quarta-feira, 23 de julho de 2014

O blues da estrada aberta



Ele não era o tipo que conta mais que uma vez uma história, e sendo isso uma demonstração de veracidade, ao mesmo tempo as circunstâncias do relato estarem tão definidas em minha mente me parece que nós dois dividimos uma lembrança por simbiose. Eu a fui reconstruindo e a re-inventando, a cada ano em que eu cumpria minhas tantas horas de divagação em pensar seriamente nela; e ele a apagou dos frágeis registros orais de nossa família quando morreu há seis anos. Agora ela apenas a mim pertence, em meus esforços por transcender o tempo e conseguir me colocar no lugar dele no momento em que a viveu, quase como se roubasse dele também essa experiência, quase como se com isso eu estivesse tentando de vez apagá-lo para sempre, que dele não restasse mais nenhum vestígio externo de que alguma vez existiu_ afora os tantos cacoetes e tantas poses de distração que ele tinha e começam a aparecer em mim após meus quarenta anos (não como se o corpo prestasse uma inesperada elegia; mais como se, por alguma justiça final, eu pudesse prever que eu também cumprirei a sentença de ser esquecido). Não acredito que seus outros três filhos tenham ouvido essa história; não me parece possível que ele tenha se sentado com eles na ampla varanda de sua casa de madeira no meio da floresta em franca degradação (degradação que ele mesmo ajudara a promover quando chegara lá, mas que a maturidade não mais que os novos arranjos de sua situação econômica proporcionaram a abdicação e a resistência em seus anos tardios); talvez seja mera vaidade minha, mas intuo que esses meus meios irmãos tenham outras qualidades que mereceram dele outras formas de intimidade, mas a imaginação apenas eu herdei dele; e só a imaginação conjunta, esse aquecimento intenso no qual ele construiu um mundo de fadas próprio para me situar nele quando eu era muito pequeno, quando ele me levava no bolso da camisa, me permitia voar por sobre os fios elétricos dos postes de luz, me contava sobre o povo dos homens formigas e sobre o Tarzan, poderia nos condicionar a que ele contasse a história para mim e eu a re-inventasse, a re-incorporasse, a possuísse. Os anos se passaram e nós dois perdemos muito facilmente essa intimidade da invenção; nos últimos anos, e mesmo antes, quando passávamos férias juntos, o silêncio se impôs de forma lamentável entre nós, como se aquilo tudo houvesse se tornado constrangedor para o que a distância frequente entre pai e filho separados criara para nos imprimir o desconforto.

Mas a história é assim. Aconteceu alguns anos após o divórcio entre ele e a minha mãe. Ele era jovem, então. Quando os dois se separaram, morávamos em um apartamento na capital. Ele e minha mãe tentaram de todas as maneiras se adaptarem, fizeram todos os recursos para salvar um casamento que só a cordoalha das tradições católicas e do senso social que imprimia uma severa carga de preconceito contra o divórcio simulava ver que era possível dar certo. Ele era um artista. Uma das minhas crenças mais profundas é que, se naqueles tempos difíceis lhe fosse oferecido atenuantes para os estudos e para a cultura, ele teria se tornado um grande músico, ao menos para os valiosos fins de enriquecimento pessoal. Mas sua vida sempre resvalara na grosseria mais insofismável, o que ele, como motivo para sobrevivência espiritual, demonstrara incrível talento para se desviar e permanecer tranquilo em seu oásis particular, em seu autodidatismo, em sua persistência na exorbitação das misérias da realidade. Faltava-lhe malícia, isso é o certo. O que eu mais amava nele era sua nobreza, sua abnegação_ estou atrasando o assunto, mas essas coisas devem ser ditas. Eu nunca o vi altear a voz, ou ser violento, ou perder a paciência; ele era sempre elegante em seu despojamento, em suas calças despreocupadamente rasgadas, em sua leveza diante as tantas vezes em que nem lhe passava pela cabeça afirmar diante esnobes o quanto havia lido, o quanto conhecia com profundidade sobre temas complexos, e o quanto era prenhe de experiências. (Após sua morte, o cordel das verdades que fui adquirindo sobre os interstícios de sua personalidade sempre me comoveu e assustou: dos trinta anos em diante teve lepra, cinco vezes malária, uma infinidade de vezes dengue; enriquecera sobejamente por três vezes e por três vezes perdera tudo; matara dois homens em legítima defesa em uma tocaia que lhe fizeram por questões de posse de terra; e de repente, uns anos atrás, me aparece na memória uma lembrança fresca de quando, em meus cinco anos, fui visitar-lo na prisão.)

