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domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mais triste dos tristes escritores


                                                 "A melancolia é a felicidade de se ser triste" (Victor Hugo)


Não há como não ver como uma estupidez com indigerido traço etnocêntrico o pouco caso que Coetzee faz a Mia Couto em seu livro de ensaios Mecanismos internos. Por mais que eu goste de dois ou três romances de Coetzee a ponto de usá-los como recorrentes presentes a amigos, a única frase que ele dedica a Mia Couto, de forma ostensiva e prepotente, alegando que o moçambiquense não era representativo da literatura produzida no continente africano, estraga um tanto a imagem desse prêmio Nobel que é indiscutivelmente um dos maiores autores vivos da língua inglesa, mas que esbraveja a sua carteirinha de esnobismo elitista de autor europeu (mesmo adotado), de aristocrata que tem sua importância medida e aceita sem reservas acima do senso comum mais idiota dos excêntricos e periféricos. Tal atitude, que por ser explicitamente gratuita (já que ele cita o nome de Mia Couto sem nenhum propósito além de sentencia-lo como descartável), é semelhante em sua violência segregacionista a de escritores como Kingsley Amis ao apontar José Saramago em uma reunião de escritores e dizer a um amigo alguma festiva frase sobre a mediocridade de tais pessoas como o português em se tornarem escritores. O que há por detrás de pontos de vista inerciais como estes é algo constrangedoramente simplista: o mero preconceito; o preconceito mais baixo que junta no mesmo cesto de identidade fechada de casta a proeminência financeira de uma nação sobre a outra, o valor comercial de um idioma sobre o outro, até as mesquinharias mais provincianas como aspectos de cor e raça.

O leitor que conheça o potencial de escritores que exorbitam o eixo de glamour intelectual das regiões cosmopolitas vinculadas à riqueza financeira, sabe bem que dificilmente Coetzee deva ter lido Couto. Ainda mais que um dos ensaios de Mecanismos internos fala minuciosamente sobre o pior livro de um escritor que teria tudo para ser enquadrado nas esferas de subdesenvolvimento literário que Coetzee parece atribuir a Couto: o Memórias de minhas putas tristes, do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Coetzee faz uma radiografia pedante sobre esse fraquíssimo livro, para no final dizer o que qualquer leitor menos devotado já tem por certo: é um romance descartável entre a bibliografia em três títulos prodigiosa de GGM. Gastando tanto tempo em um livro constrangedoramente menor de um cultuado autor, e relegando toda a obra com momentos imortais como Terra sonâmbula de outro com uma frase absurdamente derrisória, Coetzee mostra, apesar da sofisticação utilizada na maior parte de seus ensaios, uma visão medíocre, cerceada pelo mais atrasado selo de qualidade senhorial, pela sutileza mais gritante que remete a pensarmos o quanto o autor de uma obra como Desonra sucumbe ao clichê da pior espécie, talvez pela velhice ornamentada com seus importantes prêmios (mas não menos velhice), e sua empáfia diante o que ele pressupõe ser o extremo oposto de si mesmo (ele, um autor africano branco, que escreve uma prosa realista seca, que transita por esferas intelectuais assepsiadas de sentimentalismo, e Mia Couto, um autor africano branco, que escreve uma prosa barroca com cores sinestésica e profundamente poética). E se quisermos sair desse diagnóstico como algo precipitado, basta ver o ensaio no mesmo volume sobre Sándor Marái, em que suas palavras, agora prolixas e diretas, são assim mais pesadas em seu descarte em dizer que Sándor é um péssimo romancista (ele dedica várias páginas em destruir o romance, para já no final, como se estivesse cansado daquilo, empregar seu carimbo definitivo por sobre o autor, dessa vez segregado tanto por sua origem étnica como pelo passar do tempo, como se Coetzee estivesse a dizer que estilos assim já estão ultrapassados, que o que conta é sua linguagem dilapidada de adornos desnecessários).

