segunda-feira, 21 de março de 2011

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee



As Aventuras de Augie March  deveria ter um personagem central menos quedado na idiotia, e uma trama menos dispersa e inofensiva; o relacionamento de Florentino Ariza com a adolescente de 14 anos América, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, carece de uma explicação moral, limitando-se a ser apenas uma apologia truncada da pedofilia (com "ecos arcanos de Lolita"); o escritor moçambicano Mia Couto é influenciado demais pelo realismo mágico"para merecer confiança como cronista do passado do seu país"; Walter Benjamin expressa uma deslocada ingenuidade ao centrar o seu grande tratado de colagens sobre o capitalismo nos grands magasins de Paris e não nas lojas de departamentos de Nova York e Chicago, da mesma forma que Walt Whitman desconhece os rumos contemporâneos da história norte-americana ao cantar o clima fraterno dos artesãos e pequenos proprietários num Estados Unidos em que  uma fase febril do capitalismo industrial acirrava a busca individual pelo lucro.

Essas são algumas observações feitas por Coetzee ao longo de seu mais recente volume de ensaios, lançado  no Brasil pela Companhia das Letras no mês passado com  o título Mecanismos Internos- Ensaios sobre literatura (2000-2005). Sem tocar de imediato no mérito de se concorda ou não com essas opiniões, esses ensaios dão ao leitor ao menos três certezas indiscutíveis sobre o ficcionista:  1. Coetzee explora os autores escolhidos com uma amplitude extrema, demonstrando ter lido não apenas toda a obra, como biografias e traduções principais, com uma acuidade investigativa que se aproxima da vertente acadêmica de um ensaísta que leva muito a sério o seu tema, distanciando-se ou quase não remetendo-se ao Coetzee romancista; 2. Coetzee, ao menos nesses ensaios de sua produção tardia, demonstra grande preocupação com a questão moral do escritor frente a um  mundo fragmentário e absurdo, perspassando a validez da produção intelectual pela capacidade de seu criador em reagir ao meio através da construção de um mundo exilado da bestialidade dos tempos históricos, mas acirradamente conectado à realidade de forma denunciadora e não conivente. (Daí ser representativo que parte dos escritores analisados sofreu a perseguição nazista, muitos destes sucumbindo ao suicídio ou à execução). 3. Como esses ensaios, numa percepção indireta, contribui para uma maior compreensão dos romances de Coetzee.

São 21 ensaios, a maioria publicada na New York Review of Books, que apresentam um Coetzee surpreendentemente diferente para os que só tinham lido, até então, a obra de ficção do autor. Aqui ele está mais prolixo (não palavroso), e um tanto mais caloroso e entusiasta que a voz lacônica e desapaixonada de romances como Desonra e O Mestre de Petersburgo. Pelo menos 7 desses ensaios são fundamentais, não tendo temor em dizer que foram escritos num padrão mesmo superior a de críticos literários de formação, como Harold Bloom e James Wood, mas em todos os outros o autor nos regala com sua inteligência, a elegância da escrita, e uma devoção à literatura que o leitor às vezes se sente culpado por suspeitar se Coetzee não está sendo anacrônico.

