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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Além das convenções literárias



Em um dos ensaios do imprescindível Alfabetos, Magris lembra a vez em que Italo Calvino criou uma polêmica no circuito de literatura de seu país ao dizer que Galileu Galilei era um dos maiores escritores da Itália. A resposta imediata que despontou por parte dos especialistas era que Galilei era um dos maiores cientistas do mundo, e não um escritor. A ciência deveria ser respeitada deixando-a em paz em seu nicho conceitual sagrado, assim como se deveria fazer o mesmo em relação à literatura. Ambas era tão insolvíveis quanto azeite e água. Magris conclui o parágrafo dizendo que essa normativa das especificidades era estridente, embora não se firmasse na realidade óbvia de que os textos de Galilei eram mais belos do que o de vários poetas e escritores conceituados.

O que se segue no ensaio é um desses estudos impagáveis típicos de Magris em que, inesperada e modestamente, um simples artigo de jornal se torna uma profunda proeza filosófica, que parte da reavaliação do que é literatura de primeira grandeza acima das fronteiras da distinção de gênero acadêmico e acaba por explorar o sentido humano que sustenta toda criação estética e intelectual. É uma liberdade deliciosa ler Magris por ele ser o escritor mais despido de preconceitos e mais avesso a catalogações sistemáticas do cenário atual da escrita. A começar pelos dois grandes títulos de sua bibliografia, Danúbio e Microcosmos, que tiram o conforto obsoleto do leitor em ter um conhecimento seguro de qual parte da estante eles pertencem, pois são tanto tratados filosóficos em maior e menor escala, quanto romances metalinguísticos, quanto relatos de viagens e ensaios com a música elevada e rara da nostalgia vinda da impermanência da História. Magris é extremamente culto e um escritor com poderes fantásticos, que transitam da conscisão que namora a onisciência de Borges, às apreensões de uma verdade seinsciente que vem dos filósofos estóicos romanos e dos romancistas intimistas como Cees Nooteboom. Os textos maravilhosos de Alfabetos falam sobre suas influências de leitura, o monumento da Bíblia e dos livros sagrados de todas as partes do mundo, dos livros de aventura de olvidados autores italianos de sua infância, de Guimarães Rosa, um de seus muitos autores canônicos, e assim vai. Nesse ensaio acima citado ele vai mais longe: aceita o que todo leitor calejado sabe sem que todos admitam isso: os maiores esteticistas das letras não são necessariamente os enquadrados no bastião dos ficcionistas, assim como os textos mais belamente poéticos podem vir mais da filosofia alemã e de tratados de física do que de versadores famosos.

Nessa linha, um dos livros que mais me tirou o fôlego pela beleza da escrita é O Mal estar na civilização, um volume que me caiu em mãos inadvertidamente em um dia em que eu mantinha a firme decisão de nunca ler Freud, mas que me arrebatou na antológica musicalidade da primeira página e só me largou quando atingi o final, horas mais tarde. Pareceu mais algo escrito por um afiadíssimo Saul Bellow, pelo ar e a luz solar que dominava todos os ambientes, e a leveza da maestria absoluta do estilo. Não tinha ali nada que fosse ofensivo em minha assimilação um tanto pre-conceituosa do que poderia ser um pesado texto de psicologia (vindo de minhas leituras do obstinado opositor de Freud, Elias Canetti), mas uma radiante e profunda e dançante análise sobre a condição humana em mais uma de suas fases de estupidificação extrema. Também um dos motivos que me levou a cursar História foi a ilusão não de todo infundada de que seria uma porta de abertura para o contato com escritores espetaculares restringidos à ortodoxia de professores entendidos em textos que não orbitavam o círculo das leituras seculares e comuns. Fui à universidade por influência de Eric Hobsbawn, esse que divide minha cabeceira de leituras noturnas desde que me enxergo como leitor sério, sério no que falo tanto sobre disciplina para me aventurar além do baixo senso autorizado pela mídia do que é entretenimento livresco, quanto por ver que o prazer da leitura está na mesma proporção em Michael Chabon e Theodor Adorno. Por falar em Adorno, nele eu encontrei um nível de poesia tão sublime que releio trechos sublinhados por mim nas tantas horas agradáveis que fiquei em sua companhia e tais frases e excertos se encaixam nos mesmos moldes altaneiros dos aforismas das peças de Shakespeare e da poesia de T. S. Eliot e Auden.

