Li de Foucault o História da loucura e o primeiro volume de História da sexualidade. O primeiro já me havia chamado a atenção na juventude, e me aventurei a ler umas cem páginas iniciais sem nunca passar disso, até que pude comprar o volume e gastar uns dois meses lendo-o por inteiro. O segundo, eu relocava da biblioteca da faculdade de história, que tinha todas as três partes da obra, até que o término da proeza coincidisse com minha assinatura por quase toda a pequena ficha de empréstimo guardada pela bibliotecária na caixinha de livros em uso. Gostei muito de História da loucura, com toda aquela minuciosa vistoria na documentação de sanatórios para loucos da Europa medieval e moderna, mas já a História da sexualidade, por mais que me concentrasse e virasse o volume do avesso, na batalha corporal pela aquisição do propósito do sofisticado trabalho do francês mais influente do final do século XX, tive que me resignar a aceitar que a leitura passou incólume por mim. Parte do não aproveitamento dessa leitura de Foucault se deve à séria impressão que tive de que todo o primeiro volume era uma mera introdução, ou como um ensaio de orquestra cujo folheto de programação indica uma peça de extraordinário envolvimento que, contudo, nunca é iniciado; parte porque fiquei com a cara de bobo de quem realmente, por mais tenazes tenham sido meus esforços, não entendera nada do que o autor escrevera. Fiquei sabendo que os dois outros livros sobre a sexualidade eram ainda mais herméticos, e, corajosamente e com um acento de culpa, abri mão do desejo maçônico de ser integrado entre o grupo de discussão dos privilegiados alunos que tinham o seguro ar de terem transitado lucidamente pelos campos foucaultianos. O que me sobrara da leitura desse estudo era, apenas, a descoberta de que os tabus sexuais de todos os tipos foram criados por uma cristandade cuja única boa ação involuntária num rol de perfídias de dominação política era a assepsia corporal, e que havia uma oposição em nada atenuante para a igreja entre a antiga liberdade romana de aceitação sem nojo do próprio corpo e as formalidades acobertadas da pudicícia católica. Só.
Falando a verdade, Foucault nunca acrescentou em nada para minha formação rumo ao esclarecimento. Mantenho uma saudável cordialidade com Foucault, tenho uns cinco livros dele na minha biblioteca que me caem em mãos aleatoriamente e para os quais nutro o mesmo ligeiro assoberbamento peitoral de me envaidecer diante seu peso e suas circunstâncias imaginárias. Quando estou com amigos, o fetiche de ver um deles dizer "olha, você tem o Vigiar e Punir", é tão acalentador quanto quando veem alguns de meus livros preferidos, pois compactuo, ainda que sem a mínima digestão, com a suposição bastante solidificada de que Foucault é um dos gigantes do pensamento. Mas nunca consegui passar do primeiro capítulo de Vigiar e Punir e, por mais que me seja interessante a tese central das entrevistas compiladas de Microfísica do Poder, sempre que o pego para ler volta com notável impacto a sensação da orquestra em eterno ensaio. De modos que, como todo leitor tem suas fragilidades, por mais que seja consciente de sua presteza, uma das minhas fragilidades é deixar Foucault em paz, com toda a sua aracnídea atmosfera concentrada em que circulam-no em reverência atenciosas e diligentes figurinhas que mantem-se alegremente apequenadas para dignificarem ainda mais o mestre. Talvez o fato de nunca ter me sentido excluído dos modismos acadêmicos seja porque nunca levei-os a sério, e mesmo os vi com deboche e dó durante os anos que passei pela universidade. Sempre soube, com altivez, que meus heróis eram gente que batia a poeira dos sapatos nas portas das solenes e ridiculamente autistas faculdades de humanas, como Bernhard e Faulkner, ou gente que, apesar de terem toda a titularidade outorgada pelo mérito nessas instituições, as criticavam duramente no que tinham de canhestras e alienadas, como Hannah Arendt e Edward Said.
