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segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Anti-Rousseau e o Bullying em Dois Romances Ingleses


William Golding
Recusei-me a brincar de sociólogo de plantão e de analista das causas do mal quando do trágico evento do assassino da escola do Realengo. Contruiu-se da noite para o dia, na internet ,tantos textos cuja pretensão de alçarem-se a um nível oxfordiano de inédita visão emancipatória da violência só atendiam mesmo à disposição simplória de revelarem o quanto havia de polemismo torpe por detrás da atitude de seus autores. Retiravam tudo do balaio comum de que o assassino era um monstro, no exame puramente clínico de alguém que executa crianças indefesas de "cima para baixo", e, na falta de horizontes mais expansivos, colocavam tudo no outro balaio de dizer que o monstro não era nada senão a vítima mais merecitória de piedade. E, contudo, depois que a polícia e o instituto médico legal liberaram o corpo do assassino para ser enterrado numa vala de indigentes, esses visionários da extrema solidão que leva uma criança rejeitada a buscar a catarse do martírio conjunto não apareceram para acompanhar o sepultamento, como quis o morto que uma alma generosa rezasse por ele. Os corajosos escritores virtuais, uma pequena parte só informada o suficiente para repetir Gore Vidal afirmando que o assassino de Oklahoma era um jovem superior, na hora de mostrarem as caras além das fotos de frontispício de seus textos em que aparecem com uma seriedade nietzschiana, limitaram-se à confortável acepção de que tudo é muito passageiro na internet para que marcassem seus pontos de vista de forma tão inadequadamente peremptória, e partiram para a nova polêmica da semana. A net nos agracia com essa perecividade em escala regressiva em que a primeira nota retumbante vai degradando-se até as três notas de encerramento de música de feira, em que a cortina se fecha e todas as máscaras de expressões veementes são guardadas no camarim. Em um site ao qual eu costumava visitar, postou-se um longo texto em "homenagem àquele que ninguém nunca passou a mão na cabeça", referindo-se ao assassino de Realengo; outro fez suas vezes de Bernard Shaw revirador de conceitos afirmando que no Brasil "há excesso de punição", sem que houvesse qualquer energia posteriora para discorrer de uma partida de argumentação tão olímpica; e muitos e muitos outros, nos mais diferentes graus de erudição, propondo a relativização tresloucada e a indignação desidratada cheirando a academicismos e mostrando que seus autores usavam ternos ao escrever, no valor uniforme de colocar o assassino como vítima e desconsiderar como simples padrões numéricos  os 12 mortos e tantos feridos que tal assassino produzira. Como acontece se olhamos com muita atenção um enigma visual, as vistas se embaralham e a armação intimamente farsesca da figura se revela, e o quanto a internet tem de caráter de informação democrática se mostra na mesma medida em seu descompromisso com as mínimas parcelas humanas dos fatos; na ânsia de originalidade e de serem paladinos de uma justiça real e abrangente, acima dos clichês, não há mais que a frieza de serem confrontados pela possibilidade não tão fortuita de um dos sobreviventes ou um dos pais das crianças mortas ler suas apologias de quem as matou e as feriu, de quem quer transformar a dor incomensurável numa estatística. Só essa possibilidade de aumentarem a dor de quem viveu o fato, já torna esses escritores parte do bullying que começa nas escolas e vai além, no abraço que engolfa os mortos que não se conseguiu evitar e as teorias vazias e estúpidas que aniquilam o desabafo restante de se lamentar por eles.

