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terça-feira, 26 de julho de 2011

O Homem Mais Perigoso do Mundo

 
 
Há um conto de Saul Bellow intitulado Como Foi Seu Dia que trata da visão de uma simples dona de casa americana quanto ao grande portento intelectual e filósofo acadêmico do qual ela é amante. Esse pensador moderno, altamente graduado nos níveis universitários, conversava de igual para igual com Hannah Arendt, desenvolvera uma teoria de reinterpretação original dos escritos de Marx, fazia congressos pelo mundo inteiro e era um aficcionado por boas doses de whisky para encerrar o dia. Em suma, era um astro mundial das ideias, algo equivalente a um Mick Jagger cuja atração exercida sobre um extrato específico do mercado de entretenimento era proporcional ao que fazia alunas pós-adolescentes e mulheres de meia idade se curvarem diante a sua imanência sexual de crueza masculina subjacente à imagem consumível de cérebro infatigável. Bellow, com sua contumaz energia em tecer frases iniciais disfarçadas sob a mais insuspeita trivialidade, começa o conto assim: Assoberbada por dúvidas, seduzida por seu espírito inquieto, Katrina Goliger iniciou uma viagem que não deveria fazer. Tendo encerrado a jornada pelas quatrocentas e tantas páginas de Em Defesa das Causas Perdidas, me veio à mente a lembrança desse conto e a convicção de que Slavoj Zizek é o amante ultra-cerebral de Katrina Goliger. O auge do conto de Bellow é uma cena num avião em que os dois, Katrina e seu Zizek, passam bem próximos da morte. Por um momento, entre as descrições de uma vida milionária em vários sentidos (tanto financeira quanto a da quantidade de holofotes projetados), o conto nos mostra o significado fugidio e atordoador que surgiria caso a entidade fosse pulverizada por um acidente inesperado que só é factível acontecer com simples indivíduos. Se o grande pensador morresse na queda de um avião, quantas possibilidades redencionistas seriam abortadas para o futuro político do mundo, repetindo uma nota de rodapé no livro de Zizek que nos passa a dedução de que a realidade atual, em seus diversos niveis, surgiu das ideias escritas em quartos às vezes paupérrimos por homens isolados? Ou, apreendendo a lição de Conrad em O Coração das Trevas, quando Marlow falseia à noiva abandonada por Kurtz que as últimas palavras dele foram dirigidas a ela: o que isso importa?, os céus e a terra continuarão sem nunca terem percebido qualquer vã intrusão humana em sua eterna existência.

Um jornal chegou a alegar sobre Zizek que ele "é o homem mais perigoso" sobre a face da Terra. Uma leitura mesmo leviana de seus textos não deixa prever a verdade de uma tal afirmação, não pela acurácia do leitor em se deixar levar pelo lado pop de suas referências entremeadas a filmes de Hollywood, que suavizam sua defesa condicional a Stalin e Mao, e não por se ficar apenas na apreciação retórica de sua afirmação de que o erro destes homens foi não terem sido radicais o suficiente, mas porque o mundo de hoje é absolutamente impermeável a se deixar se fundamentar por novos pensadores isolados em quartos paupérrimos. O livro de Zizek é sim ótimo; lê-lo é retornar um pouco à impressão de segurança que os textos de Nietzsche davam na juventude, quando se era possível participar de uma postura de reação sem precisar se auto-policiar contra o cinismo. Traz a mesma sensação de permanência que eu sentia ao atravessar todo o centro da cidade à pé, num fim de tarde de céu carregado de nuvens de chuva, enfebrecido pelas palavras impossíveis de A Gaia Ciência. Tirando a sua teorização às vezes pesada sobre Lacan, que condiz a uma das duas "causas perdidas" do título (ele que é abertamente freudo-marxista), seu texto pode ser lido com a mesma velocidade interessada que se lê um romance ou um ensaio de temática mais solta. Mas surge uma série de problemas para o leitor maduro, aquele mesmo que, após os 30 anos, se delicia mais com a música de Niet do que com o que ele verdadeiramente queria dizer, que já está emancipado (infelizmente, às vezes) das retóricas wagnerianas e das peregrinações por vales e montanhas atrás da Verdade_ que já está atolado pelas Verdades a ponto de olhar mais com piedade resignada do que com exaustão para as lombadas dos livros na estante. Para esse leitor, a música de Zizek, menos bela que a do alemão, não basta como teria bastado numa leitura de há vinte anos. Seria como a mesma incapacidade de se satisfazer com um espetáculo de malabarismos em que fica evidente demais para a platéia que as facas lançadas no ar podem tanto matar o artista quanto os espectadores nas arquibancadas. 
 