Coetzee mostra a sua mestria na composição ensaística ao assinalar que não só ao romance os tempos atuais impõe a necessidade de renovação, mas também aos outros gêneros que derivam do romance, como o ensaio literário, as narrativas de viagem, os mini-textos aforísticos, as memórias. Sua contribuição para o ensaio é mais que substancial, chega a desarmar possíveis debatedores pelo efeito desencorajador de falta de conhecimento suficiente, ou de ter-se que encetar a releitura para captar o que Coetzee demonstra ter passado batido. Coetzee contorna  por todos os lados o texto analisado, a vida do autor, e as opiniões correntes do mundo sobre ele, explora as contradições, as fraquezas, mergulha na direção menos laudatória que a ambiguidade criou, esclarece aspectos históricos sobre o tempo no qual está imergido o autor, que se mostram impactantemente essenciais mas que, contudo, foram desconsiderados pela crítica. A exemplo desse último, no ensaio arrebatador sobre Walt Whitman, Coetzee não cai na repetição da fórmula maçante de relacionar o poeta à democracia e às comunidades alternativas como a dos quackers, mas explora o homoerotismo de Whitman de maneira desassombrada, interagindo com seu talento cenográfico de romancista em mostrar um velho Whitman transitando pelos hospitais de Washington, abraçando os belos soldados à beira da morte e dizendo-lhes palavras de amor fraterno. "Entre 1862 e 1865", escreve Coetzee, "Whitman prestou cuidados a cerca de 100 mil homens." E revela que, a proibição de Folhas da Relva na América de finais do século XIX, se deveu ao erotismo expresso entre homens e mulheres, que ofendeu a classe média puritana, e não às descrições de relações sexuais homem com homem, pois estas últimas, para o pasmo do leitor que pensava que o liberalismo sexual é criação dos anos 1960, era comum e aceita sem nenhum traço de polêmica pela sociedade daquela época.

No ensaio sobre Faulkner, que também é um dos que indicam que Coetzee já teria seu espaço garantido no mundo das letras se tivesse sido apenas ensaísta, vemos o retrato de um escritor misto de um enorme talento  natural destinado a criar algo que nunca havia sido feito antes (uma nova corrente literária), e um aprendiz restringido à leitura de Balzac, Dickens, Conrad, ao Antigo Testamento, Shakespeare e Moby-Dick. Coetzee nos apresenta um Faulkner limitado em sua vida cotidiana a um casamento infeliz, ao alcoolismo degenerador, a uma espécie de desconhecimento espontâneo do mundo tanto geográfico quanto político, que tinha grande apego à alienação para tudo que exorbitasse a estrita região sulista que ele recolheu da realidade para criar seu espaço ficcional próprio no Condado de Yoknapatawpha. Coetzee revela o quanto Faulkner era um homem comum desprovido de graça _que ficava violento a ponto da esposa e filha terem que se esconder de suas inúmeras crises alcoólicas _, quando era convocado a sair de sua zona de precisão para se apresentar a um público pouco convencido de suas ideias políticas desarroadas e suas concepções raciais e escavocratas inconsistentes. Mas como ele foi profundo estudioso da alma humana em seus romances, e o rico cenário por ele erigido dá margem a avaliações políticas que transcendem a obtusidade de faixada.

Aliás esse é um dos pontos principais desses ensaios: a dicotomia entre o homem trivial e o grande criador que se esconde dentro dele. As formas usadas para que esse criador se exteriorize, ainda mais em tempos difíceis e sombrios como foi o século passado, e se mostre, de diversos ângulos contrapontistas, reativo ao caráter eventual que quer lhe abater e restringí-lo ao mero número participativo, ao mero cidadão colaborador. Assim, no também magnífico ensaio sobre Walter Benjamin, Coetzee inicia com uma técnica policial narrando os últimos instantes do escritor, antes que ele tomasse uma dose letal de morfina, ao se ver barrado na sua fuga dos nazistas pela fronteira espanhola. Benjamin levava uma mala desnecessariamente pesada para um fugitivo, e, quando questionado por uma das outras fugitivas o por que não abandonava a mala, ele responde: "Não posso correr o risco de perdê-lo. Precisa ser salvo...É bem mais importante do que eu." E no ensaio sobre Bruno Schulz, o romancista e pintor polonês que, tendo levado uma vida de refugiado atento e em iminente deslocamento, se deixa executar quase por acaso "durante um dia de anarquia promovido pela Gestapo" em Drohobycz, e que repetia na escrita o sinergismo kafkiano de transformar as vítimas da opressão em insetos abomináveis. Esse motivo do escritor que busca um reduto representativo em que possa alimentar uma indeterminada lógica reflexa do mundo que o cerca, também aparece no ensaio sobre os contos de Samuel Beckett, que "era um artista possuído por uma visão da vida sem consolo nem dignidade ou promessa de graça, em face da nosso único dever_ inexplicável e de finalidade fútil, mas ainda assim um dever_ é não mentirmos para nós mesmos."