Das tantas vezes que me deparei com os cacoetes aprendidos de Foucault entre os personagens mímicos acadêmicos, a única que realmente me impressionou, por todas as nuances à avaliação que tinha, foi um professor convidado que um dia veio para uma palestra em nossa universidade. Eu não o conhecia, mas os preparos e correrias do corpo docente e seus pupilos eram tantos que ficava notório que o cara era uma espécie de sumidade. Chegada a noite, fiquei em pé ao lado de uma das janelas do auditório lotado, e pus-me a ouvi-lo. O mais incrível era que ele falava como um livro. Eu nunca tinha visto isso antes, apesar de conhecer várias pessoas extraordinariamente cultas e versáteis na exposição das ideias a um nível elevadíssimo. Cada sentença que ele dizia era lapidar, poderia ser transcrita na página, embalada com couro e posta já pronta na estante da biblioteca. A total ineficiência da minha parte em identificar o artifício ali_ se revelava algum indício de ter decorado um texto, ou se alguém lhe falava por um ponto de ouvido, ou se ele era um médium suficientemente treinado em arrebatamentos de incrível facilidade prolongada_, acentuava ainda mais minha sensação de apoucamento diante ele. As palavras jorravam tranquilamente por ele, com uma fluência tão desimpedida que eu via o funcionalismo invejosamente alcançado por horas de treinamento olímpico que o permitia, rapidamente, escolher uma entre vinte outras palavras que sua memória lhe servia em cada parte do discurso, e essa palavra era a mais cristalina, erudita e certa para o encaixe do momento. Parecia o Charlie Parker do monólogo. Fiquei tomado por inúmeras cogitações espetadas pela inveja, das mais colegiais como o quanto isso poderia ser útil nas conquistas femininas, até as mais disparatadas como a de que a Nasa deveria mandar um filme com ele falando por duas horas junto aos espólios daquela nave que ruma a esmo pelo universo para propagandear as proezas mais impressionantes de nossa espécie a algum hipotético alienígena. Daí percebi, com certo alívio, que esse era o problema na lisura perfeccionista dele: eu me deslumbrava com sua fala, mas não prestava a mínima atenção a ela, assim como a grande maioria dos alunos e dos professores que balançavam a cabeça em concordância, sentados do lado dele. E tinha algo mais: ao contrário de Parker, ele era atonal e monocórdio, cansava ao longo do tempo. Produzia uma quantidade infinita de silogismos foneticamente brilhantes, mas não criava nenhum universo em que o ouvinte pudesse se recolher nele. A sala ainda continuava lá, não se desfragmentava diante um portal para um novo mundo que sua exposição poderia promover, e a musicalidade quadrada de sua voz não servia para preencher o ambiente: ficava, pelo contrário, cada vez menor, saída de seu núcleo de fogo que aos poucos revelava uma chama fria. Haviam padres que dava gosto ouvir, independente da religião, como um padre amigo meu que falava de uma multitude de indignações sociais e um mixórdia de informações paralelas deliciosas sobre história e casos pessoais, assim como havia um ou outro professor que também parava nossa atenção, entre pigarros e gaguejamentos ligeiros, e nos fascinava_ ou gente do povo, mentirosos contumazes, bêbados histriônicos, um pedreiro que um dia, em uma pensão de uma cidadezinha distante, quase me matou de rir com a arte inigualável de contar sobre a mulher louca com quem a desfaçatez da juventude o fez se casar.
Aquele mestre foucaultiano havia aprendido tão bem com seu modelo que era a encarnação das minhas leituras de Foucault: uma inteligência muito superior que, contudo, não servia para muita coisa; um poder de negação e desconstrucionismo que criara um universo do discurso para comportar solitariamente a si mesmo e ficava revoluteando, num ciclo de compulsividade adâmica que acentuava um fanatismo doente, embora o tipo de patologia não fosse a mesma que promovia a genialidade artística como a de Walser, Mann ou Van Gogh. E essa era mais uma das chaves da questão: o foucaultianismo era apenas uma força de destruição, sistematizada, concentrada, agregadora de seguidores que se viam em seus suados especificismos espelhados nela, mas... não construía nada, não criava nada. O foucaultianismo era a pós-modernidade em toda sua literariedade esmagadoramente lúcida de conhecer as correntes do pensamento e a derrocada sem mais nenhum fermento em que ele se encontrava, tendo de trabalhar com o vazio que deveria promover e explorar para firmar a legitimidade de ser uma nova escola. Daí Foucault, e todos os seus correligionários à frente ou atrás no tempo, Lacan, Derrida, Baudrillard, Roland Barthes, propalarem a matemática intrincada cuja soma de 1+1 era tudo, menos 2, desde ontologismos cósmicos como o fundamento filosófico de que o homem não existe, até o decreto da não existência de eventualidades mais pontuais como a da guerra do Golfo ou a AIDS (que Foucault se negou a acreditar que existia, dizendo ser mais uma das verdades falsas inventadas para manter o quadro social de dominação, até que sucumbiu pela doença). Como disse recentemente um escritor, Foucault marcou com um ferrete a cultura de seu tempo: a propensão ao sofisma e ao artifício intelectual.
Eu não excluo o fato indiscutível de que Foucault foi um pensador engajado na desmistificação e denúncia das estruturas de poder, um ferrenho opositor à burguesia e um iconoclasta legítimo. Porém, o palavrório classista a que ele e seus conterrâneos se lançaram, causou um estancamento no debate produtivo tão carregado de dogmas e preconceitos esnobistas, que o estrago demorará gerações para ser atenuado. Foucault, com sua densidade atonal e sua inteligência alienígena, acabou por trabalhar contra o que, em um primeiro momento em que não o encegava a pretensão de fundador de um niilismo desconstrutivista absoluto, seria o objeto e tema de sua obra: um humanismo que iria investigar todas as raízes e heras milenares da dominação, miséria e alienação, em busca do caminho da liberdade ativa. Mas o que fez foi lançar a cultura em uma encruzilhada em que os valores de mérito e aristocracia espiritual caíram por terra diante a imperiosidade da aceitação da igualdade de todas as diferenças, um politicamente correto que, na era da internet, torna de mesmo peso coisas como o funk e Mozart, qualquer romance que trate de lesbianismo de maneira progressista e Tolstói, pela simples razão inquestionável de que a expressão popular, sendo o oposto lógico da burguesia e das estruturas de dominação que a favorece, o equivalente em quilate artístico e sofisticação intelectual. Os altos discursos de Foucault se restringiram a isso, num negativo estranho mas não paradoxal: numa realidade pragmática em que as ideias perdem sua importância e a cultura se desvanece, atirando mesmo contra o arrivismo ultra-cerebral do próprio Foucault, Lacan, Derrida, etc, que também eles são absorvidos rapidamente pela obsolescência de uma humanidade que cada vez mais é dominada por novas armas da velha estrutura estanque, coisa que Foucault não previu: o laconismo, o grunhido, a mutilação da linguagem e de qualquer refinamento, na diversão onipresente da imagem.