A Experiência atrapalha bastante quando Zizek, carregado da mais elétrica batuta retórica para fazer sua orquestra tocar a sofisticação bombástica de seu concerto, relativiza Mao dizendo que Mao fôra "genial" ao instituir contra si mesmo a Revolução Cultural na China, num golpe de adstringir o regime e centralizar em astuta reviravolta o poder em suas mãos. Zizek poderia ser o homem mais perigoso do mundo se o mundo caísse no seu acentuado poder de sedução_ se o mundo fosse uma Katrina Goliger estupidificada, calmamente, como uma gata de raça refestelada no colo generoso do dono, diante a encarnação humana da plenipotência_, pois Zizek requer uma lucidez de analista de mercado por parte do leitor para que esse perceba a especulação feita num universo virtual que quer valorizar os objetos materiais às custas de suas representações subjetivas. Zizek ataca onde está a ferida, seguindo a técnica de conseguir legitimidade por ser o primeiro a apontar o cisco no próprio olho, aceitando que Mao fez morrer dez milhões de camponeses chineses na grande crise agrária de 1958-1961, mas aos poucos fazendo escorregar esse fato brutal para o ralo das estatísticas puristas lavadas de significados, e transformando, com sua simpatia de promover a distração textual através de interpolações cinematográficas e outras paradas no universo pop, esse dado numa recorrência logística da História, um dado que, se Mao tivesse sido mais radical, teria se justificado no futuro. Dez milhões de pessoas mortas da forma mais cruel imaginável (de fome!), que teriam alçadas ao escalão de mártires nacionais quando a etapa final do pesadelo fosse compensada na aportagem da sociedade igualitária perfeita. E quantas etapas seriam aceitas mais? E se o grande avatar mais radical de Mao cometesse uma pequena distração no arranjo cronológico para a Shangri-Lá verdadeira, e outras dez milhões de pessoas fosse necessário atirar no sacrifício? Ou outras vinte milhões? Imaginei várias vezes a vergonha que eu sentiria se, na Flip, eu dirigisse essas perguntas a Zizek, pois outra face de sua astúcia é o de, à força de sua inexorável teorização técnica, descartar com humor as investidas diretas e simplórias. Trazer todo o seu pensamento situado nas mais altas esferas do discurso psicanalítico e de teoria política, para esse horizonte colegial de nenhuma luz estroboscópica (apenas os 100 vatz que me serviram para ler suas palavras no quarto)?
 
Numa parte de seu livro, ele se dedica em trinta páginas a responder às críticas de Ernesto Laclau à suas ideias. Laclau escreveu que Zizek esperava a aparição de marcianos no cenário da história atual para refazer com mérito sobre-humano os descaminhos das versões pragmatizadas do marxismo. Ou seja, Laclau ironizou a leitura mais superficial de Zizek_ a da retomada do ponto zero, ou o ponto um, das intenções ainda imaculadas dos grandes reformistas socias da esquerda, Trotski, o jovem Stalin, Lenin, o jovem e o tardio Mao_, insinuando que a humanidade não faria aparecer nenhum elemento de seu comportamento fartamente padronizado de assassinos políticos que fosse virginal o suficiente para não ser engolido pelo mal do poder absoluto. Zizek usa de uma parafernália de termos do mais hermético vernáculo acadêmico para dizer que Laclau não soube ler seus livros, e que Laclau perverteu por completo os conceitos criados pelo seu mestre Lacan. Zizek se enfuna num linguagem tão maçônica, carregada de palavras copuladas (grande-Outro, negação determinada, diegético real, etc.) e termos específicos; lança-se num lago de Narciso particular tão velado, que dá a impressão ao leitor que deveria ter pulado aquelas páginas por não lhe serem dedicadas. Sai-se dessas páginas se conjugando à possível verdade da contra-acusação do autor de que Laclau não entendeu o que ele quis dizer, porque fica parecendo que o significado dessas passagens de Zizek é mesmo além do entendimento. São corpos linguísticos que deveriam ser assimilados osmoticamente, para avalizar em maior grau a importância do autor, que, olhem só, escreveu um livro com tantas outras páginas salutares e divertidas, tantas passagens anedóticas e engraçadas.