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Não é uma simples coincidência que dois grandes romances sobre o bullying tenham vindo daquele país de tradicionais escolas com severa hierarquia interna e alta seletividade de alunos como a Inglaterra. William Golding escreveu duas das maiores análises sobre a violência inerente ao comportamento de grupo em O Senhor das Moscas e Visível Escuridão. Explorou o tema do caos pré-social, do estado natural hobbesiano, em outros títulos, como Os Herdeiros, mas foi nesses outros que estabeleceu seu tema central: a concepção anti-rousseana de que o mal é próprio da natureza humana, que a barbárie é uma estação elementar de partida de onde o homem dá seus primeiros passos. O Senhor das Moscas, publicado em 1954, contraria o gosto britânico pelas histórias juvenis de formação, mexendo no solo sagrado da visão infantil colocando um grupo de crianças náufragas em uma ilha deserta,  e usando-o para compor um ensaio narrativo chocante, tortuoso, em que as teorias da etologia desenvolvidas por Konrad Lorenz são levadas à última consequência na esfera humana. Como ficou comprovado no estudo de várias comunidades de símios, o mais forte exerce uma supremacia quase tirânica sobre os demais do grupo. O macaco alfa possui todas as fêmeas (mesmo que seja comum os deslizes de distração debaixo das quais as fêmeas cedem para os mais fracos), e reforça a aceitação do seu poder supremo simulando a cópula oprimindo os outros machos do grupo debaixo de seu corpo. O que acontece nessa ilha deserta onde não existe nenhum adulto, é uma emulação minimalista da história, onde as crianças se defrontam com a exigência de buscarem espontaneamente os arquétipos sociais que permitem a coerência primitiva que os unem contra o caos da seleção natural, do isolamento geográfico, e de, abruptamente, perderem o vínculo com a civilização e se verem na base da cadeia alimentar. Aos poucos, a sinergia do estado natural, os cheiros, sons, gosto e adrenalina viciantes da selvageria (a caça ao javali, o banho nu na praia, a liberdade paradisíaca de dispensarem as etiquetas metropolitanas, as insinuações latentes de entendimento sexual), vão limpando da memória o fragmento de que pertenciam a uma enorme comunidade firmada pelo apuro evolutivo sobre regras e diretrizes rígidas, e essa descoberta de que tudo pode ter um novo começo dispensa que continuem esperando por um resgate. A evolução, em sua onipotência mais generosa de não descartar um grupo de crianças deserdadas pela sorte em uma ilha há milhas da costa povoada mais próxima, lhes dá a ferramenta necessária do esquecimento para poder construir uma ordem sui generis em que se adapte ao meio. E essa ordem se firma progressivamente como a mais violenta, desenfreada e tirânica possível, desintegrando junto a visão de que todos ali são crianças. Como numa sociedade de macacos, agravada pelas infinitas sutilezas da imaginação violenta de um cérebro mais biologicamente refinado, o grotesco dos regimes autoritários que estavam no auge na época do romance (com clara convergência na intenção representativa de Golding), a aptidão assassina, o vazio espiritual diante a falência dos sistemas de pertença cultural, tudo se evidencia numa sociedade tribal onde o infantilismo na mais baixa acepção etmológica reduz o grupo a seres autômatos maléficos e auto-destrutivos.

Já em Visível Escuridão, essa solidão intranscendente se incorpora numa só criança, o menino de rosto seriamente deformado por uma das bombas que caíram sobre Londres. Desprezado por todos, órfão, sendo-lhe negado as mínimas interações de grupo, a maudade maior é a inércia de permitirem-lhe o esboço de uma vida juvenil normal sem que ela seja lhe dada efetivamente. Os colégios, a residência, a religião, tudo que lhe é falsamente oferecido, o mesmo caráter adaptativo roubado da biologia que permitira ao grupo de crianças náufragas ter uma sobre-vida na ilha, faz com que ele assimile essas molduras e configure por si mesmo, com sua imaginação infantil infinitamente solitária, seu próprio colégio, sua própria religião, e sua própria residência_ em suma, sua própria ilha. Romance mais impactante ainda que seu predecessor, o menino cria para si uma religião pagã original, um conceito de deidade desprovida de paixão e coração afetivo que sempre e cada vez mais exige dele penitência, pecador inveterado cujo pecado maior é seu rosto corrompido.

Num ensaio de Salman Rushdie sobre Desonra, o romancista anglo-indiano diz que J.M. Coetzee compôs um belo romance, falho em suas intenções, não conseguindo dar a proposição segura sobre o grande problema da miscigenação racial na África do Sul. (Aliás, Rushdie não só teve essa leitura, mas alega que seu autor desviou-se de uma solução útil pela interposição perigosa da desistência de David Lurie à realidade.) Assumindo que um romance possa ser um utensílio equivalente a um tratado social, esses dois romances de Golding falam mais das teorias Hobbesianas do que viram os críticos que ressaltaram o desencanto do autor pela perda espiritual do século XX. Os dois protótipos experimentais de Golding conseguem fins diferentes do previsível. O menino mutilado não opta pela ação violenta. É absorvido de maneira efetiva por seu universo pessoal, o que não deixa de ser considerado como sucesso. As crianças náufragas, quando estavam por atravessar a linha mais centrífuga da bestialidade, são resgatadas pelos aviões de busca.