quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Filha do Sr. Vinteuil, em Casa



Republico estes dois textos meus sobre Em Busca do Tempo Perdido, no blog. Planejo retornar ao ciclo de Proust esse ano, lendo esses sete livros que compõe _cada vez acredito mais_ o maior romance de todos os tempos. 

Há um momento em No Caminho de Swann em que Swann, seguindo num passeio junto à família do narrador do romance, debanda-se do grupo para ir apertar a mão do velho sr. Vinteuil, um homem caído em desgraça na sociedade local. É uma das lembranças que fazem parte da infância do narrador; a típica ingenuidade em lenta aproximação de Proust, o seu maravilhoso senso de estranhamento que guarda as verdadeiras revelações para núcleos insuspeitos da narração futura, vê essa inusitada atitude de Swann através de uma cópula de concepções temporais que se bifurcam na admiração infantil pela esporádica presença elegante de Swann nos jantares promovidos por seus pais, e no quase onisciente conhecimento que irá demonstrar ter de um Swann mais complexamente real antes do narrador nascer, período o qual centra toda a longa segunda parte do romance. E o narrador, que de imediato não conhece quem era aquele outro senhor assustado e erradio, que parecia pedir desculpas miseráveis a Swann por ter sido flagrado transitando por suas terras, fica sabendo que esse sr. Vinteuil era uma espécie deplorável de homem tratado com um cautelosa indiferença pela cidadezinha de Combray, mácula que o narrador percebe na impavidez estampada no rosto de seus pais por Swann tê-los deixado ali afim de tratar com tal sujeito.

O sr. Vinteuil era um fracassado, alguém sob o qual pesava uma peremptória condenação de pária já há tanto tempo que a sociedade se fechara de modo decisivo a qualquer chance de reavaliação moral, a ponto de esquecê-lo, e a atitude de Swann_ cuja admiração tornando-se progressivamente consciente e crítica do narrador permitia saber que era um gentleman milionário que sempre transgrediu a etiqueta de postura imposta pela classe social de seus iguais_ despertava as desagradáveis sensações de que esse fantasma resgatado do reino dos mortos, naquele efêmero momento, estava destinado a desaparecer de vez e não incomodá-los mais só quando morresse definitivamente de corpo inteiro. E é isso que ocorre mais tarde no livro: o sr. Vinteuil livra-se de sua sina de deserdado, desnuda-se de sua imensa cara de derrotado, e livra a sociedade de ter-se que às vezes deparar-se com ele, morrendo. Até então nada nos é revelado sobre o sr. Vinteuil, além da cena incógnita em que um reverencioso Swann comete a falta de delicadeza de interromper pessoas respeitadas para ir apertar-lhe a mão e provavelmente aliviar seu constrangimento afirmando que suas terras estariam sempre à disposição para que ele passeasse por elas. No anoitecer em que o sr. Vinteuil é enterrado, o narrador, em sua fase criança, por um jogo aleatório, encontra-se deitado atrás de uma árvore, ao lado da janela da casa do sr. Vinteuil, e vê quando a filha única do finado retorna para casa do cemitério. E aí começamos a saber uma das causas da marca humana do sr. Vinteuil: uma outra moça entra na casa, e segue um diálogo deslumbrante, um desses procedimentos que tornam Proust indispensável_ que se espalham pela prosa transbordante de Proust como inserções do sublime. Tal moça é a amante da filha do sr. Vinteuil; ela pega a foto do finado que está por sobre o console da lareira, cospe nela, e faz a outra_ a filha_ repetir o gesto, que se encerra com as duas se beijando pelo chão. Estavam livres, a amante diz; livres! Não haveria mais o julgamento do sr. Vinteuil sobre a homossexualidade da filha, seu amor excessivo, sua dedicação obsessiva pela filha. Enquanto a amante fala, e a filha teatralmente simula estar acima da tristeza pela perda do pai, o narrador _ já com a onisciência vinda do foco de luz que quase esmagava Proust em seu quarto inviolável em que sondava esse arsenal fictício-memorialista nos anos tardios de sua breve vida_ suprime o senso comum do leitor avisando para que não se repudiasse tão apressadamente a ingratidão da filha; era só dessa forma que ela poderia expressar seu amor pelo pai, a sua verdadeira dor. Era só através da máscara que ela poderia confeccionar o pai genuíno com o qual repartira todos os momentos de felicidade e desapontamento, de excesso de vigilância amorosa e solidão insondável, as brincadeiras dadas ao jeito idiossincrático do pai quando ela era criança, as forças de readaptação à contingência da maturidade que seu assustado pai se submetia enquanto ela necessariamente ia se desapegando de seu quarto de bonecas e se tornava uma adulta. A atitude de cuspir na foto, de transgredir a memória do pai com o coito tão condenado por ele, de irreverência diante sua morte, é a mesma que subjaz ativamente não só pela obra de Proust, mas por toda a sua vida. Não sendo espiritualmente um dândi, Proust era assíduo nos salões da alta sociedade, mas sua atitude do esnobe, nas palavras de Benjamin, "não é outra coisa que a contemplação da vida, coerente, organizada e militante, do ponto de vista, quimicamente puro, do consumidor".

A heresia a qual o narrador alerta o leitor para que não caia acriticamente em seu dedo apontado à filha, é o gesto sacramentado mais profundo em que a filha se imuniza do mundo das aparências para poder salvaguardar o seu amor pelo pai_ é sua postura assumida de "consumidora", de partícipe superficial, de reação ativa diante a coreografia que se espera que ela faça com os movimentos simetrizados das danças do esteriótipo social. Nessa  conivência externa, na verdade, se expressa a mais pura indiferença às banalidades do cotidiano, pois nela se firma a sua falta de fé na revolta contra a "vida que se exibe", sendo que tudo que realmente importa e tem valor torna a ser a existência das memórias paternas. A exuberância exaustiva do exterior, na qual ela tem que se manter atenta, se esvai em sua rendição à riqueza que se conserva de sua vida com o pai. É como se nesse momento ela ganhasse o direito de envelhecer, que é o que de mais elevado resta a se cumprir com dignidade no destino de pessoas aprisionadas ao ciclo vazio das emulações da rotina. E aqui encontramos a interpretação de Walter Benjamin sobre o procedimento de Proust, de que este não se ampara na reflexão,"e sim na consciência. Proust está convencido da verdade de que não temos tempo de viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. É isso que nos faz envelhecer, e nada mais. As rugas e dobras do rosto são as inscrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pelas intuições que nos falaram, sem que nada percebêssemos, porque nós, os proprietários, não estávamos em casa."

A Sonata do Sr. Vinteuil




O longo capítulo de No Caminho de Swann, intitulado Um Amor de Swann, seria um estudo psicológico e anamnésico integral das relações entre um homem e uma mulher? Quero entender que esse texto seja o que há de melhor sobre as mais profundas complexidades da paulatina construção do amor e da paixão de um homem por uma mulher, desde seu caráter irracional e deletério, até suas mais indeléveis intersecções sociais e seus variados acenos metafísicos. Mas como Proust exige uma guarda ilimitada de suspeita por parte do leitor quanto  às suas astúcias conceituais (em que determinado entendimento sofre uma reviravolta completa, não de forma a se dizer súbita, mas perfazendo um lento grau de descongestionamento das certezas a tal ponto que se põe o livro de lado por um momento e se cogita se terá que começá-lo de novo, afim de identificar onde, em qual página, pôs-se a nascer o engano), fica-se com a impressão que só depois de transcorridas as mais de 3000 páginas da obra completa que se poderá dar um diagnóstico seguro, dizer na verdade quais eram as subliminares e sublimes intenções de Proust. Uma das chaves para Proust, ao menos para mim (sendo o que me conduziu de vez e numa atração inexorável), está no entendimento de Walter Benjamin de que Proust, em sua luta contra a morte, que na verdade se organiza em torno de uma enorme indiferença a ela e num desmedido esforço de tagarelar e falar mais uma vez, essa luta repousada, "determinou também o convívio de Proust com os contemporâneos: uma alternância tão dura e cortante entre o sarcasmo e a ternura, que seu objeto, exausto, corre o risco de ser aniquilado."

