domingo, 30 de outubro de 2011

J. M. Coetzee

Chega o domingo de novo. Ele e Bev Shaw estão concentrados em sua sessão de Lösung. Um a um ele vai trazendo os gatos, depois os cachorros: os velhos, os cegos, os mancos, os aleijados, os mutilados, mas também os jovens, os sãos, todos os que chegaram ao fim de seu período. Um a um, Bev toca, conversa, consola e sacrifica. Depois se afasta e fica olhando enquanto ele encerra os restos numa mortalha de plástico preto.
Ele e Bev não falam. Ele já aprendeu, com ela, a concentrar toda atenção no animal que estão matando, dando-lhe o que não tem mais nenhuma dificuldade de chamar pelo nome correto: amor.
Amarra o último saco e leva até a porta. Vinte e três. Sobrou só um jovem cachorro, aquele que gosta de música, aquele que, com meia chance, já teria enveredado atrás dos companheiros para dentro do prédio da clínica, para dentro da sala de operações com sua mesa de tampo metálico, onde ainda paira a mistura de cheiros intensos, inclusive um que ainda não sentiu na sua vida: o cheiro da expiração, o cheiro macio e breve da alma libertada.
O que o cachorro não entenderá nunca (nem num mês inteiro de domingos!, ele pensa), o que seu focinho nunca lhe dirá, é que se pode entrar em uma sala absolutamente comum e nunca mais sair. Algo acontece naquela sala, algo não mencionável: ali a alma é arrancada do corpo; paira brevemente no ar, se torcendo e contorcendo; depois é sugada para longe e desaparece. Será incompreensível para ele, essa sala que não é uma sala, mas um buraco por onde se escorre para fora da existência.

Vai ficando cada vez mais fácil, Bev Shaw lhe disse uma vez. Mais difícil, mas mais fácil também. A gente se acostuma com as coisas ficando mais difíceis; a gente acaba não se assustando mais quando o que era o mais difícil do difícil fica ainda mais difícil. Ele pode salvar o jovem cachorro, se quiser, deixar para a semana seguinte. Mas chegará a hora, isso não pode ser evitado, em que terá de trazê-lo para Bev Shaw na sala de operações (talvez o traga nos braços, talvez faça isso por ele) e o acariciará, abrindo a pelagem negra para que a agulha penetre na veia, sussurrando para ele, dando-lhe apoio no momento em que, surpreendidas, suas pernas cederão; e então, quando sua alma sair, ele o dobrará e embalará em seu saco, e no dia seguinte o levará para as chamas e cuidará para que seja queimado, eliminado. Fará tudo isso por ele quando chegar ua hora. Será pouco, menos que pouco: nada.


Ele atravessa a sala. “Foi o último?”, Bev Shaw pergunta.
“Tem mais um”.
Abre a porta do compartimento. “Venha”, diz, curva-se, abre os braços. O cachorro arrasta a parte traseira alejada, fareja seu rosto, lambe sua face, seus lábios, sua orelha. Não o detém. “Venha”.
Levando-o no colo como um carneiro, entra na sala de operações. “Achei que ia deixar esse para a semana que vem”, diz Bev Shaw. “Vai desistir dele?”
“É. Vou desistir”.
                                                                                              (Desonra, J. M. Coetzee)                                                                                                
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Livro que Eu Esfregaria na Cara de Deus


Singer certa vez respondeu ainda acreditar na existência de Deus, mas que assim que tivesse a oportunidade, esfregaria muita coisa na cara do Onipotente. Eu, por outro lado, se tivesse que fazer Deus ler um único livro para entender o desamparo da condição humana, não optaria pela tapeçaria de concupiscência das sagas e contos do velho autor judeu, mas esse que é o mais mortal e angustiante dos livros, o mais abissalmente depressivo, recebido nas cordas de um violoncelo por Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Que pese a procura desesperada dos romances de Dostoiévski, a revolta sem saída de Tolstoi, a agudeza sem propósito das ranhuras da superfície da alma de Primo Levi, as incontáveis investidas contra as grades de Nietzsche, não há outra obra da literatura que traga tanta demasiada lucidez sobre as misérias totais da existência que esse romance irrepetível de Kundera. Não leio mais nada de Kundera e nunca lerei, tudo além desse romance que tenha saído pela pena do tcheco conspurca a mensagem arcangélica única desse último evangelho. Não há um outro escritor que não lhe inveje até as unhas dos pés diante tamanha proeza. Os encontros e desencontros de Tomas e Teresa, a dissipação da ilusão da juventude que advém desses percalços; a abominação fatídica da História, que nada mais é do que arranjos do parco entendimento ortodoxo para sistematizar a indiferença e a aleatoriedade da vida. Esfregaria na cara de Deus a injustiça extrema de ter-se invertido tudo o que faria um tantinho de sentido se tivesse sido colocado na ordem correta, a experiência antes do fim, o arrependimento antes do fenecimento das forças, a misericórdia antes do abate incontornável pelo mal. Há mais verdade humana e mais candura significativa no olhar da cadela Karenina, em seu fugaz instante de sofrimento antes da morte, do que em todos esses propósitos e projetos intuídos e atribuídos à Grande Mente.

Fimose


Lembro que eu tinha uns oito anos e minha mãe me levou até a repartição onde trabalhava, abaixou minha bermuda até os joelhos e perguntou diante um homem com o desamparado ar dos funcionários públicos: isso aqui é fimose? O homem retirou os óculos, examinou com uma certa fagulha não de todo desinteressada de atenção, apesar do tédio mortal, e, após sopesar os prós e os contras, respondeu taxativo: não, isso não é fimose. Não sei se anterior a isso ou anos depois_ mas que era ainda muito criança_ recordo que tive uma infecção na glande e tive que tomar muitos banhos de bacia com uma água azul turquesa. Depois de curado, criou-se a certeza finalmente abalizada de que qualquer pele que tivesse nascido colada a algum lugar nas minhas regiões baixas havia sido solta, o que encerrava para sempre o enigma da fimose para minha mãe. Mas a fimose continuava em mim ao menos ao nível mental, como um fantasma, como se houvesse acontecido comigo a lenda urbana clássica do afogamento do irmão gêmeo em que o irmão sobrevivente não sabe se é ele mesmo ou o outro que morreu. Eu não sabia se aqueles banhos depurativos haviam levado de vez a fimose ou se serviram apenas para o artifício pérfido de autorizar o silêncio em torno da pele sobressalente que, com isso, adquiria toda a autoridade para crescer em personalidade até tomar conta do meu corpo e ganhar vida própria. As conversas da adolescência serviram-me para dimensionar o desastre da coisa: aparentemente ninguém, nenhum rapaz da minha idade, sabia ao certo o que era fimose. Alguns diziam que era o equivalente ao hímen feminino, e que só se rompia na primeira relação sexual. Havia uma classe distintiva de entendidos que vaticinava que fimose era um afinamento peniano, e que os infelizes que a tinham seriam impotentes durante toda a vida. Outros, com a inocência quebrada dos que leram apressados livros proibidos dos pais, afirmavam que era uma anomalia que só ocorria em médio-orientais, que estava até na Bíblia onde Deus ordenava sua excisão já logo após o nascimento. Ou seja, era uma ignorância sofisticada a qual podia-se preencher com uma ilimitada gama de imaginação especulativa, que servia para poses de masculinidade incipiente e ostentação de experiências sexuais inventadas, mas que não escondia a universalidade do atraso no campo do esclarecimento quanto ao próprio corpo tanto para os que tinham pai quanto para os que não o tinham.

