terça-feira, 24 de junho de 2014

Cachorro morto



Ontem eu estava em uma praça junto a dois amigos, conversando (nós que pertencemos a essa aberração genética de não nos interessarmos nem um pouco por futebol) quando despontou a vitória da seleção. De súbito, as ruas ficaram tomadas por filas de carros com as portas abertas para que o funk de seus sistemas de som ultra-reverberantes tomasse todo o espaço, com gente sentada nas janelas dos carros, ou nas carrocerias, gritando “Brasil”. Entre esses carros, passou um Vectra com todas as 10 pessoas nele de corpos quase que por inteiro para fora, inclusive um moça com uma menina de 3 anos perigosamente equilibrada em suas pernas. Passou um sem número de motos empinando e fazendo firulas imprudentes entre a comitiva de carros. Foi uma baderna e uma falta de educação e gentileza na desculpa da catarse ufanista por umas três horas, com lixo sendo atirado no chão e todo tipo de bestialidade. Esperei que tudo se acalmasse para poder voltar para casa, antes ligando para minha esposa recomendando a ela que não saíssem por razão alguma de casa. Falamos entre nós, os três amigos, sobre o exemplo de caráter dado pelos torcedores japoneses, que após o jogo de seu time nessa copa, limparam, todos eles juntos, o lixo do estádio, ensacaram e ficaram por horas do lado de fora atentos para verem para onde os sacos seriam enviados pelo serviço de coletas. Essa seleção e esse povo não me representam, assim como qualquer dos políticos de qualquer filiação partidária que estão no poder agora. Fiquei embasbacado tentando seguir a linha explicativa que me mostrasse por que esse povo todo se esguelhava e se comportava como bichos da pior espécie por causa de um time de futebol_ sem contar que até para desinteressados pela bola como eu era notório que o jogo em questão era como chutar cachorro morto, não merecia tanta comemoração. O que faz com que sejam tão apaixonados assim? Eu tentei usar de toda minha sinceridade para ver se eu seria possível de conter tanta paixão. Vejamos: patriotismo? Seria uma belíssima ideia; em junho do ano passado, com 130 mil manifestantes na Rio Branco, na hora da novela, eu senti um amor inenarrável pelo Brasil; senti uma vertigem gigantesca e gigantesca felicidade por ser brasileiro. Por aquele Brasil de junho de 2013, eu seria bastante ufanista. Na verdade eu tenho em mim uma compulsiva necessidade de ser bairrista, de ter motivos para hastear a bandeira no quintal de casa. Mas claro que o Brasil de junho/13 talvez não exista, nunca tenha existido, seja lá qual distorção lisérgica explique aquilo. E eu, assim como todos que passavam dependurados nos carros_ assim como aquela loira de shortinho minúsculo que dançava lubricamente na pick-up de um dos veículos da comitiva_ jamais teríamos a cara de pau de hastear uma bandeira do país em nossos quintais. Passado o frenesi da Copa, eu sei que ninguém dos 20 mil habitantes da minha cidade tem uma bandeira do Brasil. Sei que, passado a Copa e recolhido o lixo de seus souvenires, ninguém que frequenta esse blog tem uma bandeira do Brasil. Sei também que alguém hastear a bandeira em seu quintal seria visto com suspeição; possivelmente seria repudiado por loucura pelos vizinhos. E, contudo, estavam todos gritando ontem como se fossem patriotas puros, guerreiros defensores de uma nação com motivos de sobra para lhes insuflar um orgulho inexorável. Meu grau de cinismo, ou meu grau de bestialidade, não comporta esse tipo de torcida. E daí que a seleção ganhe contra um cachorro morto? Ou leve a Copa, como está previsto pela maçonaria das instituições dos poderosos da bola? Qual fundamento para sentir orgulho DISTO? Não tenho mesmo esse nível de auto-enganação.

