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domingo, 12 de março de 2017
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Sir Richard Francis Burton, uma biografia
Agradeço ao Paulo Raviere pela indicação desta fantástica biografia. Sir Richard Francis Burton é uma personagem menos interessante que T. E. Lawrence (e muito menos genial em seus conflitos interiores), mas o autor, Edward Rice, transforma o livro em um deleite raro ao mostrar com claro detalhismo as circunstâncias históricas e ambientais do seu herói. A segunda melhor biografia que eu li _ ainda perde para a magnífica de Darwin, da dupla Desmond & Moore. Quando me deparo com um livro tão envolvente, sempre me lembro do Paulo Francis dizendo "drogas para quê?". Segue um trecho memorável (o livro como murro na cara para nos mostrar sempre que existe muito, muito mais além de nossos umbigos):
"E havia também o costume de urinar que Burton tinha de seguir de maneira ainda mais automática. Os muçulmanos, como a maioria dos ocidentais, urinam acocorados e, quando terminam, enxugam o pênis com uma pedra ou um, três ou cinco bocados de terra ou argila, dependendo do costume local. Existe uma história que já foi várias vezes repetida: na viagem a Meca, viram Burton distraído, atendendo ao apelo da natureza de maneira não-muçulmana, urinando de pé, na posição ocidental; para salvar a vida, ele teve de matar a pessoa que o viu; é uma lenda que ele tentou desmentir, apontando a dificuldade de urinar de pé com aquelas roupas árabes que estorvavam os movimentos. Mas não há dúvida de que Burton tinha a fama de ter matado um homem a sangue-frio; no entanto, seu detrator Stanley Lane-Poole gostava de comentar que Burton "admitiu um tanto constrangido que nunca matou ninguém em momento algum". (tradução de Denise Bottmann)
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Relendo Doutor Fausto
O ano começou com William Faulkner e termina com Thomas Mann. Meu exemplar de Doutor Fausto, em capa dura e lançado pela Companhia das letras, me chegou há dois dias. Mandei dois e-mails à assessora de divulgação da editora perguntando se eles me enviariam mesmo o livro, pois eu havia feito a solicitação firmando-me no lançamento mensal que eles sempre me mandam pela parceria que este blog tem com a empresa, e não obtinha resposta. Mandei uma última mensagem dizendo que precisava saber urgente pois, se não me mandassem, eu iria comprar esse grande livro do Mann. Me responderam que haviam enviado, que era só eu esperar. Entre todos os livros que tenho, meu maior fetiche sempre foi Doutor Fausto. Penei de desejo por tê-lo, na minha juventude de estudante desabonado, e fiz uma economia feroz para adquirir um exemplar escangalhado. Li-o a primeira vez aos 15 anos. Fiquei profundamente maravilhado. Li-o a segunda vez aos 30, e de novo senti o poder dessa obra. E agora, releio-o pela terceira vez, e já estou na página 143. O que sinto é uma inebriante felicidade; sinto-me irmanado com Mann, e parece que estou lendo o romance pela primeira vez. Sinto que agora é que estou absorvendo plenamente toda a imensa riqueza do livro. Passa-me uma secundária preocupação de se a idade não está me fazendo um leitor misantropo como o velho Borges, que anunciava que só lia livros com a idade mínima de cem anos. Doutor Fausto tem 68 anos, mas a lógica é que os livros dos grandes me arrebatam e comovem de uma maneira única, só eles tem a legitimidade de estarem me dizendo algo realmente essencial e indispensável. Por isso minha ânsia de ter esse fetiche em capa dura, já que sempre o tive em edições mambembes e por altíssimos preços. Encontro no livro uma passagem que expressa uma certeza antiga:
"Para o adepto das Luzes, o termo e o conceito "povo" sempre conservam qualquer traço de arcaico, inspirador de apreensões, e ele sabe que basta apostrofar a multidão de "povo" para induzi-la à maldade reacionária. Quanta coisa não aconteceu diante nossos olhos em nome do povo, e que em nome de Deus, da humanidade ou do direito nunca se deveria ter consumado! Mas é um fato que, na realidade, o povo permanece sempre povo, pelo menos em determinada camada da sua índole, que é precisamente a arcaica, e que habitantes e vizinhos do beco dos Fundidores, pessoas que no dia das eleições votaram no Partido Social-Democrata, eram ao mesmo tempo capazes de vislumbrar algo demoníaco na pobreza de uma velhinha, que não tinha recursos suficientes para pagar uma habitação acima do solo, de modo que, quando ela se aproximava, seguravam os filhos para protegê-los contra o mau-olhado da bruxa. Se na atualidade se voltasse a entregar à fogueira uma mulher desse tipo, o que, com leves modificações da justificativa, não deixa hoje absolutamente de ser inimaginável, eles se plantariam atrás das barreiras erguidas pela municipalidade e olhariam, embasbacados, mas provavelmente não se revoltariam. Falo do povo, porém aqueles impulsos populares, de natureza arcaica, existem em todos nós, e para dizê-lo bem claramente, assim como penso, não considero a religião o meio mais adequado para reprimi-los com segurança. Isso se consegue, a meu ver, unicamente por meio da literatura, da ciência humanística, do ideal do homem livre e belo."
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
A Conexão Bellarosa, de Saul Bellow
Uma das várias facetas que demonstram a originalidade e independência da obra de Saul Bellow é esta que indica que também em sua produção tardia ele virou as costas para as tradições e os costumes da classe literária. Enquanto a norma involuntária dos romancistas_ em maior grau os consagrados_ dita a tendência de se tornarem mais sérios na velhice, escrevendo de forma hermética e rebuscada (vide Faulkner em Uma fábula, e Henry James em As asas da pomba), Bellow traçou o caminho contrário, areando seu estilo ao máximo, limitando-se ainda mais às frases curtas, abraçando um coloquialismo que faz pensar que é um despojamento inusitado para quem escreveu 4 dos maiores romances do século passado, recebeu todos os prêmios e encabeça a lista do cânone da literatura norte-americana. As 4 novelas publicadas pela Companhia das letras esse ano, sob o título de uma delas, A Conexão Bellarosa, é um bom exemplo da extrema fluidez da escrita tardia de Bellow. As 4 novelas começam como se Bellow estivesse na verdade escrevendo despretensiosas crônicas para revistas de celebridades; há o tom cínico disfarçado de trivialidade glamorosa que se vê principalmente em discursos políticos, e que de certa forma desconcerta ao enganar o leitor com uma falsa voz panorâmica como se, em vez de se inciar uma narrativa, vai se embrenhar em um texto de jornalismo literário. Tais inícios mostram que Bellow queria testar em seu últimos textos uma abordagem mais fiel à sua declaração de que a primeira regra da escrita era que a coisa surgisse com facilidade. Nada mais fácil e leve que esses começos, como o de Um furto:
"Clara Velde, para começar pelo que nela chamava mais atenção, tinha cabelos louros curtos, com um corte elegante, que cresciam numa cabeça incomumente grande."
Ou o despretensioso começo de Ravelstein, que revela todo o astucioso brilho da voz de Bellow:
"É estranho que os benfeitores da humanidade devam ser pessoas divertidas. Pelo menos nos Estados Unidos isso frequentemente é assim. Quem quer que deseje governar o país precisa entretê-lo."
E as narrativas seguem da mesma maneira prenunciada pelas primeiras frases, com agilidade, pulos e regressos no tempo, anedotas sobre a inefável tendência dos personagens bellowianos a tangenciarem um extraordinário cotidiano, uma elétrica falta de tempo em ater-se a um só detalhe, substituindo a observação minimalista por um rateio aéreo onde se apreende com deleite os pontos altos e baixos do extenso relevo das vidas pessoais de seus heróis e heroínas. Adorno escreveu que nos ínfimos da beleza da paisagem norte-americana se revela toda a imensidão do país, vastidão que Bellow explorou talvez como nenhum outro romancista em seus grandes painéis da América. Em livros como Augie March e Humboldt, a efusiva vida americana pulsa com esplêndida exuberância, com inextinguível paixão vital, muitas vezes invocada pela pena esotérica de Bellow no entremeio das frases, local mágico onde, como reconheceu Philip Roth em suas releituras dessas obras, acontece uma infinidade de coisas. E por isso, em suas últimas obras, vemos a compensação de Bellow por dar mais vazão à outra face da dicotomia de autor americano e médio-oriental que ele tinha, abandonando o centro de visão do individualismo das grandes entidades que eram seus personagens principais, e abordando agora a multitude de vozes que ficou como réstias não trabalhadas de seus livros maiores. O Bellow tardio é um escritor judeu cuja necessidade de extravasar sua voz negligenciada da aldeia oriental transforma a grande cidade e os homens e mulheres cosmopolitas em uma repaginação urbana dos loucos, infiéis e comerciantes usuários dos contos em iídiche de Isaac Bashevis Singer. Seus livros já não mais se detêm em intrincadas almas argumentativas e afundadas em lutas contra a Providência ou a América financeira, nem comporta mais dissidentes estoicos dos selvagens eventos do século XX. O que vemos nessas novelas são representantes divertidos das ideias ainda não testadas do autor: o magnata que quer resgatar o amor da juventude; a mulher emancipada que se confronta com dilemas morais imprevisíveis ainda que sempre intuídos; o intelectual sentenciado pela medicina que participa ativamente dos embates contemporâneos através das técnicas de comunicação avançadas que o ligam de sua cama com o mundo. É recomendável que se leia esse livro após a leitura de pelo menos um dos grandes livros de Bellow, para usufruí-los com plenitude, pois aqui se tem a prosa fulgurante, a inteligência viva, a brincadeira feliz da escrita de um dos maiores escritores de todos os tempos. São como consolações a seus admiradores por ter-se que se atender às limitações biológicas da partida; mas a última frase desse volume condiz com a saudade cogitativa que é deixado no leitor assim que fechado o livro:
"Você não entrega facilmente para a morte uma criatura como Ravelstein."