Essa extraordinária percepção de Benjamin resume como nenhuma outra a visão em alternância do grande romance de Proust. Essa alternância permeia o capítulo Um Amor de Swann de forma acachapante; trata-se de um capítulo em jorro de sensações sumárias atordoantes, que mexe em regiões neuro-físicas do leitor, que promove um sentimento de lucidez entorpecida através da intencional tagarelice do autor em nos iludir sobre o objeto a ser alcançado, sua intensidade quase ofensiva (na medida em que uma tamanha intensidade não se acopla mais nos moldes sensoriais de leitura hoje em dia) nos inquieta sobre nossa real capacidade de adultos treinados e gabaritados pelas impressões da experiência em avizinharmos do quanto de força emana dessas páginas, do quanto seremos capazes de suportar o que ele tem a nos dizer, o que subjaz de genuíno e autêntico por debaixo das torrentes de sonoridade e suposto acomodamento espiritual nas oferendas do trivial e das superfícies burlescas. E esse capítulo segue ao capítulo idílico das lembranças infantis do narrador, numa maquinação ardilosa e nefasta: pega-nos numa surpresa progressiva após relaxar nossas almas devotadas nas noites em que o narrador espera o imprescindível beijo da mãe, na incrível visão de um aleph no gesto de uma tia em molhar uma madalena na xícara de chá, na hilaridade das reuniões de família para os almoços aos sábados, nas fofocas da velha tia encamada e sua convivência com a empregada companheira de longa data, nas audições de um Swann já amortecido dos dramas de sua juventude pela idade e pelo acoplamento sem muitas arestas na aceitação social. E daqui Proust nos insere no perigoso capítulo Um Amor de Swann, para que desse campo de suaves plenitudes domésticas retornemos ao passado, antes da existência do narrador, para que vejamos às custas do quê as nuances da sociedade são confeccionadas, como a flacidez do que antes era determinado pelo retumbante escândalo destila as condenações até a consciência da equidade de erros comuns de uma sucessão inevitável de velhos à espera do desaparecimento. O narrador mostra porque a famosa esposa de Swann, a mulher que ocupa o núcleo de sofrimentos que atormenta Swann, ainda não era devidamente digerida pela sociedade, de forma que, mesmo na distância temporal de todos os eventos, Swann não a levava nos jantares na casa dos pais do narrador. O segundo grandioso capítulo (uma sequência de umas das maiores páginas da extensa obra), mostra a estruturação do amor obsessivo de Swann por Odette, a quem ele cultivava um leve desprezo por não achá-la um mulher bonita, mas que, sendo pego por suas divagações fetichistas, começa um devotado culto a  ela ao associá-la a uma das figuras de Botticcelli. 

Swann, um desgarrado das etiquetas sociais de sua classe de solteirão rico, que se nega a deixar sua casa de subúrbio parisiense para se mudar para algum bairro nobre, transverte sua bonomia e sua paixão pelas aventuras sexuais com empregadas de hotel, após se apaixonar por Odette. Swann passa a ser um escravo submisso às exigências dos Verdurin para que possa fazer parte do esnobe e restrito círculo deles, no qual Odette é um dos alicerces. Acompanhamos o inferno que se torna a vida de Swann, pois Odette é uma mulher independente em todos os aspectos, revelando-se ainda mais no âmbito sexual, o que lança Swann numa rede quase psicótica de ciúmes. Não fica claro o que Odette faz para viver, ou se ela se embrenha mesmo em variados casos sexuais tanto com homens quanto com mulheres, mas o que temos é a ótica de uma infinita e sufocante insinuação por parte do narrador, que parece deter um conhecimento supraciente sobre todos os crimes, mas que não os revela sob sua voz ainda investida pelo maravilhamento do tom infantil e de um subliminar sarcasmo refinado. 

Proust traça a narrativa em um tríptico onde os dois ângulos da base são o sarcasmo e a ternura, e o ângulo de cima, suspenso sobre os demais e só percebido em surdina, é o ângulo do sublime, das inserções inesperadas de beleza que ao mesmo tempo cala e dá vazão aos outros dois. O ângulo do sublime se condensa no fator decisivo do amor de Swann por Odette: a frase musical que Swann escuta de uma sonata composta pelo sr. Vinteuil, ouvida em um dos jantares na casa dos Verdurin. Swan é imediatamente arrebatado pela estupenda beleza da música, e pergunta ao pianista quem era o compositor. O pianista responde ser um tal de Vinteuil, e todos na sala se debandam em leves cogitações de quem seria essa personalidade, ao que Swann diz conhecer um Vinteuil, mas que não poderia ser o autor daquelas notas maravilhosas_ o Vinteuil que julga conhecer, ele reflete, tem uma aparência ignóbil e derrotada para ser aquela antena portentosa de uma verdade dimensional além da nossa transpassada para esse lado de cá através da música. Há uma dulcíssima armadilha de Proust aqui quando o oculto sr. Vinteuil se liga de forma indissociável ao amor de Swann por Odette. Em páginas de beleza extrema, já pelo final do capítulo, o narrador descreve a sonata de Vinteuil, mais precisamente a frase que abduziu Swann da realidade e o transportou para chaves da revelação de uma Verdade intocável, e essa descrição se adjunta na definição acima de Benjamin, a extraterrenidade, o arrebatamento oferecido por Proust que aniquila o romance de cenários sociais e nos dá algo maior, algo que vai além de nossa imediata capacidade de assimilação, algo que resvala nas fronteiras do que Kafka mencionou como as possíveis infinitas dimensões acima da nossa seladas de nossa intrusão pela exigência de um entendimento superior, algo que nossa faixa evolutiva ainda não autoriza. E isso se conjuga na armadilha proustiana de o sr. Vinteuil ser uma simetria de Odette, pois contornamos com as mãos a forma do Inominável e só podemos entendê-lo na concepção de Odette, a pecadora Odette, como sendo uma especie de entidade cuja distintiva riqueza intrínseca, insolúvel aos julgamentos da sociedade, só poderia ser alcançada através das reviravoltas do amor de Swann; só Swann_ e o narrador, nas páginas finais do capítulo_ poderiam vê-la em toda sua tranquila superioridade, como a única mulher entre as outras excêntricas figuras da fauna social feminina, como a mais elegante, a mais naturalmente soberba, a mais despegada e dona de si mesmo. Assim também o sr. Vinteuil, o velho condenado pelo tribunal imaginário da sociedade, que Swann deixa um grupo de pessoas distintas para ir apertar-lhe reverenciadamente a mão e oferecer suas terras para quando lhe aprouver passear por elas. Uma das grandezas e astúcias de Proust em forçar o que nos limita nesse grau de percepção para além.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Fofoca



Um amigo poeta recentemente expulso de um blog me manda um e-mail em que se mostra desconcertado. A mesma mulher que o expulsou do blog do marido, lhe manda agora e-mails em que lhe pede gentilmente o favor de lhe apoiar em sua candidatura para a vaga de deputada em um país europeu. Essa coerente senhora lhe pede que divulgue o máximo possível a sua candidatura a uma vaga para a câmara do legislativo europeu entre os emigrantes e brasileiros com cidadania dupla, com uma simpatia plástica tão típica de candidatos políticos e excessivamente conhecida de todos nós brasileiros, que me serve como um despertador das consequências históricas que tal classe maleável de seres humanos vem provocando no imaginário nacional carregadas de hipocrisia e interesses meramente egoístas. Tal candidata, ao expulsar tal poeta do blog, usou de um linguajar tão cheio de ódio, tão gratuitamente maléfico, que é compreensível que tal poeta se espante diante a mudança extraordinária de tom na subitamente piedosa solicitação de apoio. Comparei as palavras utilizadas em um momento e outro, e repito-as abaixo para melhor degustação do bipolarismo clínico do quadro. Quando a candidata defenestra o poeta do blog, suas palavras são as seguintes:

1. "Torravas paciência de todos com poesia agora vens incomodar com grosseria? Se não te agrada cai fora."

2. "Quem sabe assim X (o dono do blog) se convença a bloquear este fastidioso estorvo como peço há tempos…"

Notem que o grito bairrista de "cai fora", e o epíteto de "fastidioso estorvo", são dirigidos ao poeta. Agora, para a devida apreciação, mostro a metamorfose provocada pelo interesse pessoal e pela necessidade de aparentar equilíbrio racional irretocável que retira a candidata de seu casulo de baile funk e a fantasia da mais doce e bem intencionada borboleta política, nas palavras do e-mail que ela manda ao poeta. Segue:

1. "Estou contatando todos os amigos aqui no Facebook e pedindo para que me ajudem numa tarefa árdua. A de multiplicar uma informação que é essencial para mim e para toda a comunidade europeia do Brasil."

2. "Mesmo que você não seja europeu, peço que compartilhe esta mensagem. O Brasil tem 30 milhões de descendentes residentes e destes, 288 mil votam. Algum deles deve ser seu amigo. Estes europeus do Brasil podem eleger até 4 Deputados e 2 Senadores."

Não é uma beleza? Eu sempre me emociono com esse tipo de contato direto com uma fauna com características comportamentais tão bem evidenciadas. O problema maior desse tipo de gente é a falta de uma visão lúcida quanto a si mesma; a bajulação e o orgulho pessoal obnubila a realidade que a cerca. Muito provavelmente já se acha vitoriosa por antecipação devido à potência de sua roupagem bondosa, de sua cadência de fala tão reconfortante. Ela não sabe, por exemplo, os apelidos que lhe deram tanto pelo seu ataque ao poeta como por sua falta geral de humor apresentada no blog do marido; não sabe dos e-mails representativos que recebi, ao ter tomado a defesa do poeta, em que os autores dos e-mails expressam suas impressões reflexas ao destempero da candidata de uma maneira que, bem, é possível dizer que não erguerão um dedo divulgando tal candidatura. Não porque esse meu blog tenha alguma permeabilidade, mas pela própria imprevidência da candidata ter mostrado as garras no blog do marido, que tem cerca de três mil visualizações por dia.