O ensaio de Magris vai além, ao explorar o sentido e o dever da literatura. Concordo plenamente com Magris. Ganhei muito lendo textos não literários que provavam que literatura como conceito elitista e rotulado é a mais improdutiva das reduções. Há textos de Carl Sagan que são carregados da metafísica dos melhores romances, e, em contraposição, há uma biografia e uma reportagem escritas por Garcia Maquez que são constrangedoramente passáveis, enquanto autores até então restritos à academia arrombam a grandiosidade literária pela porta da frente com biografias de Darwin e Tolstói, e meros jornalistas alcançam a excelência com reportagens literárias sobre a liberdade sexual dos anos 60 e o julgamento de assassinos que estão no corredor da morte.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Meus 20 livros preferidos de não-ficção (II)

11- Obra ensaística de Jorge Luis Borges:


Creio que juntados todos os títulos ensaísticos de Borges daria para preencher um livro de 900 páginas. Tenho a maior parte desses ensaios pela coleção das Obras Completas lançado pela editora Globo (que todos sabem não serem as obras completas realmente), e não sei se alguma editora no mundo já teve a ideia de compilar separadamente essas peças. Os escritos sobre literatura, os deliciosos prólogos, as palestras sobre a cegueira, o livro, a imortalidade, o conto policial e Emanuel Swedenborg, são presenças constantes na minha vida, de maneiras que eu releio-os com muito mais frequência do que releio os contos de Borges. Cada uma dessas páginas é um desfrute e uma abundância e um recolhimento, e uma muitas vezes insuspeita, para o leitor que só conhece os contos, intimidade com Borges. Vejo muitos autores ou articulistas cometendo o erro de escreverem sobre um Borges sisudo e com gosto hermeticamente aristocrático, e percebo que estes ou leram demasiadamente mal o argentino, ou se deixaram levar, em suas poucas aproximações ao autor de O Aleph, pelo senso comum que assimila grandes escritores a esfinges indevassáveis. É o caso de Joca Terron, em um texto postado no site da Companhia das Letras, que coloca Borges como uma criança confinada na biblioteca inglesa de seu pai, uma criancinha pontificada por leituras de Schopenhauer e os cabalistas judaicos. Nada mais na contra-mão ao que Borges era. O Borges ensaísta é um apaixonado por literatura pulp-fiction, um místico platônico, e um inovador genial que criou um humor único para falar numa ultra-concisão de um por um dos inumeráveis livros em sua biblioteca. Tenho maravilhosos tons borgeanos desses textos em minha viva lembrança, como associar as noites de frio àquela noite em que passei lendo Borges falar de Auguste Dupin, o detetive de Poe, andando por uma Paris transformada em uma Londres enevoada e soturna. São tão bons esses textos quanto as fantasias milenares das Mil e uma noites. (Agora vendo, o volume 4 das Obras Completas é só de ensaios.)

12- Danúbio, de Claudio Magris:



Outra obra da qual já comentei muito por aqui. Não há como definir esse livro. É uma imersão intensa e uma experiência sem igual em uma alta literatura, um livro carregado de ternura, estoicismo, sabedoria, poesia, humanismo, com variadas levas de insights sublimes sobre vida de escritores médio-europeus_ o capítulo sobre o sanatório em que Kafka passou seus últimos dias de vida é de arrepiar. Magris escreve com a sonoridade de Borges, aprendido a dizer muitas coisas em pouco espaço, e com a percuciência dos escritores clássicos da primeira metade do século XX _ às vezes soa como Andre Malraux e como Thomas Mann. Muitas vezes o texto toca tão fundo, que me vi limpando uma lágrima do rosto. Tive muitas horas de felicidade com esse livro: ele conseguiu me abstrair do mundo e me fazer crer que poderia refugiar em definitivo dentro dele.