Não tem nada



Não se pode condenar o tom apologético de Melville em Moby Dick. O evangelismo primitivo desse livro não é mero ornamento inevitável vindo das crenças pessoais do autor, mas sua própria base de sustentação. Dizer "evangelismo" em referência a uma obra composta na mais alta esfera esotérica é incorrer no risco de cair no esteriótipo de estupidez massificada que tal termo com toda razão possui nos dias de hoje. Moby Dick tem a mesma visceralidade sensual que os grandes pastores de almas tinham no tempo em que foi escrito; tem essa mesma ingenuidade poderosa que expressa uma lucidez ilimitada que Borges disse ser o mote dos fundadores de religiões, tais como Whitman e Emerson, Blake e Swedenborg se aproximam de serem fundadores de religiões. Há tanta exultação adâmica em Moby Dick que é impossível ao bom leitor que este ainda fique atolado com os pés na realidade cínica e ultra-material corrente; é impossível que ele não seja abduzido pelo supremo convencimento dos símbolos e da loucura do livro. D. H. Laurence, no ensaio que acompanha minha edição de MD, condena o Melville humano com seus pecadilhos de afetação e sua seriedade pedante que hora e outra submerge o artista pleno, e diz que quando essa parte humana desaparece e ressurge com toda força o artista magnífico ninguém é páreo para Melville. O artista magnífico já nos arrebata na primeira página, seguindo adiante nas tantas anedotas e retratos de homens que vivem em uma dimensão peripatética contrária a toda sociologia; o artista Melville se mostra de forma solitariamente precoce sua localização em um tempo muito à frente dos outros grandes escritores do período, em sua decisão chocante de tratar do tema fundamental utilizando um quase infantil enfoque em um monstro marinho. Pode-se mesmo ouvir as consciências críticas que menosprezaram por completo MD durante quase meio século se justificando pela desfaçatez de Melville em tentar arrombar o tema fundamental não pelas portas usuais e mais prementes, não pelas revoluções ou guerras, ou pelos vícios urbanos, ou pelos assassinatos, pelos adultérios e a decadência de grandes famílias, mas, inusitada e autisticamente, através da figura colossal da baleia branca e de seu universo náutico específico. Melville antecipa os célebres escritores autistas ao colocar na boca de seu narrador o desejo de que fosse aceito no navio baleeiro apenas para ficar em seu canto pensando em nada, divagando sobre os significados filosóficos da vida, imolado da escala produtiva e tolerado com saudável indiferença. Melville viu tão mais peculiarmente longe que seus compatriotas das terras espirituais da escrita que foi o fundador de uma forma de dissipação preguiçosa que teria sua importância política impactante na imagem da nulidade humana do século XX na opção pela não-coaptação. Em sua época, ficou para trás do caos urgente e das incendiárias insurgências na literatura das transformações políticas que se viam em Stendhal e Dostoiévski, apenas para sair de sua hibernação anos depois para ser um tipo de criador moderno que sobrepôs-se a todos os outros com seu ineditismo em criar a baleia e, de forma mais revolucionária, esse personagem de profundidade inaudita que é o escriturário Bartleby. D. H. Laurence está enganado, pois quem criou uma figura como Bartleby jamais poderia falar do púlpito a não ser no idioma elevado de Emerson e Whitman.