P.S.: tenho uma forte veia montaigniana, como podem ver com clareza os que acompanham os textos confessionais que publico nesse blog. Montaigne escreveu ensaios que falavam de tudo sobre si mesmo, desde suas urticárias espirituais às suas convoluções intestinais. Me tocou muito na juventude ler Whitman condenar a impostura das relações sociais urbanas como "a vida que se exibe", de "pessoas que falam de tudo, menos de si mesmas". Aqui eu falo de mim mesmo, ainda que uma parte pequena de fantasia procure espontaneamente esconder alguma privacidade que só não é exposta por reservas quanto às possibilidades de intrusão ilegal típicas da internet_ não uma defesa contra os que comentam aqui. Ontem recebi um longo e-mail de um dos frequentadores desse blog, em que ele diz ter certa inveja de alguém como o Marcos Nunes e sua metralhadora que dispara_ com conhecimento satisfatório_ contra tudo (menos, pelo que vi, contra seu estranho objeto sagrado, Virgínia Woolf_ remendo meu). Esse amigo_ o do e-mail_, mostrou a preocupação de se incomodava nos comentários no blog, ao que eu pedi para que ele se soltasse mais e ficasse absolutamente tranquilo, e que quando lhe passasse pela cabeça estar escrevendo algo "por fora" de tudo, se atentasse à porforisse total dos textos do dono do blog. Este amigo disse detestar Hobsbawn, que desejara descer o malho no post em que eu elegiava o defunto, mas que não o fez em respeito à minha admiração pelo historiador. Revelou o receio de que eu tivesse que proibi-lo quanto a isso. Esse é um pequeno blog, tem poucas visualizações, mas aqui é permitido tudo;  nunca fui testado com a trollisse pesada que vejo em outros blogs, mas julgo que mesmo nesses extremos, jamais fecharia a caixa de comentários ou censuraria alguém (a não ser, talvez, se a coisa fosse muito doentia). E eu não sou santo, não sou o Sidarta da ponderação, já quebrei o pau aqui com alguns comentaristas, mas não sou sistemático e nunca, jamais, guardo mágoas. Mantenho a passionalidade de adeptos de um pecado, e nesses termos que me permito responder combativamente na defesa das idiossincrasias que a mim se apresentam mais peculiares desse pecado. E no mais, a literatura é muito trivial para se indispor definitivamente por ela. Fui convidado a me transferir para uma plataforma que me ofereceria dez mil visualizações por dia, mas recusei, primeiro porque meu objetivo nunca foi o de ser blogueiro, isso aqui tem uma perpétua qualidade de passageridade; segundo, porque antevi que mais cedo ou mais tarde, aderindo ao convite, eu os obrigaria a exercitarem suas gentilezas em me apontarem a porta da saída. 

Teratogenia

Não pretendo me ocupar com os fatos terríveis de Santa Maria. Há muita gente falando sobre isso, de várias maneiras, a maior parte dessas maneiras de forma doentia. Acesso o site da revista Veja e me deparo com as fotos das vítimas, uma por uma, e não consigo evitar de pensar que aquilo foi colocado ali por uma espécie de alimentação do prazer, o prazer que se potencializa com o conforto da permanência de olhar um necrológio de jovens que desapareceram definitivamente. Eles se foram e eu estou aqui. Não vejo outro sentido para essa exposição, o que aumenta a hipocrisia dos veículos de imprensa e meu nojo em relação a eles. Ligo a tevê e vejo, pela primeira vez, o William Bonner de corpo inteiro, ao vivo e direto da geografia do massacre. Vejo ao fundo da câmera, um homem falando ao celular por cinco minutos, se esforçando para permanecer no quadrângulo das filmagens, rindo, fazendo pose, numa vaidade estúpida de achar que se tornou o centro da atenção de um ginásio onde estão centenas de corpos a serem sepultados. Rapazes dando tchauzinho para pretensos conhecidos que os olham enternecidos do outro lado do país, olha lá o Eduardo como está maneiro com aqueles óculos escuros novos, o Roberto tomando tranquilamente uma água mineral; uma velha senhora que fica parada atrás da repórter, os cabelos curtos pintados de acaju, sem nenhuma dor ou interesse no semblante, o que me lembra a definição de terror de Javier Marías, que terror é a junção de duas coisas triviais que não se encaixam, cuja disparidade e incongruência geram a percepção de uma maldade genuína e uma ameça cosmológica; aquela senhora me faz arrepiar os pelos da nuca, é como se fosse uma assombração captada pelos meandros tecnológicos da óptica e só eu a vejo, uma mensagem do além sem muita inteligência _ o Mal é sempre muito burro; toda astúcia admitida a ele não resiste à análise de ser apenas uma potente vaidade descerebrada_, como se as pessoas fossem passar através dela sem a notar; o paralelismo de encontro impossível entre duas situações sem nexo que acontecem ali e transmitem o horror escabroso de como pode uma mulher de cabelos acaju com cara de quem anda distraidamente por uma feira estar num ginásio onde centenas de família sofrem indizivelmente, onde centenas de mesas tem os tristes cartazes com nomes cujo único prosseguimento no cronograma civil é serem vinculados a atestados de óbito. Como aqueles rapazes com sorrisos de praia podem ter vazado de uma outra realidade e irem parar ali, naquele ambiente sufocantemente sem transcendência, naquela experiência limítrofe da ausência infinita de esperança? O que eu consigo pensar disso tudo não cabe aqui, e não cabe sequer na minha cabeça; é como se eu sentisse uma lesão em meu cérebro. Estamos sendo a chacota do mundo, mais uma vez. Os principais jornais do mundo estampam em suas capas o que eu sempre achei que era um segredo nosso: está certo que há um brasileiro padrão na memória universal, nada elogioso, mas eu jurava que nossas insuficiências mais gritantes eram como aqueles bobos mantidos em cativeiro doméstico dentro de enormes casarões, trancados por senhores que queriam esconder o que suas permissividades incestuosas engendraram em questão de teratogenia. E, de súbito, lá estão nossa nudezas nas primeiras páginas, quando é que o Brasil vai ser um país sério?; quando é que teremos leis eficientes?; quando é que faremos valer os poderes do estado? E é mais um símbolo do ultraje que a única mensagem que soa a um protesto corajoso venha de um apresentador de televisão histriônico e bufão, que ontem enfiou o dedo fundo na ferida; ninguém, os jornaisdaglobo, asfolhasdesãopaulo, asrevistasveja, ousou ir além da informação cosmética, e esse aragonês é quem  esticou as mangas e arrebentou o couro do tambor socando-o ferozmente, sendo bravata ou não: o único que falou sobre a causa real e unívoca desse assassinato em massa: a ultra-corrupção do país, os agentes do estado afundados na lama, a total falta de importância com a vida alheia diante o imperativo da grana. O terror, puro e simples, ele mesmo tornado trivial, ele mesmo evoluído em tradição almejada e cultivada pela sociedade.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Lendo Submundo, de Don Delillo


Submundo, de Don Delillo, sempre me pareceu um desses livros misteriosos, cobertos de grandeza, cultuado por muitas pessoas, e quando chegou até minhas mãos e iniciei a leitura, o estranhamento continuou até bem além da página 200. Via-o em sebos, lia sobre ele em sites e revistas, e ficava a impressão de um totem meio sagrado e talvez um tanto excessivamente sério que inadvertidamente mais cedo ou mais tarde eu teria que enfrentar. Encontrei-o barato em um sebo, um terço do preço da livraria, mas não o comprei; namorei-o por dois dias em que estava na capital, e o deixei lá. Conheci a prosa do autor lendo Cosmópolis e me convenci que o que diziam dele era coisa séria. O cara tem um domínio da narrativa e uma aptidão em criar frases antológicas que me recorda a definição sobre Elis Regina que um dia ouvi de um amigo: "ela é genial pois canta soberbamente e sem fazer esforço como se estivesse costurando um xale". Esse amigo me apontava as partes mais dramáticas de Como Nossos Pais, em que qualquer outro cantor avermelharia a tez e lacrimejaria os olhos, e dizia: "Vê? Ela não muda uma vírgula de sua tranquilidade interior. Corresponde a fazer um movimento dos mais prosaicos com a agulha". E isso parece acontecer com Delillo, estando ele escondendo ou não horas exaustivas de boa lapidação: sua escrita transmite um imediatismo oral, uma reação instantânea altamente concentrada diante todas as emanações sensoriais que o mundo desperta em seus personagens, de modo que consegue criar algo que ainda seja novo no universo da escrita, uma voz cinestésica que registra aflitivamente a parte mais aterrorizante de um subconsciente da espécie e da história, soando como se alcançasse essas zonas etéreas com muita facilidade. 