13- Longe, e há muito tempo, de W. H. Hudson:



A Cia das Letras, que se aventura com certa ousadia em vários projetos inusitados de publicações (para nossa alegria), poderia lançar uma coleção de grandes livros esquecidos, de bolso, com capa escura de cartolina que se pudesse ver de longe nos fundos da livraria: uma coleção Olvido, ou Olvidados, ou Vozes Mortas, algo assim que o publicitário competente poderia melhorar. Um dos títulos dessa hipotética coleção poderia, com certeza, ser este. Trata-se das memórias da infância e da juventude de William Henry Hudson, escritor nascido argentino mas erradicado na Inglaterra. Conheci este livro através da lista dos melhores livros do leitor Ernest Hemingway (uma lista que vale a pena ler cada item), e tive a sorte milagrosa de encontrá-lo há vinte anos em um sebo, em uma inacreditável edição brasileira. Li-o embevecido, assustado diante algo tão bom. O livro fala da época feliz em que o menino Hudson viveu nas estâncias argentinas, em companhia de gaúchos bravos mas ternos. Tem descrições de pessoas e paisagens que são de matar: como a da vez em que o garoto Hudson encontra um escravo torturado amarrado dentro do celeiro de seu avô; a do mendigo em trapos que ano em ano passa pela estância, altivamente pedindo comida. É um livro que traz um solo de violoncelo belíssimo, e deve ser lido à meia luz confortável, sabendo que a vida é uma aventura. Um livro crivado de uma saudade tão persistente quanto a traça que perfurou da primeira à última página de meu exemplar de capa dura.

14- Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson:



Este livro fala de uma Távola Redonda: a irmandade utópica de revolucionários combatentes de uma época ingênua em que eles lutavam por um mundo melhor, por melhores qualidades de vida, pelo fim da opressão, e pela ascensão espiritual e material da humanidade. É um belíssimo livro, escrito pelo grande escritor que é Wilson, e traz tudo que se deve saber sobre as grandes ideias libertárias da esquerda, antes que a esquerda fosse prostituída pelos políticos, partidos e teóricos acadêmicos.

15- Bilhões e bilhões, de Carl Sagan:



Este livro mostra o quanto estamos na infância do pensamento. Eu fico observando minha filha "ler", folheando os livros e recontando na linguagem de 3 anos dela o que eu e sua mãe lhe contamos das historinhas, e me vem o pensamento de também eu ser observado em minhas leituras por algum ser posicionado bem avante na escala da compreensão, assim como eu estou à frente da compreensão de uma criança de 3 anos. Escrito com o respeito de Sagan pelo mistério, desse ateu convicto mais religioso entre os cientistas divulgadores da ciência.

16- Olhos de madeira, de Carlo Ginzburg:



Um de meus teóricos da História preferidos, em seu melhor livro. Aqui, um estudo sobre a forma como a distância, a geografia e o estranhamento cultural e étnico definem os preconceitos, as incompreensões e os ódios humanos. Imprescindível.

17- Pós-guerra, de Tony Judt:



Há uma resenha dele por aí no blog.


18- Sobre História, de Eric Hobsbawn:




Ensaios sobre humanismo, marxismo, a visão ideal da História como disciplina secular de entendimento do mundo e elemento minorizador de exclusões. Meu exemplar está ilegível com tantos sublinhamentos e escritos às margens.

19- Homens em tempos sombrios, de Hannah Arendt:



Retratos impagáveis feitos pela Arendt de Kafka, Brecht, e muita gente boa ou não tão boa assim. Como sempre em se tratando da Arendt, o resultado transcende o propósito. Um livro magnífico.

