quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Livro que Eu Esfregaria na Cara de Deus


Singer certa vez respondeu ainda acreditar na existência de Deus, mas que assim que tivesse a oportunidade, esfregaria muita coisa na cara do Onipotente. Eu, por outro lado, se tivesse que fazer Deus ler um único livro para entender o desamparo da condição humana, não optaria pela tapeçaria de concupiscência das sagas e contos do velho autor judeu, mas esse que é o mais mortal e angustiante dos livros, o mais abissalmente depressivo, recebido nas cordas de um violoncelo por Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Que pese a procura desesperada dos romances de Dostoiévski, a revolta sem saída de Tolstoi, a agudeza sem propósito das ranhuras da superfície da alma de Primo Levi, as incontáveis investidas contra as grades de Nietzsche, não há outra obra da literatura que traga tanta demasiada lucidez sobre as misérias totais da existência que esse romance irrepetível de Kundera. Não leio mais nada de Kundera e nunca lerei, tudo além desse romance que tenha saído pela pena do tcheco conspurca a mensagem arcangélica única desse último evangelho. Não há um outro escritor que não lhe inveje até as unhas dos pés diante tamanha proeza. Os encontros e desencontros de Tomas e Teresa, a dissipação da ilusão da juventude que advém desses percalços; a abominação fatídica da História, que nada mais é do que arranjos do parco entendimento ortodoxo para sistematizar a indiferença e a aleatoriedade da vida. Esfregaria na cara de Deus a injustiça extrema de ter-se invertido tudo o que faria um tantinho de sentido se tivesse sido colocado na ordem correta, a experiência antes do fim, o arrependimento antes do fenecimento das forças, a misericórdia antes do abate incontornável pelo mal. Há mais verdade humana e mais candura significativa no olhar da cadela Karenina, em seu fugaz instante de sofrimento antes da morte, do que em todos esses propósitos e projetos intuídos e atribuídos à Grande Mente.

18 comentários:

  1. Não leia outros dele. Tentei uns dois e não guardei nem o título. Serviram apenas para sujar a imagem.

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  2. Terminantemente não leio. E olha que só li o Leveza por acaso, e fui pego de cheio. Niet dizia só ler livros escritos com sangue. Penso o quanto Kundera se comprometeu para tirar isso de si, o quanto saiu esgotado...

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  3. Ramiro Conceição27 de outubro de 2011 16:31

    À cadela Karenina…


    OLHAR ATEU
    by Ramiro Conceição


    Dentre os passos meus, naquela manhã, vi deus
    no olhar ateu de um cachorrinho… que passava.
    Aquele deus não era tribal, nem um assassino - de gays;
    não tinha escravos, terras ou altares justificados por leis;
    abominava políticos, padres, freiras, pastores e dízimos;
    não era uma lua mística, mas um sublime sol – objetivo!;
    era um olhar enamorado que, agora, tento dar um nome,
    mas aquele deus não tinha nome; era qualquer homem
    ou mulher; era a luz de estrelas num vagar de um vaga-lume;
    era um perfume a dizer-me: NEM OURO QUE RELUZ É TUDO.


    PS: é impressionante, Charlles, as coisas começam a se encaixar como peças de um relógio… Eu sou apenas um relojoeiro… 99% do livro está escrito: estou no ajuste finíssimo…

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  4. Ramiro, não sabes o quanto torço para que conclua mais esse volume de seus poemas, para os ler na íntegra. Se vai assim com tanta facilidade, é porque a coisa sai como vemos aqui e nos seus outros blogs: a lirica e o sentimento à toda.

    Mais um belo poema!

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  5. Charlles,

    Eu amo este livro. E, sim, tem outro livro de Kundera que é maravilhoso, "A Brincadeira". Sabe, talvez nunca me entenderei como leitor. Pois são essas histórias as que mais me conduzem a uma necessidade de um "ente primordial". Não sei por que, mas há algo tão edificante no sofrimento. E isso não deixa de ser estranho. Porque todos os meus autores preferidos falam dele, do tempo, da morte. Quanto à cadelinha, você conhece Baleia de "Vidas Secas"? Biela, de Autran Dourado? O cãozinho de Quincas Borba? Marisca, de Marta ("Seara Vermelha")? O burrinho pedrês, de Rosa? Aliás, Rosa tem um conto, de um garotinho que morre de tétano, que nos causa uma revolta incrível... No entanto, eu sempre pensei: valeria a pena viver, se tivéssemos nascidos apenas para a felicidade? Lembrei-me de Mário Quintana...

