quinta-feira, 31 de março de 2011

Czeslaw Milosz



Gostaria de antecipadamente esclarecer um mal-entendido. Pessoalmente, não sou a favor da arte subjetiva demais. Minha poesia sempre foi um meio de conferir a mim mesmo. Por meio dela, poderia apurar o limite a partir do qual a falsidade de estilo testemunha a falsidade da posição do artista; tentei não cruzar essa linha. Os anos de guerra me ensinaram que um homem não deve pegar uma caneta meramente para comunicar aos outros o próprio desespero e derrota. Essa é uma comodidade barata demais; leva muito pouco esforço possibilitar ao homem que se orgulhe por ter feito isso. Quem viu como muitos viram uma cidade reduzida a escombros_ quilômetros de ruas nas quais não sobrou nenhum sinal de vida, nem mesmo um gato ou cachorro de rua_ saiu dessa experiência com uma atitude irônica para com as descrições do inferno na própria alma. Um verdadeiro "depósito de lixo" é mais terrível que qualquer cenário imaginário. Quem não viveu em meio ao horror e pânico não pode saber o quão fortemente uma testemunha ou participante protestam contra si mesmos, contra sua própria negligência e egoísmo. A destruição e o sofrimento são a escola do pensamento social.

(Mente Cativa, editora Novo Século, tradução de Dante Nery, p.215)

16 comentários:

  1. Outra lacuna do meu incurável filistianismo.
    Indicas aí algum livro do Milosz para começar?
    Lembrei muito de você outro dia desses.
    A. B. Yehoshua esteve aqui na cidade e deu uma palestra na universidade. O ponto central da fala do "Bulli" ía mais ou menos na linha do Milosz. Os judeus são partidários de uma visão de mundo muito intimista, imaginária, e cabe ao escritor a vocação de devolvê-los à história.

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  2. Um diálogo

    “Em sua essência, poesia é algo horrível”,
    ele me disse; eu pestanejei e passei a considerar
    o problema, na verdade apenas um: o fato de que
    a poesia é um diálogo não entre poetas, mas
    entre todos e tudo sob a intermediação nada sábia
    dos signos. Então disse a ele que sim, a poesia
    é algo horrível, como qualquer deus feito
    à nossa imagem e semelhança, não sendo
    nós mesmos, mas uma representação
    que só atinge o cerne da superfície, se tal coisa
    é possível; isto é a poesia, um navegar bêbado
    sobre a superfície de um mar que se imagina
    e se teme, se podemos nele submergir, mesmo
    sem morrer, porque, ao sobrevivermos, sabemos
    da existência da morte ali. Se há essência, continuei,
    nos corpos aniquilados, na cidade em escombros, nas
    vidas que se exibem olhando a si mesmas no espelho,
    essa essência, amigo polaco, não seria extraída
    pelas artes de nossas palavras, disse, para então
    concluir: logo, sem essência em si mesma, a poesia
    reza para encontrar, inutilmente, a essência do homem
    com as palavras a estimular essa supérflua procura.

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  3. Luiz, de Milosz, comece com essa obra-prima da qual retirei o excerto: Mente Cativa. É uma das três grandes obras sobre totalitarismo e do papel combatente do intelectual. As outras duas são Massa e Poder, do Elias Canetti, e Menos que Um, do Joseph Brodski. Uma resenha sobre a importância desses 3 livros fica revoando por minha cabeça, à espera de maturação, e creio que estou por escrevê-la de uma sentada, no momento certo.

    Cada frase de Mente Cativa tem a força de uma sentença. Como sou dado a sublinhar meus livros, meu volume está quase ilegível, de tantas hachuras, sublinhamentos, setas e chaves. Um livro um tanto mais perturbador e corajoso por ter sido lançado em começos da década de 50, quando os intelectuais de esquerda se aproximavam de Mao enquanto suspiravam por Stalin. (Não é um livro de direita_ nada de Llosa, pelo amor de Deus_, mas um farol de lucidez que coloca a limpo as semelhanças existentes entre os regimes comunistas e o facismo).