As primeiras páginas de Submundo, por exemplo, são de tirar o fôlego. O leitor acostumado à literatura americana espera ler uma continuidade da prosa de Philip Roth e Thomas Pynchon, no que equivale a uma identificação da tradição dos romances caudalosos e suas fontes clássicas imediatamente reconhecíveis nas influências recicladas nas letras daquele país ao longo de todo o século passado, mas se depara com algo desconcertantemente diferente. Li sobre a aproximação de Submundo com O Arco-Íris da Gravidade, mas no meu manejo do romance de Delillo não achei muitos pontos substanciais que justifique tal comparação. Se Bellow pegava o romance de ideias da tradição de Mann e o recriava com um ânimo urbano ágil, que avizinhava-se brilhantemente das vertentes contemporâneas das novas expressões das letras (lembro de Coetzee comparando Augie March a histórias em quadrinhos), Delillo dispensa a filosofia e a erudição como são usadas pelos seus conterrâneos para compor um espécie de romance neurológico, como se ligasse o leitor, assim que este abre a página, à máquina de arreganhamento das pálpebras a que submetem Alexander DeLarge no filme Laranja Mecânica. Por isso o romance chega à página 200 ainda cheio de espanto e estranhamento, ainda sem que se saiba em qual momento se levará a estocada que fará que toda a compreensão da mensagem de Delillo surja na mente surpreendida do leitor; o leitor espera e sabe que isso vai acontecer a qualquer momento, de modos que mantêm uma relação de desconfiança e de passos cautelosos à medida que avança na leitura. Sabe que assim que isso acontecer, as chances de total apaixonamento pelo livro se farão inevitáveis. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Apenas uma Xícara



É uma lástima que eu não saiba o nome completo dele e isso tenha acontecido há 20 anos, de forma que não exista nenhum registro pela internet. A única coisa concreta que eu sei é que ele se chama João_ relutei na conjugação do verbo: chamava João, já que tantas coisas podem ter acontecido. Já pensei em algum dia ir até a faculdade de jornalismo, solicitar um informação nas salas administrativas, enfrentar aqueles corredores e caras envelhecidas em que pudesse captar um sinal de nostálgico reconhecimento, mas, no fundo, talvez não tenha uma real importância, ou simplesmente não queira me confrontar com essas lembranças em que tudo parecia ser tão diferente. (Me espanta o quanto eu me torno cada vez mais sensível a determinadas lembranças da juventude; a recorrência de certos sonhos noturnos e certas angústias sem propósito aparente; certos arrependimentos_ mas o que poderia ter sido diferente?, o medo de que nada, enfim, poderia ter sido diferente.) De modos que eu deixei o assunto pra lá e só me basta a lembrança difusa daquele segundo ano de jornalismo em que João e eu nos tornamos demasiadamente amigos, a ponto de um dia, sentados no bosque do campus, ele ter me dito que iria apagar toda a sua vida até aquele momento e começar de novo, começar do zero, com outra identidade, basicamente com outra alma. 

O cara era muito bonito. Recordo que era o segundo homem a quem eu aceitava plenamente o impacto da beleza sem que isso incomodasse em meu reduto íntimo de preconceitos e auto-recriminações (o primeiro era um amigo do colegial diante do qual se convergiam espontaneamente todas as meninas desejáveis). Vestia-se rigorosamente de uma calça e casaco jeans por sobre uma série variável de camisas de manga curta com cores cinzas ou neutras, e mocassins, o que entregava sua devoção ao imaginário do que um jornalista latino-americano do início da década de 90 devia à herança descolada dos jornalistas combativos dos anos 70, embora nenhum de nós soubéssemos muita coisa sobre quem foram e o que fizeram tais jornalistas. Não havia escapatória: ele parecia muito com o Che, ou com as fotos felizes do Che, as fotos iconográficas do Che. Tinha os cabelos compridos na medida certa e a estatura mediana certa. Era muito simpático, conversador, mas conservava um núcleo reflexivo; não era o tipo que o magnetismo pessoal deixava ser visto só, mas que parecia sempre desejar a solidão. Em suma, era um cara cuja beleza não incomodava, e se queria estar perto dele; era um desvirtuamento da lei do macho alfa, pois via-se que ele tinha o direito da predominância sexual por sobre os demais, como se fosse a vingança despreocupada e superiormente harmonizável do conjunto em ceder a vantagem dos poderes da atração ao mais fraco. Pois era isso que cativava mais nele: ele era o mais capaz em tudo, mas ao mesmo tempo era o mais fraco. Chegava nas festas estudantis dos outros cursos e logo era o alvo das atenções, criava-se uma eletricidade especulativa em torno dele, mas ele não era o atleta ou o riquinho. Ele passou a namorar com a moça mais bonita e descolada da turma. Não havia muitas mulheres bonitas no curso de jornalismo daquela época, e nem mesmo essa era uma mulher notoriamente bonita, mas ela tinha uma vivacidade teatral que a distinguia. Ambos fizeram teatro, e quando tudo terminou_ o namoro, minha temporada no curso, nosso círculo de amizades_, ela se profissionalizou como atriz e fez diversos filmes e propagandas de televisão. Acho mesmo que de todos nós só ela foi sendo vista por mais tempo, até também desaparecer em sua vida cotidiana.

Pois bem, neste dia no bosque, em que ele me anunciou sua decisão, eu me perguntei se eramos assim tão amigos para que eu fosse o primeiro a saber disso. Eu era tímido e só conseguia me entrosar aos poucos, tinha-se que ter muita cautela comigo. A hipótese mais provável é que ele desejasse um ouvinte, e eu era um ótimo ouvinte. Ele se virou para mim e disse que era gay, que iria abandonar o curso e ir para os Estados Unidos, que iria trabalhar e cursar artes plásticas lá. Uma de suas características era que a pessoa a seu lado era levada a pensar com menos velocidade,   a entrar em registros de diálogos alternativos, a não se espantar com o improvável. Naquela época uma confissão dessas era uma coisa bombástica. Exigia-se instintivamente uma posição defensiva para se tentar entender que o cara mais bonito e formidável da faculdade não gostava de mulheres, não a defesa contra os esteriótipos torpes que surgem das conotações ambientais de dois homens estarem a sós em um bosque e um deles se voltar para o outro e dizer que é bicha. E a conotação violenta da palavra bicha. Mas a defesa contra a inexpugnável sensação de felicidade que tal ato causava nele. Ele estava feericamente feliz, inalcançavelmente feliz. De repente eu senti todo o peso da minha própria falta de felicidade e pensei que não era justo que ele me impusesse tamanha carga de auto-lucidez. Senti um ódio desconsolado por ele se mostrar, enfim, tão egoísta, por pensar apenas nele, em sua própria libertação. Naquele momento aconteciam outros desvelamentos espirituais tão grandes que era uma sorte que nos mantivéssemos socialmente cordiais para ainda suportarmos bem um ao outro, pois caía a máscara de que ele era um cara gente fina, e de que eu era um bom ouvinte solidário. Eu não tinha o homossexualismo para me libertar. Nada disse a ele, apenas ouvi. Ele não queria mesmo que alguém dissesse alguma coisa. Mas era uma coragem perigosa. Abandonar tudo e começar de novo, abandonar seu casaco jeans e sua trabalhada imagem de John Reed latino, sua namorada hippie que todo mundo desejava ter, sua aura de cara fadado ao sucesso pois era munido de uma infalível auto-suficiência. Então tudo havia sido uma enorme falsidade e um laboratório de testes, e seu altruísmo jovial escondera esse tempo todo uma batalha espiritual solitária, altamente centrada e egoísta.

Incrível como não lembro nada mais dele a não ser isso. Seu nome, se tinha pais, o que decorreu dessa decisão. Tínhamos 18, 19 anos. Minha adolescência, como todas as outras, foi uma série de tiros no escuro. Não houve tempo para perceber nada ao redor. Um caleidoscópio de medos e tentativas de superação desses medos. Ele deixou o curso e desapareceu depois disso. Um mês depois eu também abandonei o curso, fiquei fora uns tempos. O capítulo que mais gosto de O Jogo da Amarelinha, uma das reflexões morellianas fala sobre a procura pelo Éden que está por detrás de todas as coisas. Cortázar fala da sublimidade que se esconde por detrás de uma xícara que finge ser apenas uma xícara. Fala que o homem está em uma constante procura pelo que está mais além, para polpar-se um pouco da ponta do sapato que entra em seu pobre cu a cada chute da realidade_ é isso que ele diz, o sapato entrando no cu do pobre homem. Ele cita as religiões, as drogas, e, entre outras coisas, o homossexualismo. Essa parte me tocou fundo. Homossexualismo como possibilidade de escape. Nunca havia pensado assim, e Cortázar, em sua maravilhosa percepção humana, me revelara isso. Religião, drogas e homossexualismo, uma tríade que namora com o arrebatamento nem que seja às custas do sacrifício da real sinceridade do objeto que assume uma dessas proposições. Não que João não estivesse sendo sincero: ele estava sendo sincero. Eu abandonei tudo e, há 3 mil quilômetros de casa, desejei ardentemente que uma hecatombe me arrebatasse do caminho, que um aneurisma do cotidiano me livrasse da ponta do sapato entrando no cu. E o João estava nos EUA conquistando a sua paz em separado, vivendo a alegria de seu suicídio em vida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Algumas observações sobre traduções e sobre traduções de Dostoiévski



Eu sou um desses leitores que acreditam existirem traduções tão boas e que não devem nada às obras em seus idiomas originais. Acredito que uma tradução exemplar faz mais bem ao leitor, no que tem de fluidez das nuances da língua para a qual foi convertida e à percepção da riqueza de pensamento e estilo sem as obstruções de ritmo de uma língua alheia, do que a obra em seu idioma original. Em países da língua inglesa há mesmo um respeito tão grande pelas traduções que as melhores delas são apontadas pelo nome do tradutor, o que torna uma espécie de grife em que não estabelece a traição da co-autoria, mas a excelência reconhecida do tradutor ter sido um canalizador fiel para o obra legítima. Assim temos o Quixote de Edith Grossman, o Proust de Lydia Davis, o A Montanha Mágica de John Woods. Há um ensaio primoroso de Borges sobre as três traduções inglesas clássicas de As Mil e Um Noites, e aqui o argentino faz uma ponte sobre as gritantes diferenças entre elas, assinalando que mesmo a corrupção da norma, em casos célebres e esparsos, acaba por conduzir espontaneamente ao cânone; afinal de contas_ o leitor é levado a concluir_, Borges, assim como a grande maioria dos que foram mudados para sempre com as narrativas de Sherazade e que desconhecem por completo os idiomas árabes, só as leu através de traduções. 