(O assunto "pênis" na minha adolescência era o maior dos tabus. É incrível pensar como isso deveria soar anacrônico hoje, com essa frenética repaginada 4.0 da liberdade sexual onde feministas se deliciam em falar deliberadamente as palavras proibidas, e a homossexualidade por um triz não se torna de vez a febre comportamental da hora. Uma olhada por alto nos diálogos aerados do clube feminista não destoa muito das conversas de banheiro de times de futebol de bairro: há tanto "pau", "buceta", "trepada", "chupar o cacete", "dar o cu",_ e uma nova modalidade afetiva que me faria brochar na hora se ouvisse uma adepta dizer, em meus áureos tempos de galo ciscante: buça !_ que dá a sensação de que assim que cada uma se vê a sós em suas casas, ou devem respirar aliviadas por ainda poderem mijar sentadas, ou então devem ter uma prisão de ventre tão devastadora por os orifícios naturais sofrerem o acondicionamento recalcado de não suportarem mais a simplicidade de suas puras funções orgânicas. Mas deixa eu voltar ao tema... na minha adolescência a salvaguardagem da própria masculinidade era um tarefa diuturna, um graal vigiado incansavelmente, um exercício templário tenso, um...bom, acho que já fui suficientemente enfático. Era uma ofensa mortal passarem a mão em sua bunda, o que só dirimia a necessidade assassina de vingar a afronta se você passasse de volta a mão na bunda do adversário. Nos pátios do colégio era comum ver perseguições selvagens entre dois meninos, a cara de insanidade fixa no que perseguia, e a cara meio de traquinagem meio de aturdimento do segundo, e o que estavam resolvendo não era um bullying de roubo de lanche ou de ter sido atirado na caçamba de lixo,  mas a equiparação da honra e a imposição do respeito superior de devolver aquela mácula inaudita de ter-se a bunda violada pela mão do inimigo. Era uma coisa estúpida, eu reconheço hoje. Acho que todos que conheci, que hoje beiram os quarenta, percebem, com o sorriso adstringido, que era uma estupidez sem tamanho, típica da adolescência. Já vi no comportamento juvenil de hoje que não se dá mais a excessiva importância que se dava à vigilância da bunda, como na minha época. Respiro aliviado, e invejo a leveza dos alunos de 17 anos que passam em bandos diante a minha casa, todos os dias, e dividem tapas nas bundas com uma virilidade tranquila, uma masculinidade segura. Mas devo confessar que não se precisa ter estudado em herméticos internatos ingleses para ter esse período da vida como um dos piores geradores de trauma para a vida toda. Por mais que meu humor tenha hiperatrofiado, e eu sinta os ombros livres de tanto peso inútil, ainda percebo o eco daquele tempo incrustado em mim. Já deixei minha esposa embasbacada diante minha reação espontânea a algum movimento desatento dela que circunavegue pela baixa Patagônia. E esses dias um colega de trabalho, ao passarmos em sentidos opostos por um corredor estreito, me pressionou contra a parede de uma forma muito mais literal do que minha desabnegação estava preparada para avaliar prosaicamente. Me vi soltando um enfurecido: "qualé meurmão, prestatenção chegado.", e quase não consegui controlar o adolescente em mim que queria porque queria fazer com que ele passasse de novo pelo corredor, invertendo-se os papéis. Pura estupidez!)

Duas situações tardias me fizeram ter conhecimento libertador do meu pênis. A primeira foi há 3 anos, quando cismei que estava crescendo um caroço em meu testículo esquerdo. Passava por lá os dedos e o caroço insistia em mostrar seu contorno anormal além da minha capacidade de auto-eufemização. Como perguntar para um amigo se a circunferência de seu saco tinha também alguma variação notificável? Depois de uns quatro meses que tomei coragem e fui consultar um andrologista. O médico era da minha idade, de boa aparência, ar ponderado e visivelmente profissional ao extremo, o que calava os resquícios de honra adolescente da minha parte. Ele pediu solicitamente, depois de ter me feito as perguntas de praxe, se podia apalpar meu testículo. Fiquei de pé, como me mandou, e ele ajoelhou à minha frente. Como percebeu meu julgamento equivocado de que me examinaria por sobre a calça, pediu que eu me desnudasse até as coxas. De luvas, segurou com delicada firmeza meu testículo esquerdo por um momento, e depois se levantou, agradecendo e dizendo que eu poderia subir as calças. Não é câncer, ele me disse de uma vez. O alívio fez com que eu relaxasse, o que deu prosseguimento a uma extensa conversa entre nós que me esclareceu sobre diversos tabus. Ele mesmo me confessou, não sei se por puro dever de camaradagem, que sua escolha de especialização muito tinha a ver pelo desconhecimento medieval que os homens sofriam quanto o próprio corpo. Falei sobre o mistério da fimose, e ele confirmou que era uma das dúvidas mais frequentes mesmo entre homens maduros como eu. Saí de lá com a sensação de ter sido exorcizado, apenas para sofrer uma vergonha lancinante dois dias depois em que tive que ficar pelado diante três enfermeiras para os exames de tomografia. O resultado dos exames acabou fazendo uma justiça poética à suposta fimose que levei a vida toda acreditando ter: não era uma pele sobressalente e renitente que eu tinha, mas um epididimo naturalmente maior que o outro, o que muito certamente havia nascido comigo assim e só agora eu havia dado por conta.

