sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os grandes temas



Não é que o romance esteja acabando, mas os romancistas é que definham. Discussão eficiente é aquela em que nosso opositor se revela com um desconcertante argumento que reverte a verdade para o lado dele. Assim, ao negar para Ernani Ssó que o que ele dizia sobre nenhum romance há 20 anos ter mais a capacidade de o entusiasmar, o que ele proclamou aos poucos se provava como um diagnóstico das minhas próprias leituras. Parei para pensar e tive que dar o braço a torcer: faz tempo que nenhuma obra de ficção me impacta. Respondi ao Ssó que de dois em dois meses eu me deixava arrebatar por um novo romance; e não que não seja verdade, mas em uma análise mais sucinta, os livros que eu leio não chegam a ser integrados ao montante de produções contemporâneas. Puxei pela memória, em um ato sistemático sincero, e dei por mim que o último romance atual que realmente me impressionou foi Os enamoramentos, publicado por volta de 2 anos atrás. Nesse quadro, entra, claro, as últimas produções de Philip Roth e Thomas Pynchon. Mas tudo o mais tem conseguido apelar apenas para minha esperança de encontrar uma nova luz frutificante nas letras, uma nova motivação e energia. Mas não é o que acontece: Franzen e Egan e Tartt, por exemplo, Gonçalo Tavares e, de modo geral, a nova ficção portuguesa, tem, trocando em miúdos, me enchido de tédio. O livro da Tartt me consumou três semanas para que eu conseguisse terminá-lo, e se eu o fiz, foi por um ato de obrigação. Para não me limitar à produção norte-americana, o citado Gonçalo Tavares nunca me pareceu realmente literatura; vejo, com todo respeito ao autor e a seus leitores, que os tantos elogios que se fazem a ele é uma transcodificação ibérica das frases puxa-saquistas que atulham as contra-capas dos romances estadunidenses, e considero o cúmulo da subserviência intelectual que Tavares aceite que o anunciem como "o Kafka português". Tavares me parece um mestre do exercício provinciano da literatura, que tem sua relevância graças ao tempo das vacas magras em que o espírito criativo passa.

Uma coisa só eu tomei de proveito da leitura de Vila-Matas: em seu romance O mal de Montano, não sei se um companheiro de escritório do corcunda narrador, ou outro personagem desse facilmente esquecível livro, diz que o último grande escritor foi Robert Musil. Isso me ficou reverberando na cabeça. Eu não conhecia Musil; eu nutria mesmo uma aversão à sub-grandiosidade de Musil, via sua estatura de grande escritor do século como uma propagação vinda do mercado negro das valorizações literárias. Respeito muito Elias Canetti, e na auto-biografia de Canetti, as tantas deliciosas páginas sobre a amizade do autor com Musil me encheram de dúvidas sobre Musil. Me parecia que Canetti confirmava meu preconceito de que o homem Musil era um reacionário intragável, e que sua obra-prima era para seletos leitores que ainda tinham no espírito a heráldica de decadentes orgulhos aristocráticos. Musil era um tratado enjoativo sobre maçonarias sociais emboscadas e mortas pela história, e só era apreciado por saudosistas anciães. Ou seja, o que eu jamais me interessaria por ler. Mas, a frase do Montano me fez comprar O homem sem qualidades. Três dias depois do calhamaço de 3 quilos me chegar, eu tive que reportar o fato ao Ssó, para completar o círculo psicológico de improváveis ideias cadenciadas: narrei o quanto Musil havia me pego de cheio, na armadilha de ler o livro no banheiro e não conseguir mais que a leitura atendesse apenas às instantaneidades distrativas da escatologias. O livro é ligeiro e muito engraçado, apesar de suas 1400 páginas, é facílimo de se ler, eu escrevi a Ssó. E Ssó me respondeu com algo que me surpreendeu, pois vi nisso que a corrente de causalidade de nossas conversas também agiam nele: ele disse que seria uma boa pedida, mas que ele havia reservado o verão para a leitura de Os demônios e Os irmãos Karamázov, esse último antes do primeiro. Eu que havia o martirizado sobre o quanto Dostoiévski era uma revitalização do deleite da leitura. E eis que ele estava a se programar para voltar ao Karamázov.

Pois bem, chego onde queria. Eu reli mês passado os Karamázov, enquanto lia concomitantemente Musil. Como é bom ler Dostoiévski! Foi um limpa em meu enfado de leitor, e uma bela nostalgia rediviva. Ler Franzen e Tartt era um sofrimento com certo deleite, que se acentuava mais a compensação da leitura por poder sair falando mal deles depois, por poder reforçar a consciência daquilo que Nietzsche dizia de que o excesso de conforto da sociedade de consumo atrofiaria os poderes do espírito no homem. Leio com alegria, na tradução fiel de Paulo Bezerra, a seguinte frase em os Karamázov: "tremendo toda trêmula" (p. 761). O tipo de frase que deixaria Ssó louco, se não fosse de Dostoiévski. O livro é recheado de defeitos assim do estilo de Dostoiévski (Bezerra e os demais tradutores do autor da editora 34 escreveram fartamente sobre o cuidado que tiveram de traduzir a linguagem de Dostoiévski com toda sua oralidade, vulgaridade e incorreção). A literatura franzeana ou tarttaniana moderna vai pelo outro caminho, do apuro estético, da excessiva eufonia ora e outra disfarçada de urbanidade lasciva, de arranjado rebolado de jovialidade iletrada. Escritores como Tartt e McEwan direto parecem que tentam suavizar o que se tornaria por demais erudito em sua escrita mascando um chiclete e comendo um x-burguer para o açúcar sofisticado da deleteriedade se incorpore em suas obras. McEwan, desde dez anos atrás, não produz nada que não seja um mascar de chicletes e um apanhar com as mãos aptas a aparecerem em propagandas de fast-food um x-burguer gordurento. Sábado, Solar, e não sei mais quantos romances que ele lançou de lá para cá estão tão incapacitados de dizerem alguma coisa genuína que a mídia cultural cumpre bem a sua inércia em apimentar o gosto dessas sensaborias com a grife do nome do autor. Se é McEwan, é bom. Em Liberdade, do Franzen, 500 páginas são gastas para costurar uma catarse do reencontro amoroso dos dois amantes que, durante todo o livro, se traem, se odeiam, se envelhecem, e talvez seja a única cena que realmente tem alguma fagulha de vida, com os dois, homem e mulher, debaixo da chuva, com fome, no frio, sentados em choro conjunto nas escadas do chalé abandonado no meio da floresta. Lembro que eu vi como Franzen escreveu essa página: com suor no rosto, quebrando a ponta do lápis e seguindo em frente em febre tirando o máximo que podia do cotoco de carbono; em êxtase. E o x da questão é que, Dostoiévski parece que sempre escreveu dessa maneira, sem concessões nem mesmo à noção européia muito em voga do beletrismo. Dostoiévski, que escreve com redundâncias excessivas, com desconexos aberradores (que tanto, é claro, devem soar maiores ainda em seu próprio idioma), rasgava seu espírito nas páginas. Não à toa que Nietzsche anunciava, apaixonado, em suas cartas, que o russo era o escritor que escrevia com o sangue.  