20- A consciência das palavras, de Elias Canetti:



Só um dos ensaios, de mais de cem páginas, inserido neste volume com o título "Cartas de Kafka a Felice Bauer" já torna esta obra monumental. Trata-se de um dos textos mais brilhantes de Canetti, e um dos dois maiores estudos sobre Kafka _ o outro é de Benjamin, e está na lista anterior. Mas esta preciosidade de livro tem muitos outros tesouros sobre literatura e sobre a seriedade como o autor usava a palavra.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Magris


Escrever significa saber que não se está na Terra Prometida e que jamais se poderá chegar lá, mas ainda assim seguir caminho com tenacidade em sua direção, através do deserto. (Microcosmos, Claudio Magris)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Romances-Moradias (Divagações)


Os escritores de língua espanhola atuais nos reservam o grato reconhecimento da mais alta tradição literária em suas obras. Lê-los não é só rememorar constantemente um caminho percorrido da leitura, com suas nostalgias da adolescência e a percepção segura de um aspecto valioso da verdade só conseguida com  o que a maturidade nos antepõe de preparo diante a página aberta, mas também um elogioso afago ao nosso imodesto conhecimento livresco. Então que livros como Seu Rosto Amanhã, que não trata de forma tão explicita da metalinguagem literária como O Mal de Montano (e os demais de Vila-Matas), nos dão a impressão deleitosa de estarmos andando através da margem do Sena onde ficam as bancas de livros usados, ou de sempre estarmos atravessando as escadas que nos levam a um apartamento pequeno mas acolhedor de cuja janela observamos a dama obscura, detentora de alguma auto-revelação infeliz que a torna perigosamente isolada no apartamento de frente, ou vemos na janela mais distante, numa noite de chuva londrina, o bailarino que em altas horas executa seus passos de dança no silêncio junto a uma negra de beleza portentosa e uma loira de vestido vermelho elegante; alguns desses tantos sinais distribuídos generosamente entre as palavras acentuadas com um tom ligeiramente antiquado a propositadamente tangente ao obsoleto, maneira astuta infalível de restituir ao livro seu caráter mobiliário, de coisa que se pode habitar, de conforto físico de seda e veludo, de sapatos retirados ao lado da cadeira, de sonoridade imprecisa intermitente que se repete a um nível subsônico (uma abelha na vidraça do quarto dos fundos, a chuva sobre o telhado, as folhas das árvores revoando singelamente, ou mesmo uma surreal motorneira ou uma força indistinta que simula o som de impacto abrupto arrastado de uma motorneira a três quarteirões de distância na noite escura e vazia), que embala nossa atenção languidamente ao sabor da prosódia descansada e profunda do livro (descansada, tensa e magneticamente profunda quanto A Arte da Fuga que escuto agora pela undécima vez enquanto escrevo, e que é a trilha sonora magnífica para tais leituras). Seu Rosto Amanhã nos restitui, a nós, os leitores insubmissos a fórmulas pequenas de grande sucesso ou apenas às triviais trapaças de mercado que apontam novas modas do romance para ver se pega, o direito de desprovermos de qualquer necessidade de cor para nos declararmos despreocupadamente como velhos leitores, portadores de carteira do clube e com direito a admissão seleta a qualquer hora, com café ou chá à espera, com nossa poltrona pessoal de couro, com a caixa de som de madeira em forma auricular apontada para o lado das cortinas, em que a música se distribui na melhor e mais apropriada acústica. Conhecer Javier Marías ano passado foi equivalente em intensidade ao recolhimento da descoberta de Thomas Mann aos 16 anos, em que Doutor Fausto me abriu as portas do gabinete do clube mesmo eu estando em uma chácara mineira da minha avó, com ganços e fogos-fátuos surgindo no campo de madrugada. Há poucos livros que se permitem morar neles; mesmo Doutor Fausto não é apropriadamente um deles, mas Thomas Mann foi o que mais criou romances-moradias, romances-castelos medievais, romances-asilos europeus (há uma redesignação deles em romances-salões de baile, Tolstói sendo seu representante máximo); há de ver que Montanha Mágica é o maior desse gênero de romances (por vezes ao ano, geralmente no inverno suíço, eu deito sobre  o meu divã e faço os três movimentos virtuoses que aderem plenamente o cobertor de couro de camelo por sobre meu corpo), mas também há a mansão em processo de falência dos Buddenbrooks, e todo o recanto oriental da aldeia de José e seus Irmãos. Javier Marías é o mais eficiente sucessor de Mann, considerando que seu conterrâneo, Vila-Matas, muitas vezes perde a maestria ao evidenciar demais os mobiliários e assoviar em volume impropriadamente alto, ou deixar o fogo da lareira descuidadamente um pouco acima do limite ideal, fazendo que fagulhas pulem para fora e queimem o feltro dos chinelos dos sócios. Só Javier tem a medida correta de acalanto, de rumorejo, de irresistibilidade, de pertencimento, de sossego despreocupado. só ele tem o volume valvar da voz que silencia tudo em torno e nos afunda no mundo. Bolaño conseguiu construir seu romance-moradia em 2666, mas o decorou com cores aberrantes demais (o que não é de se criticar, pois é um dos poderes do livro), que ofuscam as vistas para o enquadrar no cânone dos romances arquitetônicos. Junto a Marías, eu conheço, entre os escritores vivos, apenas um outro com a mesma genialidade estrutural, o italiano Claudio Magris. Mas Danúbio não é propriamente um romance, o que, apenas pelo valor conjuntural, coloca Marías na frente.