domingo, 6 de setembro de 2015
Seis meses em 1945
É um desalento ler o excepcional livro Seis meses em 1945, de Michael Dobbs, nessa época de ascensão de Trump, grandes levas de refugiados vagando sem rumo pelo mundo, e a política de alienação cada vez mais onipresente da vida abduzida para a realidade cibernética. A sensação opressiva que se tem é que não se pode escapar da História; que Ela tem um fatal modo redundante de engolfar nosso destino de maneira que sempre oferece as mesmas etapas evidentes que nos conduz passo a passo para a ruína. É triste ter interesse por livros de história hoje em dia, porque todo o nosso futuro está ali exposto sem o menor mistério, somente um pouco de assombro e um desconforto perene que aparece quando notamos os atos marciais de repetição sendo executados. Em determinado momento da leitura, liguei para um amigo que ocupa o cargo de historiador da casa de cultura de um outro estado da federação e lhe disse, a título de desabafo: "Mas a humanidade só foi governada por estúpidos!"
Não precisa ler Dobbs para saber disso, mas a intimidade que seu livro nos dá com a visão cotidiana dos fatos, recolhida dos diários e cartas dos participantes do evento, ressalta essa brutal verdade: o ser humano pode ser conceituado sociologicamente como uma espécie que se apraz em ser governada por ignorantes homicidas, ególatras gananciosos com pouca inteligência, e loucos inconsequentes; e abaliza isso tudo com uma enorme disposição à veneração desses zeros à esquerda. Hitler desenhou de próprio punho um capitólio de 300 toneladas que pretendia construir na nova arquitetura grotesca da Alemanha, que iria abrigar plateias de 300 mil pessoas cuja condensação das respirações conjuntas faria chover no interior do prédio, uma obra impraticável do ponto de vista físico mas que detinha a metáfora perfeita da falência inevitável do terceiro Reich. Quando o famélico Exército Vermelho toma a Alemanha, os soldados russos que mal tinham o que vestir e que viviam à míngua, dormindo no chão e comendo as sobras dos lixos, ao verem que até o alemão menos provido economicamente tinha casa com depósito farto em mantimentos e vivia em cidadelas com excelentes infra-estruturas, foram tomados pelo choque e se perguntaram: "Mas por que a Alemanha provocou essa guerra?" Quando o ministro de relações exteriores de Stálin, Viatcheslav Molotov, aporta nos Estados Unidos, para a conferência de São Francisco em 1945, e vê que a classe trabalhadora daquele país tinha casa com bastante espaço e jardim de frente em seus bairros planificados, e cada qual com um carro na garagem, e recebia entretenimento diversificado para ocupar as largas horas de descanso após o trabalho, ele, em tom de espanto, disse às pessoas da sua comitiva que os Estados Unidos eram "o país mais adequado para o socialismo. O comunismo vai chegar lá mais cedo do que em outros países". A Alemanha ficou devastada em 1945, cidades totalmente destruídas, com procissões de mulheres e crianças mendigas andando pelas ruas, a ausência notável de homens jovens se explicando por sua redução em 1/3 devido às colossais perdas de guerra; a União Soviética perdeu 17% de sua população, um montante de 25 milhões de pessoas mortas, e suas iniciativas anteriores de ser um gigante econômico foram definitivamente caladas, lançando o país em uma miséria catastrófica, com o valor real dos salários tendo sido reduzido em 60%. Ou seja, o caminho inercial que poderia alcançar um equilíbrio de forças benéfico a todos não existe na História; sempre vai haver um líder estúpido e um comportamento de rebanho que lhe dará poder que transformará tudo em genocídio étnico, modificações radicais das fronteiras nos mapas, deportações em massa, instabilidade política e miséria econômica.
Esse livro de Dobbs trata dos líderes do período: Stálin, o marechal do proletariado, a contradição estapafúrdia do aclamado libertador dos povos que se espelhava nos dois mais sanguinários csares russos, e o maior assassino de todos os tempos; Churchill, o racista radical e machista inarredável, um boneco velho cujo poder era apenas uma presença alegórica de exibição erudita, cuja única ambição era tentar manter o respeito ilusório do que restara do extinto império britânico; Roosevelt, "o homem mais frio que já existiu", nas palavras de um de seus conterrâneos políticos, que astutamente fez vista grossa para as milhares de mortes e deportações que resultariam dos acordo de Yalta, e era um maquiador maquiavélico da opinião pública que alimentou a hipócrita imagem da benevolência humanitária dos Estados Unidos ao longo do final do século XX; Truman, o fazendeiro e pai de família de perfeita plasticidade fotográfica, que era o homem sem expressão ideal para levar os EUA à relativização moral dos massacres da era nuclear.
Seis meses em 1945 é indispensável e um livro que se torce para se chegar em casa para voltar à leitura. Nessa inevitabilidade dos arremedos circulares da História, ao menos é um alento que os escritores de história estejam antenados a tornar seus livros tão permeáveis ao grande público quanto thrillers de suspense.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Hamlet, William Shakespeare
Shakespeare é o caso mais eficiente desse constitutivo que ora e outra simulamos estar por esquecer ser um dos fundamentos da arte: o plágio. Parece uma ironia do destino_ que, firmando-se em seu propósito de coerência, plagia outras vertentes da realidade_ o tido como o maior escritor de todos os tempos ter roubado boa parte de suas obras de outros escritores. No ensaio de T.S.Eliot, lamentavelmente ligeiro mas relevante, que acompanha a nova edição de Hamlet recém lançada no país pela Companhia das Letras, vemos que Shakespeare não só copiou personagens, situações e o enredo de uma peça de Thomas Kyd para compor o seu Hamlet, mas, em alguns momentos, chegou simplesmente a revisar o texto de Kyd. E o detalhe mais impactante é que a peça de Kyd, longe de ser desconhecida, fora um sucesso de público apenas poucos anos antes de Shakespeare engrenar a sua empreitada. As informações oferecidas por Eliot vão além_ complementadas pelo prefácio do tradutor, que aponta ainda outros autores mais distantes no tempo como possíveis fontes do bardo_, comparando mesmo as similitudes de estilo entre Kyd e seu imortal copiador; e o que é pior: nos dizeres de Eliot, copiou-se fragilidades evidentes de estilo.
Eliot faz uma atribuição contrária ao cânone: "Longe de ser uma obra-prima de Shakespeare, a peça é certamente um fracasso artístico". Não se trata, porém, de uma crítica original, visto que Tolstói e Bernard Shaw se anteciparam ao americano. E mesmo o mais ardente defensor de Hamlet, Harold Bloom, reconhece que toda a magistral grandeza da obra está em suas imperfeições: Hamlet é, segundo Bloom, o personagem mais inteligente da literatura. Hamlet é uma obra tão carregada de perigo por sua intensidade espiritual, que suplanta Shakespeare. Eliot chega a se espantar com a coragem de Shakespeare em tratar de um calabouço de verdades tão terríveis. Ainda que minha peça preferida de Shakespeare seja esse manual de sutileza pérfida sobre a manipulação política que é Júlio César, Hamlet é o que mais me instiga a me reaproximar do raio magnético do autor. A trama é tão complexa, a exuberância de pensamento tão arrebatadora e sobre-humana, que não é para menos que seja a mais imperfeita escrita de Shakespeare, e que seja o exemplar cabal de que a potência da mensagem prescinde do respeito pelas normas da compostura do que seja originalidade e primazia narrativa. Christopher Hitchens compara duas passagens importantes entre Augie March e Gatsby que deixa mais que sublinhado que Bellow copiou a música, o estilo e a visão esotérica de Fitzgerald. O caso de Shakespeare se distingue, além do mais, por o poder da obra com elementos plagiados ter feito sucumbir no esquecimento o modelo usado.
sábado, 29 de agosto de 2015
sábado, 27 de junho de 2015
Novos livros
Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, pedi os dois livros da foto aí de cima. Como meu e-mail com a solicitação não foi respondido, e fazia um mês que eu averiguava todos os dias minha caixa postal sem sucesso, comprei Zona de interesse pela Amazon. A Amazon informava que a primeira remessa deste livro estava esgotada, e devido a isso, demoraria um pouco mais para que eles enviassem meu exemplar. Fiquei um pouco decepcionado com a previsão da espera, mas um tanto feliz por um livro de Martin Amis estar esgotado em uma empresa do porte da Amazon. Por uma incrível coincidência, os dois pacotes chegaram no mesmo dia, nesta semana. E foi mais proveitosa a coincidência por ser eu a conferir a caixa postal_ já que, a maior parte das vezes, é a Dani quem o faz, aproveitando da gravidez para exercer o privilégio de enfrentar uma fila bem menor que a usual. Se a Dani tivesse recebido os pacotes, eu estaria com dois exemplares do Amis, porque tanto ela quanto eu não esperávamos mais que os livros pela parceria chegariam (cheguei a cogitar um sorteio no blog, mas as taxas de remessa pelos correios são muito caras, o que passaria do preço pago pelo livro na Amazon). Recusei a entrega da Amazon, e voltei radiante com os livros para casa.