Esses ensaios, como foi assinalado acima, servem para uma maior compreensão da obra ficcional de Coetzee, principalmente quanto à moral subliminar que vemos em romances como Vida e Época de Michael K., A Idade do Ferro e, de forma mais sutil, em Desonra. Coetzee não se mostra desconfortável ou preocupado em ser acusado de funcionalismo ao exigir, muitas vezes sutilmente, que a literatura seja socialmente enquadrada, positivamente construtiva, ainda mais nas sociedades em que imperam os conflitos étnicos e políticos, como as descritas nos ensaios sobre Nadine Gordimer, V. S. Naipaul, Günter Grass, e, um pouco menos significativo, Garcia Marquez. A inteligência e cognição multitudinária que recheiam estes ensaios realmente sublimes parece dar a Coetzee o álibe de que seja até uma necessidade mais que formal a sua defesa por uma literatura engajada, livre da impunidade da fantasia pela fantasia, inserida nos contextos urgentes da hora; que as parábolas sejam interseccionadas com a denúncia contra a opressão, e as imagens mais distorcidas não sejam meros arroubos artisticos, mas uma exploração dialética do momento.

Essa visão é coerente com toda a obra ficcional de Coetzee, que sempre teve pé no realismo revisionista da culpa histórica do europeu (Desonra); da exclusão econômica dos não-assimiláveis do capitalismo (A Idade do Ferro, Michael K.); da inerente e inconsciente propensão do homem branco ao domínio das "raças" oriundas da mal digerida ruptura colonial (À Espera dos Bárbaros, Homem Lento). Assim, Coetzee não está oferecendo nenhum ingrediente novo ao amparar um dos valores literários na diretriz causa e efeito moral, mas, assim exposto, sem a roupagem ficcional, isso tanto dá novas opções de debate sobre seus romances, como revela que a régua usada por Coetzee ao discriminar algumas obras não é a mais adequada. Se ele repudia_ com toda a elegância e respeito que tem por Bellow_ Augie March, por sua "idiotia" em não ter uma estatura de esclarecimento reacionário ao momento histórico de múltiplas transformações em que os E.U.A. passavam na metade do século XX, e se ele condena o famoso capítulo 16 desse romance por ser uma gratuita e desnecessária narrativa sobre adestramento de uma águia, demonstra que, apesar do enorme talento perceptivo artístico que tem, lhe escapa muito facilmente os propósitos que Bellow destinou a esse romance picaresco. O ensaio sobre Bellow desconsidera, então, um dos mais ricos e grandes romances americanos do século passado, para se ocupar com um outro romance menor e quase esquecido de Bellow, A Vítima, "a poucos centímetros de Billy Budd na primeira fila das novelas americanas", porque este, com sua temática pós-existencialista em que um bancário analisa a futilidade de sua vida, cercada por um cotidiano que lhe veda a acepção das grandes ideias da humanidade, condiz mais a um conteúdo formativo.

Da mesma forma, lhe escapa o potencial da prosa sinérgica de Mia Couto, o que soa irônico (ou até discriminativo por outras razões, já que uma simples sentença demonstra que um ensaísta de fôlego ilimitado como Coetzee desconhece a obra de Mia Couto não por preguiça), visto que dedica ao moçambicano apenas uma observação passageira, descartando-o pelo que ele não é: adepto do realismo mágico (p. 334, segundo parágrafo). E também, Coetzee mostra não ter percebido que Walter Benjamin é significativo e original justo por ter composto uma análise do capitalismo a partir dos objetos espúrios e invisíveis, o que lhe assentava mais as lojinhas parisienses e não os shoppings de Manhattan.