A segunda vez foi no exame pediátrico de rotina de meu filho. Também isso revela uma das coincidências rimadas da minha vida. O pediatra e eu nos reconhecemos aos gritos no supermercado principal da cidade. "Charlles, é você?". "Fernando, é você?" Abraçamo-nos diante a multidão na fila dos caixas, e ficamos uma meia-hora alheiada em pé, atrapalhando os passantes, relembrando os anos do colégio em que frequentamos juntos, e indagando o que a vida nos havia feito nesses dez anos em que desaparecemos um do outro. Ele trocava a vida em Brasília por uma rotina menos remunerada e mais tranquila ao ser aprovado no concurso municipal para médicos da cidade. Detalhe: havia sido candidato único. Levei meus filhos nele, o que me causou embaraço por notar que cem mães ficaram à espera em nossa longa consulta. Ele confirmou o que eu já sabia no íntimo: meu filho não tinha fimose; era um exemplar dessa geração sem bagagens desnecessárias, sossegada e livre, que os nossos anos de preocupações fantasiosas conseguiram engendrar e tínhamos a obrigação de manter saudavelmente distante de toda a nossa sofrida e ridícula inquietação.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Breviário Bloguístico


Convidaram-me a dar uma palestra em um colégio agrotécnico de uma cidadezinha próxima. Fiz um amigo entre um dos funcionários, um sujeito altíssimo e magro que chega a ser meio acorcundado. Tem um ar de menino prontificado e tímido, apesar de ter lá os seus 25 anos. Fez o curso de História e diz me conhecer de vista de lá, e eu não recordo tê-lo visto em momento algum. Eu havia feito um comentário sobre os mujiques e seus procedimentos de agricultura, lido em Anna Karenina. Na verdade não citei a fonte para uma platéia que pouco teria pra saber quem foi Tostói, mas esse novo amigo me procurou após o término da palestra e me disse ter lido o livro. Fiquei deslumbrado, ainda mais que ele revelara que havia lido os romances principais de Dostoiévski e muito mais. Ontem fui à casa dele, uma residência grande a arejada cuja presença dos pais aumenta mais a impressão de que vive no contínum permanente de sua saudável adolescência. Duas estantes forradas de livros muito bem cuidados, a maioria os volumes promocionais da Martin Clarte. As capas desses livros, como se sabe, são excessivas em cores, e há o arremedo despropositado de sempre aparecerem rostos e corpos de sílfides nas capas que nada tem a ver com Madame Bovary ou a pobre azarada da Lizavéta. Fui tomado por uma reminiscência dos meus anos de Ediouro, cada livro comprado eram semanas de felicidade terrena. Foi um prazer conversar com esse novo amigo, mas me ficou forte a consciência de uma pirâmide de rejeição. Quem lê Dostoiévski e Nietzsche nos originais me veriam como um iniciante, assim como o vi pelas traduções mais fiéis que tenho a oportunidade de ler. Quando íamos nos despedimos, entretanto, tive uma surpresa. Um volume de quase 600 páginas da íntegra de Flores da Relva, lançada pela Marin Claret. O livro soltava fagulhas nas minhas mãos. Tenho três traduções de Whitman, mas nenhuma completa, e eis que descubro ali que a Martin Claret foi a primeira e única editora brasileira que publicou a obra inteira. Na verdade pouco me interessa mesmo a fidelidade das traduções; sou pela teoria de Thomas Bernhard de que há traduções que são melhores que o original; não consigo achar o The Raven melhor que O Corvo que tenho de memória, numa das traduções menos afamadas ("era meia-noite, e eu refletia, a ler doutrina de antiquíssimos manuais"); e não há alegria mais genuína e completa que a que percebo nesse amigo diante sua tarefa de aquisição de esclarecimento, pois a tive em igual proporção dos meus tempos de pocket books de sebo.

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Daí que minha esposa, que vem de uma casta de mulheres centenárias que algumas ainda tem a desfaçatez de morrerem de antiquados acidentes domésticos, me solta a mais perversa das chantagens emocionais, dizendo que eu, entre nós dois, é que tenho uma saúde de ferro, sendo ela a que, em um ano, passou por três cirurgias. "Por isso te peço para parares de tomar vinho", diz, embora a segunda conjugação seja uma licença beletrista da minha parte, e continua, "queres que nossos dois filhos fiquem órfãos, futuramente?". Nada me comove mais e me faz pensar. Que belo elogio truncado, apelar para minha saúde de ferro. Apesar do evidente filisterismo da coisa, empreito-me a deixar o vício do vinho de uma vez por todas. Minha disputa dos últimos cinco anos não é outra que a acirrada batalha para não cair nos inúmeros correlatos sensuais que me levam ao vinho, e que, todo lugar a que se olha em minha vida, eles aparecem, luciferinamente com ar da mais beatífica ingenuidade. Caio com a mesma prontidão das mulheres de pouca vontade que, volta e meia, dividem a cama com os salafrários contra os quais juraram definitivamente nem dirigirem um olhar. Faço uma lista dos itens potencialmente perigosos e sigo a linha do bem com determinação: jamais ouvir Mingus à noite, e sozinho; dar um tempo nas leituras de Omar Khayyam; não assistir comédias românticas com casais quarentões de Nova York (sempre abrem uma garrafa de tinto); evitar firmemente saber qualquer coisa dos costumes franceses, espanhóis e portugueses atuais. Evito, então, os noticiários médicos sobre os benefícios do resveratrol, as conversas com amigos. Fujo, aliviado, para as páginas do magnífico Declínio e Queda do Império Romano, que tem sido um ótimo sucedâneo noturno, mas eis que a prova das intrusões metafísicas se me revela nessa frase que nada me faz duvidar que foi posta ali por um Gibbon diabólico e carregado das mais nefastas intenções: "Aqueles cinco maravilhosos anos em Lausanne eu os passei encharcado de vinho do Porto e preconceitos, entre os monges de Oxford." Haec omnia tibi dabo, si cadenz adoraveris me.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Joseph Conrad



"O homem passa a vida inteira tentando pronunciar suas últimas palavras"
(Frase de Otta Lara Resende, plagiada de Lord Jim, de Joseph Conrad)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Voltando a Ler Céline

Há dois dias estou me afundando na leitura de De Castelo em Castelo, de Louis-Ferdinand Céline. Fazia bem uns cinco anos desde a última incursão minha ao universo idiossincratissíssimo desse autor francês, quando li o ilimitado Viagem ao Fim da Noite. Em Castelo, o seu estilo cheio de reticências, cheio de exclamações, cheio de marginalidade coloquial, é levado ao extremo. Uma página lida em separado dá a impressão de algo retirado de uma caderneta de um chefe de gangue adolescente, ou dos desabafos de um verdureiro. Foi uma surpresa ver o quanto ele levou adiante a linguagem conceitualmente revolucionária de Viagem até esse nível avançado, e, nas primeiras páginas não escondi uma certa decepção. Viagem é um dos melhores livros que já li, um dos mais verdadeiros, enfurecidos, sublimes, arrebatadores. Só quem o leu sabe que não há um pingo de exagero nesses elogios. Não conheço ninguém que o tenha lido por inteiro que não compartilhe dessa veneração desavergonhada (há os que leram as primeiras cem páginas apenas e saem por aí maldizendo-o). Recordo que o capítulo em que o narrador alter-ego de Céline percebe, em sua viagem  ao exílio para uma província além-mar, que a tripulação do navio armou um esquema para matá-lo, são as páginas mais engraçadas que já li. Sofri convulsões de riso diante a paranóia auto-depreciativa e a consciência da desgraça que são duas das qualidades valiosas que Céline trouxe para as letras do século passado.

