Mostrando postagens com marcador John Coltrane. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Coltrane. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poderosa risada

 


A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Barricada



Viajar em época de carnaval? Só se eu fosse muito louco. Só ontem, o que seria para todos os termos técnicos a véspera da festa, na via principal de acesso à capital do estado houve 25 acidentes de carro, com dezenas de feridos e duas mortes. Aqui na minha cidade dormitório, uma chuva em forma de hecatombe destruiu árvores lançando-as ao alto pela raiz por pura traquinagem, e duas torres convertedoras de energia responsáveis pela luz elétrica de dezenove cidades ruíram sob a força dos ventos, o que resultou em dez horas de blecaute. Sem o som do carnaval de rua invadindo pela janela, mas também sem a possibilidade da consumação do vinho chileno ouvindo Coltrane. Mas hoje tudo já está preparado, nas duas frentes opostas: as moças de bermudas vestidas com os leves abadás coloridos andando pelas ruas, os carros atolados de playboys dobrando esquinas com uma velocidade perigosa; e eu desse meu lado por detrás das barricadas. Durante toda a tarde ensaiei o que será a audição noturna desse maravilhoso box de 4 álbuns de John Coltrane, considerado por todos os blogs estrangeiros especializados em jazz como "one of the most important live sets from the ´60s", e uma das melhores apresentações ao vivo de Coltrane. Gostaria muito de tê-los no original, mas o preço pela Livraria Cultura é exorbitante. Mas, os interessados podem consegui-lo aqui: http://butseriouslyfolks11.blogspot.com/2011/08/john-coltrane-complete-1961-village.html, em 320 kbps. Mas, peço que se atentem para o cabeçalho do referido blog, o terceiro parágrafo acima do post. Trata-se de um blog tesouro, maravilhosamente marginal, e que seja um segredo entre nós, para que seja preservado. Daqui uns dois dias, vou apagar o link, por segurança. A música: de primeira, sublime, envolvente. Inserções ao ponto de Eric Dolphy, Garvin Bushell e Roy Haynes. Mas, após ouvi-lo, cuidado: qualquer exposição física além do umbral da porta rumo à rua, pode gerar uma severa constipação!

sábado, 21 de janeiro de 2012

Música Sublime



Foi algo que pode-se dizer ter sido um milagre. Em 2005, o historiador Larry Appelbaum encontrou entre velhas fitas de acetato na Livraria do Congresso dos Estados Unidos, uma caixa de fitas com os seguintes dizeres escrito à mão na tampa: "Carnegie Hall Jazz 1957". Imaginem o assombro desse pesquisador quando colocou o conteúdo da caixa para tocar e descobriu, extasiado, ser o registro desconhecido de dois shows beneficentes, feitos no mesmo dia, de dois dos maiores nomes da música do século passado: ninguém menos que Thelonious Monk e John Coltrane, tocando juntos na brevíssima parceria que durou cerca de sete meses. O anúncio do tesouro caiu como uma bomba no meio musical. Especialistas confirmaram a autenticidade e a excelência do material, o som foi restaurado e digitalizado, e no mesmo ano a EMI lançou esse álbum maravilhoso, que foi imediatamente aclamado como clássico. A qualidade da gravação é de estarrecer de tão boa. E as 9 faixas, sendo apenas uma incompleta, estão entre os momentos mais iluminados dos dois gigantes. Lembro-me que foi minha primeira compra virtual. A felicidade condensada em 50 minutos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Love Supreme/John Coltrane, 46 Anos Hoje




Hoje é tão fácil, mas para ter meu primeiro A Love Supreme foram necessários uma lojinha cult de entendedores esnobes num bairro chic da capital, um vendedor belga avisado pelo recentíssimo mecanismo de e-mail, um espaço num container, a travessia de um cargueiro pelo Atlântico, rodovias e rodovias interestaduais, e meses de economia monástica. A espera foi de oito semanas, e lembro com a apreensão feliz de uma criança às vésperas do natal que o ar condicionado e os vários CD´s de dar inveja, ordenadamente expostos em prateleiras de mogno inglesas, foram o hino marcial para que me botassem nas mãos o pacote inacreditável onde estavam dois dos álbuns mais elogiados do jazz: In the Silent Way e A Love Supreme. Este último, uma edição comemorativa com capa tripla de cartão e um folheto de doze páginas contendo fotos inéditas e a oração a Deus manuscrita que Coltrane vocaliza, palavra por palavra, no sax tenor da parte 4. Desde então,  na época da queda da Bastilha do download, comprei-o mais duas vezes, por preços miúdos, em sebos.

