Que Breaking Bad é um entretenimento que tem um poder magnético quase perigoso é um fato que comprovei neste feriado, em que só descansei plenamente (com uma noite de sábado no meio do evento da qual pude tirar apenas 5 horas de sono) só depois que assisti as cinco temporadas completas da série. Mas que ela se impõe como obra-prima da televisão e melhor programa da história do tubo é algo que, já avisado de antemão, eu vim conservando sérias dúvidas enquanto ia acompanhando a história nada exemplar de Walter White e seu cupincha Jesse Pinkman pelo mundo do crime. Lembro que anotei mentalmente que no episódio da mosca no laboratório de metanfetamina a coisa quase resvala com certo grau de perigo para o picaresco gratuito, com simbolismo moral truncado na última cena; lembro também que há um episódio em que Walter e sua esposa se embrenham em um diálogo longuíssimo e claramente prestado à função de embromar o enredo dos roteiristas; e há, claro, os furos de que "isto jamais aconteceria na realidade", o que se vê com mais exagerado primor nas cenas que servem a transformar paulatinamente Walter de um singelo e frustrado professor de química no mais genial e infalível assassino manipulador. Mas esses furos são perdoáveis e compreensivos quando o telespectador se rende sem muita pressão à lógica de que a realidade em uma obra de ficção não é um produto que tenha que se prestar a uma fidelidade de pedantismo científico no campo das probabilidades com o que ocorre em nosso mundo verdadeiro: o mundo da ficção é uma invenção, de forma que tem absurdos arbitrados pelas suas regras internas assim como o nosso também tem os seus. Com isso em mente, e sabendo que Breaking Bad, apesar de tudo, não tem um segundo significativo que não seja interessante, e, finalmente, tendo esperado até o último capítulo para escrever esse texto (não me rendendo aos momentos de dubiedade antes do término), compactuo com a opinião quase unânime de que Breaking Bad é genial de uma forma que pouco se vê na televisão.
A começar que essa série transverte o padrão sobre o qual é produzida grande parte das séries americanas. Como é sabido, as séries americanas devem render o máximo possível, isso querendo dizer que, se estiverem tendo audiência, devem se estender por várias temporadas sem prazo fixo para seu encerramento. O que determina o fim de uma série é o potencial que ela possui para ser um produto rentável, lógica que vem conduzindo o cenário das séries para uma balança em que o peso da qualidade inicial não se equipara à dificuldade dos roteiristas em costurarem as tantas pontas soltas que vão surgindo como efeito colateral à metástase da história. Um caso clássico disso é Lost, que só assisti até a terceira temporada e que ainda hoje não tenho o menor interesse em saber como terminou, o que eles arranjaram para explicar as fumaças, o urso polar e a insurgência oligofrênica de tantos personagens novos que não tinham a menor utilidade_ sei que a explicação é mirabolante demais mesmo para seus desbaratinados oráculos. Breaking Bad começa com elevado grau de chatice; há cenas panorâmicas que lembram o cinema europeu; se não me engano, um evento sanguinário que poderia ter se resolvido em um capítulo, se estende por três ou mais episódios; os personagens são peripatéticos demais, ou são enraizados em um cotidiano sem sublimação para serem realmente interessantes. Tanto que essas características exóticas para o público norte-americano quase fez com que a série parasse por aí, já que a audiência dessa temporada foi pífia. Breaking Bad só pode ser analisada em retrospecto_ é impossível ver o quanto ela é extraordinária se não se assisti-la até o fim_, e em retrospecto eu percebo que minha ideia de que há muitos momentos perdidos nessa temporada, quando a assistia, não se coaduna com a opinião agora firmada de que o que vale nessa introdução é justamente seu ritmo lento, seu experimentalismo espontâneo para se escolher as direções que a trama oferecia, e mesmo detalhes peculiares que se tornariam, com a fama e o culto, as marcas registradas da obra: a estética da direção de fotografia, que é superior até mesmo para séries que usam a fotografia como recurso temporal (como Mad Men); e o mobiliário de cena, como o trailer, a cozinha e a garagem descoberta da casa de Walter, a sala da casa de Pinkman, o deserto, a piscina. Se falta a mesma intensidade que se tem no resto da obra na primeira temporada, ela é inigualável no que tem de força retórica para firmar no expectador os adereços e as idiossincrasia dos personagens, torná-los amados. (Seriamente amados: assistir ao último episódio me deixou uma ausência no coração.)