O humor de Céline é um dos componentes formadores do grande paradoxo circundando a imagem desse que é o mais maldito dos escritores, e serve para dividir os que leram Céline dos que apenas leram sobre Céline. Os que leram sobre Céline tem o suficiente para se saírem bem numa conversa de "alto nível", são os que vão cair nos caminhos já exaustivamente trilhados de que é o autor dos três panfletos pérfidos defendendo a execução sistemática de judeus, o Bagatelles pour un massacre (1937), o L'École de cadavres (1938), o Les Beaux Draps (1941); que terão de se sair no auge da diplomacia da visão artística distanciada em considerarem que apesar disso, foi um dos escritores realmente indispensáveis do século XX ao escrever o Viagem; que mesmo autores judeus não escondem a apreciação de suas obras; que foi dele que saiu a geração beat, os minúsculos repetidores do calibre de Henry Miller e Burroughs, etc, etc. Já os que leram Céline tem o privilégio de reforçar por este lado a certeza dos esquemas obtusos dos academicismos literários e os rasos padrões de esteriótipos construídos para isolar um criador dentro de seu nicho burocrático de compreensão. Começa-se por se perguntar como um romancista tão libertário (nas palavras de um de seus ardentes admiradores, Philip Roth) pode ser julgado apenas pela convenção preguiçosa de ser um monstro moral; como um narrador que tem o potêncial único de nos limpar a alma através do riso desmedido_ não o risinho enrustido, mas a gargalhada enfática do Viagem_ é visto pelos manuais institucionalizados das universidades como um escritor que deve ser lido com cautela, com as antenas arriadas típica do contato com tratadistas do massacre, e não como um humorista soberbo do nível de Rabelais e Sterne.

Nesse sentido eu faria côro a Roger Nimier quando escreveu o artigo Dêem a Céline o prêmio Nobel, em 1956, quando o nome de Céline já era sinônimo por toda a Europa de colaboracionista traidor e antissemita. Claro que não se pode ignorar o imenso estigma do apoio de Céline aos alemães, de sua acirrada proximidade ao marechal Pétain a ao governo de Vichy, de seu pedantismo fronteriço de se apegar ao nazismo de maneira mais torpe e sem nem a relativizante razão de retorno a um Estado moralizador forte de Knut Hamsun e Ezra Pound. Numa olhada rápida e descomprometida, Céline realmente foi um monstro. Mas essa é a palavra-chave: descomprometida. Quando se lê Céline, o leitor perde o conforto da imparcialidade, é obrigado brutalmente a ver o que está abaixo da planificação do jogo de ideias que prevaleceu no século passado por ocasião das guerras, do nazismo, da Shoá, da formação hipócrita do politicamente correto daqueles que foram aceitos como heróis ao escamotearem seus pecados com astúcia. Céline, o médico que, segundo suas nada eufemísticas descrições da própria miséria, não era respeitado pelos vizinhos não por ser acusado de oferecer aos alemães os pontos estratégicos de passagem pela linha Maginot, mas por não ter um carro, indo visitar sua parca clientela a pé, não ter um terno decente, levar seu próprio lixo para a calçada, não ter uma empregada, é o escritor desabnegado intrínseco, o verdadeiro homem das letras, o verdadeiro visitante das zonas de sombra, o que levou a escrita a níveis mais distantes de lucidez que foi preciso seu próprio sacrifício, o seu próprio massacre. É justo por ser o Céline público um monstro que o Céline criador é o mais valioso dos escritores, o mais soberbo.


Por isso a certa decepção que tive nas primeiras páginas de Castelo. Não há mais o humor anárquico e incapaz de constrangimento de Viagem, aquele riso inédito que não comporta nenhum pudor. Céline mesmo afirma isso no eterno lamento de sua miséria quando diz que o folclórico editor Gallimard (por ele chamado execravelmente de Achille) lhe cobrava mais romances engraçados, aos quais agora sua percepção do mundo não poderia dar. Castelo é uma obra anti-Tolstoi, no tocante a negar que a importância da poesia para a obtenção da verdade não existe. Para leitores não iniciados podem parecer tediosas as páginas iniciais em que Céline sublima o enredo para cair numa lamúria interminável, mas quando se entra nas cenas tocantes e terríveis do seu refúgio junto com a cúpula colaboracionista no castelo de Sigmaringen, mesmo a aparente gratuidade dessas páginas ganha um valor de contexto: o propósito exorcizante da poesia sui generis do autor em destruir todas as convenções da escrita e do pensamento corporificado, sua catarse em mostrar que a escrita foi a única coisa lhe destinada em vida, e daí o desbalde, a liberdade, o excesso. A poesia de Céline é indissociável à sua escrita, está em seu coloquialismo, em seus xingamentos, vai se tornando grandiosa em seu prosaísmo desconcertante, até o ponto em que ele desnuda a própria tradição literária como um estupidificante burguês, com uma eficiência talvez superior a Joyce. Céline mostra que não há nenhuma diferença moral entre ele e Sartre (um de seus mais ferozes condenadores_ citado no livro pela corruptela de Tartre), e tantos outros autores alavancados pelo mérito da aceitação pública e premiação acadêmica por meras manipulações geográficas e políticas (Céline escreve que se tivesse aceito o convite da União Soviética para morar na Rússia, à época do Viagem, estariam lhe dando o Nobel e estátuas no pátio das universidades em vez de querendo matá-lo).

A miséria, a negação como médico a aceitar o pagamento dos famélicos pacientes às consultas, a  desgraça completa que indicava prematuramente o esquecimento público, servem à sua escrita como a crença na transcendência da alma serve aos religiosos, através dessa libertação a qualquer impostura em que emparelha todos no mesmo nível de abjeção e ódio, de culpa e hipocrisia; as descrições da miséria absoluta tanto física quanto espiritual do após guerra e da perseguição dos escolhidos como culpados pela História (entre estes, ele), inauguram uma nova escola da expressão, a qual não se pode sinonimizar como dantesca, apesar de ter a força equivalente. O que Céline escreve é celiniano, ele tem a vantagem rara de ser um fundador. Dele veio tanto os animaizinhos magros como Henry Miller, esse poltrão cínico que deve tudo a seu mestre, os mornos do primeiro andar como Salinger, os influenciados renitentes como Sartre, e os realmente fabulosos como Thomas Bernhard. Céline explora o mal incorporado à visão dos derrotados e dos previamente condenados do século passado. Ele não pede desculpas por nada, não tenta se explicar por nada, explicar-se a um defensor do assassino Mao como Sartre?, do militante das fileiras da grande genocida igreja católica como Mauriac?, aos gordos de bundas flácidas e papadas que semeam um câncer no cu e angiomas fatais no peito, como ele descreve os banqueiros e magnatas diretamente responsáveis por milhões de vidas chacinadas e que são os senhores da guerra? Quando fala dos panfletos antissemitas, chega a rememorar uma antiga senhora judia rica que o humilhou sobejamente, a ele e a seu pai, quando era criança, o que me fez recordar as razões do mal implantados no peito de Thomas Sutpen. Faço minhas as palavras de Philip Roth: na França, meu Proust é Céline. 