Odiei-o ferrenhamente quando o ouvi. Nada me parecia mais tosco. Não era o Coltrane exuberantemente oriental de Kind of Blue, filho direto de Rimsky-Korsakov, Stravinski e o escravo negro escondido que descobriu em plenitude beatificada o sentido da vida antes de morrer no silêncio dos batedores do campo lá  de cima; não era o mesmo cara que, possuído por um anjo megatômico, espontaneamente contrabandia para a nossa limitada estratosfera o solo inclassificável de luz em Flamenco Sketches. O cara havia perdido a direção depois que separou de Miles Davis. Aquilo era grafite numa parede de cal, não tintas no acrílico. Pura enganação o  jazz que se rebelou na década de 1960, tudo que existira de bom e sublime ficou confinado no be-bop e no jazz modal. A Love Supreme confirmava a perda de tempo em dar ouvidos aos experts, esses entendedores de uma maçonaria do gosto que ditavam graus de ascensão estipulados em herméticas burocracias internas, que nada tinha a ver com o mundo aqui de fora. Gente que sabia por completo o nome da baronesa Rothschild,  os canais certos para se chegar ao hotel de onde Chet Baker saltara pela janela, o nome das cinco músicas e do auditorium onde Louis Armstrong inspirou o ensaio clássico de Cortázar, o maior baterista de todos os tempos, o maior clarinetista de todos os tempos, o maior tocador de glockenspiel de todos os tempos (e a estupidez de não saber a diferença óbvia entre o glockenspiel, o mero xilofone, a prosaica marimba e o demodé balafon).

Não tanto para manter minhas credenciais de iniciante ingênuo mas que pode ser trabalhado junto a essa turma, mas por pensar que havia gastado tanta grana numa coisa espúria, que insisti na audição de A Love Supreme. Por coincidência, assistira naqueles dias ao filme Adorável Professor, em que Richard Dreyfuss interpreta um professor aspirante a músico que, quando avisado da gravidez de sua mulher, entra numa crise de prostração. A esposa, sentindo-se rejeitada, chora num canto da cama. O jovem Dreyfuss, cujo martírio no filme é suportar estoicamente a um cotidiano insípido de professor colegial e homem casado que cada vez mais o separa de sua ambição de ser músico, senta-se ao lado da mulher e, num esforço de espiação, justifica que a primeira vez que escutara Coltrane achara aquilo um lixo; parecia um caos sem lógica e propósito, a enrolação de um soprador de tubo que não tinha talento nem para assoviar canções de marinheiro. A pior coisa que ouvira na vida, MAS...(daí vem a parte muito emocionante, a câmera se aproximando lentamente de um Dreyfuss invadido por intrusões inesperadas de beleza, entrando licitamente em sua região própria de espaço significativo), aos poucos foi compreendendo a sublime música de Coltrane, sua força inusitada, seu jorro de ira, sua conflagração ilimitada de ternura, sua insatisfação pelo absoluto, sua incrível inteligência despojada, seu misto de clamor visceral e ódio divino, sua imposição de dizer que existia e participava do jogo, sem requintes, sem retoques, com sua recém criada sofisticação e auto-atribuido pós-doutorado em uma nova refinadíssima estética. E como essa descoberta, continua Dreyfuss, o deixou maravilhadamente sem palavras, como essa percepção de algo transcendente desatrelado do senso comum e absolutamente puro, o reduziu ao silêncio da mais valiosa alegria. Por isso, conclui, quando você me avisou que está grávida, eu senti a mesma coisa de quando descobri Coltrane. A mulher lhe esfrega a cabeça no peito:" a coisa mais linda e verdadeira que já me disse".

Precisamente hoje, Coltrane entra no Van Gelder Recording Studio, em Englewood Cliffs, no estado de Nova Jersey, junto com o baterista Elvin Jones, o baixista Jimmy Garrison e o pianista McCoy Tyner, para a gravação de uma das mais belas músicas de todos os tempos, firmemente decidido,  na paráfrase a Walt Whitman, a falar em idiomas aromáticos. Poucas pretensões foram tão fielmente atendidas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Música e Literatura

Aos eventuais visitantes deste blog, peço desculpas pela ausência desses últimos dias. É que acompanho minha esposa nos exames de rotina no obstetra, e presumo que isto ainda ocupará meu tempo por toda essa semana. Tentei desenvolver algumas ideias por escrito, ao correr da espontaneidade vigiada, como me é de praxe, mas estou exausto. O trânsito, os elevadores, os franelistas, o calor, os aviões passando, as novas alterações do sentido das ruas de uma velha capital por muito tempo não visitada, tudo isso me esgota ao final do dia como se na verdade eu fosse aquele estivador das putas do cais do porto, da canção. Mas para mostrar que não esmoreci, levanto a cara do colchão, e com os costumeiros dois dedos cheios do vício da digitação nunca aprendida, escrevo esse prólogo a mais um comentário postado por mim, no blog do Milton Ribeiro. Procês verem: não tive ânimo nem de folhear as duas maravilhas adquiridas hoje, do Júlio Cortázar (Último Round, e Volta ao Dia em Oitenta Mundos), que, contudo, me deixaram com a comichão de desenvolver um texto provando que o genial argentino foi, sem o saber, o primeiro blogueiro. Segue a reprodução do comentário.