Parecia-me que faltava também um elemento esotérico melhor construído. Tenta-se fazer uma narrativa subliminar esotérica, mas os símbolos surgidos pareceram-me pouco aproveitados. Por exemplo: a ideia zen-budista de que todos os elementos do universo estão interligados, de que "o bater de asas de uma borboleta pode causar um maremoto do outro lado do mundo". Um ato_ ou, precisamente, a ausência de ato_, por parte de Walter, resulta em escala indireta em uma acidente aéreo com centenas de vítimas. A cena que encerra a temporada, com a explosão das naves no céu, é realmente soberba, o que promete intuições dramáticas proféticas em seguida; só que pára por aí: na segunda temporada, ao que parece, os redatores mudam o rumo de algo anteriormente planejado, e o acidente desaparece, deixa de ser um evento com múltiplos canais simbólicos, para ser uma mera piada aproveitada para dar carisma ao personagem do advogado Saul Goodman. Outra redução temática é que a obra não aproveita do enorme potencial de ambiguidade sobre o que é aceito, na atualidade, como drogas lícitas e drogas ilícitas. Há um diálogo entre Walter e Hank, seu cunhado agente da narcóticos (uma espécie de inspetor Javert obcecado pela prisão do alter-ego de Walter, Heisenberg), em que Walter fala sobre o limite tênue que separa o álcool da metanfetamina, e Hank aparece quase sempre, em seus momentos caseiros, com uma garrafa de cerveja ou um copo de whisky na mão. Mas a série não metaforiza essa hipocrisia temporal que adota o álcool como droga consumida e canonizada pela sociedade moderna, e demoniza a metanfetamina e demais drogas cocainófilas; ou pelo menos fica muito aquém de como uma série como Mad Men trabalha brilhantemente com o anacronismo de uma sociedade que, algumas décadas atrás, tinha o cigarro como elemento consolidado de sofisticação social. Falta esse elemento esotérico mais profundo em Breaking Bad, essa visão alternativa que propicie múltiplas leituras. Muitas vezes a série é rigorosamente limitada à pureza narrativa, à linearidade do acompanhamento da derrocada dos personagens. E falta, também, um aproveitamento no mesmo sentido com o câncer de Walter (por um momento, eu achei que eles fariam o mesmo que os irmãos Coen em Um Homem Sério, usando o câncer como ameça de sentido cósmico, como punição masoquista que parece doar a cura mas que retorna com força total, uma praga bíblica). É fácil ver que essa falha passou pela cabeça dos roteiristas, quando eles tentam consertar as coisas com o episódio moral da mosca que invade o laboratório. Mas é nisso, na percepção inteligente de que se poderia fazer uma grande coisa sem se preocupar com as camadas de interpretações interpoladas, que os roteiristas salvam a série e a tornam grandiosa. Aceitando de bom grado que trabalhar em uma só zona de superfície não invalida o efeito formidável da história, eles nos dão episódios maravilhosamente chocantes, como a da família de drogados, pai, mãe e filho pequeno, que Jesse tem de ameaçar para reaver seu dinheiro roubado; e, com maior asserção, em todos os superiores episódios da última temporada, em que a intensidade atinge níveis de uma força aflitiva que pouco fica a dever a Dostoiévski (SPOILER: a cena em que Walter sequestra a filha de menos de um ano de idade é algo que pouco se vê na televisão: esse veículo parece inapropriado para um grau de apuro tão genuíno sobre a degradação humana).
Os principais acertos da série são a quantidade restrita de personagens, o não uso do filão "um novo arqui-inimigo por temporada", e a fidelidade dos personagens às suas personalidades primordiais, e, claro, ter tido apenas 5 suficientes temporadas. Isso permitiu que se pudesse ir fundo nas subjetividades e ambiguidades dos heróis da trama, sem que passasse a impressão de que os mesmos indivíduos vistos no começo se tornaram indistinguíveis demais no final. Mas o mais genial da obra é o diálogo que faz os dois personagens principais, Walter e Jesse, um com o outro, e com suas consciências. Enquanto Walter cumpre o que informa o título e se envilece cada vez mais, tornando-se mal, Jesse é o modelo do verdadeiro personagem dostoiévskiano, que atinge o fundo do poço para ganhar a redenção de se tornar humano, e começa a se tornar bom. Jesse que tem os dilemas morais mais cortantes, que sofre colossalmente com sua consciência, enquanto Walter perfaz as características de um outro grande personagem de Dostoiévski, Piotr Stiepánovitch, o líder maquiavélico de inteligência manipuladora acentuada de Os demônios, que mata em nome de uma causa e é desprovido da mais ínfima fagulha moral_ até perceber que a única causa autêntica que seguia era o próprio egoísmo. Aliás, enquanto assistia tive a certeza de que os autores leram a fundo Os demônios. Breaking Bad é o mais próximo da exuberância diabólica de Os demônios que se conseguirá chegar a televisão, e para os leitores desse romance fundamental do russo dizer isso é o maior dos elogios.
Breaking Bad é excepcional, inteligente, um produto cultural de excelente bom gosto e impossível de ser esquecido.