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  6. Não li este livro e, plegiando-o, certamente nunca o lerei, por maiores que possam ser suas qualidades. tenha uma má imagem do escritor que não consegue se desapegar das más experiências, e a impressão que este livro, se for bom, só pode ser uma recomposição alheia dos temas e textos anteriores dele, isto é, trabalho de ghost-writers para produzir um sofisticada peça de propaganda anticomunista, o que, é claro, é uma paranóia stalinista, e deve combinar com o romance dele que, mesmo assim, repito, não deve ser obra inteiramente própria, pois creio que ele era moralmente ambíguo o bastante para viver a fama literária sobre obras alheias.

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  7. Rachel,
    Fala mais um pouquinho sobre essa suspeita que paira sobre a moral do Kundera. Fiquei curioso.

    Charlles,
    Confesso com muito pesar não ter lido ainda o Insustentável Leveza do Ser. Mas li "A Brincadeira" e "Amores Risíveis" e achei-os fora de série. Depois volto e escrevo alguma coisa mais susbstancial sobre o Amores Risíveis.

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  8. Rachel, de novo o nosso impasse de não colocar à frente da qualidade literária o posicionamento político do autor. O Leveza é literalmente marvilhoso. Desafio você a ler e voltar aqui para dizer que não gostou.

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  9. Luiz, já surgiu um debate assim, meio que passageiro, no blog do Milton Ribeiro. Citei por lá a minha surpresa diante a excelência desse romance, já que considerava o Kundera uma espécie de Jorge Amado tcheco. (Na época eu tinha pouca conta de Amado, o que veio a ser corrigido depois que li o Gabriela, Cravo e Canela.) Inclusive um outro leitor do Milton disse ter o mesmo preconceito, e que iria consertá-lo.

    O Insustentável Leveza do Ser é uma obra superior, e para mim pouco importa a relevância pessoal de Kundera nessa história.

    (Há um livro de todo inusitado de Pietro Ubaldi em que ele mesmo reconhece a sua pouca participação de algo que foi profundamente intuído, seja por quais forças aceitas ou não de cognição. Trata-se de "A Grande Síntese", que realmente é, no mínimo, bastante curioso. Só para se ter uma ideia, a força de "intuição" de Ubaldi antecipa em anos a descoberta de um elemento da tabela periódica, que é citado na obra. Dizem que o próprio Einstein se assombrou com a obra.)

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  10. foi o primeiro livro q amei (se não for contar agatha christie). sem dúvida aquela história de colocar deus e merda na mesma frase, mas não só as elucubrações "metafísicas", mas principalmente as tão físicas qto as políticas, e, mais ainda, por uma síntese cheia de contradições disso tudo... tenho dois exemplares com essa capa lá em casa. um deles, comprado no sebo, sem algumas páginas, alguém deve ter necessitado dela num desses banheiros de rodoviária. só pra fazer sentido, só pra ficar mais LEVE.

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  11. Estava aqui lembrando do livro... Que linda defesa que ele faz do vegetarianismo quando fala de Teresa, não?

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  12. Oi Charles, sou o "outro leitor" do blog do Milton que citaste. Tenho que admitir que ainda não "consertei" esse preconceito, mas aquela discussão fez-me adquirir o livro, que está lindamente postado numa enorme pilha na minha escrivaninha, aguardando o momento da sua leitura - programada para o fim do ano, aliás. Agradeço também a indicação feita "en passant" do Danúbio, do Magris. Comecei a lê-lo e pareceu-me estupendo.

    Nunca havia comentado, mas sou um leitor contumaz do teu blog. Espero comentar com mais frequência. Abraços.

    Fernando

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  13. Seja bem vindo, Fernando. As portas estão abertas.

    Tentei escrever umas três vezes uma resenha para Danúbio, mas a coisa não anda. Mas assim que me sentir na conexão certa, o texto sai. É uma obra maravilhosa _ sei que pareço ter o entusiasmo da Hebe Camargo quanto a livros que amo, mas é algo sincero_, e a impressão do livro de Magris sobre mim permanecerá por uns bons anos (até a inevitável releitura).

    Os livros na estante aguardam o tempo certo; um fato curioso: por mais que anseie ler o Moby Dick que adquiri a seis meses, eu ainda aguardo a sua aceitação.

    Abraço.

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  14. Com certeza, Fernanda! Só vi algo nesses termos em um outro romance de Coetzee (Elizabeth Costello).

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  15. Assim não dá, Charlles - quando a gente vê algum post aqui, tem que ler e comentar correndo antes que você apague. Que droga.

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  16. "O Livro que Eu Esfregaria na Cara de Deus", você me faria ler até crepúsculo com essa frase, cara.

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