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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Experiências de Leitura (I)



Mais uma semana de férias pela frente. Três meses de licença prêmio, coladas a um mês de férias, em que viajamos por uma semana a Minas Gerais (decidimos ir a lugares mais distantes nas férias do ano que vem), e que me afundei em gratificantes variações de leitura. A vida de família é exigente demais para que eu ainda tenha a liberdade de antigamente de varar dias e noites na leitura, intercalada com períodos breves para lanches e cochilos, como certa vez ao ler Ulisses em quatro dias, e Os Demônios num recesso de carnaval. Quem é pai sabe da trinca no coração, quando nos fechamos no escritório nos fundos da casa e mãozinhas batem contra a porta chamando "papai, papai", e não há como não deixar o capítulo mais envolvente do romance que se está lendo, ou a parte mais instigante do ensaio de lado, e atender a esses apelos tão ternos e delicados. Mas mesmo assim, a contabilização de livros lidos neste período mostrou-se carregada de sinais significativos, que ao mesmo tempo desenham um diagnóstico sobre os caminhos da ficção e uma linha intuitiva dos meus interesses mais inconscientes sobre a escrita. 

Por exemplo: pouco há de comum entre livros como Como Mudar o Mundo, de Eric Hobsbawn, e Obras Reunidas, de Walter Benjamin, além dos interesses humanistas dos dois autores em pragmatizar através da análise da História as hipóteses de um mundo melhor; mas eu os li, quase lado a lado neste período, na febre eclética de saber um pouco mais o que se passa na cabeça de homens que ganham a etimologia desse termo por razões mais espiritualmente genuínas que os atributos da fita métrica cada vez mais medíocre e equivocada que vemos em publicações como nas revistas da editora Abril, que só neste meu intervalo de descanso lançou uma revista Super Interessante cuja capa brinca com a produção seriada futura de bebês "perfeitos", colocando a foto de um menininho de olhos azuis e cabelos louros; ou numa revista sobre História (que segue a rotina cimentada desse ramo nacional de se dirigir sempre a um eterno adolescente pré-vestibulando que pode se julgar um gênio emancipado por ser o seu alvo diretriz privilegiado) que revela enormes benefícios científicos promovidos pela ciência nazista, como informações pontuais sobre o tempo limite de pressurização que uma pessoa aguentaria num submarino (graças ao desabnegado sacrifício imposto a um prisioneiro de campo nazista que aguentou 15 segundos antes de morrer, aparecendo as fotos do antes e depois com o distanciamento asséptico de estar-se vendo um porquinho-da-índio num laboratório), e com a figura da capa sendo uma estigmatizada suástica com desenhos suficientemente amenizados do bigode de Hitler, máscaras de gás e tanques de guerra, que poderia ser usada como papel de parede num quartinho de bebê (o bebê ariano perfeito da outra revista); ou a última capa da Veja, que aponta festivamente a descoberta de que pessoas altas vivem mais e são mais bem sucedidas que pessoas baixas (!!!!!). [Há de se fazer aqui o uso cacofônico de uma chave, coisa que acho jamais ter feito neste blog e que não recomendo a ninguém que queira escrever um texto minimamente desobstruído de interrupções gratuitas de fôlego faça, mas essa matéria da Veja merece um adendo rápido: de onde, por Tutátis, eles tiraram isso?? Homens altos são, sob todos os aspectos de sucesso possíveis (até o da longevidade), melhores que os homens baixos??? É realmente eloquente a fé da Veja sobre o quão devem ser homenzinhos e mulherezinhas beirando o nanismo cerebral os leitores que lhe restam para se distraír com fabulações sem pé nem cabeça como essa e não se atentarem na verdade criminosa que subjaz nos porões desta revista. Qual a altura de Carlinhos Cachoeira? Basta umas simples concatenações de informações nestas cabeçinhas dispersas para destituir a tentativa de tal reportagem: para os que se ocupam com a literatura, há mil escritores baixos para cada um alto; há mil Faulkners para cada um Bertrand Russel, mil Naipaul para cada Hemingway; mas para a maioria de adeptos sequazes da felicidade terrena do capital que a assinam, Zuckerger tem 1,70 (não necessariamente alto); e, nesta pesquisa  de um programa do SBT em que se questiona qual o maior brasileiro de todos os tempos, a resposta certa seria Joelisson Fernandes da Silva, do alto de seus 2,3 metros.]