sábado, 15 de outubro de 2011

Anotações para Um Romance (Panorama 17)


De dentro do ônibus amarelo que o pegava todas as manhãs a oito quadras de casa e o levava ao presídio estadual, Eme Skhola olhava a paisagem da cidade converter-se na desolação do deserto e pensava mais uma vez, sem muita convicção, em dar uma reviravolta em sua vida. Sair das fases cronológicas das doenças crônicas da negação, a esperança de mudança, o esquecimento, e, por final, a aceitação resignada. Quando entrara para o serviço de vigilância estadual de sentenciados judiciais, o álibi diante a violência auto-imposta era que breve se veria livre daquilo. Estava tão certo que se tratava de mais uma de suas fases passageiras, que instalava-se protegidamente afastado observando seu corpo movendo-se de um lado para outro, cumprindo a rotina de abrir e fechar cadeados, acompanhar os pobres diabos da cela à sala dos advogados, e ficar sentado numa cadeira cuja atração inexorável para deixá-lo parecido com as silhuetas dos guardas dos filmes de cinema carregando uma Winchester calibre 22 a inclinava de encontro ao pilar da guarita de observação, enquanto seus olhos por detrás de enormes óculos Ray-Ban, narcotizados pela modorra da tarde, diligentemente pousavam-se por sobre os detentos do pátio. Era uma dessas crenças não de todo desprovida de intuição metafísica, de que algo zelador para que sua biografia se ajeitasse à harmonia nostálgica da primeira parte de sua existência, intercederia em seu benefício_ uma confiança que se alguém lhe dissesse ser da mesma procedência das que determinam que um bêbado trançando as pernas pelo meio de uma rodovia cause um acidente em série com vítimas fatais e feridos graves, mas que a ele nada acontece, um mínimo arranhão sequer, ele acreditaria. E agora, depois de ter se resignado a deixar passar possíveis chances de desistência, não sabia mais em que fase estava. A desgraça da mente esclarecida_lhe dizia Trimon Lipisto, seu estepe de guru oriental _ era que se tornava impossível se confortar com a ideia de se esconder por detrás da inércia. Mais cedo ou mais tarde, os vetores da grande convolução do universo lhe caiam em cima, o levando de roldão sem considerações ou delicadezas. A inércia não existe, meu caro Skhola, lhe dizia Lipisto com uma concisão atormentada depois de tentativas de enrolar tudo numa sequência mal arranjada de parábolas onde o colibri acabava por não levar a fração significativa que acabaria com o incêndio na floresta, compensando por lhe revelar um tom estranho de azul que circundava em sua áurea, ou que sempre que Eme chegava ao galpão da estação de ferro abandonada que lhe servia de escritório havia uma insistência curiosa de se deparar com números múltiplos de 21. Eme se julgava escolado demais em premonições para não levar tão a sério o tom esfumarado de David Carradine na voz de Lipisto, mas seu débito por ter desconfiado que Eike e ele tivessem tido um caso, o levava a ao menos considerar uma honestidade maluca_ mas não menos honesta_ naquelas intenções. Partia da prerrogativa de que, se fora ingênuo o suficiente para acreditar, por um curto período sequer, que sua companheira de vários anos poderia se interessar por um letárgico magricela quase sem substância, poderia, então, numa estranha contrapartida lógica, também não estar dando o real valor devido ao que esse mesmo magricela lhe alertava. Ainda mais quando havia mesmo uma prefiguração diferente e não com genuínas boas intenções envolvendo sua esfera de percepções diárias, como as tendências do dial do rádio de seu carro_ quando atravessava os limites da cidade, exercitando brincadeiras de fuga_ que mantinha religiosamente afixado à estação do jazz mortal de San Juan, passava a tocar, depois de uma reavaliação rápida sob a qual era como se alguém indefinido estivesse coordenando acima da estática, o Princípe Kalender, de Scheherazade, de Romski-Korsakov, o violino cabriolando por sobre ondulações escorregantes de seda, arregimentando a força dos trinta instrumentos da orquestra na exibição do tema e era necessário apenas um microssegundo para sentir uma agulha descendente de gelo passar por suas costas, ao lembrar que era a peça preferida de Eike. Ou quando, nos domingos em que voltava da casa do velho galpão de Trímion Lipisto, rodando o volante numa subliminar distração em misturar a paisagem das ruas periféricas das quais todos fugiram para o abrigo televisivo, com seus pensamentos cada vez mais distantes, deparava-se parado com o carro diante uma praça deslocada do tempo e da geografia, cuja imobilidade do enrodilhado de arbustos e das sombras por sobre os bancos de madeira adensavam uma desolação em que parecia ecoar um clamor ancestral, como se entrasse sem querem em assuntos ferrenhamente velados à observação alheia, mas cujo simples contemplar o obrigasse, por conseguinte, a parar para tornar-se a par de tudo, uma maçonaria de antiquados gestores de poderes secretos. De dentro do carro, então, vinha-lhe  a certeza de que se averiguasse a tábua da velha gangorra do playground tomado pelo mato, veria seu nome inscrito em desajeitadas linhas riscadas a prego. Dava a ré e saía dali com o coração disparado, sabendo que não teria coragem de abrir a porta e sair, e que tanto melhor porque, por mais que quisesse achar novamente aquele lugar, jamais o encontraria, mesmo que peregrinasse por todas as ruas da cidade por todos os anos que lhe restassem.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Paranóia da Trivialidade

Comentáriozinho meu postado no blog do amigo Grijó (ipsis litteris opsblog),  para post que trata sobre a dita polêmica em torno do comercial da Gisele Bündchen e as calcinhas e sutiãs da Hope.

O comercial da Gisele Bündchen não tem nada de afrontoso para os padrões das propagandas nacionais. Por que não fizeram a mesma celeuma com os péssimos comerciais de cerveja, que mostram as mulheres em jargões mais aviltantes ainda? Mas acho válido sim que tenha havido, FINALMENTE, uma reação, independente se veio de uma coligação partidária, de grupos geralmente obtusos e desfocados de feministas, etc. A reação, se olharmos os maiores exemplos históricos, quase sempre vem dos locais errados, mas se espalha.

O problema é que não fica rastilhos de pólvora nas manifestações nacionais. Pronto: o MP deu causa ganha à Hope. E o que fazem os protestadores? Se calam? Pois deveriam recorrer a outras instâncias, ou publicar ainda mais sua indignação, fazer mais barulho e tal. Concordo sim que haja controle onde deva haver controle, e propaganda nunca foi sinônimo de manifestação artística ou intelectual. Propaganda é danosa, sempre má intencionada e nunca inocente, por isso deve sim haver censura sobre ela. Diferente de querer se meter numa produção cultural, o que sou contra. Olha o caso do cigarro, e o tanto que diminuiu o número de fumantes depois que proibiu ou controlou efetivamente os comerciais de cigarros. Não estamos mais numa era da infãncia capitalista onde tudo pode ser compreendido e perdoado, tudo pode ser revestido de um humor leviano. O mundo tá na quebradeira e tempos muito ruins vem pela frente, e não podemos mais fingir que interligar os fios para uma real visão do sistema é fruto de exageros ou paranóia. Sou sempre paranóico_ aprendi com Pynchon_ e isso sempre me salva, ou evita que eu caia para um estágio mais fundo do buraco.