Depois que as premonições se cumpriram, os dois se separaram. Eu tinha oito anos, e tanto minha mãe quanto meu pai tinham 27. Eram jovens demais. É difícil imaginá-los como adultos, difícil não perdoá-los. A vida naquela época era bem mais dura. Havia um infantilismo diferente do de hoje que deveriam combater para simular serem aptos para o mundo. Quando ele percebeu que deveria começar outra coisa, em um lugar bem longe dali, imagino o quanto lhe foi difícil virar as costas, o quanto lhe parecera que tudo se fechava de um modo insuportável. Ele partira para a Amazônia, sem um puto no bolso. Isso talvez fosse sua reação à depressão, esse elemento alienígena desconhecido que até então nunca se lhe havia apresentado. Ele era muito apegado a mim, e eu a ele. Um pai que inventa um universo particular para seu filho e atualiza suas mobílias zelosamente a cada dia demonstra em reverso o quanto se assemelha à morte a separação. Não é querer ser melodramático, mas aconteceu aqui algo catastrófico, algo que não se faz com duas pessoas que estão ligadas tão indissoluvelmente: mesmo para qualquer padrão racional que eu tenha aprendido em meu futuro de cidadão sarcástico, isso me parece tão desonesto por parte do acaso ou da potestade quanto a obstrução súbita do direito da inocência: um acidente de avião, uma mutilação deformadora causada por uma colisão de veículos, uma violência sexual, queimaduras corporais de terceiro grau, despatriados de guerra. Ele na certa imaginava sem saber o quanto eu sofri, e eu, em minha idade, por mais que intuísse, era incapaz de julgar o ato senão como uma suprema traição.  De novo as palavras tem uma leveza acachapante para que eu diga que instintivamente tivemos que matar um ao outro para podermos seguir adiante. E matar alguém com esse peso, sabendo que para todas as outras coisas, principalmente para a injustiça do benefício de alteridades sem a mesma intimidade, esse alguém continuará vivo, faz parte da ironia brutal da coisa.

Pois agora eu conto. Essa é a história, na linha reta mais possível a que eu posso me ater. Ele viajava rumo à floresta, porque alguém, um de seus amigos de juventude, lhe dissera que lá é que era o local certo para um homem sem mais nada além do chapéu recomeçar. Isso era nos anos 80 do século passado; uma época que mesmo eu usufruindo do pouco de cor que persistia dos poderes da infância ainda recordo como em preto-e-branco, ou naqueles tingimentos evanescentes em que ficam as pessoas nas fotos como prenúncios de seus próprios arrependimentos tardios por terem levianamente se submetidos à contraprova cabal de que desperdiçaram suas únicas vidas. Os anos em que o país era um projeto sempre atrasado pela falta de catarse histórica dos pulos contínuos que dava entre um coronelato cheio de injustiças a outro. Imagino o país como uma grande estrada cortando as variações de relevo geográfico, com ele emprumado na poeira do início sem uma coragem genuína além da que vinha da certeza de que nada poderia piorar mais, hora e outra surgindo pelos lados casas e praças que apesar de compor as alterações de cada cidade e povo no caminho até seu destino, eram cobertas por aquela aura comunal da inércia do fechamento político de cinquenta anos de ditaduras. Ele deve ter subido pelo país de carona, olhando o cenário pelas janelas ou pela carroceria das caminhonetas e caminhões. Eu empreendi essa viagem uma década depois, e somente parte do caminho podia ser transitado de ônibus. Ele para em um povoado no Mato Grosso. É chuva que não acaba mais. Ele começa a se assustar com a chuva, a chuva diferente da norma que conhecia, uma chuva que era como uma entidade viva, como uma presença primordial, uma cortina orgânica mesozoica com a qual só se adaptaria na floresta quando aprendesse de vez que se podia aturá-la nos interstícios de suas tragédias e doenças, respeitando os limites das privações que sua divina indiferença impunha sobre os tantos que moravam nela. Quando eu o vi, ele disse que essa chuva contínua era como o interior da barriga da baleia de Jonas. Nesse povoado havia um circo mambembe, desses bem pobres: palhaços alcoólatras, trapezistas sem nenhuma audácia, um chimpanzé que parecia ter evoluído ao ponto suficiente de dividir o mormaço de humor de aposentadoria e a feiura que havia nas caras de todo mundo. Ele passa a dormir sob uma das lonas, ao troco de ajudar a limpar a bosta do cavalo, ou limpar o lavabo conjunto, ou afastar com a pá o excesso de água para não atrapalhar as famílias que iam ver o espetáculo nem um pouco por pena mas por essa consciência de consumidores que para tudo o mais não funciona mas que quando surge a oportunidade de por à prova do ridículo esses pobres palhaços forasteiros se torna depreciativamente rigorosa.