Um aspecto imprescindível para o entendimento de que Niet é o grande pensador que é, é a de que morreu louco. Sem a loucura, Niet não teria a estatura que tem hoje. Uma longa vida com uma morte pacífica teria relegado Niet a um simples autor provinciano, que em um momento patológico escreveu assombrações mentais cuja cura as converteram em excentricidades datadas. É pensando no Niet com o cérebro consumido pela sífilis que sabemos interpretar com uma carga incomensurável de beleza e fé numa distante humanidade do porvir sua aforística contrária à ralé germano-burguesa, sua poética de insistir cansadamente de que um dia, "irmão", nos encontraremos numa linha temporal em que a pureza conseguida pelos sofrimento nos autenticará como homens puros. É graças ao velho Niet que podemos acreditar que seria bom se a humanidade como a temos hoje desaparecesse em sacrifício imolador para o surgimento do Super Homem. (Também é graças à morte precoce de Bernhard que seus romances são tão iradamente essenciais.) Porque essa certeza determinada de que não existe mais quem proferiu essas incorreções políticas retirou tais textos da gravidade normativa dando-lhes um caráter de expurgo quase sagrado, de catarse acima do certo e do errado, transformou o que a saúde teria configurado como crime num diagnóstico de iluminado potencial premonitório. Sabendo que não existe uma personalidade à espera das compensações ordinárias ligadas à partidarização e à pertença grupal (Niet dizendo que a raça alemã era a fraca, e a judáica a que se fortalecia ainda mais por quanto mais agruras se submetia), fica estranhamente plausível aceitar o próprio fim para que chegue a época redentora (a cena final de Gran Torino). Tudo o mais que em nosso tempo, as forças da saúde consolidadas e das confortáveis posições de atos de ofício estabelecidas, fala sagazmente sobre extermínio, assassinatos, em nome da biopolítica, em nome da história futura em que os fins justificam os meios, soam o que realmente é: um pragmatismo alienado do sofrimento infligido ao outro desabrigado e desprotegido, para assinar a vaidade intelectual do que está abrigado e protegido pelas instituições oficiais do saber.

Lendo Zizek, que é realmente uma leitura essencial para se compreender nossos dias, vejo o quanto há de contraditório nos lances de suas ideias. Ele trata de algo fundamental: a não aceitação pacífica de vitória total do capitalismo. Para afirmar a unanimidade capitalista, ele lembra de uma banalidade despercebida: há 30 anos não se usa mais a palavra "capitalismo". É difícil ver seu emprego nos textos correntes. Ele instiga à re-criação de uma nova esquerda, não essa que está aí que, como salienta sarcasticamente, "com essa esquerda não precisamos mais da direita." Sua proposta é de uma esquerda auto-elucidada ao extremo sobre seus imensos fracassos, e não escamoteadora de suas culpas; uma esquerda que antecipe as críticas da oposição expondo suas vilanias na cara. E é aqui que, para parafrasear T.S.Eliot, cai a sombra entre a intenção e a ação dos textos de Zizek. No meio da brilhante reificação das grandes utopias e das grandes ideias sociais, Zizek falha enormemente em se negar a voltar ao ponto zero para pular direto ao ponto um. Incapaz de sacrificar por inteiro os heróis dessa esquerda corporativa e auto-negligente que ele tão magnificamente condena, Zizek se encolhe no abraço aos seus ídolos juvenis, e tenta restabelecer Lenin, Stalin, Mao. Assim, ele cai na contra-produção da base de sua teoria, a de que os grandes sonhos de emancipação humana ainda são possíveis. Contradiz-se por mostrar flagrantemente que não sobrou nenhuma dogmatização no edifício icônico da esquerda, por isso tendo que disfarçar em milhares de palavras que Stalin, Mao, Lenin, Trotski, se prestam a serem os alvos religiosos de um novo caminho, desde que o assecla demonstre uma fé inquebrantável de dirigir suas orações às fácias virtuais desses santos quando eles ainda vestiam suas túnicas, antes de terem sido tentados e caídos na mais completa devassidão demoníaca. No fundo de sua estatura filosófica, Zizek não faz mais que cometer o pior pecado atribuível a um historiador: fazer a pergunta "e se?", cogitar da história hipotética. E se Lenin não tivesse morrido em 1924?; e se Stalin não tivesse subido ao poder?; e se Mao tivesse aberto a economia da China? Zizek mostra a grande preguiça ou insuficiência de se pensar em algo absolutamente novo, caindo assim numa mistificação perigosa. Numa determinada parte de seu livro ele relembra uma frase de Hegel, de que não é bom conhecermos demasiado. Uma advertência quanto ao excesso de esclarecimento (algo que Adorno também intuíra). Mas seu intelecto turbinado, seu excesso de conhecimento, o faz pouco auto-referente. Incrivelmente não vê que caiu na cegueira de que "o que é bom para os outros não o é para mim". Não vê que ele é o homem ultra-instruído, alguém que pode ficar confortavelmente fora da história, em sua casa refrigerada, em sua sala de professor de frente a um dos mais belos cenários do mundo em Liubliana, alguém que detêm o que milhões de vítimas do poder do século XX sequer sonhavam conseguir: a proeminência da palavra. Quer ser retrógrado na pesca do antigo iluminismo, mas perde de vista o "coração terno" do qual Checov falava.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pós-Guerra, de Tony Judt