Veja só uma pequena correlação com as suas observações deste post: desde quando Gisele é exemplo genético nacional? Uma mulher sem curvas, retilínia, a meu ver verdadeiramente feia. Ela não passa de uma eleita pelo mercado da moda, uma beneficada pela sorte da escolha. Isso é o que mais acontece no meio midiático, não há nenhuma surpresa: enfiam pela guela do vulgo um produto e o vulgo engole como caviar, alicerçado pelas infinitas armas da mídia em dizer, no caso da Gisele, a “espetacular” Gisele, a “glamorosa” Gisele, a “linda” Gisele…e pouco há para não se dar ouvidos para o fato simples de que a Gisele não passa daquela menina de colégio que teve sua vingança de gata borralheira porque ninguém nunca deu moral para ela. E a campanha da Hope a coloca como protótipo da mulher brasileira. Isso é mentira, Grijó. Na verdade, o escândalo maior e mais denegridor para nossa imagem é tão poucas vezes termos feito barulho por causa de umas trivialidades perigosas como essas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma Reversão da Panóptica



Claudio Magris escreve que em sua visita à cidade de Grein encontrou uma prisão construída ao lado de um velho teatro. Os detentos podiam "olhar o espetáculo através das grades, purificando aristotelicamente as suas almas de criminosas paixões". Pelo restante do dia essa imagem me toma por completo. Vejo os rostos  calados observando através das traves o pequeno lance de palco que a lua iluminando a histórica cidade favorece com intimistas tons de azul. Mistura de Edmond Dantés e as sombras confidentes de Rembrandt, da escuta da história da humanidade através das conversas com o abade Faria, e o velho filósofo sentado em paz resignada debaixo da escada de sua humilde casa. Os assassinos, ladrões, pervertidos sexuais, apaziguados por um momento na hora em que os atores lá embaixo vão transcender o papel em fingirem ignorá-los, mas que repetirão a apresentação àquele público impossibilitado de saír da própria clandestinidade. No silêncio da trégua aos jogos de azar e às lembranças de seus sentenciosos momentos de excesso de vida, verão a impetuosidade das tragédias pessoais revestida naquelas variadas versões da violência humana. Shakespeare, Beckett, Sófocles, Shaw, Pirandello... Uma panóptica ao avesso, já que quem vão assistir serão os presos. Imagino essa técnica de reeducação jurídica espalhada pelo mundo, ao lado de cada prisão um teatro, com janelas estrategicamente construídas para suportar ambas uma astuta espontaneidade de aprendizado lírico. Vem-me em mente as lembranças de Brodski recolhendo as cartas que os presos atiravam por sobre os muros para o pátio da fábrica em que trabalhava, e a sua comprometida entrega destas para as esposas e os jornais clandestinos; Elias Canetti morando por três anos próximo ao presídio de loucos, ouvindo-lhes os murmúrios, as risadas, os gritos, de tal forma que tece seu grande romance com o que aprendera da impropriedade de atribuir-se a falácia social e filosófica da razão; o conto de Tchécov em que a aposta prestes a ser concluída, em que o vitorioso conseguira se manter trancado por trinta anos num quarto, ocupado a ler todos os livros, é interrompida momentos antes por este ver que todo o conhecimento humano é leviano, descabível, supérfluo, mentiroso, o que o leva a abandonar o quarto e sumir no mundo. Não seria levar a arte a seu limite extremo? A saturação diante a exposição franca daquilo que não tem conserto, ao determinismo da queda? Isso avalizaria ainda mais o crime para essa audiência específica, que aprenderia também pela arte sobre a regência da violência desmedida, fazendo-os mais violentos? Ou a faria se converter na espiritualidade de presos políticos, para os quais o destino reserva encontros com poetas bem intencionados que sempre lhes farão chegar as mensagens aos receptores pretendidos?

Retalhos

Discussão no trabalho sobre a inevitabilidade da televisão e eu não sei por que cargas d`agua participo. Ainda mais que foi motivada por uma observação despretensiosa da minha parte, ao anunciar que meus filhos não assistem ao tubo. Como alguém que tivesse confessado inconscientemente um crime abominável, a série de acusações veladas de elitismo tolo e pai propenso ao fracasso se encerra com um chiste nos olhos no qual se revela um ódio concentrado à arrogância da diferença. Por pouco não caem numa dimensão paralela de insinuarem à administração pública o meu afastamento. Fico calado, não sem sentir o peso de um sorriso forçado nos lábios e um absurdo pesar por talvez eu ser mesmo alguém fora da realidade. Quando seus filhos entrarem para a escolinha, não haverá como você impedir isso. Então segue a pedra final do debate já ganho, em que meus colegas relembram entre si seus nostálgicos tempos de infância, seus Jaspions, o Clubinho do Mickey; depois, afirmam a tolice saudável de suas filhas cantarem as músicas de Justin Bieber, de uma delas ter optado por assistir ao show do Luan Santana a uma festa de aniversário, do filho saber de cór as canções dos palhaços Patati Patata, dirigindo os metros de normalidade exclusivamente a mim (mas sem me olharem, o repudiado fariseu por sua atitude de orar ostensivamente em público).

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Passo na feira diante uma amiga que estava na companhia da filha. Aproximo-me de propósito, desde que percebo que ela puxa a menina pelo braço se enfunando no meio da multidão, justamente para evitar cruzarem comigo. Hahhá!! Pulo na frente delas com a subitilidade de um apresentador de palco desses tristes programinhas televisivos locais, ou antigo palhaço gordo e pobre que afinal as tantas chuvas destruíram concomitantemente a lona do circo e sua já abolida alegria sincera, e, com a mão que está livre das sacolas de brócolis e queijo de minas, faço o que minha amiga mais temia e tentava evitar: estico os dedos até o nariz de sua filha e torço-o com uma força calculada, fazendo um som com a boca como o de um esmagar cômico de cartilagens de brinquedo. A menina sorri deliciosamente, segurando o nariz e dizendo um desesperado não! não! não!, assim como sempre fez desde quando tinha sete anos e seu corpo hoje com dez anos não simulava a aceitação de uma puberdade explicitada por sainhas curtas e os primeiros traços de maquiagem no rosto. Um dia antes minha amiga já havia me feito o alerta taxativo: sua filha já menstruava. Minha esposa me olha compadecida, como se eu fosse a única pessoa a quem era vedado a revelação do oráculo de que no futuro teriam de me amarrar a uma árvore e me darem sopinha na boca, e faz reparos aos meus argumentos de que aos dez anos ainda se é criança. A biologia dela diz o oposto, me diz. Mas devemos ser então reacionários à biologia! Ou a biologia pede que sejamos reacionários contra ela para que ela ache o caminho da própria recuperação. Minha esposa sabe que estou certo, mas se firma em seu papel de mediadora. No domingo recebemos visitas e ligamos a tv porque afinal ela parece inevitável, e minhas duas sobrinhas de dez anos riem como garotinhas com segredos ao verem dois dançarinos de tanga no programa de auditório às 4 da tarde. Então as puxo para o chão e faço-lhes cócegas nas barrigas, ou outra brincadeira sem graça e afrontosa, mas que, afortunadamente, elas cedem com sorrisos da mais absoluta pureza e esquecimento.