Mas voltemos ao assunto (?) do post. Nestes meses descobri que um simples conto de Juan Carlos Onetti, como, por exemplo, O Obstáculo, vale mais que toda a centena de contos que Roberto Bolaño escreveu. E essa é uma descoberta que fundamenta a certeza de que a literatura exige uma seriedade cíclica de seus renovadores para que a insurgência de coisas realmente brilhantes não fique apenas na intenção. Faz-se necessário que o escritor volte escalas mais pregressas de influência para ter a lucidez de que, muitas das vezes, a Substância criativa está, realmente, há uma ou duas gerações de distância. Li o maravilhoso livro de contos completos de Onetti publicado na série listrada da Companhia das Letras, umas três semanas após ter lido o apenas competente Chamadas Telefonicas, de Bolaño. Onetti despertou em mim a lembrança da época em que a escrita era aterrorizante e infinitamente compensatória de quando eu penava por procurar a musicalidade mais íntima e precisa para as minhas redações do colegial. Naquela época eu tinha a absoluta convicção de que seria escritor, e nem me passava a mais remota preocupação se seria lido ou não. Meus autores sacramentados eram gente que tinham a marca natural rara de serem escritores natos, homens a quem nenhuma outra atribuição profissional se acondicionava a suas independências de predestinados que não fosse a da escrita, e que eram portadores de uma felicidade imensa sobre todos os outros da espécia: o talento da escrita. Faulkner era meu modelo imprescindível. E agora, ao conhecer esses contos de Onetti, me veio de volta essa zona de conforto inadmoestável imune das insuficiências do dia e das exigências das contas de aluguel ou mesmo do leite das crianças. No prefácio deste volume de contos, Antonio Muñoz Molina traça um belo retrato de Onetti. Não há como não excitar o adolescente em mim que um dia escolheu a literatura como cátedra. Onetti, diz Molina, ao vê-lo em uma entrevista a uma televisão espanhola, era absolutamente descansado em relação à sua imagem de escritor. Não professava o iconicismo típico dos escritores em se acharem a azeitona da empada ou a cereja do bolo. Não acatava a escrita como um martírio fordiano das dez mil palavras datilografadas por dia, e da compulsão da ditadura das musas por sempre estar debruçado por sobre a máquina no quartinho escuro. Calmamente, ele tratava a literatura como um exercício livre, que podia acontecer agora e o ocupar durante dois dias inteiros, ou deixá-lo sem escrever por semanas e meses. Ele, que fora de tudo na vida, via a literatura não como distintivo de nobreza espiritual, mas como necessidade acalentada e desobstruída de vaidades em vencer a opacidade da existência através de investidas sincronizadas contra o mesmismo. E, desta forma, quem pode negar que contos como O Inferno Tão Temido e Um Sonho Realizado, dois entre os maiores já escritos por estas terras ou quaisquer outras no século passado, não tornam Onetti investido da nobreza e elitismo tipicamente inerentes aos grandes escritores? Bolaño vive referindo-se à depressão e à escrita compulsiva, nitidamente querendo convencer a musa através de uma pedantismo sutilmente rasteiro, mas o que me veio de forma mais poderosa da releitura hoje do conto de Onetti, O Obstáculo, é que Onetti tem esse eco fisiológico, esse emplasto físico de grudar no ouvido e na alma e nos obrigar a matutar sobre a enorme demonstração de experiência multitudinária ali impressa, durante muito tempo. A mesma característica vencedora do tempo que um conto de Tchécov tem se passando cento e cinquenta anos e nos afixando nas linhas vestigiais da idade de nossas almas como uma lembrança eterna. A alta literatura tem essa característica: a de nos convencer que nasceu  bem antes no tempo e cuja função é sempre a de nos lembrar de coisas que transcendem a nossa existência. Nos fazer atingir o que nossos pés no chão juravam ser inatingível. Por isso, não há nos contos de Bolaño, uma única frase que faça acender a indistinta lembrança, a inenarrável saudade; nos contos de Onetti isso nos é oferecido perigosamente em excesso. Meu livro está de alto a baixo todo sublinhado. Esses quatro meses, entre tantas experiências de leitura, me mostrou de forma incontestável que Onetti é o maior escritor latino-americano.

domingo, 22 de maio de 2011

Juan Carlos Onetti


"É uma lembrança, faz dois anos, em Necochea. Mami se levantava muito cedo para ir à praia e eu ficava dormindo até o meio-dia no hotel. Acho que ela madrugava porque já tinha aceitado que estava gorda e velha e àquela hora encontrava pouca gente na praia. Acordei e fiquei olhando pela janela; descobri-a lá embaixo, se movendo. Mas ninguém poderia descrever o modo como se movia. Tinha uns sujeitos pintando as paredes do hotel, e o caminho de areia por onde as pessoas voltavam para almoçar. Você teria de se transformar num bicho e lembrar e compreender como se move uma fêmea para atrair o macho. Mas Mami, naturalmente, precisava de pretextos e ia de um lado para outro, arrancava folhas das árvores, chamava um cão, sorria para as crianças, sondava o céu, se espreguiçava, corria alguns passos e parava como se alguém a tivesse chamado; agachava-se para levantar do chão coisas inexistentes. Tudo isso entre o caminho da praia ao hotel e com os pedreiros no andaime. Pensei, e continuo acreditando nisso, que era a última tentativa, o desespero na caça e na pesca, dê no que dê, desde que dê em alguma coisa. Pobre Mami! Entendi tudo isso e comecei a dizer pobre Mami olhando-a da janela do hotel. Só havia ela lá embaixo; ela e a possibilidade que representavam os pedreiros, um empregado do hotel, um dos que guiavam seus carros vindos da praia. Naquele meio-dia em Necochea tomei um pifão daqueles e na sesta me obriguei a fazer amor com ela até a exaustão. É impossível que ninguém, ninguém no mundo possa conceber a pureza, a humildade com que eu teria oferecido o que quer que fosse aos pintores ou pedreiros para que um deles se aproximasse de Mami e a cantasse com uma frase suja, brutal, como quando a pessoa não consegue mais controlar-se." (A Vida Breve)