A questão que se nos coloca desde a leitura da capa é: por que não uma história da Europa no século XX, e não apenas de 1945 em diante? Ainda mais que o contraponto imediato criado em torno de Judt é o de  ser um antagonista cordial ao historiador marxista Eric Hobsbawm, as quase mil páginas de sua obra capital não serviriam melhor à dialética com o autor de Era dos Extremos se também se ocupassem do mais violento e  desestruturador século da história como um todo? Em Reflexões Sobre um Século Esquecido, compilação de ensaios publicada no esteio das vendas exponenciais de Pós-Guerra, Judt lança a sua pá de provocação contra Hobsbawm ajuntando-lhe ao nome o termo "o romance do comunismo". Apesar de ser o maior historiador contemporâneo, senão o maior dos últimos cem anos, Judt diz de Hobsbawm, apesar de deter um talento narrativo único entre os colegas de profissão, o grande historiador pecava em muito pelo imperdoável lapso em sua bibliografia por não ter uma avaliação honesta e desapegada de ideologia quanto aos crimes e a perniciosa obsolescência da experiência dos regimes comunistas do século. Esse ensaio, e as declarações que Judt fez em várias entrevistas, fundamentou a atmosfera disjuntiva tradicional que os meios acadêmicos adoram alimentar entre dois intelectuais, o que por si não descarta a vocação inevitável de que qualquer livro que fale do século XX não pode evitar de dialogar firmemente com  Era dos Extremos, seja para confrontá-lo, ampliá-lo ou para corrigir suas naturais arestas omissivas (como o de um ensaio de Said, em Reflexões sobre o Exílio, em que o pensador anglo-palestino aponta as falhas de informações e os juízos superficiais dessa obra quanto ao Oriente Médio).

Hobsbawm: um opositor cordial
A resposta que surge da leitura de Pós-Guerra à questão acima serve para entendermos em quais aspectos Judt foi além a Hobsbawm. Todo o livro de Judt, com sua catalogação acirrada de centenas de fontes de pesquisa, sua estrutura de vontade descomunal, sua inteligência assimilativa de perfeccionismo em não deixar passar nada em branco na composição de sacrifício de uma vida de estudos, todo esse livro, ia dizendo, traz um prognóstico filosófico para o futuro da humanidade que o próprio período histórico escolhido emana significados. E nisso, a dureza da linguagem de Judt, seu sarcasmo (mais que ironia) depurado que ele prefere reservar às concisas notas de rodapé, serve no rico contexto de afirmar que ele não é Hobsbawm, que ele não tem a sutileza elizabetana e a finesse que identificam o estilo inigualável do historiador nascido em Alexandria, que ele não se propõe à invejável leveza dançarina de Hobsbawm em transcorrer elegantemente por contínuuns temporais que abrange num só extenso parágrafo tanto música, literatura, máfia e sucessão presidencial. No que se poderia dizer que Judt possa ter tomado como fio condutor para sua própria ampla sinfonia da obra de Hobsbawm, seria o último capítulo de Era dos Extremos, as sombras que assomam no horizonte da História e que, a contar por um caráter cíclico inevitável de comportamento do homem, cairão sobre nós a passos lentos que nos distrairão de sua verdadeira natureza fulminante. No campo da literatura, Hobsbawm estaria para a eufonia de Saul Bellow, enquanto Judt estaria para uma verbosidade calculadamente desmanzelada de Günter Grass.