Eu sou um aficionado por Martin Amis. Trata-se de diversão com QI elevado; entretenimento de primeira com alto grau estético. Martin Amis é o mais próximo que as letras conseguiram chegar de um escritor rock-star. Ele é uma mistura de Mick Jagger, Nabokov, William Burroughs e Robert Fripp; sabe dominar com exímia maestria o popular e ser um erudito cerebral convincente. Entre Martin Amis e Ian McEwan, seu páreo rival, eu sou da turma que gosta bem mais de Amis. Seus romances tem toda aquela empáfia do escritor maldito petulante que se acha um gênio_ o que, em boas mãos, é parte indispensável da literatura_, tem frases curtas elétricas cheias de ginga, e mais um tanto. Já disse aqui uma vez que Amis nunca escreveu um grande romance. Eu disse isso em minha resenha a seu último romance lançado no mercado brasileiro, Lionel Asbo, e lembro que percebi a maturidade do escritor ao evidenciar uma auto-crítica descansada de que seu propósito não era mais a de escrever uma obra-prima. Seu propósito passou a ser o de se divertir com seu enorme talento, produzindo uma espécie de corpo único magistral de escrita em que o principal era o virtuosismo da voz de seu autor. Essa inteligência de Amis suplantou de vez Ian McEwan; este último, a cada novo romance, vem se mostrando mais insosso e sem inspiração, em sua ânsia por invadir o cânone da alta literatura pensando que mais vale a grife de seu nome do que o valor real de seus livros chatíssimos. Amis, pelo contrário, abraçou de vez e sem a mínima vergonha sua posição relativa à sombra de Nabokov: em cada livro novo, ele ousa sair de sua zona confortável de autor celebrado (que, à maneira de McEwan, qualquer coisa lançada teria automaticamente uma louvação sintética da mídia) e ir além, sendo contundente, debochado, afiado e astuto, sem dar a mínima se está agradando e sem o mínimo respeito pelo que esperam que ele faça. Um exemplo de seu deboche sofisticado é a escolha de todo um enredo de suspense e crítica social à violência começar, em Lionel Asbo, com o incesto do narrador da trama com sua avó. Por isso, pela sua não-contenção, os últimos livros de Amis continuam sendo ótimos e anarquicamente divertidos, em sua tentativa sincera em impregnar de autenticidade essa nossa época carregada de boçalidades de todos gêneros e tipos, enquanto os últimos lançamentos de McEwan são pastiches triviais de sitcom em que o autor pede respeito à sua posição de senhor acavalado na poltrona de couro de seu escritório.
Tenho um amigo, grande leitor, que tem a para mim incompreensível atitude de ler coisas como Dan Brown e Paulo Coelho (!!!), alegando que é leitura para descansar. Nunca soube o que é isso, pois Hanna Arendt, Saul Bellow e William Faulkner sempre foram extremamente divertidos e adstringentes para mim, enquanto o único livro que consegui ler por inteiro de Coelho foi um tour de force que me custou dois meses de martírio_ e eu nunca consegui ler Dan Brown, apesar de nada ser pior que Coelho, e apesar de eu me dar bem com outros best-sellers. O máximo que suponho chegar próximo do entendimento do que esse amigo quis dizer é com um livro de Martin Amis. Vou terminar A vítima, segundo romance de Bellow, e começar a ler A zona de interesse.
P.S.: sobre A vítima, J. M. Coetzee escreve em um ensaio que é um livro repudiado injustamente por Bellow, talvez, continua Coetzee, por um excesso de modéstia por parte do autor de Herzog. Enquanto para Bellow se tratava apenas de um exercício de aquecimento para saber se um judeu como ele estava apto para conquistar o mundo, para Coetzee é um romance mais coerente e bem engendrado do que Augie March, e um exemplo do quanto Bellow se aproximou da qualidade dos questionamentos morais de Dostoiévski.
sábado, 21 de março de 2015
quinta-feira, 5 de março de 2015
Roth libertado, de Claudia Roth Pierpont
Lendo esse livro fiz uma reavaliação de meu relacionamento de leitor com Philip Roth. Demorei para ler Roth. Adiei o máximo possível. Não sentia o mínimo interesse por ele. Umbiguista demais, americano demais no pior sentido que eu via naquele tempo. Só cheguei até ele porque então foi inevitável, quando da necessidade de seguir a trilha lançada pelos autores modernos, Saul Bellow, Martin Amis, etc. O primeiro que li foi Pastoral americana. Eu me lancei neste livro com todo preconceito possível, e o achei passável. Percebi que toda a justificativa do autor estava unicamente na potência de sua prosa, e posso me vangloriar que eu me encontrava em um grau de astúcia de leitor suficiente para já intuir os pecados do escritor. Já intuí a grande vontade de Roth de ter um tema legítimo e nunca realmente conseguir. Intuí as emulações sofisticadas mas falsas que ele fazia dos grandes romancistas da Europa Oriental nas tantas cenas estridentes de Pastoral americana. Percebi a importância pretensiosa que ele se dá, montando um livro propositalmente volumoso para angariar com isso mais distinção, afinal os grandes romances russos são caudalosos. Para juntar página a página e ampliar a equação, ele escreve nesse romance uma série de passagens maçantes e desnecessárias, chega a implodir a paciência do leitor ao descrever as etapas de produção de uma indústria de luvas de couro. Saí com a impressão de que tratava-se de um livro distinto, sério, com uma superfície geral de honestidade, mas que eu jamais iria reler. O li em uma época em que eu ainda não tinha salário suficiente para atender minha compulsão pela leitura, e Pastoral foi um dos que entraram em minha lista de livros que podiam ser trocados por outro em sebos. Me desfiz dele rapidamente.
Depois li o Complexo de Portnoy, morrendo de rir em uma viagem de ônibus. Me identifiquei com Roth, e esse livro cortou grande parte de minha indisposição com ele. Ainda não era um grande livro, ainda era artificial e manipulado e não honesto o bastante, frívolo, mas o seu humor era arrebatador. Com certeza Roth não seria lembrado se tivesse parado nele. Depois li as sequências de Pastoral americana. As primeiras páginas de Casei com um comunista estão entre o que há de melhor na literatura norte-americana, chega a ser tão boas quanto as primeiras páginas de O legado de Humboldt. Mas a velha estridência esquisita continuava lá, as mesmas provas circunstanciais do desespero de Roth em trazer para si o Evento que os escritores da Europa Oriental tinham de sobra e ele era desprovido por completo em seu embotamento de cidadão do mais hedonista país do planeta. Há uma cena nesse romance que copia quase que descaradamente O idiota. Só fui encontrar um livro de Roth que merecia a mesma disposição de releitura que eu via em todos os livros de Saul Bellow com A marca humana. Esse eu li duas vezes, e é o primeiro grande romance autêntico que eu li de Roth. Tem uma beleza, uma intensidade, um caráter esotérico, que até então não havia encontrado em seus outros títulos. E como é magistralmente escrito! Depois li O avesso da vida, e percebi que nesse caminho oposto de ter encontrado um Roth mais maduro e menos umbiguista tornava qualquer investida em seu passado anacrônico uma chatice. O avesso da vida talvez seja a pior coisa que li dele. Vaidoso, vazio, tolo, o que comprovava que não bastava para um escritor saber escrever como ninguém, o mais importante é ele ter uma alma intensa, uma visão superiormente desapegada, um idealismo profundo. Roth era o oposto de Dostoiévski, o que aumentava ainda mais minha admiração pelo pior estilista do mundo ter conseguido escrever quatro romances que botavam as bobagens do grande esteta no chinelo.
Aí então, finalmente, eu pude ler O teatro de Sabbath. Esse sim ampara com glória a perseverança de Roth. É um dos maiores romances do século XX, e uma obra que permanecerá inalcançável por umas boas décadas. A aproximação mais eficiente de Roth aos amados escritores da europeus. Esse eu li três vezes, e uma quarta vez em seu idioma original. Magnífico!
Depois eu tive a felicidade de ler todos os livros de sua fase tardia, todos também magníficos, notavelmente Nêmesis, sua última obra. Ah! Eu li Operação Shylock, que é brilhante, pynchoniano. Li o descartável Conspiração contra a América. E uma série de outros.
Esse prazeroso livro, que mistura biografia com intimidades sobre a escrita do autor, mostra, em sua primeira metade, o quanto Philip Roth se beneficiou com o mainstream do ambiente literário dos EUA. O que a autora nos conta é o que qualquer leitor de Roth sabe desde que espichou o pescoço para o início de sua carreira: por bem pouco Roth não desapareceu como escritor. Afora um primeiro livro de contos peculiar, cuja qualidade não seria suficiente para compor a relevância de seu autor, e um romance psicológico-masturbatório bombástico, todos os esforços de Roth até além de seus quarenta anos e próximo dos cinquenta geraram fracassos de público e crítica à semelhança de Richard Tull, o personagem do romance A informação, de Martin Amis, que escrevia calhamaços que o quanto tinham de pretensiosos tinham de bocejantes. A diferença entre Roth e Tull parece ter sido a sorte do primeiro ter nascido no mercado editorial mais mercurial do planeta, e numa época em que o fetiche das liberdades sexuais e políticas estava à toda_ e, também, o fato de Roth ter sido sempre um batalhador incansável e compulsivo da escrita.
