terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Teratogenia

Não pretendo me ocupar com os fatos terríveis de Santa Maria. Há muita gente falando sobre isso, de várias maneiras, a maior parte dessas maneiras de forma doentia. Acesso o site da revista Veja e me deparo com as fotos das vítimas, uma por uma, e não consigo evitar de pensar que aquilo foi colocado ali por uma espécie de alimentação do prazer, o prazer que se potencializa com o conforto da permanência de olhar um necrológio de jovens que desapareceram definitivamente. Eles se foram e eu estou aqui. Não vejo outro sentido para essa exposição, o que aumenta a hipocrisia dos veículos de imprensa e meu nojo em relação a eles. Ligo a tevê e vejo, pela primeira vez, o William Bonner de corpo inteiro, ao vivo e direto da geografia do massacre. Vejo ao fundo da câmera, um homem falando ao celular por cinco minutos, se esforçando para permanecer no quadrângulo das filmagens, rindo, fazendo pose, numa vaidade estúpida de achar que se tornou o centro da atenção de um ginásio onde estão centenas de corpos a serem sepultados. Rapazes dando tchauzinho para pretensos conhecidos que os olham enternecidos do outro lado do país, olha lá o Eduardo como está maneiro com aqueles óculos escuros novos, o Roberto tomando tranquilamente uma água mineral; uma velha senhora que fica parada atrás da repórter, os cabelos curtos pintados de acaju, sem nenhuma dor ou interesse no semblante, o que me lembra a definição de terror de Javier Marías, que terror é a junção de duas coisas triviais que não se encaixam, cuja disparidade e incongruência geram a percepção de uma maldade genuína e uma ameça cosmológica; aquela senhora me faz arrepiar os pelos da nuca, é como se fosse uma assombração captada pelos meandros tecnológicos da óptica e só eu a vejo, uma mensagem do além sem muita inteligência _ o Mal é sempre muito burro; toda astúcia admitida a ele não resiste à análise de ser apenas uma potente vaidade descerebrada_, como se as pessoas fossem passar através dela sem a notar; o paralelismo de encontro impossível entre duas situações sem nexo que acontecem ali e transmitem o horror escabroso de como pode uma mulher de cabelos acaju com cara de quem anda distraidamente por uma feira estar num ginásio onde centenas de família sofrem indizivelmente, onde centenas de mesas tem os tristes cartazes com nomes cujo único prosseguimento no cronograma civil é serem vinculados a atestados de óbito. Como aqueles rapazes com sorrisos de praia podem ter vazado de uma outra realidade e irem parar ali, naquele ambiente sufocantemente sem transcendência, naquela experiência limítrofe da ausência infinita de esperança? O que eu consigo pensar disso tudo não cabe aqui, e não cabe sequer na minha cabeça; é como se eu sentisse uma lesão em meu cérebro. Estamos sendo a chacota do mundo, mais uma vez. Os principais jornais do mundo estampam em suas capas o que eu sempre achei que era um segredo nosso: está certo que há um brasileiro padrão na memória universal, nada elogioso, mas eu jurava que nossas insuficiências mais gritantes eram como aqueles bobos mantidos em cativeiro doméstico dentro de enormes casarões, trancados por senhores que queriam esconder o que suas permissividades incestuosas engendraram em questão de teratogenia. E, de súbito, lá estão nossa nudezas nas primeiras páginas, quando é que o Brasil vai ser um país sério?; quando é que teremos leis eficientes?; quando é que faremos valer os poderes do estado? E é mais um símbolo do ultraje que a única mensagem que soa a um protesto corajoso venha de um apresentador de televisão histriônico e bufão, que ontem enfiou o dedo fundo na ferida; ninguém, os jornaisdaglobo, asfolhasdesãopaulo, asrevistasveja, ousou ir além da informação cosmética, e esse aragonês é quem  esticou as mangas e arrebentou o couro do tambor socando-o ferozmente, sendo bravata ou não: o único que falou sobre a causa real e unívoca desse assassinato em massa: a ultra-corrupção do país, os agentes do estado afundados na lama, a total falta de importância com a vida alheia diante o imperativo da grana. O terror, puro e simples, ele mesmo tornado trivial, ele mesmo evoluído em tradição almejada e cultivada pela sociedade.