Voltar a ler Dostoiévski para mim é voltar a me deixar possuir por um anacrônico sentimento de adstringência em respeito à humanidade. A mesma impressão que me possuiu ao assistir, ontem, um documentário pela rede Escola, sobre agro-floresta, em que um europeu que me pareceu ser a cara do Abraham Lincoln, que mora na Amazônia, pregava com uma sapiente simplicidade o contato com a natureza e a vida em respeito à natureza. Um homem de seus 50 anos, muito bonito em seu excesso de rugas, com um menininho de 3 anos, loiro, deitado em seu peito, enquanto ele fala com carregado sotaque sobre plantas e ventos, sobre o teor da terra a sobre a mata. Um leitor, um cara culto. E, em contrapartida geográfica, um caboclo de enorme inteligência, na caatinga, preenche a dicotomia do programa falando sobre sua luta para proteger o que resta de natureza na seca nordestina. Isso, essa relevância inexorável e imperiosa dos grandes temas, é que me enternece e me infla de fé com a leitura de Dostoiévski. Os escritores atuais, em suas deprimentes tentativas de realizarem o melhor, procuram os grandes temas, mas seus espíritos obnubilados não conseguem alcançar. Por isso essa nova escola de enxurrada de romancistas metalinguísticos: porque, de comum acordo, acharam falar sobre a morte do romance como a última tragédia de gabinete que simula com certo charme falar sobre os temas capitais humanos. Há um capítulo inteiro de os Karamázov, intitulado Os meninos, que por si mesmo já seria um amplo aprendizado para esses escritores voltarem a procurar o caminho certo para encontrarem o Enredo. Esse capítulo, absolutamente errático no livro, vem após o inquérito investigativo que uma comissão de procurador, promotor e comissário, faz sobre o parricídio supostamente praticado por Dmitri Karamázov. Estão o acusado e a comitiva e uma série de testemunhas, dentro de um hotel, em uma dessas províncias invisíveis anunciadas apenas por sua letra inicial, típicas nos livros do russo; há neve lá fora, a temperatura ambiente é de 20 graus negativos. Dmitri olha pela janela e vê a lama de uma estrada, e as miseráveis isbás do povoado. O capítulo do inquérito é arrastado, sufocante. Daí Dostoiévski, em sua mestria, colocar logo em seguida um capítulo carregado de graça, de diálogos do populacho, de certa leveza. E mesmo nesse capítulo_ o qual é fácil presumir que foi escrito com velocidade_ há os tantos grandes temas humanos, os quais Faulkner falou em seu discurso de recebimento do Nobel: há a proximidade da morte, o perdão, o ódio, o orgulho da fragilidade não reconhecida, a amizade. 

Não é para menos pensar que o escritor atual deixou de ser um aventureiro do espírito, um filósofo social (com tudo de profundos significados que isso tem), para ser um burguês vaidoso à procura de palmas, ou o que hoje em dia se arranja para encobrir a incorreção estúpida de não se poder mais utilizar palavras desgastadas como burguês e capitalismo. Ver uma escritora como Tartt gastar todo seu nítido talento em cabrioladas ridículas para agradar o suposto adolescente de 16 anos que é o alvo pretendido de seu livro, é mais que um sinal de deterioramento das antigas vitórias intelectuais e espirituais humanas. A arte se boçaliza. Estes livros, que são odiados de ante-mão pela visão estarrecedora de suas tantas páginas, são meus best-sellers, meus passatempos preferidos, meus filmes de ação e a mais poderosa de todas as drogas. Musil está repleto de grandes temas, e de uma sublime estética inigualável. Cada um de seus arejados mini-capítulos é um ensinamento e uma descoberta sem igual. Ele tem a capacidade de amplidão através de uma enganosa pequena-coisa que só tem páreo em Borges. Musil e Dostoiévski, cada qual a seu modo, utilizam como comburente de suas obras os mesmos e triviais assuntos que Faulkner disse ser o que compõe toda a grande literatura: eles falam das únicas coisas que tem mérito para que a cada dia se tenha o interesse de se levantar da cama e seguir adiante: o amor, a honra, a humildade, a defesa dos oprimidos, a justiça, a comunhão entre os homens, a luta contra o ódio. Em um entendimento que poucos tem a liberdade aos conceitos eventuais para compreender, toda a grande literatura é socialista.

Chegaram-me novos livros da Companhia das Letras



Através da parceria deste blog com a Companhia das Letras, solicitei um dos melhores títulos de Simenon, A neve estava suja, em nova tradução e corrigindo o fato de que um livro dessa importância estivesse tantos anos fora de catálogo por aqui; e o livro de ensaios políticos de Pierre Bourdieu, Sobre o estado, um dos mais importantes intelectuais do século XX. Eles me chegaram em bom tempo, nesta sexta-feira chuvosa.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Nordestinos"


Pessoas que se expressam precariamente em seu próprio idioma, agindo com uma discriminação cruel contra nordestinos, com um preconceito estúpido reforçado pelos resultados das urnas do último domingo. Parece que mal sabem esses ingênuos e nanicos morais que São Paulo, tido por eles como modelo de lucidez política e sofisticação intelectual, tem o seu Paulo Maluf e sua irresponsabilidade administrativa que faz com que uma grande realidade de seca apareça pela frente. E falta a esses racistas uma auto-crítica para saberem que nós goianos também somos os "nordestinos" para outros estados, basta visitar esses estados, ou dar uma simples olhada em foros pela internet para ver o quanto gente dos estados do sul e da querida São Paulo deles nos considera um povo culturalmente atrasado e motivo de chacota, com os nossos Sarneys e ACMs. Se a essas pessoas se pudesse dar algum conselho, o que se trata de algo um tanto difícil visto a cega vaidade vazia delas em se julgarem formadoras de opinião via Facebook, eu diria para enxergarem a diferença do outro com mais coração e humanidade, tentando pensar por si mesmas e não pelos tantos clichês que lhes são oferecidos e que elas engolem agradecidas garganta abaixo. Um mínimo de intuição possível revela que os próximos anos para o Brasil não serão nada fáceis. A volta da hiper-inflação, mais corrupção, mais centralismo de dominação da mídia, mais boçalidade no comando das grandes massas sociais, mais violência e alienação. E isso_ queira Deus que essas coisas não nos prejudique tanto_ não virá porque Dilma ou porque Aécio, que nenhum dos dois não chegam a ser sequer gerenciadores competentes quiçá salvadores da pátria, mas virá porque nós somos o povo dividido e sem foco de sempre, o povo que nunca participou de sua própria história, mas foi sempre massa de manobra, ocupados com as distrações do baixo entretenimento que sempre usam para nos manter mortificados. E só mais uma coisita: carro financiado e tv LED de 50 polegadas não nos tornam ricos; ainda somos um país de pobres e miseráveis, nesse lado de cá da África onde vivemos.

Transmigração



Ele o viu descendo pelo tronco do pé de manga logo que abriu a janela do quarto, em uma espécie de telecinese inter-espécie, a sombra dele com uma facilidade vetorial atravessando os extremos da altura da árvore com uma imaterialidade que quase era sinistra naquela hora da manhã. Acordara praticamente pensando nele, e fora dormir na noite anterior analisando as incômodas reformulações no seu cotidiano que já tinha que fazer desde que ele começara a ocupar sua casa, com seus miados cuja palavra cinismo condizia bem e tinha um sentido todo adequado ao mundo dos gatos. Pensava nele e, tcharã, lá estava, se aproximando pelo quintal com uma prontificação ególatra que com certeza já tinha o senhor parado do outro lado da janela em seu campo visual. E nem podia dizer que esse senhor, ele, era de agora para frente seu novo dono. Gatos não tem donos, Dani, ele disse à sua mulher, em uma das várias discussões erraticamente com erudita seriedade que passaram a ter sobre o novo inquilino; gatos são seres indiferentes e dominadores, ela dissera em resposta, com a caneca de café pendurada imóvel na mão diante de si, e um monte de clichês que saíam em profusão do fundo da mente dos dois como se suas infâncias combinadas em que ouviram falar sobre gatos os tivessem preparados para aquele momento em que, finalmente, conviviam com um gato na prática. Mas ele é macho, ele dissera à esposa, pensando nas enormes bolas do bicho, ele que nem sabia que as bolas de um gato poderiam ser vistas assim com tamanha evidência. Ele sabia, através de outra das redes de conexões com seus pre-conceitos infantis incutidos, que os animas dessa espécie que tinham três cores eram fêmeas, e os com duas cores, machos. Mas e os gatos angorás brancos?, a esposa perguntou, com um risinho sardônico, e ele esperou, chegou a contar três segundos, até que a previsível frase viesse: Você é veterinário, deveria saber dessas coisas. Dessas coisas o quê, Dani, que gatos machos tem testículos que de tão grandes devem estar por detrás da capacidade deles de se equilibrarem com tanto sucesso? E aí ele rebate: me cite o nome do escritor que fundou a literatura etrusca, você deveria saber já que é formada em letras.