Para uma nova análise da obra ficcional de Coetzee, que não será desenvolvida neste texto, surgem as perguntas: o médico que narra a parte final de Michael K. soa mesmo despropositadamente didático, em prejuízo da obra? Na linha de delimitação da moral, que vemos nos ensaios, uma releitura de Desonra o transforma ainda mais em um romance espantoso, de propostas que tanto pode envolver um cristianismo de níveis esotéricos sobre-naturais, quanto um sarcasmo desproporcional.



16 comentários:

  1. Bá, tchê, barbaridade! "Um Faulkner limitado em sua vida cotidiana a um casamento infeliz, ao alcoolismo degenerador, a uma espécie de desconhecimento espontâneo do mundo tanto geográfico quanto político, que tinha grande apego à alienação para tudo que exorbitasse a estrita região sulista que ele recolheu da realidade para criar seu espaço ficcional", é tudo que abstraí da leitura das 100 páginas de Faulkner que li, me sinto automaticamente desobrigado de ler mais 2.000.

    Quanto ao Mia Couto, julgo que ele não deixa de ter razão, como escritor atento à questão moral da escritura além das frescuras de estilo.

    Gosto da literatura dele, desafrescalhada. Gosto da visão "moral" que ele tem da literatura, atenta às questões e vínculos com o mundo "realmente existente"

    Quanto aos demais, Below etc., catzos, ninguém, com suas próprias caraceterísticas e idiossincrasias, é obrigado é captar a essência daquilo que passa a anos luz e milênios de suas preocupações e estetismos. É chato quando o bosta do suposto entendedor de literatura fica elaborando mil argumentos sofisticados quando, no final das contas, o que ele quer dizer é que, "sabe o que mais, detesto o jeito de escrever desse cara, ele é um pentelho encravado repleto de pretensão e marcado por sua vidinha de bosta".

    Puta merda, 90% da teoria literária ganharia leitores se não tivesse a pretensão erudita e categorizante que tem.

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  2. Antes de mais nada, deixe-me recuperar do choque de ver "marcos nunes" em vermelho assim que abri a página para conferir o comentário.

    Pô, sempre achei que vc gostasse do Mia Couto. É o único escritor com firulas roseanas que suporto. Aliás, não sei mesmo porque, gosto pacas do cara, mais do que o seu insensado Gonçalo Tavares.

    Bom, não vou ficar aqui dando corda pra vc pegar no meu pé escrachando o Bellow e o Faulkner. Já trocamos farpas sobre isso em algum outro lugar (como se não soubesse onde!), e nada resolveu.

    A critica literária é o que revela, escolhe e dá valor ao escritor, ou o denigre e deplora. Esse mundo é de ilusão e falsidade, e o quanto já caímos na balela do que é bom apenas pela retórica glamorosa de quem disse que era bom?

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  3. Marcos Nunes e Charlles Campos,
    do fundo do meu puro coração, o que poderia desejar a ambos? Ora, nada mais, nada menos do que uma inocente interjeição caridosa para dois letrados carnívoros digitígrados:


    ISCA! ISCA! ISCA!....

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  4. "Bom, não vou ficar aqui dando corda pra vc pegar no meu pé "
    ahhh

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  5. Curiosamente, em paralelo, um crítico inglês, que publica também ensaios na New Yorker, teve seu livro recentemente lançado no Brasil, sob o título "Como Funciona a Ficção"; seu nome é James Wood (quase o nome de um ator de cinema).

    Não li nenhum dos dois livros, mas conheço algumas resenhas de Coetzee, ou ensaios mais propriamente ditos, e sua enorme admiração por Dostoiévski bem expressa em seu romance "O Mestre de Petersburgo" e em um capítulo-ensaio do livro "Diário de um Ano Ruim".

    Não sei quanto ao primeiro (a Flora Sussekind acabou com o livro dele), mas Coetzee, que faz, na verdade, a crítica impressionista que fazemos em blog, tem uma sensibilidade especial ao tratar das questões literárias. Wood, pelo que li nos cadernos culturais, é daqueles presunçosos que pululam na New Yorker, enquanto Coetzee deve publicar seus pequenos ensaios lá devido a uma boa remuneração, veiculação de nome e coisas assim, apesar de sua indisposição ao debate público (vimos isso quando ele esteve na FLIP, em Paraty, à parte sua simpatia pessoal quando está longe de problemas literários).