Há também casos em que escritores notáveis reafirmam suas predileções pelas obras traduzidas. Numa famosa passagem de Extinção, Thomas Bernhard faz seu alter-ego ousadamente defender traduções de vários exemplares da grande literatura, dizendo que o inglês, ou o francês, deram uma vida insuspeita e um frescor adstringente ao que o idioma alemão obstruía com seu peso e sua seriedade. É fato também que Garcia Marquez em certa entrevista reportou que a versão em inglês de Cem Anos de Solidão transmite uma beleza clássica e uma presciência de perenidade que não é imediatamente tão visível no romance em espanhol. Há coisa de um ano, trocando emails com um amigo que eu só conheço pelas plagas virtuais, tal amigo me deixou espantado ao me dizer que um de seus professores do curso de letras rechaçou duramente sua iniciativa de escrever uma tese sobre Thomas Mann. Ou ele se prontificava a aprender a língua alemã, disse-lhe esse professor, situação difícil para as suas condições financeiras e a distância que estava de uma escola de idiomas eficiente, ou ele se restringia à sua insignificância técnica e se calava. O tipo de estupidez da qual só se pode adotar uma reação histriônica pelo pedantismo ególatra e ignorância de tal professor. Se seguíssemos essa premissa, não teríamos um dos maiores e mais extraordinários estudos sobre Tolstói e Dostoiévski publicado no século passado, pois George Steiner, assumidamente, disse nunca ter lido esses autores no original para cair sobre a obra deles, já que desconhecia o idioma russo. Não teríamos, simplesmente, parte considerável da ensaística e da ficção que hoje amamos e consideramos indispensável, pois seus promotores escreveram, foram influenciados, divagaram, sobre pessoas que conheciam profundamente, mas que se as encontrassem pela frente mal saberiam lhes dizer bom dia em sua língua.

Aliás, os russos foram um dilema de cem anos para os leitores brasileiros, em especial Dostoiévski. Os tradutores nacionais tem tratado criminosamente Dostoiévski. Antes da verdadeira revolução do universo da leitura acontecido no início desse século, com as aprimoradas e excelentes traduções feitas diretamente do russo da obra de Dostoiévski pela Editora 34 (que contratou, principalmente, Paulo Bezerra para tal missão), o que se via nas edições de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, Noites Brancas e A Casa dos Mortos, é de fazer tremer qualquer leitor aficionado e desmontar por completo a tese sobre o veículo produtivo da tradução exposta acima. Ninguém nunca leu Dostoiévski no Brasil antes do lançamento de Crime e Castigo da Editora 34, em 2001, pode-se afirmar radicalmente. Parece que o idioma russo era uma espécie de código marciano inexpugnavelmente intrincado para os tradutores nacionais, que nunca chegaram a se importar em aprendê-lo ou a buscar sequer uma aproximação mais intimista das cercanias dele. Eles escolheram percorrer pelo caminho mais fácil e sociologicamente revelador, através das traduções francesas, que mesmo naquela época pregressa eram já consideradas péssimas e cheias de maneirismos pomposos; mas mesmo assim optaram pelo francês por ser o idioma das elites (!). Depois que li Crime e Castigo traduzido do russo, comparei o texto de Bezerra com um Crime e Castigo antigo que tenho aqui. Cheguei à conclusão que é por isso que muita gente acha Dostoiévski um escritor de estilo medíocre, pois os dois livros são absurdamente diferentes. O francês mostra um escritor quadrado, cheio de adverbiações, com uma linguagem que pretende não chegar a seu objetivo mas ficar dando voltas em torno de um núcleo escritorial. Nada parecido há na tradução do russo, em que mostra um Dostoiévski que solta chispas elétricas em cada instante, cheio de coloquialismos e com ouvido maravilhosamente apurado para o registro urbano. A versão do francês comete o adulteramento inimaginável de cortar o que Dostoiévski tem de mais revolucionário: o caos e a fluidez de sua escrita.

Nestes últimos meses fui pego em uma de minhas ocasionais paranóias de leitor. Li três versões diferentes de um dos maiores livros de Dostoiévski. Trata-se daquele que fala sobre o período em que o autor esteve preso em Omsk, na Sibéria. Não falo o título de imediato não por preciosismos, mas porque já na capa aparece o problema: qual o título verdadeiro do romance? Os três que tenho oferecem títulos diferentes: Recordações da Casa dos Mortos, Memórias da Casa dos Mortos, e A Casa dos Mortos. Li, primeiro, o da Ediouro, um voluminho sem capa e sem a folha que cita o nome do tradutor. Insatisfeito com a suspeita gritante de que se tratava de uma das traduções adulteradas, procurei pela net se havia um trabalho do Bezerra pela Editora 34. Ainda não. Lembrei que a L&PM também se lançou à tradução do russo, publicando algumas das ficções menores de Dostoiévski e Tolstói (ainda que o Crime e Castigo deles seja a reedição de uma das velhas recópias francesas). Comprei um e me pus a ler. Só que o binômio dos tradutores não me deixou seguro, já que um deles é o Oscar Mendes. (Parece coisa de larápio, mas nenhuma dessas edições cita a fonte da tradução.) Mas o estilo escorregadio, o empacamento, e mesmo as absurdas diferenças na história entre as duas versões me deixou desconsolado. Um exemplo: há uma sopa de couve servida para os detentos, em que no livro da Ediouro o autor diz ser maravilhosa e, junto com os pãezinhos, um reconhecimento popular da cozinha do presídio; já na versão da L&PM, o autor diz que a sopa era horrível, de cheiro pútrido e cheio de baratas. Isso é só um exemplo; há vários, inumeráveis. O defeito maior é no que fazem dos diálogos. Os diálogos!, que são um dos pontos da grandeza do Dostô!

Procurei pela net qual a melhor tradução de A Casa dos Mortos do país. Informaram-me que só há uma vertida do russo, a da editora Nova Alexandria. Fui à Livraria Cultura. O preço do livro é salgado, mas eu estava em um ataque de compulsão. Ele me foi entregue em casa, um livro belíssimo, capa dura, muito bem editado, e com um adendo da indispensável carta que Dostoiévski escreveu a seu irmão assim que cumpriu sua pena. Nome do tradutor: Nicolau S. Peticov. Aí sim! A diferença da qualidade da prosa é impactante. Tudo ali é belo, intenso, honesto, visceral. Reconheci que quem escrevia era o mesmo autor magnífico de Os Demônios. A cena da sopa de couve? A sopa era horrível mesmo e coalhada de baratas. Mas mesmo aqui neste livro encontrei uma desvirtuação que corrobora uma certa tendência dos tradutores, mesmo os fieis, a fazerem um complô contra o autor russo. É no início do capítulo 3, intitulado Primeiras Impressões (II), em que é apresentado um velho religioso muito bom e pacífico, único o qual os demais presos confiam tanto que lhe entregam dinheiro para ser escondido da revista dos guardas. Pois bem, nas outras traduções informa-se que tal velho vem de uma aldeia chamada Staradúbovo, coisa que não é sequer mencionada na tradução da Nova Alexandria. Nicolau S. Peticov simplesmente mutila e suprime isso de seu texto. E como sei que ao menos nisto as outras edições estão certas? Por aquela frase popular de que toda mentira tem perna curta: muitas páginas adiante Dostoiévski volta a citar o velho, e aqui Peticov esquece de seu crime singelo e traduz: "entre eles o velho originário de Starobud" (p. 77).


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Primeira Foto de Hitler



A Primeira Foto de Hitler


E quem é essa gracinha de tiptop?

É o Adolfinho, filho do casal Hitler!

Será que vai se tornar um doutor em direito?

Ou um tenor da ópera de Viena?

De quem é essa mãozinha, essa orelhinha, esse olhinho, esse narizinho?

De quem é essa barriguinha cheia de leite, ainda não se sabe:

de um tipógrafo, padre, médico, mercador?

Quais caminhos percorrerão estas pernocas, quais?

Irão para o jardinzinho, a escola, o escritório, o casório

com a filha do prefeito?



Anjinho, pimpolho, docinho de coco, raiozinho de sol,

quando chegou ao mundo um ano atrás,

não faltaram sinais na terra nem no céu:

gerânios na janela, um sol primaveril,

a música de um realejo no portão,

votos de bom augúrio envoltos em papel crepom rosa,

pouco antes do parto, o sonho profético da mãe:

sonhar com uma pomba- sinal de boas-novas,

se for pega- vem uma visita muito esperada.