As bolas do gato eram realmente espantosas de grandes, o que ficava em maior realce diante a magreza do modelo geral em que elas vinham acopladas. Não sabia por quê, mas ele pensou imediatamente no Mick Jagger, quando se deparou com o felino magérrimo se distanciando pelo alpendre assim que o flagrou saindo por detrás do sofá de fora. Não sabia se Jagger tinha testículos tão imponentes, era bem provável que não os tinha assim, mas na concisão das verossimilhanças automáticas sua mente de imediato outorgou uma respeitosa capacidade sexual ao gato. Ao deitar o livro que estava lendo, sentado na cadeira de fio, para ver aquele prodígio anatômico, ele não conteve uma exclamação: "Nossa!". Seja o que havia impregnado de amistoso na voz, o gato parou a fuga e se voltou para ele, e deu uma de suas miadas sedutoras, a telecinesia passando a ser um contrato de ligação instantânea entre os dois d`agora pra frente. O gato parecia mesmo saber quem era Jagger, ou ter compreendido o código de valores por detrás da ideia, pois mudou a sua forma de andar, de simuladamente tímida para um gingado de ricos poderios malandros, um demorar entre o espaço das passadas dos membros dianteiros e anteriores que tinha algo de beco, de perigoso, com um "e aí malandragem, o que tá pegando" em eco ao fundo. Houve uma entrega completa e sem reservas, algo bem maquiavélico, pois o gato instituíra a obrigação de que ele, o gato, seria o dono da casa. Um gato magro, amarelo de duas cores e dois sacos enormes libidinosos que levantava a questão de se teria que tirar as crianças de perto para evitar aquelas perguntas cabulosas. Um vira-lata inglês oriundo da classe industrial de altas chaminés das fábricas de tinta de tecidos, conhecedor profícuo daquelas ruelas de muros de cores carbonizadas e chuvas frias constantes, antes que o destino o fizesse cair nas graças do mercado fonográfico incipiente. Ele veio para debaixo de suas pernas e com uma desavergonhada quebra de sutilezas diplomáticas alisou-se nelas, ronronou com uma consciência telecinética simultânea entre os dois de que além da constituição de posse estabelecida, se assinava um acordo em que também contava um cortejamento com alvo feminil que, é claro, os grandes testículos heráldicos deixavam claro quem era o macho ali. Ele passou a alimentá-lo; deixava restos da janta no canto da garagem, restos de pizza, de pães de queijo. Fazia isso de modo clandestino, pois ainda não sabia o que a Dani iria pensar disso, e também porque não sabia o que ele mesmo deveria pensar, ele que era um devoto criador de cães, o que deveria ter alguma regra de comportamento quanto ao inimigo natural dos cães. (Os gatos antes eram todos mortos assim que ousavam pular pelo muro de sua casa, pelo rottweiler que eles criavam e que se atirava sobre os bichanos com uma crueldade silenciosa cultivada por séculos de ciência destrinchadora, e que eles ouviam, na madrugada, os gritos de desespero sem escape das vítimas, a maneira como o cão as atirava contra as paredes e mesmo de contra o carro, e as jogava atleticamente para o alto, e como os gatos, ao voltarem para o chão, emitiam sons ainda mais apiedantes diante a imposição natural do resto de martírio que tinham que passar até que a matemática sanguínea cheia de resquícios selvagens do cão se cumpria e eles podiam morrer em paz, depois de tanto sadismo_ e o cão, em sua absoluta e perfeita mudez, denotando ao fim de tanto prazer, o tédio que vinha depois da queda abrupta dos níveis de serotonina, o que o obrigava a empurrar a evolução para esse novo infinito caminho de nuances filosóficas ainda primitivas mas prometedoras.)

Mas ele não deu um nome ao gato, isso seria levar o imperialismo histriônico do bichano à sério. E se o gato apostava que naqueles metros quadrados onde vinha dormir, receberia a obviedade do nome de Jagger, teria que tirar o cavalinho da chuva. Não iria enriquecer ainda mais indevidamente aquele ritual de conquista com um batismo. Mas, como acontece com todas as piadas temerosas, a ocasião acabou dando-lhe um nome. E foi graças a outra banda de rock, pois ouviam muito um disco do Grateful Dead, e sua filha Júlia, de 4 anos, cantava o refrão "I had to move, really had to move", de Bertha, como "O gato bluu, uuu", e ela quem deu o nome ao inquilino de Gato Bluu, assim mesmo como ele literalizou as duas palavras, com dois us. E o Gato Bluu, uma vez com um nome, achou por direito que era a hora e o momento de dar sua nova quebra de diplomacia, pois foi descoberto uma vez que não estava limitado a deitar no sofá velho de fora, mas brincando com uma alegria genuína na piscina de bolinhas da Júlia dentro do quarto de bonecas. A Dani foi ficando mais enfurecida. O Gato Bluu voou por debaixo das pernas de uma Júlia possuída por gargalhadas de euforia, e atravessou pela porta da cozinha como um mirrage com duas turbinas cabeludas de distinto tamanho abaixo da cauda. O Gato Bluu passou a querer por que queria entrar na casa. E a Dani vinha com panelas de água e jogava-lhe em cima, e ele só balançava a cabeça aspergindo a água pelos lados e parecia mesmo dar um sorriso de quem agradecia o refresco mas agora não, obrigado, tenho assuntos mais específicos, prosseguindo a entrar calmamente pela janela. Tinha uma determinação tão inviolável que os conceitos infantis sobre a permissividade melíflua dos felinos voltaram a sair do subconsciente do casal na hora do café da manhã, em que a Dani tornava a abrir todas as janelas da casa lacradas no começo da noite para que o Gato Bluu não entrasse. Ela deixava só a janela do quarto aberta, e ele, levantando a cabeça de madrugada do travesseiro, o viu postado no parapeito, os olhos iluminados como uma anunciação vinda de um dos avatares do pesadelo, sem entrar, talvez com medo, pela primeira vez, das luzes azuis e do barulho do climatizador ligado ao lado da cama.

Como ele já passara a gostar do gato, embora ainda não o admitisse, deixava que a esposa tomasse as providências que achasse certa tomar. Ela também parecia não querer fazer nada; seria tão fácil se ele sumisse de repente, alguma aventura noturna o levasse embora, que agisse a via sacra dos gatos vira-latas carregada de atribulações e fantasias. Mas, ao mesmo tempo, será que a supressão do tormento iria fazer falta? não ver mais aquela "insígnia de um desaparecido veludo", como escrevera o poeta que eles menos gostavam mas que se salvava pela beleza desse verso, deitado no sofá, sonhando sonhos de gato emitindo ronronares pelas metades que acentuavam a sua desproteção, o que tinha o efeito de os fazer parar de cogitar sobre sua diabolice. Se ele continuar a entrar aqui dentro, teremos que o expulsar em definitivo, a Dani disse, e ambos pensavam no sofá caríssimo que haviam comprado, e que o retorno da inflação dos últimos meses o tornara ainda mais caro, e o que despertaria neles de sentimentos difíceis de abrutalhamento se vissem bosta de gato no tecido do sofá. É estranho, Dani, ele começou a dizer, o quanto ele fica à vontade com a gente,o quanto ele não nos teme nem minimamente. Ele sabia o que iria dizer, era algo delicado e de uma besteira infinita, mas programara dizê-lo como argumento contra um possível decreto da esposa de que teriam realmente que se livrarem do animal. Você já pensou, assim de mente bem aberta, se o Gato Bluu não é... bem... segundo os hinduístas,... você já pensou se o Gato Bluu não é uma reencarnação do seu pai?

Por mais que o humor na casa fosse totalmente iconoclasta, ele sentiu um pouco de medo de que aquilo a ofendesse, já que o pai dela havia morrido há apenas oito meses. O gato é velho, Charlles, deve ter uns sete anos, é provável que possa ser o seu pai, já que ele faleceu há precisos sete anos, ela rebate. Há um conto de Cortázar, ele pensa, em que o casal brinca que esperam cartas escritas por uma pessoa que ambos sabem já morta há muito tempo. No final do conto, o homem abre uma carta que enfim aparece na caixa de correios, e a mulher pergunta, com inquieta sinceridade, "é dela?", ao que o homem responde, com uma certeza que tem muito do protocolo abissal de um manicômio, "Sim". Ele passa a olhar para o Gato Bluu como se ele fosse Seu Gercino, o sogro. Quando o Gato Bluu pega um dos brinquedos da Júlia e sai o revoando em uma felicidade sem limites entre as patas, ele pensa no padre Zossima dizendo que os animais e as crianças são as alegrias da criação divina, e começa a pensar que não seria muito difícil para sua pré-senilidade dos 40, que já asfalta o caminho para que misture todas as filosofias em um nível de profunda pessoalidade, fingir com realismo acreditar nisso.

