segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Um Corte de Seda e Algumas Frutas"_ o Valor Pago por Pablo Neruda a um Estupro



Há um trecho bastante surpreendente, para não dizer chocante, das Memórias de Pablo Neruda que trata exatamente do espaço excrementício invisível e do que podemos descobrir quando o sondamos. O evento descrito ocorreu quando ele era cônsul do Chile no Sri Lanka (Ceilão):

Meu bangalô solitário ficava longe de qualquer construção urbana. Quando o aluguei, tentei descobrir onde ficava o banheiro; não o vi em lugar nenhum. Na verdade, ficava aqui perto do chuveiro, nos fundos da casa. Inspecionei-o com curiosidade. Era uma caixa de madeira com um buraco no meio, muito parecida com o artefato que conheci quando criança no interior do Chile. Mas nossos banheiros eram construídos em cima de um poço profundo ou de água corrente. Ali, o receptáculo era um simples balde de metal debaixo do buraco redondo.
O balde aparecia limpo todas as manhãs, mas eu não fazia ideia de como o conteúdo sumia. Certa manhã, acordei mais cedo do que de costume e me espantei ao ver como acontecia.
Dos fundos da casa, caminhando como uma estátua sombria, veio a mulher mais linda que eu já vira no Ceilão, uma tâmil da casa dos párias. Usava um sári vermelho e dourado do tipo mais barato de pano. Tinha pulseiras pesadas nos tornozelos nus. Dois minúsculos pontinhos vermelhos faiscavam de ambos os lados do nariz. Deviam ser de  vidro comum, mas nela eram rubis.
Ela andou solenemente até a latrina, sem me olhar nem uma vez sequer, sem se incomodar em reconhecer minha existência, e sumiu com o receptáculo nojento na cabeça, afastando-se com os passos de uma deusa.
Era tão adorável que, apesar do serviço humilde, não consegui tira-la da cabeça. Como um tímido animal da selva, ela pertencia a outro tipo de existência, a um mundo diferente. Chamei-a, mas não adiantou. Depois disso, pus algumas vezes um presente no seu caminho, um corte de seda e algumas frutas. Ela passava sem olhar nem escutar. A rotina ignóbil fora transformada por sua beleza escura na cerimônia obrigatória de uma rainha indiferente.
Certa manhã, resolvi ir até o fim. Segurei os pulsos dela com força e fitei seus olhos. Não havia idioma em que eu pudesse lhe falar. Sem sorrir, ela se deixou levar e logo estava nua na minha cama. A cintura finíssima, os lábios cheios, as taças transbordantes dos seios a faziam igual às esculturas de mil anos do sul da Índia. Foi a união entre um homem e uma estátua. Ela manteve os olhos bem abertos o tempo todo, completamente sem reação. Tinha razão em me desprezar. A experiência nunca se repetiu.

Então Neruda simplesmente passa para outras coisas. Esse trecho é notável não só pelas razões óbvias: uma história descarada de estupro, cujos detalhes sujos foram discretamente omitidos (“Ela se deixou levar e logo estava nua na minha cama”. Como ela ficou nua? É óbvio que ela mesma não se despiu...), a mistificação da passividade da vítima em indiferença divina, a falta elementar de decência e  vergonha por parte do narrador (sentia-se atraído pela moça, mas não se envergonhava de saber que todas as manhãs ela cheirava, via e descartava sua merda?). A característica mais notável é a divinização do excremento: uma deusa sublime aparece no mesmo lugar onde os excrementos se escondem. Deveríamos levar a sério essa equação: elevar o Outro exótico a divindade indiferente é rigorosamente igual a tratá-lo como merda.
                                                (Trecho retirado de Vivendo no Fim dos Tempos, de Slavoj Zizek)

11 comentários:

  1. POR MENTIRA QUE PAREÇA
    by Ramiro Conceição

    Charlles, você toca numa casa de marimbondos. E tal questão me preocupa há muito.
    Vou ser mais claro: como foi possível que seres, ditos revolucionários, se revelaram tão reacionários? Tal questão é complexa, pois sempre se deve considerar o contexto no qual viveram. E a melhor maneira de se efetuar uma crítica sadia é perguntar-se, dentro duma sinceridade possível: ter-se-ia - a olhar no espelho! – o mesmo comportamento num dado e referido contexto histórico? Pergunta difícil. Resposta ainda mais. Pois a história efetiva duma civilização, apesar do livre-arbítrio cristão, molda ética e moralmente o que se foi, o que se é ou o que será.
    Parece-me, portanto, que é praticamente impossível se ter uma resposta objetiva sobre tais comportamentos subjetivos de seres que não viveram o que sabemos, agora, a posteriori, sob o crivo duma crítica contemporânea. Dito isso, Charlles, creio que posso comentar seu post.
    Parece-me não haver dúvida que a postura de Neruda, no episódio, foi machista, escrota; diria até inadmissível para um intelectual do porte do chileno. Contudo, em outra passagem de suas memórias o mesmo comportamento associado à mulher é revelado: não me lembro agora dos pormenores; li o livro de Neruda faz uns 30 anos; mas, mais ou menos, foi o seguinte: Neruda encontrava-se na Espanha, parece-me, junto com um amigo (não me recordo se Lorca que, como se sabe, era homossexual…; talvez fosse outro; mas com certeza era um escritor; teria de checar!; o que não posso fazer nesse instante, pois há muito perdi o livro em minhas mudanças…).
    Pois bem, indo ao assunto: Neruda e o tal amigo estavam num boteco ou um lugar mui semelhante…; de repente, uma mulher aparece; papo vai, papo vem, bebe-se muito aqui e acolá: por fim, decidem uma suruba a três; vão para o quarto: o amigo prova-a primeiro e, deslumbrado, afirma que nunca sentiu uma mulher igual: a dita-cuja tinha movimentos vaginais indescritíveis…; assim, aos trancos e barrancos, o poetão, entusiasmado, não perde tempo e, com suas banhas de embaixador, mergulha nas marolas nunca dantes navegadas: e se farta…; e conclui, mais ou menos (não lembro literalmente das palavras escritas), que nunca comera tal iguaria…
    O que me incomoda no episódio não é a suruba, mas a coisificação da mulher; sim, que fique claro: uma mulher sem valor!: uma puta disponível a ser comprada por um consagrado comunista vencedor; uma especiaria do mercado, duma qualquer esquina miserável do mundo; uma fêmea a disposição da vontade dum macho - endinheirado; ou, em poucas palavras, uma mercadoria humana disponível à vontade de um poder hegemônico de classe!

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    1. Ramiro Conceição10 de julho de 2012 01:35

      Por outro lado, em Isla Negra, o gorducho bardo respeitável construiu sua mansão: um museu de arte com raros objetos colecionados durante a longa experiência de embaixador abastado; certamente, se fosse possível, a inigualável boceta espanhola faria parte da coleção à masturbação do velho comunista macho e vencedor que, num gozo solitário, com a porra a esfriar dentre seus dedos a gemer engordurados, diria: “Confesso que fodi”.
      Com isso estou a negar o valor literário de Neruda? É óbvio que não. Embora não me agrade as gorduras de sua literatura. Contudo, não tenho qualquer dúvida que Pessoa é infinitamente superior ao chileno. Sou ingênuo e a trágica ingenuidade do português me comove… Como me comovem o 17o e o 18o capítulos do Ulisses de Joyce: tudo está ali: a erudição dialética em perguntas e respostas, no primeiro; e a fracassada ingenuidade de Molly, com seus pecados confessados, mas ainda a procurar a felicidade sincera de um simples “Sim!” (nos dois capítulos mencionados, embora de elaboração complexa, Joyce atinge o estágio de luz que, em minha opinião, se perde em muitas partes anteriores do livro, mas isso é outro assunto...).
      Voltando à terra... Esse esdrúxulo comportamento ético-moral discutido aqui, na figura de Neruda, parece-me que foi comum a muitos ilustres intelectuais comunistas que conheceram efetivamente a realidade da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – de Stálin! Uma excelente fonte de consulta é a tese de doutorado de Janer Cristaldo, defendida na Sorbonne (há mais um especificação acadêmica que, neste instante, não lembro, mas que facilmente pode ser encontrada no Google: estou a escrever de memória).
      Embora discorde ideologicamente de Cristaldo, que é um defensor da continuidade do capitalismo à emancipação humana, considero que sua tese de doutorado mereça leitura - e profunda reflexão; pois trata justamente da ideológica posição política assumida por Sábado e Camus contra toda uma intelectualidade comunista que, à época, se omitiu diante da barbárie em andamento na URSS de Stálin; e que, por fim, foi revelada no XX congresso do PCUS.
      O que tem isso a ver com Neruda? Ora, tudo. Mas o que isso tem a ver com as trepadas de Neruda? Ora, tudo. Neruda, com embaixador do Chile, certamente teve conhecimento das atrocidades de Stalin. Mas então como foi possível a sua omissão, que está escondida nesse post? Simplesmente, por que Neruda trazia em seu caráter pseudorrevolucionário um anacronismo pertencente aos senhores que deveriam ser superados, mas que não foram derrotados na subjetividade do poeta. Pô, tudo isso só por umas passageiras trepadinhas alcoolizadas? Puta simplificação!

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    2. Ramiro Conceição10 de julho de 2012 01:37

      Puro engano! A superfície ilude, porque o importante é o conteúdo escondido no mar profundo dessa sociedade patriarcal. Coisificar a mulher ou costumerizar mais de 50% da população é o caminho mais curto à bestialidade política; pois assim, impunemente, é alienado o amor, a família, a pátria, o trabalho, a ética, a moral, a religião, a arte, o conhecimento - e a liberdade humana!
      Serei justo. Não foi só Neruda que cometeu estrupos politicamente corretos. Nosso Jorge Amado, o bom baiano sensual, escreveu loas e loas a Stalin. Pior que isso: viveu muitos e muitos anos do lado de lá da cortina, com todas as mordomias cabíveis a um escritor de renome internacional. Causa vômito intelectual os textos de Amado a lamber o saco do ditador. Morto o patrão assassino e caído o muro moribundo do socialismo real, o dito escritor, diga-se de passagem amigo de ACM, mudou de lado e passou a ver a melhor oportunidade de negócio; assim vendeu, qual uma puta – não prostituta! - sua alma machista ao macho Império do Norte que antes pseudocombatera.
      Afinal, a alma para um umbandistapseudomaterialista não passa de milhares, de milhares, de milhares de dólares à confortável morte debaixo dum meridional sol global… E, Charlles, garanto-lhe que, na mesma trajetória, hoje, estão petistas colossais… Contudo, continuo a sonhar: o futuro é o socialismo, por mentira que pareça!