Toc, toc, quem é, é o coraçãozinho do Adolfinho que bate.



Fralda, babador, chupeta, chocalho,

o menino, com a graça de Deus e bate na madeira, é sadia.

parecido com os pais, com um gatinho no cesto,

com os bebês de todos os outros álbuns de família.

Não, não vai chorar agora,

o fotógrafo atrás do pano preto vai fazer um clique.



Ateliê Klinger, Grabenstrasse Braunau,

e Braunau é uma cidade pequena mas respeitável,

firmas sólidas, vizinhos honestos,

cheiro de massa de pão e de sabão cinzento.

Não se ouve o ladrar dos cães nem os passos do destino.

Um professor de história afrouxa o colarinho

e boceja sobre os cadernos.

( Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien)

domingo, 6 de janeiro de 2013

E lá vão aqueles que um dia foram crianças calorosas

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Montagem idealizada por Charlles Campos e produzida por Charlles e Emerson Campos, sobre cenas do filme Naqoyqatsi e com a música No Fun, interpretada pelos Sex Pistols.

(O título é de uma epígrafe de Doris Lessing.)

De Olhos Escancaradamente Fechados

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Inspirado por este post da Caminhante.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Proscrição



Uma delegada local me processou por desacato e o juiz determinou que, por punição, eu preste serviço todas as quartas-feiras em uma associação de auxílio à comunidade carente. Foi um desacato muito bem feito e do qual jamais me arrependo, sendo possível que, se as reviravoltas da vida me colocar mais uma vez no caminho dessa mulher, eu o faça mais uma vez. É um assunto que não merece ser vasculhado e, por isso, passo adiante. Quando me apresentei na associação, uma mulher gorda, de óculos e um sorriso radiante, me informou sobre o serviço realizado ali, que era o de ajudar pessoas desconhecedoras de seus direitos com o Estado, e pobres num grau de martírio tão grande que jamais seriam capazes de perceber o toque fino de ironia na necessidade de intermediadores como essa mulher e os funcionários do instituto para exigirem por elas. A instituição fica em um cubículo minúsculo recém pintado de branco, ao lado de uma pamonharia e convenientemente de frente ao hospital municipal. A mulher, nas beiradas de sua simpatia contagiante, me olha com uma cautelosa curiosidade, pois sabe que estou ali por uma obrigação judicial sem saber o motivo, e que na certa acha um mistério da sombria natureza humana que  por detrás de alguém bem vestido, sério e com a educação excessiva que eu uso nessas ocasiões protocolares se esconda uma espécie de pária social. Ela é delicada comigo mas demonstra ser segura o suficiente para exercer sua autoridade: um comunicado seu ao juiz e eu estou ferrado. No primeiro dia já nos entendemos e surge mesmo uma venturosa possibilidade de tornarmo-nos amigos; talvez daqui dois meses, quando acabar meu tempo ali, estejamos relaxados para confessarmos um ao outro que ela não era gorda o bastante para meu pre-conceito contra obsoletas e enraivecidas funcionárias públicas, e eu não era alto o bastante para seu alerta de aviso contra machos com atributos de barbarismos de gênero muito evidentes.

Entramos em um Fiat Uno branco que solta fumaça pelo escapamento em quantidades alarmantes, mas que a ela é absolutamente natural, e ela nos leva a uma das ruas mais distantes da cidade. Paramos de frente a uma casa com um muro grande de alvenaria e um portão fechado, diante o qual não se pode saber se a moça de uns 23 anos, grávida e com cara empanzinada parada em pé, mora ali ou apenas combinou o local por conveniência. A mulher, com muita doçura, abre a porta e inclina o banco para que a moça entre, e logo em seguida dirige o carro fazendo delicadas e diretas perguntas de sério funcionalismo para a gestante. A moça responde com a mesma eficiência concisa, com uma voz prontificada em ser o mais clara possível; é o tipo de conversa para a qual, ao ouvi-las, passo a acreditar por um momento que as palavras foram criadas, sem conversa fiada, sem individualismos e sentimentalismos. Uma voz moral sentencia em minha mente que se as pessoas se renegassem a conversarem assim entre elas todos os problemas do mundo estariam resolvidos. A gestante tem um ar desconfiado, algo inerente à sua natureza e que parece ter sua condição atual como uma das raízes dessa visão para com o exterior. Aos poucos, enquanto eu a ouço e tomo consciência de sua realidade, vou sabendo mais sobre sua altiva indiferença quanto a si mesma, sua negligência algo impassível diante a responsabilidade de promover a entrada de mais uma outra criatura no mundo. Na sala de espera do hospital, em que aguardamos que a obstetra a chame, capto as conversas sobre seu quadro clínico e seu diagnóstico social: está grávida do quinto filho; fora essas gravidezes bem solucionadas, teve dois abortos espontâneos; e está ali para tratar uma sífilis que, segundo a enfermeira que a direciona à médica, passou para o feto de oito meses. Olho para ela a cada nova descoberta anunciada para ver se há alguma reação, mas a única coisa que ela faz é adotar a mesma conversa estatística de respostas eficazes; há um ar erraticamente científico em seu rosto, como se dela irradiasse grande parte da atmosfera de experimento competentemente direcionado que as paredes brancas e os objetos do hospital novo propagam. Como se falassem de outra pessoa que ela representasse ali corporalmente apenas por uma questão elucidativa.

Há mais um fato novo: ela na verdade é uma sentenciada. Como eu, eu penso. Ambos, ela e eu, sentados nos bancos duros de arquibancada de estádio de futebol na sala de espera, ali reunidos por uma determinação judicial. Ela está cumprindo prisão domiciliar por tráfico de drogas. Há duas semanas, introduziu no canal da vagina um rolo cilíndrico muito bem embalado com fita crepe e plástico Insulfilm com 40 gramas de maconha no interior, e tentou levá-lo a seu namorado num presídio. As agentes femininas a pegaram na revista, e ela ficou uma semana presa. Como sua gravidez é de alto risco, o juiz abrandou a pena para que ela pudesse ser acompanhada em tratamento médico. É uma garota loira, os cabelos um tanto diáfanos e finos que passam a representar sua fragilidade diante esse súbito retrato, cabelos presos atrás por um laço azul e que ela enquanto fala constantemente tem que recolocar uma mecha por cima da orelha; tem os olhos claros; seu português é de periferia, mas ela tem uma energia verbal invejável, que mostra vez ou outra o quanto pode ser afiada. Ela não ri em nenhum momento; uma enfermeira alta e bonita se aproxima dela fazendo festa, com aqueles "mas olha só que custosa", "que linda que essa menina tá", abraçando-a como se fossem velhas amigas; e a moça apenas devolve uma amistosa mas fria resposta cordial. Ela expressa essa lucidez com estoica paciência aos que não conhecem a nudez sem eufemismos da vida real, respondendo de forma o mais contida possível à enfermeira por saber o quanto esta dirige seu galanteio à la mode de boutique mais às circunstâncias auto-referentes de sua beleza exuberante, a seu jaleco, ao piso marmorizado caro, às séries televisivas que dizem que deve se comportar infantilmente assim, mais que se dirige a ela. Falta-lhe, percebo, os dentes superiores da frente, por isso a vocalização soprada, e talvez por isso, afinal das contas, ela seja mais simples que eu imagino e não sorri por vergonha.

Minha função ali parece ser meramente ornamental, já que não me foi oferecido dirigir o carro, e não posso acompanhar senão de fora os exames exigidos pela médica da moça. A mulher_ minha chefe_, me coloca para ficar sentado à espera em um banco esfacelado, com as espumas à mostra, em uma saleta minúscula para a qual somos os três direcionados e que fica de fora do prédio novo do hospital. A sala de ultrassonografia. Fico por quinze minutos sozinho esperando, enquanto as duas estão lá dentro. Pouco depois entram duas adolescentes, uma gordinha e outra muito magra; a muito magra tem um piercing no nariz e leva uma cânula de soro. As duas não param de falar, rindo, com a gordinha tampando a boca como um cacoete diante a linguagem cifrada que a outra usa, mostrando um falso estupor. A mais magrinha ergue a blusa e mostra a barriga morena com outro piercing no umbigo, e olha para mim furtivamente. Puxa assunto comigo, diz ter 16 anos mas não acredito, pois parece 14, mas não a desminto. Teve um aborto espontâneo há uma semana e não para de sangrar. Fala e fala e quando cede lugar a ouvir a amiga falando continua me olhando. Lembro de uma criança índia, os cabelos negros muito lisos, os olhos vivazes. Tem os dentes como se fossem ainda a primeira dentição, um tanto separados e com os caninos rombudos, despreparadamente sem poder de presa. Ela pergunta tudo sobre mim, o que estou fazendo ali, quem estou esperando. Ela conta que não é casada, que conhecia o pai de seu filho abortado há três meses, que quando lhe fizeram a curetagem todo mundo queria dar-lhe o toque, médico, enfermeira, quem estivesse passando de frente à sala de cirurgia, entrava para vê-la arreganhada e para dar-lhe o toque, até que ela mandou todos para a puta que pariu e que a deixassem em paz. Contou isso com uma seriedade que destoou do tom aerado que tinha para todas as coisas, e somente nessa hora mostrou um ódio que exorbitava acima de sua idade. Mas logo voltou a me olhar e dizer coisas que um demônio antigo, morto de sonolência e que é um dos que já estão fora do prisma funesto de poder me prejudicar, me fazia recordar antigos caminhos pelos quais andava a febre, antigos despudores e adstringências. Ela mexia com o brinco do umbigo perfurado e dizia que deveria ter ouvido a mãe, assim teria se conservado virgem de orelha. Era tão magra e havia se desnutrido tanto pelas hemorragias, que me deu a certeza de que sua preocupação em se mostrar atinada a uma acirrada exigência moderna de concupiscência era uma ortodoxia aprendida muito cedo, um dos primeiros ensinamentos de sua vida. Era tão arraigado em seu espirito quanto seria no meu a impressão de liberdade em que eu poderia dizer a quem me desse na telha o que eu pensava, e o quanto isso me gerara de contusões e brigas nos parques das escolas, o quanto eu fizera com que ex-namoradas me odiassem apaixonadamente, o quanto perdi em oportunidades financeiras, o quanto criei ao longo dos anos a personalidade de misantropo e louco predestinado à solidão, de modos que quando meus vizinhos me viram com filhos e esposa houve uma espécie de expiração conjunta, uma descompressão com uma piedade no final (afinal ele não passava de um frágil assustado). O que uma doutrina dessas poderia fazer com ela futuramente, já que nesse paralelismo eu estava ali por ter mais uma vez me comportado segundo minhas mais irrefutáveis premissas sobre a vida.