Pois bem. Essa lembrança de Coetzee me veio hoje ao ler uma resenha do Luís Augusto Farinatti sobre Bolaño, que me fez passar boa parte da tarde desse domingo folheando Os detetives selvagens. Assim como eu, Farinatti teve que passar pelo desgaste que o culto a Bolaño cria em quem quer ler Bolaño, a excessiva exposição do autor chileno. Eu li quase tudo de Bolaño, e há tempos não ouço falar dele. Assim, foi com surpresa que li sobre a iniciação feliz de Farinatti, ele que adora literatura latino-americana e produz bons contos, pois me fez retornar ao Bolaño nessa hora que, percebi com certo espanto, parece que passou o fervor em torno da figura do autor de 2666. Ou eu é que, de tanto me esquecer dele, não ando acompanhando os tantos sites dedicados à sua celebração. Para mim, pois, Bolaño agora atingiu sua plenitude, pode-se_ ou posso_ voltar a ele com a virginalidade de quem o descobre por iniciativa própria, sem os ecos de tantas opiniões translativas. Reli o primeiro capítulo de Os detetives selvagens emocionado, devo confessar. Depois reli as últimas dez páginas, que a mim afiguraram como o melhor desse romance, quando o explorei há seis anos. Eu achei bastante ruim Os detetives selvagens, por uma série de razões que já expus a exaustão. Na verdade a palavra correta é que desgostei-me dele, pois aguardava um escritor extático, e encontrei o mais triste dos tristes escritores. A última página desse romance é belíssima, sublime, estranha e ambiguamente eloquente. Passei muito tempo entendendo o que ela diz, e ela diz muitas coisas de várias maneiras. Mas, como ia dizendo, o livro_ tido por uma legião de pessoas sérias como uma grande obra-prima_ me desgostou porque era triste demais, latino-americano de uma forma sem subterfúgios, pura e intranscedente. Talvez porque na época me causava desespero pertencer ao país mais latino-americano dos latino-americanos, e Bolaño pregasse o dedo em minhas feridas com sua lucidez insensata. E o fato de que o celebravam em todo o canto do mundo como o novo Garcia Marquez, isso me doía ainda mais: era a celebração de tudo que eu via em torno de mim como atraso, a celebração de sua visão já sem redenções do latino-americano. GGM criou uma mitologia própria ao latino-americano, e Bolaño, seu substituto legal, vinha acabar com tudo falando da extrema violência e primitividade, dos jovens poetas predestinados à morte precoce, dos detetives selvagens do título que traziam nessa outorga o sarcasmo de serem detetives sem a possibilidade de desvendarem nada, e selvagens porque eram frágeis demais em seus sonhos, revolucionários obsoletos, poetas de uma era em que o vocabulário não tinha mais a mínima importância. Bolaño, me parecia, era a última concessão dada à expressividade de todo nosso continente, e ele assumia saber disso em sua intenção de sepultar de vez as letras.

Devo admitir hoje, após o post do Farinatti e minhas releituras descansadas de Os detetives selvagens, que só agora eu perdi certo receio contra Bolaño, eu passo a compreendê-lo melhor. Acho que isso tem a ver com meus esforços mais concentrados em escrever um romance, uma tarefa mais madura e auto-combativa (afastando e destruindo uma série de bobeiras aprendidas também pela inércia). O mais triste de todos os tristes escritores é também de um visceralismo só tido em raros companheiros seus de profissão. Após ler o último romance de Martin Amis, por exemplo, a impressão de artificialidade artística, de bater as teclas da máquina com proficiência mas sem muito coração, é algo que vejo impossível em Bolaño. Amis é um escritor muito bem pago, e sua obrigação é vencer o enfado do conforto de viver no extremo mais rico do mundo, cavar uma experiência que ele não tem, e dar vida a essa simulação com todos seus hercúleos esforços retóricos. O mesmo ocorre com McEwan, que há muito não escreve nada que se pareça com a realidade lá de fora de seu gabinete. E Coetzee, o meu amado e festejado Coetzee, já distante de seu auge da palavra, vem construindo suas zonas mentais aprimoradas, suas fábulas complexas kafkianas, e que cansaço benéfico ao final da tarde deve tomar conta de seus olhos míopes que caem por um tempo gratificante por sobre o aveludado tapete por debaixo de seus pés. Essa percepção de cavar a verdade passou pela cabeça do Philip Roth de Entre nós, quando ele confessa a inveja que tem de escritores como Ivan Klíma, que tem todo o provimento de assuntos capitais oferecidos pelas agruras cotidianas de sua pátria política. Tentar escrever tem me dado uma piedade de visão e uma profundidade muito mais reveladora que a passiva aquisição da escrita pela leitura. Um humanismo que me faz rever conceitos imediatos que se colam com uma facilidade parasita e assustadora em minha mente. Uma nova ciência do olhar muito útil nesses nosso tempos em que se prende menores infratores em postes com trancas de bicicleta, e a primeira sensação demanda uma insensível e brutalizada comemoração. Vendo o vídeo de Mia Couto falando sobre o medo_ a sua integridade, a sua segurança, a sua calma e cordial e cavaleiresca presença, a sua seriedade e auto-confiança_, e repassando Bolaño, e lendo Saramago, e Bernardo Carvalho, e na iminência de ler tantos escritores que ficam do lado de fora dessa batalha ignóbil de etnocentrismos, eu penso, feliz, que a tristeza de Bolaño é, em contrapartida, uma alegria libertária da expressão. Isso reforça de uma maneira indizível minha fé na literatura.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee



As Aventuras de Augie March  deveria ter um personagem central menos quedado na idiotia, e uma trama menos dispersa e inofensiva; o relacionamento de Florentino Ariza com a adolescente de 14 anos América, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, carece de uma explicação moral, limitando-se a ser apenas uma apologia truncada da pedofilia (com "ecos arcanos de Lolita"); o escritor moçambicano Mia Couto é influenciado demais pelo realismo mágico"para merecer confiança como cronista do passado do seu país"; Walter Benjamin expressa uma deslocada ingenuidade ao centrar o seu grande tratado de colagens sobre o capitalismo nos grands magasins de Paris e não nas lojas de departamentos de Nova York e Chicago, da mesma forma que Walt Whitman desconhece os rumos contemporâneos da história norte-americana ao cantar o clima fraterno dos artesãos e pequenos proprietários num Estados Unidos em que  uma fase febril do capitalismo industrial acirrava a busca individual pelo lucro.

Essas são algumas observações feitas por Coetzee ao longo de seu mais recente volume de ensaios, lançado  no Brasil pela Companhia das Letras no mês passado com  o título Mecanismos Internos- Ensaios sobre literatura (2000-2005). Sem tocar de imediato no mérito de se concorda ou não com essas opiniões, esses ensaios dão ao leitor ao menos três certezas indiscutíveis sobre o ficcionista:  1. Coetzee explora os autores escolhidos com uma amplitude extrema, demonstrando ter lido não apenas toda a obra, como biografias e traduções principais, com uma acuidade investigativa que se aproxima da vertente acadêmica de um ensaísta que leva muito a sério o seu tema, distanciando-se ou quase não remetendo-se ao Coetzee romancista; 2. Coetzee, ao menos nesses ensaios de sua produção tardia, demonstra grande preocupação com a questão moral do escritor frente a um  mundo fragmentário e absurdo, perspassando a validez da produção intelectual pela capacidade de seu criador em reagir ao meio através da construção de um mundo exilado da bestialidade dos tempos históricos, mas acirradamente conectado à realidade de forma denunciadora e não conivente. (Daí ser representativo que parte dos escritores analisados sofreu a perseguição nazista, muitos destes sucumbindo ao suicídio ou à execução). 3. Como esses ensaios, numa percepção indireta, contribui para uma maior compreensão dos romances de Coetzee.

São 21 ensaios, a maioria publicada na New York Review of Books, que apresentam um Coetzee surpreendentemente diferente para os que só tinham lido, até então, a obra de ficção do autor. Aqui ele está mais prolixo (não palavroso), e um tanto mais caloroso e entusiasta que a voz lacônica e desapaixonada de romances como Desonra e O Mestre de Petersburgo. Pelo menos 7 desses ensaios são fundamentais, não tendo temor em dizer que foram escritos num padrão mesmo superior a de críticos literários de formação, como Harold Bloom e James Wood, mas em todos os outros o autor nos regala com sua inteligência, a elegância da escrita, e uma devoção à literatura que o leitor às vezes se sente culpado por suspeitar se Coetzee não está sendo anacrônico.

