Há um trecho bastante
surpreendente, para não dizer chocante, das Memórias
de Pablo Neruda que trata exatamente do espaço excrementício invisível e do que
podemos descobrir quando o sondamos. O evento descrito ocorreu quando ele era
cônsul do Chile no Sri Lanka (Ceilão):
Meu bangalô solitário ficava longe de qualquer construção urbana.
Quando o aluguei, tentei descobrir onde ficava o banheiro; não o vi em lugar
nenhum. Na verdade, ficava aqui perto do chuveiro, nos fundos da casa.
Inspecionei-o com curiosidade. Era uma caixa de madeira com um buraco no meio,
muito parecida com o artefato que conheci quando criança no interior do Chile.
Mas nossos banheiros eram construídos em cima de um poço profundo ou de água
corrente. Ali, o receptáculo era um simples balde de metal debaixo do buraco
redondo.
O balde aparecia limpo todas as manhãs, mas eu não fazia ideia de como
o conteúdo sumia. Certa manhã, acordei mais cedo do que de costume e me espantei
ao ver como acontecia.
Dos fundos da casa, caminhando como uma estátua sombria, veio a mulher
mais linda que eu já vira no Ceilão, uma tâmil da casa dos párias. Usava um
sári vermelho e dourado do tipo mais barato de pano. Tinha pulseiras pesadas
nos tornozelos nus. Dois minúsculos pontinhos vermelhos faiscavam de ambos os
lados do nariz. Deviam ser de vidro
comum, mas nela eram rubis.
Ela andou solenemente até a latrina, sem me olhar nem uma vez sequer,
sem se incomodar em reconhecer minha existência, e sumiu com o receptáculo
nojento na cabeça, afastando-se com os passos de uma deusa.
Era tão adorável que, apesar do serviço humilde, não consegui tira-la
da cabeça. Como um tímido animal da selva, ela pertencia a outro tipo de
existência, a um mundo diferente. Chamei-a, mas não adiantou. Depois disso, pus
algumas vezes um presente no seu caminho, um corte de seda e algumas frutas.
Ela passava sem olhar nem escutar. A rotina ignóbil fora transformada por sua
beleza escura na cerimônia obrigatória de uma rainha indiferente.
Certa manhã, resolvi ir até o fim. Segurei os pulsos dela com força e
fitei seus olhos. Não havia idioma em que eu pudesse lhe falar. Sem sorrir, ela
se deixou levar e logo estava nua na minha cama. A cintura finíssima, os lábios
cheios, as taças transbordantes dos seios a faziam igual às esculturas de mil
anos do sul da Índia. Foi a união entre um homem e uma estátua. Ela manteve os
olhos bem abertos o tempo todo, completamente sem reação. Tinha razão em me
desprezar. A experiência nunca se repetiu.
Então Neruda simplesmente passa
para outras coisas. Esse trecho é notável não só pelas razões óbvias: uma
história descarada de estupro, cujos detalhes sujos foram discretamente
omitidos (“Ela se deixou levar e logo estava nua na minha cama”. Como ela ficou
nua? É óbvio que ela mesma não se despiu...), a mistificação da passividade da
vítima em indiferença divina, a falta elementar de decência e vergonha por parte do narrador (sentia-se
atraído pela moça, mas não se envergonhava de saber que todas as manhãs ela
cheirava, via e descartava sua merda?). A característica mais notável é a
divinização do excremento: uma deusa sublime aparece no mesmo lugar onde os
excrementos se escondem. Deveríamos levar a sério essa equação: elevar o Outro
exótico a divindade indiferente é rigorosamente igual a tratá-lo como merda.
(Trecho retirado de Vivendo no Fim dos Tempos, de Slavoj Zizek)