Assim passou meu primeiro dia de sursis. Levamos a moça de volta à sua casa, após pegarmos os medicamentos e após terem lhe dado duas benzetacil. Próxima quarta eu retorno. Mas, nesta quinta, enquanto estávamos minha esposa e eu sentados nas cadeiras de fio na garagem, olhando as crianças brincando, eis que as duas adolescentes passam de bicicleta. A gordinha olha firmemente para mim, para comprovar se era eu mesmo, e grita: "olha ele lá, olha ele lá!". A outra me olha e me acena com a mão. Seguem adiante e eu retraio a língua em tensão e me nego a olhar para o lado antes de desejar ter uma audácia retórica para explicar aquilo que fosse tão grande quanto o nonsense delas em passarem ali de frente naquele momento. Imagino os cabelos da nuca da Dani arrepiados iguais a de um gato do mato. Respiro fundo e a encaro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Azulejos




Não tenho a inteligência funcional que fez ricos alguns integrantes da minha família. Sou um completo estúpido em relações publicas, a ponto de não transmitir muito entusiasmo no cumprimento aos vizinhos. Não sei parar de frente ao portão e ficar alguns minutos na troca de conversa funcional cujo propósito não é o conteúdo do que se diz em si, mas o som da fala preenchendo um tempo contábil de cordialidade para que no natal se tenha o nome lembrado na oração junto à mesa da ceia, ou para ser avisado para prender o cachorro e recolher as crianças no quarto porque um ouriço-cacheiro fora visto passando pela rua, ou para dar o número do telefone à moça de voz anasalada do crediário e ela possa ouvir pelo outro lado que somos gente de boa índole e polidos de qualquer extravagância, nunca tendo sido flagrados andando ao lado do muro olhando os pássaros ou contando as nuvens, ou parando no meio dos gestos marciais vespertinos para falarmos em como Albenondes fez mal em não levar Lucinda para um passeio na carruagem do conde de Wallenberg; enfim tão normais quanto esse homem dócil que certo dia a polícia resolve cavar a terra dos fundos de sua casa e encontra enterrados 37 cadáveres de mulheres que outrora todas tinham os cabelos curtos, na faixa de 27 anos, ascensoristas por temperamento e adeptas do uso de maquiagem facial indelével. Nunca ficarei rico por esses meios e tampouco me elegerei para a Câmara Municipal.

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A impressão de que estava ficando louco me tomava conta quando era mais jovem. Era algo perturbador: eu achava que fosse implodir e uma apreensão da verdade não permitiria mais que eu continuasse vivo. Aos 17 tive uma crise. Dizem que a coisa não vem de uma vez, mas vai se criando. De súbito o tecido estendido ao máximo se parte e tudo nos cai em cima. O cérebro não apaga a coisa com a tarja de Censurado por Questões de Sanidade, como faz com acidentes físicos ( minha mãe nunca se lembra das 17 horas entre o traumatismo craniano e a primeira fase da recuperação); é como se o cérebro quisesse um porta-retrato de sua maturação radical por inteiro, e o cérebro é o cérebro fazer o quê. Estava sentado no banco de uma praça, à noite, o avião que estacionaram no lugar da fonte, em memória a um general esquecido ou a alguma virtude de derrota de guerra, pressagiando a vertigem das superposições significativas, e me veio uma imensa lucidez, um instante em que todos os ornamentos sumiram e só ficara eu e um infinito vazio contra o qual não se erguia nada, dentro do qual nenhuma sombra ou luz se enunciava, uma espécie de plenipotência do átomo que não se deixava questionar ou transcender. Uma iluminação do avesso de que eu era matéria orgânica perecível, e só. Durou, creio, uns cinco minutos, mais eu não aguentaria. Quando foi embora o foi por inteiro, um ruflar de asas em que não sobrara uma pena para mostrar como prova. Só a marca em baixo relevo da lembrança, como a impressão que a radiação extrema desenha no chão, contornando a forma do corpo evaporado.

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Conheci depois uma moça que viveu 7 meses nesse inferno. Era amarrada na cama pelos pais, nos primeiros meses, e monitorada sem trégua obedecendo-se a regra severa de não se deixar nenhum objeto perfurante por perto, nenhum cadarço, comprimidos, trancando-a durante o dia e se sentando ao lado da cama à noite, ouvindo seu respirar de animal ferrenhamente obcecado  pela fuga, seus olhos atentos que apareciam vagarosamente no escuro por sobre o travesseiro, solenemente planejadores. Os pais não aceitavam visitas; a casa, naquele descuido em que se deixa levar pelo desvelo, foi ficando cheia de sombras e silêncio, de forma que as pessoas de fora se questionavam se isso não agravava a situação da enferma, mas os pais sabiam que a depressão dela atingira um nível de auto-gerência tão profundo, que aspectos de fora não lhe significavam nada. Era uma colega de faculdade e uma noite os pais permitiram que nós entrássemos para vê-la, talvez isso lhe fizesse bem, ver os antigos amigos.  Era uma moça realmente linda, com traços exóticos indianos, apesar de não ter nenhum ascendente oriental conhecido. Eu brincara cortejá-la certa vez, mas tornamo-nos mesmo era amigos. Ela estava de camisola, sentada atravessada na cama, com as costas apoiadas contra a parede. Tinha um ar coloquial demais para ser alvo de um experimento psicológico, de maneiras que caímos na leviandade de que nosso humor despudorado conseguiria fazer o que os médico falharam. Ela não era receptiva a nenhuma de nossas brincadeiras, estava além de qualquer contato, não se zangava e não tinha auto-crítica. Utilizando o espaço da fala destinado aos atos sociais de como vai e como foi o seu dia, nos comunicou que iria cortar os pulsos. Isso para ela não tinha nenhuma importância. Ela se recuperou. Casou-se com um fazendeiro. Tem hoje, o que se chama de uma vida normal. Na verdade me pareceu que ela nunca se curara, mas atingira um estágio adaptativo de encenação persistente mas pouco talentoso. Percebia-se a tendência de seus olhos para a dispersão. Seu marido era obtuso o suficiente para achar que uma mulher colada à megalomania financeira era assim mesmo, uma boneca de carne da qual não é cavalheiresco exigir participação efetiva na realidade. Como naquele pesadelo em que o sonhador vai saindo de um quarto para outros infinitos quartos exteriores até chegar ao último que lhe possibilitará acordar incólume, ela parecia ter sido desperta antes de completada a jornada, e ficado confinada numa zona intermediária para sempre.

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A foto mais memorável de Robert Capa, entre as tantas que fez em sua incursão com John Steinbeck à União Soviética, foi apreendida pelos guardas do partido. Mostrava a menina louca de menos de 8 anos que morava sozinha nos escombros de uma rua bombardeada. Acostumara-se a viver como um animal, e em determinadas horas podia ser vista saindo do meio das lajes destruídas, com seu único vestido esfarrapado, seus pés descalços imundos, para pegar o pouco de comida que as pessoas sacrificavam de seus já minguados orçamentos para alimentá-la. Na verdade não era fácil vê-la. Mas a câmera paciente de Capa conseguiu flagrá-la em sua pressa arredia, em suas feições consonantais. A foto se perdeu para sempre. Consigo imaginar seus prováveis ângulos, a luz na qual foi tirada, a plasticidade do cenário em preto-e-branco ao fundo, mas  nunca consegui imaginar a menina. Quando tento, me vem apenas os modelos de Sebastião Salgado, ou uma criança feliz, com ambos os pais, selecionada num teste de estúdio. Uma representação de uma grandiosidade dramática falsa e previsível que sei que ela jamais teve.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Sonho de Thomas Mann



As fotos e ilustrações dos livros de Sebald são um misto de quietos documentos sobre familiaridades alheias e um lirismo necrológico nostálgico. As fotos em seus livros, desde a tríade de ficção ao ensaio sobre guerra aérea e literatura, são aproximações confortáveis e opressivas de um reino dos mortos particular, que provocam a mesma sensação de proibição a segredos dos álbuns de família vistos sem permissão. É como se esses livros, no que tem de prosa intimista, oferecessem também algo da casa assombrada à noite em que o leitor transformado em ladrão de memórias folheia os antigos registros da genealogia de seus proprietários. Os editores futuros de Sebald devem ter a preocupação de manter o objeto físico de seus livros com um acentuado tom de coisa velha empoeirada, para condizer o fenótipo estético à quase indevassável solidão que se transmite do interior das páginas, uma aquisição distraída da estante de sebos em antigas cidades estrangeiras nas quais se está lá de passagem e sempre na condição de forasteiro, mesmo que as capas coloridas do mercado editorial moderno desvirtuem sua falta de ambição em não ser outra coisa que o recolhedor e tradicional livro para o qual apraz ter apenas as negras, silenciosas e mornas capas duras. Afinal, quem se prontificará a ler Sebald senão o Leitor ancestral para quem qualquer artifício que não o da leitura pura é um adendo dispensável?