Graça Infinita


O mais novo exercício do Galindo tem data prevista de lançamento para 27 de novembro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A terceira sinfonia de Fiódor Dostoiévski



Novamente estou sendo direcionado em um novo caminho na minha vida através da literatura. Minha vida, literal e totalmente, gira em torno da literatura, respira literatura, observa o mundo através da literatura. Meu filtro de contato com toda forma de experiência vem da literatura. Por isso, nada mais natural que a cabala que tece códigos pessoais que me chegam apontando direções através de enigmas tenha como chave giratória o universo da escrita. Essas fagulhas lineares que eu frequentemente encontro atrás dos meus passos mostrando o retorno pelo chão do labirinto, topam com meu destino cotidiano de uma maneira tão presente que já não me causam qualquer espanto. Sempre há um livro que rima com meus dramas pessoais. E cabe agora que esse livro seja, em primeiro plano, Os irmãos Karamazóv. Seria exagero para o olhar alheio eu dizer que parte da angústia atual e recorrente que me cai em cima em relação à existência (e tudo em geral, o que é uma redundância de humor involuntário), foi resolvida pelas 50 páginas que precedem e contemplam O grande inquisidor, e os discursos do padre Zóssima no final do primeiro volume. Essas páginas me trouxeram um imenso alívio e uma terna e insubordinada compreensão. Digo insubordinada porque essas poucas páginas provocaram um misto de certeza e independência (apesar do que nada há de mais distante no propósito de Dostoiévski do que incutir certezas) em mim que me vejo imune a qualquer tratado filosófico ou opinião muito conceituada que pretenda rebatar a verdade destas páginas. Ler Karamazóv aos 17 anos me ajudou apenas a preparar o terreno do interesse quase acidental de relê-lo com a real capacidade de aproveitamento aos 41. Se me limitasse à leitura de quase 25 anos atrás, ainda o acharia o mais chato livro da literatura russa e o que traz os mais irritantes cacoetes de Dostoiévski. (Onde estava com a cabeça e que distração de péssimo leitor me fez ter essa opinião?). 

Pois lendo-o agora, vejo que se trata de um desses livros raros que transcendem os limites fisiológicos do autor, dessas obras de tão arrebatadora independência que antagonizam o mero ser humano que a compôs com a entidade incognoscível que lhe está por detrás. E digo isso não apontando um objeto perfeito: Karamazóv é desconcertantemente imperfeito e frágil como são os outros grandes romances de Dostoiévski. Está um tanto abaixo da eufonia estética de Guerra e paz; carrega um frenetismo que beira o caos onde convivem em tumulto hipóteses de absoluto impacto original sobre a psicologia humana (ou, mais assertivamente, a psicose); filosofias em estágio de delírio sobre a existência e a não existência de Deus; subliminarismos sobre a piedade que revelam uma inquietante personalidade masoquista de quem escreve. E há_ o que me parece revolucionário ainda hoje_, algo que eu não sei definir, uma espécie de pieguismo dostoiveskiano, um descaramento astucioso (diria maquiavélico) em usar e abusar conscientemente dessa fragilidade; uma afirmação constante (e quase exultante) da pobreza do modelo criador em cima do qual o autor escreve. Um livro em que seu criador não demonstra o menor pudor em se revelar por inteiro, em se desfragmentar e se oferecer a um nível de total desinibição em que cada parte de si é um personagem e um cenário. Faz isso de um modo tão obsceno, que é nítido que o caramanchão onde se encontram, no jardim dos fundos abandonado e coberto de hera, Dmitri e Alioscha, é uma projeção do mais recôndito setor do espírito de Dostoiévski. O livro inteiro, com essa extravagante vida diabólica, chega então a se tornar carne nas mãos do leitor. Essa fraqueza, essa pequenez assumida, essa falta de vergonha, esse martírio auto-consentido, tem o poder de certa forma aterrorizante de tornar Dostoiévski fisicamente vivo para o leitor. Como se ele acabasse de escrever o livro; como se sua ressurreição vencesse permanentemente o tempo, e estivesse como um corpo respirante envolto em uma mortalha sentado ao lado da poltrona do leitor. Há algo de espectro lazariano e versão mais pessoalmente urbana de um Virgílio drogomano em Dostoiévski. Como se, por uma lei nova do magnetismo, os fragmentos crus e desavergonhados do autor se colassem aos fragmentos do leitor, e com isso jogasse tudo à visão denunciatória por cima da mesa da feira, aos olhos de todos (aos terríveis e cruéis olhos de toda a plebe). Dostoiévski parece sempre um escritor insuficiente, alguém sem talento para a escrita, alguém insuficientemente armado para a arte, mas que, em desespero de morte, transforma sua puerilidade em um arrebatamento do estágio final de tudo que sente e pensa, sem concessões à gratuidade. Como se tudo fosse compensado pela sua ultra-acelerada sinestesia de ser espremido por um compressor cósmico em que consegue como nenhum outro ser destilado na página em sua mais distante e inacessível última palavra. Não seria para menos que, numa hipótese de resiliência da sociedade pela palavra, Dostoiévski seja visto no futuro ao lado de gente como Jeremias, Oséas um sincero e muito mais perturbado fundador de religião.

Ivan Karamazóv, nestas cerca de 50 páginas citadas acima, começa com um conceito inédito sobre Deus: Ivan diz (para um Aliocha cada vez mais estarrecido) que, como homem, com um cérebro treinado pela lógica euclidiana, era incapaz de conceber a existência de Deus. Por conseguir pensar limitadamente apenas usando três dimensões, era algo impossível para o cérebro humano no estágio atual da evolução, pensar sobre Deus. Sendo assim, é uma ocupação vã pensar sobre Deus. Como homem que aceita suas apertadas fronteiras biológicas, ele aceita que Deus exista. E é aqui, a partir daqui, que começa a nona sinfonia de Dostoiévski. Ou, talvez, de forma não menos grandiosa, a terceira sinfonia de Dostoiévski (em referência ao modelo beethoveano em que uma frase musical quase ridícula em sua infantilidade e pobreza proposital, descamba para um desenvolvimento orquestral de imprevisível riqueza e profundidade). Mas apenas um adendo: só essa frase sobre os limites euclidianos da mente já fundou toda uma área da literatura do século XX (junto ao espectro amortalhado, aparece ao lado do leitor uma gama dos maiores escritores como Huxley, Camus e Bellow, bebendo avidamente das palavras do russo). Pois bem, daí Ivan segue dizendo que ele pode acreditar em Deus, mas não pode aceitar. Ele nunca, jamais, vai aceitar. Ele diz que ele pode aceitar Cristo na cruz a o universo afunilado que avança por séculos de bons e maus ladrões lutando pela sobrevivência, beneficiados pelo sacramento revolucionário de a partir de então não mais ser julgados pelos seus pecados, mas ele não pode aceitar uma coisa: que as crianças, que os pequeninos do Criador, sofram. Ele narra uma série de episódios reportados na recente imprensa russa sobre abominações acontecidas contra esses pequeninos, pais que enxotam sua filha para o porão da casa, a colocam ajoelhada no barril no frio intenso, só porque ela derrubou a sopa no forro da mesa, e fecham os olhos e dorme a noite toda em boa consciência. Ele não pode aceitar os vários massacres cotidianos em que esses frágeis e puros seres de Deus são esquartejados em caçadas pelos senhores de terras, que morrem de fome, que são assassinados imaturos aos 7 anos, todos sob os olhos de Deus e sob a conivência irretocável das inexoráveis leis cósmicas que não podem ser suspendidas nem por um milésimo de segundo. Aqui o leitor já se encontra abduzido: é uma lucidez tão pura oferecida que eu mesmo depositei o livro no colo por um momento para armazenar a carga de tudo isso de forma que não se perdesse em meu cérebro, que fosse segurada por muito tempo na memória. Não era só o fato de eu ser pai: era mais do que isso. Dostoiévski estava tocando na mais profunda razão da barbárie humana, de maneira que, se ele fosse alguém dotado de uma colossal capacidade estética, toda a pureza do que estava dizendo se perderia. É algo meio estúpido e inconsequente afirmar isso, mas Tolstói não conseguiria dizer isso com esse poder solar, com esse grito retumbante e primitivo. Seria outra a música, uma música senhoril, perfeita, vinda de um gigante; uma música que calaria a alma. Já a música de Dostoiévski vem de baixo, e por isso atinge com uma proeminência muscular única. Tolstói nos faz espectador, Dostoiévski nos faz cúmplices. Tolstói tem uma grandiosidade de alma que nos contempla com esperança de cura, Dostoiévski nos mostra a nossa brutal falta de eufemismo ao nos conduzir além do discurso. Eu amo mais meus filhos _ como se isso fosse possível, e por um momento supremamente incômodo de auto-avaliação Dostoiévski torna isso possível_, após ler essas palavras. Depois disso, a modulação da minha voz com eles ficou ainda mais tangivelmente terna.