    Enfim, interessou, Deixo para você, Charlles, a leitura do livro do James Wood. Afinal, também falaram mal deste livro de Coetzee, embora isso seja mais compreensível: teóricos literários não gostam da concorrência impressionista de um mero escritor...

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  6. Rachel, James Wood eu já conheço através de resenhas feitas sobre ele, nunca o tendo lido. Mas de já compactuo com sua impressão sobre a presunção do sujeito. Segundo uma matéria sobre Wood escrita pelo Sérgio Rodrigues, ele desconsidera autores contemporâneos importantes, sem muita reflexão válida. Não me interessou.

    Já havia ouvido falar dos ensaios de Coetzee, e esperava ansiosamente que fossem traduzidos. Eu conseguira ler o sobre Walter Benjamin, publicado em inglês num dos blogs do ops (Modos de Criar Mundos, acho). São ensaios que enchem os olhos, vc vai gostar. Já li a ensaística de vários romancistas, e esse volume do Coetzee só é ombreado pelo do Milan Kundera.

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  7. Ah, tudo bem, mas que eu gostei pra caralho daquele trecho sobre o Faulkner, isso eu gostei. Sobre o Wood, nós comentamos sobre ele neste final de semana; li primeiro e falei pra Rachel: olha só que babaca! O problema dele é que, no afã de ser demagogo e, ao contrariar o teórtico literário, se aproximar do "leitor comum", puxar a sardinha pro lado dele. Resulta disso que ele fica o oposto do teórico, mas igualmente ruim.

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  8. Marcos, eu sempre disse que quem escreve deve ser meio que reacionário e assimilativo. Não importa o que vc escreva e qual o grau de aceitação editorial, virtual, crítico ou o diabo que for, que vc tenha; se vc senta para escrever algo que seja mais que uma simples lista de compras ou recado para dizer à esposa que volta antes da janta, deve necessariamente ter fé e um amor próprio primoroso para ser o primeiro a levar a sério o que escreve. Literatura nunca foi para as massas. Aproximar a ralé à literatura não é papel do escritor, mas dos líderes do partido e dos agentes do governo, e a literatura visada vinha sempre em livrinhos doutrinários de capas coloridas com o desenho de um careca ou de um barbudo na frente.

    Não existe oxímero maior que "leitor comum".

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  9. Isso aqui está começando a aparecer uma comédia da Broadway.

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  10. Qual? Vitor ou Vitória?

    Pô, tô me sentindo um inseto...

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  11. Sem brincadeira, na boa, os leitores de coisas escritas por Sheldons e Hobbins e quetais, ou ainda Lutfs e Coelhos, podem muito bem ser entendidos como leitores comuns ou, se você não quiser, gorgulhos.

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  12. Tá bom, vc está certo! É minha pretensão a aforismos que acaba mesmo dando nessas frases generalizantes. Ano passado li o Símbolo Perdido do Dan Brown, e no final não senti que havia realmente "lido" alguma coisa. Não se ganha nada lendo Dan Brown, além de diversão, e para esse objetivo é melhor um filme do Homem Aranha, blábláblá.

    Não sei o que o Ramiro quis dizer com Broadway _ a paternidade tá me deixando com uma cota maior de burrice, com a criançada gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar direito, ou vai ver é o álcool. Mas o Ramiro é um poeta que escolheu a boa vida acadêmica, com salário de 5 casas decimais, e que vem pagando o preço de ter-se que se meter na Física e na Ergonometria e na Matemática, o que lhe corroi o cérebro e lhe entorpece o juízo, o que de já temos que perdoá-lo e ver que padece de uma vertente de loucura diferente da nossa. Aliás os post do Milton, e seus comentários, tem sido um indicativo prático da velha psicopatologia da vida cotidiana, é só conferir com um olhar científico, muito non-sense para ser apenas levianidade espontânea. Acho que tem a ver com o lítio, o chumbo, ou a luz da telinha, ou a flacidez, algo de fora pra dentro.