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Louis Gabriel Eugène Isabey- "Interior of an Alchemist`s Study"


Não à toa esses escritores_ os dois espanhóis, o castelhano e o italiano_ devem muito a Borges, o construtor por natureza de clubes de recolhimento nos quais se entra pelo fisicamente reduzido portal de um conto. A diferença do conto-moradia de Borges é que mal se senta em sua poltrona e distrai-se a olhar para as luminárias a meia luz do teto, já se tem que pegar seu bilhete carimbado de volta do mordomo perfeitamente cavalheiresco da entrada, e se dirigir para um outro ambiente com outra luz e canção atmosférica subliminar, pois um conto pode ser infinito mas materialmente mais curto que a biologia determinada do leitor por feixes neuronais que só se aquietam com uma longa e mimada constância. Mas em Borges, esse excepcional arquiteto, esses autores não bebem apenas a sua riquíssima criação autoral, mas também os outros arquitetos milenares da escrita que a erudição gigantesca de Borges surrupia e os usurpa como sendo seus. Borges tem tanto para ensinar a esses erguidores de palácios, que mesmo um outro autor de romances-moradias (um tanto sombrias e rumorejantes, mas ainda assim, ou talvez em razão disso, insuportavelmente sedutoras), Franz Kafka, recebe um olhar carregado de ineditismo, aponta marquises e ângulos de canto que o simples pernoite na obra original não nos deixa ver. Borges tem as lentes certas e os candelabros raros de luzes mais sofisticadas para nos guiar pelos clubes de construtores como H. P. Lovecraft, Arthur Machen, Sheridan Le Fanu; e é tanto maior o charme do recolhimento ao vermos que são mansões e casarões espaçosos cujo interior aquecido em nada adverte contra as charnecas cercantes e a aparência externa geral de total esquecimento e abandono. Borges reforça com tanto brilho os tons de malta do interior dessas moradias que nos torna improvável acreditar que um dia elas poderiam estar esquecidas. Magris tem a mesma dívida que Vila-Matas tem a Borges: o imaginário literário que o argentino guarda na maçonaria de seus conhecimentos históricos sobre o universo dos livros. Borges dá a cada página a esses escritores os marcos na paisagem em que eles devem se deter e observar, e Magris deve-o mais por escrever com semelhante requinte borgeano de insinuar espaços e tramas maiores que o poderiam comportar o parágrafo de um autor menos capaz e de menor talento. Em Magris constantemente vemos o movimento da paleta de Borges, sua forma de apreender uma verdade inalcançável através de gestos estudados de enfado altaneiro, como quem diz que sabe muito mais que anuncia, que vê mais que a fisiologia dos olhos ou a cegueira capacita (por isso a mim parece que entre as maiores páginas de Borges estão suas resenhas e prólogos minimalistas que cobrem meia página ou tão somente uma página inteira: como o dilema resolvido de Borges partisse de que tudo o que escreveu repete o ponto concêntrico no porão de onde se vê todo o universo, no O Aleph). 

