrâneos, e que Os demônios foi escrito por Dostoiévski justamente como um aviso para que um Stalin não pudesse vir a existir? E será que pessoas tão obtusas à percepção dessas nuances podem merecer serem protagonistas de uma cosmologia de uma vida eterna? E ensinar que todo relativismo que coloca graus de superioridade relativiza sua própria posição na escala entre algoz e vítima. Um livro como A busca pela imortalidade é um grande presente, um generoso ato de humanismo. Nada se compara a ele, em todas as suas idiossincrasias de grande prosa e lucidez libertária sem qualquer engajamento. Gray não impõe nenhuma verdade, e essa sua obra tem o voluntarismo espontâneo de servir como tijolo para a fundação de um novo sistema de precaução contra as intrujões da história. Não defende nada e não condena nada. Tem a beleza do andar livre de um Omar Khayyãm, que não reconhece sobre si nenhuma religião e nenhuma ciência, sem contudo estufar o peito de orgulho arrogante. Não menos sintomático e simbólico, Gray fecha a obra com um belíssimo texto do poeta húngaro judeu György Faludy, que narra seus dias assim que chegou como refugiado de guerra a uma Casablanca rescendida à morte, e que foi enviado ao campo de concentração de prisioneiros de Recsk por se recusar a escrever um poema em honra ao aniversário de Stalin (na prisão, narra Gray, Faludy confessou que tinha sido recrutado como espião norte-americano pelo capitão Edgar Allan Poe e pelo coronel Walt Whitman), e que, libertado, viveu com um companheiro por mais de 30 anos, casou-se outra vez aos 91 e morreu em 2006, aos 95.

Assim se encerra A busca pela imortalidade:

A vida após a morte é como uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as cores nunca mudam de cor nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino. A imortalidade é apenas a alma que empalidece, projetada numa tela branca. Há mais luz do sol na queda de uma folha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Comentários coloquiais sobre leituras dos últimos dois meses

O vermelho e o negro, de Stendhal



Romance magnífico que passou ignorado quase por completo em sua época, mas que seu autor vaticinou com estoica tranquilidade que só seria entendido pela posteridade. O livro inaugura seguramente a maturidade sobre o estudo escatológico do ser humano, e imagino o espanto que deveria ter causado em sua época pelas estarrecedoras coisas que conta. Quando o li pela primeira vez em minha adolescência o abandonei, com grave hostilidade, na página 279 (tem meus comentários, meus sublinhamentos e meu marca página enterrado nessa página na minha antiga edição de banca, de quando eu tinha menos que 20 anos); recordo que o livro me pareceu como a mais terrível história de terror, de tão opressiva, desaerada, soturna e desumana que era. Não é para menos que o romancista mais diabólico que existiu, Elias Canetti, reverenciava Stendhal (o capítulo sobre a imortalidade que Canetti escreve em seu insuperável Massa e poder é uma ode a Stendhal). E isso tudo apenas porque Stendhal descreve a sociedade e a alma humana como ela é, e de uma maneira sem espanto, perfeitamente equilibrada. Há corrupção e ânsia de assassinato por toda parte, e o amor é uma impostura da fraqueza ou da ambição. Há a pobreza atroz e a adaptação animalesca a ela, quando o pobre Julien Sorel é internado em um seminário, como último recurso para sua ascensão social, e seus companheiros cujo estado de espírito transita entre a indiferença e a crueldade se revelam com o propósito de existirem apenas para suprirem diariamente a paixão de seus estômagos. Quem ainda cultiva algum respeito pelas religiões, esse livro é uma destruidora libertação. Nenhum escritor escreve tão bem em francês quanto Stendhal; ele reina absoluto sobre a língua. Como esteta, é inigualável, assim como psicólogo e frio denunciador da empáfia da política e da sagração; é também um arauto de unívoca lucidez sobre o poder do tédio, e se tivesse que resumir todo seu tema em uma única palavra, seria essa: tédio. Não sei quem foi quem falou com precisa assertividade que o único páreo para ele é Dostoiévski.