Claudia Roth Pierpont (que já no começo anuncia não ter qualquer grau de parentesco com o escritor) escreveu um livro que é um prato cheio para todos os leitores de Roth, para todos que gostam de segredos de alcova e de escrivaninha de escritores, e para todos que gostam do ambiente literário dos Estados Unidos. Ela foi muito bem sucedida em contrabalançar a biografia ligeira, sem compromissos cronológicos exaustivos, com o ensaio crítico. A maior parte das informações que coloca no livro vem da série de conversas particulares que teve com Philip Roth, sempre descrito por ela como simpático, engraçadíssimo e compreensivo. Pierpont diz que o livro não foi lido antes por Roth (o livro foi lançado nos EUA ano passado). Ela se diz uma apaixonada pela escrita de Roth, mas isso não impede que seja ácida e verdadeira nas análises que faz sobre cada um dos livros do romancista.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Maus, de Art Spiegelman
O Brasil tem um dos piores índices de leitura do mundo, mas os que leem neste país parecem que leem pra valer. Desconsiderando as listas bestiais de best-sellers da Veja, que só reporta os livros comprados pelos que não gostam de ler, há uma lista informal não publicada de mais vendidos que mostra o que estão lendo os que gostam de ler. Para sairmos logo deste começo inglório de um post trava línguas, constantemente me surpreendo com os livros de alta qualidade consumidos por aqui. É com um tom exultante, por exemplo, que a Boitempo anuncia toda vaidosa na folha final de O homem que amava os cachorros que meu volume do romance corresponde à quinta reimpressão, com tiragem de 15 mil exemplares. Tomando por alto, e dedutivamente, esse fantástico livro do Padura deve ter vendido suas 50 mil cópias fácil no Brasil. Outro exemplo, os livros do Philip K. Dick da editora Aleph, não tem um que não esteja, no mínimo, na terceira edição. Os livros do Dostoiévski pela Editora 34 se esgotam facilmente, e não só os 4 grandes romances, mas também os textos menores do russo. Crime e castigo, em sua primeira edição, teve uma fila de frente à mesa do tradutor na data de lançamento, e acabou rapidamente. Eu tenho a sexta edição, de 2009. Seis anos depois, deve estar já na décima. A biografia de Tolstói, assim que foi lançada, eu tive que esperar por um mês, com o livro já comprado, porque a editora estava reeditando-o. Nos informes digitais que a Companhia das Letras me manda, recorrentemente aparece novas edições de Maus, o livro icônico de Art Spiegelman , ganhador do Pulitzer, e um dos mais tocantes relatos sobre o Holocausto. Eu o tinha lido emprestado de um amigo, e sempre foi um fetiche de consumo adiado. Agora tenho o meu, e na 21ª edição. Dá um orgulho em saber que existe um Brasil inteligente sob o cosmético das cifras.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Chegaram novos livros da Companhia das Letras
Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, solicitei um dos melhores títulos de Simenon, A neve estava suja, em nova tradução e corrigindo o fato de que um livro dessa importância estivesse tantos anos fora de catálogo por aqui; e o livro de ensaios políticos de Pierre Bourdieu, Sobre o estado, um dos mais importantes intelectuais do século XX. Eles me chegaram em bom tempo, nesta sexta-feira chuvosa.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
A neve estava suja
Suspeito que seja por ter ouvido meio erraticamente um desses intelectuais brasileiros presos pela ditadura militar dizer que três meses de prisão foi ótimo para ele poder ler Guerra e paz em sossego. Assim, tendo retornado de forma involuntária a um ciclo de leituras de Dostoiévski (em busca das leituras essenciais), me vem à mente a fantasia de que estou preso em uma cela individual de um presídio de proteção máxima, com um absoluto tempo livre pela frente para ler Os irmão Karamazóv. De certa forma bastante concreta, essa é uma das felicidades do leitor. Ninguém ficaria feliz em ficar sozinho em uma cela individual, mesmo que elas apareçam na tv com toda sua brancura e sua higiene e seu silêncio abençoado, vide os pedidos de clemência dos condenados e o esforço que os advogados fazem em vão para os retornarem ao cenário da superpopulação das cadeias comuns. Um leitor ficaria feliz. Que maravilha abrir a história dos Karamazóv e se inserir para o mundo daquelas páginas em um ambiente mais recolhido que o de uma biblioteca. Dostoiévski mesmo escreveu que a maior selvageria que acontecia com os detentos era a impossibilidade de se estar sozinho, a ponto de ser um esforço sem tamanho conseguir pensar.
Nesse jogo de correlações entre Dostoiévski e o ambiente criminal, visito o site da Companhia das Letras e me deparo com o romance que mais se aproximou à intensidade dos livros do russo no século XX. E aqui com o título traduzido com maior fidelidade ao original: A neve estava suja. E com uma belíssima capa. O romance de George Simenon que me deu um soco no estômago quando o li em meus vinte anos e do qual mesmo após tanto tempo conservo boa parte de suas imagens impactantes. Visito o site da Cia com certa apreensão, me dividindo entre a vontade de ter uma boa surpresa e da necessidade de não encontrar nada substancial por algum tempo até que ponha minhas leituras em dia. E A neve estava suja com certeza é uma excelente surpresa.
A meu ver, este romance traz uma das melhores primeiras frases da literatura, uma abertura que tem a violência velada e a premonição sufocante das aberturas de Kafka. É um romance cujo desbaratino por não se saber o que fazer com sua impressão de grandiosidade, uma vez que os esteriótipos o enquadram na área dos romances populares e baratos, faz com que suas qualidades fiquem ainda mais evidentes. O fato de ser pulp-fiction, de ser de um autor que escrevia romances inteiros no enquadro temporal de uma semana, de um autor que, voluntariamente, retirou tudo do texto até uma limpidez comercial astuciosa, faz com que o romance seja de uma crueza quase sobre-humana_ ou sub-humana, considerando a brutalidade animalesca dos personagens. Na minha vida de leitor, nunca encontrei uma cena de assassinato que fosse tão vil, tão obscena e pavorosa, tão gratuita e insofismável quanto a relatada neste romance. Em Crime e castigo, acompanhamos todas as elucubrações filosóficas do assassino, e o assassinato ganha avaliações profundas por todo o restante da obra. Mas neste Simenon, a linguagem de romance de banca e o propósito evidente de sub-literatura, faz com que o crime prescinda de toda bijuteria, de todo eufemismo, de toda vênia à tradição clássica de não ofender o leitor; o ambiente livre da descartabilidade e do lixo dão uma força única à desumanidade de Simenon. Este romance é tão único e doloroso, que mesmo seu gêmeo mais próximo, Brighton Rock, de Graham Greene, parece um tanto palavroso e inglês, um tanto polido e lento. A neve estava suja talvez possa ser apontado como literatura francesa em respeito a uma corrente um tanto efêmera mas representativa daquela literatura, em que a nudez se apresentou com um poder imbatível, o que fez com que Beckett escrevesse seus romances em francês: tem a linguagem chula de beco, o traquejo de gangue, a falta de piedade dos que nasceram sem a precisão de lentes ideológicas para ver a realidade de morticínio. E neste romance vemos essa escola de maneira pura, bebemos todo o proveito que ela traz para, hoje, sabermos por onde se pode renovar a escrita e torná-la sanguínea e essencial.
Ainda não tenho esse livro, e ele ainda não foi lançado. Assim que lançado, serei um dos primeiros a comprá-lo.
domingo, 7 de setembro de 2014
Um belo erro
Em um registro de início da década de 1970 em seu diário, Norman Mailer se pergunta o que essa geração de escritores de Thomas Pynchon achava que estava fazendo. É fácil ver o realista tradicional que era Norman Mailer, pertencente à escola dos romances de guerra que remetiam a Hemingway e às biografias pretensamente panorâmicas da política dos Estados Unidos, desconcertado diante as experiências inapropriadas que falavam sobre drogas e tinha ritmo de comédia pastelão de O arco-íris da gravidade. É divertido observar o pasmo catastrofista de Mailer com o que lhe deveria parecer a crise absoluta do romance naqueles idos do século passado, com o calhamaço suportadamente lido até antes da metade de Pynchon em mãos. Não podemos culpar a incapacidade de perceber essa faceta do novo em Mailer; poucos escritores estariam na posição de entender o que gente como Pynchon fazia com a linguagem e os temas herdados de outra gente como William S. Burroughs (um ponto deve ser dado para Ian McEwan, que assistiu às conferências de Burroughs em Londres e afirmou que os romancistas ingleses só aprenderam a escrever depois disso). Ainda mais para alguém doente pela grandiloquência como Mailer, que tinha todos os cacoetes e gestos encenados da grandeza literária mais que um direito genuíno a ela, e para quem escrever sobre os temas clássicos da literatura só tinha os caminhos solidamente constituídos pela tradição, não se podendo desviar um centímetro dela.