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Em uma das partes mais magistrais de Seu Rosto Amanhã, o narrador conversa com um colecionador de livros, e ambos dividem o apreço que sentem por um dos autores borgeanos que nunca ouviu falar de Borges, o escritor galês de contos de terror Arthur Machen. O colecionador de livros, que é manco e sempre está na presença de seu cão com três patas, diz que a narrativa de terror surge pela união de elementos estranhos e incompatíveis, que de outro modo que não fosse o propósito de confeccionar o implausível aterrorizante jamais a providência dos fatos deixaria que se encontrassem. Assim, ele explica, apontando pela janela do apartamento londrino do narrador a bela vendedora de flores da esquina, se juntarmos o meu cão de três patas e aquela moça das flores, já temos ambiente mais que suficiente para o desdobramento de um passado escuro que transverte a singeleza da moça em crimes escondidos e monstruosidade. O colecionador diz que seu cão perdeu a perna ao serem ambos atacados por uma turma de delinquentes, que, ao verem-nos saírem de um pub, o espancou e prendeu seu cãozinho nos trilhos diante o trem que se aproximava. Isso aconteceu, conclui, por eu ter levado uma vida desregrada que me permitia frequentar lugares perigosos, em horários impróprios, de forma que levar pela vida toda a minha manqueira e meu cão se suster em três pernas em vez de quatro não é tão uma fatalidade quanto parece, mas uma consequência matematicamente plausível de que em algum momento o pior iria acontecer. Mas se víssemos aquela doce florista com um cão de três pernas, aí sim teríamos muito o que pensar e temer. A moça jamais deve frequentar ambientes reclusos e suspeitos, deve sair de sua barraca de flores e voltar cordatamente para a casa da mãe; sua vida é tão frugal e previsível, que a companhia de um cão de três patas revelaria a necessidade de que um desvio padrão acontecera em sua calma instância espiritual, um surto de loucura, em que ela teve por um momento em mãos uma faca, a chamada de intensa fúria reprimida pelo cãozinho que se esconde por debaixo da estante da cozinha...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Danúbio, de Claudio Magris

A história da literatura e a história da humanidade se confundem e se subtraem na viagem sensorial por um grande rio. Não é a primeira vez que se tentou fazer isso, mas Claudio Magris o faz com uma assertividade em mostrar que nem a primeira nem a segunda existem realmente, mediante a única lei catalogável ser a do inexorável acaso que rege essas impressões de ordem, tanto quanto o curso do rio que afigura em sua viagem só se chama Danúbio por uma convenção de medidas geográficas que desaparecerão no tempo. O que choca nas páginas de Danúbio é a dimensão poética de Magris que convence abarcar milênios, coleção infindável de memórias de uma infindável quantidade de pessoas desaparecidas, paisagens, sombras de cidades, entardeceres, sorrisos, solitárias amarguras efêmeras, de tal modo que não é menos herege a impressão de que o olhar do autor transverte-se do deus impossível que deveria estar por detrás dessas coisas insubstanciais. Onde Magris depõe a sua poderosa carga de emoção e sua balanceadora erudição, deixa-se de se vigorar as forças da aleatoriedade e Magris resgata o objeto à sua condição de imortalidade, que durará enquanto o leitor atravessar as 442 páginas do livro, e o quanto a lembrança restituir o sagrado ao seu devido esquecimento. São 170 textos curtos divididos em 9 capítulos, que tratam desde as tantas hipóteses alegadas da nascente do rio, inclusive a de uma torneira de dentro da casa simples de uma velha senhora, até o desague em seu delta no Mar Negro; mas o que importa são as tantas impressões sobre o sanatório onde Kafka morreu, as últimas horas do criador de O Castelo, a casa da infância de Canetti, a estrada onde foi encontrado o corpo de Walser, o vislumbre de Haynd por uma janela, o café vienense o qual Marx frequentava, a prisão de panóptica invertida na qual os sentenciados se transformavam em apreciadores das óperas vistas no grande teatro municipal pelas grades das celas. Magris tem tanto da capacidade fenomenal de Borges de condensar o texto ao seu intenso núcleo significativo, aparentando narrar tudo, quanto da beleza cheia de reviravoltas surpeendentes de Conrad em descrever um rosto tal qual se descreve uma paisagem, ou os acontecimentos de um milênio. Sae-se do livro com a solidão profunda e a amplitude aflitiva do grande rio em aparentar suportar a leveza de tantos fantasmas desvanecentes e do nome que lhe imaginaram possuir.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma Reversão da Panóptica