Por isso Moby Dick tem um evangelismo transbordante de felicidade, a felicidade do louco de deus que abandona as convenções de uma sociedade em franca atrofia para confrontar o terror divino. Surpreendi-me por nunca ter lido esse termo antes, terror divino, que contudo parece tão óbvio. A baleia é a forma como esse terror divino, que por centenas de páginas vinha sendo abordado pela tangência, se corporifica na nudez da linguagem, e, para exorcizar o perigo do cinismo, daí a preparação toda de Melville em utilizar de um tom talmúdico grandiloquente. Sua grandiloquência não tem cinismo, mas tampouco tem a moral da visão evangélica de Tolstói. Laurence aceita a generosidade de que Moby Dick atinja todos os símbolos profundos de representação; aceita que a baleia seja Jesus, sem contudo abalizar com uma mera observação os riscos simplistas de apanhar a coisa somente por aí. Pois a presciência do criador de Bartleby nos dá também na imagem da baleia os símbolos inevitáveis do frenesi dos que pertenciam à grande nação americana quando ela arrebanhava em êxtase as características mais melífluas do império futuro, oferecendo a inspiração de perceber a queda. A baleia, vinda da mesma mente capaz de escrever sobre Bartleby (esse superior personagem que paira diretamente sobre Kafka, Musil, Joyce, Faulkner e Walser), traz a insinuação aráutica do monstro que está no final da estrada de todos os sonhos, da deformidade imperceptível mas frutificante que serve de sustento para todas as telas da liberdade. Talvez por isso o monstro seja durante todo o romance uma prefiguração, uma música indistinta escutada sempre ao longe, nunca palpável, nunca manifesta em suas linhas reais terrenas, nunca abarcável. Por isso o tom místico e sonhador, que vem por detrás de todas as tendências doutrinárias da voz de pastor de Ishmael, seja o personagem verdadeiro de Moby Dick. Por isso a tolice da leitura lânguida dos que acham que os diversos capítulos preparatórios sejam chatos e vagantes, infelizes surdos à retumbante poesia de Melville, à sua canção angustiada de tanta necessidade pura de enlevação. O monstro de Melville é o terror divino em estado puro, devastador em sua infinita indiferença que perdura por sobre todas as pequenas intenções humanas, mesmo as transvestidas com os contornos trágicos seculares da vingança, e sendo essa indiferença a raiz do motivo de todo o romance ser contaminado com essa alegria de um suicídio sagrado, de uma emancipação através de uma forma do Nada jamais passível de definição.

O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.

Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.

Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Jöel Dicker



Estou sempre disposto a cair em um fetichismo literário, mesmo os mais efêmeros e exagerados possíveis. Quarta-feira passada encontrei na livraria da minha pequena cidade uma edição com um preço promocional bem convidativo de A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Jöel Dicker. Lembrei-me de imediato que a última Piauí dedicou duas páginas a uma explícita propaganda deste livro, e deixei-me escorregar sem freios para dentro de uma dessas malditas compras não programadas de cartão de crédito, em que entrou acompanhando esse best-seller do momento uma série de livros infantis e duas palavras cruzadas. Todo mundo serotonizado pelo consumismo, voltamos para casa pisando nas nuvens sendo que apenas eu, a solitária parte ativa em que aportariam todas as insinuações do pesadelo das contas extrapoladas, sentia atrás da orelha a pressão incômoda da tentação proibida realizada. Pois mandei tudo às favas e fui me sentar na varanda com aquela bomba de falta de sutileza que é um best-seller cuja relojoaria determinara o seu esquecimento em curto prazo na mesma medida em que os elogios do que parecia ser todos os grandes jornais do mundo afirmavam nas páginas iniciais que se tratava do maior romance do século. O Le Monde dizia que era um marco; o Corriere della Sella dizia que tudo que fosse escrito dali pela frente teria que se pautar naquelas páginas que eu tinha em mãos. O que aconteceu com esses grandes jornais? Por que esse descaramento hiperbólico?

O que sei é que, apesar da mentira estridente, tais hipérboles casavam com perfeição com minha onda renovada de consumo de fresco prazer pela leitura rápida. Não havia nenhum peso de consciência em deixar em suspensão o romance distinto que eu estava lendo para me distrair por alguns dias com essa piranha do entretenimento descompromissado. Eu sabia que jamais me apaixonaria por ela, que seria um caso passageiro, uma loucura sem sequelas. Javier Marías, Philip Roth, Henry James, não ficariam conspurcados por aquela pulada de cerca. Apenas esperariam um pouquinho só enquanto eu cometia aquela infidelidade com os olhos esbugalhados, os dedos revirados, a respiração ofegante. Tá! Li o livro em três dias. Quase 600 páginas. Sério: não conseguia me desprender dele. Parei tudo que estava fazendo para atravessar logo as páginas e me livrar daquilo. Fiz tudo em uma velocidade colossal, com misto de deleite e desprezo como acontece com esse tipo de traição aventureira.