Morte em Veneza, de Thomas Mann



A maioria dos grandes romances purga títulos canhestros. Esse não foge à regra. É como se Agatha Christie tivesse optado para um de seus romances pelo título de O detetive é o assassino, ou Nabokov para seu grande romance O narrador enlouquece. Até quase a metade dessa curta novela fiquei em suspense se Mann conseguiria erguer e encerrar toda a conhecida trama que ela comporta, porque até então a obra cai em uma divagação solta sobre a estética e a preparação do escritor para seu ofício. É como se Mann tivesse programado um de seus caudalosos fôlegos de 600 páginas mas, na última hora, determinasse que a coisa se encerrasse rapidamente. Isso não exclui o fato de que esse livrinhos seja uma obra-prima, e mais ainda que tais páginas pré-trama estejam entre as melhores que já li sobre o ofício de escrever. A tal morte em Veneza é descrita com uma singularidade que ressalta a genialidade do autor pela delicadeza com que ele equilibra o foco da narrativa do amor do velho escritor pelo jovem fisicamente perfeito sem que se entreveja qualquer traço de vulgaridade ou de pre-conceitos formalizados. É tão bonito esse livro que, na ânsia de que a história se inicie, ele acaba sem que o leitor deseje outra coisa senão que as páginas se prolongassem pelas centenas. É precioso também ler as antecipações de Doutor Fausto nesse livrinho.

As sementes da revolta e Os anos de provação, de Joseph Frank



Essas duas primeiras partes da biografia de Dostoiévski é puro deleite. Interessante ver que os dois últimos volumes tiveram o dobro da tiragem do restante, 3000 exemplares, como se o interesse se limitasse ao Dostoiévski do período de seus cinco grandes romances. Pois perdem bastante os apressados em não saberem como é ótimo seguir Dostoiévski em sua infância e juventude, em sua paixão pelas ideias humanistas (centrada na extinção da servidão na Rússia), a publicação de seu primeiro romance, Pobre gente, e como isso foi ao mesmo tempo a glória e a perdição para um jovem escritor que não soube conviver com a fama e se indispôs com todo mundo por sua terrível prepotência. A cena que inicia o segundo volume é a de Dostoiévski, mais seus 20 companheiros do círculo de Petrachévski, que conspirara contra o czar Nicolau I, sendo retirados após 8 meses trancados na fortaleza Pedro e Paulo e levados até a praça Semenóvski para serem executados pelo pelotão de fuzilamento. Creio que a escrita de Frank nessa parte se ombreie com as melhores páginas da literatura do século XX (ou ao menos assim parece para esse leitor apaixonado pelo tema, pela atmosfera e pelo escritor russo). Dostoiévski é encapuzado e amarrado em um poste, mas antes ele se vira para seu amigo Spechniev, também nas mesmas condições, e diz: "Estaremos em Cristo", ao que o colega niilista lhe responde: "Um punhado de pó". A pena se revela uma encenação e é convertida, para o autor de Crime e Castigo, em 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria, mais a obrigação em servir após esse tempo como cabo no exército russo. E os anos na Sibéria nunca foram contados com tanto provimento de detalhes e com tanta profundidade como nessa biografia. A paixão enlouquecida de Dostoiévski por María Dmitriévna, sua solidão dos centros culturais do país, sua fé nunca perdida de que seria um grande escritor. Estou iniciando o terceiro volume hoje.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Amy



Assistir hoje ao excepcional documentário Amy me moveu a tecer algumas observações. Começando pela mais pragmática delas: já no começo do filme Amy lamenta a falta de controle sobre ela por parte de seus pais; expressa a falta que lhe fez o fato de seus pais nunca terem-lhe dito não. Essa afirmação, em um filme que trata de um ícone da juventude, morta prematuramente na classe emblemática dos 27 anos, já é uma desvirtuação ao gênero midiático de culto à efemeridade da tríade drogas, sexo e rock`n roll. O filme é belíssimo e exuma uma honestidade ímpar a começar por não apelar em nada para o caráter iconoclástico da figura da cantora; pelo contrário, desde a primeira cena Amy é mostrada em toda sua ternura infantil, que vai crescendo ao longo da narrativa até se transformar rapidamente em um desalento, desproteção e fragilidade comovedora. O diretor do filme é movido por uma sensibilidade tão precisa que é impossível que o espectador não se sinta em suspenso e tocado profundamente pela solidão ali representada. E aqui a primeira observação_ da permissividade dos pais_ se transforma em algo mais nefasto, que a narrativa costura com a mesma maestria no quadro da apropriação cruel que todos que cercaram Amy fez de seu corpo e seu espírito, até que deles não sobrasse nada. Há inúmeras cenas tão tocantes que eu me via constantemente me perguntando como era possível, como a vida dessa garota foi filmada do início ao fim de forma tão explícita e quase brutal. E tudo foi um choque para mim, pois eu via Amy Winehouse com desprezo, nunca gostei dela, sentia uma repulsa por tudo que se relacionava com ela; ela me cansava, quando viva, da velha repetição de degradação e suicídio progressivo, o que me fazia maldizer a falta de lucidez das novas gerações que cometem holocausto midiático de si mesmas para preencher o vazio de significado através da repetição dos passos mortais de uma insípida tradição. Eu gostei muito mais da Adele, gorda, radiante de saúde, a voz potente e a genialidade de compositora que só será reconhecida depois que os esnobes pararem de a desmerecerem por birra (o que prova, espontaneamente, a genialidade dela por outros caminhos, já que também o Led Zeppelin e os Beatles foram profundamente desprezados na época deles). Mas esse documentário, essa obra prima, mostra, para meus olhos assombrados, o que a Amy era: uma ativista desencantada e espiritualmente superiora de todos esses esquemas patrocinados, alguém que teve a consciência do enorme engodo em que estava caindo desde o início, mas que era fisicamente quebradiça demais para se defender; defender-se do pai extorsivo, do marido que lhe vampirizava, dos "amigos" da classe artística que lhe louvavam por beber e fumar da maneira certa. O filme começa com a linda Amy garota, em um filme caseiro, se destacando da turma por sua proeza em cantar Parabéns pra você, e termina com o relato de uma Amy esquelética, de rosto encovado consumido pelas drogas, poucos dias antes de morrer, dizendo que daria tudo para poder andar pelas ruas solta e leve e feliz como era quando inocente. Como todo filme sobre roqueiros mortos, o tema é a ode à inocência perdida. É moda no Facebook propagandearem um post que diz que beber álcool indica genialidade, e Amy mostra as últimas instâncias catastróficas desse descerebralismo construído para ser um clichê consumista a ser seguido pelos estúpidos.