Também acho que a música é a mais superiora das artes; mas, solitária, sem as outras que dependem dela, tornaria-se vazia e perigosa. Se a ânsia humana por indagação tivesse parado nas sonatas para flauta e cravo de Bach (que eu as amo apaixonadamente), esses exercícios de floreamento matemático ultra-rápido e densamente compressivo de insinuações espirituais teria se reduzido ao que um cantor sertanejo do naipe do Eduardo Costa a entenderia: uma dura provação de estranha música natalina funesta, desgraçadamente chata (que minha esposa, uma curtidora iconoclasta cujo passatempo preferido é tentar torrar minha inexpugnável paciência, diz ser tema para enterro do papai noel_ ela também adora gritar lá da cozinha, quando ponho pra tocar o solo de trumpete rasgado do Pat Mepheny na canção com o BB King, “Guess Who”: “Sooolta o gato!!!”) . Mas, quando adolescente ainda, tive contato pela primeira vez com uma dessas sonatas, de madrugada, após ter chegado de uma festa emocionalmente frustrante, ouvindo-a como uma premonição pela rádio universitária, como se um flautista realmente tivesse decidido cumprir a antiguissima imagem mais poética do mundo e subiu para o telhado para tocar para a cidade adormecida.

Daí percebi que não podia mais viver sem aquilo, que aquilo me definia, pela extrema angústia que senti, e pela extrema alegria de saber que zonas extraterrenas assim podiam ser alcançadas, e que tudo pairava abaixo daquele telhado na devida forma irretocável da passagereidade de todas as coisas_ todas as coisas que não fossem aquela intuição espiritual inadmissível e ainda assim (nesse lastro de oxímoros e contradições a absurdos plausíveis que a música consegue provocar) perfeitamente reconfortante. Pois quando ouço Bach, Beethoven, as conflagradoras e impossíveis partes finais de “Pictures at an Exhibition” e “Firebird” (que minha esposa, tocada, me encheu de amor um dia ao, em estado de trégua, ter dito que ambas pareciam a festa de celebração por uma cidade resgatada) tenho uma certeza divina (que é outro assunto e não quero atiçar tendências).

Há músicas que me fazem fechar os punhos e pensar, absolutamente surpreso e tomado da mais virulenta das vinganças: “Mas nada pode com nós, porra!”. Lembro de Alex Ross escrever que após as complicadas pautas de criação do que estava se tornando a música minimalista norte-americana, gente como Steve Reich e Arvo Part, saíam do academicismo extremado das universidades para aprender com os solos de meia hora de John Coltrane, no Note Blue e outros bares de jam. E meu disco preferido de Coltrane é um gremlin que eu me iludo só eu ter, por tê-lo encontrado no fundo de um sebo escuro, que tem uma versão exorcista ao vivo de 17 minutos de “My Favorite Things” que meu filho de quase um ano adora ouvir quando a coloco no último volume; e que para mim é um mantra que resume uma luta primordial, tanto da humanidade afundada em crônico desespero nas tentativas de se superar, quanto de Coltrane para angariar de deus a evaporação do grande tumor que lhe comia o fígado. (Uma versão que minha esposa disse_desta vez por eu ter-lhe perguntado o que parecia_ ser o lamento apaixonado de um jegue; que eu, veterinário, adorei!)

E daí que a literatura se coliga à música. Os maiores livros são distúrbios calibrados de música, apanhados organizados de música. Não diria isso que mencionas no post sobre Faulkner, que ele pode ser uma escala determinante de excelência na escrita. E tampouco acho que Bernhard tenha algo a ver com Kafka (se o tal austríaco a que você se refere trata-se do autor de Extinção). Ambos possuem uma qualidade raríssima entre escritores: criaram um universo particular, para poucos, o qual ascende-se bem acima da superfície mundana. São similares em esoterismo alienígena a Bach, porque compactuo de Bellow a crença de que os grandes livros são esotéricos.

Nas últimas páginas de “Origem”, Bernhard, após narrar todas as angustiosas tentativas de se curar da doença fatal dos pulmões que lhe acometia, recebe a informação de que nada pelo qual passou havia surtido efeito; que teria que trafegar novamente por todos os centros cirúrgicos para corrigir seu pneumotórax, e se internar em todos os asilos nos quais já havia se internado, por longos períodos. Daí ele sai pela porta do hospital em direção ao mundo, para sempre_ ele ressalta: para sempre! Não iria se importar mais…

No romance “Dezembro Fatal”, de Saul Bellow, o personagem principal, um deão de universidade isolado na Romênia, à espera de que as autoridades revolucionárias liberem o corpo de sua sogra, relembra o que certa vez ouvira num metrô de Londres: “Nada existe por nada ser realmente absurdo para existir”. Era um velho cavalheiro inglês que havia sido ateu a vida toda que o dissera, e que concluía: “Talvez, então, Deus exista!”

Grandes escritores, não grandes livros_ talvez! Faulkner disse que se vivessemos quatrocentos anos, Dostoiévski, Cervantes, já teria dito tudo que ele dissera, o tornando obsoleto. Tenho a íntima convicção de que os grandes músicos e escritores sejam perseguidores, que margeiam o limite impossível, sem nunca o adentrarem. A entrada só seria possível num outro grau de evolução, num outro coeficiente perceptivo, num outro merecimento espiritual.