Os livros ilustrados de Sebald causam essa impressão de visitante não convidado, de caderno rascunhado com memórias achado no espólio de um morto a quem ninguém conhece e os vizinhos simulam recordar difusamente, cada desvão formado pelas folhas amarelecidas ocupado por fotografias de generais com espadas em prumo de frente ao espelho, atores mambembes flagrados na atuação de desconhecidas adaptações de Shakespeare, coisas desvanecidas pelo preto e branco fantasmagórico do tempo, triviais mastros de embarcações, ruas comerciais de vilas indeterminadas, bilhetes de trem, embalagens de fumo, mapas de terras que parecem não ser da geografia desse mundo, páginas retiradas de agendas onde se rabiscou uma data, fotos de cemitérios aldeões, manchetes de jornais do início do século passado. Quem lê Sebald é assaltado pela impressão fantástica de que sua morte foi o que mais caiu bem para perpetuar o assombro de sua linguagem vesuvial que tem tanto de prosaica na descrição de saletas de hotéis embebidos pelo sol desmaiado da tarde, quanto de uma apreensão atemporal da passagem efêmera do homem pela existência que tem uma paradoxal característica de permanência. Isso tudo forma o relicário de intensa idiossincrasia do autor que não precisa ser compreendido por mais ninguém, mas que uma vez oferecido à prensa a aos olhos intrusos, passa a ter uma insuspeita força de expressão, assim como o caderno de rascunho quando confrontado com a pesquisa da vida do autor incógnito passa a elucidar sobre seus refúgios de verdadeira sensibilidade e humanidade desnuda.

Vila-Matas dedica uma página de O Mal de Montano à notícia impactante da morte de Sebald. Diante a cavalgada vertiginosa dos que vão desaparecendo deste mundo, Vila-Matas se mostra desamparado por essa ruptura súbita, esse acréscimo ao exército de mortos que deixaram de herança uma visão multitudinária e rica da história, longe dos subterfúgios do entretenimento descerebrado e sem compromisso dos tantos que ficam e proliferam a morte da alta literatura e da arte superior. Vila-Matas lamenta a pobreza cada vez mais expansiva que o desaparecimento de Sebald promove, o que espontaneamente casa com harmonia ao seu tema da afasia voluntária da escrita. Sebald, assim como a classe de célebres septuagenários cujo fechamento assolará o mundo de uma orfandade de criação transcendente afundando tudo na burrice e dislexia do pensamento (Nooteboom, Kertézs, Roth, Pynchon, Magris), foi um dos que realizou o sonho de Thomas Mann, Marx lendo Hölderlin (como escreveu Magris), a conciliação entre a prosa do mundo e a poesia do coração.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Algumas das mais belas páginas que li em 2012



O texto abaixo refere-se às páginas 118, 119 e 120 de Microcosmos, de Claudio Magris.

"Esloveno formado na velha Áustria dos Habsburgo, o professor Karolin sempre falou num alemão cerimonioso e antiquado, com predileção pelo uso das formas indiretas: 'Disse à minha mulher', dizia, por exemplo, adentrando prudente em nossa companhia uma clareira frequentada por javalis: 'pergunte a nosso estimadíssimo amigo, isto é, ao senhor, se sua venerada cônjuge prefere a gubaniza com ou sem aguardente...'

Certa vez, ao sabermos que estava doente, fomos visitá-lo. Aos 92 anos de idade, estava acamado algumas semanas, devido a alguns distúrbios de circulação que lhe causavam certa dificuldade para falar; estava suado e febricitante, enfraquecido, mas os olhos eram sempre vivos e bons, brando naquele rosto esculpido pelas décadas numa expressão de severa autoridade. Ao lado da cama havia alguns pacotes e umas caixas, onde a mulher, conforme os desejos que ele expressava com dificuldade, mas sempre num tom de ordem inapelável, estava encarregada de juntar ordenadamente suas coisas_ os livros, as raízes bizarras, alguma cabela de veado ou marta empalhada, quadros, desenhos e fotografias da montanha, cartas, documentos e relíquias_ para, depois, dar início à sua eliminação.

Estava desalojando sua existência, esvaziando-a das coisas amadas e coletadas com passional pedantice, queria pôr ordem na própria vida e renunciar ao que a havia adornado, do mesmo modo que os imperadores da casa dos Habsburgo, segundo o ritual barroco, tinham de se despojar dos títulos e das insígnias de sua glória para serem acolhidos na cripta dos Capuchinhos.

Na hora das despedidas, Karolin presenteara as visitas com um cartão-postal do Nevoso, em cujo verso estavam impressos_ obviamente em esloveno_ alguns versos seus, que ele, erguendo-se sobre os travesseiros, com a ajuda da mulher e com o auxílio de duas enormes lentes, traduzira, numa grafia enorme e trêmula, para o alemão.

Aquela folha com aqueles quatro versos em alemão parecia um testamento, um selo definitivo. Mas, algum tempo depois, chegou uma carta, naturalmente em alemão. A letra grande e incerta no envelope revelava o autor, mas não deixava supor a firme, embora contrita, especificação anotada naquela grafia de velhusco, trêmula mas rigorosa na sequência lógica e sintática, na pontuação e na ortografia, no espaçamento, nos parágrafos. 'Estimadíssimo amigo, da última vez, quando o Senhor veio nos visitar com a cara Senhora, eu lhe entreguei alguns versos meus, que traduzi para o alemão. Minha mulher, que estava ao lado me observando enquanto escrevia, afirma que eu teria escrito das Berg em vez de der Berg (a montanha). Se assim for, peço-lhe que corrija tal erro censurável e que me perdoe. Sofri de vários distúrbios circulatórios, com alguns momentos de amnésia momentânea, e se cometi um erro desse tipo certamente o fiz em tais condições. Agora estou melhor, levantei-me, fiz alguns passeios aos pés do bosque.'

Era inadmissível que o professor Karolin pudesse ir-se sem corrigir o erro e sem ter esclarecido, a si próprio a aos outros, qualquer dúvida a respeito. Deve ter passado umas boas semanas a remoer, procurando lembrar se realmente tinha usado erroneamente o das, artigo neutro, em lugar do masculino, ou se não teria passado de uma falsa impressão da mulher, que naquele período ele deve ter maltratado um bocado por causa disso. A paixão brota da vitalidade, mas também a estimula e, assim, graças à aflição por um erro de gramática e ao forte desejo de corrigi-lo, o professor havia reencontrado um pouco de seu bosque, o mundo, a vida.

A correção da língua é a premissa da clareza moral e da honestidade. Muitas patifarias e violentas prevaricações nascem quando se bagunça a gramática e a sintaxe e se coloca o sujeito no acusativo ou o objeto no nominativo, trocando as bolas e invertendo os papeis entre vítimas e culpados, alterando a ordem das coisas e atribuindo eventos a causas ou a promotores que não os de fato, abolindo distinções e hierarquias num trapaceiro amontoado de conceitos e sentimentos, deformando a verdade.

Até por isso mesmo uma única vírgula no lugar errado pode aprontar desastres, provocar incêndios que destroem os bosques da Terra. Mas a história do professor Karolin parece dizer que, ao se respeitar a língua, ou seja, a verdade, também se fortalece a vida, ficamos um pouco mais firmes sobre nossas pernas e somos mais capazes de dar um passeio desfrutando o mundo, com aquela vitalidade sensual que será tão mais solta quanto mais estiver livre dos enredos dos enganos e dos autoenganos. Sabe-se lá quantas coisas, quantos prazeres amáveis e alegres se devem, sem que o saibamos, ao lápis vermelho dos professores na sala de aula..." 

La Civilizacíon del Espectáculo




“A literatura light, como o cinema light e a arte light, dá a impressão cômoda ao leitor e ao espectador de ser culto, revolucionário, moderno e de estar na vanguarda, com o mínimo de esforço intelectual. Deste modo, essa cultura que se pretende avançada e ‘rupturista’ na verdade propaga o conformismo através de suas piores manifestações: a complacência e a autossatisfação”. (Mario Vargas Llosa)