Hoje, com o painel do romance atual, é indubitável aceitar sem reservas o lugar de Pynchon entre os grandes escritores da metade final do século XX. Uma aceitação que se torna mais esclarecedora ao vermos que a produção desses últimos dez anos na seara da ficção carece dramaticamente de empreendedorismo linguístico, de força revolucionária, da autenticidade do novo, do arrebatamento do estranhismo radical. O que se vê é que os ficcionistas vem manejando as técnicas sedimentadas de 40 anos atrás, e se amparando de uma maneira beirando ao constrangimento na propaganda interna dos elogios recíprocos e nos moldes do que é entretenimento livresco na era da velocidade digital propagada pela nova crítica literária. A quantidade de "melhor romance do século 21", de "grande obra que irá mudar a escrita dos anos vindouros", da "renovação do prazer e profundidade da leitura", de "maior feito nas letras dos últimos 50 anos", do "novo grande romance americano (e aqui se coloca qualquer outra nacionalidade"), é tão grande que se chega a cogitar em algum software que produza essas sentenças laudatórias sem a mínima compostura quanto à inteligência do leitor e as imprima aos montes nas contracapas dos livros. A impressão que advêm ao consumidor, depois que caem os panos do sarcasmo, é que algo muito sério acontece por debaixo desse arranjo que só tem por fora o tom leve de brincadeira. O que vemos é que, se Mailer estava enganado quanto à crise do romance em seu tempo, agora temos todos os motivos para acreditarmos que tal gênero sofre realmente um momento extenso de definhamento, não do que costumam apontar quanto a interesse dos leitores ou quantidade de gente de alguma relevância escrevendo, mas em seu núcleo mais grave da falta de criatividade. Ou falta do que dizer, ou falta de experiência básica de vida para escrever.
De 2010 para cá li parte considerável do que se vende como grandes romances atuais, e afora um ou outro, nenhum me pareceu nem chegar perto da propaganda que foram vendidos. Tirando a excelência clara de Javier Marías, Philip Roth, o próprio Pynchon no auge de sua produção tardia, os novatos das letras estão fadados ao esquecimento assim que a poeira do marketing se assentar. Eu disse em algum outro texto que sou um leitor passível de constante deslumbramento, e que cada dois meses me deixo arrebatar por um romance. É verdade. Mas é porque ainda resta muita coisa boa para se ler de escritores de gerações passadas que se encontram vivos: Le Clézio, Nooteboom, Vargas Llosa. O perigo é que escritores mais novos, como Eugenides, Chabon, Franzen, começam a pisar em falso com suas novas obras, começam a perder o que parecia ser a força inicial de grandes prosadores que tinham e se deixam escorregar para o ambiente contemporâneo de narrar em livro como se estivesse escrevendo para uma série de televisão. Começam a escrever como Jennifer Egan, com uma excelência técnica relativa que também parece um software em que dá ao público o que convenciona-se que ele queira: agilidade, sombras sobre a mortalidade que são dissipadas com uma lata de coca-cola, sexo depravado com seu adendo indispensável de compensação moralista punitiva no final, diálogos de seres urbanos inteligentes em suas intimidades invioladas de consumidores em apartamentos descolados. Requinte, é a norma da literatura produzida atualmente, e o requinte tem o gosto aspartâmico da profundidade simuladamente alcançada. É uma linha decídua preocupante que o mesmo autor dos magníficos Virgens Suicidas e Middlesex seja quem escreveu a comédia televisiva de erros bastante fraca A trama do casamento; ou que As correções, de Franzen, seja vilipendiada em troca de Liberdade, esse romance chatíssimo e de um pieguismo desaforado, que foi um dos romances que a loteria de realengo da crítica anunciou como o maior do século XXI. (Comecei ontem O pintassilgo, temeroso de que a tão aclamada Tartt seja mais um desses engodos de vendas.)
Michael Chabon ainda está em um patamar acima desses outros companheiros citados. Quem leu As aventuras de Kavalier & Clain e Associação Judaica de Polícia sabe do que estou dizendo (dois desses livros que se tornam paixão instantânea, que só o futuro dirá o quanto a distância temporal os colocarão nas futuras listas pessoais de melhores livros de todos os tempos). Seu último romance, Telegraph Avenue, me pareceu um enigma enquanto o lia. Não sabia mesmo definir, nem na seguridade apraz a todas as confissões difíceis de minha poltrona de leitura, se eu estava gostando ou não desse livro. O fato é que contava positivamente que eu o estava lendo todas as horas, até chegar ao fim; o fato contrário era que me parecia que Chabon, a exemplo do papagaio da parte 3 do livro, que faz uma panorâmica em voo por cima dos dramas pessoais em uma escrita de uma só longa sentença, tangenciava a trama sem nunca entrar realmente nela, às custas de uma demonstração de virtuosismo de mostrar o quanto sabe escrever bem que caía no vazio. Gabriel Márquez dizia que quando estava aprendendo escrever, destrinchar uma página de Hemingway era muito fácil, devido à simplicidade do escritor de Por quem os sinos dobram; já analisar uma página de Faulkner era como desmontar um relógio ultra-complexo e tentar juntar de maneira correta todas as suas partes de novo. Pois partindo desse ponto de vista, o livro de Chabon é uma generosa abertura total do escritório do escritor; neste romance, ele nos mostra à exaustão todas as sua técnicas, suas armadilhas, seus maquinários dos minúsculos aos mais evidentes. Acontece que ele se mostra de forma exagerada, extenuante. Não há uma palavra de preguiça neste livro: tudo é escrito em uma fé em sua eficiência e propósito, com um frescor e inteligência típica do escritor, que é o que me faz pensar que há algo escondido nele que me passou batido, ou que eu ainda não aceitei da forma correta. Como se Telegraph Avenue fosse o Moby Dick de Chabon, um livro que só será reconhecido em suas sutis artimanhas daqui algumas décadas (por enquanto fica no leitor contemporâneo só a miopia dos que acham que capítulos curtos e ensaios náuticos é pura enrolação).
Chabon é um mestre. Não adianta virem com essa de que ele parece forçar o humor, etc, etc. O cara é um mestre, é só lerem com atenção. Quando li Associação Judaica de Polícia, havia acabado de ler O mestre e margarida, e eu soube que dificilmente coincidiria novamente ler lado a lado livros que tinham diálogos tão excepcionais. E a profundidade do tema de AJP, a forma como toca em um dos mais caros assuntos da alma, é uma proeza para poucos escritores. De forma que é perigoso analisar Telegraph Avenue com um filtro apenas, o de que Chabon simplesmente errou. No livro, parece que nada acontece: forma-se um cenário espetacular para uma trama que envolve a história do jazz, e os personagens (como em uma parte do livro admite) são bastante pynchonianos, mas isso tudo é abandonado por Chabon. Os indícios da relojoaria do romance são oferecidos também à farta: um dos personagens, negro, velho jazzista, traz em seu bolso uma edição escangalhada e muito anotada de Ulisses, o livro que é uma espécie de cabala para o ensinar a viver. E TA é fundamentalmente o prosaísmo, o provincianismo, a vida não-intelectual e visceral de Ulisses. Mas Chabon quer que todos esses sinais sejam sofisticados, o que não é difícil para ele; quer que o leitor erudito reconheça as migalhas de pão que orientam o traçado de ida e retorno ao labirinto, com a mesma inteligência pop que no novo filme do Homem-Aranha o tema musical do herói é um plágio intencional de Fanfare for the common man, enquanto se é mostrado o cotidiano inglório de um Homem-Aranha combatendo o crime como se enfrentasse o metrô com uma pasta executiva debaixo do braço indo para o escritório (ou, ao que me parece uma isca sofisticada demais para o público alvo de uma franquia francamente inferior à de Sam Raimi, o personagem negro de Electro deixando a sua condição de invisibilidade racial para aparecer nas telas da Times Square enquanto o fluxo de energia luminosa dos cabos elétricos remete ao esconderijo do narrador do grande livro de Ralph Ellison, que se escondia em um depósito subterrâneo da Companhia Elétrica).
Em uma página do romance pode-se colher uma série de referências pop e da história dos EUA, assim como em Ulisses temos a mesma coisa em referência à história da Irlanda e da Europa. Jethro Tull, Return to Forever, as convenções partidárias de um incipiente Barack Obama, o sistema de saúde americano com suas intersecções com uma obstetrícia ainda medieval, a velha exploração sobre a onipresença cultura do fast-food e das indústrias do entretenimento na personalidade e no modo de pensar e agir dos personagens. O que se sente no romance de Chabon é essa euforia, essa ilimitada vida e ruído urbano de Joyce, suas camadas de infinitas correlações inteligentes que o leitor parece adquirir a capacidade quase tegumentar de perceber_ há aquele ganho atrasado de compreensão em que tudo parece desconexo e tumultuado mas que páginas adiante de súbito se nos revela, o que Chabon se mostra exímio em fazer.