E o padre Zóssima, no final do primeiro volume, diz uma frase que é o que de mais verdadeiro serve como epitáfio da humanidade: "É imensamente difícil para o homem fazer o óbvio". A frase não é literalmente esta, mas quer dizer isso (não estou agora com o livro em mãos). Essa frase tem me feito pensar muito, tem frutificado muita coisa dentro de mim. Quase impossível para o homem fazer o que deveria ser feito, realizar o óbvio. ("Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.")

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Longe de Yoknapatawpha, a água ainda flui lenta pela planície


por João Antonio Guerra 

Memória como um enorme armazém, aumentado de instante a instante num movimento irmão ao da diástole, e com o abandono dentro crescendo igualmente, as pilhas cada vez mais altas e mais e mais corredores se tornando trincheiras esquecidas e mais e mais e mais a presença da escuridão invencível rivalizando com a do conteúdo fragilíssimo de cada metro quadrado―aí está dito o entendimento corrente do que chamamos memória, e é corrente tanto por ser comum quanto por ser carcerário; já em Faulkner: memory believes before knowing remembers, believes longer than recollects, longer than knowing even wonders: de volta à memória o seu título de sempripresença, que não necessariamente prescinde do esforço humano de ativação, mas ao menos preexiste a ele.  O Passado é portanto algo ainda mais agigantado do que o colosso que simplesmente lança sua sombra sobre nós no Presente: o Passado é aqui-agora.
            Só assim surge a Yoknapatawpha das estórias de William Faulkner, pois o condado sulista inspirado em Lafayette tem o Passado intrometido em cada milímetro: é totalmente povoado por herdeiros de uma maldição, isto é, por homens e mulheres que serão inevitavelmente dilacerados pelo poder de uma criatura surgida da aglomeração de todas as rezas e pragas e suspiros e gemidos e gritos finais, enfim, o desespero dos expulsos e torturados e estuprados e mortos―o mesmíssimo desespero que no momento mesmo em que primeiramente se apresentou foi dito desespero-inútil, para depois gerações e gerações fazerem questão de esquecê-lo―dá a vida a uma Caribde, mas uma Caribde talvez mais monstruosa que a grega, porque prescinde tanto do mar quanto do estardalhaço e não se limita a criar turbilhões mahlerianos apenas três vezes ao dia. O destino é um só: ser engolido pela maldição; os desfechos dos personagens faulknerianos das estórias de Yoknapatawpha, portanto, já podem ser deduzidos: imergir na total inércia, seja a inércia do túmulo (como um Quentin Compson) ou do esquecimento (como um Benjy Compson), ou então se lançar na tentativa de uma última resistência estúpida e má e que será inevitavelmente ceifada mais tarde (como um Jason Compson); em Absalom, Absalom!, toda a trama é contada logo na segunda página, porque a potência da maldição de Yoknapatawpha é tamanha que faz a própria contação acreditar nela assim que começa seu trabalho. E aquela Caribde enterrada abrirá a bocarra e cumprirá seu dever, e enquanto isso water flow slow through flat land: o significado da junção das palavras da língua chickasaw que é Yoknapatawpha, a indiferença constante da terra perante os horrores da vingança da História―os Chickasaw foram os habitantes expulsos da terra e os primeiros a colaborar para o nascimento da maldição.
            Agora: If I forget thee, Jerusalem―que por muito tempo teve seu tema (a memória) soterrado sob a escolha de outro título sem sentido, apenas o nome da primeira das duas estórias do livro―é uma obra que não se passa no mundo mítico de Yoknapatawpha: é composta por duas estórias irmãs, Wild Palms e Old Man, cinco capítulos cada estória e com uma contação entrelaçada (primeiramente o primeiro capítulo de Wild Palms, depois o primeiro de Old Man, depois o segundo da anterior e assim por diante), mas sem contar com a presença de nomes conhecidos de Yoknapatawpha como os Sartoris ou os Snopes, porque foi escolhido que a dupla de estórias se passaria em territórios mapeados, como a Chicago para qual o casal de amantes de Wild Palms primeiramente foge, ou a Louisiana da beira do rio Mississipi povoada por cajuns como o ribeirinho com quem o Prisioneiro Alto de Old Man acaba esbarrando. As criaturas de If I forget thee, Jerusalem não estão então fadadas aos fins que a leitura usual de Faulkner apresenta―escolha, a palavra chave para o entendimento da distância entre um Henry Wilbourne e (por exemplo) um Darl Bundren é escolha, coisa que este não teve e o primeiro fará.
            Na casa da escultora Charlotte Rittenmeyer, enquanto suas duas crianças dormem e os muitos convidados do marido estão sentados no chão e uns nos colos dos outros e bêbados, há uma palmeira solitária pendendo sobre o muro carcomido do quintal, tremendo contra o vento invisível; Henry Wilbourne mais tarde sairá da casa de praia e entrará na total escuridão à procura de alguém para salvar aquela Charlotte, sua amante agora agonizando em virtude de um aborto que ele mesmo conduziu e que ele mesmo sabia―aquelas sabedorias inexplicáveis dos personagens de Faulkner, como se fossem todos escafandristas mergulhando no mesmo lodo coletivo, e portanto acessando o inacessível de outros-uns e outros-quandos―que ele mesmo sabia, desde o surgimento da necessidade de abortar, que daria na morte da mulher, e na praia o mar invisível dentro do breu manda o vento invisível chacoalhar violentamente as folhas invisíveis das muitas palmeiras invisíveis que cantam enquanto Charlotte grita; mais tarde ainda, Henry Wilbourne preso, o suicídio dançando nas ideias: além da janela, uma última palmeira, uma última manifestação corpórea da insatisfação, da raiva inesplicável que pode enlouquecer a criatura humana e a arrastar para a fuga e a fuga e a fuga.
            E Old Man, considerado por Faulkner “mero” contraposto humorístico à outra história: o Velho, o Mississipi inundando, os diques rompendo, as grandes ondas arrasando a terra em fúria, e os presos da Fazenda Penal do Mississipi sendo postos em barcos para participarem no esforço de resgate; o Prisioneiro Alto recebendo a ordem de salvar uma grávida, e começando aí o dever que o obcecará por toda a estória; os dois juntos e o barco são arrastados rio abaixo até territórios desconhecidos, passam pela provação do parto e―eles que, dois ignorantes, simplissímos, encontram por puro acaso o lugar que a Charlotte Rittenmeyer escultora e o Henry Wilbourne médico arruinaram as suas vidas para encontrar e fracassaram, e o Prisioneiro Alto e a mulher abandonam a chance, os dois simplórios demais, o homem um menino de dezenove anos em cuja cabeça incrustaram um dever que a imaturidade entende como algo inescapável.
            O Prisioneiro Alto tinha que se livrar da mulher e do barco, devolvê-los, era o que tinha na mente e foi o que fez e então se entregou, para a máquina carcerária cuspir um problema estúpido e dobrar sua pena; logo após a injúria,  a escolha: preso novamente, tem a possibilidade de denunciar aos colegas o mal que a máquinha lhe fez, mas não o faz. Tambem encarcerado, Henry Wilbourne tem numa das mãos o suicídio em forma de cápsula, e o esmigalha num canto da cela: quando ela deixou de ser então metade da memória deixou de ser e se eu deixar de ser, então toda lembrança deixará de existir (...), entre a dor e o nada, escolherei a dor. Permanecerem vivos e sós em nome da memória―embora a implacabilidade de um mundo que como um rio percorre seus caminhos indiferente aos nossos próprios meandros esteja nas celas do Prisioneiro Alto e de Henry Wilbourne, essa escolha que fizeram é algo impossível para os habitantes de Yoknapatawpha.