E é no último dia que a coisa acontece. Quando estão desinstalando o circo para irem embora, ele vê o violeiro-mor da tradição surgir não sabe ele de onde e se postar debaixo da lona principal, como se estivesse se preparando com seu violão para dar um show privado para os funcionários itinerantes. Era como ver Robert Johnson, como um americano conhecedor de música se deparar com o maior bluseiro da história. Entre os violeiros existe a mesma tradição da alcunha, assim como entre o jazz temos o Duke e o Count, e entre o blues temos o Blind Joe Reynolds e o Big Bill Broonzy. Os apelidos entre os violeiros são da mesma lavra de ambiguidade depurada de preconceitos e pejorativismo, ainda que sejam inventados justamente para facilitar apontar a pobreza, o defeito, a cor da pele ou fazer troça da ambição nunca alcançada dos músicos. Assim, temos o Pardinho, o Xavantinho, o Caçulinha, o Cascatinha, o Chico Rey, o Milionário, o Leo Canhoto, o Sulino, o Caçador, o Caboclinho. E ele via ali, à sua frente, o Carreiro, o maior deles, uma lenda viva, um motivo de reverência entre todos os seus amigos de música, um notório tocador de guapas e milongas e arrasta-pés, um prodígio que conseguia solar com o instrumento como se estivesse colocando montaria em um cavalo bravo por ele amestrado, daí seu nome, Carreiro, porque também, por não haver um mercado fonográfico seguro para os tantos discos que gravou, ele fora caminhoneiro, tropeiro, e o diabo. Ele se aproxima, trêmulo, sabendo que as forças lhe faltavam mas que ele jamais poderia deixar passar esse milagre, ou essa alucinação. A história se desenvolve com os dois cantando juntos, alguém tendo emprestado um violão para ele. A lona protegendo-os e à minguada plateia. Bebendo pinga e comendo os petiscos servidos pelos assistentes animados. Da única vez que me contou isso, em meu deslumbre, vi com absoluta nitidez quando Carreiro lhe deu a honra de uma alcunha, dizendo que ele tocava e cantava tão bem que dali em diante seria chamado de Milton Viola. Parte disso tudo talvez não tenha sido assim, mas é assim que sempre me pareceu, um dos dias mais importantes da nova vida de meu pai, de seu renascimento. Mas isso aconteceu, sem a mínima sombra de dúvida. Quando eu cheguei na cidadezinha onde ele se instalara, dez ou doze anos depois, após olhar com atenção para cada cidadezinha de passagem pelo lado se não havia um circo com palhaços feios, eu anunciei que procurava pelo Milton Viola. Ninguém soube me dizer nada. Me sentei desconsolado na mureta de um bar, pensando que atravessara 3 mil quilômetros por nada. Daí me veio uma iluminação; talvez a história não fosse somente minha; talvez ele resolvera seculariza-la; perguntei se eles conheciam onde morava Tião Carreiro. Eles me apontaram, com sorrisos de admiração e familiaridade, a rua há tantas quadras onde ele morava.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O dia mundial da resignação



Vai parecer esperança, mas não passa da velha resignação. Hoje acordei com vontade de dar um basta em todas as reservas. Acordei de um sono completo, com quarto envolvido nesses escuros absolutos que me dão anseios de procurar algum indício de luz de que não esteja cego, com um lençol macio, com o travesseiro usual entre as pernas e o outro caído manhosamente de lado, sem uso. Foi um sono reparador, sem sonhos, e por isso não teria motivos que de súbito, agora pela manhã, diante o computador, eu fosse assolado por esse gigantesco tédio. Faulkner está errado, pensei, Faulkner é um fingido; como acreditar que o homem sobreviverá?, como acreditar que o homem é bom? Vai ver é porque meu trabalho de ficção não me esteja parecendo nada promissor; palavras de mais, adjetivos que não se desgrudam de mim, advérbios que escondem a obstrução de uma coisa genuína. Leio o que escrevo e parece que sofri uma involução, voltei a escrever com aquela paixão adolescente sem consequências do colegial, que só cativava por procuração professoras piedosas, que queriam elas mesmas brincar que acreditavam que algum de seus alunos levavam a promessa. Um analfabetismo no final das contas. Vontade de desistir; a felicidade está mesmo na música perecível; vontade de ser um cantor sertanejo, vontade de me assumir da forma mais franca possível que não tenho nada, ser canalha de cara limpa e acolher os dividendos da onomatopeia. Criar uma musiquinha para celular, se isso ainda é viável. Vontade de ganhar um prêmio acumulado na loteria federal, e gastar ostensivamente o resto de vida jogando para todos os desafetos a arte da corrupção na prática, e não tentar fazer isso através do placebo pobre da escrita. Ser um Edmund Dantés que inventa a sua própria vingança, vai criando-a no momento em que faz dobrar diante de si os joelhos dessa criaturinha levianamente vendível que é o homem, esse homem que o bêbado Faulkner, mal se aguentando em pé no palanque do Nobel, mentiu acreditar.