    Marcos, por uma dissociação, pensei que o comentário era do Ramiro. Lá pelo fim pensei: mas isso aqui tá a cara do Nunes. Foi quando consertei a miopia e vi seu nome lá em cima. Apesar de ser um livro de análise ensaística escrito por um poeta (o que me deixa instintivamente de suspeita), Milosz escreve de uma maneira única e arrebatadora. Um dos grandes, sem dúvida. Morreu há poucos anos, quase centenário.

    O livro que me faz concordar com Heidegger sobre a poesia ser a forma mais superior de se chegar à verdade.

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  4. Rorty, depois de ter se aquartelado no departamento de Comparative Literature de Stanford, desenvolveu algo semelhante a Heidegger (tirante a referência direta à poesia): Profetizou um tempo no qual a literature se ofereceria como acesso privilegiado à multifacetada realidade, substituindo o lugar que antes fora da Teologia (no Medievo) e da Filosofia.
    A lembrança sua por ocasião do A. B. Yehoshua é porque você disse que passou por uma longa fase judaíca...

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  5. Talvez o Heidegger quisesse dizer que a poesia seria a forma mais adequada de se chegar até ele...

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  6. Aliás, esqueci de dizer que a frase “Em sua essência, poesia é algo horrível" é dum poema do Milosz.

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  7. A propósito, um ensaio de Tony Judt sobre Mentes Cativas:

    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-54/questoes-ideologicas/mentes-cativas

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  8. Lendo o artigo de Judt, quando cheguei na parte "Quando comecei a lecionar, meu desafio era explicar por que as pessoas se desiludiam com o marxismo", pensei, "Ora, será que esse cara não cogita que marxistas e liberais dogmáticos se equiparam?". Pois ele, foi justo pr'onde ele foi... Só se esqueceu de dizer que ambos, Liberalismo e Comunismo, nasceram juntos no processo do Iluminismo, no bojo do que viria ser o Positivismo - este último é diretamente responsável pelos equívocos de ambos. Marx, à revelia do Manifesto, que é um documento político circunstancial, era mais inteligente que os seus seguidores conseguiram supor, e não cria no determinismo histórico que lhe ficou como marca, apesar de seu eurocentrismo doentio. No final das contas, nem Aron, nem Sartre, mas a busca contínuo pelo saber quando se ssabe que não se sabe e, pior, quando se sabe que, mesmo não se sabendo, deve-se agir, e esse práxis é exato o que produz as discrepâncias que vão produzindo fissuras que se transformam em abismos e vão tragando a todos - "Ora veja só, mais um apocalíptico na floresta do paraíso...". Realmente estamos certos por sabermos que estamos errados... Mas há, sempre há, alternativa.

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  9. Mas é justo isso que Judt defendia, Marcos, que sempre há alternativas. No ensaio de encerramento de Reflexóes Sobre Um Século Esquecido,intitulado A Questão Social Revisitada, ele contrapõe as opiniões dos defensores da não-intervenção do Estado, e os que acreditam no estado de bem estar social. Por fim, lamenta que, à excessão de alguns países que aplicam o estado social de modo diluído, e a escandinávia, essa última vertente esta desaparecendo, e não pela cruenta imposição do neoliberalismo globalizante, mas por não haver mais Estado forte para dar o contrapeso. Melhor exemplo não há do que o Estado brasileiro... Mas já cansei de falar isso por aqui, estou pra lá de chato.

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  10. Sabe Charlles, tenho conhecidos que são leninistas. Sim, ainda existem. A maior parte são jovens e nunca leram Lenin e Marx. Mas querem muito mudar o mundo. E agora. Não precisam de questionamentos, mas de armas para defender o que já decidiram que é certo por dogma.
    Pois fiquei pensando no que eles diriam do texto de Judt. Diriam que é essa escolha retórica (e teórica) de equiparar a ortodoxia comunista com a ortodoxia do mercado é uma estratégia para atrair simpatizantes da esquerda para uma posição não polarizada.
    Porém, ao que me parece, é exatamente ao contrário. Judt escreve para interlocutores que compartilham a crença no mercado ainda que seja "porque não há alternativa". Sabe que eles tem horror ao comunismo. Aí ataca o mercado com "Mente Cativa".
    Eu achei brilhante.