Coetzee mostra a sua mestria na composição ensaística ao assinalar que não só ao romance os tempos atuais impõe a necessidade de renovação, mas também aos outros gêneros que derivam do romance, como o ensaio literário, as narrativas de viagem, os mini-textos aforísticos, as memórias. Sua contribuição para o ensaio é mais que substancial, chega a desarmar possíveis debatedores pelo efeito desencorajador de falta de conhecimento suficiente, ou de ter-se que encetar a releitura para captar o que Coetzee demonstra ter passado batido. Coetzee contorna  por todos os lados o texto analisado, a vida do autor, e as opiniões correntes do mundo sobre ele, explora as contradições, as fraquezas, mergulha na direção menos laudatória que a ambiguidade criou, esclarece aspectos históricos sobre o tempo no qual está imergido o autor, que se mostram impactantemente essenciais mas que, contudo, foram desconsiderados pela crítica. A exemplo desse último, no ensaio arrebatador sobre Walt Whitman, Coetzee não cai na repetição da fórmula maçante de relacionar o poeta à democracia e às comunidades alternativas como a dos quackers, mas explora o homoerotismo de Whitman de maneira desassombrada, interagindo com seu talento cenográfico de romancista em mostrar um velho Whitman transitando pelos hospitais de Washington, abraçando os belos soldados à beira da morte e dizendo-lhes palavras de amor fraterno. "Entre 1862 e 1865", escreve Coetzee, "Whitman prestou cuidados a cerca de 100 mil homens." E revela que, a proibição de Folhas da Relva na América de finais do século XIX, se deveu ao erotismo expresso entre homens e mulheres, que ofendeu a classe média puritana, e não às descrições de relações sexuais homem com homem, pois estas últimas, para o pasmo do leitor que pensava que o liberalismo sexual é criação dos anos 1960, era comum e aceita sem nenhum traço de polêmica pela sociedade daquela época.

No ensaio sobre Faulkner, que também é um dos que indicam que Coetzee já teria seu espaço garantido no mundo das letras se tivesse sido apenas ensaísta, vemos o retrato de um escritor misto de um enorme talento  natural destinado a criar algo que nunca havia sido feito antes (uma nova corrente literária), e um aprendiz restringido à leitura de Balzac, Dickens, Conrad, ao Antigo Testamento, Shakespeare e Moby-Dick. Coetzee nos apresenta um Faulkner limitado em sua vida cotidiana a um casamento infeliz, ao alcoolismo degenerador, a uma espécie de desconhecimento espontâneo do mundo tanto geográfico quanto político, que tinha grande apego à alienação para tudo que exorbitasse a estrita região sulista que ele recolheu da realidade para criar seu espaço ficcional próprio no Condado de Yoknapatawpha. Coetzee revela o quanto Faulkner era um homem comum desprovido de graça _que ficava violento a ponto da esposa e filha terem que se esconder de suas inúmeras crises alcoólicas _, quando era convocado a sair de sua zona de precisão para se apresentar a um público pouco convencido de suas ideias políticas desarroadas e suas concepções raciais e escavocratas inconsistentes. Mas como ele foi profundo estudioso da alma humana em seus romances, e o rico cenário por ele erigido dá margem a avaliações políticas que transcendem a obtusidade de faixada.

Aliás esse é um dos pontos principais desses ensaios: a dicotomia entre o homem trivial e o grande criador que se esconde dentro dele. As formas usadas para que esse criador se exteriorize, ainda mais em tempos difíceis e sombrios como foi o século passado, e se mostre, de diversos ângulos contrapontistas, reativo ao caráter eventual que quer lhe abater e restringí-lo ao mero número participativo, ao mero cidadão colaborador. Assim, no também magnífico ensaio sobre Walter Benjamin, Coetzee inicia com uma técnica policial narrando os últimos instantes do escritor, antes que ele tomasse uma dose letal de morfina, ao se ver barrado na sua fuga dos nazistas pela fronteira espanhola. Benjamin levava uma mala desnecessariamente pesada para um fugitivo, e, quando questionado por uma das outras fugitivas o por que não abandonava a mala, ele responde: "Não posso correr o risco de perdê-lo. Precisa ser salvo...É bem mais importante do que eu." E no ensaio sobre Bruno Schulz, o romancista e pintor polonês que, tendo levado uma vida de refugiado atento e em iminente deslocamento, se deixa executar quase por acaso "durante um dia de anarquia promovido pela Gestapo" em Drohobycz, e que repetia na escrita o sinergismo kafkiano de transformar as vítimas da opressão em insetos abomináveis. Esse motivo do escritor que busca um reduto representativo em que possa alimentar uma indeterminada lógica reflexa do mundo que o cerca, também aparece no ensaio sobre os contos de Samuel Beckett, que "era um artista possuído por uma visão da vida sem consolo nem dignidade ou promessa de graça, em face da nosso único dever_ inexplicável e de finalidade fútil, mas ainda assim um dever_ é não mentirmos para nós mesmos."