            A escolha de ser contra a lápide―contra a pedra posta sobre o Passado menos para honrá-lo do que para impedir que retorne―e de assumir o compromisso com a memória.

Ambiente



Enquanto todo mundo se esmerava nos preparativos para a festa de aniversário de 4 anos da Júlia, sábado passado, me foi incumbida a tarefa de ir ao shopping comprar os presentes. A Dani deveria saber que era uma erro muito grande me mandar a um shopping que tem o milagre de duas grandes livrarias, após meses em que eu não dei as caras na cidade. Fui na Livraria Saraiva, perambulei meio decepcionado pelas faltas de opções além do trivial nas estantes, e desci em seguida para o térreo, onde fica a fnarc. Lá sim é um templo. Deve ter cem mil livros para mais (é a impressão que dá). Visitei aquele lugar faz um ano, e me surpreendi que ainda estivesse lá, ocupando aquele espaço todo em que caberia umas 5 lojas de eletrodomésticos e aparelhos celulares. Fiquei umas boas três horas na fnarc. Era só em pensar no título de um livro, o mais distantes e improvável, e pimba, tinha ele na loja. Tem toda a coleção do Tolstói e toda do Dostoiévski. Já na entrada me estaquei de espanto ao ver uma edição em volume único dos Irmãos Karamazóv, da editora 34, que eu em absoluto sabia que existia. Vi a extravagante edição de Bartleby da Cosac, e mais uma infinidade de livros que não me recordo por agora. Isso só na áreas de romance e biografia, porque a seção de artes também era imensa. E gente por tudo quanto é lado, de livros nas mãos, conversando polidamente entre si. E crianças sentadas nos carpetes lendo. Num lugar desses me pergunto se são corretas as afirmações de que não se lê no Brasil. Será que é uma falácia? Comprei 4 livros: 78 reais tudo. Comprei a edição da 34 de Memórias do Subsolo (já na primeira reimpressão da sexta edição), que há tempos namorava e que estou ansioso para reler assim que terminar os Karamazóv; comprei a edição de bolso de Khadji-Murát, e, ao me aproximar da fila do caixa (não queria comprar mais, apesar de saber que assim que entrando em casa me arrependeria de ter deixado passar tanta coisa, pois espero a chegada pelos correios de O homem sem qualidades e Fala, memória, o que atulharia demais a lista de leituras), vejo no balcão de descontos uma biografia do Bob Dylan e Pulp Head, cada um por 12,90. Pego-os olhando em volta numa mistura de gesto defensivo e vontade de vanglória. A moça do caixa é docemente educada. Uma trupe de palhaços invade a loja com tambores e gritaria, e se posiciona na ala infantil, sendo imediatamente rodeada por crianças e pais. Tudo muito simpático e generoso. Sobrou uma hora antes da hora da festa de aniversário para enfrentar o tumulto estúpido na loja de brinquedos, de frente aos presentes idiotas de selvageria guerreira para meninos e futilidade caseira para meninas, e esbarrando com a vulgaridade estridente dos pais. Não suportei ficar lá cinco minutos e voltei para a casa da minha mãe. Depois levaria a Júlia para que ela escolhesse, dentro de seu feliz bom gosto, um presente personalizado. Que bom seria se houvesse uma loja de brinquedos com a mesma espiritualidade da livraria; brinquedos como os da belíssima séria Baby Einstein.

sábado, 11 de outubro de 2014

Alma



Encerrei ontem o primeiro volume de Os irmãos Karamázov, na edição da Editora 34. É um dos livros mais maravilhosos que já li. Estou sobre o forte impacto dele. Lá se encontra de tudo, e, muito possivelmente, propostas sinceras sobre a inviável salvação da sociedade. As páginas sobre a vida do Padre Zóssima são de tremer a alma, são absurdamente tocantes e verdadeiras. Doistoiévski, meus caros; não houve nenhum escritor como ele. A ele é permitido fazer isso, impregnar as páginas desse seu grande romance com essas palavras que hoje soam tão relevantes e atuais, mas ao mesmo tempo tão escamoteadas e ensurdecidas pela moda. Em determinada parte, Zóssima diz que nada é mais difícil para o homem do que enxergar o óbvio e adotar a mudança de comportamento necessária; nada é mais difícil ao homem do que realizar a coisa mais simples e fácil. São palavras poderosas demais e ao mesmo tempo enlouquecedoras, pois indica que nada mudará no coração do homem. Mas Zóssima tece um consolo: acredite no homem; se houver um igual a você, com a mesma fé na bondade humana, então a situação já será bastante otimista. E as páginas, aquelas 50 páginas quase insuportavelmente lúcidas e extremamente inteligentes, aquelas 50 páginas arrebatadoras que antecedem e incluem o capítulo do Grande Inquisidor? Não há, em toda literatura_ sem exageros_ nada que se compare a estas páginas. Ao lê-las, vi que me acompanhavam os olhos deslumbrados de todos os grandes criadores intelectuais do século passado. É uma comunhão. Eu havia lido este livro quando tinha 17 anos, e não havia gostado. Não sei por quê. Por isso, só fui comprar esta edição mês passado, quando já tenho toda a bibliografia de Dostoiévski em mais que uma edição na minha biblioteca. E que bom que tenha sido assim. O livro me chega na melhor hora da minha vida para poder absorver seus infinitos significados. Começo a entender a frase de Dostoiévski que tirou Solzenítskin de seu centro de equilíbrio: "a beleza salvará o mundo". Há muito para se falar, e creio que nos próximos dias, assim como me ocupei de Tolstói há alguns anos, vou tratar aqui em maior grau sobre Dostoiévski_ e aqui entra as correlações com 2014 o ano mais quente da história, e o caos e o suicídio social. Um livro que tem transformado profundamente minha alma.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma conversa com Ramiro Conceição (retirada de comentários meus no blog do Milton Ribeiro)



Vamos falar sério agora, Ramiro. Entre Dilma e Aécio, eu fico com a Dilma. É a mesma coisa que falar, numa comparação grotesca e horrível, que entre a dengue hemorrágica e o ebola, com a dengue hemorrágica tem-se uma estatística menos mórbida de sobrevivência. Mas que bom, se houvesse um Brasil menos terrível, um pouco mais próximo do mínimo ideal, não termos que optar por nenhum desses dois caminhos. Mas já que não há alternativa_ e Marina era, digamos, uma febre paralisante da mesma forma letal mas de diagnóstico indefinível_, eu fico com a Dilma. Não quer dizer que eu fico com um partido específico, mas eu estava conversando com muita sinceridade com um velho senhor amigo meu aqui em casa, e ele me disse, além dos papos de indignação, que em doze anos o Brasil teve uma mudança milagrosa. Eu me lembro de boa parte dos tempos de agruras a que ele se referia: a hiper-inflação, o salário mínimo menor do mundo (nossa ambição era, pasmo, que ele fosse ao menos de 100 dólares!), o fato de quem tinha carro era uma minoria muito endinheirada, o fechamento do comércio e da indústria e como isso nos condicionava à mesma marca de sabonete durante décadas, a inalcançável universidade para os filhos e mesmo para si mesmo, etc, etc. A pobreza e a fome visível. Eu mesmo, certa vez, tive que ir a uma favela próxima ao edifício onde morava com a minha mãe, para buscar uma trouxa de roupas lavadas, e fiquei chocado diante a miséria da mulher que nos lavava a roupa, uma miséria tão intensa que parecia um clichê, parecia algo arranjado sob holofotes, com o filho doente mental e a casa de pau a pique. A mulher, da qual me lembro com total clareza, parecia uma personagem dos quadros de Van Gogh, na angulosidade de seu rosto, no embrutecimento de sua estética sublevada pelo cotidiano infernal de ouvir os gritos da criatura que tinha instalada no único quarto, e que era seu filho de uns vinte anos, um ser que eu vislumbrei de fora enquanto esperava que ela enrolasse o lençol por cima do conjunto de roupas e me passasse, e que me pareceu uma espécie de polvo, ou de alienígena; parecia que possuía tentáculos que não paravam de se mexer em constante agonia, enquanto sua teratogenia o condicionava a uivos violentos. Aquele rapaz era como um símbolo da situação geral, pensou minha mente moldada pelas figuras do ensino sociológico com o qual eu tentava me sofisticar e ter um pouco de compensação contra meu subdesenvolvimento, era um leviatã que cada um de nós tínhamos em graus e realidades pessoais a atestar a cada hora a aberração que era um Estado em situação de indigência espiritual, um país que se aproximava do século XXI sem que houvesse qualquer sinal disso dentro de seu território.