A minha vontade hoje é ser desbragadamente ingênuo, não me proteger contra nada. A eterna proteção exaure. Dá vontade de, de uma vez por todas, me resignar diante esse otário cibernético, máquina, presidiário ou quem quer que seja, que todos os dias, infalivelmente, deposita em minha caixa de e-mails inúmeras tentativas das mais idiotas extorsões. Aumentar meu pênis, receber uma bolada de um milhão de dólares, enviar auxílio para algum senhor de cômico nome mutante entre indiano e angolês, encontrar aquela garota ninfomaníaca que me descobriu e me envia notificações lúbricas de imediata intimidade, requerer meu prêmio (mais uma vez, que sujeito sortudo eu sou!) na loteria inglesa (!), comprar um imóvel promocional em Recife, ir a uma festa literária para a qual me convidaram com honras (até isso!). Vou abrir esses e-mails e vou seguir diligentemente cada passo exigido por eles; chega. Hoje é meu dia da resignação. Vou assistir a esses programas de adivinhas que passam de madrugada na tevê aberta, e ligar para o número embaixo, mesmo sabendo que o programa é gravado, para exigir meus 150 reais, e quando me atrasarem de propósito com musiquinhas de Kenny G., ou gritarem em meu ouvido que tem novos enigmas que podem aumentar o dinheiro, vou esperar com paciência, até que a tarifa do "serviço" telefônico ascenda aos 4 dígitos e eles me façam perder, "ahhhh, lamentamos que você não tenha visto quantos dentes tem o desenho do bode; da próxima você leva". O que pode acontecer comigo? Perdas econômicas? A vida não é isso, além de todo retumbar dos bumbos da filosofia de boteco? Que eles me roubem. Quem sabe a verdade esteja na profunda desproteção; quem sabe Faulkner tenha visto com sinceridade e seu texto adocicado do Nobel seja canalha por osmose da falta de consolo cotidiano. Se essa entidade se esforça tanto para me enganar, se esforça religiosamente para isso, se em sua distância ela só pense no serzinho passível de vilipendiação que eu sou, há nisso uma forma evoluída de amor. Dizer assim provoca até arrepios na nuca, mas, no fundo no fundo, qual o argumento contrário? Vou agora mesmo responder à Samantha, que tremula com os seios voluptuosos quase para fora do top de ginástica na tarja ao lado da caixa de e-mails. Oi, estou vendo que você mora em Goiânia, a mesma cidade que eu, e, quem sabe, poderíamos nos encontrar para um drinque. Mas não sei se vou conseguir me conter com você! Me digam, por que não acreditar nela? Mesmo que eu tenha a absoluta certeza de que é um computador que me joga essas frases pré-formuladas e que um nível de tesão tão engajado às oito da manhã de uma terça-feira é algo que nem os anjos de Jó seriam capazes, mas... considerem o altruísmo que fundamenta a coisa, a fé de quem planejou, as horas de trabalho que nada devem à concentração e o abandono de um cientista diante sua pesquisa, ou o compositor diante sua partitura. Oi Samantha, como vai? Não moro em Goiânia, mas posso chegar aí em uma hora e meia, é só me dizer que horas que é o encontro. Obrigado por ser tão atenciosa, mas acho que exagera em seus elogios; não sou essa tentação física que você acredita ver; tudo não passa da generosidade de seu olhar. Mas devo avisar que eu é que fico um tanto assanhadinho depois de alguns drinques, ainda mais diante uma loira monumental como você. Minha conta bancária? Lá vai... 