A segunda observação é que Amy Winehouse não foi uma grande artista. Não teve tempo para isso. Ela não foi uma Janis Joplin. Seu gosto refinado por jazz e sua alta inteligência auto-avaliativa a impossibilitou de se entregar às pequenas prostituições necessárias para que pudesse se transformar em uma imortal em seu meio. E ela era individualista demais, sua dor era recolhida em excesso, para que pudesse se exorcizar diante o microfone como fez a Janis. Ao longo do filme me vi pensando que ela era o êmulo dos escritores que se negavam a escrever que fez o tema de Vila-Matas: a cantora que se negava a cantar, como na maravilhosa cena de sua recusa em cantar no show em Belgrado. Daqui a alguns anos ela será esquecida, o que esse documentário só fez estancar um pouco o processo por umas boas pitadas de sublimidade. E essa é a perspicácia que faz desse filme sublime, e o constante close no rosto de Amy se perguntando "o que eu estou fazendo aqui": mostrar um ser humano sensível e inteligente, nunca adaptável, sendo engolido paulatinamente pelo mundo vazio e ganancioso que ela, Amy, como ninguém em seu redor desde o princípio soube enxergar além do eufemismo e da ilusão. E como seu fim foi uma realidade incontornável, que os cruéis e facínoras aproveitaram até o limite com zombarias e chacotas, com insensibilidade maníaca e total leviandade assassina, com pouco caso e especulando pelo tempo de vida que lhe restava no interior das casas de bolsas de apostas. Assim como a nostalgia da inocência do início_ da bela primeira cena despreocupada, exultante de vida_, retorna com um toque de pesar no final, também o espectador inteligente se vê doutrinado contra a impostura criminosa dos jogos de aceitação irrestrita da mídia com o ensinamento de que nessa nossa zona de existência, o grande lance de esperteza é sempre dizer NÃO.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Indiferença



Não é para menos que o fascínio diante os cinco livros da biografia  de Joseph Frank tenha motivado David Foster Wallace a alertar os escritores contemporâneos sobre a necessidade de reaver a atmosfera espiritual apaixonada da Rússia de Dostoiévski. A leitura do primeiro volume da biografia me provocou aquela contrapartida recalcada que sentem os que, destituídos da felicidade, recebem uma maciça lembrança dela. Olhando desse lugar do tempo, com tanta metástase monstruosa da história entremeada, a impressão é que todos daquela época sofriam de uma ingenuidade enternecedora ao assumirem grandes ideias hoje cadavéricas, discutiam com veemência assuntos hoje tornados impossibilidades decretadas. Não é para menos que esse livro tenha fundamentado a lucidez em Wallace do quanto a ironia é a sobra fraca e auto-deletéria do mundo vazio de paixões em que vivemos nesse século. Vemos Dostoiévski atravessando as ruas de São Petersburgo, sob uma temperatura de 20 graus negativos, com o coração inflamado da felicidade de todas as possibilidades abertas pelo discurso, indo se reunir à Plêiade de Belínski, e sentimos o quanto nos custa a ausência dessa imunidade espiritual. Foi inevitável lembrar, no transcorrer da leitura, o poema de Eliot evocando nosso elmo cheio de nada, embora Eliot o tenha escrito no alto do século XX em que ressaibos dessas grandes ideias ainda podiam se manifestar em um niilismo combativo.