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  2. Ramiro Conceição10 de julho de 2012 01:49

    errata: é obvio que é estupro...

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    1. Vai me fazer chegar atrasado em meu trabalho hoje, Ramiro. Ainda é de madrugadinha e já me preparo para sair, mas você me obrigou a ler seus dois primeiros comentários, e me impõe uma resposta rápida. Claro que Pessoa é infinitamente superior não só a Neruda, mas a Eliot, Maiakovski, e um bando de outros. Gostei do primeiro Neruda, o mais singelo e ingênuo, e do Canto Geral, me ficou sua frase, hoje soando filistina, de que "o mundo precisa de poetas de ombros largos". No mais, Neruda me causa um tédio profundo, com aquela abundância de metáforas_ na velhice então, ele achou que um sucedâneo para a inspiração poética era a profusão metafórica.

      O caso não é a confissão de Neruda, mas a falta completa de propósito nela, ou a brutalidade envaidecida como ele o faz, já que não demonstra o mínimo arrependimento, partindo imediatamente para outro assunto,como bem diz Zizek. Eu mesmo tenho algumas histórias de abuso moral contra mulheres_ bem mais leves que essa, mas ainda assim abuso_, que cometi na juventude, e das quais tenho hoje uma imensa vergonha. E penso: qual macho adolescente não as tem? A questão aqui é a da evolução pela experiência. Eu, que fui professor de biologia por um longo tempo, sei que evolução nada tem a ver com melhora, mas com direcionamento casual mantida por um programa involuntário das pressões da natureza. A dor e a percepção da dor alheia nos dá um brilho de humanidade. Mas um poeta, que é um aventureiro do Absoluto, como diz Todorov, tem a obrigação irreparável do humanismo, da melhora de espécie. Mais tarde volto aqui.

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    2. Ramiro Conceição10 de julho de 2012 10:22

      Charlles, é justamente isso, ou seja, Neruda troca de assunto como se trocasse de gravata. E, deixando bem claro, meu comentário sobre Amado nada tem a ver com assédio de qualquer espécie; mas, sim, com a mudança ideológica para onde melhor bate o vento dos bons negócios, isto é, “esqueçam o que escrevi” como já disse nessas plagas um certo príncipe...

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  3. Isso tem um nome: sociopata, o que não é nada anormal vindo de um comunista...

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    1. Procurei argumentos para te contradizer, Doni. Mas... cada dia mais me convenço que os capachas de qualquer partido e sistema são isso mesmo. Direita ou esquerda.

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  4. Eu achei o trecho um nojo e foi difícil continuar lendo a auto biografia dele depois dessa.

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    1. Ah, era você que estava lendo o Confesso que vivi. Tentava me lembrar. Um amigo meu aqui leu-o mês passado, e falou que é recheado da vaidade tola do Neruda em contar seus casos sexuais. E o "vivi" do título remete à estúpida crença adolescente de que viver é a "vida loka"; tomar para si o máximo de tudo. Brodski, um poeta nobeliado muito superior a Neruda, já dizia que o chileno não era sequer um poeta mediano. Não aguento esse tipo de hipocrisia, da pior espécie, vinculado à ideia descerebrada e mecânica de "estar trabalhando para a revolução mundial". Antony Queen ofereceu um milhão de dólares pelos direitos de Cem Anos a Marquez, para o cinema, mas esse só disse que o venderia se fosse por 1 milhão a ele e mais 1 milhão para a "revolução socialista mundial". Típica impostura latino-americana, que esconde um enorme descaso humano pelos oprimidos, vindo de gente que acha que tem o coração combativo por chorar no cinema, compensando o lixo que deixa no chão para o lanterninha assalariado em sub-emprego catar no final da noite. Neruda é um merda. Esquecido em seu romantismo inofensivo, em sua alienação de glutão que escrevia sob os eflúvios das musas de sua boa digestão gástrica.

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    2. Li como um livro qualquer, porque a figura de Neruda me era indiferente. Era um pocket em espanhol e estava baratinho (viu, eu comprei). O início do livro é recheado de vaidades sexuais, e depois elas dão lugares a outras vaidades. Nada vi no livro que remetesse a uma figura admirável. Sobre a poesia em si, não posso dizer nada, porque sou uma péssima leitora de poesias. Depois de ler, doei o livro e nunca mais li nada dele ou sobre ele.

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