Me recordo de não sei qual estoico, se na literatura ou na vida real, certa vez disse que era um encanto que às vezes um beija-flor viesse lhe atazanar as orelhas ou ficasse com o bico próximo a seu ombro; "não é enternecedor que um animalzinho destes te elogie ao confundir você com uma flor?" Claro que não sofro de uma estrondosa carência desse porte, mas hoje estou disposto a considerar que a ternura sofre uma brutal evolução. Não é enternecedor que um programa estelionatário na corrida louca da vida moderna escolha aleatoriamente você como remetente de todas as horas de zelo de quem o criou? Quando eu for me encontrar com a Samantha na capital hoje, vou sentir mais uma vez isso, como sinto a cada vez que tenho que enfrentar uma cidade grande. A vontade de assassinato que existe por trás de cada buzinada. Uma vez fui de carona com um amigo; ele parou diante a garagem de um prédio o tempo suficiente para retirar as malas do bagageiro para que sua esposa descesse, e um senhor esperou dentro de um carro do outro lado da rua, com elegante parcimônia, para poder entrar na garagem, até que esse amigo entrou no carro e deu a partida; então, o senhor começou a xingá-lo, filho da puta, caipira, vai tomar no cu seu bastardo, seu corno. O senhor fez isso com um ódio tão puro que o que antes era sua completa inofensividade invisível da qual eu nem reparara, agora eu o via como um guerreiro tribal psicopata que iria de uma hora para outra retirar uma pistola do porta-luvas e nos transformar a todos em estatística. A fuga da estatística no mundo moderno é nossa atual forma de ternura, me diz a voz de meu bêbado interno especialista em filosofia de caneca. E como fazer isso senão através da única coisa que sobrou de um depauperado aprendizado de amor ao próximo? Através da catarse do trânsito, ou da carranca no elevador, ou da virada de rosto em negação no shopping, ou da desconfiança esquizofrênica nas filas do banco da qual temos que nos comunicar em silêncio eloquente o quanto somos unidos no respeito sagrado em não tentarmos furá-la. Um dia, quando minha esposa passava por uma convalescênça logo após uma cirurgia cardíaca, eu resolvi aliviar a tensão inútil da espera indo à livraria de um shopping próximo, e na fila do caixa, onde eu via que havia apenas eu, um sujeito cortou vindo de não sei de onde por mim me dizendo que não iria aceitar que eu passasse na sua frente, ah, isso não!, eu pensei que se eu fosse um cidadão daquele mundo, seria lógico meu agradecimento por ele me oferecer daquela forma um calor humano de consolo, por mais estranho que tenha sido tal contato. Se não nos matamos após a buzinada e o xingamento, é porque nosso amor era legítimo, pois fugimos à estatística. Não seria impossível que o senhor e meu amigo se sentassem no final do dia para uma cerveja, e começassem uma forte amizade. Um dos personagens de meu romance despirocado é um conceituado especialista em Marx que deixa, de hora para outra, sua cátedra em uma universidade alemã e parte para um povoado esquecido do Caribe, e que mais tarde se descobre que seu desaparecimento aponta para a coincidência do surgimento das mais populares canções valenatas do rádio. Há um longo discurso com sotaque carregado de como tudo o que ele ambicionara no campo da escrita erudita se cumprira na composição das músicas banais de refrão fácil e que só falam do único sentimento que ainda traz um pouco de perseverança: o amor. Ele era um importante mantenedor da perseverança biológica da espécie, ele se julgava orgulhosamente um promulgador do equilíbrio social. Mesmo que houvessem facadas de bêbados nos bares dos povoados, sob o som de suas músicas, mas isso era a natural exacerbação que vem com derivativos da homeostase. A estatística não conta, a estatística é a mentira séria de uma derrota que nunca virá, que só existe no papel. Blá-blá-blá.

Por isso hoje minha vontade de cair em todos os engôdos, sem me sentir humilhado. Acessar os links sobre as ditas "celebridades", e confiar que elas são mesmo divinatórias. Fazer um mapa cabalístico das trivialidades delas e ver nisso um plano profundo da providência.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O embaraço das crinas



Li o último texto de Vladimir Safatle no site da Carta Capital ontem, logo após ter feito meu vasculhamento habitual no Facebook para a cata sistemática de notícias trivialescas. No Facebook, vi um diálogo entre duas mulheres da minha cidade, uma delas anunciando a necessidade de contratar um empregado, a outra oferecendo o filho para a vaga oferecida. Tal diálogo era, como o costume, um prodígio do autismo do analfabetismo funcional que se vê em 99% das ocorrência nas redes sociais. Ainda assim, era espantosamente difícil de entender o que as duas mulheres escreviam. Chamei minha esposa para ler, eu já estando quase chorando de tanto rir, e ela também caiu na gargalhada, logo após passar a incompreensão natural diante o cubismo da coisa. As palavras usadas pelas ditas cujas chegavam a ser involuntariamente quase obras de arte de uma ainda não de toda explorada forma de expressão verbal. De certa maneira dava uma estranha inveja por elas serem tão articuladas e conseguirem se entender tão bem. Passou pela minha mente uma fagulhar dúvida se elas não estavam de brincadeira, mas é claro que elas jamais ouviram falar do Monty Python _ talvez uma inversão da cena do carcereiro corcunda e do carcereiro magricela em A vida de Brian, que, às portas fechadas, discutiam eruditamente filosofia e altos assuntos, mas em suas atividades de algozes eram exemplarmente bestiais e onomatopeicos. O Facebook já não me alegra mais. Antes era um vício; acessava-o de hora em hora, mas não tanto nas esferas mais elevadas de um Milton Ribeiro e de um Idelber Avelar (que para a cultura as redes sociais não me servem em nada: o que não substitui o livro só me cativa por sua inerente patetice). Mas depois vira como todo espetáculo circense demorado: os palhaços perdem a graça, os bancos de madeira passam a pressionar o glúteos, os leões já se revelam gatos apalermados pela magreza e maus tratos, os malabaristas deixam de fascinar pelo talento de enganar a gravidade e passam a intuir tratados sociológicos sobre o sub-emprego; até os cavalos brancos, sobre os quais quase é impossível se quebrar a beleza plena de seus eufemismos, revelam aqui e ali nas crinas a certeza de que foi usado um shampoo inapropriado, comprado a preços promocionais em queima de estoque de loja veterinária. No Facebook (que me faz pensar esse emprego recorrente de um F, assim maiúsculo, para uma empresa que, ao contrário das coca-cola e das volkswagen, ou das kolinos e das durex, enfrentam uma renitência em se tornar realmente um adjetivo popular: esse F em caixa alta me assinala como a premonição de uma meteórica derrocada nesses tempos em que marcas bilionárias se orkuteam_ vai esse epitáfio para você, orkut, ou Orkut, olvidado que nunca utilizei), também a exposição demorada me cansou. Atualmente pouco ligo o computador, para falar a verdade, e o Facebook (nunca Face, para mim) já esgotou todo fetiche que tinha para me oferecer. Algumas vezes a Dani ainda me mostra algumas pérolas amarelecidas pela previsão, como um veterinário formado na mesma faculdade federal que eu, e dono de um pet-shop local, que perpetrou um texto em resposta a uma acusação postada na rede social de uma cliente inconformada por um cheque depositado antes da data, que melhor seria para a gramática e para a manutenção da já tão combalida imagem intelectual dos veterinários que ele pagasse os juros do cheque especial da cliente em vez de se lançar naquela aventura linguística (só para dar um gostinho, ele se referia, enraivecido, várias vezes sobre sua loja como "IMPRESSA", assim mesmo em maiúsculas, querendo dizer... (pasmo!), empresa_ toma agora as consequências do descaso mercurial contra as aulas de filosofia e português do primeiro ano, hijo de puta! [nosso professor de filosofia era um espanhol de elegante e inabalável estoicismo diante a inconsideração]).