Estarrecido, escuto um lúcido amigo com longa prática de advogado criminalista sentenciar que ainda veremos o tempo em que um pedófilo será absolvido no tribunal e ressarcido pelo Estado de todos os danos materiais e morais sofridos, com a alegação taxativa de seu advogado de que se a menina já ovulava, quem seríamos nós para decretar que a natureza que a apresentava como sexualmente pronta estaria errada?

                                                                 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Expectativas? Que Expectativas?

Tomas Tranströmer, Nobel de Literatura de 2011
Eu estava torcendo para Philip Roth ou Cees Nooteboom. Mas Prêmio Nobel de Literatura parece que só existe para frustrar toda e qualquer expectativa. Já até ouço o sorrisinho dos acadêmicos de Estocolmo, diante mais um ano de total desbaratino e surpresa com o nome do laureado. Nunca ouvi falar no poeta sueco Tomas Tranströmer, o ganhador anunciado hoje. Vai ser fácil um monte de gente dizer que não passa de mais uma das singelas falcatruas da academia, mas vou esperar para ver.

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Aqui vão quatro poemas de Tomas Tranströmer na tradução de João Luís Barreto Guimarães:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente 
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza, 
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos 
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca 
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo. 
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite. 
Ali, onde o único sobrevivente pode estar 
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
***
A ÁRVORE E A NUVEM (1962) 

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva, 
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza. 
Leva um recado. Da chuva arranca vida 
como um melro ante um jardim de fruta. 

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras, 
à espera, como nós, do instante 
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962) 

Estou na montanha e vejo a enseada. 
Os barcos descansam sobre a superfície do verão
. «Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.» 
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida. 
Abrimos as portas lentamente. 
Assomamo-nos à liberdade.» 
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo. 
Todos, no mesmo rumo – uma só frota. 
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.» 
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel 
que tem o pára-brisas coberto de pólen. 
Coloco os óculos de sol. 
O canto dos pássaros escurece. 

Enquanto isso outro homem compra um diário 
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga 
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.


Não há vazios por aqui.


Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa 
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem 
chega a gralha
negra e branca.
Pássaro agoirento. 
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão, 
salvo a roupa branca na corda de estender: 
um coro da Palestina:


Não há vazios por aqui.


É fantástico sentir como cresce o meu poema 
enquanto me vou encolhendo 
Cresce, ocupa o meu lugar. 

Desloca-me. 
Expulsa-me do ninho. 
O poema está pronto.

Cerimônia Viking

Agora as fotos em todos os jornais e sites da internet estampam os rostos desconsolados e as atitudes ritualísticas religiosas dos fãs pelo mundo de Steve Jobs. Como todo amanhecer que advém da morte de um herói, o amanhecer que se abriu diante o mundo com a gritante ausência do criador da Apple também tem aquele matiz de cor de cinemascope que dá a impressão de que as mínimas labutas cotidianas foram suspensas, por um instante, para que os corações e as mentes se enchem de uma angústia deliciosamente nostálgica. O site do bol, ontem, um dia anterior ao da morte de Jobs, cobrava de mim que eu fosse o enérgico homem de libido inesgotável já às seis da manhã, quando, antes de ir ao trabalho, ao confirmar meus emails, as fotos da entrada mostravam as garotas de biquine dos times de futebol nacionais; hoje, nessa atmosfera sagrada de enterro viking, as fotos são de um garoto chorando diante uma coroa de flores, uma mulher acendendo velas, uma fila de adoradores olhando pro céu; o apelo, meu cérebro teve que entender de imediato, era completamente outro: exigem de mim um discreto grau de monasterismo, um quê de recato, nada de pegar pelas emoções mais baixas, hoje não, hoje vamos chorar O homem. Nada mais moralizante para as tendências intrínsecas ao individualismo latentemente pervertido do homem cibernético do que cortar-lhe o barato sexual autômato com a notícia que um grande homem morreu; ainda mais se o grande homem for, ele mesmo, um dos principais responsáveis por essa luxúria sexual, essa farra do isolamento condicional que numa catarse paradoxa nos oferece a impressão de conquistarmos a amostra grátis de todas as plenas sensações do convívio social. Pulo para meus blogs rotineiros de visita, e lá está: Jobs no silêncio reverente da Companhia das Letras; Jobs no site do NYT, nas notícias principais do Google. Logo Jobs vai me pegar de frente nos telejornais não só do restante do dia, mas da semana, do mês, da retrospectiva de final de ano.

Interessante o quanto a morte de Jobs é carregada artificiosamente de uma áurea de repentinidade dramática. Parece que a causa de seu desaparecimento vem das mesmas que abateu por sobre outros personagens ilustres dos últimos anos. O seu definhamento físico, que era algo consumado em suas tradicionais aparições públicas desde dois anos atrás, parece não ter sido apreendido pelo conhecimento dos milhões de usuários dos aparelhinhos de telas coloridas, que são os que, me parecem, mais o consideram um gênio e mais choram a sua partida. Bauman definiu os rebeldes urbanos dos protestos atuais na Inglaterra, como sendo "consumidores fracassados", atrás unicamente de seus direitos de cidadãos pós-ideológicos de consumação dos fetiches oferecidos pelo mercado; já os órfãos de Jobs parecem ser o oposto disso: os consumidores perfeitamente potencializados pelo absoluto sucesso de consumirem o que quiserem, daí a rede de superficialização em não terem tido a necessidade de fazerem o nexo cognitivo de que o criador do i-phone fosse alguém passível de mortalidade. Em O Labirinto da Solidão, Octávio Paz traça a diferença da visão frente a morte entre mexicanos e norte-americanos: esses últimos, ao contrário das festas naturalistas cínicas mexicanas da celebração da morte, vivem numa não aceitação frenética da finitude, conduzem seus planos de vida numa aleatoriedade quanto aos limites temporais e adotam dietas que não pressupõe o AVC na linha frequente de cafés-da-manhã com bacon e ovos fritos. Paz analisou isso na dura metade do século passado, onde os exílios virtuais eram inexistentes e a realidade só possuia como reparos anestésicos a tv e o rádio; os descendentes dessa geração que viu a cabeça de Kennedy se esfacelar pelas imagens do televisor de válvula, e o coma definitivo de Elvis pela imaginação propugnada nos noticiários, estão inalcançados pela ausência de filtro de que as telas mágicas e os bilhões de dólares, por mais que assinalem magnanimamente o contrário, não descartam que aconteça com seu beneficiado a mesma verdade última que acomete os que não são abençoados pela grande estrela. Daí que a morte de alguém como Jobs vem investida de uma pressuposição fortemente subliminada de que só foi possível que morresse através de uma tragédia, um tiro, uma overdose, um acidente automobilístico, algo tão alheio e determinante quanto a sua condição de natureza eterna. Não será para menos que nos obituários futuros, quem quiser saber a sua causa mortis terá que procurar muito nos bancos de dados, pois vai ser generalizada a verdade de que cumpriu sua estadia gloriosa sem que precise questionar escamoteados detalhes desconcertantemente terrenos_ assim como é oficialmente inconcebível supor que a beleza celestial de Ingrid Bergman foi abatida por um desfigurante câncer de útero. Se essa geração que compõe a quase maioria absoluta de indivíduos atuais, em termos de estatísticas de consumo (que é o que importa), fosse um tanto menos ególatra, um tanto mais liberada a alcançar um patamar de percepção do que poderia ser a vida além da técnica institucionalizada pela grande mídia, poderia até a passar a crer que os atributos das telas coloridas trarão Jobs de volta, numa reencarnação digna da mágica transcendental que ele criou.