Lá pelas páginas 500 eu decidi de uma vez dar meu veredicto de que se tratava de um romance idiota, não porque era best-seller ou o que fosse, mas porque era tudo muito idiota: as reviravoltas forçadas do enredo; a rasura dos personagens; a metalinguagem paupérrima que só convencia bobos que o narrador fazia sobre a arte de escrever romance; a condoível pretensão do autor em afirmar através da ficção que estava escrevendo um grande romance.

Contudo, por mais que fosse idiota, eu não conseguia largar da coisa. E a coisa atingiu um estágio involuntariamente cômico em que se transformou em um balaio de gato em que se misturavam Lolita, Psicose, Cyrano de Bergerac, O fantasma da ópera, A última sessão de cinema e Fargo. Desafio a qualquer visitante desse blog que se interesse em ler esse best-seller se ele não verá esse Caso como uma mutação de todas essas evidentes influências.

Na verdade, seu autor, o suiço Jöel Dicker, usa muitas e muitas outras referências facilmente perceptíveis na história. Todo o livro transparece que foi escrito por alguém de menos de trinta anos, de pouca vivência real, mas um consumidor voraz de entretenimento cultural de massa. E nisso jaz o mérito do livro: foi escrito com a seriedade de uma criança que brinca incansável e solitariamente com seus brinquedos por uma tarde inteira. A própria materialidade da obra é uma conjunção de farsas absurdas: foi escrita em francês; seu cenário é uma cidadezinha norte-americana típica dos principais filmes hollywoodianos; seus personagens não passam do esteriótipo unidimensional do que os que nunca foram aos Estados Unidos imaginam serem os americanos; e trata da mais sagrada das tramas do cinema, o assassinato brutal sem compreensão e com um suspeito certo.

Não sei nada sobre Dicker mais que isso, mas tudo leva a crer que ele escreveu fervorosamente esse seu romance de dentro de um bunker caseiro, processando a alimentação carregada de conservantes químicos de toda uma vida juvenil dedicada à leitura e a filmes americanos comerciais. Ele não demonstra ter ido além desse horizonte confortável: não se percebe nenhuma menção literária de alto nível; mesmo a nítida emulação de Lolita vem de alguém que assistiu ao filme mas não leu o livro, ou só o leu a primeira página, já que copia o procedimento silábico de Humbert Humbert ao colocar na boca de seu herói as letras N-O-L-A, o nome da menina de 15 anos que foi alvo de sua trágica paixão.

O livro é implausível e escrito com aquela eficiência insípida de redação do aluno exemplar da turma, mas isso não é nenhuma novidade em se tratando de best-seller. É um produto, ou seja, em sua versatilidade é isento de necessidade de ser brilhante; tem apenas que preencher algumas horas na vida de seu leitor. Portanto, não cabe aqui maiores argumentações sobre ele. Não me arrependo de tê-lo lido. Gostei muito dessa leitura. Embora eu tenha sido um leitor que deixaria decepcionado seu autor quando ele escreve que o propósito era fazer com que eu fechasse o volume após a leitura, olhasse a capa e suspirasse de saudade dos personagens. O que eu fiz foi, ao ler a página final de agradecimentos, ter soltado uma altíssima gargalhada e, logo após, ter dito: esse Dicker é um filho da puta. Quem ler o livro saberá porque e provavelmente vai soltar a mesma gargalhada. Cumprimos mais uma vez nossas funções: eu, o leitor, tendo aceito me livrar de minha carga de crítica por um instante; o autor, ao preencher a vaga inevitável do processo empresarial; e os jornais em entrarem naquela brincadeira inocente com aquele arsenal de palavras que a ninguém tem o poder de convencer. E não doeu nada.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Enquanto Seu Lobo não vem: monólogos furados sobre Kubrick e as capas da Hipgnosis