O diabo é que faleceu João Ubaldo Ribeiro hoje. Nunca li nenhuma das ficções de Ubaldo, mas li um volume de crônicas jornalísticas dele, acho que chamado Sempre aos domingos (não sei de onde tirei que se chamava Outubro ou nada, mas que pesquisei no Google e vi que tal título é da banda Bidê ou Balde_ misturei com Ubaldo?). Neste livro há uma crônica que fala de sua ansiedade quando lançou seu grande romance, Viva o povo brasileiro, e de como ele atormentava seus amigos todos os dias na esperança de que eles já tivessem concluído a leitura da obra. Um deles lhe respondeu: "Mas Ubaldo, o livro é um calhamaço de 700 páginas, vai levar um tempo". A crônica me fez rir muito e pensar que Ubaldo era um grande escritor, e que eu deveria ler seu grande livro. Mas nunca li. Talvez o estalo surja, não devido à morte, mas por esses interesses repentinos que já me veio em ocasiões inesperadas e que sempre me faz ler coisas não programadas, sequer suspeitadas. Procurei na Carta Capital, antes de escrever isso aqui, a mesma Carta da crítica de Safatle sobre o crime tradicional milimetricamente mantido contra a educação nacional, e até então não vi qualquer menção à morte do que pode se dizer seja nosso maior escritor da última metade do século passado_ talvez assim que eu concluir esse post e voltar lá, a machete já esteja em letras garrafais, como um conserto súbito pelo inexplicável esquecimento. Espantei-me por ver que a Veja digital dedica o mesmo cabeçalho que dedicou aos dias da Copa a Ubaldo; até me enterneci com isso. (Recordei do Jô Soares contando a uma emocionada filha da Elis Regina como, ao chegar nas lojas de discos de Nova York, que todas tem uma estante dedicada exclusivamente a Elis_ coisa que, ele afirma, nunca viu no Brasil_ ele arrumava os cds da antiga amiga, recolocava em ordem alfabética ou de lançamento, alisava as capas dos vinis.)

Será que para isso eu nunca obterei a cura: o espanto de que uma simples lesão de um jogador de futebol brasileiro mereça dias e dias de acompanhamento em destaque em todas as mídias, mas a morte de alguém como Ubaldo passe pelo esquecimento, mesmo que momentâneo? 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A pesquisa, de Juan José Saer



A literatura muitas vezes descamba para a filologia dialógica mais pura entre amigos. Quando isso acontece, quando eu seguro em mãos um livro cujo tema de eixo para os outros temas movimentados mais identificáveis é a amizade em seus profundos matizes, me alargo mais na poltrona e relaxo de prazer. Analisando a isca desses meus trinta anos como leitor acirrado, vejo que grande parte dos livros que procurei por instinto ou por filiação direta trata da amizade. Nada de Huckleberry Finn ou Kim. O que estou falando é dos longos diálogos e intensos silêncios que permeiam a reflexão individual movida pelo conforto do companheirismo que existe em Montanha Mágica e Dias de Finados. A natureza humana, enfim, é o que mais vale, sendo que sua latente extraterrenidade entra na intuição das ideias que não são passíveis de expressão verbal, daí que um amigo console o outro que está alquebrado na cama não com palavras, mas com uma dança no quarto de hospital; daí que no extraordinário romance A pesquisa, de Juan José Saer, dois amigos do círculo de intelectuais são vistos sob um céu de iminente tempestade, sentados cada qual em silêncio em suas poltronas, parecendo "ter resolvido [] mergulhar no rio daquilo que lhes é exterior e deixar-se fluir, tranquilos, na correnteza". A amizade em sua corporificação mais extrema, sem muito zelo e energia juvenil, mas como o sucedâneo plausível único para o desabrigo dos perigos do mundo. A amizade justo para os que precisam dela e pela experiência alcançada são os que estão à altura de seu merecimento: os velhos ou os que estão de alguma forma na transição transfiguradora de um grande cansaço.

