segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Os Buddenbrook, de Thomas Mann



Este é um dos dez romances preferidos de Hemingway, um dos que ele anunciava como indispensável leitura para a formação de um escritor, mas o único de Thomas Mann que o romancista americano julgava relevante. Isso, para um leitor conhecedor de Hemingway, já revela muito sobre Os Buddenbrook. Mann praticamente deve seu Nobel a esse livro, visto que sua obra-prima A montanha mágica, na época da premiação, era ainda uma leitura em experimento por parte dos críticos e dos leitores engajados. Tanto que Mann muitas vezes expressou, na época, sua irritação pela obtusidade generalizada em desconsiderarem a grandeza da Montanha em preferência a uma escrita que, apesar de primorosa, não era o que o autor tinha de melhor para herdar ao seleto time da canonização da literatura do século XX. Dentro da história da literatura, as diferenças entre esses dois romances citados de Mann são grandes. Hemingway, contudo, estava absolutamente enganado quando disse que nada que Mann escreveu depois prestava. Os Buddenbroocks é maravilhoso, já servia a deixar o nome de seu autor na imortalidade da escrita em língua alemã, mas é substancialmente diferente do que Mann produziu depois. A começar por sua prosa aerada, direta em sua centralização no tema da disparidade social e espiritual do artista em referência a um mundo cada vez embrenhado em toda sua significância no mercado de capitais. Os Buddenbrook é o grande romance tardio do século XIX que floresceu em quase orfandade na velocidade caótica das novas ideias e escolas do pensamento do século XX. Mas nada tem de ingênuo: é, antes, um produto genial. Tem a clareza estética de um Stendhal; é, em amplos sentidos estéticos, de uma sofisticação atendente às exigências de concisão superior ao que Mann entregaria ao prelo mais tarde. Por isso Hemingway, um fundamentalista de prosa imagética, assepsiada por completo de retórica, o louvava. Claro que para os que amam Mann (eu incluso), Mann tem sua identidade afirmada em seus romances-ensaios futuros, em sua palavrosidade, seus excessos, sua exuberante abundância. Mas em Os Buddenbrooks se vê as notas primevas sobre doença e sublimidade, inadequação como profunda crítica à hipocrisia assassina da sociedade, a arte como único escape efetivo (e pessoal) a um mundo de imposturas rasas. Mann tinha 25 anos de quando o lançamento desse livro. Já era um gênio; um dos maiores gênios do século XX em qualquer área da intelectualidade.

8 comentários:

  1. Eu ainda estou no aguardo da tetralogia do "José e seus irmãos".

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  2. Sim, Os Budenbrook é sem dúvida um obra-prima radicada no século XIX em termos e escrita e desenrolar da trama, que até é um retrato da família do autor. Mas A Montanha Mágica fez avançar a literatura no século XX, não só pelas ideias que expõe, como pela estrutura da obra. Adoro os dois, mas este último é fazer algo de novo logo genial à partida, Os Budenbrooks é retrabalhar matéria velha com genialidade.

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  3. Diário de um escritor foi lançado pela editora Hedra, Charlles.

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    1. Nem conhecia essa editora. Uma surpresa total!

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