Claudio Magris escreve que em sua visita à cidade de Grein encontrou uma prisão construída ao lado de um velho teatro. Os detentos podiam "olhar o espetáculo através das grades, purificando aristotelicamente as suas almas de criminosas paixões". Pelo restante do dia essa imagem me toma por completo. Vejo os rostos  calados observando através das traves o pequeno lance de palco que a lua iluminando a histórica cidade favorece com intimistas tons de azul. Mistura de Edmond Dantés e as sombras confidentes de Rembrandt, da escuta da história da humanidade através das conversas com o abade Faria, e o velho filósofo sentado em paz resignada debaixo da escada de sua humilde casa. Os assassinos, ladrões, pervertidos sexuais, apaziguados por um momento na hora em que os atores lá embaixo vão transcender o papel em fingirem ignorá-los, mas que repetirão a apresentação àquele público impossibilitado de saír da própria clandestinidade. No silêncio da trégua aos jogos de azar e às lembranças de seus sentenciosos momentos de excesso de vida, verão a impetuosidade das tragédias pessoais revestida naquelas variadas versões da violência humana. Shakespeare, Beckett, Sófocles, Shaw, Pirandello... Uma panóptica ao avesso, já que quem vão assistir serão os presos. Imagino essa técnica de reeducação jurídica espalhada pelo mundo, ao lado de cada prisão um teatro, com janelas estrategicamente construídas para suportar ambas uma astuta espontaneidade de aprendizado lírico. Vem-me em mente as lembranças de Brodski recolhendo as cartas que os presos atiravam por sobre os muros para o pátio da fábrica em que trabalhava, e a sua comprometida entrega destas para as esposas e os jornais clandestinos; Elias Canetti morando por três anos próximo ao presídio de loucos, ouvindo-lhes os murmúrios, as risadas, os gritos, de tal forma que tece seu grande romance com o que aprendera da impropriedade de atribuir-se a falácia social e filosófica da razão; o conto de Tchécov em que a aposta prestes a ser concluída, em que o vitorioso conseguira se manter trancado por trinta anos num quarto, ocupado a ler todos os livros, é interrompida momentos antes por este ver que todo o conhecimento humano é leviano, descabível, supérfluo, mentiroso, o que o leva a abandonar o quarto e sumir no mundo. Não seria levar a arte a seu limite extremo? A saturação diante a exposição franca daquilo que não tem conserto, ao determinismo da queda? Isso avalizaria ainda mais o crime para essa audiência específica, que aprenderia também pela arte sobre a regência da violência desmedida, fazendo-os mais violentos? Ou a faria se converter na espiritualidade de presos políticos, para os quais o destino reserva encontros com poetas bem intencionados que sempre lhes farão chegar as mensagens aos receptores pretendidos?

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quem Disse que Não Existe Um Grande Escritor Italiano Vivo?


                                           Lendo, fascinado,  Danúbio, do Claudio Magris.