Lembro de ter lido que quando Chaplin lançou Tempos Modernos, em meados da década de 1930, a magnífica sátira ao fordismo que retrata a escravização moderna do homem pela indústria de forma a transformá-lo num autômato compulsivamente repetitivo, o forte apelo denunciador do filme demorou para ser percebido pelas platéias. Mesmo sendo a mesma platéia composta de homens oriundos do meio industrial, funcionários ou ex-funcionários submetidos à distração do cinema para que tanto si próprios quanto o Estado fossem suavizados da dura (e reativa) percepção da realidade da crise _ nessa consonância dual que tem o bom cinema de ser ao mesmo tempo, veículo revolucionário de esclarecimento e arma pacificadora_, a única coisa que era explícita para ela era a comédia pura. Esses homens tinham a incapacidade cultivada de não se identificarem na tela; o miserável que era engolido pelas gigantescas roldanas da máquina era o palhaço eventual de um mundo que nada tinha a ver com o deles. Não é para menos que quando da morte de Ford, o cortejo fúnebre e as festas de veneração tenham tido o esplendor e a imperiosidade que a morte não conseguia tomar do Ford icônico posto como crendice sagrada ao cidadão acabrestado pela realidade criada pelos poderes dominantes.

Jobs representa a nova dinâmica industrial escravocrata do mundo contemporâneo, numa eficiência e absoluta persuasão de santidade hedonista que não é possível enxergar aos que estão nos escalões abaixo, na linha mediana da comunidade cibernética. O fordismo, ainda que impere sempreterno na base da produção, foi suplantado na auto-percepção e no imaginário do homem moderno pelo jobismo. O jobismo trouxe para finalizar o empreendimento hiper-astucioso do capitalismo global o que os projetos do socialismo pragmatizado não conseguiram descobrir em sua obtusidade rígida: o misticismo consolador da técnica aparentemente ilimitada. É como se ao fordismo, que comanda os braços e a libido sincronizada do proletário, afim de garantir o surgimento de novas frentes de trabalhadores, se juntasse a força de coalizão que faltava, que comanda o que antes se julgava inalcançável e insubmisso: o interior do coração humano. Jobs, assim como seus parceiros edênicos da Microsoft, do Facebook, do Google...são responsáveis pela pedra de consolidação que faltava ao capitalismo global: descobrir que no coração humano não existe nada; nenhum melindre ou força propulsiva vulcanizada que não possa ser persuadida por um celular de ponta, por conexões ultra-rápidas da internet, por comunicação bluetooth, por ter suas fotos familiares compartilhadas pelo mundo todo, para que vejam o quanto você é um consumidor bem sucedido. O grande mérito de Jobs foi ter descoberto que as mulheres semi-nuas que aparecem no portal da bol logo de manhã é tudo o que mora no fundo da filosofia do homem urbano.

Zizek escreveu que o conceito de proletariado composto por Marx está defasado. Proletários somos todos nós, que nos submetemos ao sistema, alimentando-o com nossas horas diárias, retroalimentando-o doando tudo que nosso tempo conseguiu num consumo irrefreável; que vivemos em bolsões de exilio para não incomodar a corrente eterna dos que fazem a máquina girar, em nossas favelas, condomínios, bairros auto-vigiados, apartamentos, vilas. O capitalismo, segundo Zizek, adotou plenamente todas as táticas comunistas, apagando de vez qualquer mérito que pudesse ter o inimigo (desacreditando-o por completo), de modos que entramos numa fase evolutiva de biopolítica, em que tornamo-nos números manipulados. Nossa força espiritual, que Kant, em sua suprema inocência, tentou organizar em seu Paz Perpétua, se tornou estatistica pura e simples. Temos música de graça. Toda a cultura produzida pelo homem ao alcance de um download. O que Lênin, Stalin e Mao nunca conseguiram; aliás, o que eles mais temiam: o esclarecimento e a liberdade de opinião como um princípio elementar dado_ outorgado_ a nós pelo capitalismo cibernético. Jobs nos deu o que Adorno e Horkheimer intuiram estar na fase mais elevada do esclarecimento: o enfrentamento com o nada da saturação pela exposição ao conhecimento. Apenas que Jobs foi além do limitado alcance da filosofia: mostrou que a nós, os homo sacer, nós, os pós-políticos, poderíamos nos deleitar com a pacificação hedonista do nada. Jobs é um dos heróis da farsa do conhecimento através de um click, da exaustão excessiva através da impressão da aquisição, de outro avatar do capitalismo, o da relativização legal de direitos autorais de criação e da consecutiva extinção das patentes intelectuais que antes garantiam a produção de cultura e de ideias, em todos os campos humanos. Jobs, declarado gênio, foi genial apenas na visão estrita de tomar para si uma miríade de ideias surgidas de cabeças já não possuidoras de personalidades nomeáveis. Com o grupo de "criadores" de Jobs inaugura-se o socialismo da não propriedade intelectual em que o livre domínio só por milagre não decretará o fim da criatividade da mente humana, às custas dos bilhões ganhos pela corporação dos Zuckerberg, dos Gates, e dos Jobs, que lucrarão através do roubo instituído que será formalmente apresentado através das telas dos ipads, dos tablets, dos iphones. Com Jobs surge a espécie dos homo otarius denominada por Zizék. E esses heróis serão, à via de uma maior catarse, apresentados na derradeira versão poético-trágica cinematográfica em suas vidas solitárias de grandes visionários excêntricos. Não à toa há milhões que choram hoje a sua morte.