Uma criança caminha ao lado de cadáveres de Bergen-Belsen
Essas "sombras" vaticinadas por Hobsbawm, e que são sentidas por todos em maior ou menor grau de premonição, é o mote do volume de Judt. Judt não perde tempo voltando o olhar para os eventos pregressos a 1945. A primeira e segunda guerras, o extermínio judáico, as etapas da descolonização, o fascismo, o nazismo, a Revolução Bolchevique, o implemento keynesiano do Estado Previdenciário, todos esses traços genéticos que determinaram o século passado são tidos como uma metade formativa inerente que fez ascender a curva no gráfico dos últimos experimentos sociais, humanos e políticos, antes que essa mesma curva começasse a mostrar sua queda deliberada de falta de perspectivas e vontade humana. Por isso os títulos dos primeiros capítulos de Pós-Guerra já sejam um cartão de visita à desilusão: O Legado da Guerra, Punição, A Reabilitação da Europa, O Acordo Impossível, O Fim da Velha Europa. A partir de então, Judt nos conduz pelos dolorosos processos de reconstrução nacionais dos países europeus destroçados ou seriamente combalidos pela guerra, mostrando as diásporas, os retornos, a hiperinflação, a adaptação traumática à ruína material e os despojos espirituais. O Era dos Extremos se inicia com uma memória de Hobsbawm a um gesto de sutileza inapreendido de François Mitterrand numa visita em 1992 a Sarajevo, no 28 de junho do assassinato do arqueduque Ferdinando, para, em contexto a esse ponto inaugural das guerras mundiais, o autor rememorar o quanto na passagem para o século XX o mundo ocidental estava exultante no progresso e na ciência aplicada ao humanismo. Já em Pós-Guerra, a frase inicial às 848 páginas da edição nacional traz o humor sem eufemismos que dominava uma humanidade despida de esperanças quanto a si própria: "Na sequência da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva da Europa era de miséria e desolação total." Todo esse parágrafo é uma radioscopia exemplar do que vem a seguir:

"Fotografias e documentários da época mostram fluxos patéticos de civis impotentes atravessando paisagens arrasadas, com cidades destruídas e campos áridos. Crianças órfãs perambulando melancólicas, passando por grupos de mulheres exaustas que reviram montes de entulho. Deportados e prisioneiros de campos de concentração, com as cabeças raspadas e vestindo pijamas listrados, fitam a câmera, com indiferença, famintos  doentes. Até os bondes parecem traumatizados_ impulsionados por corrente elétrica intermitente, aos trancos, ao longo de trilhos danificados. Tudo e todos_ exceto as bem nutridas forças aliadas de ocupação_ parecem surrados, desprovidos de recursos, exauridos."(p.27)
 
Judt pega os últimos 55 anos do século XX e mostra como esse período foi um negativo que se assemelha a sua primeira metade apenas no que tem de resistir às suas consequências. Vemos que em relação diametralmente oposta aos experimentos políticos das direitas fascistas ou das esquerdas centralizadas à União Soviética, a história do pós-guerra é um cenário onde os valores políticos, sociais e econômicos se transformam numa representação cercada de farsa e teatro. Esses anos, no dito de Kierkegaard adaptado por Marx, decanta o que havia de seriedade no processo histórico extenuado, e se transforma numa versão histriônica de si mesmo. Essa luneta é usada com enorme potencial esclarecedor quando Judt analisa as vistas grossas dos países vencedores da Segunda Guerra quanto à culpa da Alemanha pelas fábricas de extermínio de judeus e demais povos inferiores. Sem nenhuma cautela (à moda de Judt) por falar sobre o que ainda hoje se ressabia por detrás dos tabus das auto-afirmações alemãs, Judt nos mostra o quanto a questão da Shoá foi mantida em "distraído" esquecimento em prol de interesses de equilibrar as relações econômicas numa Europa em que ninguém estava capacitado à santidade acusadora dos pecados alheios. E um dos pontos fortes de Judt é sua sobriedade quanto às armadilhas do maniqueísmo da História, pois ele compreende bem que essa comédia era mais a única forma minimamente coerente de se corresponder às exigências do meio e do período do que propriamente um surto de hipocrisia.