E isso foi há meros 15 anos. A favela já não existe mais, foi demolida para a construção de um viaduto. Eu fui o primeiro lá em casa a conseguir comprar um carro. Tive o salário atrasado por 9 meses, num emprego público que eu tinha (sob o PMDB), e quando recebi todo o atrasado, uma bolada, comprei um fiat uno quatro portas. Nem minha mãe tinha carro na época, ela uma advogada que sempre fez parte da elite do funcionarismo público. Olhando de agora, esse Brasil parece surreal, africano demais, como o suportávamos? Eramos todos, de um ou outra maneira, pobres, não importa de qual classe (classe, hahaha?) eramos. Todos pobres. Todos, no pé da palavra, subdesenvolvidos. Eu torci para terminar meu ensino superior, forçando os anos com o lombo, para que o pessoal do PSDB não privatizasse a universidade federal onde estudava, porque assim, seria a deserção.
Só um tolo, um estúpido, negaria as conquistas cósmicas desses 12 anos. Mas, o que o povo está fazendo? Você tem acesso ao facebook, não? Se formos avaliar pela estultície geral que a ralé promove pelo face, a Dilma já era. Como em um filme de terror ultra-realista, a mesma massa de manobra que o povo brasileiro foi a história toda aparece no face, com ar doutoral de quem acredita que erros crassos de português e xingamentos recíprocos equivalem a sóbrias análises políticas, descambando para o lado do retorno ao passado. É claro que o Aécio é a repaginação freddiekrugeana do Collor, e é claro que os semi-letrados do face são a velha povoalha de cara pintada e grito rebelde promovida pelas velhas dominadoras da mídia, a Globovejaeodiaboaquatro. Vi no facebook de uma mulher da dita elite econômica da minha cidade, um post de revirar o estômago, em que aparece o Aécio e sua esposa, e as seguintes frases: "Chega de feiúra! Queremos gente linda no congresso.", assim mesmo, ipsis literis. E a dita mulher, meu caro, a gênia repetidora das estultícies de comando do ciberespaço, ela mesma uma nordestina, com os traços característicos nordestinos, com o fenótipo específico do nordestino que nada tem a ver com os modelos antagônicos que ela estava louvando. O PT anda bem mal nas redes sociais, e na pesquisa de ontem, há duas semanas das eleições, parece que o vetor aponta para uma curva descendente.
E só um tolo ou um apaixonado ideológico é capaz de negar que esse novo escândalo é bem mais que uma simples conspiração política. Claro que orquestraram matematicamente para soltar a bomba no segundo turno, claro que tem muita perfídia e manipulação por detrás, mas… caro amigo, vamos falar a verdade, né? Quanto mais se nega o que aparece como uma evidência em retumbante clareza em HD, mais a curva decídua ganha velocidade. Não vai ser agora,no alto da desgraça feita, que a ingenuidade forjada vai parar o grande caminhão descontrolado ladeira abaixo. O que eu acho que vai acontecer, é que, infelizmente, o PT vai pagar pelos tantos frutos deletérios que plantou, por ter desprezado a força da estupidez sincronizada do populacho, a astúcia da história. Abusou demais, mas demais mesmo, a ponto de que o benefício de ter nos transformado em diplomados consumidores alegremente endividados pelos planos de financiamento a se perder de vista (o que é bom, fazer o quê?), vai ser varrido para debaixo do tapete, esquecido…
E só vai sobrar mneomonicamente a farsa, a corrupção, a babélia descarada do dízimo para pagar as caras multas judiciais que acompanhavam as prisões de Genuíno e Dirceu eodiaboaquatro. O povo brasileiro não priva pela honestidade, e não é dos que mais se importa com o cheiro do estrume contando que nele ele também tenha sua porção pessoal de rolação na merda_ vide que na época do PC Farias, teve gente que lucrou absurdo com a venda dos bonequinhos do facínora para uma multidão que esfregava a barriguinha de porcelana dizendo que trazia a sorte do dinheiro_, mas nessa loucura do momento eleitoral tudo se transveste em santimônia, em cânticos de redenção e pedidos de justiça. O velho brasileirinho padrão, libidinoso por gorjetas e apertos de mão, ascende para o nível moral de um mujique dostoeivisquiano, fremente de indignada idoneidade, à beira de matar a família Romanov. E os Romanov da hora é a família do PT. Vide a propaganda política que se iniciou ontem, a Dilma tentando absurdamente, histrionicamente, dizer que seu governo vai ser regido pelo Novo, e combaterá a corrupção; e, em contrapartida, após ver esse acidente de publicidade (cadê o Duda Mendonça, meu deus?), segui vendo a propaganda do Aécio e de imediato pensei: o cara vai ganhar. A música de fundo, a lembrança de um “herói” da pátria, que foi avô do candidato. Não tem mais para ninguém. Espero estar enganado. Não vai ser bom para o país. Não creio que vá ser bom. O ebola é fatal demais, e os portos estão abertos (só para fechar a metáfora pra lá de ruim). O Lula deve estar em desespero. Se lhe sobra alguma auto-consciência no alto de seu deísmo, deve estar se lamentando cada vez que negou o mensalão, cada vez que passou a mão escondendo a promiscuidade de um companheiro. A Dilma fez, neste sentido, muito mais que seu mentor, a ponto de, há quatro anos, ter passado por um período em que mesmo os detratores reconheciam que o governo Dilma era muito superior que o do Lula por ser o governo Lula sem o Lula. Mas ela foi engolfada pelo partido, porque a estupidez suicida em médio prazo sempre tem sua determinação inarredável em direção ao abismo. Agora é tarde, e essa sua negação missionária, Ramiro, em mais uma vez repetir a homilia do santo padre do partido de que não houve nada, aumenta mais o repúdio contra a horda por parte de todo mundo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Onde o nosso sucesso fracassa _ a caçada em "A confissão da leoa"