Mas é impossível não desejar que Chabon tivesse contado realmente a história dos personagens, tivesse amarrado todas as pontas que ele deixou soltas. Os personagens são maravilhosos, prometem muito: os donos da loja de discos antigos de jazz que está para fechar as portas por causa da chegada da megastore, o vereador mandrião que promete ajudá-los mas que só faz acentuar ainda mais o fim, o filho homossexual, o filho bastardo, o velho pianista de jazz que tem um papagaio sábio chamado Cinquenta-e-Oito, a mulher grávida que trabalha como parteira e que cometeu um erro no exercício da profissão. E por aí vai. Chabon poderia ter feito o que anuncia fazer: ter sido francamente pynchoniano e joyceano nesta obra que é uma clara demonstração de amor a esses dois escritores. Chabon deve ter algum propósito. Talvez esse seja o mais humano de seus livros, o mais pessoal, por Chabon ter recorrido à voluntariedade de dizer que esses seres humanos pueris, sem nada de muito interessante, sem nenhuma relevância, falidos e à procura da felicidade instantânea, são o que realmente importa, são o emblema de uma certa e factível continuidade do homem. E dizer dessa forma, nesse experimentalismo inusitado e ousado de incorrer no erro de não ser entendido, é um ato de renovação da escrita que situa Chabon acima dos arquétipos previsíveis do que se vem fazendo na indústria da escrita atual.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
O pintassilgo
Tanto se fala de Donna Tartt, e mais ainda de seu novo romance, O pintassilgo, que estou ansioso para conhecê-los. Estou em uma dessas semanas em que fico absolutamente sozinho em casa, à mercê da música, da escrita, da leitura e dos pratos de solteiro preparados aventureiramente à noite. E hoje me chega o pacote da Companhia das Letras, que vem em ótima hora. Vou iniciar a leitura de O pintassilgo na segunda-feira; quem estiver passando por esse blog que queira testar se Tartt é essa grande escritora de que tanto se fala, e que tal best-seller e vencedor do Pulitzer seja mesmo a tão aclamada obra-prima, lendo concomitante comigo o romance, poderemos no post da minha resenha talvez debater sobre o assunto.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Conversa apressada
George Saunders não me convenceu. Ainda me faltam dois contos de Dez de dezembro para ler, mas, a julgar pela premissa de Borges de que temos que nos aferrar ao prazer da leitura, ou a julgar pela leitura disciplinada em busca de esclarecimento mais que prazer, esse livro me deu nos nervos. Sinergismos exagerados, quase ao ponto do lisérgico, e aquela adolescenciofilia tão típica dos escritores norte-americanos cultuados mas de terceiro time, à lá Salinger. Não que seja ruim o autor, mas sei lá, temo que minhas 4 décadas de vida estejam pesando em meus gostos ou eu já esgotei por completo minha capacidade de me entusiasmar em saber o que uma menina de 14 anos pensa sobre sexo. Funciona para um estágio de leitor que ainda procura o que eu em meu estágio já encontrei. Não tem assombros em Saunders que me choquem ou, no mínimo, me tire um segundinho de pudor, o que não me deixa de entristecer um tanto. Há algumas semanas tive uma daquelas discussões infrutíferas com o Ssó_ infrutíferas porque somos ranhetas e indispostos a darmos os braços a torcer_, em que ele dizia que nada mais o emocionava na ficção desde Svevo, e eu contra-atacava alegando que de dois em dois meses sou arrebatado por algum romance ou livro de contos. Ssó me deu os parabéns, cheio de cinismo, e eu mencionei menos indiretamente que seria educado a elevada idade dele e as consequências disso. Pois nada é mais verdadeiro que essa minha afirmativa: eu sou uma criança quando leio. Eu rabisco os livros, entorto eles no colo, leio de cabeça para baixo com os pés estirados na parede, fico profundamente apaixonado pelo autor e logo passo a odiá-lo amorosamente. Se não me engano este foi um dos conselhos de Hemingway para uma vida longa, o de nunca se cansar diante o descobrimento da leitura. O que me causa auto-policiamento quando um autor como Saunders ou Egan não me diz nada, veio por um momento e eu não tornarei a procurá-lo em definitivo.
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Mas logo me animo quando me vejo com um novo livro de algum escritor do qual gosto muito. Semana passada me chegou pela Livraria Cultura o novo lançamento de Michael Chabon, Telegraph Avenue. Comprei uma carrada de livros, e pretendia começar com a releitura de Condição Humana, versão estendida e revista, da Hannah Arendt, mas o Chabon ficava me atiçando da estante, querendo atravessar a fila. E eis que, sem me dar conta, já estou na página 200 do romance. Cara, eu gosto muito do Chabon! Gosto pra caralho do cara! Ele é o equilíbrio espantosamente perfeito de todo escritor descomedido que faz pose nas esferas atuais da grande literatura: ele sabe deliciar o leitor com as trivialidades saborosas do provincianismo moderno, entremeando romance de gênero e metalinguagem elétrica, de forma muito mais encorpada e visceral que um Paul Auster; seus diálogos são afiados e inteligentes (incrivelmente inteligentes!), vindo de personagens que não precisam ter a maldade e promiscuidade justificadora dos de Martin Amis; ele faz grande literatura de uma maneira que parece involuntária, e não escorando em insossas peraltices do manual de redação criativa de um Jonathan Franzen; e, em comparação à supracitada Egan, a obra de Chabon antes de se prestar à dinâmica de cenas de seriado de tv, é literatura em alto nível, para leitores inteligentes. Chabon é best-seller nos EUA para um público leitor que tem de ter um QI equivalente à potência de sua escrita. E é viciante como ele escreve. Chabon foi co-autor dos roteiros do Homem Aranha do Sam Raimi, e é fácil para seu leitor identificar quais são os toques dado por ele nesses filmes: um dos que eu apontaria sem medo de errar é o quarto do Peter Parker no último filme da trilogia, um pequeno cômodo rústico no alto de uma arranha-céu, com todo o mobiliário remetendo a uma idade de crise financeira, cama de molas que lembra as de albergues filantrópicos, espelho de tinta esfumaçada na parede, um balde de metal para as abluções, uma penteadeira caindo aos pedaços; o único detalhe vantajoso é a enorme janela da qual Parker vê a metrópole entardecendo, o que lembra jazz, lembra nostalgias da vida aventureira da porra-louquice da juventude. O quarto é precário mas plasticamente encantador. Isso é o que Chabon povoa em seus livros: um cenário no qual o leitor se esconde, apartado da modernidade, exilado das fórmulas modísticas pré-fabricadas e institucionalizadas para o uso geral do imenso rebanho. Em As aventuras de Kavalier & Clay, o refúgio de um dos heróis da trama é um andar interditado e esquecido do sótão do Empire State, de onde ele manipula o imaginário de uma geração de jovens da segunda guerra mundial loucos pela catarse das histórias em quadrinhos que ele produzia; em Associação judaica de polícia, o cenário é uma cidade esquecida no meio do gelo do Alasca, para onde foram os sionistas emancipados do sonho de uma Israel oriental. E agora, neste, temos personagens que estão na iminência da bancarrota quando veem sua loja de vinis raros de jazz ameaçada pela chegada de uma mega-companhia de venda de música na cidade. Que bom chegar à noite e me preparar para o deleite de mais algumas páginas de Chabon, com toda a alegria contagiante de sua escrita, o humor incansável de suas histórias.
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Cem anos de nascimento de Júlio Cortázar. Há uma matéria longa, longa, longa sobre Cortázar na Piauí deste mês. Nada como uma longa matéria sobre Cortázar em uma revista requintada como a Piauí, desde que tenha algo de interessante para contar. O texto do Reinaldo Moraes é só enfadonho. Paro na metade e vou caçar a foto do autor para ver o que ele manda. Um sorriso, uma boa saúde, uma cara que me lembra um tio boa praça que tenho em São Miguel. De imediato reafirmo minha decisão de, desde agora em minha intenção de ser escritor, tomar o máximo cuidado com fotos. Nunca me deixar fotografar. Olhando a cara do Moraes e mais uns outros da equipe da Piauí, não me contenho em pensar que são simpáticos demais, urbanos demais, 3x4 sem conflitos. Um escritor não pode ser assim. O Carlinos me disse que vem me visitar qualquer dia desses e vai ser ótimo; se quiser pode passar o fim de semana, tem quarto de sobra pra ele e a esposa. Vai ser leve e risonho, mas na hora da fotografia vou parecer aqueles bestas que cerceiam a exposição da própria imagem. Eu não sou ninguém e não é metidez, mas estou com o Pynchon. Já viram a cara do Pynchon?, pois é; chego a arrepiar ao imaginar aquela cara tão exposta quanto a do Garcia Marquez, por exemplo, com aqueles dois dentes protuberantes e aquelas orelhas de abano. Já me foi difícil erradicar a imagem de velho safado de Nabokov para poder lê-lo, das tantas fotos em que sua vaidade exagerada deixou aparecer. Pynchon não seria Pynchon se não tivéssemos dele apenas essas duas fotos célebres, em que desculpamos seu prosaísmo por ser algo restringido ao branco e preto do passado. Mas voltemos ao tema (?): amaldiçoado pela cara de bom moço da literatura brasileira (a Carol Bensimon jovial demais... o Galera com aquela barba longa de botique... (bom mesmo são as falhas dentárias à lá Maiakósvki, que impregnam o autor de uma seriedade shakespereana, onde se intui o futuro suicídio, ou a velhice recolhida)), continuei e finalizei a leitura do artigo do Moraes sobre Cortázar. A única coisa interessante é a reafirmação da polêmica declaração de uma ex-affair do escritor de que Cortázar na verdade morreu em consequência da AIDS. Cortázar, segundo Cristina Peri Rossi, foi uma das primeiras vítimas da doença em Paris, depois que recebeu uma transfusão de sangue contaminado em um programa do ministro da saúde (deposto em razão dos altos índices de contaminação advindo dessa desastrosa decisão) em usar como doadores estrangeiros ilegais. Cortázar contaminou sua companheira, Carol Dunlop, que definhou com infeliz rapidez e morreu antes dele. Disso eu não sabia.
domingo, 25 de maio de 2014
A morte e a pompa_ Louis-Ferdinand Céline: "De castelo em castelo"
Um texto excepcional de Milan Kundera sobre Céline, retirado do ótimo Um encontro, um volume de ensaios de Kundera lançado pela Companhia das Letras:
"No romance De castelo em castelo, a história de uma cadela; ela vem das terras glaciais da Dinamarca, onde estava habituada a longas escapadas pelas florestas. Quando chega à França com Céline, acabam-se as escapadas. Depois, um dia, o câncer.