Sou apaixonado pelo Kubrick. Sem o mínimo exagero, digo que 2001 é o melhor filme que assisti e transformou minha vida de forma profunda. A primeira vez que o vi foi na sessão dupla (de dois dias), em que passou pela rede Globo, quando eu tinha lá os meus 10 anos. Fiquei maravilhado com o filme, sem entende-lo nada, atravessando a madrugada. Passei anos da minha juventude lembrando cada cena dessa única audiência com absoluta precisão. Precisava entendê-lo urgentemente. Não é um filme para qualquer um, apesar do que, como as grandes obras primas, o próprio espanto da não-compreensão já é um levante para o sublime. Assisti-o várias e várias vezes, e a cada vez percebo algo novo, uma revelação magnífica nova_ não é, definitivamente, uma simples revelação estética, mas espiritual, filosófica, daí que nego o rótulo simplista de dizer de 2001 que seja “ficção científica”.
Por exemplo, após várias interpretações, da última vez que o re-assisti_ semana passada_, descobri algo que não tinha atentado antes: a luz do quarto do último-homem da escala evolutiva vem de baixo, não mais de cima. Que símbolo! Que eloquência de pensamento! Para o homem imunizado de todos os conflitos, a tal ponto que a simples queda de uma taça o faz ficar segundos a olhando, não há razão nenhuma para que exista a simples reverência ou consolo de uma luz vinda do alto. Essa luz do chão representa tanto o sucesso de uma evolução de bilhões de anos no aperfeiçoamento da técnica, quanto o fracasso inexorável do empreendimento da espécie. Nada por temer, nada para rezar, nem futebol nem deus, uma raça de seres assexuados naufragados no gigantismo asséptico de sua própria suficiência. Uma luz que vem de baixo, daria um bom título de romance.
Minha filha ontem mesmo pediu: “vamos assistir 2001?”. Sério mesmo, sem esnobismo. Ela só tem três anos, e adora a cena dos macacos. A filha do Milton assiste Laranja Mecânica junto ao pai, também.
Comprei a caixa de blue-rays do Kubrick numa promoção pela LC, e já assisti-os todos. Barry Lyndon, com sua frase final de que “a semelhança entre eles é nós, é que todos estaremos mortos um dia”, ou algo assim. Um bom filme, acima dos padrões. Assim como O iluminado, um filme de fotografia magnífica, mas com muitos defeitos que impossibilitam que ele seja mais que mediano_ seu final é preguiçoso, e a loucura de Jack Torrance é explorada de maneira apressada.
Os dois grandes filmes de K. são 2001 e Laranja Mecânica. Digo, GRANDES MESMO, grandes a um nível tarkovskiano.
Laranja Mecânica, que o reassisti há dois meses. Um adolescente atacado por todos os lados, maciçamente, por uma mídia espúria em último grau. Sexo ruim, música ruim, bebidas ruins, nível de proficiência na língua ruim. Não; aquelas cenas aberrantes de cor eram ruins mesmo na época em que o filme foi feito. Não se trata de defasagem temporal. O pênis de porcelana recurvo e grande, que Alex usa para matar a esposa do escritor, é uma abominação estética mesmo no final dos 60 e começo dos 1970. Os quadros da casa da massagista que Alex invade com seus asseclas, com ar de moderníssimos pendurados nas paredes, não passam de gosto medíocre de uma sociedade boçal sem profundidade, sem ideias, vivendo de aparências recíprocas. Quadros com mulheres e homens trepando.
O idioma que Alex fala é uma espécie de novilingua, recheada e sustentada por gírias vagabundas e vazias, sem revoltas e sem personalidade. Não é de se espantar que a violência seja a coisa mais natural do mundo. Traz uma semelhança com a luz do chão de 2001, em uma proporção mais rasteira: em vez da evolução da técnica, a sociedade alternativa de Alex se estancou na visão proletária clássica marxiana: uma sociedade de seres servilizados pela propaganda e a indústria de consumo. Uma sociedade ridícula, palhaçal, que atingiu um nível tão alto de caricatura que o tédio sem escape reverte para o massacre. O vestidinho curto, na altura da virilha, da velha mãe de Alex causa uma gargalhada imediata, sem auto-reconhecimento da plateia, sem a catarse da descoberta da própria vergonha da cretinice em que o espectador está inserido. Não sobra mais nada para uma sociedade alienada senão a implosão, como se a natureza humana tivesse um botão de auto-destruição diante tanto desvirtuamento da busca de suas qualidades intrínsecas.
E o ponto genial que Kubrick acha para finalizar essa sua monumental crítica é a Nona de Ludwick, que Alex tanto ama. A mais elevada obra do espírito só é consumida por Alex na tela de sua imaginação em que a Ode à Alegria serve como trilha de cenas celestiais de estupros e assassinatos. E aqui há a velha astúcia das incríveis coincidências: o filme é muito semelhante com o que Anthony Burguess escreveu: um Burguess que em sua auto-biografia revela a doença de espermorréia que tinha, e do estupro e espancamento que levaram ele e sua esposa à beira da morte, perpetrados por um grupo de adolescentes nazistas. O sexo e a violência já eram temas que extrapolavam o mero abuso de suas configurações coloridas que a mídia sempre fez, para um escritor que não parava de expelir esperma 24 horas por dia e que viu a esposa sendo violentada várias vezes por brutamontes de espinhas.
E a crítica de K. vai mais além: contra os auto-proclamados salvadores dos oprimidos da sociedade: ele bebe de Marx, e ataca os mercadores do templo de Marx. O escritor que denuncia Alex e o prende em sua casa, após o experimento que “cura” Alex, só o faz para que chegue à mídia (a grande e deística Mídia, como o Tubo em Vineland, de Pynchon), a comprovação do fracasso do partido governista quanto à tal cura. O intelectual não é movido por vingança nem altruísmos, mas simplesmente pela guerra partidária.
Agora me digam: Laranja Mecânica foi lançado em 1971, ou fala sobre o Brasil de hoje?