por João Antonio Guerra

Bestas atacando a aldeia de Kulumani, matando as mulheres de Kulumani―e, para o humano matador de matadores, tanto faz a morte de vinte ou duzentas mulheres: tem um só caminho problema adentro: os leões estão lá, a arma está aqui, os leões não estão mais lá. Deram a esse caminho o nome de caça, e o caçador bem sucedido se tornou aquele capaz de responder a morte com mais morte.
            Mas o Arcanjo Baleiro de Mia Couto diz assim ao administrador do distrito, Florindo Makwala: Sou um caçador. Eu não mato, eu caço. A resposta do administrador é previsível, nascida do comum-corrente, e poderia ser a de qualquer pessoa: ele pergunta E não é a mesma coisa?
Não, não somente―e esse não Arcanjo Baleiro carrega no nome, como se percebe: que espécie de bala atiraria um arcanjo, se balas são instrumentos para perfurar e estraçalhar a carne e arcanjos são criaturas que preexistem à carne? Sabemos então que Florindo Makwala nem imagina com quem está falando quando, mais tarde, responde que tanto faz matar ou caçar, o que importa é que as pessoas possam voltar às suas atividades diárias―aliás, não sabe nem de quê estava falando, pois foi justamente o modo como a vida se dava em Kulumani que chamou as bestas, a chegada das bestas por sua vez chamando aquele mesmíssimo Arcanjo Baleiro, isso tudo se arranjando de tal forma que é inadimissível o retorno da Kulumani-normal, a de tantos e tantos anos mesmíssima.
Mesmíssima como? Como Kulumani se fez aldeia no tempo? É necessário primeiro entender a palavra maldição.
Tema amado por William Faulkner―inventor de Yoknapatawpha, um condado do sul dos Estados Unidos que tem sua estória inteira escrita em sangue―William Faulkner e mais uns tantos; temos em A Confissão da Leoa um lugar não tão distante do condado criado por Faulkner para ser o verdadeiro personagem principal de Absalom, Absalom! ou The Sound and the Fury, por que tanto as terras de um Supten quanto as terras de um Mpepe são amaldiçoadas. Recortando do mundo uns poucos metros quadrados, já temos um número incontável de gerações humanas que ali foram injuriadas. Imaginemos agora as pragas, as rezas nascidas do ódio, mesmo os últimos suspiros reservados para clamar por ajuda ou vingança, ou simplesmente para gemer fora a dor; imaginemos cada um desses desesperos se soldando ao outro, lentamente tomando a forma de uma bocarra gigantesca―em Autran Dourado, outro muito bom com maldições, a própria terra tem o poder de engolir os cidadãos de Duas Pontes e mesmo construções inteiras: são as voçorocas, que se abrem revelando a carne vermelha do chão―e isso tudo sem a necessidade de uma organização divina, o próprio Nada recebendo cada apelo e fazendo nascer a vingança inevitável, que cairá sobre os herdeiros dos assassinos e estupradores que, mesmo incrédulos, dizendo-se inocentes, vão sofrer. Poder é a capacidade de fazer vítimas; os maiores atacam os menores com a certeza de que não haverá levante, mas através da maldição dos vencidos vai se formando um poder que se agiganta a alturas muito superiores às dos demais―e por causa de seu tamanho, cessa o assunto: raramente se ouve estórias de quem se vinga de vinganças.
E então abrimos A Confissão da Leoa, estamos diante de Kulumani―a Kulumani que é dos machos―e suas gerações e gerações de mulheres aprisionadas, do estupro, do masculino invadindo e infestando corpos femininos: estamos diretamente sobre os dentes da maldição. As mulheres, há tanto tempo dilaceradas pelo poder macho―poder que, como vimos, é pouco comparado com o que está lentamente se revelando―, dilaceradas agora pelos felinos estão livres como nunca antes estiveram. A personagem Tandi atrevessou o mvera, limite proibido às mulheres, e foi estuprada por todos os que estavam do outro lado em retaliação; depois de morta pelas bestas, seu fêmur que uma hiena deu de carregar na boca não tem mais sobre si os mesmos limites. Inquirida pelo escritor Gustavo Regalo sobre a ocasião da morte de sua filha Silência, Hanifa Assulua responde que o leão estava dentro, mas dentro da casa?, pergunta o escritor, e a resposta de Hanifa é repetir a palavra: Dentro.
Se Arcanjo Baleiro quisesse abandonar seu caçar e ser um matador como todos os demais, teria que ter uma bala para cada mulher da aldeia―e mais uma para sua própria mãe: ela, que sofria o kusungabanga, isto é,  tinha a vagina costurada pelo marido toda vez que ele se ausentava, e acabou morrendo infeccionada em decorrência da repetição. Arcanjo Baleiro é baleiro por herança do pai, Henrique, e Arcanjo por vaticínio da mãe, que previu que ele não seria caçador. Tensionado entre pai e mãe, Arcanjo se situou no meio―não mera metade de uma linha progressiva entre dois pontos, mas um caminho inteiramente diferente dos dois: caçador sim, mas um caçador que caça, e não mata. Não dá um tiro sequer contra as bestas, e elas também se recusam a atacá-lo.
Não foi à Kulumani matar leões, mas, lhe é revelado pela feiticeira Apia Nwapa, matar uma pessoa―que acabam sendo duas, é possível dizer sem medo de muito erro. O problema com os felinos aparentemente acaba com a dupla morte de Genito Mpepe, pai de Mariamar, que estuprou como estuprou todas as suas demais filhas, e da última leoa; os dois morrem abraçados um no outro de uma maneira que os homens presentes penaram para separar. É ao mesmo tempo que Arcanjo descobre o segredo da morte de sua mãe, a razão de seu irmão Rolando ter assassinado o pai com seu próprio rifle de caça. A presa da caça de Arcanjo Baleiro é o poder masculino e sua herança―é o Pai, maiúsculo e másculo, portanto tanto Genito quanto Henrique.

Os homens que de fato caçaram para matar eram todos estupradores, começando com os rapazes iniciados que abusaram de Tandi; a leoa morreu nas mãos de Genito, o leão nas mãos do polícia Maliqueto Próprio. Todos extremamente bem sucedidos―sóis destruidores de estrelas, tiranos da Noite―e portanto uns fracassos. Inclusive faltou uma fera, que ninguém teve a inteligência ou a coragem de contar―somente Hanifa Assulua. Arcanjo Baleiro, por outro lado, não errou tiro algum: é um rifle deixado de lado.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A neve estava suja


Suspeito que seja por ter ouvido meio erraticamente um desses intelectuais brasileiros presos pela ditadura militar dizer que três meses de prisão foi ótimo para ele poder ler Guerra e paz em sossego. Assim, tendo retornado de forma involuntária a um ciclo de leituras de Dostoiévski (em busca das leituras essenciais), me vem à mente a fantasia de que estou preso em uma cela individual de um presídio de proteção máxima, com um absoluto tempo livre pela frente para ler Os irmão Karamazóv. De certa forma bastante concreta, essa é uma das felicidades do leitor. Ninguém ficaria feliz em ficar sozinho em uma cela individual, mesmo que elas apareçam na tv com toda sua brancura e sua higiene e seu silêncio abençoado, vide os pedidos de clemência dos condenados e o esforço que os advogados fazem em vão para os retornarem ao cenário da superpopulação das cadeias comuns. Um leitor ficaria feliz. Que maravilha abrir a história dos Karamazóv e se inserir para o mundo daquelas páginas em um ambiente mais recolhido que o de uma biblioteca. Dostoiévski mesmo escreveu que a maior selvageria que acontecia com os detentos era a impossibilidade de se estar sozinho, a ponto de ser um esforço sem tamanho conseguir pensar.

Nesse jogo de correlações entre Dostoiévski e o ambiente criminal, visito o site da Companhia das Letras e me deparo com o romance que mais se aproximou à intensidade dos livros do russo no século XX. E aqui com o título traduzido com maior fidelidade ao original: A neve estava suja. E com uma belíssima capa. O romance de George Simenon que me deu um soco no estômago quando o li em meus vinte anos e do qual mesmo após tanto tempo conservo boa parte de suas imagens impactantes. Visito o site da Cia com certa apreensão, me dividindo entre a vontade de ter uma boa surpresa e da necessidade de não encontrar nada substancial por algum tempo até que ponha minhas leituras em dia. E A neve estava suja com certeza é uma excelente surpresa.

A meu ver, este romance traz uma das melhores primeiras frases da literatura, uma abertura que tem a violência velada e a premonição sufocante das aberturas de Kafka. É um romance cujo desbaratino por não se saber o que fazer com sua impressão de grandiosidade, uma vez que os esteriótipos o enquadram na área dos romances populares e baratos, faz com que suas qualidades fiquem ainda mais evidentes. O fato de ser pulp-fiction, de ser de um autor que escrevia romances inteiros no enquadro temporal de uma semana, de um autor que, voluntariamente, retirou tudo do texto até uma limpidez comercial astuciosa, faz com que o romance seja de uma crueza quase sobre-humana_ ou sub-humana, considerando a brutalidade animalesca dos personagens. Na minha vida de leitor, nunca encontrei uma cena de assassinato que fosse tão vil, tão obscena e pavorosa, tão gratuita e insofismável quanto a relatada neste romance. Em Crime e castigo, acompanhamos todas as elucubrações filosóficas do assassino, e o assassinato ganha avaliações profundas por todo o restante da obra. Mas neste Simenon, a linguagem de romance de banca e o propósito evidente de sub-literatura, faz com que o crime prescinda de toda bijuteria, de todo eufemismo, de toda vênia à tradição clássica de não ofender o leitor; o ambiente livre da descartabilidade e do lixo dão uma força única à desumanidade de Simenon. Este romance é tão único e doloroso, que mesmo seu gêmeo mais próximo, Brighton Rock, de Graham Greene, parece um tanto palavroso e inglês, um tanto polido e lento. A neve estava suja talvez possa ser apontado como literatura francesa em respeito a uma corrente um tanto efêmera mas representativa daquela literatura, em que a nudez se apresentou com um poder imbatível, o que fez com que Beckett escrevesse seus romances em francês: tem a linguagem chula de beco, o traquejo de gangue, a falta de piedade dos que nasceram sem a precisão de lentes ideológicas para ver a realidade de morticínio. E neste romance vemos essa escola de maneira pura, bebemos todo o proveito que ela traz para, hoje, sabermos por onde se pode renovar a escrita e torná-la sanguínea e essencial.

Ainda não tenho esse livro, e ele ainda não foi lançado. Assim que lançado, serei um dos primeiros a comprá-lo.