Como tudo na existência parece estar do avesso, atendendo a um humor de uma potestade sarcástica, a amizade tem suas armas para inventar a sensação de ordem. Daí nas reuniões de amigos haver sempre uma charutaria de qualquer tipo, um refinado maquinário mental alimentado por vinhos, cigarros, cafés, filatelia, para promover na sala fechada a impressão de segurança que não existe fora da parede de fumaça e de paletós pendurados nos cabides. E no romance de Juan José Saer um desses sucedâneos causados pela antiga amizade é tanto a literatura quanto o crime. Os amigos ouvem uma história recente, contada por um deles, de 28 velhinhas assassinadas no prazo de nove meses em Paris, e essa narrativa é entrecortada pela pesquisa que fazem sobre um manuscrito de um romance de oitocentas páginas encontrado no espólio de um outro amigo. O leitor vai sendo aos poucos aceito por essa comitiva fechada, vai sentindo o odor do charuto Romeo & Julieta, vai olhando a paisagem da costa da Argentina quando eles viajam de barco durante a investigação do manuscrito. Tanto o romance herdado (que eles não sabem ao certo quem é o autor), quanto o assassino das velhinhas procuram a mesma coisa: um sentido que exorbite a pasmaceirice cotidiana, um gesto efêmero mas que resulte em alguma reação de truculência contra o relógio biológico sem alma em que todos estão inseridos em prontificado determinismo de nascimento e morte, sem que nada possa ser feito contra. O assassino que anda pelas ruas de um inverno excessivamente rigoroso parisiense, e o autor indeterminado que narra as diferentes visões da tomada de Tróia do manuscrito, estão cada qual burlando o caos cosmológico, imprimindo a suas maneiras uma sensibilidade elétrica contra o vazio sensitivo que atravessa toda matéria e todo espaço. Estão ambos brincando como duas crianças que desaprenderam o desespero e confeccionam em particular um mundo próprio em que exercem suas deidades com mais justiça que o deus inexistente. E por isso são tão meticulosos e paranoicos, são prontificados a morrerem pela causa criada_ e por isso o amigo finado que deixou o manuscrito, em seu caráter dissipativo, parece não ser o real escritor dessas páginas. Um escolhe o assassinato violento e covarde para elevar a sua matemática à solitária plenitude contestatória, o outro escolhe o retorno ao tempo, o recolhimento em uma lógica insular própria. Há longas e propositais descrições de minúcias da paisagem feitas por Saer, plantas tropicais mostradas em seus mais detalhistas pecíolos, cantos de pássaros em seus tons instrumentais mais particulares, como a dizer o quanto pode ser requintado o extravasamento exagerado de nossa prisão sinestésica.

O romance tem muito desse típico argentinismo cerebral que não pode ser mais criticado por ser uma assinatura geográfica. Bebe de Henry James, de Faulkner, e de uma solidão em que se treinou a fundo particulares néctares de percepção que tornam a voz de Saer tão diferenciada. Um livro soberbo.

sábado, 12 de julho de 2014

Isso há de não ser nada



O vexame da seleção brasileira_ como se convenciona chamar um fracasso há muito tempo anunciado_ serve de pedra de toque para analisar variada gama da identidade do Brasil; o que mais me motiva a escrever essas poucas e cansadíssimas linhas é o que essa levada no cu da prepotência nacional revela na nossa literatura. A literatura brasileira atual é um símile perfeito de toda acintosidade canalha, de toda falcatrua pega-bobo, de toda hipocrisia e cinismo midiáticos que vemos no universo do futebol pátrio. A começar pela insistência dos ditos "jovens grandes autores do momento" em focar os temas de suas relevantes obras no futebol. Coméqueé? Sérgio Rodrigues e não sei mais quem escrevendo seus intragáveis romances sobre futebol. Daniel Galera escrevendo um longo e raso ensaio sobre o Felipão em uma revista Piauí, e olha só os dez gols selados nesse sábado para confirmar que um escritor de porte tem que ter uma perspicácia premonitória para não passar como o bobo da vez quando todos os seus lances cerebrais caem no vazio da bruta realidade. A sorte do Galera é que ninguém aqui neste país liga para literatura. Ninguém provavelmente leu seu retrato de garoto tiete da bola do técnico da seleção. Eu mesmo não li_ não leio nada sobre futebol, quanto mais pretensa literatura sobre.