[...] tentei deitá-la em cima da palha... logo após o amanhecer... não queria que eu a deitasse... não quis... queria ficar em outro lugar... no lado mais frio da casa e em cima das pedras... deitou-se calmamente... começaram os roncos... era o fim... haviam me dito, eu não acreditava... mas era verdade, estava deitada no sentido da recordação, de onde viera, do Norte, da Dinamarca, o focinho ao norte, virado para o norte... cadela a seu modo tão fiel, fiel aos bosques de suas escapadas, Korsör, lá no alto... fiel também à vida atroz... os bosques de Meudon não lhe diziam nada... morreu após dois... três pequenos estertores... ah, discretíssimos... sem um só lamento... por assim dizer... numa pose de fato muito bonita, como em pleno ímpeto, em fuga... mas de lado, prostrada, acabada... o focinho para as suas florestas das fugas, lá longe de onde vinha, onde sofrera... só Deus sabe!
Ah, vi muitas agonias... aqui... ali... por todo lado... mas nem de longe tão belas, discretas... fiéis... o que estraga a agonia dos homens é a pompa... o homem afinal está sempre no palco... até o mais simples [...].
"O que estraga a agonia dos homens é a pompa." Que frase! E: "o homem afinal está sempre no palco"... Quem não se lembra da comédia macabra das célebres "últimas palavras" pronunciadas no leito de morte? É assim: mesmo agonizando, o homem está sempre no palco. E mesmo "o mais simples", o menos exibicionista, pois não é sempre verdade que o próprio homem se coloca em cena. Se ele mesmo não se coloca, nós o colocamos. É seu destino de homem.
E a "pompa"! A morte sempre vivida como alguma coisa de heroico, como o final de uma peça, como a conclusão de um combate. Leio num jornal: uma cidade, soltam-se milhões de balões vermelhos em homenagem aos doentes e aos mortos de aids! Paro neste "em homenagem". Em memória, como lembrança, em sinal de tristeza e de compaixão, sim, eu compreenderia. Mas é assim, e Céline sabia disto: "o que estraga a agonia dos homens é a pompa".
Muitos dos grandes escritores da geração de Céline conheceram como ele a experiência da morte, da guerra, do terror, dos suplícios, do exílio. Mas viveram essas terríveis experiências do outro lado da fronteira: do lado dos justos, dos futuros vitoriosos ou das vítimas aureoladas por terem suportado uma injustiça, em resumo, do lado da glória. A pompa, essa autossatisfação que quer se exibir, estava tão naturalmente presente em todo o seu comportamento que eles não podiam vê-lo ou julgá-lo. Mas Céline ficou durante vinte anos entre os condenados e os desprezados, no lixo da história, culpado entre culpados. Todos em volta dele foram reduzidos ao silêncio; ele foi o único a dar uma voz a esta experiência excepcional: a experiência de uma vida cuja pompa foi inteiramente confiscada.
Essa experiência permitiu que ele visse a vaidade não como um vício, mas como uma qualidade consubstancial ao homem, que não o deixava nunca, nem mesmo no momento da agonia; e, sobre o fundo enraizado dessa pompa humana, permitiu que ele visse a beleza sublime da morte de uma cadela."
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| Louis-Ferdinand Céline |
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Lionel Asbo, de Martin Amis
Venho lendo Martin Amis desde que me deparei com boa parte dos formadores de opinião dizendo que ele era o maior escritor do mundo. Isso foi em 1999, creio que no ano do lançamento da edição nacional de A informação (na verdade, A informação foi lançado pela Companhia das Letras em 1995) . Amis era acolhido com todas as previsões inevitáveis de mimo pela mídia cultural como uma espécie inusitada de astro do rock das letras. Ele se dava ao luxo até de ter sua parcela de suspeição moral, típica da vida maculada das grandes personalidades do show-business, ao ser apontado como réu em um escândalo envolvendo plagio e pelo final tumultuado de um relacionamento não exclusivamente amoroso com uma famosa editora. Era difícil para um leitor desvincular o escritor Amis do homem excessivamente público Amis, mesmo porque o próprio autor fazia questão de apagar as linhas divisórias ao se inserir como personagem em um de seus livros (em Grana, Amis aparece inteiro e com o próprio nome para se assumir como ghost-writer do anti-herói da trama). Por isso, quando li A informação, era com esse condicionamento ambíguo na cabeça que me vi testando o que era real e o que era quimera publicitária. O que de imediato percebi foi o enorme domínio das técnicas narrativas em Martin Amis: ele conhece como ninguém todos os andamentos da escrita, todas as quebras sutis para acentuar a tensão da trama; ele escreve usando uma percepção subliminar contínua dos movimentos mais prosaicos da realidade; em seus livros um céu nunca é apenas um céu, mas algo acintosamente perigoso, "uma névoa de saibro, a textura da gaze, com ciscos, pontos cegos, rugas, como cicatrizes de vacina" (Lionel Asbo, p.324); ele demonstra essa qualidade superior de apresentar rostos e paisagens com definições anacrônicas espantosas, como Faulkner bem sabia fazer com seus personagens com olhos como maçanetas, e seus desenhos de Londres tem a profundidade caleidoscópica de uma cidade sombria carregada de detalhes percucientes miniaturizada e inserida em uma esfera de vidro. Ao contrário de vários outros escritores que são alicerçados para um plano de visibilidade comercial absoluta, Amis tinha algo a oferecer, mesmo que fosse apenas o cacarejar erudito de frases soberbas que olhando-se mais detidamente, não diziam nada (como a famosa incógnita da abertura de A informação, bela e impactante, mas quase genialmente oca). Em um mundo hipotético como o de um dos contos de Amis, em que os poetas estão no topo da cadeia alimentar financeira e os banqueiros purgam uma dura vida de ostracismo, os livros de Amis seriam o best-seller número um da lista de leitores superdotados.
Martin Amis é sim um escritor que não pode ser desprezado. Mas o leitor experiente aprende com as leituras sucessivas de seus livros que ele não é o maior escritor do mundo. Numa escala pessoal de relevantes romancistas de língua inglesa contemporâneos, em que a excelência apical fica com Saul Bellow, descendo pelas escalas elevadas de Thomas Pynchon, Philip Roth, Naipaul, Rushdie, até chegarmos às bases de uma Jennifer Egan e um Jonathan Franzen, Amis ocupa um plano mediano de um Paul Auster apimentado e muitíssimo mais divertido. Um diagnóstico com afiada precisão foi dado por um jornalista britânico: Martin Amis é um grande escritor que nunca escreveu um grande livro. Com Lionel Asbo, Amis deixa claro que ele tem plena consciência disso, demonstrando uma auto-crítica lúcida quanto até onde ele pôde chegar como criador. Aos 65 anos, ele sabe que jamais lhe darão o Nobel de literatura, e por isso ele repete mais uma vez, com vigorosa honestidade, tudo o que sempre fez, podando os excessos de virtuoses que por vezes entulham seus outros romances. Há mesmo uma leveza, uma despretensão em Lionel Asbo, que torna essa obra um tanto maior que as outras; maturidade sem sisudez, mestria sem empáfia. Os personagens continuam primorosamente construídos: Lionel Asbo, que certamente entrará na galeria de figuras memoráveis de Amis (junto a Richard Tull, o escritor fracassado e corroído pela inveja de A informação, e o obeso mórbido ultra-libidinoso John Self, de Grana), é um delinquente juvenil de uma imaginária cidade satélite de Londres, tão bem cinzelado e imprevisível que causa um misto de sentimentos no leitor: nojo, terror, admiração involuntária pelo primarismo escatológico, mas nunca ternura, mesmo nos momentos finais da história que, astuta e enganosamente, parece direcionada para pieguismos redencionistas.
