Em um dos ensaios do imprescindível Alfabetos, Magris lembra a vez em que Italo Calvino criou uma polêmica no circuito de literatura de seu país ao dizer que Galileu Galilei era um dos maiores escritores da Itália. A resposta imediata que despontou por parte dos especialistas era que Galilei era um dos maiores cientistas do mundo, e não um escritor. A ciência deveria ser respeitada deixando-a em paz em seu nicho conceitual sagrado, assim como se deveria fazer o mesmo em relação à literatura. Ambas era tão insolvíveis quanto azeite e água. Magris conclui o parágrafo dizendo que essa normativa das especificidades era estridente, embora não se firmasse na realidade óbvia de que os textos de Galilei eram mais belos do que o de vários poetas e escritores conceituados.
O que se segue no ensaio é um desses estudos impagáveis típicos de Magris em que, inesperada e modestamente, um simples artigo de jornal se torna uma profunda proeza filosófica, que parte da reavaliação do que é literatura de primeira grandeza acima das fronteiras da distinção de gênero acadêmico e acaba por explorar o sentido humano que sustenta toda criação estética e intelectual. É uma liberdade deliciosa ler Magris por ele ser o escritor mais despido de preconceitos e mais avesso a catalogações sistemáticas do cenário atual da escrita. A começar pelos dois grandes títulos de sua bibliografia, Danúbio e Microcosmos, que tiram o conforto obsoleto do leitor em ter um conhecimento seguro de qual parte da estante eles pertencem, pois são tanto tratados filosóficos em maior e menor escala, quanto romances metalinguísticos, quanto relatos de viagens e ensaios com a música elevada e rara da nostalgia vinda da impermanência da História. Magris é extremamente culto e um escritor com poderes fantásticos, que transitam da conscisão que namora a onisciência de Borges, às apreensões de uma verdade seinsciente que vem dos filósofos estóicos romanos e dos romancistas intimistas como Cees Nooteboom. Os textos maravilhosos de Alfabetos falam sobre suas influências de leitura, o monumento da Bíblia e dos livros sagrados de todas as partes do mundo, dos livros de aventura de olvidados autores italianos de sua infância, de Guimarães Rosa, um de seus muitos autores canônicos, e assim vai. Nesse ensaio acima citado ele vai mais longe: aceita o que todo leitor calejado sabe sem que todos admitam isso: os maiores esteticistas das letras não são necessariamente os enquadrados no bastião dos ficcionistas, assim como os textos mais belamente poéticos podem vir mais da filosofia alemã e de tratados de física do que de versadores famosos.
Nessa linha, um dos livros que mais me tirou o fôlego pela beleza da escrita é O Mal estar na civilização, um volume que me caiu em mãos inadvertidamente em um dia em que eu mantinha a firme decisão de nunca ler Freud, mas que me arrebatou na antológica musicalidade da primeira página e só me largou quando atingi o final, horas mais tarde. Pareceu mais algo escrito por um afiadíssimo Saul Bellow, pelo ar e a luz solar que dominava todos os ambientes, e a leveza da maestria absoluta do estilo. Não tinha ali nada que fosse ofensivo em minha assimilação um tanto pre-conceituosa do que poderia ser um pesado texto de psicologia (vindo de minhas leituras do obstinado opositor de Freud, Elias Canetti), mas uma radiante e profunda e dançante análise sobre a condição humana em mais uma de suas fases de estupidificação extrema. Também um dos motivos que me levou a cursar História foi a ilusão não de todo infundada de que seria uma porta de abertura para o contato com escritores espetaculares restringidos à ortodoxia de professores entendidos em textos que não orbitavam o círculo das leituras seculares e comuns. Fui à universidade por influência de Eric Hobsbawn, esse que divide minha cabeceira de leituras noturnas desde que me enxergo como leitor sério, sério no que falo tanto sobre disciplina para me aventurar além do baixo senso autorizado pela mídia do que é entretenimento livresco, quanto por ver que o prazer da leitura está na mesma proporção em Michael Chabon e Theodor Adorno. Por falar em Adorno, nele eu encontrei um nível de poesia tão sublime que releio trechos sublinhados por mim nas tantas horas agradáveis que fiquei em sua companhia e tais frases e excertos se encaixam nos mesmos moldes altaneiros dos aforismas das peças de Shakespeare e da poesia de T. S. Eliot e Auden.
O ensaio de Magris vai além, ao explorar o sentido e o dever da literatura. Concordo plenamente com Magris. Ganhei muito lendo textos não literários que provavam que literatura como conceito elitista e rotulado é a mais improdutiva das reduções. Há textos de Carl Sagan que são carregados da metafísica dos melhores romances, e, em contraposição, há uma biografia e uma reportagem escritas por Garcia Maquez que são constrangedoramente passáveis, enquanto autores até então restritos à academia arrombam a grandiosidade literária pela porta da frente com biografias de Darwin e Tolstói, e meros jornalistas alcançam a excelência com reportagens literárias sobre a liberdade sexual dos anos 60 e o julgamento de assassinos que estão no corredor da morte.
O ensaio de Magris vai além, ao explorar o sentido e o dever da literatura. Concordo plenamente com Magris. Ganhei muito lendo textos não literários que provavam que literatura como conceito elitista e rotulado é a mais improdutiva das reduções. Há textos de Carl Sagan que são carregados da metafísica dos melhores romances, e, em contraposição, há uma biografia e uma reportagem escritas por Garcia Maquez que são constrangedoramente passáveis, enquanto autores até então restritos à academia arrombam a grandiosidade literária pela porta da frente com biografias de Darwin e Tolstói, e meros jornalistas alcançam a excelência com reportagens literárias sobre a liberdade sexual dos anos 60 e o julgamento de assassinos que estão no corredor da morte.










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