A farsa da  "juventude esclarecida e combatente" de 1968

Outras partes impagáveis de Pós-Guerra formam o que se poderia chamar de "revisionismo sem surpresas de eventos históricos de compreensão consolidada", como o magnífico capítulo em que Judt desbaratina as "revoluções juvenis" de 1968, revelando de vez que todo o tumulto representado nas mídias populares como um movimento sistemático de universitários ideólogos por liberdade de expressão, sexual, de livre consumo de drogas, e direito feminino, surgiu não nas universidades, sobrecarregadas de jovens que mal possuiam uma perspectiva histórica suficiente para saberem sobre as agrúrias que seus pais passaram durante as guerras, mas por greves de estalajadeiros franceses e, em justiça à parte universitária, por acadêmicos que protestaram não pela paz mundial, mas por melhores condições nos albergues estudantis. Assim também, Judt relata um raríssimo caso de atúcia das massas, no advento dos Acordos de Helsinque, em que um pequeno grupo de refugiados ucranianos inicia um atropelo em série às ditaduras soviéticas graças às próprias armas criadas por Brejnev e companheiros que, achando estarem criando um simples joguete de apaziguamento a dissidentes do regime através de um acordo que deveria figurar como uma encenação patriarcalista, acaba por ser uma corda de pescoço e fonte da legitimidade internacional para a pressão popular.


Thatcher: "olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe"
Outro capítulo fundamental é o que trata do "Novo Realismo", os governos neoliberias de Margareth Thatcher e François Mitterrand. Uma das facetas principais de Judt é o de ser crítico da esquerda, sem ser de direita, e o de verificar os benefícios do neoliberalismo lamentando avidamente a defasagem do poder do estado. Seu estudo sobre Thatcher é revelador. Ele não consegue esconder sua admiração por essa mulher que, no dizer de Mitterrand, "tem olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe", mas o painel que ele deslinda em torno da grande figura mítica dessa mulher retorna ao seu tema recorrente do desencanto ideológico moderno. Thatcher foi uma figura de dominante solitária e imbativelmente decidida, que destruiu o Partido Conservador e "esmagou seus oponentes trabalhistas", em que o governo era ela mesma e mais ninguém, que desprezava a opinião popular com uma lucidez de perceber que não havia conteúdo no povo da inglaterra do final da década de 1970, e que trocava a seu bel dispor seu secretariado com uma frequência de monarca indistituível. Ela dilapidou o patrimônio estatal inglês, o que, enfocando a realidade não apenas virtual mas pragmática das estatísticas de crescimento econômico, tirou a Inglaterra do atraso de décadas e a impulsionou em dez anos de governo a um dos primeiros lugares entre os países desenvolvidos. Tirando o sistema de transportes, a saúde e o ensino público (intocáveis para os ingleses), Thatcher vendeu tudo, o que fez fechar milhares de postos de trabalhos vinculados ao Estado ineficiente e não competitivo, levando a uma taxa de desemprego altíssimo. As decisões a médio e curto prazos de alavancar a Inglaterra nos índices de produção econômica, sem se preocupar com os índices reais de desenvolvimento humano, fez da Inglaterra um país rico com uma grande massa de pobres dependente das beneses do governo, num paradoxo de menos estado previdenciário para mais pessoas destituídas de condições mínimas de sobrevivência retiradas pelo próprio fenecimento compulsório do estado.


Por final, Judt avalia os regimes de esquerda da Europa Central e suas derrocadas ao longo do período enfocado, o que também são capítulos de alto teor informativo e escrita afiada. Pode-se ler Pós-Guerra como uma história subliminar do marasmo humano após o esgotamento das ilusões e transformação das utopias comunistas em distopias assassinas. A única frente de fé que aponta pelo horizonte e faz milhões de asseclas é a ideia da globalização, e sobre isso, tanto no capítulo final de Pós-Guerra quanto em "A Questão Social Revisitada", em Reflexões Sobre um Seculo Esquecido, Judt faz uma condenação à grande estupidez desse tempo em dar as costas para a Questão Social, apostando as fichas no bezerro de ouro de uma era desregulamentada em que as empresas e as instituições estatais restringidas à manutenção da indevassabilidade do poder dessas empresas tomarão conta da vontade humana, transformando o homem na velha repetição de animal de carga desespiritualizado.

Como bem sabiam os grandes reformadores do século XIX, a Questão Social, diz Judt, se for deixada de lado, não desaparece gradualmente. Em vez disso, ela sai em busca de respostas mais radicais. É para nos elucidarmos dos ciclos pela frente que a História nos espera, com tais respostas radicais, que se torna imprescindível a leitura de Pós-Guerra, como antídoto à bestialidade e às sombras do nosso tempo

Tony Judt