Esses ensaios, como foi assinalado acima, servem para uma maior compreensão da obra ficcional de Coetzee, principalmente quanto à moral subliminar que vemos em romances como Vida e Época de Michael K., A Idade do Ferro e, de forma mais sutil, em Desonra. Coetzee não se mostra desconfortável ou preocupado em ser acusado de funcionalismo ao exigir, muitas vezes sutilmente, que a literatura seja socialmente enquadrada, positivamente construtiva, ainda mais nas sociedades em que imperam os conflitos étnicos e políticos, como as descritas nos ensaios sobre Nadine Gordimer, V. S. Naipaul, Günter Grass, e, um pouco menos significativo, Garcia Marquez. A inteligência e cognição multitudinária que recheiam estes ensaios realmente sublimes parece dar a Coetzee o álibe de que seja até uma necessidade mais que formal a sua defesa por uma literatura engajada, livre da impunidade da fantasia pela fantasia, inserida nos contextos urgentes da hora; que as parábolas sejam interseccionadas com a denúncia contra a opressão, e as imagens mais distorcidas não sejam meros arroubos artisticos, mas uma exploração dialética do momento.

Essa visão é coerente com toda a obra ficcional de Coetzee, que sempre teve pé no realismo revisionista da culpa histórica do europeu (Desonra); da exclusão econômica dos não-assimiláveis do capitalismo (A Idade do Ferro, Michael K.); da inerente e inconsciente propensão do homem branco ao domínio das "raças" oriundas da mal digerida ruptura colonial (À Espera dos Bárbaros, Homem Lento). Assim, Coetzee não está oferecendo nenhum ingrediente novo ao amparar um dos valores literários na diretriz causa e efeito moral, mas, assim exposto, sem a roupagem ficcional, isso tanto dá novas opções de debate sobre seus romances, como revela que a régua usada por Coetzee ao discriminar algumas obras não é a mais adequada. Se ele repudia_ com toda a elegância e respeito que tem por Bellow_ Augie March, por sua "idiotia" em não ter uma estatura de esclarecimento reacionário ao momento histórico de múltiplas transformações em que os E.U.A. passavam na metade do século XX, e se ele condena o famoso capítulo 16 desse romance por ser uma gratuita e desnecessária narrativa sobre adestramento de uma águia, demonstra que, apesar do enorme talento perceptivo artístico que tem, lhe escapa muito facilmente os propósitos que Bellow destinou a esse romance picaresco. O ensaio sobre Bellow desconsidera, então, um dos mais ricos e grandes romances americanos do século passado, para se ocupar com um outro romance menor e quase esquecido de Bellow, A Vítima, "a poucos centímetros de Billy Budd na primeira fila das novelas americanas", porque este, com sua temática pós-existencialista em que um bancário analisa a futilidade de sua vida, cercada por um cotidiano que lhe veda a acepção das grandes ideias da humanidade, condiz mais a um conteúdo formativo.

Da mesma forma, lhe escapa o potencial da prosa sinérgica de Mia Couto, o que soa irônico (ou até discriminativo por outras razões, já que uma simples sentença demonstra que um ensaísta de fôlego ilimitado como Coetzee desconhece a obra de Mia Couto não por preguiça), visto que dedica ao moçambicano apenas uma observação passageira, descartando-o pelo que ele não é: adepto do realismo mágico (p. 334, segundo parágrafo). E também, Coetzee mostra não ter percebido que Walter Benjamin é significativo e original justo por ter composto uma análise do capitalismo a partir dos objetos espúrios e invisíveis, o que lhe assentava mais as lojinhas parisienses e não os shoppings de Manhattan.

Para uma nova análise da obra ficcional de Coetzee, que não será desenvolvida neste texto, surgem as perguntas: o médico que narra a parte final de Michael K. soa mesmo despropositadamente didático, em prejuízo da obra? Na linha de delimitação da moral, que vemos nos ensaios, uma releitura de Desonra o transforma ainda mais em um romance espantoso, de propostas que tanto pode envolver um cristianismo de níveis esotéricos sobre-naturais, quanto um sarcasmo desproporcional.