13 comentários:

  1. De fato, está nojenta a cobertura: vejo um telejornal e, em 10 segundos, mudo de canal. Cadernos especiais de jornal, não leio. Dou uma passada d’olhos e vejo que trata-se de mais do mesmo. Tudo que sabemos do episódio foi condensado em outros blogs, canais de informação e outros espaços na Internet. O resto é sensacionalismo abjeto.

    A mídia sempre abusa da escrotice em ocorrências como essa; não costumo ver charges de O Globo ou do Caruso; sei que nada posso esperar deles, mas me causou espécie a rejeição dos leitores de Noblat à charge, uma vez que quase todos os que podem escrever comentários lá são exemplares da direita mais raivosa que existe (passe por lá um dia e leia as coisas abomináveis que eles falam sobre Dilma, Lula, PT, esquerda em geral, com calúnias e difamações de praxe); eu mesmo estou proibido de publicar lá, pois o Noblat cansou dos meus reparos à sua linha editorial e de todo O Globo.

    Agora, com sinceridade, sequer notei na charge do Caruso, na qual a imagem da pessoa a gritar "Santa Maria!" seria da Dilma. Não sendo, seria apenas um trabalho sem inspiração. Sendo, é apenas mais um degrau do sensacionalismo abjeto e, para coroar, antigovernista. Só faltou dizer que o governo “lucrou” policitacamente com o episódio – se é que não disseram em algum lugar, ou que ela e Tarso Genro estariam tirandouma casquinha das mortes. Esses caras são capazes, e capazes de absolutamente tudo.

    Por último, a notar que não é caso solitário brasileiro: aqui pode ser pior, mas no mundo inteiro neguinho só põe fechadura epois da porta arrombada, visto mais uma tentativa de Obama em controlar o comércio de armas nos EUA, depois da enésima chachina. Aliás, lá também só impuseram legislações mais cuidadosas em espaços públicos depois que um caso semelhante ao de Santa Maria matou umas 500 pessoas, sei lá. Clóvis Rossi escreveu em sua coluna que "a TV espanhola incumbiu-se na noite de domingo de desfazer qualquer hipótese de exclusividade "terceiro-mundista" na história, ao rememorar tragédias similares na própria Espanha, nos EUA e no Reino Unido, para não falar da Argentina."

    Houve um paralelo curioso a este caso, sábado agora, em Portugal: um ônibus partiu da cidade de Portalegre em direção a Santa Maria da Feira com 44 passageiros; caiu num barranco e morreram, de cara, 11 pessoas. Há feridos. Parece roteiro ruim e Hollywood acerca das coincidências do destino traçado pelos astros, sincronicidades, etc.

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    1. Engraçado esse negócio de sites estranhos a que nós, mentes superioras, nos vemos tentados a frequentar. Um exemplo: há um site de uma mulher cujo objetivo, ao abrir o blog, era transar com cem homens ao longo de um ano. Surtiu uma exposição exagerada na mídia, resultou em uma depressão patológica por parte da blogueira, que a levou a um tratamento médico severo e a mudança de propósito completo de seus textos. Ela se tornou uma feminista. Não a leio, só acompanhava a merda revolvente quando a merda revolvia. Porém... um determinado post dela, entre todo aquele sexo tacométrico e aquela liberdade pela liberdade, me surtiu o efeito de uma estocada. Ela abriu mão de seu pseudônimo e contou sobre a morte de sua irmã, uma médica que sonhava com esportes radicais e teve uma morte terrível quando a asa delta em que estava ela e seu instrutor se partiu e caiu no mar de Copacabana. A blogueira tomou esses acidentes como indignação pontual contra a extrema ineficácia dos órgãos de controle brasileiros. No post recente sobre Santa Maria, ela lembra sobre o parque de diversões Hopi Hari. O mesmo brinquedo que ano passado matou uma menina de 14 anos_ que matou por não estar interditado e não ter nenhum aviso sobre o defeito da cadeira em que a menina se sentou_, continua a funcionar, sendo oferecido bilhetes para seu uso pela internet. Essas coisas acontecem sim em todo o mundo, mas só acontecem renitente e constantemente no Brasil. Os responsáveis pelo incêndio na boate da Argentina estão todos presos, desde 2006, e o prefeito da cidade foi imediatamente destituído. Acredita que algo assim possa acontecer por aqui?