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Alguém deveria fazer um estudo sobre o por que simplesmente não existem capas bonitas na MPB. Não há uma só capa da discografia de Chico que seja sequer razoável; são todas horríveis. O mais próximo que consigo pensar aqui de capas apresentáveis são umas duas só de álbuns do Milton Nascimento, e olha lá. As do Caetano são torpes, as do Raul contribuíram muito para restringi-lo um tempo na seara do brega; as dos Mutantes são os plágios costumeiros do Sgt. peppers, e até na fase pós-Rita Lee, em que eles deveriam ao menos beber da linha sofisticada de capas do rock progressivo e do estúdio Hipgnosis, as capas parecem propagandas de xampu da década de 70. Não é um assunto pequeno esse. As capas do Sinatra e de outros artistas populares norte-americanos são muito bonitas, mesmo que a maioria se limite a estampa do cantor, mas são fotos soberbas. Assim também com as fabulosas capas do jazz americano: um simples rosto focado de Miles Davis ou Donald Byrd são obras-primas. Agora, esses rostos do Chico apresentam sempre uma pessoa meio retraída, meio bairrista, visivelmente desconfortável. Talvez seja uma intuição precoce ele ter colocado suas fotos do registro policial de sua época de playboy delinquente na capa de um álbum como auto-crítica a essa limitação_ ou subestimação do público_ da estética fonográfica nacional. Essa vilania puramente mercadológica, sem preocupação de gosto, das capas da MPB refletem bem naquele disco “ao vivo” do Chico e do Caetano em que a mesma onda de palmas da platéia é acionada mecanicamente durante todas as músicas, num brutal artificialismo.