Deve ter provocado uma profunda angústia em Wallace, assim como me provocou a mesma angústia, ver o quanto a espiritualidade se reduziu ao silêncio de tal maneira que a alusão a certas palavras provoca uma retração sarcástica dos músculos faciais: espiritualidade, socialismo utópico, defesa dos humilhados e ofendidos, a opressão do bezerro de ouro, e várias outras. Não nos parece gritantemente infantis tais termos? O livro de Frank é generosamente povoado de nomes que nos causa um involuntário asco diante a fé descabida em abstrações anacrônicas. Fiquei impactado com a confissão de Wallace do que esse livro lhe provocara, a tal ponto que tinha que lê-lo o mais rápido possível. E esse livro é um ensinamento do que nos tornamos, o homem em geral, o ponto decíduo da história em que estamos em um processo de evolução cujo único lema definitivo é que a evolução nada tem a ver com melhora. O júbilo que o homem atual tem é o de expressar sua indiferença, emulando o Calígula de Camus que conseguia afirmar além do murmúrio e do constrangimento que a indiferença era seu único sentimento para com a existência. E Calígula cai bem na comparação a pessoas conectadas em um universo cibernético que nada tem a ver com a realidade, mas que lhes trazem a impressão cada vez mais sedenta de que são déspotas sensualistas prostrados diante seus computadores e celulares.

Terminei ontem o segundo volume dos cinco da coleção de Frank, e até completar todas as três mil e quinhentas páginas estou impossibilitado de me desviar para qualquer outra leitura. Não é só o deleite de se transportar para a geografia e a atmosfera ali tão bem revelada, mas tudo que o livro provoca em questões. Questões como a de que o escritor sem um tema legítimo é o mais vazio e mecânico dos artífices; da importância da fé sincera nas ideias fundamentais para poder escrever; de como os escritores e o mundo atual estão despovoados dessa fé. Questões históricas elucidativas como a comparação entre o sistemas penitenciários czarista e o soviético: como John Gray escreveu, os três primeiros anos do stalinismo matou mais que nos quase 400 anos do czarismo, e vemos sinais disso no quanto as prisões antes de 1917, por mais atrozes que fossem, eram bem mais humanas e permissivas que as que se seguiram. Dostoiévski, por exemplo, se preso fosse sob o domínio de Stálin, teria sido exterminado nos primeiros meses; e Stálin dizia que as prisões czaristas pelas quais passou fez dele um homem culto, pelo provimento de leitura que nelas havia. E vai ver foi por essa reavaliação dos níveis de agruras que fez com que o chefe absoluto de estado soviético fosse muito mais impiedoso com seus inimigos.

Ontem fiquei surpreso por falar sobre Rafael Saddi a um esclarecido amigo professor, e ver que este amigo não sabia do que se tratava. Saddi deveria ser importante no cenário nacional, mas ninguém o conhece, e deveria ao menos ser relevante entre a classe dos professores estaduais daqui, mas é quase um completo desconhecido. O fato alardeado de sua prisão política provoca a mesma sensação de anacronismo histriônico de certas palavras que ressaltam que vivemos em uma realidade de brinquedo. Também ontem eu e a Dani dissemos à Júlia que ela não deveria mais dividir o lanche com os coleguinhas de sala, porque a Júlia nos contou que ela dividia o lanche, mas as amiguinhas não faziam o mesmo porque seus pais lhes diziam que não era para dividir. O mundo de Dostoiévski e o nosso nos mostra o quanto o ser humano é adaptável, e o quanto o automatismo realiza essa característica nos níveis mais rasteiros.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Quanto mais Dostoiévski melhor


Ontem reli Memórias do Subsolo, que só o tinha lido em meus 18 anos. Reli de uma sentada, exultante como uma criança. Senti como Nietzsche disse ter sentido ao conhecer tal livro, irradiado por uma "alegria sem limites". Esse é, sem a menor sombra de dúvida e com todos os gritantes sinais visíveis, o livro fundador da literatura do século XX. Sob alguns sérios aspectos, é mais importante que os Karamázov. É maravilhoso, engraçado (principalmente as últimas páginas, em que aparece o impagável Apolón), sombrio, catártico, cheio de uma esperança e de uma fé paradoxal, de um desespero refinado. Tal livro, assim que se o lê, se percebe sua influência em Céline, Kafka, Bernhard, Beckett, etc. Estou lendo O adolescente pela manhã, e As sementes da revolta à noite, o primeiro volume da biografia de Dostoiévski escrita por Joseph Frank. Dostoiévski nunca é demais.

Um excerto que está por detrás da ideia de "2001" e "O Clube da Luta"