    Mas justo hoje tenho que voltar ao trabalho e talvez só amanhã renovo o contato.

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  13. por último e não menos importante, esqueci de comentar que, sim, gosto do Mia Couto, só não gosto das frescuras roseanas dele, que Coetzee traduz por filiação ao realismo mágico, mas o moçambicano é um cara de uma cadência invejável, se extirpar as invencionices babacas à Grandes Sertões e suas firulas místicas ficará perfeito - mas ele não fará isso!

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  14. A CURA
    by Ramiro Conceição

    Sr Charlles Campos.

    Percebo claramente em seus textos, principalmente nos comentários deixados em blogs de terceiros, visíveis sinais de masculina depressão pós-parto. Por exemplo, no último domingo, o Sr deixou lá, no blog do Milton Ribeiro, a seguinte pérola: Maria Bethânia é lixo. Semanas atrás, outra semelhante, no mesmo blog: Chico Buarque é lixo.

    Minha sugestão para a cura definitiva de sua macacoa, Sr Charlles Campos, seria a seguinte:

    1) Durante um mês, a cada domingo à noite, próximo das 22h00mim, prepare 20 litros de chá de hiperico e 20 litros de chá de capim cidreira (cymbopogon citratus). A seguir os condicione em vasilhames de 500mml. Leve-os rapidamente ao freezer e vá para a caminha…;

    2) Na segunda-feira, logo após o despertar, retire da geladeira 4 litros de heperico e 4 litros daquele outro de capim. Desenvolva normalmente as suas idiossincrasias martinais: beije a mulher e os filhos, tome tranquilamente o seu café, lamba os cachorros e vá para o trabalho, mas não esqueça os recipientes de chá…;

    3) Logo após a chegada ao trabalho, tome tranquilamente o primeiro volume de heperico; uma hora depois o segundo vasilhame de capim cidreira; e, assim, sucessivamente, até a finalização dos 8 litros diários.

    Garanto, meu caro Sr, que após 4 semanas de tratamento, a sua crítica vivacidade ao escrever considerará Raul Seixas um gênio da música universal.


    PS: para comprovar as minhas intenções benignas associadas à sua saúde, caro Sr, deixo aqui, resumidamente, os efeitos das recomendadas infusões: a) Chá de Hiperico, esse é para quem anda meio deprimido, achando que está tudo errado na vida. É um antidepressivo que aumenta o nível de serotonina do corpo. É bom consultar um médico, pois a depressão pode estar relacionada a alguns outros problemas que devem ser também tratados; b) Chá de Capim cidreira (cymbopogon citratus) – antiespasmódico; é considerado um excelente tônico para o sistema nervoso. Acalma, sendo muito eficiente em insônias e dores de cabeça.

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  15. Ramiro, só as gargalhadas que me provocou já tem poder terapêutico!

    Não, Raul Seixas não! (Apesar de ter umas 4 ou 5 músicas dele que realmente alteram meu humor para melhor.) Mas como Rilke disse, nos conselhos para um jovem poeta, fizestes certo em ser poeta nas horas sobressalentes da ocupação profissional que lhe dá sustento. Aliás, aguardo seu novo livro, cara. Cadê? Notícias sobre! Vais me mandar um.

    Não sei, mas se eu estivesse depressivo, o chá de hiperico não seria nem um pouco apropriado. Deveria ser algo adrenérgico, não calmante. Um pouco de café, ou chá preto.

    Você se enganou ao interpretar minhas observações valorosas sobre Música Popular Brasileira. Eu falava dos modelos originais Maria Betûnia e Chico Paudearaque. Essas cópias edulcoradas, pelo contrário, são realmente boas.

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  16. Ótima resenha, Charlles. Obrigado por compartilhar o link. Coetzee é meu ficcionista contemporâneo preferido, e também um dos meus críticos preferidos.

    Abs.

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