Lionel Asbo começa com o visceralismo não isento da intenção de chocar típico de Amis. Já nos primeiros parágrafos aparece uma situação desmesurada que o leitor fica tentado a achar ser um artifício cômico forçoso. Eu vi tal coisa como um exemplo de humor pueril, uma traquinagem para se manter ousado e provocador, para arrombar o bom senso. Parece que Amis foi compondo espontaneamente esse início, como uma brincadeira, e com uma perícia de enxadrista treinado foi tecendo uma rede de coerência em torno, de tal modo que essa leviandade de gosto bastante duvidoso acaba por se ligar fundamentalmente com a desfecho da narrativa. Mas o que verdadeiramente desconcerta nesse livro_ para não dizer incomoda_, é a explícita falta de generosidade por parte dos personagens. Não falta de generosidade na construção narrativa, que aqui temos uma prosa imbatível e de primeiro time. Mas falta de generosidade humana, de coração terno. Lionel Asbo é um ser monstruoso, um ególatra patológico, uma encarnação de determinismo criminoso que remete às teorias lombrosianas; em outras épocas ele seria um guerreiro perfeito, um bárbaro quiçá fundador de civilizações, um instrumento evolutivo potente pela sua falta de sentimentalismos. Mas no subúrbio de Diston Town, ele é um animal brigão que passa constantemente longas temporadas na cadeia, e que martiriza a vida de todos que estão à sua volta, principalmente de seu sobrinho Desmond Pepperdine. Há aqui um antagonismo pouco trabalhado (insinuado mas lastimavelmente abandonado pelo autor) entre inteligência e bestialidade: a inteligência de Des, o sobrinho, que volta as costas para o modo de vida de Lionel, ingressando-se na faculdade e imaginando uma biblioteca como um mundo em que pudesse viver, e Lionel, cujo principal esforço é abolir voluntariamente todo traço de inteligência que queira aparecer em sua mente. Desde criança, Des percebe essa voz libertadora da inteligência acendendo no interior da sua cabeça, vindo não sabe ele de onde, uma voz calorosa, recolhida, cujas fagulhas intensas o deixa sequiosamente ansioso por mais. Mesmo quando Lionel Asbo, por uma mera trivialidade, ganha na loteria, e se torna um multimilionário famoso perseguido infatigavelmente pelos paparazzi, a inteligência que poderia vir no tempo de sobra de uma vida isenta da labuta da marginalidade, é severamente combatida. Com a riqueza financeira, Lionel Asbo fica mais disforme, como um imperador romano, como Calígula.
É aqui que entramos na falha de Amis em não conseguir escrever um grande livro. E precisamos, assim como ele, aceitar isso, para aproveitarmos tudo que ele tem a oferecer. Lionel Asbo é um romance fascinante, divertidíssimo, prendendo o leitor às suas páginas. Uma obra que mexe não só com a providão de risos, mas com o asco e o desassossego. Só isso já posiciona Amis, com toda seu inequívoco virtuosismo e seu talento para a artificiosidade, acima dos outros escritores que se acomodam na medianidade congratulada das letras. Temos que ler Amis sem procurar interpretações políticas e filosóficas, e assim vamos querer ler Amis sempre. Há uma linha lá para o meio de todos os seus romances, em que os personagens ficam caricaturescos por demais, repuxados na ultra-realidade pretendida pelo autor. Isso torna a coisa toda bastante implausível, como nas repetitivas cenas de A informação em que a esposa do escritor famoso é adestrada no volante por um vigarista suburbano que só lhe ensina como certo tudo o que não se deve fazer na direção de um veículo: ainda que no princípio tenha um humor pastelão, fica impossível ao leitor acreditar que uma mulher seria tão constantemente estúpida a ponto de achar que ameaçar velhinhas atravessando as ruas é a coisa legítima a se fazer com um carro. Essas cores fortes aparecem em Lionel Asbo, o que pode fazer pensar que tal inércia renitente seja não um defeito de visão em um magnifico mágico da escrita como Amis, mas uma parte de seu estilo, assim como a estupidez cósmica dos personagens de Beckett são uma das assinaturas de Beckett. Mas o cacoete de Amis está mais para um abuso no recurso dos filmes de terror nas cenas em que a mocinha perseguida por uma psicopata assassino cai por terra e demora uma eternidade para se levantar (enquanto o expectador fica silenciosamente gritando "levanta daí e corra, porra!"). Assim, fica a angustiosa pergunta no leitor do por que Des insiste em ser sobre- humanamente passivo, a um nível que diminui um pouco a verossimilhança da história contada. Assim, aceitando que os romances de Amis são distorções muito bem escritas, caricaturas que algum dia podem suscitar a interpretação icônica de uma nova forma crítica de enxergar o mundo dos homens, tais romances são leituras valiosas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Vida querida, de Alice Munro
O mais certo é não acreditar nos jornais e revistas. Cada dia mais vejo que as opiniões sobre literatura e escritores que partem dessas publicações ou vem de profissionais que não gostam de leitura, ou de acadêmicos cuja ambição mal sucedida é construírem algo novo e original usando o livro como base. Desse último exemplo vi um ensaio na revista Cult sobre Ar de Dylan, romance recente de Vila-Matas, que tinha o absurdo talento involuntário de não dizer absolutamente nada, de não servir para o esclarecimento do leitor sobre o livro em foco, e de ser apenas um rocambole da pretensão do articulista em sofismar para o vazio.
O que se fala de Alice Munro na imprensa cabe no primeiro modelo de tratamento acima. Propagou-se que a nobel do ano passado era o Tchécov moderno; li na Veja um artigo apontando que os contos de Munro são repetitivos e que falam demais em doenças e em mulheres solitárias; em não sei que outra publicação fala-se que Munro tem um inequívoco traço em comum com Raymond Carver. O que sei e posso falar como leitor é que há muitos erros e más intenções nessas críticas. Li Fugitiva e Vida Querida, ambos lançados pela Companhia das Letras (embora o primeiro esteja esgotado e já fora do prelo, à espera de relançamento pela Editora Azul), e descobri que ninguém mais longe no ramo dos contos que Munro de Tchécov. Os contos de Tchécov são carregados de uma ternura cruel, de um humor ferino e desolado, de uma limpidez e clareza de compreensão. Uma das grandezas de Tchécov é ser um escritor descomplicado ao extremo, mas sem que isso recaísse em didatismo ou simploriedade. É um tanto leviano falar de Tchécov, já que ele é uma das maravilhas da literatura. Mas aqui cabe salientar essas coisas para ressalta meu espanto ao ver que tentam vender Munro de forma errada, pois quem ama Tchécov (todo mundo que lê) pode muito bem chegar a Munro por essa ilusão e passar a odiá-la.
Os contos de Munro são complexos, apesar da simplicidade e quase total despojamento da escrita, adotam quebras repentinas de ponto de vista e recorrem ao estratagema de desmentir na cara do leitor as verdades antes apregoadas sobre os personagens. Isso, confesso, me desbaratinou no início, sobretudo nos primeiros contos de Fugitiva. A autora nos dá as mãos e nos leva por um caminho tido como seguro, para, covarde e sardonicamente, nos abandonar logo em seguida. Tchécov jamais faria isso. Mas isso é uma das vantagens de Munro, é o estabelecimento escolhido por ela para se inserir na narrativa moderna. No conto Fugitiva, vi isso com mais maestria_ aliás um conto excepcional!_: somos levados a crer na perfídia de um plano de extorsão, somos deixados desabrigados no centro da história, estamos na iminência de vermos o golpe realizado, até que tudo vira um assombro em que questionamos nosso entendimento quando a linha reta se encurva e segue outro caminho no final. Tive que reler as última páginas para confirmar a coisa. Em Fugitiva, em todos os oito contos, fica notório porque deram o Nobel para Munro, e porque gente como Javier Marías tece loas para ela (Munro é uma das dignificadas a pertencer ao Reino de Redonda, do qual Marías é o atual monarca).
Já sobre a repetição acusada no artigo da Veja, vi isso como um machismo involuntário (é uma mulher quem escreveu o artigo). Todos os escritores são repetitivos, porque Munro não poderia ser? A maioria dos escritores produzem suas obras desnovelando um só e único assunto, e se Munro fala muito de doenças e solidão (principalmente em Vida querida), esses assuntos são obsessão de Philip Roth e vem sendo usado em seus últimos dez romances. Vida querida é bem menor que Fugitiva. Os personagens não são tão convincentes e o enredo peca por desnutrição em alguns pontos. Mas mesmo assim são contos que tem muito o que dizer, são exercícios vorazes de uma velha escritora por continuar a perseguir o enigma que lhe motivou a começar a escrever. E, só a última parte, composta por textos confessionais e declaradamente auto-biográficos, já vale o investimento no livro. Aqui vemos o valor de Munro por uma ótica diferente da criadora de labirintos prosaicos de Fugitiva, por sua sinceridade e sua facilidade. Também não vi nenhuma semelhança entre Carver a Munro. Descontando o óbvio minimalismo, que conceitua a maior parte dos contos de Carver, e no qual Munro não se enquadra em nada, Carver só serve como referência para Munro pela estima declarada dela por sua obra.
Em nossa época, e superficialidade dos difusores de opinião vende a ideia de que leitura é entretenimento. A alta literatura não é entretenimento. O prazer é uma ocorrência secundária. Munro não é Dan Brown (aliás, tentei ler Brown e fiquei profundamente entediado). Passei muitas horas de prazer lendo esses dois livros. Fugitiva é uma ótima iniciação. Vida querida tem artificialismo e a repetição dos possíveis cacoetes de uma vida inteira dedicada à escrita (como o tem A memória de Shakespeare, do velho Borges), e bons textos auto-biográficos.
Um outro ótimo ponto de vista sobre Vida Querida, pelo Carlinus, aqui.
Um outro ótimo ponto de vista sobre Vida Querida, pelo Carlinus, aqui.
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