Não chega a ser astúcia da história o eloquente rebate que o ufanismo nacional teve com esses dez gols tomados pela goela. Mas fica a impressão de que há por detrás disso uma compensação cosmológica, um imenso ensinamento místico. Mesmo que realmente o universo esteja, de uma hora para outra, se importando com nós, brasileiros, nos falta, lamentavelmente, tutano filosófico para aprendermos com essa dor. Logo logo estará tudo no mais imolestável equilíbrio. O que até o Galvão Bueno, o mais famoso arauto de nosso dínamo superlativo de "País do Futebol", teve que reconhecer hoje que na verdade dura e incontornável, "a torcida estava mesmo vaiando a seleção", em poucos meses esse descontentamento traumático já estará assepsiado, toda a severa auto-crítica jogada em nossa cara já terá sido apaziguada pela doçura dos futuros planos de redenção e pelos cânticos de glória soltados pelas poderosíssimas mídias de informação do país. Eles haverão de achar uma desculpa, um lenitivo, uma resposta convincente, um emplasto que cubra os sinais por demais transfiguradores da ferida. E estaremos então, refeitos e impávidos, de volta. Nós, os Brasileiros, os Reis do Futebol, o Povo Mais Cordial do Mundo, os Sempre-Sorrisos. As propagandas de cerveja e do banco Itaú há de nos oferecer a resiliência. Não nos desesperemos: haveremos de continuar colocando toda a torcida argentina dentro de um banheiro público, e em seguida alçando essa prisão simpática com idióticos hermanos para um navio, que em seguida será lançado em um foguete e explodirá no espaço. Voltaremos ao nosso velho e confortável infantiloidismo tosco, regido pela fé criada do nada de que o futebol é nossa libertação, o nosso avatar, a nossa política mais pia e comunitária. Afinal, vivemos no país que nos ensinou a chorar de emoção diante as crianças no balanço e os pais arianos, mesmo que pretos, dos comerciais de bancos. Para um país sem temas de importância, sem traumas, sem mentes acima da média regrada, é natural que tudo que se pretenda escrever aqui verse sobre a bola.

Isso há de não ser nada.

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As primeiras providências de minha mãe ao ver seu salário de defensora pública dobrado foi comprar presentes para todo mundo. Para mim, o mais inusitado: um telefone celular Galaxy S4_ se não me engano. O pacote chegou por um entregador que faz viagens diárias entre a minha cidade e a dela. Ninguém entendeu o porquê ela inventou de me dar um presente assim. Eu, que notoriamente, se posso cogitar que os vizinhos e os que se assombram comigo na família saibam alguma coisa, sou visto como uma espécie de neandertal semi-controlado e semi-amistoso. Pois bem: é um presente, afinal das contas. Já não uso as técnicas de argumentação hegelianas sobre as ações da minha mãe. Aceito e pronto: me mostro feliz, telefono de volta para dizer que adorei o mimo. Desfiz de meu celular de há dez anos, um Motorola branco que todos curtiam comigo dizendo ser um estojo de maquiagem. Trata-se, esse Galaxy S4, de uma grande merda (desculpe, mamãe!). Tentei me empolgar com a coisa, mas o que a coisa é além de uma telinha de cores e uma visualização terrivelmente insatisfatória da internet? Agradeço à dona Telma, minha progenitora, por ter provado por esses caminhos que fiz uma ótima escolha primordial em gastar grande parte de meus fetiches de consumidor com os livros. A humanidade caminha à toda para a suprema idiotice se acha mesmo que uma bosta como um aparelhinho destes mereça o preço que tem e o potencial de ganância que desperta. Uma vez, quando era um rapazola raquítico, fui assaltado e o ladrão levou meu relógio. Eu sempre odiei relógios e aquele foi o único que tive_ presente, por sinal, da minha mãe. O ladrão puxou a caixa do relógio e ia a levando sem a pulseira, quando eu gritei para que ele parasse e a entreguei. O cara ficou desconcertado e me agradeceu. Foi um alívio. Não digo que ficaria feliz que esse celular fosse roubado, na idade defensiva em que estou, mas... cogito.

Mas uma coisa foi boa: o aparelho fica nas mãos da minha filha, que também se cansa desses baluaques, mas hoje ela mexia nas músicas que eu gravei nele. Eu gravei essas músicas para conseguir suportar os sessenta minutos de musculação que faço, usando o celular para escutar música pelo fone de ouvidos. E ela ligou a música que eu coloquei como toque de chamada, a Pinturas em Exibição, do Mussorgski. E a Júlia, minha filha de três anos, correndo pela casa com a caixinha tocando a maravilhosa sinfonia de Mussorgski, pára na minha frente e diz, analiticamente: "Essa é uma música maldosa, papai". E mete uma frase truncada em que eu apenas entendo que ela fala do livro sobre bruxas e gnomos que costumo ler para ela. É isso aí, nada contêm os poderes da imaginação. Nós, humanidade, sobreviveremos.

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Li por recomendação A pesquisa, de Juan José Saer. Sou obrigado agora a ler tudo de Juan José Saer. Que livro! Que escritor soberbo. Hei de escrever uma resenha sobre esse romance nessa semana.