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  11. Farinatti, captastes exatamente o propósito de Judt. Usando as armas do inimigo, para desbancá-lo.

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  12. To write, I meditated, must be an act devoid of will. The word, like the deep ocean current, has to float to the surface of its own impulse. A child has no need to write, he is innocent. A man writes to throw off the poison which he has accumulated because of his false way of life. He is trying to recapture his innocence, yet all he succeeds in doing (by writing) is to inoculate the world with a virus of his disillusionment. No man would set a word down on paper if he had the courage to live out what he believed in. His inspiration is deflected at the source. If it is a world of truth, beauty and magic that he desires to create, why does he put millions of words between himself and the reality of that world? Why does he defer action - unless it be that, like any other men, what he really desires is power, fame, success. "Books are human actions in death," said Balzac. Yet, having perceived the truth, he deliberately surrendered the angel to the demon which possessed him. (...) The truly great writer does not want to write: he wants the world to be a placein which he can live the life of the imagination.

    (Dead disillusioned writers for 300)

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  13. Luiz, me fez lembrar que muitos autores não fazem mais que recuperar o universo solitário e idílico _ ou, muito melhor dizendo, autista_ da infância, em suas escritas. Penso em James Joyce, que nada fez que brincar maravilhosamente, em puro act devoid of will, em seus romances cheios da mais idiossincrática traquinagem. Adoro o Ulisses pelo que ele tem de ousadia singela, de simplicidade (é uma teoria minha, a de que Ulisses é anti-literário, ao contrário de quase todas as análises consolidadas sobre ele). O assunto é amplíssimo. Uma das gratificações que tenho com esse blog é o misto de ideias que recebo nos comentários. De certa forma, parece que nunca havia pensado por esse prisma, antes, o que é incrível. Seu texto não expressa mais que o óbvio, mas daqueles óbvios carregados de ineditismo que necessita exteriorizar-se para ser percebido.

    Penso em Kafka, o menos virtuose dos escritores. Usava apenas as mesmas 300 palavras em todos os seus livros, e o que fazia com elas! Também o elemento da infância sendo explorado nos pesadelos da repressão e da sensibilidade acentuada.

    E a frase de Bruno Schulz, que confirma o que vc escreveu acima: o propósito dessa autor ucraniano era "amadurecer infância adentro". Ele reduziu toda a sua escrita, cortando-lhe o contemporâneo, a passagem do tempo, as experiências sociais cotidianas, os atos formais, até uma pura lucidez do mundo a partir dos elementos da infância.

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  14. Mas, em contraponto, se não fosse a urgência da realidade, nada do que eles escreveram teria valor. He is trying to recapture his innocence, yet all he succeeds in doing (by writing) is to inoculate the world with a virus of his disillusionment.

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  15. Charlles,
    É a sua generosidade que atribui o seu interessantíssimo insight tanto aqui, como no post do James Joyce, às palavras acima.
    Generosidade dupla, posto que enganou-se que eu pudera ser o autor do genial aparte sobre a literatura.
    Hermenêutica é um negócio que me deixa encabulado. Enquanto te chamou atenção no recorte acima a relação que o autor faz entre a busca incessante da replicação da infância e o labor da literatura, a mim me fascinou a insistência do narrador na ênfase de que literatura mesmo é todo o mundo que prescede a folha escrita, os castelos que se constrói e desconstrói (e que muitas vezes nunca se materializa no papel). Essa é uma descrição muito pessoal pra mim porque evoca muito a minha relação com a escrita. Evoca também aquele que é sentimentalmente o meu escritor favorito, Juan Carlos Onneti, que foi um incansável etnólogo desses mundos literários que nunca se materializam no romance ou no conto, mas que são a bem da verdade mais encarnados que o próprio rascunho ou versão final do opus.

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