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    2. Última:

      "Sócios da boate e músicos devem ser soltos na sexta-feira, já que a polícia e a promotoria não estão conseguindo renovar prisões temporárias."

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    3. O que dizer ... ?

      Ana Paula Rocha

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    4. impeachment nesse prefeito aqui?
      http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2013/01/cezar-schirmer-prefeito-de-santa-maria-deixa-coletiva-a-imprensa-sem-responder-a-perguntas-4026961.html

      pra quê?
      http://www.novacorja.org/?p=4033

      http://www.novacorja.org/?p=4132

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    5. Será que teremos que chamar os argentinos para nos ajudar? Sinceramente, não há como defender a estupidez e o bundamolismo desse nosso país.

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  2. Interessante a fofoca. Por que tiraste?

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  3. Eu leio as matérias do Público na internet e quando vi o título da matéria principal falando sobre um acidente de ônibus em Portoalegre pensei "eles erraram o nome da cidade". Li a notícia e também fiquei intrigada.

    Sobre o sensacionalismo de vampiro da mídia brasileiras na cobertura de tragédias, a "cobertura" do caso de Santa Maria só veio confirmar muito do que já víamos no pseudojornalismo brasileiro. Falta profissionalismo e sobra ânsia por ponto no Ibope. Já não basta um país inteiro sofrer com tão situação ainda aparece gente pra esmiuçar toscamente a vida desses jovens, de suas famílias, etc. etc. etc.

    E isso não é somente aqui. Não gosto quando jornais estrangeiros afirmam ser somente por estas bandas que essa escrotice (desculpem pelo chulo termo) existe. Em suma, se isso existe é porque infelizmente tem quem leia e assista.

    Ana Paula Rocha

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    1. É uma escrotice humana.

      Penso que a diferença dos jornais do Brasil, diante a vampirice a uma tragédia, e os jornais de uma país com uma mídia menos autista, é a cobrança de uma população esclarecida pela apuração veemente das causas e a punição dos culpados. Por aqui, tirando raras exceções, parece que a coisa vira somete espetáculo, o prazer de chorar no cinema escuro, do abraço comunal, das passeatas fazendo símbolos de paz com as mãos. Atitudes bem suspeitas no que expressam de sinceridade e nada produtivas.

      Imagine um universo paralelo surrealista em que William Bonner canse do modelo "robozinho de terno fazendo poses laterais com a cabeça" e passe a, com uma acidez e concisão incríveis, a apontar os culpados? Como isso daqui:

      http://charllescampos.blogspot.com.br/2012/11/a-maravilhosa-jornalista-salete-lemos_6.html

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    2. Ana, foi removido do post, mas está aqui:

      http://www.youtube.com/watch?v=yWvWN0rRQBw

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  4. Ao menos me parece que o governo estadual não vai se esquivar, como está fazendo o prefeito de Stª Maria. Mas tem esse lance aí, do deputado que estaria envolvido com a boate, do mesmo partido do governo...

    Pelo visto andaram fechando casas noturnas em muitas cidades do Brasil, como em São Paulo. Resta saber se mudará alguma coisa.

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